A Condessa Vésper/XX

A Condessa Vésper por Aluísio Azevedo
Capítulo XX: A casa dos amantes


Às onze e meia da noite, horas marcadas para a entrevista, já Gabriel passeava defronte das janelas de Ambrosina.

Deu meia-noite. Nada.

Gabriel sentia-se impaciente e sôfrego, uma agonia formava-se-lhe no coração, tal era a sua ansiedade. O menor mexer de galhos, o rojar de um inseto, tudo lhe fazia adivinhar um vulto branco, de mulher, que ia atirar-se-lhe nos braços.

Mas o vulto vinha, e ele ficava a imaginar como se apresentaria Ambrosina; quais seriam as suas primeiras palavras, a expressão da sua alegria, o perfume do seu corpo. Ela se lhe atiraria nos braços?... a beijá-lo, a dizer-lhe: "Amo-te! vem... entra para minha alcova! Tu és a minha felicidade, o meu amor. Vem! aqui me tens! Sou tua! ama-me com todo o ardor dos teus vinte e dois anos!?..."

E ele, arrastado pela imaginação aos aposentos da mulher amada, sonhava-se já em todas as atitudes venturosas do prazer, quando uma pancadinha no ombro lhe fez voltar a cabeça para trás. O coração bateu-lhe logo mais apressado. Era ela.

— Oh! enfim! disse Gabriel, sem ter ainda voltado a si de todo.

Ambrosina não deu uma palavra e foi sentar-se, sem o menor sobressalto, em um banco do jardinzinho, ao lado da casa.

Estava toda vestida de negro, ainda por luto do pai. Vinha de galochas, por causa da umidade e para não fazer rumor com os pés, e trazia no peito um ramo de violetas, que espalhavam em redor dela um cheiro bom e penetrante.

Gabriel quis dar-lhe um abraço.

— Devagar!... opôs-lhe a rapariga, safando-se-lhe das mãos. E se continua desse modo, previno-o desde já que me retiro. Se quiser que fique, há de respeitar-me como até agora!

— Mas...

— Não admito réplica! Autorizei-o a vir cá, porque o amo, como lhe disse; tanto que estou resolvida a mudar de situação. Mas, antes de tudo, quero saber quais são as suas intenções a meu respeito...

— De concordar com tudo o que lhe parecer.

— Então, pensemos maduramente: Eu o amo, e uma vez que descobri este segredo, que me não devia escapar dos lábios, confesso que só ao senhor amei até hoje, e que me seria muito penoso ter de esconder para sempre semelhante amor...

— Minha Ambrosina!...

— Espere! disse ela, afastando a mão de Gabriel prestes a empolgar-lhe a cintura, e retomou friamente o fio das suas considerações. Infelizmente, porém, não nos podemos unir pelos laços legais, porque sou casada; estou, entretanto, resolvida a esquecer totalmente a peste de meu marido, rejeitar a mesada que em nome dele me dá o curador....

— E...

— E fazer-me sua. Quer?

— Se quero, meu amor!...

— Pois bem; nesse caso, procure uma boa casa onde possamos esconder decentemente a legalidade da nossa ternura, prepare-a com o luxo e conforto correspondentes à minha educação: e se estiver o senhor, além disso, resolvido a fazer por mim os sacrifícios que faria se fosse meu marido, serei sua, inteiramente sua, para toda a vida. Serve-lhe?...

— Se me serve!...

— Então, é tratar da casa; pronta esta, eu o acompanharei.

— Obrigado! obrigado! disse Gabriel num transporte de alegria. Como sou feliz! Deixe dar-lhe um abraço!

— Não! por ora... nada! Vá-se embora.

— Suplico!

— Nada! nada!

— Então, meu anjo?!...

— Solte-me! ou desisto de tudo o que disse!

— Má!

— Adeus, adeus.

— Ingrata!

— Está bom! Tome lá um beijo, mas é dá-lo e pôr-se a caminho!

E Ambrosina estendeu os lábios ao futuro amante, que se precipitou sobre eles como se os fora devorar.

— Está bem! Basta! disse ela... até à volta.

E desapareceu.

Ele saiu de lá quase a correr, mal acompanhando todavia a andadura do seu coração, que galopava.

O resto da noite passou-o todo a pensar, a sonhar com os deslumbramentos da sua futura existência de amor.

Gaspar demorava-se em Petrópolis.

Às dez horas da manhã do dia seguinte, já Gabriel ganhava a rua, mas sem saber ao certo por onde principiar a pôr em prática as ordens da sua dama. Estava indeciso. Como não tinha experiência da vida, nem hábito de trabalho, tudo para ele era dificuldade.

Em primeiro lugar, urgia descobrir uma boa casinha, meditava, procurando dar direção ao seu raciocínio. Ora, em qual dos arrabaldes devia ser?... Eram tantos!... Diabo! ela devia ter escolhido o lugar!...

— Adeuzinho, doutor! gritou-lhe o Melo Rosa, que passava nessa ocasião, com um ar de atividade.

Isto era na rua do Ouvidor. Gabriel chamou-o. interessado.

— Venha cá! Como vai? Você é quem me podia fazer um favor!....

— Homem, filho! ando muito cheio de serviço... tenho afazeres até aqui!

E o Melo mostrava a garganta.

— Sim, mas é cousa que se pode decidir em palavras. Você onde vai agora?...

— Almoçar, e depois...

Nesse caso, almoce comigo, e durante o almoço conversaremos.

Os dois tomaram a rua do Teatro e meteram-se num gabinete particular do hotel Paris. Melo encarregou-se do menu.

— Imagine que eu, segredou-lhe Gabriel, preciso preparar uma casa em regra para...

O Melo largou tudo de mão, dominado por essas palavras.

— Vais casar?... perguntou ele, fitando Gabriel por cima das lunetas.

— Pouco mais ou menos... disse o interrogado.

— Compreendo, compreendo! Queres tomar à tua conta alguma rapariga, e para isso é preciso um ninho perfumado... uma boceta de guardar jóias!...

— Mas é uma cousa com pressa... observou o outro.

— Isso é o que menos custa; se é que estás resolvido a puxar pela bolsa!...

— Decerto.

— Então, posso encarregar-me de tudo. Onde queres a casa?...

— Em qualquer arrabalde, com tanto que seja bonita, nova e em lugar aprazível.

— Daqui a pouco, teremos a chave, prometeu o outro, e sem lembrar mais das suas supostas ocupações desse dia. Sei de um chalezito recém-concluído, que está a pintar para o caso!

E os dois, mal acabaram de almoçar, tomaram uma vitória e seguiram para Laranjeiras.

Gabriel continuou pela viagem os seus cálculos de felicidade, e Melo Rosa principiou os seus de especulação.

"Isto é negociozinho para render alguns cobres pensava este último. O tipo é muito peludo e está impaciente por lançar à rua uns bons pares de contos de réis... é uma mina! O que convém é ganhar-lhe primeiro a confiança; o resto fica por minha conta".

E voltou-se para Gabriel, dizendo-lhe:

— Com quê! te vais meter em uma lua-de-mel... hem, maganão?...

— É exato, respondeu o outro, nadando em contentamento.

— Estás que nem te podes lamber de contente.

E com um ar mais sério:

— Que tal é ela?...

— Para mim — a mais bela das mulheres!

— É conhecida por cá?...

— Não!

— Então chegou há pouco?...

— Qual! é daqui mesmo. É rapariga de família...

— Ah! exclamou o outro com um vislumbre; é a Ambrosina!

Gabriel olhou-o de frente:

— Como sabe?!...

— Ora, que pergunta! Uma vez que é de família e vai morar contigo, não pode ser outra.

E, fitando o banco fronteiro da carruagem:

— Sim senhor! boa mulher! Parabéns!

Daí a pouco, Gabriel passava às mãos do Melo todo o dinheiro que preventivamente trouxera consigo; e dentro de algumas horas principiavam já as andorinhas a conduzir os primeiros móveis para a futura residência dos dois amantes. Melo Rosa mostrava-se de uma solicitude admirável; tinha grande prática daquele serviço, e sabia onde se vendiam as mais caprichosas fantasias para uma instalação de amor caro.

Depois de fazer compras e encomendas, muniu-se de três homens e meteu-se na casa a trabalhar. Pôs-se logo em mangas de camisa e a dar ordens para a direita e para a esquerda.

— Olha, estouvado! gritava ele a um trabalhador; vê lá como pegas nesse espelho! Olha que isso não é de ferro, bruto! Abaixa! mais ainda! gritava para outro lado. Não machuques essas flores! Cuidado, animal!

E a casa ia já se transformando em uma habitação de prazer e luxo. Era uma chacarazita com seu prédio novo, todo pintadinho e forradinho de fresco. Presta-se maravilhosamente para o fim desejado.

Gabriel acompanhava o serviço com frenético prazer. O diabo era que a casa de saúde em que recolheram Leonardo ficava por ali cerca, e tal vizinhança não produzia bom efeito no ânimo do namorado de Ambrosina.

Às sete horas da noite veio o jantar que Melo encomendara a um hotel, e os dois rapazes, à luz do gás, comeram e beberam intimamente, como se foram velhos camaradas.

Gabriel tornava-se expansivo, palrava com entusiasmo da sua amante; mas pedia reserva ao outro. Era necessário que não se falasse nisso por aí!...

Melo prometia e mostrava-se interessado, como se se tratasse da sua própria felicidade.

Ah! ele haveria de aparecer... Não! que umas certas pândegas queria ele mesmo organizar!

E, todo cheio de intenções, de projetos, de planos de prazer, falava de cousas ruidosas, alegres, retumbantes de riso e champanha. Lembrava no gênero ceias esplêndidas, de grandes orgias, de cuja iniciativa lhe cabia a glória, e citava, com assombro, nomes de famosas mulheres e libertinos célebres do Rio de Janeiro.

Três dias depois, dirigia Gabriel à Ambrosina um bilhete, declarando:

"Está tudo pronto; só falta a tua presença".

E por galanteria, escreveu embaixo: — "Amo-te! Vem!"