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Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo/XLVI

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Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo por Garcia de Resende
De como el-rey perdoou ao duque de Viseu a culpa que neste caso tinha, e da morte do duque de Bragança


E logo ao outro dia depois da prisão do duque, el-rey mandou chamar o duque de Viseu aa casa da raynha sua yrmaã e perante ella lhe fez hũa fala na qual o reprendeo muyto dizendo-lhe que elle fora sabedor de todas as cousas passadas que o duque de Bragança e o marquês seu yrmão contra elle quiseram cometer; e que se com rigor e justiça o quisera castigar, cousas tinha sabidas delle por onde com direito o podera fazer. Porém por ser filho do yfante Dom Fernando seu tio e por sua pouca ydade e polo amor que sempre lhe tevera e tinha e principalmente por ha raynha sua yrmaã que ele sobre todas tanto estimava e amava, lhe perdoava tudo livremente, e dava por esquecidos quaesquer erros ou culpas que neste caso tivesse, dando-lhe sobre tudo tam vertuosos e verdadeyros conselhos e ensinos, que ho infante seu pay se fora vivo lhos nam podera dar milhores; e o duque por nam ter escusas nem repricas sem falar palavra algũa lhe beijou a mão por tamanha merce. E a raynha que ysto muyto estimou com palavras de grande amor e muita prudencia o teve muito em merce a el-rey.

E pera o caso do duque de Bragança mandou el-rey vir a Evora todollos leterados da Casa da Supricaçam que entam estava em Torres Novas, e foy logo dado por juyz o licençeado Ruy da Grã muito bom homem, e de muyto boa conciencia e bom letrado, e por procurador d' el-rey o doutor Joam d' Elvas, e por precurador do duque ho douctor Dioguo Pinheiro que depois foy bispo do Funchal homem fidalgo e de muito boas letras e bom saber, e da criaçam do duque, e com elle Afonso de Bairros que era avido por hum dos milhores procuradores do reyno. Aos quaes el-rey mandou e encomendou que com muito cuidado e estudo precurassem e defendessem a causa do duque, e que por ysso lhes faria muyta merce.

Foy feyto e dado libello contra ho duque que logo procedeo com vinte e dous artigos fundados naquellas cousas em que parecia elle ser culpado; hos quaes polo juiz lhe foram logo levados onde estava e todos lidos, de que o duque mostrou logo algũa torvaçam, porque na substancia delles conheceo claramente que muitas cousas suas eram descubertas que elle avia por muito secretas e escondidas. E depoys de estar hum pouco cuidoso ante de nada responder, encomendou a Ruy de Pina que era presente que fosse dizer al rey seu senhor, que aquelas cousas e en tal tempo nam tinham reprica mais propia de servo pera senhor nem que mais conviesse a sua grandeza, vertudes e piadade que a que o profeta Davi disse a Deos no psalmo: “Et non intres in juditium cum servo tuo Domine, quia non justificabitur in conspecto tuo omnis vivens”. E que quando ysto que a elle por todos respeitos mais convinha nam quisesse fazer, que entam por sua dinidade e por ser assi dereito lhe quisesse dar juyzes conformes a elle e que seu feito mandasse determinar a principes e duques pois o ele era; e el-rey ouve tudo isto por escusado e mandou que todavia respondesse e se livrasse por dereyto. E alem das cartas, estruções, e escripturas que logo pera prova do libelo foram no feito oferecidas, se preguntaram pellos artigos delle, estas pessoas por testemunhas, convem a saber: Lopo da Gama, Afonso Vaz secretario do marquês, Pero Jusarte, Lopo de Figueiredo, Diogo Lourenço de Montemor, Jeronimo Fernandez, Fernam de Lemos, e Joam Velho de Viana de Caminha, todos da criaçam do duque e de seus yrmãos, cujos testimunhos pareceo que fazia prova ao libello, nem avia a elles contraditas nem lhas receberam.

Foy ho processo contra ho duque acabado em vinte e dous dias, e nenhũa deligencia que pera ele cumprisse foy necessaira fazer-se fora da corte. E pera final determinaçam delle foram per mandado d' el-rey juntos pera juyzes alguns fidalgos e cavaleiros do reino homens sen sospeita que com os letrados foram por todos vinte e hum juyzes. E tanto que o feyto foy concruso, os juyzes foram todos juntos em hũa sala dentro do apousentamento d' el-rey armada de panos da ystoria, equidade e justiça do emperador Trajano. Onde se pôs hũa grande mesa aparelhada como cumpria pera o auto, em que da hũa parte e da outra os juyzes estavam todos assentados, e no tope della el-rey, e junto com elle ho duque assentado em hũa cadeyra, a quem el-rey em chegando a elle e em se despedindo guardou inteiramente sua cortesia e cerimonia. Ho qual veo ali duas vezes, em que vio ler o feito e pellos precuradores da hũa parte e da outra desputar em grande perfeiçam os merecimentos do processo. E a terceyra em que pubricamente se aviam de repreguntar as testemunhas em pessoa do duque, el-rey o mandou pera ysso chamar, e elle se escusou e nam quis vir, dizendo a Ruy de Pina que o foy chamar estas palavras: “Dizey a el-rey meu senhor que eu me confessey e comunguey oje, e que agora estou com o padre Paulo meu confessor falando em cousas de minha alma e do outro mundo, e que estas pera que me.chama sam do corpo e deste mundo e de seu reyno de que elle he juyz; que as julgue e determine como quiser, porque a yda de minha pessoa nam he necessaria”, e nam foy. E com esta reposta mandou el-rey logo despejar a sala pera sobre a final sentença tomar hos votos dos juyzes. Aos quaes ante de votarem fez el-rey hũa fala em que lhe encomendou ho que devia como virtuoso e justo rey, e isto com muitas lagrimas que todos aquella noite lhe viram correr; porque cada voto que cada juyz concrudia na morte do duque el-rey chorava com grandes soluços e muita tristeza. E no votar se deteveram dous dias menhã e tarde, com a noute derradeira muyto tarde em que finalmente acordaram todos com el-rey que na sentença pôs ho seu passe, que vistos hos merecimentos do processo, conformando-se no caso com as leys do reyno e imperiaes, e com a pura e muy antigua lealdade que aos reys destes reynos de Portugal se devia sobre todos, acordaram que ho duque morresse morte natural, e fosse na praça d' Evora pubricamente degolado, e perdesse todos seus bens, assi hos patrimoniaes como hos da coroa pera o fisco e real coroa d' el-rey. E acabada d' assentar e assinar a sentença, tomou el-rey logo com todos assento sobre o que na execuçam della se avia de fazer.

E aos vinte dias do mes de Junho do anno de mil e quatrocentos e oytenta e tres de noyte ante manhaã tiraram ho duque dos paços encima de hũa mula, e Ruy Tellez nas ancas apegado nelle e muyta e honrrada gente a pee que o acompanhava com grande seguridade. E ho duque em sayndo cuidou que ho levavam a algũa fortaleza; e quando vio todos a pee, ficou muyto enleado e muy triste. Foy assi levado a hũas casas da praça, que parece cousa de notar, porque o dono della se chamava Gonçalo Vaz dos Baraços, e em Evora nam se vendiam senam em sua casa. Onde ho duque conheceo ha verdade que logo claramente lhe foy descuberta por o padre Paulo seu confessor que o ja estava esperando, e lhe deu com muitos confortos e esforços a muy triste e desconsolada nova, a qual o duque recebeo com palavras de muyta paciencia e muy em si como homem muy esforçado.

E logo ahi fez hũa cedula de testamento que elle notava e hum Christovam de Bayrros escrivam escrevia, na qual assinou com ho padre Paulo seu confessor. Em que por descarreguo de sua alma declarou algũas cousas, principalmente pedio aa duquesa sua molher por merce, e assi a seus yrmãos, e encomendando a seus filhos por sua benção e encomendou a seus criados que todos por o caso de sua morte nam tevessem odio nem escandalo contra algũa pessoa que lha causasse, nem muyto menos contra el-rey seu senhor porque em tudo o que fazia era verdadeiro menistro de Deos e muy inteiro executor de sua justiça, porém nam decrarando se era ou leixava de ser culpado no caso por que morria, falando muytas cousas e fazendo em tal tempo algũas perguntas como de homem muy acordado e de grande esforço, e sobre tudo catolico e bom christam. E mandou pedir perdam a el-rey com pallavras de muyta umildade e de acusaçam de si mesmo, e pedio que antes de padecer lhe trouxessem o recado como lhe fora em seu nome pedido e assi se fez.

E tanto que o duque entrou nas ditas casas, foram logo juntos muytos carpinteiros e oficiais, e com muyta brevidade fezeram hum grande e alto cadafalso casi no meo da praça, e hum corredor que de hũa janella das casas hia a elle, e no meo do cadafalso outro pequeno pouco mor que hũa mesa, mais alto com degraos tudo de madeira cuberto de alto a baixo de panos negros de doo, e feito como avia poucos dias que a el-rey perante o duque disseram que se fizera em Paris outro tal com tal cerimonia a hum duque que el-rey Luys de França mandou degolar. E no fazer do cadafalso e corredor que era grande e no que mais era necessario se deteveram tanto que eram ja mais de dez oras do dia, no qual tempo o duque cansado e desvelado da noyte polla grande agonia em que estava pedio de beber, e sobre figos lampãos bebeo hũa vez de vinho. E em hũa cadeira d' espaldas em que estava assentado se afirma que se encostou e dormio hum pouco. E acordado tornou a estar com seu confessor, e disse que fizessem o que quisessem que ele nam tinha mais que fazer. Vestiram-lhe hũa grande loba, capello e carapuça de doo. E ataran-lhe diante ao cinto com hũa fita preta os dedos polegares das mãos. E em lhos atando lhe disseram que ouvesse paciencia e nam se escandalizasse porque assi era mandado por el-rey. E elle respondeo: “Sofre-lo-ey e mais hum baraço no pescoço se sua alteza o mandar”. Sahio assi ao corredor por onde avia d' ir ao cadafalso, e diante delle confessores e religiosos com hũa cruz diante encomendando com devotas orações sua alma a Deos. E quando vio o cadafalso e da maneira que tudo estava ordenado, lembrou-lhe o que vira contar a el-rey sobre o duque que em Paris degolaram e disse: “Aa como em França”.

E nesta morte do duque o fez o conde de Marialva muyto honrradamente, que sendo meirinho-mor e mandando-lhe el-rey que fosse estar com ho duque, lhe pedio muyto por merce que tal lhe nam mandasse; porque antes perderia quanto tinha que o fazer porque era grande amiguo do duque; e el-rey lhe conheceo de sua rezam e o escusou e mandou servir de meirinho-mor a Francisco da Silveira que ora he cõdel-mor. O qual com muyta gente d' armas, e elle ricamente armado foy lá com vara de justiça na mão e o duque quando o vio assi pesando-lhe disse: “Bem galante está Francisco da Silveira”. Foy com muyta segurança atee o cadafalso que era defronte da capella de Nossa Senhora, e em chegando se pôs em joelhos e com os olhos na imagem se encomendou com muita devaçam a ella, e os religiosos dizendo-lhe palavras pera tal ora de muito esforço e grande confiança em Deos. Mas ele foy sempre tam esforçado, tam inteiro na fee, e tanto em seu inteiro acordo, que pareceo que pera sua salvaçam has nam avia mester. E porque a gente principal do reino acudio toda a el-rey era a praça tam chea de gente d' armas, que nam cabia nem pollas ruas, e a cidade toda em grande revolta, ho confortaram muyto que de vista e rumor tam espantoso não tomasse torvação nem escandalo; e elle respondeo: “Eu nam me torvo nem escandalizo do que me dizeis, porque se ho posso ou devo dizer Jesu Christo Nosso Senhor nam morreo morte tam honrrada”. E falando com o confessor perguntando-lhe se se lançaria, se sobio ao outro cadafalso mais alto donde todos o viam, e assentado nelle com os olhos em Nossa Senhora encomendando-lhe sua alma, chegou a elle por detras hum homem grande todo cuberto de doo que lhe nam viram o rosto, ho qual se affirma nam ser algoz e ser homem honrrado que estava pera o justiçarem, e por fazer esta justiça em tal pessoa foy perdoado; e com hũa toalha d' olanda que trazia na mão lhe cubrio hos olhos, e com muita honestidade o lançou de costas pedindo-lhe primeiro perdam; e acabado hum espantoso pregam que hum rey d' armas dezia e dous pregoeyros em alta voz davam, ho homem com hum grande e agudo cutello que tirou debayxo da loba perante todos lhe cortou a cabeça. E acabado de ho assi degolar se tornou aa casa donde o duque sayra por o mesmo corredor sem ninguem saber quem era. E o pregam dezia assi: “Justiça que manda fazer nosso senhor el-rey, manda degolar Dom Fernando duque que foy de Bragança por cometer e trautar trayçam e perdiçam de seus reinos e sua pessoa real”. E el-rey tinha mandado que tanto que o duque fosse morto tocassem ho sino de Sancto Antam; e estando el-rey com poucos ouvio tocar ho sino, e em no ouvindo levantou-se da cadeira e pos-se em joelhos e disse: “Rezemos polla alma do duque que agora acabou de padecer”, e ysto com hos olhos cheos de lagrimas; e assi em joelhos esteve hum espaço rezando por elle e chorando.

E certo ho duque recebeo a morte com tanta paciencia, tanto arrependimento e contriçam de seus peccados, tanto esforço, e em tudo tam achegado a Deos que muytos se maravilharam de tam sanctamente morrer, porque em sua vida nam era avido por tam devoto como na morte mostrou, antes por homem muito metido nas pompas e cousas deste mundo mais que nas do outro. Esteve assi o corpo do duque pubricamente no cadafalso aa vista de todos por espaço de hũa ora, e dali sem dobrarem sinos nem aver choro, ho cabido da See com a clerezia da cidade com suas cruzes e muitas tochas acesas o levaram honrradamente ao Moesteiro de Sam Domingos, onde foy soterrado na capella mayor. E na corte nam tomou pessoa algũa doo por elle, salvo el-rey que esteve tres dias encerrado vestido de panos pretos com capuzes cerrados e barrete redondo.