Os pajens que pela tarde vinham à fonte rir com as moças, tendo falado dele, nas veladas do castelo, o castelão quis vê-lo. E uma manhã, seguido do pai que pusera os seus melhores trajes, subiu à colina, que levava à ponte levadiça. Dois arqueiros, com saiões de couro, guardavam a porta; e os molossos no pátio puxavam furiosamente as correntes que os prendiam, ladrando, com as patas erguidas, contra o gigante que passava. A fachada do castelo erguia-se majestosamente, com um alto portão ogival sobre os degraus de mármore, duas torres aos cantos com telhados agudos, cobertos de lousas em escamas; e a cada janela havia um vaso de barro amarelo, onde crescia uma craveiro.

Um pajem levou-o pela escada, e tendo erguido uma tapeçaria, deixou-o numa sala, em abóbada, onde um tronco de árvore ardia sob uma alta chaminé, e lanças agudas brilhavam encostadas às paredes nuas e frias. Um galgo branco entrou correndo e pulando, e logo atrás o castelão e uma dama apareceram, com pajens que os seguiam. e um padre que trazia nas mãos um breviário. Uma túnica de veludo orlada de peles envolvia o corpo magro do Senhor, caindo sobre os sapatos pontiagudos, também orlado de peles. A barba ruiva avançava, dura e pontiaguda: o nariz era como o de um abutre: e sob o barrete de veludo, a grenha crespa, fugia para trás, como uma romeira hirta. O alto beguin da dama roçava quase o alto da porta; o seu vestido escuro arrastava nas lajes, e os olhos baixos pareciam contemplar as mãos caídas e cruzadas, mais pálidas que cera, de onde pendia um rosário. Um truão ao cada lado deles, anão e corcunda, pousava com um orgulho burlesco a mão nos grossos copos de uma espada de pau.

O pai de Cristóvão caíra de joelhos, e como Cristóvão permanecia de pé, com o seu barrete de pele debaixo do braço, ele puxava-o pelo saio para que ajoelhasse também. Os seus joelhos por fim vergaram, ressoaram nas lajes. E diante do Senhor, puxando entre os dedos os pêlos da barba dura, a dama com um sorriso tímido, e o capelão de mãos cruzadas no ventre, contemplavam os grossos membros de Cristóvão. A uma ordem do Senhor, ele ergueu-se, deu um passo. O senhor apalpou-lhe os músculos, puxou-lhe mesmo a carapinha: - depois, a nova ordem sua, três homens trouxeram uma enorme espada de ferro, enferrujada, que parecia a clava de Hércules. Com um movimento ligeiro, Cristóvão brandiu-a no ar. Então o truão, arrancando a sua espada de pau, avançou para Cristóvão com os ademanes de um espadachim: os guizos do seu barrete tilintavam; a sua corcunda torcia-se grotescamente; e com uma vozinha esguia, gritava: “Peravante! Deus o manda!” Então Cristóvão baixou a espada de ferro; a sua boca fendeu-se, mostrou uma cavidade imensa – e saiu ela uma risada enorme, troante, ressoante. que abalou os vidros nos seus caixilhos de chumbo. A dama tapou os ouvidos com as mãos pálidas; os pajens por trás abafaram o riso; - e com um gesto de sua mão cabeluda, o Senhor mandou que conduzissem Cristóvão às cozinhas.

Embaixo, na cozinha, sob a alta chaminé, grandes peças de carne, em espetos, assavam diante de uma fogueira enorme que estalava – enquanto que, nas caçarolas suspensas de correntes de ferro, a água fervia fazendo palpitar as tampas. Os cozinheiros, com rolos de pau muito branco, enrolavam as massas; um jorro de água cantava numa bacia de pedra; e duas aias muito velhas, sentadas em escabelos, fiavam junto da janela, onde cresciam manjericões. Um servo trouxe uma malga enorme, onde uma enorme colher de pau vinha espetada na espessura dos legumes e das febras de carne. Com a cabeça baixa, Cristóvão devorava: - mas, junto da porta escura, subiam, vindos de baixo, gemidos de homens como no esforço de carregar um fardo muito pesado: Cristóvão deixou a colher, limpou a boca com as costas da mão, e desapareceu sob o arco escuro: e daí a momentos subia trazendo às costas uma vasta pipa de arcos de ferro: atrás vinham dois homens, limpando ainda o suor, a arquejar. Para recompensar Cristóvão, o cozinheiro ofereceu-lhe uma terrina cheia de vinho: ele bebia lentamente, segurando-a nas duas mãos, com os olhos cerrados.

Depois, apanhando o seu barrete de pele de coelho, saiu. As aias corriam às janelas para o ver. De sobre as ameias os homens de armas debruçavam-se: ele caminhava, confuso, coçando devagar a grenha.

No entanto o Inverno sobreveio. Os caminhos estavam brancos de neve. E sobre os ramos descarnados e nus, os pássaros caíam mortos. Uma tarde o pai de Cristóvão voltou pálido da floresta, e sentou-se à porta a olhar o Sol que descia ao fundo do vale. Cristóvão estava adiante, sentado, encabando toscamente uma lâmina de foice. Quando o Sol se sumiu sentiu por trás um gemido: voltou-se: - o pai estava com a cabeça caída contra a parede da casa, a mão sobre o coração. De noite, os gritos de Cristóvão atroavam na aldeia. Vieram homens com forquilhas, mulheres encolhidas nos mantéus, erguendo, diante da face, uma lanterna. O cadáver estava estirado no chão sob um lençol. E à porta, que enchia com seu vasto corpo, Cristóvão chorava estridentemente.

Dois dias, duas noites, Cristóvão ficou estendido à porta com a face contra o chão: por vezes um soluço sacudia-o todo; depois a sua imensa forma era tão imóvel como os roncos em redor, derrubados e rígidos. O Inverno e a fome tinham espalhado pelos caminhos gente sinistra, que assaltava os casebres. Um bando veio sutilmente numa dessas noites: e, penetrando pela janela aberta, roubou tudo dentro, os vestidos, as ferramentas, o grão da arca, as roupas do catre – enquanto prostrado, Cristóvão ressonava lentamente, como o ruído de um rio na escuridão.

De manhã, vendo o casebre vazio, Cristóvão desarraigou um choupo novo, limpou-o de todos os ramos, e apoiando-se ao vasto tronco subiu pelo monte, desapareceu.