XLIX

O Frasco


Na perfumes que teem o condão singular
De todo e qualquer vazo ou frasco atravessar.
A’s vezes, ao abrir um cofre do Levante,
Sentindo a fechadura estrugir, lancinante,

Ou, n’um velho solar, um contador torneado,
Poeirento, carcomido, a um canto abandonado,
Logramos descobrir um frasco alvinitente,
D’onde se evola, viva, a alma d’um ausente.

Doces recordações, quaes funéreas crisálidas,
Estavam a dormir n’essas trevas esquálidas!
Ei-las a revoar n’uma nuvem radiosa,
Laminadas de azul, doiradas, cor de rosa;

Pairando pelo espaço, em turbilhões alados,
Fazendo-nos cegar os olhos deslumbrados,
E levando a nossa alma aos abismos arcanos
Onde estão a dormir os miasmas humanos;

Ali, tá-la enterrar n’um antro solitário,
E, quando ela consegue arrancar o sudário,
Encontra junto a si o cadaver ’spectral
D’um bolorento amor, radiante e sepulcral.

Assim, quando amanhan minha recordação
Dos homens se varrer, e n’um pobre caixão
Meu corpo descansar, como um frasco esquecido,
Envolto em cinza e pó, já meio carcomido,

Serei o teu sepulcro, amavel pestilência,
Testemunha fiel da tua virulência,
— Ó veneno infernal, angélica bebida
Que me vaes dando a morte, e és toda a minha vida!