São Cristóvão/X

São Cristóvão por Eça de Queirós
Capítulo X


Longos dias caminhou. O país era deserto, com rochas; grandes despenhadeiros. A sede levou-o a um regato, que cantava entre as pedras. Bebeu, e foi seguindo aquela água clara que fugia. Ao fim de longas marchas encontrou um rio. Colinas suaves, onde branquejavam casas, erguiam-se dos dois lados da corrente serena e muda, orlada de salgueiros. Uma ponte antiga ligava as duas margens – e tendo-a passado avistou, erguidos, recortados na manhã clara, os muros de uma cidade. Quase de repente duas portas, sob uma torre que encimava a muralha, rodaram: - e delas irrompeu uma multidão que fugia. Era gente que trazia às costas as enxergas, as bilhas de água. As crianças, chorando, agarravam-se às saias das mães; os velhos erguiam os braços, para que esperassem por eles – e por vezes todos se afastavam de algum cavaleiro, que, embuçado no manto, a pluma do chapéu ao vento, se escapava ao galope de um ginete magro. Um fumo, como de fogueiras, subia por trás das muralhas; as ameias não tinham sentinelas; e todo o ar estava cheio do dobrar de finados, badalado nas torres.

A turba que fugia, vendo Cristóvão, corria mais espantada, tropeçando, caindo sob o peso dos fardos; ele estendia os braços para amparar os velhos; o terror crescia: - e em torno de suas pernas, como em volta de torres, a multidão debandava gritando.

Chegou por fim à entrada da cidade. Dois soldados atônitos fecharam as portas. Cristóvão galgou o fosso, transpôs as muralhas. Diante dele abria-se uma rua, com trapos caídos nos enxurros, e todas as portas fechadas sob as tabuletas, que rangiam na haste de ferro ao vento agreste. Um fétido terrível tornava o ar pesado: e dois frades, erguendo o hábito, fugiam de um homem que se espojava no chão, com a face toda verde, a boca escancarada, gritando por água! Cristóvão correu para ele, ergueu-o nos braços, levou-o a um chafariz, onde a água jorrava de carrancas. O homem bebeu a largos tragos – as suas pernas inteiriçavam-se, e ficou nos joelhos de Cristóvão morto, já quase decomposto. Mas, de uma casa próxima, gritos soavam; e, erguendo a face, viu uma velha esguedelhada, que da esguia janela, onde restava um pé de flor seca num vaso, chamava por socorro, torcendo os braços. Das janelas vizinhas faces pálidas espreitavam. Mais longe, prantos novos se ergueram; Cristóvão, tendo posto o cadáver no chão, olhava espantado sem compreender a dor que parecia pesar na cidade. De uma taberna. subitamente, saíram soldados bêbados, cambaleando, cantando, com as faces lívidas de uma noite de vinho e orgia. Cristóvão ia interrogá-los – quando um de repente caiu, torcendo-se num agonia. Os outros, subitamente desembriagados, fugiram. E Cristóvão acudia ao agonizante, quando ele ficou hirto, morto. Ao fundo da rua passava uma procissão em que um padre, de túnica branca, erguia um relicário que reluzia, enquanto mulheres, atrás, descalças, desgrenhadas, torciam os braços, clamando para o Céu misericórdia. Os sinos não cessavam o seu dobre a finados: e homens trazendo barricas de breu, acendiam às esquinas fogueiras que subiam ao ar, fazendo estalar o vidro das gelosias.

Um padeiro, mais pálido que uma tocha, abria a uma esquina as tábuas da sua loja. Cristóvão dirigiu-se a ele, e curvando-se, com as mãos os joelhos, perguntou-lhe que mal corria na cidade, e por que soavam tantos prantos. O homem recuara inquieto, perguntando por seu turno se ele viera com saltimbancos para se mostrar. Cristóvão disse que não, e com um gesto mostrou o horizonte distante de onde vinha. Então o homem aconselhou-lhe que fugisse, porque a cidade morria da peste negra.

Quando assim falavam, um ruído de correntes arrastadas ressoou no lajedo. E dois homens, com cadeias de ferro presas aos pés, apareceram, trazendo um morto numa padiola. Atrás outros homens, de faces sinistras, com correntes aos pés, traziam outros mortos... Eram os forçados das galés, que iam enterrar os mortos, guardados por soldados, que faziam estalar no ar compridos látegos de couro. Então Cristóvão tomou aos ombros os dois mortos que jaziam junto à fonte, e começou a seguir os forçados. Assim saíram das portas, até chegar a um olival, onde estava plantada uma cruz. Uma vala irregular e tortuosa atravessava sob a ramaria pálida. À pressa, os forçados atiraram os mortos para dentro, e com as enxadas lançaram sobre eles uma ligeira camada de terra. Ao ruído, bandos de corvos, que pousavam nas oliveiras, bateram o vôo, grasnando furiosamente.

Cristóvão sacudiu as mãos da terra, e sem atender aos brados dos soldados que o chamavam, recolheu à cidade, ao acaso, por outra porta, que estava toda tomada por outro funeral, onde havia frades, escudeiros com círios em torno de um caixão, cujo pano de veludo tinha um brasão bordado. Então, todo o dia percorreu as ruas, socorrendo os que caíam, desviando os mortos do meio das calçadas – e ao escurecer já se tornara tão familiar, que das gelosias gritavam: “Eh homem!” Ele vinha, carregava os mortos para a vala, limpava a imundície dos pátios, corria a encher as bilhas de água – e mesmo alimentava as crianças que estavam sozinhas nos casebres.

Como em todas as casas havia um morto, e se receava o contágio, a multidão errava pelas ruas, entregue ao terror e ao delírio. As mulheres, os velhos, corriam às igrejas, a implorar às relíquias, saltavam por cima dos cadáveres que atulhavam os adros. Estes, julgando que o mundo ia findar, corriam às tabernas, arrombavam as pipas, e as blasfêmias dos ébrios juntavam-se ao pranto das mulheres. A cada esquina havia rixas – e por vezes, numa rua deserta, onde todos os moradores tinham morrido, Cristóvão tinha que expulsar os porcos, que roíam ossos humanos. De resto os animais, abandonados, percorriam as rua, e por vezes um cavalo espantado, um touro fugido do matadouro, corriam, esmagavam a gente, e era Cristóvão que os segurava com os seus punhos enormes.

A cada instante os gritos dos doentes abandonados o detinham. De rastos, ele introduzia o seu vasto corpo pelas escadas estreitas, e ia dar de beber aos doentes, limpar-lhes as imundícies, oferecer-lhes o seu vasto peito para eles morrerem sobre o calor de um coração humano. Por vezes um moribundo queria a extrema-unção; mas os padres tinham fugido, os raros que ainda haviam não bastavam para tantos moribundos; e Cristóvão, tomando um crucifixo, de joelhos, bradava junto do leito fétido: “Jesus, meu Senhor, sê com este infeliz!”

Todas as noites havia grandes penitências. Bandos de homens, de mulheres seminuas, corriam as ruas, rasgando as carnes, cobrindo a face de lama, cantando cânticos ferozes em que as invocações ao Senhor se confundiam com apelos ao Demônio. Por vezes, de repente, uma voz gritava: “É culpa dos judeus!” E a multidão, tomando chuços, agarrando fachos, corria às casas dos judeus, que apareciam oferecendo sacos de ouro, e caíam sob os golpes, ou ficavam com as barbas queimadas.

Nas ruas ricas os palácios estavam fechados: e através das janelas sentiam-se músicas e o tinir das baixelas de prata, porque alguns pensavam que se devia esperar a morte no seio do prazer. Outros, porém, iam de casa em casa, em festas seguidas: - e viam-se cavaleiros, sem manto, com gotas de vinho nas barbas agudas, caminharem na rua, entre tocadores de bandolim e de flauta, tropeçando com os seus imensos sapatos bicudos nos cadáveres abandonados: e, para os ver passar, surgiam aos balcões mulheres pálidas, com o seio descoberto, peles de arminho na orla do vestido, e a cabeça coberta de uma mitra aguda de onde pendiam molhos de longas fitas, que o vento fazia ondear como flâmulas de mastros.

Toda a noite Cristóvão trabalhara. Como os guardas não fechavam as portas, por vezes os lobos, atraídos pelo cheiro da podridão, apareciam nas ruas escuras. E Cristóvão, que juntava os cadáveres, corria contra eles bradando, com uma tocha na mão. Os mortos, que assim juntava, ia-os de manhã sepultar nos campos de oliveiras. Depois ia colher à serra ervas aromáticas, que salvam da infecção, e pondo-se às esquinas oferecia-as à gente que saía das suas moradas e que, tomando um milho, se afastava respirando-o com confiança. Como os ladrões abundavam, Cristóvão vigiava a casa dos cambiadores da moeda, dos joalheiros: e se surpreendia uns homens correndo, com alguma coisa escondida sob o saião, tirava-lha e ia depositá-la numa igreja. Era ele quem distribuía a água, varria as imundícies, acendia as fogueiras para depurar o ar. E pouco a pouco, era tão conhecido, que as mulheres, vendo a sua sombra passar rente das gelosias, chamavam sobre ele a benção do Senhor. Os ricos atiravam-lhe bolsas com que ele ia comprar pão às viúvas. Os seus passos eram por vezes embaraçado pelas crianças, que se prendiam às suas pernas como a colunas. Os mercadores confiavam-lhe as suas tendas. Quando ele se ajoelhava à porta de uma igreja, dentro as orações eram mais ardentes. E como ele acarretava as lenhas dos soldados, polia as suas armas, rondava por eles as portas – os soldados gritavam na rua: “Viva Cristóvão!”

Uma tão grande popularidade inquietou o sobrinho do príncipe, que, tendo o seu tio fugido da peste, com o seus tesouros e concubinas, governava a cidade, e queria, por ambição do poder, ganhar as simpatias do povo. Mas a sua face lívida e dura, sobre um corpo enfezado e corcunda, desagradava às mulheres por sua fealdade, aos soldados por sua fraqueza. Um dia em que ele seguia uma procissão, com as relíquias de S. Teódulo, o povo, à sua passagem, permaneceu com o joelho apenas dobrado. Logo atrás, porém, entre o povo, vinha Cristóvão, como uma torre entre casebres. Um mercador rico dera-lhe vinte varas de pano de Flandres, para um saio: e todo ele sorria na sua simplicidade, agitando duas palmas verdes que as confrarias dos Irmãos Hospitaleiros lhe tinham dado, como emblema da sua caridade. Ao vê-lo, o povo, que se apertava contra as portas fechadas, rompeu a gritar seu nome entre bênçãos: “Bom Cristóvão! Cristóvão grato ao Senhor!” Uma dama atirou-lhe a flor que tinha no seio. Os velhos baixavam a cabeça como na passagem de um justo.

O conde, adiante, tornara-se mais pálido. E nessa noite dizia, sentado à lareira, desapertando o gibão: “Quem me livrará daquele monstro que transvia o povo!” Os guardas, tendo combinado baixo a um canto, vieram, cercando a sua alta cadeira de espaldar, animar por adulação o seu secreto pensamento. Não era conveniente, na verdade, que um ser disforme, dos que se mostram nas feiras, ganhasse assim raízes no coração do povo... De resto, a sua força seria depressa domada com fortes correntes de ferro. E não havia, fora da cidade, um despenhadeiro, onde se poderia lançar o corpo do imenso bruto? E quando, na manhã seguinte, Cristóvão começava o seu almoço junto da catedral, um pajem veio, sorrindo, e convidou-o a ir à presença do príncipe, que lhe queria dar ouro, e vestidos que conviessem a um homem tão serviçal. Pensando que os vestidos serviriam a cobrir os presos, que a miséria trazia nus, Cristóvão sacudira as mãos, onde a broa se esfarelara, e obedeceu ao pajem, que corria para lhe seguir as passadas.

Apenas Cristóvão entrara no palácio, as grossas portas, eriçadas de ferros, foram fechadas. O conde, que estava num balcão, gritou agitando o povo emplumado: “Eh Cristóvão!” E como ele movia um passo, sorrindo, com a face erguida para o balcão, de onde pendia um veludo franjado de ouro – dois soldados meteram-lhe bruscamente entre as pernas uma trave, e Cristóvão tombou no lajedo. Logo, de todas as portas, romperam homens inumeráveis, que cobriram o imenso corpo deitado, como as formigas cobrem um tronco. Num momento foi amarrado com grossas correntes e ferro: e para que nenhum grito dele saísse, uma mordaça tapou-lhe a boca. Depois todos, recuando vivamente, contemplaram em silêncio o gigante vencido. O príncipe desceu para ver, com damas, cujas caudas eram como longas tiras de tapete sobre o pátio. E os pajens cuspiam sobre a sua face barbuda. Ele pensava no Senhor que fora flagelado – e mais nos pobres que ele servia, e que decerto nesse dia sentiriam a sua falta. Todo o dia ficou assim cercado de lacaios, de cozinheiros, que deixavam o serviço para o vir ver. E no coração de alguns havia compaixão.

A noite desceu, escura, sem uma estrela. Então Cristóvão abriu os olhos. Os cães de fila, soltos, rondavam o pátio. A sentinela dormia, à porta, encostada à lança: e das altas ogivas do palácio vinha um clarão, e um rumor de violinos. Então Cristóvão retesou os músculos – e com grande ruído todas as correntes estalaram. Diante da grande forma erguida, os molossos fugiram, latindo. A sentinela, largando a lança, fugiu. E Cristóvão, de um só golpe de ombros fazendo estalar a porta, saltou o fosso, entrou nas ruas desertas. Mas de repente parou, pensando que se revelasse a traição do conde, o povo, os soldados, que o não amavam, lhe fariam mal, e, se a calasse, o conde, decerto o faria matar. Assim se ficasse, ou o seu sangue correria, ou correria o sangue dele por sua causa. E então Cristóvão dirigiu-se à grande porta da cidade. À luz de um retábulo da Virgem os soldados jogavam os dados. E vendo Cristóvão, perguntaram-lhe se o príncipe lhe dera uma bolsa, ou panos para um vestido. Cristóvão murmurou:

— O príncipe deu mais que eu esperava.

E passou, penetrou nos caminhos, deixando para sempre a cidade onde fora bom aos aflitos.