35.1
2019
Marina Fonseca Darmaros, John Milton

cias à comédia delirante são substituídas por outras, ao Kaspeletheater (O’Sullivan 2006:150).

Nos Estados Unidos, a primeira tradução do boneco que queria ser menino, de Walter S. Cramp, em 1904[1], seguia as tendências dominantes de moralidade pública, enfatizando a autodisciplina, autonegação, a diligência e o respeito às autoridades e, assim, cortando quaisquer referências à violência, à crítica social e às crianças que ridicularizavam os adultos. O tom é “áspero, punitivo e antipático. Pinóquio, a criança, é uma amolação” (Wunderlich 1992 apud O’Sullivan 2006:151).

Versões subsequentes de Pinóquio restauraram uma personalidade mais simpática do garoto, e O’Sullivan vê a versão da Disney dos anos de 1930 como sendo influenciada pelos eventos da época: a Grande Depressão e a Segunda Grande Guerra que se aproximava. Para este Pinóquio, o objetivo não é crescer e se tornar independente, mas ser um bom menino dentro da família: “A imagem de Pinóquio mudou daquele de Collodi, um menino-marionete egoísta e obstinado, para a personificação da inocência da infância” (O’Sullivan 2006:152).

4. A Literatura Infantil Política na União Soviética

Em “Translation and Transformation: English-Language Children’s Literature in (Soviet) Russian Guise” Judith Inggs (2015) nota que a literatura infanto-juvenil soviética era um campo restrito, “não diferenciado”, conforme Lefevere (1992), em que todas as publicações infanto-juvenis, incluindo as traduções de obras estrangeiras, eram controladas pela Editora Estatal Infantil, conhecida como Detgiz (Detskoe gosudarstvennoe izdatelstvo) e fundada por Maksim Górki, em 1933. Seu objetivo era “instigar nas crianças um interesse pela luta da classe trabalhadora” [“instil in children an interest in the fight for the working class”] (Starza 1984:187 apud Inggs 2015:4), assegurando que uma ideologia comunista fosse instaurada nos jovens leitores. Embora as obras devessem ter qualidade literária, era importante que não houvesse qualquer tipo de conflito com as normas morais e éticas soviéticas, e elas deveriam rejeitar quaisquer opinião racista, chauvinis-

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  1. Também segundo a Fondazione Collodi, a primeira tradução a sair nos EUA, de Cramp, foi publicada não em 1904, mas em 1901.