Entretanto, no palácio, recolheram-se os duques aos seus aposentos...

Num espaçoso salão que abre as janelas para a escadaria do edifício ficaram o marquês d'Etu, o chefe de polícia, o dr. Jassey e todos os que haviam chegado com o fidalgo de Santo Cristo.

Ao retirar-se, o duque de Bragantina, com certa desatenção ostentosa, atirara-lhes uma única palavra:

— Esperem...

O marquês de d'Etu fez uma interessante careta de desgosto, como achando a pílula amarga.

O dr. Louro Trigueiro sentiu o rosto crescer de despeito e olhou com uma expressão idiota de enfiado para os que o cercavam. Aquela palavrinha magra, de entonação feminina, com um som desafinado de requinta, causou-lhe cólica. Torceu-se o amor-próprio do chefe de polícia, torceu-se a avareza do príncipe dos cortiços.

— É assim que este homem trata os negócios graves... — murmurou insofridamente o dr. Trigueiro, dirigindo-se ao marquês.

— Que quer?! É poderoso!... — responde este, batendo o pé com impaciência.

O dr. Jassey e os outros adivinharam as frases dos despeitados e trocaram entre si uns sorrisos cruéis.

O marquês devorou-os com o olhar.

Muito tempo esperaram, reunidos, dizendo pequenas palavras, mascando, surdamente, impaciências. Quando acharam demais, dispersaram-se pelo salão e cada um foi para a sua janela contemplar o parque em falta de outra distração.

Os pássaros recreavam-se ao belo sol da manhã, pulando de galho em galho na ramagem dos pés de magnólia, dando gritos miúdos e batendo céleres as pequenas asas pardas; os beija-flores passavam como agulhas cintilantes, riscando no ar um trilho de faíscas coloridas, ou pairavam imóveis violando lubricamente o nectário das rosas.

E a gente da sala bocejava, menos o marquês, que se desesperava em silêncio, fungando significativamente, e o dr. Louro, que, descansando os cotovelos num peitoril, olhava abstrato, engolfado na estupidez da mais bovina resignação às agruras do seu cargo.

Entretanto, a chamado do sr. duque de Bragantina, um homem viera ao palácio pela entrada dos fundos. Barafustara familiarmente até os íntimos aposentos do duque e fora encontrá-lo no seu gabinete.

Merece especial descrição esse compartimento do palácio.

É uma pequena sala de quatro portas, uma em cada parede, das quais duas comunicam com o museu e a biblioteca do duque e as outras com o quarto de dormir e uma sala de espera, por onde se passa para as peças anteriores do edifício.

Tem um aspecto extravagante. As paredes são forradas de papel cor de borra de vinho, semeado de grandes desenhos da mesma cor, porém desmaiada, com uns traços de ouro a esmo. Sobre as portas desdobram-se espessos reposteiros da cor sombria do papel. Há pouca mobília: uma grande mesa de escritório pesada e firme sobre quatro bojudas pernas feitas a torno, uma cadeira de braços girando em parafuso sobre uma sólida tripeça, formada por três garras de leão em feixe, duas outras cadeiras comuns, um armário envidraçado e uma longa espreguiçadeira almofadada de peludos coxins com umas depressões marcadas pelo seu uso frequente.

Sobre a mesa amontoam-se papéis de várias naturezas, jornais, livros; no meio, está uma escrivaninha de prata, com a coroa e iniciais do duque gravadas num medalhão, algumas canetas deitadas sobre ganchos de descanso e um lápis vermelho entre as canetas.

Em cima das pilhas de papel vê-se uma caveira denegrida pela idade; não tem a maxila inferior e crava a dentuça proeminente no papel sobre que se acha, rindo-se com as cavernas da face como uma estátua irônica da morte.

No meio dos papéis da mesa há um pequeno folheto de capa amarela, de que se pode apenas ler metade do título:

... OS DIVINOS.

Pouco acima da mesa, há diversos papéis suspensos por uma mãozinha dourada: o primeiro que aparece tem este curioso e terrível dístico:

A DESMORALIZAR

seguido de uma lista de nomes. Inimigos do duque.

Em um dos ângulos do gabinete há dois ganchos. De um deles pende uma enorme coleção de jornais de todos os títulos; do outro ainda uma coleção de jornais, mas ilustrados com caricaturas. O mais visível apresenta a crítica dos episódios de uma viagem, em que o viajante cai muitas vezes da cavalgadura.

A luz do dia entra maciamente pelo vidro fosco de uma claraboia no meio do teto, e abre um cone de branda claridade por cima de tudo, desde a caveira tétrica, que lembra o pulvis es, até a preguiçosa com os seus coxins deliciosos amassados, como parece em convulsões de gozo.

Fora do alcance da luz mais forte, clareados, apenas pelos reflexos que sobem do chão e pela difusão do dia, circula pelas paredes do gabinete uma fileira de retratos, entre os quais se vê um todo envolvido em crepe finíssimo, através do qual se divisam as lindíssimas feições de uma distinta moça.

Neste aposento, estava constantemente o duque, quando se achava em Santo Cristo.

Gostava do seu gabinete. Ali ficava à vontade. Ninguém penetrava naquele recinto senão o seu particular e um único criado. A própria duquesa havia muitos anos que não visitava o gabinete. Em compensação, algumas fidalgas da intimidade do duque, e consideradas por ele, conseguiam, de vez em quando, espiar o misterioso aposento...

Manuel de Pavia também ali aparecia frequentemente.

Naquele gabinete, onde o grande duque ocultava os maiores dissabores e os seus prazeres medrosos, afogado em eterno crepúsculo, no meio do qual se passam idílios cheios de sorrisos e beijos, furores, cheios de imprecações e ameaças, ouviam-se muitas vezes diálogos interessantes travados entre o duque de Bragantina e o seu íntimo Manuel de Pavia.

Foi a uma destas entrevistas que compareceu Pavia, chamado pelo duque.

Pavia pediu licença por formalidade, à porta que dava para o museu, e foi entrando.

— Sabe para o que o chamei? — perguntou o duque com uma voz complacente.

— Suponho que sei, sr. duque...

— Deve saber... Lembra-se da sua promessa?

— Perfeitamente... Garanti que hoje começaria e de fato comecei.

— Conseguiu?

— As suas ordens são executadas sempre, sempre, apesar de tudo...

— Adiei a minha ida para Anatópolis, com o fim de vê-la hoje mesmo — disse o duque, sem olhar para Pavia.

— Ela estará em nossa casa para receber...

— Vou visitá-la à noite...

— Quando queira... As portas estão abertas para V. Exa. a qualquer hora...

Manuel de Pavia se tinha conservado de pé, a alguma distância do duque. O fidalgo falava sem virar-se. À última palavra de Pavia, fez girar a cadeira sobre o parafuso e voltou-se de frente para o íntimo.

Pavia, quando se dispunha a pedir licença para retirar-se, viu-o franzir a testa em rugas horizontais. O duque ia fazer alguma pergunta. Pavia esperou, prevendo alguma coisa grave.

O senhor de Bragantina, depois de um instante de reflexão, dirigiu-lhe um olhar atravessado e perguntou de modo irresistivelmente inquisitivo:

— Que história de roubo é essa que tanto barulho tem feito hoje nesta casa?...

— Da burra?

— Creio que não; ali não entra qualquer mão como numa gaveta e...

— Já sei... Não seria do armário, onde as joias ficam às vezes?

— Naturalmente... Não tenho certeza, porque até a pouco estive em casa e, só quando vinha para aqui, me deram a notícia...

O duque soltou uma pequena risada, levantou a cabeça sorrindo, e encarou o íntimo. O olhar do fidalgo foi como uma sonda até o fundo da alma de Manuel. O íntimo sentiu um arrepio correr-lhe pela espinha dorsal, mas afrontou heroicamente o olhar e sorriso do seu amo. Dir-se-ia que na pele morena do rosto quebraram-se-lhe esse sorriso e esse olhar, como duas lanças numa couraça.

— Então, sr. Manuel, o senhor não me pode informar...

— Dentro de um minuto, posso alcan...

— Já sei... E se eu lhe disser que você, desde ontem, sabe de tudo?

— Desde ontem?... Não compreendo o que V. Exa. quer dizer...

— Eu quero dizer o que disse... você, desde ontem, sabe de tudo...

— Juro que... nem vi chegar o homem que devia trazer do palácio do sr. marquês de *** as joias...

Nova risada esperta do duque.

— Não vejo motivos para o sr. duque supor que eu minto...

— Ora... ora... Eu bem sei que você é a criatura mais santa que o céu cobre...

— Lá isto, nem o sr. duque... — aventurou Pavia, entre sorrisos.

O senhor de Bragantina não deu ouvido à insolência açucarada do seu servidor...

— Pois eu digo que o sr. Manuel de Pavia, meu veterano confidente de segredos, sabe de tudo, desde ontem e, mais ainda, sabe onde estão as joias desaparecidas...

— V. Exa. me chama simplesmente de ladrão...

— Ladrãozinho só — pilheriou o duque.

— Ladrão! — murmurou Pavia, afetando-se penalizado.

— Então, meu Pavia, você pensa que eu não o conheço?

— Se o sr. duque me conhece, por que deposita confiança num ladrão?...

— Num ladrãozinho — retificou o duque, no tom de chacota que assumira. — Depositei confiança em você porque... é preciso que haja gente para tudo...

— O sr. duque fala de mim como um limpador de esgotos...

— Quase...

— Mas, sr. duque, perdoe-me a pergunta... Não tenho sido o maior fiel servidor de V. Exa? Não tenho buscado sempre satisfazer aos seus desejos? Não me tenho dedicado ao serviço sem olhar perigos? Cegamente, devotadamente... Não tenho até amargado vergonhas por causa de V. Exa?... Quem será capaz de prestar-lhe os meus serviços com maior limpeza e habilidade?

— Já sei!... Já sei! Mas a que vem isso?

— São títulos à confiança que mereço... Demais, quando roubei? O que tenho roubado?

— Ora, Manuel, cale esse bico... Você canta muito bem, mas não me ilude com os trinados... Lembre-se que eu não o conheço de ontem... Diga-me lá que você é um bom servidor... diga-me que sabe tratar as avezinhas como um temível caçador... que o seu emprego o expõe a vergonhas e sovas; diga-me enfim que os moleques dão um nome feio à gentinha preciosa de seu ofício... deite todas as cantinelas; mas não me pergunte o que roubou!... Você sabe que sou rico e não me enfureço, como o marquês meu filho, porque os ratos dão no saco de farinha... O que você tira eu dou-lhe de presente... não brigo... mas não quero que se faça de ingênuo... guarde a ingenuidade para enganar as meninas tolas... não a gaste comigo... Quando quiser saber o que tirou contra a vontade do dono, pergunte pelo piano da duquesa, pergunte pelas joias de uma mocinha...

— Sr. duque, o senhor está cobrindo-me de insultos...

— Deixe-se de fingimentos, Manuel... Se estas coisas o ofendessem, você não seria o mesmo homem e eu saberia desde logo que você não servia para o emprego...

— Se tem necessidade de mim, aceite-me tal como sou, porém não me lance em rosto.

Pavia falava queixosamente, mas deixando entrever a ponta de uma ameaça.

— Eu o aceito tal e qual... Não pretendo reformá-lo, acredite. Quero apenas mostrar que o conheço profundamente... E, por isso, garanto que você sabe onde estão as joias...

— Fui eu, então, o ladrão?...

— Você o disse...

— Sr. duque, vejo-me forçado a retirar-me do serviço de V. Exa.

— Quem o força?

— A minha honra...

— Palhaço! — exclamou o duque sorrindo de pouco caso. — Honra de...

— Todos têm sua honra, sr. duque... não é privilégio dos fidalgos, que aliás muitas vezes fazem dela vestimenta de gala para os dias de festa...

— Escute, Manuel, com paciência e não recalcitre. Quem se mete n'água tira a roupa. Cada um prepara-se conforme as exigências daquilo que vai fazer. Eu bem sei que todos têm amor à vida, entretanto, quem quer o soldo e as medalhas de campanha põe de parte esse amor. Todos têm sua honra, é verdade. Mas há serviços que não se dão bem com ela. A roupa não deixa nadar; a honra impede...

— À vista disto... Sou mil vezes pior que um limpador de esgotos...

O duque abriu uma gargalhada, que concluía brilhantemente a argumentação desenvolvida contra o íntimo, e que caiu-lhe no rosto como uma bofetada.

Manuel de Pavia não se indignou; considerou-se apenas derrotado pela lógica e não repetiu a palavra honra.

— Você deixará o meu serviço... para fugir... não por...

— Fugir! — gritou Pavia seriamente zangado. — Fugir!

— Não me fale alto... Isto não lhe pode servir... A polícia não está longe de nós...

— E eu tenho medo de polícia? Se o sr. duque quiser, denuncie-me!... Entregue-me!

— Baixo...

— Falarei bem alto!

Pavia estava exaltado:

— O sr. duque entrega-me à polícia, mas eu entrego-o ao público. Contarei as suas vergonhas... Partilhei-as, conheço-as todas como cúmplice, mas eu não tenho um nome; o sr. duque não se acha no meu caso! Não terei escrúpulos por mim. Apontarei uma por uma as suas amantes; narrarei as caçadas; darei conta das minhas incumbências; lançarei à rua os mistérios do meu ofício como quem faz um despejo. Cairei na lama, mas terei a satisfação de salpicar com o baque a sua coroa de duque... Venha a polícia... Hão de acorrentar-me os punhos e os tornozelos, mas ninguém me soldará os lábios! Vossa Excelência aponta-me à polícia, eu aponto-lhe as suas misérias íntimas... Fui comparado ao homem dos esgotos... pois o esgoto não cheira a rosas... eu arranco-lhe a tampa! Contra a justiça que os duques compram a peso de ouro, eu oponho somente uma força: a minha língua!...

Pavia bateu com o dedo numa pontinha de língua que lhe saiu por entre os dentes, ameaçadora como um punhal sangrento:

— O sr. duque faça o que entender — concluiu pesadamente.

Durante a enxurrada de ameaças de Manuel, o duque guardou uma serenidade enigmática, profunda. Tendo-se voltado para a mesa, pusera-se a coçar o bigode, fitando sem atenção as órbitas vazias da caveira, que lhe ficava em frente.

Quando Pavia calou-se, o duque começou, sem mostrar ressentimento, como se as palavras do íntimo não tivessem sido dirigidas a ele:

— Por mais que você fale, Manuel, por mais que se esforce, não poderá dar me uma nova amostra do que você vale. Remexa, revolva e excrete tudo o que tem de asqueroso nessa cabeça e nesse coração, que eu só direi no fim: é exatamente o meu Manuel de Pavia!... Então supõe que quando eu o achei com cara de servir-me, não sabia perfeitamente que você se havia de acreditar poderoso, por conhecer a minha vida secreta?! Não pense, entretanto, que eu o julgo estúpido... É muito canalha para sê-lo... A razão das suas ameaças, eu bem sei, é a esperança que você tinha de amedrontar-me com um escândalo... Isto prova que você não me conhece... Você não sabe que um duque de Bragantina não pode ter medo de um lacaio? Está vendo aquela lista de nomes ali... na parede? São os tolos que se lembram de meter-se no meu caminho... cada um deles conte-se como um homem esmagado. Pois, se eles não têm força para resistir-me... um criado muito reles é que... Olhe, Pavia, no dia em que a minha latrina se revoltar, eu mando meter-lhe o machado nas tábuas...

A calma de esfinge com que o duque falava fazia um efeito terrível sobre Manuel de Pavia. O íntimo caíra subitamente da sua alucinação ameaçadora. Como que sentia na nuca o peso do calcanhar do duque. Por baixo da tez morena espalhou-se-lhe uma fugitiva palidez de medo.

Pavia, que falara numa postura declamatória, inclinou para o chão a cabeça e curvava-se como se se fosse pôr de joelhos. Não achou réplica para as palavras do duque.

— Sabe — concluiu o fidalgo, aproximando das sobrancelhas o couro cabeludo, num rictus formidável que ele possuía para os momentos de amedrontar —, sabe, Manuel, para que serviram as suas ameaças vis?... Valeram uma denúncia... Verificou-se a minha suspeita... O ladrão das joias... é você!...

As últimas palavras do duque foram pronunciadas secamente, rapidamente, pesadas como a fórmula de um veredicto; o tom feminino da voz transformou-se-lhe nuns sons enérgicos, agudos, penetrantes.

Pavia reuniu o que lhe restava de coragem, e arriscou:

— Sr. duque, juro...

Não pôde continuar.

O duque levantou-se e cortou-lhe a palavra:

— Siga-me! — disse-lhe.

Pavia considerou-se perdido. Lembrou-se de confessar o crime e pedir perdão, lembrou-se de correr pela porta do museu e saltar de uma janela para fugir da quinta. Mas não era possível. Faltavam certas providências que ele não tomara, por não prever uma tão positiva e inesperada acusação. De mais, uma espécie de magnetismo fatal o impossibilitava de escapar.

— Siga-me! — repetiu fortemente o duque.

Pavia seguiu-o. E os dois saíram pela porta que dava passagem para a frente do palácio.

No seu gabinete privado, entre aquela caveira secular e aquela preguiçosa lasciva; nesse aposento recatado, que era ao mesmo tempo gruta sombria e casta de monge, pelo crânio, e alcova perfumosa e brilhante de harém, pelos coxins; ali, à vista de Sócrates e de Epicuro, o duque de Bragantina criou um tribunal por sua conta e condenou Manuel de Pavia.

Veremos o peso desta condenação.

Depois da sua longa ausência, reapareceu o duque aos que haviam ficado à espera, sem dar-lhes explicação nem pedir desculpas...

— Graças a Deus!... — disse o marquês d'Etu ao ouvido do chefe de polícia, vendo entrar o pai.

Logo em seguida ao duque apareceu Manuel de Pavia.

Todos se espantaram com isso. O que significava a presença daquele indivíduo?

O duque explicou:

— Sr. dr. Louro — disse ele dirigindo-se ao chefe de polícia —, entrego-lhe este homem. Tenho sérios motivos para mandar prendê-lo. O senhor há de conhecê-los em breve. Prenda-o, e cuidemos de verificar quais são os culpados do roubo das joias.

— Sr. dr. delegado — disse o chefe de polícia, voltando-se para um dos delegados presentes —, queira levar este homem para a detenção.

— Sr. doutor, mando vir o carro celular...

— É inútil! É inútil! — interveio o duque com a sua vozinha fina. — Nada de escândalos aqui em casa... Qualquer carro serve... Garanto-lhes que o preso não tentará fugir... Ele sabe que, se quiser fugir deita tudo a perder... pode levá-lo em qualquer veículo...

— A vontade do sr. duque será feita — respondeu o delegado, curvando-se como um homem polido e como um lacaio.

Encaminhou-se para Manuel de Pavia:

— Está preso! — disse, pousando-lhe a mão no ombro.

Vendo-se preso, o íntimo do duque de Bragantina não reagiu. Não lhe passara sem reparo o modo singular por que o duque pedira sua prisão. Refletiu que não estava de todo perdido, como se supusera um momento.

— Das duas, uma — pensou ele. — Ou o duque, apesar de todas as bazófias, tem medo da minha língua, ou pretende entrar em negociações comigo, certo como está de que sou eu o ladrão do tesouro. Em qualquer dos casos, estou muito bem. Deixemos a coisa correr... De mais, as delícias que lhe reserva a minha conquista da Conceição hão de fazer-lhe pensar em mim... Não há perigo... A menos que o Inácio ou o outro faça alguma asneira comprometedora.

O duque se afastara de todos que o haviam rodeado quando entrou na sala, e conversara em voz baixa com o chefe de polícia.

Manuel de Pavia, em tom de súplica, pediu ao delegado que perguntasse ao duque se permitia que ele fosse despedir-se da família.

O delegado perguntou. O duque voltou-se para Pavia, fitou-o longamente com um olhar cheio de desafios, e disse:

— Vá...

E falando ao delegado:

— Não o perca de vista. As despedidas hão de ser feitas em sua presença, embora dando-se ao preso a liberdade de dizer o que quiser.

O delegado e Pavia retiraram-se do palácio.

Em frente à escadaria já não havia a multidão que aí estivera a dar de língua a propósito do roubo. Pouco e pouco, cada um se fora para sua casa ou para seu trabalho, jurando consigo mesmo que o ladrão das joias era um criado qualquer do palácio, talvez mesmo aquele que havia dado com o roubo e tanta bulha fizera com a descoberta.

A maliciosa mocetona gorda, que não dera crédito à famosa explicação da corda, deixara todos irem, e ficara perto de uma das colunas do edifício a conversar com um lacaio que vivia namorando-a. Queria ver que valor tinha um palpite que lhe viera à toa.

— Neste negócio — dissera ela — anda alguém um poucochinho maior do que um criado. Tenho para mim que toda essa baralhada vai acabar em muito segredo ou em muita porcaria...

O lacaio, encantado pela voz do seu ídolo, nem pensou nas palavras pronunciadas.

Logo que a mocetona viu sair Manuel de Pavia acompanhado de um delegado, não quis fazer a menor indagação; gingou grosseiramente com os ombros e disse entusiasmada ao seu idólatra:

— Então?!... bem eu dizia, bem eu dizia!...

O lacaio, derretido com aquele arrebatamento, revirou uns olhos idiotas, de namorado...