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FANTINA

— Vindo da cidade, madrinha, o Zé de Deus entregou-me esta carta para lhe dar.

D. Luzia admirou-se do compadre escrever-lhe depois das scenas passadas, mas foi logo rasgando o papel para ver o conteudo.

Emquanto D. Luzia decifrava os hieroglyphos do compadre, Daniel com olhos de coelho adormecido interrogava o semblante de Fantina que sorria-lhe.

Para Fantina o olhar de Daniel tinha um fluido doce que a punha n'um estado morbido. Suas vistas desconfiadas de ciume interrogavam os ricos contornos de Fantina acerca de Frederico. Procurava ler nas veiasinhas da mão delia quantas palpitações aquelle coração que considerava feito de amor, alvorada e leite, tivera por elle, que a adorava com os ardores viris do sentimento acrisolado, e com os impetos celeres de uma carnalidade selvagem.

— O compadre Zé de Deus é um patusco ;— disse D. Luzia rindo e pondo a carta sobre os joelhos.

Daniel achou prudente concordar, por isso, meneou a cabeça affirmativameate. O Zé de Deus derreteu-se na carta em pieguices de um sentimentalismo tolo ; tinha porventura esperanças de supprir alguma falta.

Estava D. Luzia, pois, resolvida á convida-lo. Que-