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Aquela casa tinha uma história, e a recordação dessa história prendia-se à lembrança de fatos que a tinham antecedido na memória do padre; e não podia acudir-lhe sem que primeiro viessem pela ordem do tempo os acontecimentos que a haviam originado. Quem a contaria? Que série de fatos a tornara necessária? A recordação dessa história lhe daria a razão de ser da sua estada naquela cama e naquele quarto? Os fatos do passado lhe vinham vindo pouco a pouco à memória, porém sem ordem nem clareza, intercalando-se o que vira com o que lhe haviam contado, o que observara com o que ouvira. Faltava-lhe o nexo dos acontecimentos. Via-se na situação de quem lesse o último capítulo duma narrativa sem ter lido os primeiros.

Não conseguiria jamais coordenar as suas reminiscências, evocar os fatos do passado mais antigo sem que a percepção do presente ou a lembrança do passado mais recente se lhes interpusesse, para desviar-lhe a atenção e obscurecer-lhe a memória?