A chegada de Conceição à casa de Pavia foi uma festa.

Houve tanto prazer que ninguém acreditaria que o chefe daquela família fora preso. É que Manuel de Pavia dissera à mulher coisas tranquilizadoras...

Cada um cuidava apenas em fazer agrados à companheira de Claudina. As horas correram insensivelmente. Houve um jantar que surpreendeu a Conceição. Iguarias nunca vistas; vinhos nunca sonhados.

Foi notável o interesse com que a mulher de Pavia serviu de bebidas a linda hóspede. Conceição, com a sua rusticidade descerimoniosa, foi provando de tudo que lhe davam.

Ao fim do jantar, sentiu-se presa de uma sonolência estranha. Quis retirar-se. Todos protestaram, dizendo que ela não iria para sua casa, senão no dia seguinte.

Conceição ficou.

Muito cedo começou a família de Pavia a preparar-se para dormir.

Conceição foi conduzida pela dona da casa ao esplêndido aposento que lhe era destinado. Um Éden de perfumes e tapeçaria. Clareava-o brandamente uma pequena lâmpada de porcelana, a desferir luares rosados para os largos espelhos que adornavam o quarto, nos intervalos de luxuosos móveis de toilette. Duas grande janelas, veladas sob alvíssimos panos de renda pendentes de maçanetas douradas, davam passagem às aragens frescas que circulavam por fora. Erguendo-se estas cortinas, viam-se, a entrar pelas janelas, debruçados indiscretamente sobre o peitoril, frondosos ramos de jasmineiros, que alastravam de flores o peitoril e desprendiam aromas, nocivos talvez àquela hora, mas de uma doçura celestial, enervante. Era indescritível a luta silenciosa mas renhida, desses aromas com a perfumaria dos frascos perdidos pelo boudoir.

Conceição, ao entrar, sentiu-se atordoada por aquela orquestra viva de fragrâncias. Morta de sono, como se achava, não levou grande tempo a reparar nos esplendores do ninho que entregavam. Procurou a cama. Era um prodígio de marcenaria que nem de longe recordava o seu leito da casa de Januário. Conceição não gastou um momento de admiração daquelas rosetas de madeira lavrada, daquele precioso cortinado escapando-se de uma elegante cúpula de cetim azul e derramando à farta torrentes de vaporosas gazes por volta da cama...

Depois que a mulher de Pavia despiu-a e adornou-a sedutoramente com uma impalpável camisinha de cambraia cor de neve, a moça deixou-se cair sobre o colchão fofo, que fugia-lhe sob o corpo ao menor movimento, e formava-lhe sempre um berço cavado muito macio, desafiando sonhos etéreos, fazendo-a supor-se balançada numa rede de nuvens entre as estrelas.

Conceição volveu-a durante algum tempo, provando com o corpo a frescura dos lençóis; depois, cedeu ao sono. Mergulhou, segundo seu hábito, os braços debaixo do travesseiro e ficou imóvel.

Quando a mulher de Pavia veio ao aposento, trazendo à hóspede uma xícara de chá com biscoitos, achou Conceição dormindo a sono solto...

Não a despertou. Demorou sobre ela um olhar e um sorriso misterioso e foi-se para o seu quarto, tendo o cuidado de deixar aberta, numa saleta contígua ao aposento da hóspede, uma porta por onde se entrava do jardim.

A necessidade desta providência era a visita do senhor de Bragantina, que viria à sua entrevista, sem incomodar os que dormiam em outros aposentos.

Quando o relógio que fazia parte dos adornos do dormitório da moça tilintou meia-noite no tímpano oculto por trás de uma requebrada Psique, toda risonha da sua nudez lustrosa de bronze, nessa hora de caminhadas românticas à cata do ideal vedado, surgiu o duque de Bragantina à porta do ninho de Conceição.

Vinha trêmulo de sensualidade. Penetrou no seu pomar de luxúria, medroso como um menino perdido no bosque. Os perfumes do ambiente embriagaram-no.

A luz lasciva da lamparina não iluminava coisa alguma distintamente. Todos os objetos pareciam feitos de nuvem. A meia-sombra, carregada pelo azul-escuro do papel das paredes, aumentava as proporções do lugar, emprestando-lhe uns ares de imensidade.

Envolvido naquele mundo de coisas fantásticas, impregnado, até o âmago dos pulmões de cheiros inebriantes, o duque julgava-se como que suspenso numa alvorada... O seu olhar ia direto a um ponto e absorvia-se todo, sem deixar um relance para sentir a realidade...

Ela estava a dormir... Os lençóis cercavam-na como um ninho de édredon. Além de pequenina, ela encolhia-se com uma timidez infantil. Cabia toda num beijo. A respiração, compassada pelo tique-tique do relógio de bronze, fugia-lhe tranquilamente pelas narinas, soando no meio do silêncio da noite como o adejo afastado de um beija-flor. Através da cambraia da camisa que a cobria como uma lâmina transparente de neve sentia-se passar o fogo de um vulcão de puberdade. Pela gola rendada saía até a raiz dos pequenos seios, um busto fidiano de mármore cor-de-rosa, animado pela circulação ardente que formigava-lhe nos veios.

À beira daquele abismo de juventude e sedução, o duque cambaleava de vertigem...

Cada passo que dava era um arrependimento e uma vontade de fugir. A posição inocente da mocinha adormecida causava-lhe terror. Não era seu hábito porém tanta candura fazia-lhe medo. Era pavorosa aquela virgindade.

Mas cada vacilação de fidalgo era um recuo de maré crescendo. Fugia da virgindade, e a sedução arrastava-o. Marchava para a frente como um soldado covarde, aguilhoado pela disciplina. A atração do precipício era irresistível.

O duque chegou até a cama. Inclinou-se para a frente, eriçado como uma hiena. Era terrível aquele velho, inflamado de voracidade. Todo ele estremecia como se houvesse lavas a ferverem-lhe no íntimo. A violência da respiração arquejante ouvia-se-lhe como o chiar interrompido da válvula de uma caldeira. As narinas abriam-se-lhe e baixavam, recolhendo todas as emanações cálidas que subiam do leito...

Contemplou assim, por momentos, a moça adormecida.

Em seguida ajoelhou-se na pele de onça, estendida como um tapete aos pé da cama, pousou os cotovelos no chão, cruzou as mãos e sobre elas deitou as barbas. Era cruel para consigo mesmo. Queria prolongar, isto é, multiplicar a própria ansiedade.

Os cabelos soltos da moça esparramavam-se abundantes pelos travesseiros emoldurando-lhe em ébano o rosto níveo, vagamente risonho.

Este rosto estava voltado para fora, na beirinha do leito, quase pendente, assim como um fruto que vai cair de maduro. Juntinho deste semblante, castamente fechado como certas flores que se contraem durante a noite, estava a fisionomia esbraseada do ardente fidalgo. Era já um delícia incalculável para o duque a respiração morna daquele sono.

Entretanto, uma pessoa que penetrara no quarto muito antes do duque e, sentada num dos ângulos da sala, vira-o chegar, sem que o duque desse pela sua presença, levantou-se da cadeira que ocupava e aproximou-se silenciosamente dele.

O êxtase do fidalgo não o deixou perceber a pessoa que fizera ficar de pé por trás dele.

No momento em que o duque, sem mais poder conter-se, levantava-se do tapete, sentiu um peso sobre os ombros e tornou a cair de joelhos.

— Não te levantes — ordenou-se uma voz meio contida, mas ferozmente enérgica.

Aterrado, o sr. de Bragantina levantou a cabeça...

Era a duquesa!

— Não te levantes — dizia ela nervosamente. — Pede perdão à tua filha.

— Minha filha! — gaguejou o duque, fulminado pela aparição da mulher.

— Sim, tua filha, desgraçado!... a mãe acaba de morrer miseravelmente, viúva de um dos teus lacaios...

Daí a sete dias, dava-se liberdade a Manuel de Pavia e aos indivíduos suspeitos do crime.

A língua do boato murmurava que, no dia seguinte ao da descoberta do crime, o duque se levantara acabrunhado como um doente; que recebera a visita do dr. Louro Trigueiro; que começara-se a dizer então que as joias tinham sido encontradas.

Era o caso que o chefe de polícia, visitando Pavia na casa de detenção, ameaçara-o com a energia do duque, que o reduziria à última miséria, se não revelasse o lugar onde estavam depositadas as joias. O criminoso, exigindo garantias de impunidade, confessou tudo e declarou que o tesouro da coroa estava enterrado num lugar que ele mostraria... Senhor destas disposições de Pavia, dr. Trigueiro correu a comunicá-las ao duque.

Encontrou o fidalgo de mau humor como nunca lhe encontrara. Com as novidades do chefe de polícia, o duque ficou mais sereno. É que o sr. de Bragantina, profundamente abalado com a surpresa que tivera em casa de Pavia, temia que a permanência deste em detenção desse lugar a comentários, os quais, somando-se aos murmúrios necessariamente provocados pelo procedimento da duquesa, levantariam um rumor terrível ao redor do seu nome...

— Participe ao Pavia — disse rapidamente o duque ao chefe de polícia — que, daqui a sete dias, ele está livre e virá desenterrar as joias... É só o tempo de se buscar provas de culpabilidade e inocência... Isto é o que o senhor dirá, se por acaso algum estranho perguntar por que estiveram presos tão pouco tempo... Por fim de contas, não foram as provas que fizeram conhecer-se o criminoso... Foi uma suspeita que ninguém teria o direito de levantar... A polícia fui eu. Depois... o negócio acabou maravilhosamente... Para dar algum colorido característico, eu expulso de meu serviço o particular e o Inácio... Ao patife do Pavia, o mais que posso fazer-lhe é deixá-lo no ofício para que um dia um cacete honesto esmague-lhe a nuca, aí em qualquer esquina do arrabalde... Veja que sou justo...

Tempos mais tarde, apresentou-se na quinta um caixeiro, procurando sequiosamente pelo sr. Manuel de Pavia e apresentando um cartão de visita com o nome de Aleixo de tal...

Mais tarde ainda, numa pequena festa que houve na aldeola da quinta, por ocasião de um casamento de um lacaio do duque de Bragantina, a noiva, uma mocetona rechonchuda e corada, conversando com as amigas sobre o roubo das joias da coroa, remexia os olhos e os ombros, a falar:

— O meu minguinho não me enganou... Eu assegurava que o negócio havia de dar em muita porcaria ou em muito silêncio... Digam lá vocês se no palácio mexe-se mais no negócio dos ladrões... Depois da morte de sinhá Emília, que Deus guarde na sua glória... Coitada, morreu nos braços da sra. duquesa, que fugiu da casa da Gertrudes como uma doida... só muito depois disso é que me contaram em segredo que as joias tinham sido achadas no quintal de seu Mané de Pavia e que o sr. marquês d'Etu andou muito contente abraçando os inquilinos dos cortiços feito maluco...

"Eu bem dizia... eu bem dizia..."