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ANACREONTE
 

 

Em Téos, na Grecia antiga, havia um poeta que se chamava Anacreonte.

Era velho, tinha os cabellos inteiramente brancos e as barbas anneladas[1] e longas, que lhe cobriam o peito e lhe davam um aspecto sympathico e venerando[2].

Era o homem maias feliz que havia. Como todos o amavam e o distinguiam com uma admiração sem limites, nada lhe faltava.

Sua habitação ficava á beira do mar, cujas ondas, na enchente, vinham até á sua porta, quebrando-se em espumas alvas.

Pela manham, mal a aurora tinha nascido, as camponezas de Téos vinham em grupo trazer ao poeta o sustento do dia. Uma trazia um cântaro[3] de barro cheio de leite gordo, outra um púcaro[4] de saboroso vinho espumante e fructas de todas as qualidades; outra ainda um vaso de agua pura para as abluções[5] matinaes do poeta. Depois unctavam-lhe[6] as barbas e cabellos com oleos aroma-


  1. Anneladas, em feitio de anneis; enroladas.
  2. Venerando, que se deve venerar; digno de respeito.
  3. Cântaro, bilha, vaso de barro de bocca larga.
  4. Púcaro, vaso por onde se bebe agua.
  5. Ablução, acto de lavar-se; lavagem.
  6. Unctar, esfregar.