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De todo Amor contrárias,
Mas não como ti duras,
Onde lamenta e chora desventuras.
  Das castas virgens sempre os altos gritos,
Clara Lucina, ouviste,
Renovando-lhe as fôrças e os espritos:
Mas os daquelle triste,
Ja nunca consentiste
Ouvi-los hum momento,
Para ser menos grave o seu tormento.
  Não fujas, não de mi! Ah não t'escondas
D'hum tão fiel amante!
Ólha como suspirão estas ondas,
E como o velho Atlante
O seu collo arrogante
Move piedosamente,
Ouvindo a minha voz fraca e doente.
  Triste de mi! Qu'alcanço por queixar-me,
Pois minhas queixas digo
A quem ja ergueo a mão para matar-me,
Como a cruel imigo?
Mas eu meu fado sigo,
Que a isto me destina,
E qu'isto só pretende e só m'ensina.
  Oh quanto ha ja que o Ceo me desengana!
Mas eu sempre porfio
Cada vez mais na minha teima insana.
Tendo livre alvedrio,
Não fujo o desvario;
Porque este em que me vejo
Engana co'a esperança o meu desejo.{