LXIII. EM VIAGEM PARA SÃO PAULO

O Sr. Ribeiro Gomes, o negociante a quem os rapazes vieram recomendados, providenciara efetivamente para a viagem; e, quatro dias depois da chegada ao Rio de Janeiro, tomaram Carlos e Alfredo o trem, na estação da Estrada de Ferro Central.

O Dr. Caldas que os guardara sempre consigo, foi levá-los à estação. Já lá estavam o negociante e o empregado que tinha de seguir. Era este um brasileiro, moço de uns trinta anos, ares decididos.

Fazia frio, mas os rapazes quase não o sentiam, interessados pelo movimento que viam àquela hora: os trens de subúrbios despejavam ondas de povo.

A locomotiva silvou... As despedidas foram comoventes. E Carlos, quando o trem se pôs em movimento, embebido em pensamentos tristes, pensava: “Nesta longa viagem quantos amigos vamos deixando perdidos! Primeiro, papai! Depois, Juvêncio, Maria das Dores, tantos outros! — e agora, Jorge e Rodolfo...”

Tirou-o dessa melancolia o caixeiro:

— Vejam como é belo isto! — e apontava pela portinhola do trem.

Efetivamente, era uma beleza o que se via: as serras, ao fundo, envoltas em neblina, e a casaria da cidade em baixo; o trem passava, cortando ruas, margeando jardins, costeando trilhos de bondes... Mas tudo isto se via rapidamente, fugazmente. Depois as casas fizeram-se mais espaçadas: eram quase todas chalés, dentro de jardins...

— Já estamos nos subúrbios, — informou o caixeiro — é daqui que vai para a cidade toda aquela gente que viram chegar à estação central. E há trens especiais para esse tráfego dos subúrbios, parando em todas as estações por onde vamos passando...

Alfredo ouvia atento, ao mesmo tempo que examinava a fisionomia simpática e decidida do homem. Chamava-se este Rogério Cortes.

— Sr. Rogério, este nosso trem não pára?

— Pára, sim, daqui a pouco, em Cascadura, e depois em Belém e depois em muitas outras estações...

Depois de Cascadura a máquina bufou, e o comboio partiu por uma baixada igual, salpicada aqui e ali de habitações, que se tornavam cada vez mais raras à proporção que o trem avançava. O horizonte fechava-se ao fundo por uma cadeia de montanhas. Mostrando-as, Rogério Cortes recomeçou a conversa:

— É a Serra do Mar... Lá adiante, vamos galgá-la, atravessando grotões, cortando despenhadeiros, furando montanhas... Há quatorze túneis neste ramo de estrada de ferro, de Belém até a Barra do Piraí; é um trecho que se transpõe em uma hora, sempre em curvas e voltas pela serra acima. Um dos túneis, o “túnel grande”, tem mais de três quilômetros de extensão, e gasta o trem, para atravessá-lo, mais de três minutos.

Efetivamente, o comboio, desde que saiu da planície e passou Belém, enfiou pela serra, por entre cabeços de montes, a bufar ruidosamente por sobre barrancos, junto a penedias abruptas, que pareciam vir esmagá-lo. Varava túneis, e transpunha pontes, parando de vez em quando.

— Barra do Piraí! — anunciou o chefe do trem.

— Aqui acabam os túneis e a montanha. Tem este nome o local, — explicou o caixeiro, — porque neste ponto deságua o rio Piraí no soberbo Paraíba. Nesta estação a estrada bifurca-se; a linha do Centro segue para Minas, e a linha de São Paulo vai margeando o Paraíba pelo vale acima até entrar no Estado de São Paulo. Lembram-se da estação de Maxambomba, que lhes mostrei, logo depois de sairmos do Rio de Janeiro?... Foi aí que entramos no Estado do Rio de Janeiro; agora, estamos no Estado do Rio, e iremos por território fluminense até depois de Rezende: aí entraremos no território paulista, cuja primeira estação é Queluz.

Com isto, o trem já havia chegado à Barra do Piraí.

— Vamos almoçar; o trem demora-se aqui vinte minutos.

Almoçaram e partiram. O horizonte era agora outro: o longo vale quase plano, e estiradas cadeias de montanhas aos dois lados.