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Ébrios e Cegos
por Cruz e Sousa
Poema publicado em Faróis


         Fim de tarde sombria.
Torvo e pressago todo o céu nevoento.
         Densamente chovia.
Na estrada o lodo e pelo espaço o vento.

        Monótonos gemidos
Do vento, mornos, lânguidos, sensíveis:
         Plangentes ais perdidos
De solitários seres invisíveis...

         Dois secretos mendigos
Vinham, bambos, os dois, de braço dado,
         Como estranhos amigos
Que se houvessem nos tempos encontrado.

         Parecia que a bruma
Crepuscular os envolvia, absortos
         Numa visão, nalguma
Visão fatal de vivos ou de mortos.

         E de ambos o andar lasso
Tinha talvez algum sonambulismo,
         Como através do espaço
Duas sombras volteando num abismo.

         Era tateante, vago
De ambos o andar, aquele andar tateante
         De ondulação de lago,
Tardo, arrastado, trêmulo, oscilante.

         E tardo, lento, tardo,
Mais tardo cada vez, mais vagaroso,
         No torvo aspecto pardo
Da tarde, mais o andar era brumoso.

         Bamboleando no lodo,
Como que juntos resvalando aéreos,
         Todo o mistério, todo
Se desvendava desses dois mistérios:

        Ambos ébrios e cegos,
No caos da embriaguez e da cegueira,
         Vinham cruzando pegos
De braço dado, a sua vida inteira.

         Ninguém diria, entanto,
O sentimento trágico, tremendo,
         A convulsão de pranto
Que aquelas almas iam turvescendo.

         Ninguém sabia, certos,
Quantos os desesperos mais agudos
         Dos mendigos desertos,
Ébrios e cegos, caminhando mudos.

        Ninguém lembrava as ânsias
Daqueles dois estados meio gêmeos,
         Presos nas inconstâncias
De sofrimentos quase que boêmios.

         Ninguém diria nunca,
Ébrios e cegos, todos dois tateando,
        A que atroz espelunca
Tinham, sem vista, ido beber, bambeando.

         Que negro álcool profundo
Turvou-lhes a cabeça e que sudário
         Mais pesado que o mundo
Pôs-lhes nos olhos tal horror mortuário.

         E em tudo, em tudo aquilo,
Naqueles sentimentos tão estranhos.
         De tamanho sigilo,
Como esses entes vis eram tamanhos!

         Que tão fundas cavernas,
Aquelas duas dores enjaularam,
         Miseráveis e eternas
Nos horríveis destinos que as geraram.

         Que medonho mar largo,
Sem lei, sem rumo, sem visão, sem norte,
         Que absurdo tédio amargo
De almas que apostam duelar com a morte!

         Nas suas naturezas,
Entre si tão opostas, tão diversas,
         Monstruosas grandezas
Medravam, já unidas, já dispersas.

         Onde a noite acabava
Da cegueira feral de atros espasmos,
         A embriaguez começava
Rasgada de ridículos sarcasmos.

         E bêbadas, sem vista,
Na mais que trovejante tempestade,
         Caminhando a conquista
Do desdém das esmolas sem piedade,

         Lá iam, juntas, bambas,
-- acorrentadas convulsões atrozes --,
         Ambas as vidas, ambas
Já meio alucinadas e ferozes.

         E entre a chuva e entre a lama
E soluços e lágrimas secretas,
         Presas na mesma trama,
Turvas, flutuavam, trêmulas, inquietas.

         Mas ah! torpe matéria!
Se as atritassem, como pedras brutas,
         Que chispas de miséria
Romperiam de tais almas corruptas!

         Tão grande, tanta treva,
Tão terrível, tão trágica, tão triste,
         Os sentidos subleva,
Cava outro horror, fora do horror que existe.

         Pois do sinistro sonho
Da embriaguez e da cegueira enorme,
         Erguia-se, medonho,
Da loucura o fantasma desconforme.