A Condessa Vésper/XXXVI

A Condessa Vésper por Aluísio Azevedo
Capítulo XXXVI: Vésper


Palpitava de comoção a edemoninhada zona do Rio de Janeiro, que vai desde o Largo do Paço até à nascente da rua do Lavradio. A parte leviana e galhofeira da população carioca agitava-se na rua do Ouvidor, eletrizada de interesse por uma grande novidade.

O que teria acontecido de tão extraordinário, para trazer assim em alvoroço. Os repórteres das folhas e os afiambrados janotas dos pontos de bondes. Que diabo poria em reboliço as redações dos jornais, os salões de carambola e de sociedades carnavalescas, as lojas e armarinhos de jóias e de modas, as confeitarias, cafés e restaurantes do alegre coração da cidade?! Seria a morte do Imperador? seria a queda do Partido Liberal? seria algum levantamento da escravatura? seria a quebra de algum banco? seria uma nova guerra com alguma outra República vizinha, ou seria simplesmente o sorteio da grande loteria da Espanha?

Nada disso. A parte folgazã da população do Rio de Janeiro delirava de entusiasmo, apenas porque no vasto e constelado horizonte da bela pândega fluminense, raiara uma nova estrela, bonitona e petulante, ameaçando ofuscar, só com a sua brilhante aparição, todas as outras que cintilavam no satânico empírio.

Era a ordem do dia a "Condessa Vésper". Por todo o ruidoso centro do prazer carioca se falava com febre da deslumbrante criatura, que atravessara a rua do Ouvidor vestida de veludo carmezim bordado a ouro, faiscante de rica pedraria e jóias orientais.

Vinha diretamente de Paris, depois de percorrer todas as capitais do mundo, em que mantém no vício-amor o seu mercado alto. Trazia de comitiva um secretário louro, membrudo, barbado e enluvado, que lhe dava o tratamento de "Alteza", e um grande mono das Antilhas, que na rua lhe carregava a bolsinha de mão e lhe abria com irresistível graça a portinhola do carro.

Um delicioso escândalo!

Todos corriam a vê-la, todos a queriam conhecer. Inventaram-se logo em torno dela mil lendas e tradições. Uns a diziam artista, sem dúvida judia e grega, que só entre essas poderia haver mulher tão formosa; outros protestavam com orgulho ser a Condessa Vésper, brasileira legítima, que em Paris casara com um fidalgo russo e depois fugira com um tenor italiano; outros enfim pretendiam que ali andava maganice alta de príncipes, e citavam confusamente, de ouvido em ouvido, o nome do Duque de Saxe e do Conde d'Eu.

Essa estranha condessa era nada mais nada menos que Ambrosina. É que três anos haviam decorrido sobre os acontecimentos relatados no último capítulo, três anos que, dia a dia, nada apresentam digno de nota, mas que vistos em conjunto representam nestas Memórias um importante período de transformações.

Durante esse tempo, tudo e todos se foram modificando lentamente, menos a velhinha Benedita. Desde o Médico Misterioso até o nosso recente Gustavo, grandes transformações operaram. Genoveva, a legítima descendente da flor das lavadeiras do Rocio Pequeno, já não mora na sua casinha do Engenho Novo; novas dificuldades depois da morte do seu homem e a sua índole rasteira, carregaram com ela para um cortiço, ficando a casinha alugada por oitenta mil-réis mensais. Tal mudança, digamos francamente, não foi penosa à mãe de Ambrosina, e cremos até que, de muito antes estaria realizada, a não ser certa consideração ao então restaurado Alfredo.

Genoveva tirava bom partido dos seus cinqüenta anos. A gordura parecia querer cortar-lhe a atividade, ela porém, azafamada e forte reagia, levantado-se às quatro da madrugada, e mourejando que nem um negro durante o dia inteiro. Nunca se sentira tão bem como ali, com seu ruidoso par de tamancos, toalha à cabeça o vestido enrodilhado nos quadris, e toda escorreita e sacudida a bater a sua roupa, entre a deferência e a estima das colegas.

Os moradores do cortiço tinham por ela um respeito particular, davam-lhe o tratamento de dona e falavam misteriosamente de uma filha, que lhe entrara para o convento; de um comendador, que desaparecera arrebatado por desgostos, e finalmente de uma riqueza, de cegar! escondida no quintal da casinha do Engenho Novo.

E a viúva do comendador açulava inconscientemente tais fantasias, porque, gostando aliás de tagarelar o seu bocado nas horas de descanso, fugia sempre da conversa quando lhe tocavam nos parentes, ou lhe remexiam no passado.

Ninguém seria capaz de dizer que ali, naquela velha robusta e trabalhadora, estivesse a rapariga linfática e bamba de trinta anos atrás. A planta, nascida entre a roupa molhada e a grosseira alegria do cortiço, definhara nas salas tristes do comendador, mas uma vez transportada para o meio em que brotara, levantou e vicejou radiosa.

Assim como Genoveva, outros personagens se transformaram; Gustavo, por exemplo, já não era o mesmo sonhador boêmio, a bracejar na desordem e na miséria; trazia agora a vida metodizada e segura, graças exclusivamente à inflexível perseverança do seu esforço. Havia publicado com algum êxito nada menos que três romances, conseguira fazer representar um drama, era colaborador efetivo do "Correio Mercantil" e tinha duzentos mil-réis mensais numa secretaria pública.

Mas, como já estava ele longe de sentir as comoções que experimentou quando viu, pela primeira vez, versos seus publicados?...

Foi num domingo: alguns rapazes haviam fundado pouco antes um jornalzinho, e pedido a Gustavo que mandasse para ele alguma cousa. Gustavo mandou uma longa poesia, em versos soltos, que comeu quase toda uma página. E durante a composição não se pode arrancar de ao pé dos tipógrafos, preso por um delicioso interesse, uma impaciência irresistível e torturante.

Esqueceu-se de jantar, e ao receber as primeiras provas, tremiam-lhe as mãos e saltava-lhe o coração. Afinal, já à noite, saiu da redação com uma folha impressa, e lá foi pela rua, a ler, gesticulando, sentindo em todo ele o eco de cada frase, de cada palavra, de cada sílaba. O mundo em torno era nada ao lado daquele pedaço de papel impresso! Como lhe pareciam pequeninos e vis os burgueses satisfeitos que desciam para os teatros! Como tudo era mesquinho, reles corriqueiro, ao lado daquela produção do seu talento, ali estampada em letra de forma, tal como a obra dos poetas consagrados, cujos nomes lhe enchiam a alma de fecunda inveja!

Mas tudo isso passou, como passou a sensação do primeiro elogio pela imprensa, o sentimento de glória da primeira transcrição espontânea, e o íntimo orgulho do plágio, de um ataque insultuoso ao plagiado.

Larguemos, porém de mão o nosso poeta, e vamos surpreender Gaspar no seu antigo gabinete de trabalho, ao lado de Gabriel.

Olhe o leitor, e verá duas sombrias figuras — um velho calvo, encanecido, todo coberto de luto, e um rapaz louro, prematuramente cansado da existência, e transpirando pelos gestos, pelo olhar, pelas atitudes, o fastio dos fartos e o tédio dos ricos ociosos.

Estão aí assim há duas horas, a conversar frouxamente. o moço fuma charutos seguidos, toscanejando no fundo da sua poltrona, e o velho, assentado ao lado de uma secretária, com a cadeira cercada de papéis rotos, vai, enquanto conversa, passando os olhos pelas cartas, que tira de um grande maço de sobre a mesa e, depois de rasgá-las, arremessa ao chão.

São três horas da tarde, em fins de abril. O dia triste e úmido entra pelas vidraças embaciadas da única janela do gabinete, e põe nos objetos um ar sinistro e melancólico.

O moço queixa-se de aborrecimento, e espreguiça-se de instante a instante, a abrir a boca. O outro, depois de inutilizar os seus papéis velhos, levanta-se e vai assentar-se ao lado dele.

— Mas, vamos a saber, disse; estás pelo que te propus?

— O que é mesmo?...

— Pelo empréstimo dos cinqüenta contos de réis.

— Ah! Quando quiseres...

— Bem! então amanhã, sem falta, me darás.

— Mas o que tencionas fazer desse dinheiro?

— Ainda não te posso dizer; mas descansa, no destino que lhe vou dar, não arriscas um vintém... os próprios juros ser-te-ão restituídos religiosamente. É uma questão toda de confiança...

— Bem! já não digo mais nada.

— Amanhã mesmo te darei os documentos da dívida.

— Como quiseres...

E passaram a conversar sobre outros assuntos.

— Quando partimos?... perguntou Gabriel.

— Para o mês que vêm, naturalmente. Tenho ainda que providenciar sobre muitas cousas; é preciso acomodar a velha Benedita, encarregar algum colega de certos doentes, tratar de uma infinidade de maçadas. Felizmente o Gustavo não me dá o mínimo cuidado.

— Esse nem sequer tira o chapéu quando me vê. Um doido!

— Não é por mal, contradisse Gaspar. Tu é que te não devias incomodar com isso! Ele é um bom moço... tem caráter e tem talento.

— O que, homem? Sabes lá o que ele diz de nós?

— Não há de ser tanto assim...

— Chamou-nos basbaques, em presença de quem o quis ouvir; disse que tanto eu, como tu, éramos duas crianças, dois tipos românticos, que vivíamos na lua!

— E olha que disse meia verdade, respondeu Gaspar, depois de uma pausa; porque, no fim de contas, as circunstâncias especiais da existência, de qualquer de nós dois, nos puseram fora do alcance das forças práticas da vida comum e das leis reguladoras da sociedade. Hoje mesmo, que estou velho e vejo o mundo por um prisma bem diverso; hoje, que tenho o raciocínio já apurado pela experiência, ainda me sinto dominado todavia pela corrente romanesca em que nasci, e na qual palpitou a minha inútil juventude. Tu vieste depois, é certo, mas nunca viveste no teu tempo, nunca dependestes dos homens para os conheceres; nunca foste oprimido, para poderes ter perfeita compreensão da justiça; nunca sofreste misérias, em luta pela existência, para poderes formar idéia justa da verdade. E, nessas condições, sem um lugar entre os homens, sem parentes, sem responsabilidade e sem amor, vivendo às cegas, iludido, explorado e desestimado, não pudeste compreender o mundo que te cercava, e tiveste de voltar as vistas e a atividade dos teus sentimentos para o passado. Esse passado era tua mãe e sou eu; isto é, era o romantismo no seu maior desvario. E aí tens como nunca chegaste a compreender, meu pobre Gabriel, a época em que tens vivido!

Gustavo, entretanto, prosseguiu o médico, é um produto de elementos inteiramente contrários aos que determinaram o teu caráter e o teu temperamento; há entre vocês proporção de idade e relação mesológica, mas absoluta incompatibilidade no modo de ver as cousas. Formam os dois uma medalha, cujos lados, apesar de juntos, nunca se poderão unir. E, se quisermos determinar qual dos dois lados da medalha é o direito e qual o avesso, não o conseguiremos, porque ambos são legítimos e lógicos, e ambos têm a sua razão de ser. Foi por isso que jamais conseguimos a amizade e a confiança de Gustavo. O presente desconfia sempre do passado, e nunca o toma a sério. Gustavo revoltou-se contra nós, porque o seu espírito moderno, frio e observador, tendia fatalmente a reagir contra nossa abstração idealista, que nos levava à contemplação e ao êxtase. O moço pobre, trabalhador e independente, não podia suportar a nossa tristeza e a nossa concentração. Para ele somos simplesmente ridículos mas a verdade é que somos, nós dois, por processos diversos, igualmente atrasados; eu, porque me deixei estacionar, e tu, por um simples fenômeno de educação e de hereditariedade.

Gabriel atirado indolentemente na sua poltrona, ouvia as palavras do padrasto, quase sem as compreender. Era a primeira vez que lhe arrastavam o espírito a semelhantes considerações; nunca até aí cogitara dos elementos que determinaram a sua farta existência, e nunca se lembrara de prestar contas dos seus raciocínios. Havia aceitado a vida, sem indagar donde ela vinha, nem para onde se encaminhava. Um dia deu por si no mundo, reparou que era rico e bem parecido; tinha dinheiro e saúde... Era gozar! Que lhe importava o resto? A fortuna chegara-lhe às mãos como uma carta anônima, e ele nem sequer agradecia, porque não tinha a quem dirigir os seus agradecimentos. As circunstâncias do meio, da educação e da hereditariedade fizeram-no pueril e romântico, e ele de braços cruzados aceitou essa imposição, como quem aceita uma fatalidade orgânica. Não reagiu contra ela, como não reagiria contra o seu sexo, se nascesse mulher.

Eis, porém, que agora Gaspar, para o obrigar a ver claro, lhe torcia o olhar para a frente.

— Mudaram-se os tempos! disse o velho, depois de mais algumas considerações. Já não se trata de querer ou não querer acompanhar o movimento da sua época; trata-se de seguir a onda evolutiva ou ficar esmagado pelos que vêm atrás! Eu, por mim, estou velho e com os pés inclinados para a cova, pouco se me dá a onda me passe por cima; tu, porém, és moco e tens um grande campo aberto defronte dos olhos. É preciso que avances corajosamente, e eu não quero morrer sem te ver a caminho!

— Mas, nesse caso, o que me compete fazer?

— Trabalhar! Estou farto de dizer-te! É necessário que escolhas qualquer profissão, que te dediques a qualquer idéia! Daí é que te virá o ingresso na vida e entre os homens; daí se formarão as proporções da tua individualidade pública. Serás grande, se o teu trabalho for grande; serás menor, se o teu trabalho for pequeno. E se tiveres talento, abnegação e coragem, se viveres um pouco da alma dos outros, serás mais do que tudo isso, serás amado, não por um amigo ou por uma mulher, mas por um povo ou por uma geração!

Gabriel concentrou-se para meditar o que acabava de ouvir.

— Tens um exemplo no próprio Gustavo. Viste o modo sobranceiro pelo qual procedeu ele conosco; entretanto, é nosso parente e nada mais possuía além da boa vontade de trabalhar.

— Um pobre diabo!

— Foi! será talvez ainda hoje, mas cada dia que passa é um degrau que ele sobe! Sem instrução, sem dinheiro, sem protetores, conseguiu todavia não se deixar morrer. Já é muito! E não se deixar corromper; o que é tudo! Ah! tu não podes fazer idéia do que é a existência, aos vinte anos, quando a temos de extrair de nós mesmos; nunca viveste nesse inferno, mas em compensação, nunca desfrutarás o paraíso que se alcança depois de atravessá-lo. E sabes por que razão Gustavo resistiu e venceu com tanta coragem às suas dificuldades? É porque tem um ideal. Eu próprio, ao ler os seus primeiros trabalhos literários, não pude deixar de rir, e cheguei a ter compaixão do pobre pretensioso; o segundo trabalho foi melhor, porém, que o primeiro, e, ao sexto ou décimo, já ninguém sorria, e muitos principiavam a confiar no futuro do novo literato. Vê como ele caminha agora!

Pela sua perseverança, pelo seu esforço, começa a galgar posição. Já é alguém! os jornais ocupam-se dele em todo o Brasil, e pouco lhe falta para ter um nome feito. Agora é que Gustavo já não precisa absolutamente de nenhum de nós dois, e principia a sentir, por mim e por ti, uma compaixão muito mais legítima do que aquela que me inspirou noutro tempo. E, à proporção que for ele caminhando, essa compaixão, se não trabalhares, irá crescendo, na razão direta do seu desenvolvimento e na inversa da tua decadência... Sim! porque tu, se não trabalhares de qualquer forma, hás de fatalmente decair. É justamente essa diferença que há entre tu e ele. Tu gastas e ele ganha; ambos caminham para os extremos — ele da fortuna, e tu da miséria!

Suponho que estás em erro...

— Eu tenho certeza de que não estou. Todos nós nos achamos dentro do mesmo círculo destas leis de existência. Entretanto, o único fato que estabelece a superioridade de Gustavo sobre ti, é simplesmente a circunstância de haver ele nascido pobre, e tu rico. Para dizer tudo, acho até que tens mais talento do que ele e poderias, se não fosse a riqueza, ir muito mais longe e muito mais depressa.

— Mas, a que trabalho me hei de eu agora dedicar? estou velho, Gaspar!

— Qual velho, o quê! Para remediar um mal nunca é tarde! Principia por acabar de vez com a vida que levas, e vê se te casas. A família é uma responsabilidade efetiva, que te porá em ação para outras conquistas.

— Casar-me? Ah, isso é que não é possível!

— Não sei por que, mas adiante!

— Também acho pouco fácil romper de golpe com os hábitos e as relações que me cercam.

— Isto é o menos; depois da viagem que vamos fazer, nada disso existirá. Podes na volta começar vida nova.

Gabriel concentrou-se por algum tempo, e afinal levantando-se da poltrona, bateu com a mão fechada sobre a mesa:

— Pois está dito! exclamou ele. Vou trabalhar! Hei de ser um homem!

— Muito bem! disse Gaspar, abraçando-o. Só assim não levarei remorsos para a sepultura...

— Afianço-te que não os levarás!

— Conto contigo!

— Mas, nós precisamos partir o mais breve possível.

— Quanto antes!

E os dois iam entrar nos projetos da sua nova existência, quando a criada os interrompeu. Era uma carta para Gabriel.

— Sem-vergonha! resmungou este, depois de a ler.

— O que é? perguntou Gaspar.

— Nada... é aquela peste da Ambrosina que acaba de chegar da Europa, e tem o descaro de escrever-me...

— Mau... mau!... exclamou o médico, deixando-se cair numa cadeira.