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          O COLLOCADOR DE PRONOMES     105


Digeriu todas as patranhas de Fernão Mendes Pinto. Obstruiu-se da brôa encruada de Fr. Pantaleão de Aveiro. Na edade em que os rapazes correm atrás das raparingas, Aldrovando escabichava belchiores, na pista dos mais esquecidos mestres da boa arte de maçar. Nunca dormiu entre braços de mulher. A mulher, o amor — mundo, diabo, carne, eram para elle os alfarrabios freiraticos do quinhentismo, em cuja soporosa verborrhéa espapaçava os instinctos lerdos, como porco no lameiro.

Em certa época viveu annos a fio acampado em Vieira. Depois, vagamundeou, qual um selvagem nú, pelas florestas de Bernardes.

Aldrovando nada sabia do mundo actual. Despresava a natureza, negava o presente. Passarinho conhecia um só: o rouxinol de Bernardim Ribeiro, e se acaso o sabiá de Gonçalves Dias vinha bicar "pomos de Hesperides" na laranjeira do seu quintal, Aldrovando esfogueteava-o com apostrophes:

— Salta fóra, regionalismo de má sonancia!