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(A rosa da manhã cedinho aberta)
por Álvares de Azevedo
Poema agrupado posteriormente e publicado em Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo (1862). Parte de correspondência trocada entre o autor e Luís Antônio da Silva Nunes.

A rosa da manhã cedinho aberta,
A estrella se apagando em céos d’aurora,

Os carmineos rubores do crepusculo,
Dos labios o tremer da virgem que ora;

Na selva a briza sen cantar coando;
De viuvo sabiá nenias e prantos;
A lua pallida nos céos sósinha,
Mas no doido tristor cheia d’encantos;

O suave rumor, á noite ouvido,
Da terra que resomna em dormir leve;
O triste fenecer de rosa pallida,
Que sente em seu nascer já morta a seve;

O sentir exhalar-se a alma em extase
Em noite de luar silencioso;
Quando em torno é silencio tudo, e a praia
Abraça o mar em beijos d’amoroso,

O mais languido arfar d’harpa de fadas,
E todas essas rosas da natura,
E a noite, o dia, e o amor e a crença.
Do céo o azul, e os sonhos de ventura;

Sonhar sonhos do Céo — do mel vivendo,
De fresca madresilva lá crescida;
E á noite imaginar um beijo d’anjo
A correr-nos a face enfebrecida;

Tudo isto é menos que beber-te as fallas,
Roçar-te a face que enrubesce o pejo
Com os labios que fervem-me d’anhelos
E — teus olhos nos meus — morrer n’um beijo!