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A empreza nocturna
por Sebastião José Xavier Botelho
Poema agrupado posteriormente e publicado em Poesias eroticas, burlescas e satyricas. Outros editores costumam atribuir este poema erroneamente ao Bocage.[1]

Era alta a noite, e as beiras dos telhados
Pingando mansamente convidavam
A gente toda a propagar a especie:
Brandas torrentes, que do ceu cahiam
Pelas ruas abaixo susurravam;
Dormia tudo; e a ronda do intendente
Que o grão Torquato rege, o pae das putas,
Esbirro-mór, Mecenas das tabernas,
Recolhido se havia aos patrios lares.
Era tudo silencio, e só se ouvia
De quando em quando ao longe uma matraca.
Soava o sino grande dos Capuchos,
Vão-se os frades erguendo, era uma hora.
Não podia faltar: Nise formosa,
Pela primeira vez m′estava esperando.
De repente me visto, e salto fóra
Da pobre cama, aonde envolto em sonhos
Mil imagens a mente me fingia.

Visto roupa lavada, e me perfumo,
N′um capote me embuço, a espada tomo,
Que nunca me serviu, mas que em taes casos
Mette a todos respeito; e qual Quixote,
Que, havendo já perdido o caro Sancho,
Sem nada receiar de assalto busca
Altos moinhos, que valente ataca;
Tal eu figuro achar a cada esquina
Um Rodamonte, e prompto me disponho
A lançal-o por terra, em pó desfeito.
Assim gastei o tempo, até que chego
Ao sitio dado, onde meu bem m′espera.

Mal a porta emboquei, dentro em mim sinto
Um fogo activo, que me abraza todo.
Eis de Nise a criada, abelha mestra,
Que á mira estava alli, a mão me aperta,
Vai-me guiando, e diz: «Suba de manso.
Que ahi dorme a senhora.» A poucos passos,
Por acaso ao subir-lhe apalpo as coxas...
Oh caspite! que sesso! Era alcatreira,
Nunca vi cu tão duro, era uma rocha.
Foi o tezão então em mira tão forte,
Que as mãos lhe encosto aos hombros, n′ella salto,
Que enfadada dizia: «Olhe o bregeiro!...
Tire-se lá, que póde ouvir minha ama!...»
Ao dizer isto a voz lhe fica presa,
Soluça, treme toda, estende os braços,
Aperta as pernas, encarquilha o cono,
Que distava do cu pollegada e meia.
Qual moinho de cartas, que os rapazes

Em tempo de verão põem nas janellas,
Tal a moça rebolla: e eu posto em cima,
Sem nada lhe dizer, tinha vertido
Na larga dorna a larga apojadura.
Acabada a funcção, em que a moçoila
(Segundo confessou) deu tres por uma,
N′um quarto me encaixou, onde os Amores
Tinham sua morada, onde Cupido
Havia receber em seus altares
Em breve espaço meus amantes votos.

Dormia tudo em casa: eis Nise bella
Um pouco envergonhada, assim ficando
Mais vermelha que a rosa, a mim se chega,
Nos meus braços se lança: então lhe toco
No tenro, e branco seio palpitante;
Trémula a voz, que o susto lhe embargava,
Mal me pôde dizer: «Meu bem, minh′alma
«Quanto póde o amor n′um peito firme!
«Bem vês ao que me arrisco: eu bem conheço
«Quanto offendo o meu sexo, e as leis da honra
«Bem sei que despedaço!... Mas não temo
«Que te esqueças de mim, que ufano zombes
«D′uma infeliz mulher amante, e fraca!...»
Em quanto assim fallava, me prendia
Nise c′os braços seus, e aos meus joelhos
As pernas encostava, que eu conheço
Pelo tacto, que são rijas, e grossas.

Mal podia conter-me: o ceu chuvoso
Pelas telhas cahia; o vento rijo
Pelas frestas zunia; a casa toda

Com cheiro de alfazema; a cama fôfa,
Tudo em fim era amor, tudo arreitava.
Entro a beijar-lhe as mãos feitas de neve,
Descubro-lhe com geito o tenro peito,
Que ancioso palpita, que resiste.
Que não murcha ao tocar-se; oh quanto é bella!
No seio virginal, onde dois globos
Mais brancos do que jaspe estão firmados,
Ancioso beijando-os, pouco a pouco
Se fizeram tão rijos que mal pude
Comprimil-os c′os beiços; n′este tempo
Pelo fundo da saia subtilmente
Lhe introduzi a mão, com que esfregava
O pentelho em redondo, o mais hirsuto
Que atéli encontrei; e como a crica
Vertido tinha já pingas ardentes,
Certos signaes, que os fervidos prazeres
Dentro n′alma de Nise á lucta andavam.
Tal fogo em mim senti, que de improviso
Sem nada lhe dizer me fui despindo,
Té ficar nu em pello, e o membro feito,
Na cama m′encaixei, qu′a um lado estava.
Nise, cheia de susto, e casto pejo,
De receio, e luxuria combatida,
Junto a mim se assentou, sem resolver-se.

Eu mesmo a fui despindo, e fui tirando
Quanto cubria seu airoso corpo.
Era feito de neve: os hombros altos,
O colo branco, o cu roliço e grosso;
A barriga espaçosa, o cono estreito,

O pentelho mui denso, escuro, e liso;
Coxas pyramidaes, pernas roliças,
O pé pequeno... Oh céos! Como é formosa!
Já mettidos na cama em nivea hollanda,
Erguido o membro té tocar no umbigo,
Qual Amadis de Gaula entrei na briga:
Pentelho com pentelho ambos unidos,
Presa a voz na garganta, ardente fogo
Exhalavamos ambos; Nise bella
Ou fosse natural, ou fosse d′arte,
O peito levantado, anciosa, afflicta,
Tremia, soluçava, e os olhos bellos
Semi-mortos erguia: a côr do rosto
Pouco a pouco murchava; era tão forte,
Tão activo o prazer, que ella sentia,
Que, cingindo-me os rins c′os alvos braços,
Tanto a si me prendia, que por vezes
O movimento do cu me embaraçava:
Co′as alvas pernas me apertava as coxas,
Titilava-lhe o cono, e reclinada
Quasi sem tino a languida cabeça,
Chamando-me seu bem, sua alma e vida,
Faz-me ternas meiguices, brandos mimos;
Fervidos beijos, mutuamente dados,
Anhelantes suspiros se exhalavam:
Era tudo ternura; e em breve espaço
Ao som de queixas mil, com que intentava
Mostrar-me Nise um damno irreparavel.
Me senti quasi morto em todo o corpo:
Uma viva emoção senti gostosa

Dentro em minh′alma: férvidos prazeres
O peito vivamente me agitavam:
Os olhos, e a voz amortecida,
Os braços frouxos, quasi moribundos,
Languido o corpo todo, em fim mal pude
Saber o que fazia... Eis de improviso
Tornando a mim mais forte, e mais robusto,
Tentei de novo o campo da batalha:
Qual o bravo guerreiro, que se abrasa
No calido vapor, que exhala o sangue
Que elle mesmo esparsiu entre as phalanges
De inimigos crueis, que vence, e mata;
Assim eu, abrasado em vivo fogo
Que de Nise sahia, me não farto
Da guerra, que intentei: de novo a aperto,
De novo beijo os seus mimosos braços;
Beijo-lhe os olhos, a mimosa bocca,
Os niveos peitos, a cintura airosa;
Nise outro tanto me fazia alegre,
Estreitava-me a si por varios modos:
Ora posto eu por baixo, ella por cima,
Para dar doce allivio aos membros lassos;
Ora posto de ilharga, sem que nunca
O voraz membro do logar sahisse,
Onde uma vez entrára altivo e forte,
O membro, que em tal caso era mais duro
Que alva columna de marmoreo jaspe:
Até que em fim, depois de não podermos
Nem eu, nem Nise promover mais gostos,
O brando somno, sobre nós lançado

Os seus doces influxos brandamente,
Os olhos nos cerrou. Uns leves sonhos
Vieram animar nossos sentidos,
Té que chegou a fresca madrugada,
Em que á casa voltei d′onde sahira;
E tornando outra vez á pobre cama,
Dormi o dia inteiro a somno solto.

NotasEditar

Esta peça, mais conhecida sob a denominação de «Noite de inverno» e já por vezes impressa, tem sido quasi universalmente attribuida a Bocage; pareceu portanto que não devia omittir-se na presente edição. Devemos porém declarar aos leitores, que segundo o testemunho de pessoas mui auctorisadas, ella não é obra do nosso poeta, e sim do seu contemporaneo e amigo Sebastião Xavier Botelho. De outras, que estão em caso analogo, e que similhantemente vão aqui incorporadas, iremos dando razão nos logares competentes.

[Nota de Inocêncio Francisco da Silva.]

  1. SILVA, Inocêncio Francisco da (Org.). Poesias eroticas, burlescas e satyricas. Bruxellas: [S. n.], 1900. p. 172.