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FABULARIO PORTUGUÊS
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Deuemos [tomar][1] emxemplo da aue que algũa vez come de hũu fruyto que ha nome taxo, que amarga muyto; e a aue, despois que o come hũa vez, nunca o come mays, /[Fl. 26-v.] porque o acha muyto amarguoso: e este fruyto sse póde comparar aa puta que pareçe doçe, e no partir amarga, ca ella nom ama o homem ssenom a todo sseu proueyto, e pera leuar d’ell quanto póde.


XXXVI. [O camponês e o filho]

[P]om ho poeta emxemplo e diz que hũu ffilho de hũm burgês ssenpre fazia comtrayro do que lhe sseu padre emssynaua.

O padre nom ho podia castigar, e hũu dia tomou hũu paao ssem porquê, e firio hũu sseu seruo na pressença de sseu filho. O ffilho, veendo tam ssem porquê espaancar este sseruo tam cruellmemte, estaua com gram medo. Depoys preguntarom ao burgês porque /[Fl. 27-r.] feria o seruo ssem seu mereçer; disse o burgês (que era homem amtijguo e discreto) que o boy pequeno aprende de arar do gramde, e quem quer castigar o leom ffere o cam: — e por tamto eu nom quero fferir meu filho, porque ja per fferidas nom ho posso castiguar, mays ffery o meu seruo, porque elle aja medo e tome emxemplo.




Per este emxemplo o poeta nos amostra e diz que nós deuemos auer maneira com discriçom nos nossos emssynos e castigamentos; e o padre deue castiguar sseus filhos com palauras e boos emxenplos; quando vee que com fferidas ho nom póde castiguar, e que o pequeno deue tomar emxemplo do gramde. E elle ffoy d’ello louuado.


XXXVII. [A vibora e a lima]

[Fl. 27-v.][P]om este poeta emxemplo e diz que hũa bibera entrou em casa de hũu fferreyro pera comer algũa cousa, e nom achou em ella ssenom hũa lima d’aceyro. Ha bibera começou-ha a rroer com os demtes, e nom lhe podia empeeçer; ha lima ffalou aa bibera e dizia:

— Tu, bibera, quamto rroes em mym, todo he nada; tu dapnas os teus demtes, e a mym nom enpeeçes. Eu ssom de tamto poder, que do fferro faço poo, assy como sse fosse farinha, e nom ha fferro no

  1. No ms. lê-se: deuemos emxemplo da aue. Falta tomar ou outra palavra analoga. Cfr. «o pequeno deve tomar emxemplo do grande» na fabula XXXV (no fim).