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interior mercenário, em cujo arranjo não palpitava a menor emoção da vida de família. Faltava o fogo e o pão, as duas primeiras condições na existência de um lar. Nada havia de quente, de irregular, de buliçoso; nada surpreendido num gesto de afago, nada marcando a evolução de um afeto, nada acusando esta honesta desordem que é o selo confiante da intimidade, nada amotinado nestas adoráveis confusões de coisas que as criancitas levantam, como um rufio de asa na pelugem de um ninho. Antes tudo ordenado, espanado, a postos, na cumplicidade passiva do prazer às horas; tudo pronto a garantir nos gozos de um sibarita a segurança do mistério.

Assim que entrou, o barão fechou cuidadosamente a porta por dentro e fez num exame rápido uma inspeção à casa. Tudo em ordem... A água corria no contador, havia roupa lavada nas gavetas... bem! Não poderia tardar. E deixou-se cair no canapé, alquebrado, numa languidez pungente de ansiedade, a cabeça contra a parede, os olhos cerrados, as mãos cruzadas sobre o ventre, e as pernas estendidas com os pés de calcanhar sobre a esteira, firmes ao alto. Era a sua posição habitual em situações análogas. Lá estava a confirmá-lo, manchando a parede, uma gorduragem negra mesmo no ponto em que ele agora encostava a cabeça. Era assim, nesta impassibilidade ostensiva, que o pobre doente devorava os minutos de inquietação expectante, enquanto lhe devorava os nervos um trabalho de extermínio.

Mesmo esta posição inerte e na aparência tranquila era filha espontânea do seu ânimo hipócrita, era a que mais convinha ao seu jeito