O Mulato/XIII

O Mulato por Aluísio Azevedo
Capítulo XIII


A volta pareceu-lhe muito mais longa do que a ida ao Rosário; quase que não falou por toda a viagem, estalava de impaciência por estar só, inteiramente só, para pensar à vontade, conversar consigo mesmo e convencer-se de que era um espírito superior àquelas pequenas misérias sociais.

Logo que chegou a casa, foi direto ao seu quarto, fechou-se por dentro, com um ruído áspero de fechadura que funciona poucas vezes. Fazia-se noite. Ele parou junto à mesa, no escuro, acendeu um fósforo, apagou-se; segundo, terceiro, o quarto ardeu bem, porém Raimundo ficou a olhar abstrato para a flama azul, torcendo entre os dedos, automaticamente, o pedacinho de madeira, que se queimou até chamuscar-lhe as unhas; e ficou às escuras, por longo tempo, cismando, perdido na sua preocupação que, de raciocínio em raciocínio, chegara ao âmago do fato "Devia ceder ou lutar?..." Mas o seu espírito nada resolvia; acuava como um cavalo defronte de um abismo. Ele metia as esporas; era tudo inútil!

— Diabo! exclamou, voltando a si.

E acendeu a vela. Assentou-se à escrivaninha, sem tirar sequer o chapéu, e pôs-se a pensar, sacudindo nervosamente a perna. Tomou distraído a pena, embebeu-a repetidas vezes no tinteiro, e rabiscou as margens dos jornais que lhe estavam mais próximos. Desenhou, com uma pachorra inconsciente, um sino Salomão, e, como se estivesse prestando sumo cuidado ao seu desenho, emendou-o, corrigiu-o, fez um novo igual ao primeiro, outro, mais outro, encheu com eles toda uma margem de jornal.

— Diabo! exclamou novamente, no desespero de quem não encontra a solução de um problema.

E pôs-se a fitar, com a máxima atenção a chama da vela. Depois, tomou um invólucro de cigarros, abandonado sobre a mesa, e começou a quebrar com ele as estalactites da estearina, até que o papel, por muito embebido no combustível, inflamou-se e foi lançado ao chão.

— Diabo!

E repetia insensivelmente as palavras de Manuel: "Recusei-lhe a mão de minha filha, porque o senhor é filho de uma escrava! — O senhor é um homem de cor! — O senhor foi forro à pia, e aqui ninguém o ignora! — O senhor não imagina o que é por cá a prevenção contra os mulatos!..."

— Mulato! E eu que nunca pensara em semelhante coisa!... Podia lembrar-me de tudo, menos disto!...

E acusava-se de frouxo; de não ter dado boas respostas na ocasião; não ter reagido com espírito forte, e provado que Manuel estava em erro e que ele, Raimundo, não ligava a mínima importância a semelhante — futilidade! Assistiam-lhe agora respostas magníficas, verdadeiros raios de lógica, com que fulminaria o adversário. E, argumentando com as réplicas que lhe faltaram então, reformava mentalmente todo o caso, dando a si próprio um novo papel, tão brilhante e enérgico quão fraco e passivo fora o primeiro.

Afastou a cadeira da secretária, debruçou-se sobre esta e escondeu o rosto nos braços dobrados. Assim levou quase uma hora; quando levantou de novo a cabeça, reparou, pela primeira vez, numa litografia de São José, que sempre estivera ali na parede do seu quarto. Raimundo examinou minuciosamente o santo com o seu colorido vivo, o menino Jesus no braço esquerdo e uma palma na mão direita. Surpreendeu-se de vê-la naquele lugar: em dias de despreocupação nunca dera por ela. E daí, recordou-se de ter visto na Alemanha trabalhar um prelo litográfico dos mais aperfeiçoados; depois pensou nos processos do desenho, nos diversos estilos de artistas seus conhecidos e, afinal, em São José e na religião cristã. E mais: acudiam-lhe agora coisas inteiramente indiferentes: lembrava-se de um homem, vermelho e suado, que ele vira uma semana antes, a conversar sobre Napoleão Bonaparte com um lojista da Rua de Nazaré. Diziam muita asnice; e a imagem do lojista saltava-lhe perfeita à memória — magricela, com uns bigodes compridos, afetando delicadezas de alfaiate de Lisboa. Ouvira-lhe o nome, mas estava na dúvida. "Moreira? Não, não era Moreira!" E procurava mentalmente o nome, com insistência. "Pereira? Não! Nogueira... Era Nogueira." Este nome trouxe-lhe logo à lembrança uma ocasião em que conversava com Nogueira Penteeiro, e passar na rua uma mulher doida, que levantava as saias para mostrar o corpo. De repente, Raimundo estremeceu, era a idéia que voltava, a idéia primitiva, a idéia capital. Reaparecia; tinha feito uma retirada falsa; ficara à porta do cérebro, espiando para dentro. E ele soltou um suspiro com a presença importuna e vexatória dessa idéia que esperava, pelo seu pensamento, como um polícia espera um criminoso, para o levar preso. E o pensamento de Raimundo remancheava; não queria ir mas a idéia implacável reclamava-o. E o prisioneiro entregou afinal os pulsos.

Ergueu-se da cadeira; bateu vigorosamente uma punhada na mesa, protestando como se alguém lhe falasse:

— Ora sebo! Que diabo tenho eu com isto? O que vim fazer a esta província estúpida, foi tratar dos meus negócios pecuniários! Liquidados — nada mais tenho que fazer aqui! Musco-me! Ponho-me ao fresco! Passem muito bem!

E começou a passear pelo quarto, agitado, a fingir-se muito egoísta com as mãos nas algibeiras das calças monologando:

— Sim! sim! longe daqui não sou forro à pia! o filho da escrava, sou o Doutor Raimundo Jose da Silva, estimado, querido e respeitado! Vou! Por que não?! O que mo impediria?

E parou, tomou a andar, afinal assentou-se na cama, disposto a recolher-se. Despiu o paletó, arremessou o chapéu e o colete.

— Sim! O que mo impediria?...

Ia descalçar a primeira botina, quando espantou-se com a lembrança de Ana Rosa. Uma voz exigente bradava-lhe do coração: "E eu? e eu? e eu?... Esqueceste de mim, ingrato? Pois bem, não quero que vós, ouviste? Não irás! sou eu quem to impedirá!"

E Raimundo, pasmo por não ter, durante tanto tempo, pensado em Ana Rosa, despiu-se com pressa e, como querendo fugir a esta nova idéia, atirou-se de bruços à cama, soluçando.

Às seis horas da manhã ainda havia luz no quarto dele.

No dia seguinte, às duas da tarde, desceu, muito abatido, ao escritório de Manuel e pediu-lhe secamente que apressasse os seus negócios e o despachasse quanto antes, porque não podia demorar-se mais tempo no Maranhão. Precisava partir o mais cedo possível.

— Mas venha cá, doutor, o senhor não me deve guardar ódio por ter eu...

— Ah, certamente, certamente! Nem pensemos nisso! interrompeu Raimundo, procurando desviar a conversa. O senhor tem toda a razão... Vamos ao que importa! Diga-me quando poderei estar desembaraçado?

— Mas não ficou maçado comigo!... Não é verdade? Creia que...

— Ó senhor! Como quer que lhe diga que não? Maçado! Ora essa! por quê? Já nem pensava em tal! Vinha até pedir-lhe um serviço...

— Se estiver em minhas mãos...

— É simples.

E, depois de uma pausa, Raimundo continuou, com a voz um pouco alterada, a despeito do esforço que fazia por afetar tranquilidade: — Como lhe disse ontem... estava autorizado pela senhora sua filha a pedi-la em casamento; em vista, porem, do que me expôs o senhor a meu respeito, cumpre-me dar à Srª Ana Rosa qualquer explicação. Compreende que não posso retirar-me desta província, assim, sem mais nem menos, estando já empenhado em um compromisso tão melindroso...

— Ah, sim... mas não lhe dê isso cuidado... Arranjarei qualquer desculpa..

— Uma desculpa, justamente! É preciso dar-lhe uma desculpa; e o melhor seria declarar-lhe a verdade. Explique-lhe tudo. Conte-lhe o que se passou entre nós. Ninguém, para isso, está mais no caso que o senhor!...

Manuel coçava a nuca com uma das mãos, enquanto com a outra batia o cabo da caneta entre os dentes, na atitude contrariada de quem toma, à pura força de circunstâncias, interesse numa causa estranha; porém, como Raimundo falasse em mudar de casa, ele atalhou logo.

— Como o senhor quiser... mas a nossa choupana está sempre às suas ordens...

— Bem, concluiu o rapaz, agradecendo o oferecimento com um gesto; posso então contar que o meu amigo se encarrega de explicar tudo à senhora sua filha?

— Pode ficar descansado.

— E quando terei os meus negócios concluídos?

— Antes da chegada do vapor já o senhor estará inteiramente desembaraçado.

— Muito agradecido.

E Raimundo subiu para o seu quarto.

Fazia um grande calor. O céu, todo limpo, com as suas nuvens arredondadas, parecia um vasto tapete azul, onde dormiam enormes cães felpudos. Raimundo lembrou-se de sair; feitou-lhe o ânimo: afigurava-se-lhe que na rua todos os apontariam, dizendo: "Lá vai o filho da escrava!" ia abrir a janela e hesitou; sentia um grande tédio, um mal-estar crescente, desde a revelação de Manuel; uma surda indisposição contra tudo e contra todos; naquele momento, irritava-o, por exemplo, a voz aflautada de um quitandeiro, que argumentava, lá embaixo na rua, com um súcio. Abriu o álbum com a intenção de desenhar, mas repeliu-o logo; tomou um livro e leu distraidamente algumas linhas; levantou-se, acendeu um cigarro e passeou a largos passo pelos pelo quarto, com as mãos nas algibeiras.

Em um destes passeios, parou defronte do espelho e mirou-se com muita atenção, procurando descobrir no seu rosto descorado alguma coisa, algum sinal, que denunciasse a raça negra. Observou-se bem, afastando o cabelo das fontes; esticando a pele das faces, examinando as ventas e revistando os dentes; acabou por atirar com o espelho sobre a cômoda, possuído de um tédio imenso e sem fundo.

Sentia uma grande impaciência, porém vaga, sorrateira, sem objeto, um frouxo desejar que o tempo corresse bem depressa e que chegasse um dia, que de não sabia que dia era; sentia uma vontade indefinida de ir de novo à Vila do Rosário, procurar a pobre mãe, a pobre negra, e dedicada escrava de seu pai, e trazê-la em sua companhia, para dizer a todos: "Esta preta idiota, que aqui vêem ao meu braço é minha mãe, e ai daquele que lhe faltar ao respeito!" Depois fugir com ela da pátria, como quem foge de um covil de homens maus e meter-se em qualquer terra, onde ninguém conhecesse a sua história. Mas, de improviso, chegava-lhe Ana Rosa à lembrança, e o infeliz desabava num grande desânimo, vencido e humilhado.

E deixava cair a cabeça na palma das mãos, a soluçar.

Por este tempo, Manuel acabava de expor à filha a necessidade absoluta de não pensar em Raimundo.

— Enfim, dizia de, tu já não és uma criança, e bem podes julgar o que te fica bem e o que te fica mal!... Há por aí muito rapaz decente, de boa família... e nos casos de fazer-te feliz. Vamos! Não quero ver esse rostinho triste!... Deixa estar que mais tarde me agradecerás o bem que agora te faço!...

Ana Rosa, de cabeça baixa ouvia, aparentemente resignada, as palavras do pai. Confiava em extremo no seu amor e nos juramentos de Raimundo, para recear qualquer obstáculo. Só agora soubera ao certo da procedência de seu primo bastardo e no entanto, ou fosse porque lhe germinavam ainda no coração os supremos conselhos maternos, ou fosse que o seu amor era dos que a tudo resistem, o caso é que essa história que a tantos arrancara exclamações de desprezo; isso que forneceu assunto a gordas palestras nas portas dos boticários; isso que foi comentado em toda a província, entre risos de escárnio e cuspalhadas de nojo, desde a sala mais pretensiosa, até à quitanda mais pífia; isso que fechou muitas portas a Raimundo e cercou-o de inimigos; isso, essa grande história escandalosa e repugnante para os maranhenses, não alterou absolutamente nada, o sentimento que Ana Rosa lhe votava. As palavras de Manuel não lhe produziam o menor abalo; ela continuava a estremecer e desejar o mulato com a mesma fé e com o mesmo ardor; tinha lá para si que ele possuía bastante merecimento próprio, bastante atrativo, para ocupar de todo a atenção de quem o observasse, sem ser preciso remontar aos seus antepassados. Estabelecia comparações entre as regalias do amor de Raimundo e as vergonhas que dele pudesse resultar, e concluía que aquelas bem mereciam o sacrifício destas, Amava-o — eis tudo.

Manuel, depois dos seus conselhos, passou a fazer considerações desfavoráveis a respeito das qualidades morais do mulato, e com isso apenas conseguiu estimular o desejo da filha, juntando aos atrativos do belo rapaz mais um, tão poderoso o da proibição. Enquanto ele, entestando com a inadmissível hipótese de um casamento tão desastrado, desenrolava um quadro assustador, profetizando, com as negras cores da sua experiência e com febre do seu amor de pai um futuro de humilhações e arrependimentos chegando até a ameaçá-la de retirar-lhe a bênção; Ana Rosa, distraída, olhando para um só ponto respondia maquinalmente: "Sim... Não... Decerto!... Está visto!..." sem prestar a mínima atenção ao que ele discretamente falava porque o próprio objeto discutido lhe arredava dali o pensamento trazendo-lhe por associação de idéias, os seus devaneios favoritos nos quais se sonhava ao lado de Raimundo, em plena felicidade conjugal.

— Enfim, disse Manuel, procurando encenar o discurso e satisfeito pelo ar atento e resignado da filha; nada temos que recear... Ele muda-se por estes dias e parte definitivamente no primeiro vapor para o Sul!

Esta notícia, dada assim à queima-roupa e em tom firme, despertou-a com violência.

— Hein? como? parte? muda-se? por quê?...

E fitou o pai, sobressaltada.

— É, ele muda-se... Não quer esperar aqui o dia da viagem...

— Mas por quê, senhores?

O negociante viu-se num grande embaraço; não lhe convinha dizer abertamente a verdade; dizer que Raimundo se retirava, para fugir ao tormento de ver todos os dias Ana Rosa, sem esperança de possuí-la. E não atinando com uma resposta, com uma saída, o pobre homem balbuciava:

— É! o rapaz maçou-se com o que eu lhe disse, e como é senhor do seu nariz, muda-se! Ora essa! Pensas talvez que ele se sinta muito com isso?... Estás enganadinha, filha! Foi-me muito lampeiro ao escritório e pediu-me que o desculpasse contigo. "Que desses o dito por não não dito! Que ele precisava mudar de ares!... Que se aborrecia muito cá pela província! pela aldeola — como ele a chama!"

— Mas por que não veio ele mesmo entender-se comigo?...

— Ora, filha! bem se vê que não conheces o Raimundo.. Pois ele é lá homem para essas coisas?... Um tipo que não liga a menor importância às coisas mais respeitáveis! Um ateu que não acredita em nada! Até ficou mais satisfeito depois da minha recusa! Só parece que estava morrendo por um pretexto para desfazer o seu compromisso contigo!

— Percebo! exclamou Ana Rosa transformando-se e cobrindo o rosto com as mãos. É que não me ama! Nunca me amou, o miserável!

E abriu a chorar.

— Hein?! Olá! Então que quer isto dizer... Ora ora os meus pecados! Ai, que isto de mulheres não há quem as entenda!

Ana Rosa fugiu para o seu quarto, nervosa, soluçando, e atirou-se de bruços na rede.

O pai seguiu-a assustado:

— Então, minha filha, que é isto?...

— Diabo da peste!

E a infeliz soluçava.

— Então, que tolice a tua, Anica! Olha, minha filha! escuta!

— Não quero escutar nada! Diga-lhe que pode ir quando entender! Pode ir, que até é favor!

— Grande coisa perdes, na verdade! Ora vamos! Nada de asneiras!

Ana Rosa continuava a soluçar. cada vez mais aflita, com o rosto escondido nos braços; as mangas do seu vestido e os travesseiros da rede estavam já ensopados das lágrimas. Assim levou algum tempo, sem responder ao que lhe dizia o pai, de repente suspendeu de chorar, ergueu a cabeça e soltou um gemido rápido e agudo. Era o histérico.

— Diabo! resmungou Manuel, coçando a nuca atrapalhado. E chamou logo pelos de casa: D. Maria Bárbara! Brígida! Mônica!

O aposento encheu-se imediatamente.

O cônego Diogo, que ficara na saleta, à espera daquela conferência de Manuel com a filha, entrou também atraído pelos gritos da afilhada.

— Hoc opus hic labor est!

Nessa ocasião, Raimundo, no seu quarto, passava pelo sono, estendido sobre um divã. Sonhava que fugia com Ana Rosa e que, em caminho, eram, os dois, perseguidos por três quilombolas furiosos armados de facão. Um pesadelo. Raimundo queria correr e não podia: os pés enterravam-se-lhe no solo, como no tujuco, e Ana Rosa pesava como se fosse de chumbo. Os pretos aproximavam-se, dardejando os fenos, iam alcançá-los. O rapaz suava de medo; estava imóvel, sem ação, com a língua presa.

Os gritos reais da histérica coincidiam com os gritos que Ana Rosa, no sonho, soltava, ferida pelos mocambeiros. Com o esforço, Raimundo pulou do divã e olhou estremunhado em torno de si; depois, deitou a correr para a varanda.

O cônego, ouvindo-lhe os passos, veio sair-lhe ao encontro.

— Attendite!

— Ora, até que enfim nos encontramos! disse-lhe Raimundo.

— Pschio! fez o cônego. Ela está sossegando agora! Não vá lá, que lhe pode voltar o ataque!... O senhor é o causador de tudo isto!...

— Preciso dar-lhe duas palavras incontinenti, senhor cônego!

— Homem, deixe isso para outra ocasião... Não vê o alvoroço em que está a casa?...

— Se lhe digo que preciso falar-lhe incontinenti!... Ande! Vamos ao meu quarto!

— Que diabo tem o senhor que me dizer?!

— Quero tomar alguns esclarecimentos sobre São Brás, percebe?

— Horresco referens!...

E Raimundo, com um empurrão, meteu-se, mais o cônego, no quarto, e fechou-se por dentro.

— Vá dizer-me quem matou meu pai! exclamou, ferrando-lhe o olhar.

— Sei cá!

E o cônego empalideceu. Mas estava a prumo, defronte do outro.

Cruzou os braços.

— Que quer isto dizer?...

— Quer dizer que descobri afinal o assassino de meu pai e posso vingar-me no mesmo instante!

— Mas isto é uma violência! tartamudeou o padre, com a voz sufocada pela comoção.

E, fazendo um esforço sobre si, acrescentou mais seguro:

— Muito bem senhor doutor Raimundo! muito bem! Está procedendo admiravelmente! É então por esta forma que me pede notícias de seu pai? é este o modo pelo qual me agradece a amizade fiel, que dediquei noutro tempo ao pobre homem? Fui o seu único amigo, o seu amparo, a sua darradeira consolação! e é um filho dele que vem agora, depois de vinte anos, ameaçar um pobre velho, que foi sempre respeitado por todos! Parece que só esperavam que me embranquecessem de todo os cabelos, para insultarem esta batina, que foi sempre recebida de chapéu na mão! Ah, muito bem! muito bem! Era preciso viver setenta anos para ver isto! muito bem! Quer vingar-se? Pois vingue-se! Que lho impede?! Sou eu o criminoso? Pois venha o carrasco! Não me defenderei, mesmo porque já me faltam as forças para isso!... Então! que faz que não se mexe?!

Raimundo, com efeito, estava imóvel. "Ter-se-ia enganado?..." À vista do aspecto sereno do cônego chegara a duvidar das conclusões dos seus raciocínios. "Seria crível que aquele velho, tão brando, que só respirava religião e coisas santas, fosse o autor de um crime abominável?..." E, sem saber o que decidir, atirou-se a uma cadeira, fechando a cabeça nas mãos.

O padre compreendeu que ganhara terreno e prosseguiu, na sua voz untuosa e resignada:

— É, o senhor deve ter razão!... Fui eu naturalmente o assassino de seu pai!... É um rasgo generoso e justo de sua parte desmascarar-me e cobrir-me de ultrajes, aqui nesta casa, onde sempre me beijaram a mão. O senhor está no seu direito! Olhe! agarre aquela bengala e bata-me com ela! Está moço, pode fazê-lo! está no vigor dos seus vinte e cinco anos! Vamos! Fustigue este pobre velho indefeso! castigue este corpo decrépito, que já não presta para nada! Então! bata sem receio que ninguém o saberá! Pode ficar descansado que não gritarei — tenho defronte dos olhos a imagem resignada de Cristo, que sofreu muito mais!

E o cônego Diogo, com os braços e olhos erguidos para cima, caiu de joelhos e disse entre dentes, soluçando:

— Ó Deus misericordioso! Tu, que tanto padeceste por nós, lança um olhar de bondade sobre esta pobre criatura desvairada! compadece-te da pobre alma pecadora, levada só pela paixão mundana e cega! Não deixes que Satanás se apodere da mísera. Salva-a, Senhor! perdoa-lhe tudo, como perdoaste aos teus algozes! Graça para ela! eu te suplico, graça, meu divino Senhor e Pai!

E o cônego ficou em êxtase.

— Levante-se, observou-lhe Raimundo, aborrecido. Deixe-se disso! Se lhe fiz uma injustiça, desculpe. Pode ir descansado, que não o perseguirei. Vá!

Diogo ergueu-se, e pousou a mão no ombro do moço.

— Perdôo-te tudo, disse; compreendo perfeitamente o teu estado de excitação. Sei o que se passou! Mas consola-te, meu filho, que Deus é grande, e só no seu amor consiste a verdadeira paz e felicidade!

E saiu de cabeça baixa, o ar humilde e contrito; mas, ao descer a escada para a rua, resmungava:

— Deixa estar, que mas pagarás, meu cabrinha apistolado!...