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FANTINA

— Oh ! Daniel, assim não ! podem nos ver. Deixa-me por amor de Deus, e empurrava-o.

Mas elle refreando-se, atando ao rochedo da razão os desejos doidos que o feriam, soltou-a, pedindo-lhe que abrisse os olhos com Frederico, que era homem perigoso. Um barulho de chaves lá dentro separou-os como ura tiro n'um bando de pombos torcaes.

Já fei com a claridade da lua que se mostrava muito pallida, muito anemica, que Daniel cavalgou pela estrada de sua casa.

D. Luzia voltou á varanda e distrahida contemplava uma porção de creoulinhos que brincavam no terreiro. Com o pensamento concentrado naquelles animaes domesticos, ella considerava a sua fortuna crescente, mas logo uma sombra negra como a desgraça a enlutava.

O nome de Rio Branco passou-lhe pela mente como um condemnado de Dante. Tremia, fazia promessas ao Senhor Bom Jesus de Mattosinhos de Congonhas do Campo, para que Rio Branco nunca realizasse sua idéa. Concorreria com vinte contos se alguém pudesse burlar o plano gigante.

D. Luzia foi educada no collegio de irmans, mas não primava pela caridade ; pois não se compadecia dos miseros párias condemnados do berço ao supplicio dos ganxos e das algemas.