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excitação em que se achava, nem conseguia prender-lhe o espírito o canalhismo picante da literatura francesa de bulevar, tão sua predileta. Percorria num ar vago as colunas, sem lhes apreender o sentido, perro no atrito de uma apatia mental pesada, imbecilizante. O jornal tremia-lhe na mão sem firmeza, e as pernas cruzavam-se, descruzavam-se, erguiam-se em ângulo muito agudo, com a rótula à altura do estômago, alongavam-se direitas num arrastamento do calcâneo ao longo do tapete, a dar o síndroma de uma impaciência fatal, irreprimível. Consultou o relógio: — uma hora. Tinha marcado o encontro para as duas... — Ainda uma hora, que inferno!...

Saiu; e vagaroso, negligente, a iludir o tempo, olhando o céu, parando às montras, tomou Chiado acima, Rua Larga de S. Roque, e à Travessa da Queimada. Depois, ao cruzar com a Rua da Atalaia, deu dois passos nesta e subiu, à esquerda, pela Travessa dos Inglesinhos, até à Rua da Rosa, pela qual enfiou a ângulo reto, sobre a direita, entrando, por fim, sorrateiro, quase a meio da rua, numa casinha pequena, de três janelas de frente, branca, dois andares e platibanda. Prédio banal e anónimo, porém denotando a benfeitoria de uma restauração recente, na balaustrada, nos caixilhos grandes das vidraças, nas padieiras levemente ogivadas, nas varandas de ferro fundido; e pavoneando-se portanto num legítimo orgulho de destaque, entre a pelintra sucessão de casebres daquela rua estrangulada e imunda.

Na loja acomodava-se um cafarnaum poeirento de bric-à-brac mesquinho; o primeiro andar, com as tabuinhas verdes sanefando em