Abrir menu principal
Num Álbum
por Luís da Gama


(É mania!)

Ora quer, porque quer, o meu amigo,
O perluxo e dengoso Zé Maria,
Que eu mil versos troveje, retumbantes,
Num álbum que possui, só por mania!
Não vê nem pensa
O caro amigo,
Que a musa esquiva
Não toma abrigo,
No teso crânio
De um mau tarelo,
Que por miolos
Só tem farelo!

Bem sei que a estupidez, de enormes patas
Qual Ícaro pateta aos ares voa,
Mas sem tino, perdida entre as esferas,
N’altas nuvens tropeça e cai à-toa.
Assim capengas
Qualificados,
Vão rabiscando,
Entusiasmados,
Gostosos versos,
Com reumatismo,
Que bichas pedem,
E sinapismo.

Porém o que fazer em tais apuros,
Se o amigo reclama versalhada?
— Traçar sobre o papel com mão singela
O retrato da Bela sua amada.
Potentes versos
Requer o caso,
Do grande Homero
Torquato ou Naso!
Silêncio, ó Vates,
Que eu vibro a lira!
— Ciprina treme,
E amor suspira!

Tem rosto ameloado — é pão de broa,
Nariz de funil velho acachapado,
Por sobr’olhos altivas ribanceiras,
Pescoço de cegonha esgrouvinhado.
Limosos dentes,
De cor incerta,
A boca torta,
Que mal se aperta;
Pendidos beiços,
Abringelados,
Onde o — Cazuza.
Põe seus cuidados.

O corpo é um tonel empanzinado,
Por pés tem duas lanchas ou saveiros,
Por braços mastaréus sem cordoalhas,
Por tetas dois terríveis travesseiros.
Tem barbatanas,
Como baleia,
Carão, enfim,
De lua-cheia;
Renga de um quarto,
A gâmbia esguia,
— Eis por quem morre
O Zé Maria!

Não cores, meu amigo, do retrato,
Pois que a Ninfa é prendada — tem dinheiro;
É filha de um Barão — homem de peso
Que do teu velho pai foi cozinheiro.
Cerra os ouvidos
Aos que murmuram,
Parvos, beócios,
Que a raça apuram,
Empolga a chelpa
Faz-te bizarro,
Dá na pobreza
Um forte esbarro.