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A Hydra
por Guilherme de Azevedo
Poema publicado em A Alma Nova

Ha muito que desceu das orientaes montanhas
A hydra singular que espalha nas ardencias
D'uma luta febril scintillações estranhas!

Ella galga, rugindo, ás grandes eminencias,
E emquanto vae soltando o silvo pelo espaço
Engrossa á luz do sol na seiva das consciencias.

Tem rijezas sem par, como de roscas d'aço
E corre descrevendo em giros caprichosos
Na leiva popular um indefinido traço.

Prefere aos antros vis os focos luminosos
E em mil voltas crueis aperta dia a dia,
N'uma longa espiral, os thronos carunchosos.

Passou pelo paiz da candida Utopia:
Nos mythicos rosaes viveu d'um vago aroma
Ao pallido fulgor da aurora que rompia.

Mas hoje com valor em toda a parte assoma,
E sem temer sequer a lugubre vizeira
Ha muito que transpoz os porticos de Roma.

E os Papas mais os Reis sentindo-a na carreira
Do seu longo triumpho, um tanto apavorados,
Trataram d'acender a livida fogueira.

E ao galope lançando os esquadrões cerrados
Começaram depois, na terra, a perseguil-a,
A cumplice fatal dos lividos Pecados!

Mas ella sem temor, nos cerberos tranquilla,
Derrama cada vez mais bellos e fecundos
Os intensos clarões da lucida pupilla,

E emquanto a imprecação de tantos moribundos,
Os despotas crueis, acolhem com desdem,
A hydra immensa—a Idéa—a farejar nos mundos
Ainda a garra adunca afia contra alguem!