A Mosca Azul

A Mosca Azul
por Machado de Assis
Pertence a coletânea Ocidentais, publicada em Poesias Completas (1901), páginas 314-316.

A MOSCA AZUL


Era uma mosca azul, azas de ouro e granada,
         Filha da China ou do Indostão,
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada,
         Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e zumbia
         Refulgindo ao clarão do sol
E da lua, — melhor do que refulgiria
         Um brilhante do Grão-Mogol.

Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
         Um poleá lhe perguntou:
«Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
         Dize, quem foi que t’o ensinou?»

Então ella, voando, e revoando, disse:
         — «Eu sou a vida, eu sou a flor

«Das graças, o padrão da eterna meninice,
         «E mais a gloria, e mais o amor.»

E elle deixou-se estar a contemplal-a, mudo,
         E tranquillo, como um faquir,
Como alguem que ficou deslembrado de tudo,
         Sem comparar, nem reflectir.

Entre as azas do insecto, a voltear no espaço,
         Uma cousa lhe pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço
         E viu um rosto, que era o seu.

Era elle, era um rei, o rei de Cachemira,
         Que tinha sobre o collo nú
Um immenso collar de opala, e uma saphyra
         Tirada do corpo de Vischnu.

Cem mulheres em flôr, cem nayras superfinas,
         Aos pés delle, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
         E todo o amor que tem lhe dão.

Mudos, graves, de pé, cem ethiopes feios,
         Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios,
         Voluptuosamente nus.

Vinha a gloria depois; — quatorze reis vencidos,
         E enfim as páreas triumphaes

De trezentas nações, e os parabens unidos
         Das coroas occidentaes.

Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
         Das mulheres e dos varões,
Como em agua que deixa o fundo descoberto,
         Via limpos os corações.

Então elle, estende a mão callosa e tosca,
         Affeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
         Curioso de a examinar.

Quiz vel-a, quis saber a causa do mysterio.
         E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que alli tinha um imperio,
         E para casa se partiu.

Alvoroçado chega, examina, e parece
         Que se houve nessa occupação
Miudamente, como um homem que quizesse
         Dissecar a sua illusão.

Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ella,
         Rota, baça, nojenta, vil,
Succumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquella
         Visão fantastica e subtil.

Hoje, quando elle ahi vae, de aloé e cardamomo
         Na cabeça, com ar taful,
Dizem que ensandeceu, e que não sabe como
         Perdeu a sua mosca azul.