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Aqui se acaba esta santa oração.
Quem esta oração rezar 7 sexta-feira, de paixão,
E outras tantas carnaes,
Tem cem annos de perdão,
Se for seu pai, sua mãe, mais toda a sua geração.

 

Ha na Illiada um trecho muito citado e rico de verdades. Homero falla das orações e diz «As orações são filhas do grande Zeus, filho de Kronos. Capengas, zarolhas, fairronas occupam-se em seguir a Fatalidade. A Fatalidade é robusta e agil. Vai muito adiante fazendo aos homens um mal que as orações remedeiam.» É destino do homem rezar, pedir o auxilio do desconhecido para o bem e para o mal, é sina deste pobre animal, mais carregado de trabalhos que qualquer outro bicho da terra ou do mar, ter medo e desconfiar das proprias forças. A Fatalidade o vai conduzindo por caminhos que são despenhadeiros ás vezes e campos de risos raramente. O homem chora, ergue os olhos para o azul do céo, a menor das suas ilusões povoa-o de forças invisiveis e fala, e pede, e suplica. Que importa que diga tolices ou phrases lapidares, horrores ou pensamentos suaves? É preciso remediar a Fatalidade.

E é por isso que emquanto existir na terra um farrapo de humanidade, esse farrapo será um moinho de orações.

E por isso, talvez, que os vendedores de orações acabam mais ou menos supersticiosos dessa superslição teimosa que acredita apezar de tudo; é por isso que um pobresinho vendedor dessas fantasias do Pavor ignorante não sahe de casa