São Cristóvão/XIV

São Cristóvão por Eça de Queirós
Capítulo XIV


O castelo perdeu então para ele todo o seu encanto: - e como que sufocado entre os seus altos muros, voltava os seus pensamentos para os campos e para as moradas dos servos, entre quem nascera. Como a paz era tão grande, nenhum dos serviços de guarda era feito com exatidão: as sentinelas dormiam nos torreões, como frades no locutório; os porteiros deixavam os molhos de chaves pendentes das argolas de ferro; e a torre dos arquivos não precisava ser guardada. Logo pois que a varria, Cristóvão, tomando o bordão, ia pelas terras do feudo, pelos casebres dos colonos e servos.

Todos o conheciam. Havia sempre para ele um pichel de vinho:- e Cristóvão brincava com as crianças ou ajudava a tosquiar os anhos. Pouco a pouco, tornou-se o serviçal de todos, e, como outrora na sua aldeia, era ele que acarretava os fardos, rachava a lenha, compunha os telhados, lavrava os chãos mais duros. Mesmo por vezes ia pastorear os rebanhos, ou guardava os moinhos. À noite ficava entre aquela pobre gente, sem pena do bom calor das cozinhas do castelo, do pão fresco, e da sua larga porção de carne salgada. Reunidos à lareira, num dos casebres, eles passavam o fim da tarde já escuro, olhando o lume, onde as raparigas assavam castanhas na cinza. E Cristóvão, no meio deles, escutava o seu falar lento e grave. Os mais velhos contavam histórias do velho conde, homem cruel, que nos campos impelia o seu corcel contra os lavradores, ou talava os vergéis. Diz-se que tinha pacto com o Demônio:- e muitos o tinham visto caçar de noite, à luz de tochas, guiado por um caçador todo escarlate , que tocava uma trompa de onde saíam chispas de lume. Outros tempos mais doces tinham vindo com o outro conde, o que morrera nas guerras, e com as damas, tão clementes, que as forcas patibulares estavam apodrecendo. Mas quanto lhes pesava ainda aquele alto castelo, de brasões e de flâmulas! Que dura era ainda a vida, sempre sujeita, toda de duro trabalho! E cada um contava a sua miséria, o labutar incessante, o pão escasso, os filhos rotos pelos grandes frios, a fome por vezes vindo com os seus dentes de loba... As vozes iam-se tornando mais tristes. O vento entrava pelas frestas dos casais. As mães, com um suspiro, embalavam os berços, onde dormiam inocentes, votados à mesma servidão e à mesma miséria. Cristóvão sentiu o seu coração doer, com uma compaixão infinita.

Às vezes um frade mendicante batia ao portão, e entrando, deitando as bênçãos, arrumando a um canto o seu alforje, ia aquecer às lareiras os pés doridos dos caminhos, lacerados pelas urzes, e o hábito de burel que fumegava. Filho de vilões, tendo nascido nas lavouras, conhecia as misérias da servidão: e, frade pobre, sofria da opressão, do orgulho dos prelados ricos, com castelos e terços armados. Então sentado na melhor tripeça, com o seu rosário caído entre os joelhos, ele falava também da miséria dos tempos. Certamente Nosso Senhor, cansado de tanta maldade dos grandes, não tardaria a voltar à terra, distribuir melhor o pão, reformar as ordens, abater o orgulho dos rico-homens. E quem sabe? Incompreensíveis são os caminhos da providência! Talvez, para castigar os castelos, Deus revoltasse as cabanas. Um chuço fura melhor a armadura, quando é a mão de S. Miguel Arcanjo que o impele. Talvez na Terra se repetisse em breve a batalha do Arcanjo e do Demônio. Já um fogo andara no céu, para o lado do oriente. E sobre o mar tinham-se visto, erguidas e entrechocando-se, uma foice e uma lança. E então, baixando a voz, contava como nos condados que atravessava, os homens se juntavam de noite numa floresta e tramavam o fim da servidão.

Cristóvão recolhia ao castelo pensativo. E todas aquelas torres, aquelas muralhas lhe pareciam de um aspecto cruel e hostil ao pobre. Por que não haveria para todos a mesma lareira, o mesmo pão? Aqueles tesouros, que ele guardava na torre, seriam a abundância para criancinhas sobre toda a terra. Para que eram tantas armas? Os homens não se deviam combater, mas somente abraçar, em concórdia.

Um dia que ele assim pensava, sentado à beira dos fossos, um velho veio a passar, um dos servos do castelo, picando o seu burro carregado de erva. Parecia ter pressa, e no seu olhar havia como uma inquietação. Ao ver Cristóvão, parou dizendo: “Novas más, novas más!” E como Cristóvão arregalava os olhos simples, o servo contou que no mercado, de onde viera, corria entre a gente que um bando de servos se levantara, num domínio, além, para trás das colinas, tendo por brado: “Morte aos castelos!” Outros servos se tinham juntado, com chuços. Toda a terra parecia em revolta. E já dois castelos tinham sido atacados, as damas mortas, as crianças mortas, e agora as duas torres ardiam sobre a colina. E, sem outra palavra, picou o seu burro carregado de erva. Mas imediatamente Cristóvão se ergueu e o começou a seguir. Quando chegou, atrás dele, à aldeia, já havia grupos no adro, já se falava baixo à porta dos casais. A nova viera no vento, e a todos espantava. Nas faces dos homens moços havia como uma emoção, uma dúvida, se não seria o dever de todos os homens tomar as foices, as enxadas, fazer armas com o ferro dos arados, ir juntar-se aos irmãos de servidão, vingar os pobres. Os velhos abanavam a cabeça, numa grande prudência. De que serviria? Sempre os barões venceriam, descendo dos seus grandes corcéis. E as mulheres, inquietas, lembravam a bondade das donas do castelo, as suas esmolas, os pedaços de anho que pelo Natal mandavam a todas os casais. Que seria se o bando viesse atacar o castelo? Não havia soldados para o defender, nem armas. Pobres senhoras, tão sós e fracas. Pobre condezinho, tão fraco e só!

Cristóvão escutara em silêncio. E em silêncio, também, recolheu ao castelo. Toda essa tarde rondou as muralhas, como para lhes estudar a solidez e a resistência. Depois, com os seus punhos fortes, palpou as portas. E como nesse momento o intendente passava, seguido do seu grande cão, perguntou:

— Que fazes, Cristóvão?

Ele respondeu:

— Anda gente má pelos campos: é necessário levantar a ponte.

O intendente sorriu, encolheu os ombros – e nessa noite fez rir as damas, contando os terrores do gigante. Cristóvão, porém, não dormia. No alto da torre da almenara, toda a noite espreitou as terras em redor. Ao longe, sobre uma colina, havia como fogos de um acampamento, mas nenhum rumor se ouvia, senão o cantar dos sapos na planície. Quando a alvorada veio, Cristóvão desceu: - e indo às abegoarias, escolheu duas trancas enormes de ferro, que serviam para trancar as portas, agora desusadas. Depois a sineta tocou à missa no ar fino. O arquivista veio sentar-se entre os in-fólios, e as damas distribuíam o trabalho às fiandeiras e às servas. E todo o castelo repousava na santa paz do domingo – quando um pajem, que nas ameias fazia uma armadilha aos pássaros, soltou um grito que acordou os arqueiros, adormecidos na sua guarita de pedra. Logo um som de buzina, um grande apelo de alarme ressoou. Todos os pajens correram às ameias. As damas apareceram por trás das vidraças do balcão. E os cozinheiros saíam aos pátios, com as suas caçarolas na mão.

Bem depressa correu o grito que um bando armado avançava sobre o castelo. Os pajens correram, em confusão, à sala de armas, a tomar espadas, lanças. Os guardas trancavam as portas, desesperadamente. E o intendente, com os cabelos ao vento, gritava que se aquecesse o pez, o alcatrão, para despejar sobre o bando se ele quisesse escalar as muralhas, Mas ninguém escutava, na desordem. A longa paz desabituara os habitantes do castelo da disciplina, da prontidão. Não havia um cavaleiro para comandar. E as mulheres, correndo para a capela, e chorando, amoleciam os corações.

Subitamente um grande alarido ressoou sob os muros. Cristóvão subiu às ameias: - viu um bando imenso e homens, servos em farrapos, brandindo foices, chuços, tochas, amontoando-se na ponte levadiça, que ninguém se lembrara de erguer, enquanto outros em redor, a grandes machadadas, abatiam as forcas patibulares e o banco de pedra a justiça, que o musgo cobria, sob o olmo senhorial. Já golpes de machado ressoavam contra a porta, fazendo saltar faíscas. Um tronco enorme, que mãos inumeráveis sustentavam, foi trazido, arremessado, como um aríete, contra a porta, em que ele marrava como um carneiro. De cima, os arqueiros despediam flechas com mão mal segura. Cada grito de ferido mais excitava a turba, as machadadas redobravam – e a velha porta bem depressa foi aberta em lascas. Então os arqueiros, os pajens, desceram para se refugiar na torre – e Cristóvão, tomando nas mãos as trancas de ferro, correu para o torre senhorial. Dentro, na grande sala abobadada, estavam as damas pálidas, uma junto da outra, com o condezinho entre elas, quase escondido nos seus vestidos. O velho senescal rezava de joelhos. E, em torno, amontoavam-se os in-fólios, os arquivos da casa, as grandes árvores genealógicas, tudo o que fazia o orgulho daquela família. Era como uma cidadela do feudalismo, onde tudo se achava resumido, a esperança de uma casa, os seus títulos, os seus tesouros, todo o seu orgulho. E tudo aquilo era ameaçado por uma plebe revolta!

Cristóvão fora humildemente postar-se ao funda da sala abobadada. E tão grande era o seu terror, tão arraigado o desdém pelos servos que não era nele que os Senhores pensavam, nem no poderoso socorro de sua força indomável, mas nas espadas dos pajens, a quem elas gritavam que defendessem a porta.

Através dos pátios, no entanto, já os gritos dos feridos ressoavam por entre o clamor da turba de Jacques, que vinha como uma onda que arrebentou os diques. E mal a porta da torre fora fechada, que sobre ela caíram enormes machadadas, entre uivos de furor, o ruído dos vidros que se partiam, os gritos dos servos assassinados. Dentro ninguém falava, todos com olhos cravados naquela porta atacada – velhas pranchas de carvalho e ferrugentas chapas de ferro, que eram a única defesa contra a morte. Os pajens, mas pálidos que a cera, amolecidos pelos anos de paz, sem educação guerreira, faziam diante das mulheres uma sebe de espadas – espadas cujas pontas tremiam. O capelão rezava de bruços. E o arquivista estendia os braços por cima dos seus in-fólios, como para os proteger, com os olhos cravados na porta, e estremecendo a cada machadada. Só a avó parecia serena, sustentada pelo seu orgulho, com o peito direito, preparado para a morte, enquanto a nora sucumbia agarrada ao filho, banhando-o de lágrimas. E pela escada de caracol, que subia ao pavimento superior, apinhava-se a criadagem, as aias – algumas ainda com a sua roca na mão.

Sob os golpes desesperados a porta cedia! Pelas fendas da muralha entrava o fumo das fogueiras, que os Jacques acendiam no pátio para pegar o fogo ao castelo, com os móveis que arrastavam das salas, cadeiras brasonadas, arcas cheias de estofos. Já ninguém contava com a vida. Duas aias velhas, de rosário na mão, pediam a absolvição, ao padre, que as não escutava, de joelhos, batendo os queixos, entre os gritos de misereres.

De repente a porta cedeu, tombou sob os seus grandes gonzos estalados – e pontas de chuços, de foices, faces lívidas, braços descarnados. irromperam numa fúria de matança. As damas tinham fugido. Já um grande velho, em farrapos, pulava por sobre a porta, com uma foice em cada mão – quando, do fundo da abóbada, Cristóvão surgiu, enorme, com a face ardente, uma barra de ferro em cada mão.

Foi como uma aparição – e a turba furiosa recuou com terror. Era como se surgisse ante ela, visível, real, esse gigante monstruoso, guardador de torres, de que eles tinham ouvido falar, pálidos de espanto, nas histórias contadas à lareira. E nesse momento de espanto, Cristóvão, com um grande brado, carregou sobre a turba, que recuou em tropel, recolhendo os chuços e as foices. Baixando a cabeça, Cristóvão rompeu da porta como uma grande torre, e no grande ar do pátio a sua figura escura, coberta de uma pele de lobo, com duas chamas brilhando sob a hirsuta sebe das sobrancelhas, pareceu saída do Inferno, e como cheia de força invencível. Os seus brados faziam tremer os muros: - e as duas barras de ferro furiosamente cortavam o ar, silvando. A cada um dos seus largos passos, a turba recuava, com um rouco murmúrio de terror. Alguns tinham fugido por entre as fogueiras, onde ardiam os grandes móveis de carvalho lavrado. As mulheres do bando gritavam que era o Demônio: - e um ou outro chuço que se erguia, voava em lascas sob os golpes da barra de ferro.

Para trás, para trás, sempre para trás, ia a turba, reatravessando os pátios, tropeçando nos servos que matara, caindo por sobre os lumes que acendera. Já estavam contra a muralha. Já as costas se voltavam para fugir. Então, com um último urro, que atroou toda a colina. carregou sobre a turba – que, num súbito pavor, varou a porta aberta, galgou a ponte levadiça. desceu de roldão a colina, até parar no vale, onde os carros esperavam. E Cristóvão, passando também a ponte, ficou no meio da colina imóvel, grande como uma torre, apoiado à sua barra de ferro e limpando o suor. Mas então, de entre a multidão que embaixo se agitava, um velho avançou, sem armas, com um ramo de oliveira na mão – e caminhou para Cristóvão. A meio da colina parou, e erguendo os braços perguntou a Cristóvão, porque os atacava ele, servo, que decerto sofria da servidão, a eles, servos também, que no fim de tantos tempos de sofrimento, só queriam partilhar de algumas doçuras da terra? Não era só pelo mal de destruir que eles atacavam os castelos. É que ali, entre as suas muralhas, estava a gente orgulhosa que os escravizava, causava a fome dos seus filhos, o frio das suas moradas, as fadigas sem nome – e eles vinham simplesmente matar o mal da terra. Ele, velho, que lhe falava, trabalhara cinqüenta anos a gleba, tivera o corpo vincado pelos azorragues, vira a sua choupana queimada pelo Senhor: em torno dele, longos tempos seus filhos tinham gritado de fome, tremendo de frio – e, escorraçado, esmagado, pisado, espremido pela força com um trapo vil, tomara uma faca, e partira a fazer justiça no mundo. De todos os seus, só lhe restava um neto, um neto pequenino, de seis anos, inocente e simples como um anho. E porque ele tirara uma maçã das macieiras do pomar do castelo, onde era servo, o Senhor fizera-o dependurar pelas mãos de uma árvore, acirrara contra ele os cães, e toda uma noite de inverno o deixara nuzinho sob a neve. Quando o despregaram da árvore estava moribundo. E a voz do velho tremia. Cristóvão deixara cair a barra de ferro, e com as mãos vazias e vagas, e abertas no ar, a cabeça caída, parecia pensar, no fundo da sua simplicidade. E o velho, avançando, perguntava-lhe por que não viria com eles abater os monstros que matam crianças nos seus negros castelos, acabar com os amos cruéis, para que sob o céu, um momento, os humildes respirem e limpem as lágrimas. E o velho limpava as suas lágrimas, com as suas pobres mãos que tremiam. Então, lentamente, Cristóvão apanhou a sua barra. Pouco a pouco desceu a colina. E o velho adiante gritava agitando o ramo, tropeçando nos pedregulhos.

— Este é o grande gigante que nos vem libertar!

Os Jacques mal compreendiam. Alguns, vendo descer Cristóvão, fugiam saltando os valados. Outros, furiosos, enristavam os chuços. Mas Cristóvão, brandindo a barra, gritou:

— Vinde!

E num impulso irresistível, todo o bando o seguiu numa aclamação – enquanto das muralhas do castelo o intendente, entre os homens de armas, de pé nas ameias, estendia o braço, mostrando Cristóvão, que se bandeava com os Jacques, e partia através das campinas.