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(Dedicatória)
por Castro Alves
Poema publicado em Espumas Flutuantes


A pomba d'alliança o vôo espraia
Na superficie azul do mar immenso,
Rente... rente da espuma já desmaia
Medindo a curva do horizonte extenso...
Mas um disco se avista ao longe... A praia
Rasga nitente o nevoeiro denso!...
Ó pouso! ó monte! ó ramo de oliveira!
Ninho amigo da pomba forasteira!...

Assim, meu pobre livro as azas larga
Neste oceano sem fim, sombrio, eterno...
O mar atira-lhe a saliva amarga,
O céu lhe atira o temporal de inverno...
O triste verga á tão pesada carga!

Quem abre ao triste ura coração paterno?...
É tão bom ter por arvore — uns carinhos!
É tão bom de uns affectos — fazer ninhos!

Pobre orphão! Vagando nos espaços
Embalde ás solidões mandas um grito!
Que importa? De uma cruz ao longe os braços
Vejo abrirem-se ao misero precito...
Os tumulos dos teus dão-te regaços!
Ama-te a sombra do salgueiro afflicto...
Vai, pois, meu livro! e como louro agreste
Traz-me no bico um ramo de... cypreste!

Bahia, Janeiro de 1870.