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AMERICANAS

Pudor de espôsa e de christã, — realce
Que ao indio accende a natural volupia.
Simulada alegria lhe descerra
Os labios; riso á flor, escasso e dubio,
Que mal lhe encobre as vergonhosas maguas.
Á voz do seu senhor accorre humilde;
Não a assusta o labor; nem dos perigos
Conhece os medos. Nas ruidosas festas,
Quando ferve o cauim[1], e o ar atrôa
Pocema de alegria ou de combate,
Como que se lhe fecha a flor do rosto.
Ja lhe descae então no seio oppresso
A graciosa fronte; os olhos fecha,
E ao ceu voltando o pensamento puro,
Menos por si, que pelos outros pede.
Nem so o ardor da fe lhe abraza o peito;
Lacera-lh′o tambem agra saudade;
Chora a separação do amado espôso,
Que, ou cedo a esquece, ou solitario geme.
Si, alguma vez, fugindo a extranhos olhos,
Não ja crueis, mas cubiçosos della,
Entra desatinada o bosque antigo,
Co′o doce nome accorda ao longe os echos,
E a dor expande em lobregos soluços,
Farta de amor e pródiga de vida,

  1.     É ocioso explicar em notas o sentido desta palavra e de outras, como pocema, mussurana, tangapema, kanitar, com as quaestodo o leitor brasileiro está ja familiarisado, graças ao uso que dellas teem feito poetas e prosadores. É também desnecessario fundamentar com trechos das chronicas a scena do sacrifício do prisioneiro, na estancia XI; são cousas comesinhas.