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A Cigana
por Francisco Leite de Bittencourt Sampaio
Poema agrupado posteriormente e publicado em Parnaso Sergipano

Lá corre a morena, levando faceira
Na cinta punhal,
Veloz como a ema saltando ligeira
Por montes e val !

Gentil, engraçada,
Dissereis levada
Por artes de amor !
Agora fugindo,
Sorrindo
Innocente,
Lá vai de repente
Pulando…
Brincando…
Fallando…
No prado co’a flor.

A linda trigueira cançada sentou-se
No verde tapiz ;
Mas—logo—um momento de pé levantou-se
Contente e feliz.

—«Travessa menina,
Vem ler minha sina,
Não fujas, vem cà !»
Chegou-se a cigana,
Que engana
Innocente
Com ditos a gente,
Saltando…
Gyrando…
Cantando…
No seu patuá.

Que vida de louca ! Que amores ! Que ditos !
Que voz que ella tem !
Seus olhos são grandes, são pretos—bonitos—
Relusem tão bem !…

Que momo engraçado!
Seu pé delicado
Mal toca no chão !
Arfava-lhe o seio
De enleio
Innocente !
Olhou me de frente,
Parando…
Corando…
Scismando…
Trovou-me da mão.

Medita enleiada,—talvez vergonhosa,—
Das graças que fez.
Agora tremendo parece uma rosa
Cahindo de vêz !

—«Que sentes, morena ?
Acaso tens pena
Que eu morra por ti?
Que sorte, querida !
Que vida,
Innocente !
Viver docemente
Te amando…
Brincando…
Beijando…
Teus labios—aqui !

Olhou-me raivosa ! Seus labios tremendo
De vivo coral
São mudos, não fallam.—Nos ares movendo
Mostrou-me o punhal.

—«Que genio tão forte !
Me dás cruel morte
Por beijos, ó flor ? !
Crueza de ingrata !
Pois mata,
Innocente !
Qu’eu saiba somente;
Te amando…
Brincando…
Folgando…
Que a morte é de amor !»

A linda cigana tirando do seio
De clicia um balão,
Fallou ás folhinhas com susto e receio,
Contando-as na mão.

Agora sem medo
Mansinha do dedo
Tirou-me um annel :
Então já fugindo,
Sorrindo,
Innocente,
Me diz de repente,
Pulando,
Voando…
Cantando…
«Serei-te fiel !»

E foi-se a cigana, levando faceira
Na cinta punhal,
Veloz como a ema saltando ligeira
Por serras e val.