Uma Lágrima de Mulher/II/II

Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Segunda Parte, Capítulo II


Não há nada tão desastrado e perigoso como mudar repentinamente de posição.

Modificam-se os caracteres mais firmes e delicados e confrangem-se as crenças mais arraigadas; é um desmoronar doloroso, é um despertar de náufrago: ilusões desfeitas, convicções profanadas, afetos destruídos, tranqüilidade nula, amor proscrito - tais são os efeitos da luta desigual dos hábitos de toda vida com o capricho vaidoso de um dia; tais são os rastros que, após a tormenta, sobrenadam à flor do oceano revolto da alma, restos de um coração que naufragou.

Grosseira e estúpida é a que leva o homem a trocar a paz segura do lar pela suposta fortuna.

Foi isso que sucedeu à família do pescador - enriqueceu.

Para alguns, enriquecer é naufragar, não em alto mar, porém em alta sociedade.

O vício é a fome desse naufrágio.

Maffei enfronhara-se na opulência como uma casaca alheia: sentia-se mal; incomodavam-lhe as mangas compridas demais, porém a tudo fechava os olhos, contanto que desses sacrifícios resultassem para ele dignidades e considerações.

Era o seu sonho dourado.

E com essas honras e com esses supostos títulos acharia ele a felicidade?

Não, de certo, porque a verdadeira felicidade é incompatível com o ruído e o fulgor. Não, porque ela é tranqüila, singela, econômica a alheia a tudo que é brilhante e espetaculoso.

A felicidade, como o mais neste mundo, é relativa, e só pode subsistir dentro de seus competentes limites.

Maffei, cego pela ambição, buscava uma felicidade alheia. Desgraçado!... fatalmente seria vítima da sua cegueira, tanto quanto uma ave que tentasse mergulhar ou um peixe que quisesse voar.

A casa cinzenta da rua de Toledo era propriedade do antigo pescador.

Com algum jeito, conseguiu introduzir nela o jogo elegante; receber todos os sábados e gastar todos os dias.

O Ouro é para o parasita o que o imã é para o ferro: em pouco tempo, encheram-se os salões de Maffei. E no meio daquela gente que o adulava, o rico burguês sentia-se grande, invejado e respeitável..

Entretanto, aquela roda se desenvolvia e multiplicava com a prodigiosa fecundidade da larva.

Mas donde vinha essa gente?

Não sei!... A podridão que responda donde lhe vêm os vermes.

Tudo neste mundo tem a sua conseqüência, o seu séquito próprio de misérias, o seu acompanhamento natural e espontâneo - a glória tem a vaidade; o amor o egoísmo; a podridão o verme. É a lei fatal dos contrastes e dos extremos tocados: não há sentimento que não tenha uma extremidade na terra e outra no céu, um pé no berço e outro no túmulo, um olho na luz e outro na treva.

Foi por isso que, a cabo de três anos, Maffei tinha com heróicos esforços, cevado, relacionado e habituado aos costumes de sua casa uma roda de homens elegantes, que fumavam, bebiam e jogavam à custa dele.

Houve que lhe proporcionasse ocasião de especular com os seus bens: triplicou-os.

Já era poderoso e ridículo, antipático e adulado; é justo viesse a ser rico e desgraçado.

E, com efeito, passava os dias entregue sempre a esse cogitar aborrecido, que produz a preocupação doentia dos homens excessivamente ambiciosos; nada desfrutava, nada o distraía, nada podia arrancá-lo das profundezas de suas preocupações; vivia a mergulhar no fundo dessa cisma constante e estéril, que faz de um homem um bicho insuportável.

Maffei seria insuportável, se não fosse rico.

Mesmo durante o sono, o pobre diabo não vivia menos apoquentado: nessa segunda existência aturava coisas horríveis! Às vezes, numa especulação, perdia todos os bens e via-se a esmolar inteiramente pobre com a filha; outras vezes, dava para roubar e era preso como ladrão, condenado às galés e coberto de grilhões e pancadas; noutras ocasiões era Miguel que lhe aparecia formidável, saindo do mar, cheio de sangue, de limo e de cólera, a exprobá-lo como se espancasse um cão; e, coisa mais singular, Maffei, que acordado só se lembrava de Miguel com indiferença e desprezo, durante o sono temia-o covardemente, e deixava-se bater por ele, trêmulo e suplicante a seus pés, confessando as próprias culpas e reconhecendo a razão da parte do adversário. Um dia, Rosalina afigurou-se-lhe descomposta e sem pudor a injuriá-lo; outra vez, foi enforcado e seu carrasco era Cristo, que do alto do cadafalso, poético, louro, cheio de bondade, sorria piedosamente para ele; cometia, às vezes, sacrilégios e então acordava em gritos e prantos; enfim, Maffei durante o sono sofria horrivelmente dominado e combatido por um inimigo tremendo e mau, que o fustigava e repelia apesar de sair dele próprio.

Queremo-nos referir a esse eu, que durante o sono sai de nós e à parte constitui livremente a sua individualidade, pensando, praticando e resolvendo muito a seu bel-prazer, sem nos ouvir, sem nos consultar.

Vezes há que, durante o sonho, a despeito da nossa honra, roubamos, a despeito da nossa coragem, choramos aos pés de um inimigo, e a despeito do nosso amor, matamos o próprio pai ou irmão. E o - eu - independente e arbitrário dos sonhos faz-nos caprichosamente assassinos, ladrões e covardes, sem por isso ter nenhuma responsabilidade ou castigo.

Por outro lado, Rosalina transformava-se de dia para dia. Já não dava mais a mais pálida idéia da antiga camponesa, formosa e louçã, cheia de singela ternura, amada, mulher na idade, criança na inocência. Além da beleza, nada mais restava desse encantador mais divino que humano, mais anjo que mulher, desse ente que outrora com a sua garganta e o seu coração incensava de poesia e cantos matutinos a casinha branca.

Fizera-se elegante e não sem trabalho.

Teve de vencer certos obstáculos renitentes como a linguagem, a princípio, depois os movimentos, a voz, o olhar, o sorriso, tudo, toda essa beleza fora necessário desmoronar, e com que dificuldade! Para sobre as ruínas dela construir-se outra beleza mais falsa, mais cara e menos rara - a elegância. A elegância começa sempre onde a natureza acaba, é uma viciosa continuação pelo homem.

As regras do canto, os passos da dança, a música, os preceitos de civilidade, a distração afetada, a gramática são coisas fáceis de aprender na meninice, porém obstáculos assustadores na idade em que já se não tem respeito aos mestres.

Todavia, Rosalina venceu todas as dificuldades.

Agora, não a incomodavam mais os vestidos justos, decotados e de enorme cauda, afizera-se aos sapatinhos à moda francesa, e o triunfo seria completo se, de vez em quando, sob os invólucros de seda e de rendas bordadas, não quisessem as desenvoltas carnes da outrora camponesa, proclamar sua independência, violando colchetes e estalando alguns pontos mais delicados do vestido.

Quanto não custou habituar aquelas belas mãos tão morenas e tão gordinhas às luvas apertadas!

Os dedos repeliam os anéis, o pescoço o colar, os braços a pulseira!

Como não suspiravam os delgados pés pelos sapatos frouxos com que dantes corriam?

E os cabelos? Os belos cabelos pretos de Rosalina, que dantes tão vaidosamente se ostentavam ao sol com seus reflexos de azul-ferrete? Coitados! Choravam agora escondidos e presos nos caprichosos penteados cheios de flores artificiais e pedrarias. Mas na sua raiva, tinham razão os cabelos, que tão bonitos como aqueles, compravam-se falsos penteados; porém tão belos cabelos como dantes mostrara Rosalina, só os pudera ostentar quem os possuísse naturais.

Em suma, Rosalina já não era uma rapariga, era uma senhora.

Conhecia todos os segredinhos das salas, já sabia ostentar um sorriso fingido as visitas de cerimônia, aturava maçadas sociais com aparente alegria, ajeitava a fisionomia a sorrir e ficar triste, segundo a ocasião, como impõe a sábia delicadeza, tinha amizades convencionais, ares de proteção e tinha também sempre engatilhado nos lábios um formidável - Oh! - para todas as pessoas que lhe mereciam respeito e acatamento.

Estava completa a obra.

O ouro derretera-se, dele levantaram-se as duas espirais de fumo - Civilização e Hipocrisia. Estas duas forças combinadas possuem um fluído capaz de transformar um anjo em mulher e uma mulher em demônio.

Rosalina respirou esse fluído e aprendeu a grande ciência da vida - sabia esquecer, sabia odiar e sabia mentir.

Quando a gente chega a conhecer tanta coisa não pode mais, nem precisa aprender o que é ser boa e honesta. Maffei cada vez estava pior.

A despeito da tua tão próspera fortuna, entristecia progressivamente como um velho urso de feira; vivia cada vez mais concentrado e sombrio, procurando o isolamento e a solidão.

Afetava uns instantes de prazer quando se metia na roda dos amigos; chegava mesmo, com força de vontade, a arranjar uma espécie de sorriso artificial, com que os obsequiava; consistia essa espécie de sorriso em dilatar os lábios, avincar as peles franzidas do rosto, que lhe sustentavam as mandíbulas, e por entre os dentes soprar uns sons bestiais, que se podiam classificar entre uma nota desafinada de clarinete e o ronco gutural de um porco.

Estava no entanto civilizado - tinha cabeleireiro próprio, vestia-se com distinção, bebia licores que estragam o estômago e o cérebro, e jogava tão bem como qualquer fidalgo de alta linhagem.

Que faltava, pois?

Simplesmente duas coisas - esperar mais algum tempo e casar a filha com algum titular de pura nobreza e reumatismo gotoso. Bela expectativa!

Da família, foi Ângela quem menos se modificou. Cada vez mais devota, encerrava-se no quarto, indignada contra tudo e contra todos. - Que não a procurassem! Não se queria comunicar com pessoa alguma. O que, digamos de passagem, sobremaneira satisfazia o ex-pescador, que pensava consigo: - Ora que diabo vai fazer nas salas esta velha ridícula e burguesa, senão incomodar a mim e divertir os mais? Antes trate ela de liquidar este restinho de vida, que para pouco ou nada lhe poderá servir.

Contudo, ia a boa mãe Ângela bocejando as suas intermináveis orações e transformando insensivelmente a religiosidade em mania. Mais dois passos e despenhava com certeza aquela carga de ossos no idiotismo.