O Mulato/XVI

O Mulato por Aluísio Azevedo
Capítulo XVI


A casa particular de Manuel Pescada tinha, pelo menos em aparência, recaido no seu primitivo estado de paz e esquecimento. Tanto ai como pela cidade, já bem pouco se falava de Raimundo.

Ele, ao sair do quarto da amante havia reformado seu programa de vida. No mesmo dia partiu para Rosário; foi visitar a mãe, na esperança de trazê-la em sua companhia para a capita e viver ao lado dela, mas Domingas não se deixou apanhar e o infeliz teve de voltar só.

Instalou-se no Caminho Grande, numa casinha velha, escondido como um criminoso de morte. Daí com muita dificuldade, escreveu uma carta a Ana Rosa, confiando-lhe os seus projetos; a carta terminava assim: "O melhor é deixarmos que tudo serene completamente e que de todo se esqueçam de nós, e então eu te aparecerei na noite que combinarmos e poremos em prática o plano exposto no começo desta. Quanto a teu pai, só me entenderei com ele, no dia em que esse teimoso estiver resolvido a perdoar o genro e a filha. Adeus. Não desanimes e tem plena confiança no teu noivo extremoso. — Raimundo."

Com essa missiva Ana Rosa tranqüilizou-se tanto, que procurou dissuadir o cônego da idéia da tal confissão. "No fim de contas, se era pecadora, fora-o premeditadamente e não se arrependia. A consciência dizia-lhe que o casamento resgatava a sua falta. Dindinho, por conseguinte, que tivesse paciência, ela não sentia necessidade de perdão!..." Raciocinando deste modo, falou com franqueza ao padre e retirou a promessa que lhe fizera; mas o reverendo repontou, ameaçando-a com uma denúncia a Manuel. A rapariga chegou a suspeitar que o padrinho sabia de tudo, e amedrontou-se.

— Mas, dindinho, vossemecê embirrou com este negócio da confissão!. ..

O cônego assentou os olhos no teto, à mingua de céu, e, recorrendo aos efeitos artísticos da sua profissão, desenrolou uma prática, que terminava no seguinte:

— Malos tueri haud tutum Não sabes porventura, pecadora, vítima inocente de tentações diabólicas! que eu devo à minha consciência e a Deus duplas contas do que faço cá na terra?... Não sabes, minha afilhada, que todo sacerdote caminha neste vale de lágrimas entre dois olhos perspicazes e penetrantes, dos juizes austeros e inflexíveis, um chamado—Deus, e outro—Consciência?... Um que olha de fora para dentro, e outro de dentro para fora?... E que o segundo é o reflexo do primeiro, e que, satisfeito o primeiro, o segundo está também satisfeito?... Não sabes que terei um dia de prestar contas dos meus atos mundanos, e que, percebendo agora que uma ovelha se desgarra do rebanho e arrisca perder-se do caminho da luz e da pureza, é de minha obrigação, como pastor, correr em socorro da desgraçada e guiá-la de novo ao aprisco, ainda que se faça preciso a violência?... Por conseguinte, filha de Eva, vem à igreja! vem! confessa-te ao sacerdote de Nosso Senhor Jesus Cristo! abre tua alma de par em par defronte dele que teu coração se fechará logo aos imundos apetites da carne! Abraça-te, como Madalena, aos pés do representante de Deus, até que este último se compadeça de ti, pecadora! Deum colenti stat sua merces!

E o cônego ficou ainda um instante a olhar para o teto com os braços erguidos e os olhos em branco.

— Pois bem Dindinho, pois bem! disse Ana Rosa, impressionada. E desarmou sem cerimônia a posição extática do padre. — Irei a tal confissão, mas deixe-se dessas coisas e não esteja a falar desse modo, que isso me faz mal aos nervos! Bem sabe que sou nervosa.

Ficou resolvido que a missa encomendada por Maria Bárbara seria no primeiro domingo do seguinte mês, e que Ana Rosa iria à confissão.

Mônica, sempre desvelada e extremosa por sua filha de leite, iniciara-se nos segredos desta e, como era lavadeira, todas as vezes que ia à fonte, dava um pulo à casa de Raimundo para trazer noticias dele a laiá.

Uma noite o cônego Diogo, envolvido na sua batina de andar em casa debruçado sobre uma velha mesa de pau-santo, com os pés cruzados sobre um surrado couro de onça, ainda do tempo do Rosário, a cabeça engolida num trabalhado gorro de seda, primorosamente bordado pela afilhada, lia, defronte do seu candeeiro, um grosso volume de encadernação antiga, em cujo frontipício estava escrito: "História Eclesiástica. Tomo undécimo. Continuação dos séculos cristãos ou História do Cristianismo nos seus estabelecimentos e progresso: Que compreende desde o ano de 1700 até o atual Pontificado de N.S.P. Pio VI. Traduzida do espanhol. Lisboa. Na Tipografia Rolandina, 1807. Com a licença da mesa do desembargo do Paço." O bom velho perdia-se numas descrições enfadonhas sobre a seita dos Pietistas, fundada nos fins do século XVIII por Spener, cura de Francfort, quando bateram à porta do seu gabinete três pancadinhas discretas e compassadas. Marcou logo o livro, com o palito com que escarafunchava os dentes, e foi abrir.

Era o Dias. Estava cada vez mais magro e mais bilioso, porém com a figura mascarada sempre por aquele inveterado sorriso de astuciosa passividade.

— Venho incomodá-lo, senhor cônego...

— Essa é boa!... Vá entrando.

E, como a visita não se animasse a falar, acrescentou depois de uma pausa:

— Mandou a carta que lhe dei?...

— Já ele a tem no papo. Atirei-a eu mesmo pelas rótulas da sua janela, na véspera do tal embarque!

— Já descobriu onde ele mora presentemente?

— Ainda não consegui, não senhor, mas quer me parecer que o patife se aninha lá pras bandas do Caminho Grande.

— Olho vivo. O traste pode surgir de repente e pregar-nos alguma partida! Olho vivo! Você tem feito o que lhe recomendei?

— A que respeito?

— A respeito da espionagem.

— Tenho, sim senhor.

— Então! o que já descobriu?

— Por hora nada que valha... E creia o senhor cônego que não me descuido. Além daquela busca que dei no dia de São João, não há instantinho, que possa roubar ao serviço, que não seja para dar fé do que se passa lá por casa. Mas, do que tenho apanhado, só o que me disse respeito ao negócio foi uma conversa entre a D. Anica e a velha...

— A Bárbara?

— Sim senhor.

— E então?

— É que a pequena, depois de pedir muito à avó que se compadecesse dela e obtivesse do pai liberdade para se casar com o cabra, abriu a chorar e a lamentar-se como uma varrida! E "que era muito desgraçada; que ninguém em casa a estimava; que todos só queriam contrariá-la... E porque faria isto, e porque faria aquilo!..."

— Mas o que dizia ela que faria?... Ora que diabo de maneira tem você de contar as coisas!...

— Tolices, senhor cônego, tolices de moça... Que se matava! Ou que fugia! que se meda a freira!... E porque o casamento pra cá! e porque o casamento pra lã! Enfim, queria dizer na sua, que uma mulher nunca devia casar obrigada! Afina!, atirou-se aos pés da avó, soluçando e dizendo que, se não a deixassem casar com o Raimundo, que ela não responderia por si!...

— Então, a velha já sabe que o Raimundo ficou?...

— Parece. A rapariga, pelo menos, disse que a avó, junto com o pai, haviam de amargar muito desgosto por mor de não consentirem no casamento!...

— E o que fez ela?

— Quem, a pequena?

— Não, a velha.

— A velha enfezou-se e pô-la do quarto pra fora, jurando que antes queria vê-la estrada debaixo da terra do que casada com um cabra, e que, se o patrão...

— Que patrão senhor?

— Seu Manuel, o pai!

— Ah! o compadre.

— Sim senhor Mas sim, se o patrão, por qualquer aquela, cedesse, ela é que não consentiria no casamento da neta, e romperia com o genro!

— Bom, bom! Vamos bem! E a rapariga?

— Ora, a rapariga lá se foi choramingando para o quarto e, se me não engano, meteu-se a rezar.

— Reza, hein?! perguntou o cônego com interesse.

— E! ela reza mais agora...

— Muito bem! muito bem! Vamos maravilhosamente!

— E está toda cheia de abusões... Ainda outro dia, dei fé que ela pendurava alguma coisa no poço; logo que pude, corri para ver se descobria o que vinha a ser. Ora o que pensa vossemecê que era?...

— Um Santo Antônio.

— Justo. Em um Santantoninho assinzinho!... confirmou o Dias, marcando uma polegada no Index.

— Bem! disse o cônego. Continue a espreitar. Mas... todo cuidado e pouco! Que ninguém perceba!... principalmente minha afilhada, compreende?... Se descobrem que você anda farejando, está tudo perdido!... Finja-se tolo!... Tenha fé em Deus! E animo! Quando apanhar qualquer novidade, apareça-me fogo! Não deixe de espiar! lembre-se de que a arma com que havemos de esmagar o bode, ainda está nas mãos dele!...

— Ora, senhor cônego, mas eu já vou perdendo a fé!... Confesso-lhe que...

— Não seja idiota, que você não tem razão nenhuma para desanimar! trate, mas é de ver se descobre alguma coisa, porem coisa grossa, que dê para agarrar, porque depois o mais fácil é o seu casamento! Olhe! Preste atenção para quem entra e para quem sai! Se eles ainda não se correspondem, o que duvido, virão a correspondem-se mais tarde! em todo o caso, é prudente não recorrer por ora as cartas — deixe-os escrever, deixe-os escrever, que lhe direi quando é que você terá de apoderar-se de alguma delas. A fruta, para ser aproveitável, deve ser colhida de vez!...

— Bem, senhor cônego posso retirar-me?...

— Viva!

— Então, vou-me chegando.

— Sis felix!

— Como? perguntou o Dias, voltando-se.

— Não se descuide. Vá!

O caixeiro fez uma mesura e saiu Diogo fechou a porta e tomou à sua História Eclesiástica, até que a caseira Inácia foi chamá-Io para a ceia. Então, depois de abaixar a luz do candeeiro, passou-se à varanda e assentou-se, pachorrentamente, defronte de uma tigela de canja. Veio logo um gato maltês, gordo, grande, encarapitar-se-lhe nas cosas, miando ternamente e voltando para ele a sua fosforescente pupila, que lhe suplicava carícias.

Dir-se-ia que naquele canto, modesto e asseado, reinava a paz abençoada dos justos.

No domingo seguinte a Sé chamava para a missa, com um alegre repinicar de sinos. Era a promessa de D. Maria Bárbara.

Havia grande afluência do povo. As beatas subiam piedosamente os arruinados degraus do átrio e iam, de cabeça vergada, ajoelhar-se no corpo principal da igreja. Sentia-se o frufru de vetustas e farfalhudas saias de chamalote, restauradas com chá-preto, o estalar de fortes chinelas novas na sonora cantaria do templo, e o tilintar das contas de coco babaçu, cujos rosários deslizavam entre os trêmulos dedos das velhas, no fervoroso sussurro das orações. Viam-se-lhes as camisas de cabeção bordado e cheias de rendas e labirintos; destacavam-se também grandes toalhas de linho branco, penduradas dos ombros carnudos das cafuzas e mulatas; reluziam os seus enormes pentes de tartaruga, enfeitados de ouro, e as contas preciosas, que lhes circulavam, com muitas voltas, as tocinhudas espáduas e as roscas taurinas do cachaço. Em cima, perto do altar-mor, em lugares privilegiados, sobressaiam chapéus enfeitados de fitas e plumas, leques irrequietos, que se agitavam desordenadamente, com um ruído casquilho de varetas batendo de encontro aos broches e alfinetes de peito, numa confusão de cores espantadas; eram devotas de fino trato, velhas e moças ostentavam jóias vistosas e perfumes ativos segurando, com luva Horas Marianas encadernadas de marfim, veludo, prata e madrepérola.

Recendia por toda a catedral um aroma agreste de pitangueira e trevo cheiroso. Pela porta da sacristia lobrigavam-se de relance padrecos apressados, que iam na carreira, vestindo as suas sobrepelizes dos dias de cerimônia. Havia na multidão um n mor impaciente de platéia de teatro. O sacristão, cuidando dos pertences da missa, andava de um para outro lado, ativo como um contra-regra, quando o pano de boca vai subir.

Afinal, à deixa fanhosa de um padre muito magro que, aos pés do altar desafinava uns salmos da ocasião, a orquestra tocou a sinfonia e começou o espetáculo. Correu logo o surdo rumor dos corpos que se ajoelhavam; todas as vistas convergiam para a porta da sacristia; fez-se um sussurro de curiosidade, em que se destacavam ligeiras tosses e espirros; e o cônego Diogo apareceu, como se entrasse em cena, radiante, altivo senhor do seu papel e acompanhado de um acólito que dava voltas frenéticas a um turibulo de metal branco.

E o velho artista, entre uma nuvem de incenso, que nem um deus de mágica, e coberto de galões e lantejoulas, como um rei de feira, lançou, do ato da sua solenidade, um olhar curioso e rápido sobre o público, inadiando-lhe na cara esse vitorioso sorriso dos grandes atores nunca traídos pelo sucesso.

Com efeito, os espectadores adoravam-no, posto que ele agora raras vezes trabalhasse; mas nessas poucas, em que se dignava mostrar-se por condescendência a uma velha amiga, como naquela ocasião, o seu triunfo era esplêndido e certo. Vinha gente de longe para vê-lo; para admirar a imponência, a gentileza daquele porte de homem. Incomodaram-se muitas pessoas para não perder aquela missa; sexagenárias do seu tempo mandaram espanar o palanquim, havia longos anos esquecido debaixo da escada, e espantaram a vizinhança com uma saída à nua; e ali, esses duros corpos encarquilhados, que envelheceram com Diogo, pareciam reviver por instantes, como cadáveres sujeitos a uma ação galvânica, e, trêmulos, mordiam o beiço roxo e franzido, palpitante de recordações.

Em caminho para o altar, o exímio artista olhou para os lados, falou em voz baixa aos seus ajudantes, e encarou a platéia com um sorriso de discreta soberania; mas de súbito o seu sorriso dilatou-se numa feição mais acentuada de orgulho: é que distinguira Ana Rosa, entre as devotas, ajoelhada num degrau da nave, de cabeça baixa, o ar contrito, a rezar freneticamente ao lado da avó.

Os turíbulos fumegaram com mais força; espirais de incenso espreguiçaram-se, dissolvendo-se no espaço; o ambiente saturou-se de perfumes sacros, e enervantes, e as mulheres, todas, se contraíram preparadas para místicos enlevos. O celebrante chegara enfim ao altar, depois de ajoelhar-se de leve, como fazendo uma mesura apressada, defronte dos santos grandes, aprumados nos seus tronos de brocados falsos. Os janotas, separados do altar-mor por uma grade de madeira preta, tiraram da algibeira, com a ponta dos dedos, o lenço almiscarado e ajoelhavam-se sobre ele, numa atitude elegante. As moças escondiam a boca no livrinho das rezas e passeavam furtivamente o olhar para o lado dos fraques pretos. Os que até ai estiveram ajoelhados, rezando à espera da missa, mudavam de posição; os opulentos quadris das pretas-minas rangiam; os ossos dos velhos estalavam; criancinhas soltavam aclamações de aplauso pela festa, algumas choravam. Mas, finalmente, tudo tomou um sossego artificial; fez-se silêncio, e a missa principiou solene, ao som do órgão.

Ao repicarem de novo os sinos, toda a gente se levantou com algazarra; os rapazes endireitavam as joelheiras das calças; as moças arranjavam os pufes e os laçarotes; as beatas sacudiam as suas eternas saias, agora entufadas pela pressão dos joelhos. A orquestra tocou uma música profana, alegre como uma farsa depois de um drama; e o cônego Diogo, na sacristia, tirava o seu pitoresco vestuário de seda bordada, que o sacristão recolhia religiosamente nas suas mãos de tísico, para guardar nos extensos gavetões de pau-negro.

O povo, confortado de religião, mas estalando pelo almoço espremia-se sôfrego pelas largas portas da matriz. Mendigos, alinhados à saída, pediam, com chorosa insistência, uma esmola pelo amor de Deus ou pelas divinas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo; as devotas desapareciam pelo largo, ligeiras como baratas perseguidas; algumas senhoras, no vestíbulo, arejavam-se ao sol, esperando quem lhes dizia respeito e conversando garrulamente sobre o bom desempenho da missa sobre a excelência das vozes, a riqueza da roupa do padre e da toalha do altar e sobre a boa observância das cerimônias. Tudo agradara.

A igreja estava quase vazia. D. Maria Barbara e a neta esperavam pelo herói da função.

— Cá está sua afilhada, senhor cônego! Comungue-a; veja se lhe arranca o diabo de dentro do corpo! disse a velha ao vê-lo.

E, falando-lhe mais baixo, pediu-lhe com interesse que a aconselhasse bem; que lhe sacasse da cabecinha a idéia do tal cabra. E afinal afastou-se, traçando no espaço uma cruz na direção da neta.

— Vai! Deus te ponha virtude, que mau coração não tens tu, minha estonteada!

E saiu, para esperá-la na sala do cortador Benedito, que nessa ocasião aparecia trazendo um carro da cocheira do Porto.

O cônego Diogo calculara bem A encenação da missa, os amolecedores perfumes da igreja, o estômago em jejum, o venerando mistério dos latins, o cerimonial religioso, o esplendor dos altares, as luzes sinistramente amarelas dos círios, os sons plangentes do órgão, impressionariam a delicada sensibilidade nervosa da afilhada e quebrantariam o seu animo altaneiro, predispondo-a para a confissão. A pobre moça considerou-se culpada; pela primeira vez, entendeu que era um crime o que havia praticado com Raimundo. sentiu minguar-lhe aquela energia de aço, que lhe inspirara o seu amor, e, ao terminar a missa, quando a avó a depusera nas mãos do velho lobo da religião, a sua vontade era chorar.

Ajoelhou-se, muito comovida, na cadeira, junto ao confessionário e gaguejou, quase sem fôlego, o confiteor. Mas, à proporção que rezava, os seus sentidos embaciavam-se por um acanhamento espesso

— Vamos... disse-lhe o padrinho quando ela terminou a oração. Não tenha receios, minha filha!. Confie em mim, que sou seu amigo... Plus videas tuis oculis quan alinis! Por que chora?. . Diga. .

Ana Rosa tremia.

— Vamos! Não chore e abra-me o coração... Vai responder-me, como se estivesse falando com o próprio Deus, que tudo escuta e perdoa. Faça o sinal da cruz

Ela obedeceu.

— Diga-me, minha afilhada, não se tem ultimamente descuidado da religião?...

— Não senhor, balbuciou Ana Rosa por detrás do lenço.

—Tem rezado todas as vezes que se deita e todas as vezes que se levanta?...

—Tenho, sim senhor...

— E nessas rezas não promete obedecer a seus pais?...

— Prometo, sim senhor...

— E tem cumprido?

— Tenho, sim senhor.

— E sente a sua consciência tranqüila? acha que tem cumprido, à risca, tudo o que prometeu a Deus. e tudo o que lhe manda a Santa Madre Igreja?...

Ana Rosa não respondeu.

— Então!. . Vamos... disse o padre com brandura. Não tenha medo!... Isto é apenas uma conversa que a senhora tem com a sua própria consciência, ou com Deus, que vem a dar na mesma... Conte-me tudo!... Abra-me seu coração!... Fale. minha afilhada!.. Aqui, eu represento mais do que seu pai; se fosse casada — mais do que seu marido! sou o juiz, compreende, represento Cristo! — represento o tribunal do céu! Vamos, pois, conte-me tudo com franqueza; conte-me tudo, e eu lhe conseguirei a absolvição!... eu pedirei ao Senhor Misericordioso o perdão dos seus pecados!...

— Mas o que lhe hei de eu contar?...

E soluçava.

— Diga-me: o que é que ultimamente a tem posto triste?... Sente-se possuída de alguma paixão, que a atormenta?... Diga.

— Sim, meu padrinho, respondeu ela, sem levantar os olhos.

— Por quem?

— Vossemecê já sabe por quem é...

— Pelo Raimundo...

A moça respondeu com um gesto afirmativo de cabeça

— E quais são as suas intenções a esse respeito?

— Casar com ele..

— E não se lembra com isso, ofende a Deus por vários vários Ofende, porque desobedece a seus pais; ofende porque agasalha no seio uma paixão reprovada por toda a sociedade e principalmente por sua família; e ofende, porque com semelhante união, condenará seus futuros filhos a um destino ignóbil e acabrunhado de misérias! Ana Rosa, esse Raimundo tem a alma tão negra como o sangue! além de mulato, é um homem mau sem religião, sem temor de Deus! É um — pedreiro livre! — é um ateu! Desgraçada daquela que se unir a semelhante monstro!... O inferno ai está, que o prova! o inferno ai está carregado dessas infelizes, que não tiveram, coitadas! um bom amigo que as aconselhasse, como te estou eu aconselhando neste momento!... Vê bem! repara, minha afilhada, tens o abismo a teus pés! mede, ao menos, o precipício que te ameaça!... A mim, como pastor e como padrinho, compete defender-te! Não cairás, porque eu não deixo!

E, como a rapariga mostrasse um cerro ar de dúvida, cônego abaixou a cabeça, e disse misteriosamente:

— Sei de coisas horrorosas, praticadas por aquele esconjurado!... Não é somente o fato de cor o que levanta a oposição do teu pai... (Ana Rosa fez um gesto de surpresa). Saberás, porventura, o que precedeu ao nascimento daquele homem; saberás como veio ele ao mundo?!.. (E, alterando a voz, para um tom sinistro): Horrible dictu!.. É filho de um enxame de crimes e vergonhas!... Aquilo é o próprio crime feito gente!... E um diabo! E o inferno em carne e osso! Não te diria isto, minha filha, se assim não fosse preciso; sabe, porém, que ele, se quer casar contigo, é porque tem a teu pai ódio de morte e pretende vingar-se do pobre homem na pessoa da filha!...

— Mas do que quer ele vingar-se de papai?...

— Do quê?... De muitas e muitas coisas, que lhe não perdoa!... São segredos de família, que ainda és muito criança para conhecer e Julgar!... Mas um dos motivos é, digo-te aqui no sagrado sigilo do confessionário, o fato de haver teu pai herdado consideravelmente do irmão!...

— Não é possível! exclamou Ana Rosa, tentando erguer-se.

— Menina! repreendeu o cônego, obrigando-a a ficar ajoelhada. Reze já! incontinenti, para que Deus se compadeça de tamanho desatino! De joelhos, pecadora! que és muito mais culpada do que eu supunha!

A moça caiu de joelhos, tonta sob o bombardear daquelas imprecações, e gaguejou: o confiteor, batendo muito no peito na ocasião de dizer o "Por mea culpa! mea máxima culpa! E depois calaram-se ambos, por um instante.

— Então?... disse afina o padre, tornando à primitiva brandura. Ainda está na mesma ou já entrou a razão nessa cabecinha?... Fale minha afilhada!

— Não posso mudar de resolução, meu padrinho...

— Ainda pensa em casar com. ?

— Não posso deixar de pensar... creia!

O padre velho levantou-se tragicamente, fechou as sobrancelhas e ergueu o braço como um profeta.

— Pois então, declamou, sabe, infeliz, que sobre ti pesara a maldição eterna! sabe que tenho plenos poderes de teu pai para retirar-te a sua bênção! sabe que...

Foi interrompido por um "Ai" de Ana Rosa que perdia os sentidos, caindo a seus pés.

Ora bolas! resmungou ele, entre dentes.

E saiu do confessionário, para assentar a afilhada num dos longos bancos de madeira preta, que havia ali junto.

Felizmente não era nada. A rapariga deu um profundo suspiro e encostou a cabeça ao colo do parinho, chorando em silêncio de olhos fechados.

Ele ficou algum tempo a contemplá-la naquela posição, que a fazia mais bonita, e, perdido em saudosas reminiscências da sua mocidade, admirava a curva macia dos seios, palpitantes, sob a compressão . da seda, a brancura mimosa das faces, a engraçada harmonia das feições. "Ó têmpora! Ó mores!..." disse consigo e depô-la, carinhosamente, contara o alto espaldar do banco.

— Vamos. continuou, quase em segredo, como um amante sequioso pelas pazes, depois de um arrufo. Vamos.. não seja teimosa...

Não se faça má... Ponha-se bem com Deus e comigo...

— Se para isso, balbuciou Ana Rosa, sem abrir os olhos, é preciso desistir do casamento, não posso...

— Mas por que não podes, minha tolinha?... insistiu o confessor, tomando-lhe as mãos com meiguice. — Hum?... por que não podes?...

— Porque estou grávida! respondeu ela, fazendo-se escarlate e cobrindo o rosto com as mãos.

— Horresco referens!

E o cônego deu um salto para trás, ficando de boca aberta por muito tempo, ã sacudir a cabeça.

— Sim senhora!... fê-la bonita!...

Ana Rosa chorava, escondendo a cara.

— Sim senhora!...

E o velho apalpava com o olhar o corpo inteiro da afilhada, como procurando descobrir nele a confirmação material do que ela dizia.

— Sim senhora!...

E tomou uma pitada.

— Bem vê... arriscou afinal a rapariga, entre lágrimas, que não tenho outro remédio senão...

— Está muito enganada! interrompeu o cônego energicamente. Está muito enganada! O que tem a fazer é casar com o Dias! E logo! antes que a sua culpa se manifeste!

Ela não deu palavra.

— Quanto a isso... acrescentou o lobo velho, apontando, desdenhoso, com o beiço, o ventre da afilhada, eu me encarregarei de lhe dar remédio para...

Ana Rosa ergueu-se com um só movimento e ferrou o olhar no cônego

— Matar meu filho?!... exclamou lívida.

E, como se temesse que o padre lho arrancasse ali mesmo das entranhas, precipitou-se correndo para fora da igreja

Saiu pelo lado que fronteia com o jardim público. Maria Bárbara só a pôde alcançar já dentro do cano.

— Com efeito! disse lhe agastada. Parece antes que vens do inferno do que da casa de Deus!

— É mesmo! — Que diabos de modos são esses, Anica? repreendeu a velha. Ora vejam se no meu tempo se dava disto! Por que estás com essa cara tão fechada, criatura?!

Ana Rosa, em vez de responder, virou o rosto. E não trocaram mais palavra até a casa, apesar do muito que serrazinou a avó por todo o caminho

E, no entanto, a pobre moça sentia se horrivelmente oprimida e precisava desabafar com alguém. Um desejo doido a devorava: era correr em busca de Raimundo, contar-lhe tudo e pedir-lhe conselhos e amparo, porque nele, e só nele, confiaria inteiramente. Queimava-lhe o corpo uma necessidade carnal de vê-lo, abraçá-lo, prendê-lo ela com todo o ardor dos seus beijos, e depois arrastá-lo para longe para um lugar oculto, bem oculto, um canto ignorado de todos, onde os dois se entregariam exclusivamente ao egoísmo feliz daquele amor.

Desde que se apercebera grávida, não podia suportar o seu acanhado quarto de menina; a sua rede de solteira causava-lhe íntimas revoltas. E agora, depois de disparatar com o padrinho sentia-se com forças para tudo; vibrava-lhe no sangue uma energia estranha e absoluta; pensava no filho com transporte e orgulho, como se ele fora uma concepção gloriosa da sua inteligência. E, na obsessão dessa idéia, alheava-se de tudo mais, sem pensar sequer na falsidade da situação em que se avinha.

Aguardava ansiosa os prazeres da maternidade, como se os conquistasse por meios lícitos, e tremia toda em sobressalto só com a lembrança de que poderia vir a faltar à criancinha o menor cuidado ou o mais dispensável conforto; vivia exclusivamente para ela; vivia para esse entezinho desconhecido que lhe habitava o corpo; o filho era o seu querido pensamento de todo o instante; passava os dias a conjeturar como seria ele, menino ou menina, grande ou pequeno, forte ou franzino; se puxaria ao pai. Tinha pressentimentos e tornava-se mais supersticiosa. Apesar, porém de todos os perigos e dificuldades sentia-se muito feliz com ser mãe e não trocada a sua posição pela mais digna e segura, se para isso fosse preciso sacrificar o filho. O filho! só este valia por tudo; só este lhe merecia verdadeira importância, o mais era mesquinho, incompleto, falso ou ridículo, ao lado daquela verdade que se realizava misteriosamente dentro dela, como por milagre aquela felicidade, que Ana Rosa sentia crescer de hora a hora de instante a instante no seu ventre, como um tesouro vivo que avulta; aquela outra existência, que esgalhava da sua existência e que era uma parcela palpitante do seu amado, do seu Raimundo, que ela trazia nas entranhas!

Ao chegar a casa, correu logo para o quarto, fechou-se por dentro, tomou pena e papel e escreveu, sem tomar fôlego uma enorme carta ao rapaz. "Vem, dizia-lhe vem quanto antes meu amigo, que preciso de ti, para não acreditar que somos dois monstros! Se soubesses como me fazes falta! como me dois ausente, terias pena de mim! Vem, vem buscar-me! se não vieres até o fim do mês, irei ter contigo, irei ao teu encontro, farei uma loucura!"

Mas Raimundo respondeu que ainda era cedo e pediu-lhe que esperasse com resignação o momento de por em prática o que eles já tinham antes combinado.

O rapaz vivia agora muito aborrecido e muito nervoso estava macambúzio; não queria ver ninguém. Às vezes assustava-se todo quando a criada lhe entrava inesperadamente no quarta. Deixou crescer a barba; já mal cuidava de si; lia pouco e ainda menos escrevia As suas relações, granjeadas por intermédio do tio, fecharam-se logo como golpes em manteiga. Não se despregava nunca de casa porque, sendo Ana Rosa o único motivo de sua demora no Maranhão, só ela o interessava e o atraia à nua.

Ana Rosa, porém, era guardada a vista, desde a malograda partida do primo. E, não obstante, as visitas de Manuel abstinham-se de falar em Raimundo; estabeleceu-se uma hipócrita indiferença em torno do fato; ninguém dava palavra a esse respeito, mas todos sentiam perfeitamente que o escândalo ainda, abafado mas palpitante, espreitando a primeira ocasião para rebentar de novo E a panelinha da casa do negociante, esperava, esperava, reunida à noite até as horas regimentais do chá com o pão torrado, conversando em mil assuntos, menos naquele que mais interessava a todos eles, posto que nenhum tivesse coragem de iniciá-lo.

Mas a primeira semana correu sem novidade, e a segunda, a terceira, a quarta; foram-se dois meses, e a panelinha afrouxou desanimada. Eufrásia, a pouco e pouco, ausentara-se de todo; Lindoca, chumbada à sua obesidade, prendera o Freitas ao seu lado; o Campos moscara-se afinal para a roga; o José Roberto afastara-se também, e vivia por ai, na pândega; só quem não desertou, e aparecia com a mesma regularidade, era D Amância Sousellas pronta sempre para tudo, sempre a dizer mal da vida alheia nunca deixando de clamar que os tempos estavam outros e que hoje em dia os cabras queriam meter o nariz em tudo.

— Também se lhe dão confiança!... disse ela, uma noite, envesgando uma olhadela indireta sobre Ana Rosa.

A filha de Manuel cruzou instintivamente os braços sobre o ventre.