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A Belem à meya noite
Vilancete publicado em Villancicos que se cantarão na Capella do muito alto, e muito poderoso Rey D. Afonso VI. Nosso Senhor. Nas Matinas da Noite do Natal, em 1666 (como Villancico I) e em Villancicos que se cantaram na See do illvstrissimo senhor Dom Joam de Mello Bispo Conde. Nas Matinas, & Feſta do Natal de 1692 (como Villancico VIII).


A Belem à meya noite,
A ver o Sol que madruga,
A Quadrilha vay dos montes,
E vay da Corte a Patrulha,

Com alegria huns, & outros
Vaõ de tropel, & de chuſma,
Os pandeiros repicando,
E ponteando as bandurrias.

Tanto que em Belem entrou
A ſonora turba multa,
Pozſe o ſilencio de eſpreita,
A noite ſe poz de eſcuta.

Muitos donaires diziaõ,
Cantavaõ lindezas muitas,
Que o cantar muito eſta noite,
Mais devação foi, que furia.

Tanto repica a guitarra,
Quanto o adufe retumba,
E à ſoalha, & caſtanheta
Jà mais lhe mordia a pulga.

Eſte deitava mil trovas,
Cantava aquelle alleluias,
E os mais que pulhas deitavão,
Eraõ todos da pampulha.[1]

Aſſi chegaõ ao Preſepio,
E vendo a belleza nùa,
De hum Minino entre palhinhas,
Deſta maneira prenunciaõ.

Eſtribilho.

Ay que lindo que vindes,
O que bizarro!
Pois naceis de hũa Roza,
Cravo encarnado:
O Galanzete,
O Garridete,
O Bonitete,
O Namorado,
O Deſgarrado,
O que es Cravo encarnado.

Coplas.[2]

Deſpertaõ ao bello Infante,
Com a ſonoroza bulha,
Que âs vozes dos peccadores,
Naõ dorme Deos, mas eſcuta.

Acordou, & virão logo,
Que nos ſeus olhos madrugaõ
O Sol, para enxugar prantos,
Prantos para lavar culpas.

E vendo ao Infante acordado,
E que em ſeus olhos abundaõ,
Como Soes, Mares de rayos,
Como Ceos, Rios de chuva.

Para divertillo fazem
Hũa dança das que ſe uzão,
Deſta maneira dizendo,
Com goſto, & com graça muita

Eſtribilho.

Quando vos eu vi meu mano
Com o veſtido de Adaõ,
Logo o meo coração ducho,
Que eres minha ſalvação.
* Oila lila, oila lila,
Oila lila, outra vez,
Aveis de ſer meus amores,
Muito em que ao demonio pez,
Oila lila, oila lila,
Oila lila, oila là.

Quando vos eu vi meu Mano,
Deſpido ao frio na terra,
Logo o meu coraçaõ ducho,
Que era por culpa de Eva.
* Oila, &c.

Quando vos eu vi meu Mano,
Deſpidinho no palheiro,
Logo o meu coraçaõ ducho,
Que eres fogo em que me queimo.
* Oila, &c.

Paſtorinhos de Belem,
Deixai o rebanho todo,
Que o Minino que vos naſce,
Vos ha de guardar do Lobo.
* Oila, &c.

Damas de Jeruſalem,
Vinde ao Minino de flores,
Que ſe vindes a buſcalo,
Ha de ſer voſſos amores.
* Oila lila, &c.

Paſtores deixai Cordeiros,
Vinde ao Minino de amor,
Que eſte Minino que tendes,
He Cordeiro, & he Paſtor.
* Oila, &c.
Ay que lindo que vindes, [&c]

NotasEditar

  1. Esta quadra está ausente da versão de 1692
  2. Estas coplas e novo estribilho apenas aparecem na versão de 1666