Espumas Flutuantes (1913)/Oitavas a Napoleão

Oitavas a Napoleão
por Abigaíl Lozano, traduzido por Castro Alves
Poema publicado em Espumas Flutuantes (1913).
OITAVAS A NAPOLEÃO


(TRADUCÇÃO DO HESPANHOL DE LOZANO)


Aguia das solidões!... Ninho atrevido
Foram-te as borrascosas tempestades,
Flammigero cometa suspendido
Sobre o céo infinito das idades.
Tu, que no lago intérmino do olvido,
Lançaste tuas regias claridades...
Deus cahido do throno dos mais deuses...
Quem recebeu teus ultimos adeuses?...

Não foram as Pyramides, que ouviram
De teus passos o som e se inclinaram...
Nem as aguas do Nilo, que te viram,
E co′as ondas teu nome murmuraram...

Não foram as cidades, que brandiram
As torres como facho... e te aclararam...
Quem foi? Silencio!... tremulo de medo
Vejo apenas — um mar... vejo um — rochedo.

A terra, o mar, os céos... espaço estreito
Eram p′ra tua planta de gigante.
Para tecto dos paços teus foi feito
O firmamento colossal, fluctuante
Como diadema — os sóes... E como leito
O antarctico pólo de diamante...
Teu feretro, qual foi?... Titão do Sena,
O penhasco fatal de Santa Helena...

Assassina do Encelado da guerra
Só tu foste, Albion... do mar senhora...
Porque? Por um pedaço ahi de terra
Foi pedir-te o gigante em negra hora...
E lhe deste um penhasco... Oh! lá s′encerra
Tua lenda mais horrida... Traidora!
Lá seu espectro envolto na mortalha
Aos quatro céos a maldição espalha...

Ao leão que temias, enjaulaste;
E de longe escutando seu rugido,
Tu, senhora do mar... tu desmaiaste!
Pelo punhal traidor elle ferido

Cahiu-te aos pés... Então tu respiraste,
Cobarde vencedora do vencido...
Nem mesmo todo o oceano poderia
Lavar este padrão de covardia...

Tu não és tão culpada!... Aonde estava
A França tão potente e tão temida?...
Oh! por que o não salvou?... se o contemplava
Lá dos gelos dos Alpes — soerguida?!...
E elle que a fez tão grande?... Ella folgava!...
Emquanto ao longe do colosso a vida
Como um vulcão antigo e moribundo
Lento expirava nesse mar profundo.

S. Paulo.