Uma Lágrima de Mulher/II/VI

Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Segunda Parte, Capítulo VI


Dois dias decorreram depois da última noite do baile; e Rosalina, como vamos ver, chegou a descobrir a origem da música esquisita e plangente, que nessa noite embalara poeticamente os seus prosaicos amores com o moço de bigodes pretos.

Antes, porém, de prosseguir, seja-nos permitido dar de passagem uma idéia ligeira do perfumoso ninho de Rosalina.

Constavam os seus aposentos particulares simplesmente de uma sala vermelha e de uma alcova cor de lírio, ligadas entre si por elegante portinha, em cujos ornatos entalhados dos olivares, florões polidos de encarnado carmezim sobressaiam, como espumas de sangue, da brancura natural da madeira. De uma única janela existente na sala debruçava-se sobre o jardim pitoresca balaustrada de mármore rajado, feita e disposta ao antigo gosto veneziano. A sala era oitavada, guarnecendo-lhe as faces do octógono quadro do mesmo feitio, que molduravam um metal branco brunido formosas gravuras sobre aço; as cortinas da mesma cor das paredes prendiam-se graciosas em cornijas também de metal branco, uniformizadas pelo brilho com as reluzentes peanhas dos ângulos das paredes e com os trabalhados tamboretes igualmente de metal. Os pés de quem tivesse a fortuna de entrar nesse paraíso elegante, desapareciam silenciosamente no tapete, cuja felpa abundante e sedosa dava ao andar de quem o pisasse a suavidade voluptuosa dos passos macios do gato - parecia andar a gente descalça sobre algodão em rama. No centro dessa luxuosa salinha uma mesa redonda pé-de-galo, coberta por magnífica casimira da China, sustentava um candeeiro de alabastro, com listrões de ouro lavrado; num dos ângulos da parede, mimosa escrivaninha mostrava o necessário para ler e escrever; num outro, acomodava-se belo esquentador de pedra negra, guarnecido por um relógio de bronze e dois soberbos vasos de porcelana do Japão. O mais seriam cadeiras, divãs estofados, cristais da Boêmia e uma infinidade de nadinhas de luxo, que dão a qualquer sala um aspecto embonecado e fútil.

A alcova cor de lírio tinha, pouco mais ou menos, o lugar suficiente para o toucador e para a cama, da qual à direita, pelo lado inferior, equilibrava-se suspenso um enorme espelho de Veneza, onde se refletia todo o quarto e principalmente o leito; e do lado esquerdo, à cabeceira, encostava-se um bufete, onde se via uma garrafa de cristal de rocha, cheia de falerno, rodeada de delicadíssimos cálices e doces cristalizados e apetitosos; as pés da cama, vasta tapeçaria representava com muito engenho o grupo sublime das três graças de Canova.

O relógio marcava meia-noite. Rosalina fitava-o, reclinada pensativa em um divã, acompanhando maquinalmente o tique-taque da pêndula com a pontinha do pé, dobrando e desdobrando um papel cor-de-rosa, que tinha entre os dedos.

Ia triste e silenciosa a noite - só se ouvia distintamente a pulsação monótona dos segundos. Impressiona sempre ouvir o pulsar de um relógio - afigura-se-nos sentir palpitar o eterno coração do tempo.

Rosalina, depois de longo e profundo cismar, brandiu para trás os cabelos, e levantou-se, como se tivesse chegado intimamente à solução de qualquer dúvida. E fazendo com a cabeça esse movimento sacudido que tão bem exprime a indiferença, disse, despregando de leve os lábios com um quase imperceptível estalar de língua - Seja!

Depois, muito tranqüila de si, levantou-se, espreguiçando-se, despreocupadíssima, e foi amarrar no marmóreo balcão da varanda, branquejada frouxamente pelo luar, o seu claro lencinho de rendas francesas, como quem arvora um sinal.