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Ás Visões
por Guilherme de Azevedo
Poema publicado em A Alma Nova

Pois que visões! não cessa a rapida corrida
E seja noite ou dia,
Volteadoras crueis! vós sempre a toda a brida
Na minha phantasia!

Parti chymeras vãs! archanjos ou madonnas,
Parti, que o mando eu,
Como um bando fatal de velhas amasonas
Que o circo aborreceu!

Levae tudo comvosco: as settas mais a aljava;
O angelico sorriso;
E as azas d'escumilha em que eu voava
Á noite, ao paraiso!

Eu quero, em fim, dormir; passar as noites gratas
Sentindo-me feliz,
No somno machinal dos velhos acrobatas
Depois das farças vis!

Mais tarde hei de sorrir, ou escarnecer-me quasi,
Lembrando-me—ó verdade!—
Que onde eu suppunha aurora havia apenas gaze
E uns traços d'alvaiade.

Perdão se vos insulto! oh, não, vós sois do empyreo,
D'aquelle meigo azul,
Que a todos tem sorrido: a Christo no martyrio,
Na dôr, ao rei de Thule;

E quando vos apraz, nas azas transparentes,
Mais alto ides por certo,
Do que as deusas gentis, aerias, insolentes,
Que vemos voar tão perto!

No entanto podeis crer ó lucidos fantasmas
Que o seculo, afinal,
Occulta no esplendor não sei que vis miasmas
Que fazem muito mal!

E quando vós passaes, nas horas do mysterio
D'estrellas revestidas,
Bebemos nós, talvez, o aroma deleterio
Das rosas corrompidas!

Oh sim! parti depressa; erguei-vos d'este abysmo
Archanjos ideaes,
Deixando-nos colher a flôr do realismo
Nas coisas triviaes!