"Tudo vai sem novidade"

"Tudo vai sem novidade"
por Gervásio Lobato
Texto da antologia Maravilhas do conto humorístico, publicado pela Editora Cultrix em 1959.


Os interlocutores são um morgado do Alentejo, que estava a gozar os rendimentos em Lisboa e um criado lá da sua herdade de Alter do Chão. O morgado, que já há tempo não tinha carta da terra nem notícias de seus pais, encontrou, uma manhã, na Praça do Comércio, embasbacado a ver render a guarda, o seu criado.


— Olá! Tu por aqui, Tibúrcio?

— Ah! O meu patrão!

— Então vens a Lisboa e não me procuras? Não vens logo a minha casa?

— Ora essa!... Então não havia de lá ir?

— Pois sim, mas não foste.

— Ia já lá. . .

— Chegaste agora mesmo?

— Não, senhor; cheguei ontem e, desde que cheguei que estou para ir lá já . . .

— Então como está tudo por lá?

— Tudo bom, muito obrigado.

— Meu pai, minha mãe, a casa?

— Tudo bem, sem novidade.

— E o meu cavalo ruço... o Janota?

— Ah! É verdade; esqueci-me de dizer-lhe; esse é que não tem lá passado muito bem.

— Ah! Sim! O que tem ele? Está doente?

— Não, senhor.

— Ah! Meteste-me um susto! Um cavalo que me custou 50 libras!

— Não, senhor; não está doente. Morreu!

— Morreu?!

— Sim, senhor; mas o mais vai sem novidade.

— Morreu? Mas ele não estava doente... Morreu de algum desastre?

— Não, senhor.

— Qual desastre! — Então?

— Morreu no fogo, que houve lá na cocheira.

— Quê? Houve fogo na cocheira?

— Sim, senhor; ardeu toda, e o pobre Janota, que estava lá dentro, foi-se também, coitadinho!

— Mas como pegou fogo na cocheira?

— Pegou da casa.

— Da casa?!

— Sim, senhor; a casa ardeu toda.

— A minha casa ardeu toda?

— Sim, senhor; e, por mais que fizéssemos, não foi possível impedir que o fogo passasse à cocheira. Mas o mais vai sem novidade...

— Mas como foi que pegou fogo à casa?

— Foi uma tocha, que caiu do tocheiro.

— Uma tocha?

— Sim, senhor; caiu uma tocha em cima do pano do caixão e foi tudo pelos ares.

— Do caixão? Mas qual caixão?

— O caixão, onde estava a defunta.

— Qual defunta?

— A senhora sua mãe.

— Minha mãe? Pois minha mãe morreu?

— Morreu, sim senhor; mas o resto vai sem novidade.

— Mas de que morreu minha mãe?

— De desgosto, coitadinha!

— De desgosto de quê?

— Pela morte de seu pai.

— Então meu pai morreu também?

— Não, senhor; não morreu; matou-se.

— Matou-se?!

— Sim, senhor; enforcou-se. Mas o resto vai tudo sem novidade...

— Meu pai enforcou-se?!

— Sim, senhor. Quando lhe fizeram penhora a todas as fazendas e viu que estava arruinado, que estava a pedir esmola, foi a uma corda e zás! Mas o mais vai sem novidade, graças a Deus...