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O gallego lorpa, e os tolineiros
por Manuel Rodrigues Maia
Publicado pela primeira vez em 1761. É atribuído ao dramaturgo português Manuel Rodrigues Maia.


NOVO ENTREMEZ

INTITULADO

O GALLEGO LORPA,

E OS TOLINEIROS.




ACTORES.
Lambuza Estalajadeiro. Gerigoto.
Julia sua Filha. Miliante.
Labrusca Criada. Gerifate.
Trifaldino Amante de Julia. Peralvilho.
Alonço Gallego.


SCENA I.
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Sala de Casa de Pasto. Sahe Lambuza, e depois Alonço.


Lamb. Estou taõ farto de aturar povo, que em se casando minha filha, enforco logo o officio: que nunca seja possivel passar-se hum dia, sem que me preguem algum gatazio? aquelle com o pretexto de achar muito salgado o jantar, abafa a colher, a faca, o garfo, e o guardanapo: este como que se condóe da minha larga consciencia, homizia quanto póde na algibeira, e vai á noite fazer o bico ao sacho á minha saude. Nada, naõ estou já para estes opios; tomára que viesse meu Compadre Timotheo, para dar-mos ordem a livrar-me de hum fardo, que por sujeito a avaria ninguem o quer carregar sem muito dinheiro. Bem sei que elle está velho, e cheio de achaques, mas que defeitos naõ disfarçaõ as riquezas? Sempre he hum homem cá do meu pano, e naõ como o perarvilho de Trifaldino, que naõ tem onde caia morto: rompeo no excesso de me pedir a minha Julia para casar. Nada, meu Amigo, nada, eu naõ ganhei dinheiro para homem de calções até á boca.

Sahe Alonço.


Alonç. Ora guardelas Diós a boxas mixeas: boxa merxe indas que mal percude, hei o Xenhor Lambuza d’Arriosca?

Lamb. Sim, que me queres?

Alonç. Eu biengo a cá por mandamiento de xeu Compadre Timotheo.

Lamb. Ah, bem sei, queres-te accommodar.

Alonç. Apois taõ dexinquieto estoi eu?

Lamb. (Parece-me lorpa) pergunto, se queres servir?

Alonç. Eu num bim a oitra coisa da minha terra.

Lamb. Está bem, como te chamas?

Alonç. Eu num som o que me chamo, los oitros mios companheiros hei que me chamaõ a mim.

Lamb. (O Gallego he exquisito) como te chamaõ os outros?

Alonç. De muxas maneiras: huns me chamaõ com las manos axim (chamando com as mãos) oitros con la voca xio, xio; e muxos, aia cá, aia cá.

Lamb. (He selvagem sem mistura) quero saber o teu nome, maldito.

Alonç. De bagar, de bagar, que o mei num hei maldito.

Lamb. (Já me falta a paciencia) o teu nome, excommungado? o teu nome? És Alonço, Braz, Bento, ou…

Alonç. Eu xom Alonço do Carca Biana, axima de Tui a par de Bigos, para xerbillo.

Lamb. Está bom, chamas-te Alonço: e tens servido alguem nesta Cidade?

Alonç. Xenhor xim: quando eu bim da minha terra, mei Primo Vento do Cazal de vaicho prantou-me a xerbir hum Xenhor Negociante da Praxa da Estratula.

Lamb. Com que negociava esse teu Amo?

Alonç. Ui cos démos de tantas incrixões; bendía piuga em cantarinhas de varro; eu antonxes iba lá vuscar ao xinfariz, e andaba xempre a vradar pelo arraial = ora quiem la quiere viem fresca, fresquinha, quien la quiere vien fresca?

Lamb. Tudo he negocio! tudo he negocio! ora dize-me, tu sabes comprar?

Alonç. Cantéi ixo, como ninguro: quando xi quivravaõ las cantarinhas, iba ió por elhas a las Loixieiras.

Lamb. Está bem: aqui tens dinheiro: vai á praça da figueira compra-me Rabãos, Sinoilas, Serrafolho, Pimpinella, e depois vem pela Ribeira do peixe, e vê se achas Cabritas para huma caldeirada: percebes?

Alonç. Ás mil marabilhas.

Lamb. Vai lá dentro que te dêm huma alcofa, e naõ te demores muito.

Alonç. Xerá xúa merxe xerbido, que ió num xom amigo de remanxar-me.

Lamb. Vai n’hum pé, e vem n’outro.

Alonç. Xenhor xim: mas im cual dos piés quiere xua merxêa que ió bá, neste, ou nestroito?

Lamb. Vai no que quizeres, marcha.

Alonç. Está vom, boi neste, e birei no oitro. (Vai a passapé cantando.

Lamb. O tal Gallego he bolonio nos termos, mas em calcando o povo, faz-se logo como hum coral: ora vamos dispôr as figuras, que vaõ sendo oras de virem os freguezes. Vai-se.


SCENA II.
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Julia, e Labrusca.


Julia. Minha Labrusca, estou muito afflicta.

Labr. E que ha de novo para tantas afflicções?

Jul. Meu Pai quer-me casar.

Labr. Entaõ V. m. afflige-se com o que as mais tanto desejaõ? naõ sabe que o casar he o Desembargo do Paço das mulheres?

Jul. Mas casar com hum velho?

Labr. Velho? Valde retro, salta a traz, quem he elle?

Jul. Timotheo Jaques Compadre de meu Pai.

Labr. Quem? o Proprietario da baba, fontes, e callos?

Jul. Esse mesmo, e hoje se fazem as escrituras: vê, cara Labrusca, como poderei viver sem o meu Trifaldino! acode-me… tem dó de mim.

Labr. E como posso eu acudir-lhe?

Jul. Aconcelhando-me o que devo fazer.

Labr. E que diabo de concelho quer V. m. que eu lhe dê?

Jul. O que te inspirar o Amor que me tens.

Labr. Pois, Menina, aqui ha só dois caminhos que seguir, mas ambos muito escabrosos: o primeiro he casar com o velho; para isso tem V. m. muito amor a Trifaldino. O segundo he casar com este, mas a minha consciencia he muito escrupulosa para lhe aconcelhar o como.

Jul. Eu desespero: como poderei casar com Trifaldino, se meu Pai naõ quer?

Labr. Como? Leia sua mercê no Alcoraõ de Cupido: historia = V = Capitulo = X = folhas = L = e achará, que o fugir.

Jul. Fugir? e o meu credito?

Labr. Pois eu digo-lhe que o arrisque? aconcelho-lhe que vá amolando a tisoirinha para cortar os callos ao velho.

Jul. Tu me fazes desesperar com essas lembranças.

Labr. Entaõ vá soletrar no Alcoraõ o segundo caminho no caso.

Jul. Eu o seguíra.... mas a minha reputaçaõ....

Labr. Assim he: a sua reputaçaõ. Nada, nada de Alcoraõ, vá, vá cuidar nos paninhos para curar as fontes do gebo.

Jul. Eu morro, Labrusca, eu morro!

Labr. Pelo baboso do velho? faz bem, ao menos estará em breve tempo mestra de alimpar baba, e remela.

Jul. Fugir com hum homem? que diraõ de mim as más lingoas?

Labr. Que diraõ? O exemplo da casa os fará calar. Diga-me, seu Pai naõ fugio com a Senhora sua Mãi? Seu Avô naõ fez o mesmo com a Senhora sua Avó, e para o mesmo fim? Isto já lhe vem por sangue, e linha.

Jul. Visto isso, aconcelhas-me que fuja com Trifaldino?

Labr. Quem? eu? V. m. he capaz de levantar hum falso testemunho na cabeça de hum tinhoso? já lhe disse que sou muito escrupulosa para aconcelhar semelhantes desatinos; se quer fugir, fuja; e se naõ quer, aturará a Eternidade ambulante do Jarreta.

Jul. Vou avisar a Trifaldino da minha resoluçaõ, fugirei, e verá meu Pai, que os estados devem ser ao gosto de quem os toma. Vai-se.

Labr. A Deos, passe por lá muito bem: Eis-aqui: porque as Raparigas fazem ás vezes mil destemperos. Nada, nada, sempre ouvi dizer, que até o doce contra a vontade he amargoso, e que o casamento de moça com velho traz o Diabo nas tripas. Vai-se.


SCENA III.
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Gerigoto, e depois Lambuza.


Gerig. Trago as tripas pespegadas nas costelas! mas que ha de ser, se ha vinte e quatro horas que naõ dou que fazer aos dentes? graças á tisica da minha bolsa, que me faz jejuar sem devoçaõ: veremos se tiro aqui o ventre de miseria. A fome he negra… Oh de casa? Patraõ? Servus?

Lamb. Que ordena V. S. Ill.ma? Aqui tem V. S. Ill.ma hum servo reverente das Ill.mas personagens, que se dignaõ honrar-me esta casa.

Gerig. (A labia he de Maráo, mas naõ me assusta.) Ha que jantar? Esto brevis.

Lamb. Quer bredos? he cousa que nunca me entrou em casa.

Gerig. Nada de circumlocuções prolixas, e fastidiosas, porque a barriga haud patitur moras.

Lamb. Quer amoras? agora naõ he tempo dellas.

Gerig. (Ou he tolo, ou se faz, mas naõ me assusta.) Que temos para jantar, bruto?

Lamb. (Ás contas fallaremos.) Ha sopa á Franceza, e Portugueza, macarraõ, vaca, frangos, gallinhas, perdizes, patos, pombos, rôlas, codornizes, paios, e....

Gerig. Satis superque.

Lamb. Assado em sopeira? he cousa que se naõ usa. Tenho mais fricassés, fricandós, salladas, bifes, bom presunto de fiambre, frutas verdes, e secas, doces, e....

Gerig. Do melhor, do melhor, melior et melius.

Lamb. Sim, Senhor, tenho mel de enxame novo.

Gerig. E como estamos daquelle divino licor, que he a paz dos nossos corações, pax tecum.

Lamb. Sim, Senhor, tenho pasteis de nata, e carne, tortas, empadas, pudins, e....

Gerig. Naõ digo isso: vinho, vinho, Alarve?

Lamb. Vinho Alarve naõ conheço: mas tenho-o do Porto verde, e de Feitoria, Madeira seca, Malvazia, Setubal, Carcavellos, Xampana, Barra á Barra, Lavradio, e....

Gerig. Sufficit, atque bastat, cum corbe canastra.

Lamb. Quer huma canastra delle? só se for engarrafado.

Gerig. Do melhor, do melhor. Eamus ad cubiculum cœnatorium.

Lamb. Que he isso? quer hum cubiculo no Oratorio? Deos lhe cumpra os desejos; mas he coisa que naõ tenho: o quarto onde se janta he acolá. Aponta para dentro.

Gerig. Eamus, e presto, presto. Vai-se.

Lamb. Que Diabo diz elle? que naõ presta? ás contas fallaremos: se for taõ prompto em pagar, como em dar á taramela, vale por trinta: mas eu sempre arrenego destes amigos, que dizem muitos Latinorios. Vai-se.


SCENA IV.
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Julia, Labrusca, e Trifaldino.


Julia. Que te parece? Trifaldino sem apparecer.

Labr. Ei-lo ahi. Entra Trifaldino.

Jul. Caro Trifaldino, tudo está perdido, meu Pai quer-me casar com seu Compadre Timotheo Jaques.

Trif. He besta que naõ conheço.

Labr. Pois olhe que tem bem que conhecer! he hum velho, que traz sempre a merenda ás costas, com a baba pingo a pingo, e taõ remeloso.... Cruzes canhoto: Meu Menino, aqui o que se pertende he pés para que te quero.

Jul. Estou resolvida a fugir comtigo.

Trif. Esse remedio he muito perigoso, que pódem pilhar-nos, e....

Jul. Se tu me amasses?… quem ama a nada attende.

Labr. Ahi sinto subir gente.

Trif. Pois a Deos, fallaremos nisso. Vai-se.

Jul. Em que sustos naõ vive hum peito amante! A Deos. Vai-se.

Labr. Se vejo minha Ama livre do Gebo, bailo as trepecinhas. Vai-se.


SCENA V.
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Miliante, Gerifate, e Perarvilho.


Mil. Ora, meus amigos, estamos no campo de batalha, he preciso delinear o ataque de sorte, que saiamos victoriosos.

Gerif. A victoria he certa: Inimigo desprecavido, he meio vencido.

Peral. Assim he: mas quem sabe se o Patraõ será, como os das casas em que temos pregado os opios?

Mil. Seja elle o Lince dos alicantineiros, se eu lha naõ pregar na menina do olho, corto as orelhas: sempre ouvi dizer que nec Hercules contra duo, quanto mais contra tres.

Gerig. Sería bonito que estudando eu a preceito as maximas da Tolina, me falhassem hoje as suas regras? Enforcava-me.

Peral. Hum animo fertil de idéas, se passa mal, he porque quer.

Mil. Isso he certo: Hum conheço eu que depois que deo na fina de se fazer cego, em sua casa, paçou do atoleiro da penuria ao gráo de maior abundancia.

Gerif. E eu naõ tenho hum visinho, que só com se fingir dorminhoco em certas horas, come, bebe, veste, e calça á regalada de Moira?

Peral. Isso he moda, he moda, e sem ella naõ valem declamações.

Mil. Toca a consultar o modo do ataque.

Gerif. Nada de consultas, senaõ succeder-nos-ha o mesmo que aos Medicos nas juntas, que em quanto cada hum afferrado á sua opiniaõ naõ quer ceder, padece o doente, e nada se conclue: de repente he melhor.

Peral. Dizes bem. Nos tempus resque docebunt: da occasiaõ sacaremos a peta.

Mil. Quem dá o sinal para a batalha?

Gerif. Quem? eu. Ó Patraõ? Patraõ?

Sahe Labrusca.

Labr. Quem chama? Serva dos Senhores. Faz-lhes mesura.

Peral. Que tal? que tal he a chamariz da casa? naõ he despicienda?

Mil. Modus vivendi, sem esta negaça poucos cahiráõ no ramo.

Gerif. Diga-nos, minha flor, temos que jantar?

Peral. Viemos tarde, viemos tarde!

Mil. Tem hoje concorrido muita gente?

Labr. (Parecem-me dos que eu procuro.) O quarto onde se janta he acolá. Partindo.

Gerif. Que he isso, minha Roza, já nos deixa, já nos deixa?

Peral. Naõ seja taõ fugidía, isso he improprio da casa, e dos servos!

Mil. A proposito: Dizem que o Patraõ tem huma filha, caspite? diga a verdade, que tal? que tal?

Gerif. Tens perguntas boas! sendo a criada huma Venus, que tal será a ama?

Labr. Meus Senhores, eu sou grossa para palito, se querem jantar, o quarto he aquelle. Partindo.

Peral. Oh! victor serio, victor serio, naõ vai a desconfiar.

Mil. Venha cá, venha cá, sua ama namora, namora?

Gerif. E deixa-se ver á meza, deixa?

Peral. Diga-lhe que nos felicite com a sua presença. Entraõ.

Labr. A muito se sujeita quem vive nestas casas! o menos que soffre cada dia he huma duzia destes ataques! Que taes saõ os amigos? se lhes dou á trella, a Deos minhas encommendas. Vai-se.


SCENA VI.
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Lambuza, e logo Alonço com huma cabrinha atada de pés, e mãos ao collo, e alcofa ás costas.


Lamb. O tal Gallego era bom para ir buscar a morte! ha duas horas que foi para a praça, e até agora nem recado, nem mandado, estou vendo que deo ás trancas com o dinheiro.

Alonç. Oi cos demos que biengo derrangado.

Lamb. Oh Alonço, que he isso que trazes ao collo?

Alonç. Apous xua merxe nun enxerga? hei la cavrinha que xua merxe me encommendoi, xá num xe acuerda?

Lamb. Oh Gallego dos Diabos? pois eu encommendei-te huma cabrinha? as cabrinhas que te disse saõ peixe.

Alonç. Xon peixe, ora naõ me cuente cuntos, las cavrinhas da minha tierra xom de carne, e juntiparadas a estas.

Lamb. Ha diabo semelhante? quanto te custou esse demonio?

Alonç. Coixixima ninguna, olha xua merxêa, ella estava mamando em la madre que la engendrou, e mais oitra ermanita, e bai eu fum axim pié antipié para que se me num escafedexem, e boi, botei os gadainhos a esta, que a outra pinxou-xe por airos e bientos, e num la pude agadanhar.

Lamb. Que fizeste, ladraõ, que fizeste? vai deitalla aonde a achaste.

Alonç. Num xenhor, num xenhor, aqui la dieito que he manxinha como hum vorrego. Deita a cabra no chaõ.

Lamb. Vamos ás outras compras, se forem como esta, estou bem aviado.

Alonç. Aqui tem xua mirxê las ciroilas. Tirando-as da alcofa.

Lamb. Ciroilas, esta he melhor. Oh excommungado, eu mandei-te trazer ciroilas, ou cinoulas? Cinoulas saõ humas hervas á maneira de rabãos com raizes amarellas.

Alonç. Las ciroilas que conhosco xom estas, xe num las gusta me quedaré cum elhas.

Lamb. Venha o mais.

Alonç. Aqui tem xua merxêa los rabios. Tira dous rabos de boi.

Lamb. A quem se contará esta! dois rabos de boi em lugar de rabãos: ó demonio, eu mandei-te trazer isto? Rabãos saõ humas hervas com raizes compridas e encarnadas.

Alonç. Ixto xe xamaõ lá na minha tierra: xua merxêa encommendoi-me rabios, rabios lhe traigo: aqui está la panella, e lo ferrogo, diga angura xua merxêa que tanvien mas num encommendiou?

Lamb. Naõ tenho mais que ver! huma panella, e hum ferrolho, por Pimpinella, e Serrafolho? Pobre Lambuza, tudo faz escarneo de ti! vai-te, vai-te cos diabos da minha presença, maroto, ladraõ.

Alonç. Oi cos demonios de tantas axoigadas, xe xua merxêa num guesta dellas, encommiende-lhas a quiem dare com elhas.

Lamb. Vejaõ quanto dinheiro me deitou na rua! ladraõ e excommungado!

Alonç. Num xenhor, num xenhor, num lo votei á rua, deio a quiem xem bendio las encommiendas.

Lamb. Se naõ fosses inculcado por meu Compadre, já te mandava pôr ao fresco, maroto, brejeiro.

Alonç. Apous espere xua merxêa que io me pongo a la frescalhota. Despindo a vestia.

Lamb. Que fazes, endemoninhado? ora vai ao Diabo que te ature. Vai-se.

Alonç. Ora, boime a bestir las xiroilhas para ver que taes mi quiedaõ. Vai-se, levando tudo.


SCENA VII.
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Julia, e Labrusca.


Jul. Minha Labrusca, recebi agora hum escrito de Trifaldino, em que me avisa que está resoluto a fugir comigo.

Labr. Deos me mate com quem me entenda, veja como elle percebeo logo o Capitulo do Alcoraõ!

Jul. Vamos entrouxar o que hei de levar.

Labr. Ouvio, menina? nada de muito volume, cousa que luza, brincos, aneis, relogios, em fim cousa que encha pouco, peze o mesmo, e valha muito.

Jul. Sim, vem ajudar-me. Vaõ-se.


SCENA VIII.
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Lambuza, e Gerigoto.


Lamb. O Illustrissimo Senhor do melhor, do melhor tem feito o bico ao saxo, como manda a regra: (mas ei lo ahi) agora faremos contas que lhe faça muito bom proveito a V. S. Ill.ma estimarei que V. S. Ill.ma achasse tudo do seu gosto.

Gerig. Ai, Ai que desgraça! Chorando.

Lamb. Que tem V. S. Ill.ma engasgou-se com algum osso?

Gerig. Peior, et peius! que infelicidade! que desgraça! Chorando.

Lamb. V. S. Ill.ma consterna-me: diga porque chora?

Gerig. Que chora? a sua infelicidade! ai, ai! que desgraça, que infelicidade!

Lamb. A minha infelicidade? em que sou eu infeliz?

Gerig. Pois naõ he infelicidade sua… comer-lhe eu o seu comer… sem que tenha dinheiro para lhe pagar? Ai! ai! que infelicidade! Chorando.

Lamb. Que? naõ tem dinheiro para me pagar?

Gerig. Nihil pro niquil; Ai! ai! Chorando.

Lamb. Ó homem dos diabos! (despiquei-me bem nas contas) pois se V. m. naõ tinha dinheiro, e queria comer, porque mo naõ mo disse, que lhe daria alguma cousa pelo amor de Deos, e escusava de enxovalhar-me o melhor que eu tinha para os meus freguezes? ha de levallo aqui o Diabo.

Gerig. Espere V. S. Ill.ma, espere, eu quando para aqui entrei, já foi com tençaõ de levar huma maçada, e assentei comigo, que se havia de gramalla por comer pouco, e máo, era melhor por muito, e bom: ai, ai! que nova infelicidade. Chorando.

Lamb. Ainda temos mais outra! (despiquei-me bem nas contas!)

Gerig. Sim, Senhor, e muito maior que a primeira, que desgraça! que desgraça!

Lamb. Pois ainda maior que comer-me V. m. o que eu tinha sem me pagar?

Gerig. Escute: V. S. Ill.ma irritado por este opio maça-me o corpo: eu fustigado das paoladas, grito áque d’ElRei: acode a justiça, acha-o em fragante delicto, prende-o, leva-o para o Limoeiro, e eu depois vou querelar de V. S. Ill.ma, ai, ai! que nova desgraça!

Lamb. (Despiquei-me bem nas contas, e o mais he que tudo me succederá) Oh homem dos diabos, ponha-se já no meio da rua, primeiro que o demonio me tente, e se verifique a minha infelicidade: vamos já, já olho da rua.

Gerig. Sim, Senhor, vale, vale (viva a Santa Labia, que havia de ser das barrigas aventureiras sem o teu soccorro!) a Deos, servo de V. S. Ill.ma Vai-se fazendo varias cortezias.

Lamb. A Deos: Entaõ que me dizem ao da rabeca? enchi-lhe a barriga de codea fina, Snr.ias Ill.mas, e pagou-me com choradeiras pelas minhas infelicidades. Quem me dera possuir a arte de conhecer bem os homens! o que naõ veria de marotos com cara de gente de bem! este emestrou-me. Vou já ter com o meu Compadre Timotheo para abreviar o casamento de minha filha, e ficarei de huma vez livre de aturar malandrinhos: Alonço, ó Alonço!


SCENA IX.
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Alonço, e o dito.


Alonç. Xenhor, Xenhor....

Lamb. Que vens tu comendo?

Alonç. Biengo rilhando este oxico, xe xua merxêa gusta, puede rilhar tanviem. Quer metter-lhe o osso na boca.

Lamb. Arreda para lá, brejeiro: eu vou fóra ao que me he preciso.

Alonç. Apous xua merxêa num puede faxer em caixa, o que lhe hei prexixo, aqui estoi io que quando me dá a gana....

Lamb. Cala essa boca, maroto, cala, e toma sentido: quando sahirem os outros Senhores daquelle quarto, haõ de dar-te tres mil e duzentos, que lhe faça bom proveito.

Alonç. Xe mos num quixerem dar? ou por elhos me afincarem tres mil e duxentos xoicos a lhas bientas?

Lamb. Haõ de dar-te o dinheiro, naõ tenhas medo.

Alonç. Mas xe me afincarem los xocos? quer xua merxêa que los guarde para quando xua merxêa biere do que lhe hei prexixo que lhe faxa bom probeito?

Lamb. Sim guardarás o dinheiro para me dar, quando eu vier: a Deos, vê naõ te logrem. Vai-se.

Alonç. Está vom xe me afincarem los xocos guardarei-los, e darei-los quando biere do que hei prexixo Vai-se.


SCENA X.
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Julia, Labrusca, e depois Trifaldino.


Jul. Já me tarda Trifaldino.

Labr. Estará preparando o alforge conforme o adagio = quem vai para o mar, avia-se em terra.

Jul. Tenho o coraçaõ taõ sobresaltado!

Labr. Ai menina, isso anda annexo ao amor, como o tabaco ao vinho. Mas ei-lo ahi. Entra Trifaldino.

Trif. Entaõ, minha vida, estás prompta? Teu Pai sahio para fóra, e foi preciso esconder-me para que me naõ visse. Hia bem scismatico.

Labr. Inda nós agora vamos a Santos, que fará depois.

Jul. Só me falta pilhar algum dinheiro.

Labr. Pois sabe que mais, falta-lhe tudo. Viajar sem dinheiro, he montar em cavallo de cana.

Jul. Em quanto temos tempo, vou ver se posso arrombar-lhe o cofre.

Labr. Que? deixe-se agora de arrombadellas. Lá no caminho naõ faltaráõ pedras com que se quebre.

Jul. Dizes bem, vou buscallo, e venhaõ para trazer o mais. Vai-se.

Labr. Vamos: muito hei de eu rir, se faço arrebentar a castanha na boca ao gebo. Vaõ-se.


SCENA XI.
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Miliante, Gerifate, Peralvilho, e Alonço.


Mil. Meus Amigos, a pança está feita, mas falta o melhor, que he sahir sem pagar.

Gerig. He verdade: aqui tórce a porca o rabo, que he o peior de esfolar.

Peral. Nunca os vi taõ desanimados! chama lá o Patraõ.

Mil. Ó Senhor nosso Amo?

Alonç. Quem hei que vrada? Ah, xom xuas merxêas?

Gerig. Vai perguntar ao Patraõ quanto devemos.

Peral. Sim, que traga o rol: (parece-me de molde para a peta.)

Alonç. Tres mil e duxentos que lhe faxa muito vom probeito a xuas merxêas.

Mil. Que? tres mil e duzentos?

Gerif. O Gallego naõ sabe o que diz: tres mil e duzentos?

Peral. Fóra que he ladroeira: vai, vai buscar o rol.

Alonç. Tres mil e duxentos que le faxa muito vom probeito a xuas merxêas.

Mil. Esta só a nós nos succede! fóra!

Gerif. Ora para que estamos nós com argumentos? desta gente nunca se tira a melhor. Paguemos, e depois naõ se torna cá.

Peral. Dizes bem: em se lhe pedindo contas, sempre sahe mais salgada a curiosidade. Paguemos.

Mil. Faltaõ casas de pasto pela cidade, pega lá, Gallego. Tirando todos da bolsa.

Gerif. Que? Eu he que quero pagar.

Peral. Essa he boa! a mim he que me toca. Pega, Gallego. Convidei-os....

Mil. Que importa que nos convidasses? inter amicos non datur geringonça. Eu faço gosto de pagar hoje.

Gerif. O mesmo faço eu.

Peral. Eu além do gosto de pagar, tenho jus a parte convidationis. Hodie mihi, cras tibi.

Mil. Querem vossês huma cousa boa?

Alonç. Apois xella hei voa tanvien io a la quiero.

Mil. Decida-se por sorte qual de nós há de pagar.

Gerif. Ora bem sorte he cada hum em sua casa.

Peral. Naõ se deixa ouvir?

Alonç. Hei berdade, oigamos, oigamos.

Mil. Atemos hum lenço pelos olhos a este Gallego, e joguemos a cabra cega: aquelle de nós que elle apanhar primeiro, he que ha de pagar.

Gerif. Está bem lembrada: á boa razaõ naõ ha que fugir.

Peral. Que dizes, Gallego?

Alonç. Eu cá nunca fum de desmanxar fulguedos: e mais io que jugo la cavria xiega como ninguno: todos los Domingos la jogaba no fuendo do mei lugar.

Mil. O Gallego he de feiçaõ: vai á meza buscar hum guardanapo.

Alonç. Num, Xenhor: eu traigo aqui hum lenxico (tira hum lenço) ate-mo xua mirxêa, e antonxes aquelle que eu agadanhar primeiro, esse hei que me haide pagar os tres mil e duxentos: mas beijaõ xuas merxêas que hande estar desgarrados, e num bale esconder.

Gerif. Sim, quem se esconder, perdeo. Atando-lhe o lenço.

Alonç. Ah Xenhor, num me apierte tanto que me miette nos tampios dientro.

Peral. Assim he: naõ precisa muito apertado: vamos ao jogo.

Alonç. Bamos a lhá, xá, xá?

Mil. Já, já. Jogaõ a cabra cega fazendo muita bulha.

Alonç. Baia, ah! baia, baia.

Gerif. Ó diabo! O Gallego he mestre em cabra cega. Vai-se.

Mil. Por huma unha negra me naõ pilha agora. Vai-se.

Peral. Se desta escarapello, naõ torno mais ás bodas del Ciello. Vai-se.

Alonç. Ah! Baia, baia. Num bale esconder: antonxes num quiero: quien xe esconder, perdeo. Andando ás apalpadellas, sente passos de Lambuza que vem de fóra, e o agarra, dizendo:

Alonç. Boxê hei que haide pagar, Boxê hei que haide pagar

Lamb. Ó Gallego, tu estás doido? Larga-me, maroto.

Alonç. Num, Xenhor, num largo, que perdeo; está agarrado, boixê hei que haide pagar: perdeo, perdeo.

Lamb. Dizes bem, brejeiro, eu he que hei de pagar. (Tirando-lhe o lenço.

Alonç. Oi cos demonios! Boxa merxêa hei quiem io agarrei? quié de los tres xenhores que xogabaõ la cavria xiega comigo? Boxa Merxêa num los bio?

Lamb. Pobre Lambuza! que mais te succederá hoje? anda, maroto, põe-me para alli os tres mil e duzentos, vamos.

Alonç. Balga-me Xantivago! los tres Xenhores num ma los dieron. Nós amdabamos xogando la cavria xiega para ber qual de lhos Xenhores habia de pagar: que dexe xua merxêa que io boi ber xe lhos beijo?

Lamb. Que? Põe para alli o dinheiro, senaõ esquartejo-te.

Alonç. Mas xe los Xenhores num mo lo dieraõ?

Lamb. Põe-te já já fóra da minha casa, ladraõ, maroto, brejeiro.

Alonç. Que me ba? Num me boi xem que xua merxêa me pague o tempo que o xerbi.

Lamb. Ahi tens a paga. Dá-lhe.

Alonç. Num me boi, num me boi, quiero lo mei dinheiro, ora quiero ber angura. Deita-se no chão.

Lamb. Ah, naõ queres? irás de rastos. Leva-o de rastos para fóra.

Alonç. Áque d’ElRei, Áque d’ElRei que me num queren pagar lo mei dinheiro, Áque d’ElRei.

Lamb. Sim, sim, vai gritando: quero ver qual póde mais. Vai-se levando-o.


SCENA ULTIMA.
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Trifaldino com hum cofre. Julia com hum caõsinho, e espelho. Labrusca com huma trouxa, e depois Lambuza.


Trif. Vamos depressa, naõ percamos tempo preciso.

Jul. Espera que me ficou lá hum relogio á cabeceira da cama.

Labr. Leve o Diabo o relogio: nada de esperas.

Trif. Dize agora a teu pai que te case com seu Compadre.

Sahe Lambuza.

Lamb. Custou-me a pôr o Gallego fóra… mas que he isto? Trifaldino em minha casa? Julia, Labrusca, que historia he esta?

Jul. Oh Ceos! que entrega! eu morro! Encosta-se a Labrusca.

Labr. Naõ quizeraõ senaõ pôr-se de Ré, mi, fá, sol: ora, apanhem a boarda de Cupido, por naõ cumprirem o que resa o Alcoraõ.

Lamb. Naõ fallaõ? mas que he isto? o meu cofre nas mãos deste Ladraõ? Áque d’ElRei que estou roubado! Agarrando no cofre.

Alonç. Áque d’ElRei que me num quierem pagar lo mei trabago!

Lamb. Ha desordem semelhante! que veio V. m. fazer a minha casa?

Trif. Meu Senhor.... Eu.... perdoe-me....

Lamb. Que? perdoar? hei de levallo á forca.

Alonç. Num le perdoo: ha de-me pagar, ha de-me pagar.

Lamb. Anda cá Julia, que funçaõ era esta?

Jul. Eu se fugia com Trifaldino, meu Pai, era....

Lamb. Fugias?… Ah filha do Diabo, fugias com hum homem?

Labr. Ora vejaõ os prepostos com que está! Olhe para si que lhe deo o exemplo. V. m. naõ fugio com a Mãi da menina para casar com ella? pois sua filha, para se livrar da Serpente de seu Compadre Timotheo fugia com o Senhor para o mesmo fim.

Lamb. Ah! como he certo praticarem os filhos os exemplos dos Pais! eu o conheço ainda que tarde, cobrindo-se-me as faces de vergonha. Está feito, salve-se o credito, eu lhes perdoo, e casem; mas com a condiçaõ de que o Senhor Trifaldino tomará posse desta casa, pois melhor do que eu saberá livrar-se de Tolineiros, ficando eu assim no meu descanço.

Trif. Vós me fazeis o mais feliz dos homens, e protesto naõ desmerecer a confidencia, que fazeis de mim. E vós, Nobilissimos Expectadores, aprendei desta farça a naõ constranger a vossas filhas a tomar estado, se quereis fugir ao que vistes praticar.

Todos. Ao Gallego lorpa, e Tolineiros.


F I M.




LISBOA,

NA TYPOGRAFIA LACERDINA.

Anno 1808.

Com licença da Meza do Desembargo do Paço.