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Desejo de o provar contra o sylvestre
Antigo pastoril, qu'eu mal renóvo.
  E tu, que no tocar pareces mestre,
Bem julgarás se ha clara differença
Entr'o canto maritimo e o campestre.
  Não ha (disse Alicuto) em mi detença:
Alvorôço antes ha, por mais que veja
Que a tua confiança só me vença.
  Mas, porque saibas que nenhuma inveja
Os pescadores temos aos pastores
Do som que pelo mundo se deseja,
  Toma a lyra na mão, que os moradores
Do vitreo fundo vendo estou juntar-se
Para ouvir nossos rusticos amores.
  Bem vês por essa praia presentar-se
Nas conchas vária côr á vista humana;
E o mar vir por entr'ellas e tornar-se.
  Socegada do vento a furia insana,
Encrespa brandamente o ameno rio,
Que seu licor aqui mistura e dana.
  Estepenedo concavo e sombrio,
Que de cangrejos ves estar coberto,
Nos dá abrigo do sol, quieto e frio.
  Tudo nos mostra, emfim, repouso certo,
E nos convida ao canto, com que os mudos
Peixes sahem ouvindo ao ar aberto.
  Assi se desafião estes rudos
Poetas, nos officios discrepantes;
Nos engenhos porém subtis e agudos.
  Eis ja mil companheiros circumstantes{218}