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OS MAIAS

assentado entre o casario da villa, com as suas bellas janellas manuelinas que lhe fazem um nobre semblante real, o valle aos pés, frondoso e fresco, e no alto as duas chaminés collossaes, disformes, resumindo tudo, como se essa residencia fosse toda ella uma cosinha talhada ás proporções de uma gula de Rei que cada dia come todo um Reino...

E apenas o break parou á porta do Nunes, foi-lhe ainda dar um olhar, timido e de longe — ­receiando alguma palavra rude da sentinella.

Carlos no entanto, saltando logo da almofada, tomou á parte o criado do hotel, que descera a recolher as maletas.

— ­Vossê conhece o sr. Damaso Salcede? Sabe se elle está em Cintra?

O creado conhecia muito bem o sr. Damaso Salcede. Ainda na vespera pela manhã o vira entrar defronte, no bilhar, com um sujeito de barbas pretas... Devia estar na Lawrence, porque só com raparigas e em pandiga é que o sr. Damaso vinha para o Nunes.

— ­Então, depressa, dous quartos! exclamou Carlos, com uma alegria de creança, certo agora que ella estava em Cintra. E uma sala particular, só para nós, para almoçarmos!

Cruges, que se approximava, protestou contra esta sala solitaria. Preferia a meza redonda. Ordinariamente na meza redonda encontram-se typos...

— ­Bem, exclamou Carlos, rindo e esfregando as mãos, põe o almoço na sala de jantar, põe-n’o até na Praça... E muita manteiga fresca para o sr. Cruges!