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sobretudo e o chapéu ao cabide do corredor, e saiu.

Hílares do baralho da contenda, os canários do lindo viveiro dourado tinham rompido numa chilreada escarninha.

A baronesa, depois de imobilizada uns segundos num espasmo de cólera impotente, ergueu-se também de repente e foi sepultar-se na chaise-longue do seu cantinho predileto, humilhada, fria na epiderme, a chorar, a tremer. No primeiro momento nem deu bem conta dos sentimentos que a poleavam. A pobre criatura sentia só — com que violência! — que a saída grosseira e brusca do barão lhe caíra na alma com todo o peso de uma afronta, provocando uma dor vagamente cava, indefinível, como o bater de uma lápide fechando um túmulo.

Ele desfeiteara-a, insultara-a, atirara-a à margem como uma ponta de charuto — eis o que era evidente, o que era essencial, o que a dilacerava... porque motivo?... Não lhe importava, não o sabia; nem, mesmo que o quisesse, conseguiria talvez tentar sabê-lo. De ordinário incapaz de passear muito tempo a atenção sobre um mesmo assunto, a baronesa comprazia-se em acendrar até ao último exagero as consequências de uma emoção. Sobrava-lhe em coração o que lhe faltava em inteligência. Vinha-lhe de sentir muito e pensar pouco o seu adorável feitio de leviandade. Assim, toca a malucar: — O marido repelira-a, desprezara-a... que lhe importava o mais?...

— E a torturada e voluntariosa burguesita contorcia-se na vergonha da afronta evidente. Aquela alvura leitosa de cútis, que a extrema regularidade da sua vida tingia habitualmente de cor-de-