São Cristóvão/III

São Cristóvão por Eça de Queirós
Capítulo III


Como aquele ser informe decerto ia morrer, o próprio pai, aterrado e chorando, o batizou e lhe deu o nome de Cristóvão.

Durante três dia, durante três noites, Cristóvão não mamou, não gemeu, imóvel no berço, que o lenhador e sua companheira constantemente velavam, numa esperança teimosa. sentindo naquela pele rugosa e dura o calor de um sangue forte. Uma tarde que ambos cansados tinham adormecido, sentiram subir, de entre os lençóis do berço que rangia, um rumor singular como o lento balar de um anho muito robusto. Cristóvão descerrara as pálpebras moles, e eles viram enfim os seus olhos de um azul-pálido, como a flor da pervinca. A mãe, radiante, arrebatou-o contra o seio que a abundância de leite sufocava: - e em poucos sorvos, largos e fundos, Cristóvão esvaziou um dos peitos.

Começou então a viver uma vida intensa e rápida. Dormindo, a sua respiração era mais que uma brisa entre ramos; ao acordar os seus gritos abalavam a cabana; e na sua voracidade, sem parar, secava o leite da mãe, chupava através de um pano largos pedaços de mel silvestre, e ficava trincando com impaciência o dedo que, para o consolar, o pai lhe metia entre as gengivas, mais duras que pedras.

E, no entanto, aquela monstruosidade, que o assemelhava a uma grossa e negra raiz, compunha em formas familiares de um corpo grosseiro, mas humano. A pele, perdida a aspereza negra, era lisa e vermelha como uma casca de maçã: a cabeça emergia dos ombros como uma decisão de começar a vida; e as pernas agora direitas, com dois grandes pés chatos, eram tão fortes que, se as agitava, quase fazia tombar o berço.

E bem depressa, com terror da mãe, não coube no berço. Como era no calor de maio, o bom lenhador fazia com musgo seco, recoberto de um mantéu, um leito na horta, onde o deitavam sob uma mimosa em flor. Mas Cristóvão rolava para fora do mantéu, procurando a terra quente e mole, onde se estendia, se dilatava com delícia, como num elemento preferido, sorrindo quieto, num sorriso mudo, que deixava já transparecer o brilho de um dente. Começaram então a aparecer, voando, por sobre os legumes da horta, borboletas de cores prodigiosas, como o lenhador nunca vira. Uma roseira seca havia um ano, e que tinha apenas o tronco mirrado, rebentou em grandes rosas que perfumavam todo o ar. Os melros que ali acudiam, fazendo um canto incessante e festivo, emudeciam quando a enorme criança dormia, com seus grossos punhos fechados. A mimosa, todas as árvores em redor, vieram estendendo as suas ramarias, como toldos de abrigo, para o lado onde se estendia o mantéu. E um dia a mãe, entreabrindo a porta do eido, avistou, espantada, um enorme veado, que por cima da sebe, com os altos paus entre a folhagem, contemplava Cristóvão, com a gravidade de um avô.

Era então tão pesado que a boa mulher vergava, mal o podia transportar da porta para o berço. E todavia tinha só seis meses. A moleira que parava, com o seu jumentinho carregado de sacos, diante da cabana, para o ver, pasmava das suas cores vermelhas, da sua força, dos seus membros perfeitos e daquele sossego em que permanecia, todo um longo dia de verão, sentado, cravando na mesma pedra ou no mesmo ramo os seus olhos azulados, sem brilho e sem vida. E ela via nesta transformação um milagre de Santa Ana.

Muito antes do Natal, Cristóvão começou a andar. Já corria toda a horta, era quase da altura da sebe – e se, para se segurar, atirava a mão a um ramo, o ramo rachava como sob o esforço de um homem forte. O pai vivia no encanto e deslumbramento desta força magnífica: - e seu prazer era contemplar a criança erguendo uma grossa panela de ferro, ou caminhar para a lareira abraçado a duas imensas achas de lenha. Não duvidava que ele viria a ser o homem mais valente de toda a castelania, e já o imaginava soldado, com uma pesada armadura, comandando os terços da castelania. No coração da mãe havia uma surda, vaga tristeza, por aquele crescer maravilhoso de força e de formas. Já o não podia trazer ao colo; Cristóvão tinha apenas um ano, e já não era o seu menino, o seu pequenino. Os ternos cuidados da sua maternidade eram já para ele inúteis. Não necessitava amparar-lhe os passos, nem meter-lhe na boca a comida. Enorme, tão forte como ela, Cristóvão, quando tinha fome levantava a tampa da arca e partia ao meio as broas mais duras. O lenhador marcara na parede, com um traço branco, a altura do filho, pelo Natal: - e cada dia os riscos subiam mais alto, quase rente à prateleira da louça. Aos dois anos a sua cabeça pequenina, coberta de uma lã espessa e loura, já dava pelo cinto do lenhador. Os saiozinhos de pano que ela cosera com tanto amor, jaziam inúteis no fundo da arca, sem que ele tivesse jamais sido bastante pequenino para se mostrar, com eles, pela sua mão, aos domingos, no adro da aldeia. E quando o via, ainda mudo e inocente como uma criança de peito, e já tão grande, enchendo quase a porta da cabana, onde costumava estar horas, parado, a olhar monotonamente o ar e o sol, a pobre mãe, desconsolada, sentia uma lágrima umedecer-lhe a face.

O que a consolava era senti-lo tão manso e doce. Se ela, assustada, lhe tirava o machado do lenhador, que ele gostava de erguer, ou se o afastava do lume, que incessantemente o atraía, ele não mostrava nem resistência nem impaciência. Não era mais inerte um fardo de lã. Permanecia longas horas na tripeça em que o sentava, ou à sombra , debaixo da cerejeira da horta. O seu encanto era ver fiar a mãe, atento profundamente ao rodar, ao cantar do fuso. E a cada instante lhe tomava a mão, para nela pousar um beijo mudo, sem brilho, que não findava. Ela apertava-o ao seu coração, murmurando, desolada:

— Por que não és tu mais pequenino?

E, no entanto, já perto dos quatro anos, não falava. O único som que saía, cavo e grosso, dos seus lábios cor de aurora, era: Han! Han! Se tinha sede apontava com o grande dedo, rosnava: Han! Han! Para sair mostrava a porta,e grunhia, com os olhos vagos, para a mãe: Han! Han! A pobre mulher já perdera a esperança de o ouvir chamar mãe e pai. Já não duvidava de ter concebido um mudo, um imbecil. E na sua dor, num resto de orgulho, não permitia que Cristóvão transpusesse a sebe da horta, descesse abaixo, aos caminhos, com receio que os trabalhadores da floresta, as vizinhas da aldeia, o encontrassem, descobrissem a sua monstruosidade, lamentassem a tristeza do seu lar.

Mas o que sobretudo a aterrava era a insensibilidade de Cristóvão à dor, como coisa diabólica. Uma vespa mordera-o na face, e ele nem chorava, nem a pele lhe inchara. Sentava-se indiferentemente sobre musgo fresco, ou sobre as selvas espinhosas. E um dia mergulhara a mão na água a ferver, e retirara-a, quieto, como se ela fosse de pedra.

— Ai! meu homem – murmurava a pobre mãe – que malogro o nosso!

Ele suspirava, sombriamente. Toda a sua alegria, diante daquela robustez primeira do filho, tão prometedora, se mudara em dor constante, perante a sua deformidade – porque Cristóvão não falava, tinha a simplicidade de um serzinho no berço, e já lhe dava pelo ombro, forte como ele, com grandes músculos, mãos formidáveis que brandiam no ar a sua machada tão facilmente como uma varinha de olmo. Já não falava do seu filho aos outros servos da castelania, carvoeiros, serradores, companheiros da floresta. Se ao menos Cristóvão falasse, tivesse naquela estatura de homem, os modos de um homem... Iria com ele para o trabalho, não revelaria a sua idade – e seria como um companheiro moço e robusto que habitava no seu lar. Mas, assim, imenso, com uma vasta face, os ombros de atleta, ele passava horas, esgaravatando a terra, como uma criancinha, contemplando de rastos o caminhar das formigas, ou, quieto, chupando um dedo.

Já na aldeia, entre os servos do castelo. corria que o filho do lenhador era um monstro. Decerto fora algum feiticeiro, seu inimigo, que assim lhe lançara uma sorte temerosa. E alguns, mais afoitos, vieram rondar, espreitar em torno da cabana de Cristóvão, para ver o enfeitiçado. A pobre mãe, uma tarde, sentira grossas risadas, rente à sebe da horta; adivinhara estas curiosidades que vinham escarnecer a dor do seu lar. Tinha agora sempre fechada aquela porta da sua cabana, tão limpa, tão honesta, e por onde até aí ela deixara passar os olhares de todos, tão livremente como os raios do Sol. Quando alguma comadre da aldeia, alguma serva do castelo, a chamava de fora, ela antes de abrir, empurrava para fora, para o escuro das árvores, o seu pobre monstro, que lá ia movendo os pés tardos, com a baba ao canto do queixo. O seu desejo seria erguer em torno de sua morada um muro, um alto cerrado de tábuas, que a isolasse de toda a terra. E juntamente sofria em ter assim enclausurado o seu pobre Cristóvão, naqueles escassos palmos de cabana e de horta, em o trazer escondido como um fruto amaldiçoado, de que ela se envergonhava. Toda a sua alma simples e reta andava afogada em tristeza e sombra. E já não duvidava que a monstruosidade do seu filho, era o castigo que a Virgem Maria dera ao seu orgulho de mãe. Tão certa andara de que o seu Cristóvão seria divinamente lindo como o Menino Jesus que S. José erguia nos braços, que a Virgem se escandalizara no fundo dos Céus. E bem justamente! Como poderia o fruto, de um ventre servil, ser igual em beleza ao fruto de um ventre divino?

Uma tarde que assim pensava, movendo o seu fuso, sentiu na horta um rumor, e como pedras batendo a folhagem da cerejeira. Inquieta, abriu o loquete, e viu três pajens do castelo que por trás da sebe, joviais e cruéis, escarneciam o seu filho, e lhe atiravam, como a um bicho numa toca, pedras e torrões secos. E Cristóvão, mais forte que os pajens, mas sem compreender, apenas erguia a mão ante a face, imóvel no meio da horta assoalhada. Ela arrebatou-o desesperadamente para dentro, atirou a porta, enquanto os pajens, ofendidos com a audácia da serva, apedrejavam os muros da cabana. Desde esse dia a pobre mãe começou a definhar. Era uma dor surda, um desconsolo de tudo, que a deixava longas tardes imóvel, com a roca esquecida na cinta, o fuso caído no chão, perdida, entorpecida numa melancolia sem fim e sem nome. Todo o trabalho lhe pesava como um fardo inútil. Quase lhe custava a vestir Cristóvão, que nem o seu grosso gibão de estamenha sabia enfiar, e que quase fazia corar a pobre mãe, com o seu enorme corpo nu, grande como o dela, e que lhe parecia a nudez de um estranho, de um homem, que invadira o seu lar. À noite, silenciosa e pálida, repelia a sua malga de caldo,que Cristóvão logo devorava em silêncio. E não queria que o seu homem, assustado, chamasse o físico do castelo. Para quê? “O meu mal, murmurava, há de crescer e crescer...” As tardes na cabana eram tristes como as de um hospital. Tão fraca que se não podia mover do catre, ela contemplava o seu homem, sentado ao lado, com um longo olhar de saudade, o olhar umedecido de quem vai partir. Ele, com as mãos dela entre as suas, só instava para que ela experimentasse alguns dos remédios, que aconselhava a moleira, contra aquela míngua de corpo: e para o contentar, ela acedeu a atar ao pescoço um saco onde estava metida uma rã e a comer um caldo de margaridas apanhadas à lua cheia. Mas, sem dor, sem agonia, o seu pobre corpo ia como que desaparecendo, tão magro e transparente que ela via a vermelhidão da lareira através das mãos abertas.

Desde que ela adoecera, Cristóvão não abandonara a beira do catre, pasmando para a mãe, ansiosamente, como no esforço de compreender porque ela ficava deitada e de olhos adormecidos, quando sol envolvia a cabana, e até as árvores tinham acordado. Por vezes tocava-lhe o braço, o ombro, com um pequenino gemido triste. Ela murmurava, com toda a sua alma: “Meu pobre filho! meu pobre filho!” Mas voltava o rosto amargamente, se o via ir, com os seus passos lentos e balançados de urso doméstico, erguer com uma só mão a pesada bilha de água, esvaziá-la de um trago.

Era então o fim do outono. Já o lenhador, ao recolher, sacudia o saião, todo molhado da umidade da floresta: e um grande vento por vezes gemia nos pinheirais. Toda a noite a candeia ficava acesa. Numa enxerga, ao lado da lareira, Cristóvão dormia sob peles de cabra, fazendo um grande vulto na sombra, ressonando tão fortemente como uma forja. E a pobre mulher, o homem ao lado, sentado na tripeça, entorpecido de fadiga e de sono, não dormia, pensando no abandono e na tristeza em que caíra aquela pobre cabana, de que ela fizera um ninho tão doce! Quem cozinharia a sopa do seu homem, quem trataria daquele pobre monstro, que nem sabia enfiar o seu gibão? Um grande soluço sacudia o seu peito magro: - e o lenhador despertando, estremunhado, arranjava a manta que cobria o catre, ou ia remexer nas brasas da lenha.

Uma noite, em que havia um grande silêncio no arvoredo e no ar, porque caía a neve, ela sentiu um grande frio que lhe passava no rosto, e através do desmaio que a tomava, estendeu a mão, apalpando para dizer para sempre adeus ao seu homem. E os seus olhos vagos e lentos encontraram então os olhos do seu Cristóvão, que se erguera, embrulhado numa pele de cabra, e estava aos pés do catre, atento, e como esperando, num espanto. Moveu os lábios para lhe pedir que se deitassem se agasalhasse, mas só pôde suspirar, desfalecida... E pareceu-lhe que, diante, o seu filho começava a crescer visivelmente; já os seus cabelos ruivos tocavam o teto da cabana; o colmo esgarçou, e, através da abertura, Cristóvão crescia para o céu mais alto que os pinheiros, já com a face perdida entre os flocos de neve; e tão feio e monstruoso que as estrelas fugiam pelo ar, como almas assustadas. Deu um grito. O pobre lenhador despertou, debruçando logo sobre ela, a tremer. A sua companheira parecia adormecida. Então Cristóvão veio lentamente em torno do catre, e pondo as mãos, de leve, sobre os cabelos que um suor umedecia, gritou:

— Ó mãezinha, mãezinha, não durmas!

Cristóvão falara! O seu filho falava! Um rubor de infinito contentamento subiu-lhe ao rosto macerado, que ficou imóvel, sorrindo: - e a boa fiandeira partiu desta terra para o além...