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A Deos, ao mundo, á gente e, emfim, ao vento,
A quem ja muitas vezes o contei,
Tanto debalde como o conto agora.
Mas ja que para errores fui nascido,
Vir este a ser hum delles não duvido.
E, pois ja d'acertar estou tão fóra,
Não me culpem tambem se nisto errei.
Se quer este refúgio só terei,
Fallar e errar, sem culpa, livremente.
Triste quem de tão pouco está contente!
  Ja me desenganei que de queixar-me
Não s'alcança remedio; mas quem pena,
Forçado lh'he gritar, se a dor he grande.
Gritarei; mas he debil e pequena
A voz para poder desabafar-me;
Porque nem com gritar a dor se abrande.
Quem me dará se quer que fóra mande
Lagrimas e suspiros infinitos,
Iguaes ao mal que dentro na alma mora?
Mas quem pôde algum'hora
Medir o mal com lagrimas, ou gritos?
Direi, emfim, aquillo que m'ensinão
A ira, e mágoa, e dellas a lembrança,
Que outra dor he por si mais dura e firme.
Chegae, desesperados, para ouvir-me;
E fujão os que vivem d'esperança,
Ou aquelles que nella se imaginão;
Porque Amor e Fortuna determinão
De lhes deixar poder para entenderem
Á medida dos males que tiverem.
  Quando vim da materna sepultura{334}