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A tacha maldita por Manuel de Oliveira Paiva
Décimo


I


A máxima do grande Augusto Comte,
Ou por outra, o claríssimo axioma
Que diz que tudo aqui é relativo
— Enquanto outro mais claro não desponte —
Sempre há de ornar a vicejante coma
Do humano saber, tão presuntivo.
        Há de ornar a fonte bela
        Da sempiterna donzela
        Que todos chamam Ciência.
        Como o bem e o mal agudos
        São alfinetes pontudos
        De peito com finas pérolas,
        Ornando as roupagens cérulas
                   Da consciência.

Outro dia me disse o meu bom lente
Que o romano poder absoluto
Davam aos pais em relação aos filhos;
Não suponham porém que aquela gente,
Vivendo em plena orgia, dissoluto,
Da verdade não visse os belos trilhos.
        Morte acerba e dolorosa
        Teve enfim alma odiosa
        Que matasse a geração.
        E que instinto feroz!
        De seu filho ser algoz!
        Não achei quem me dissesse
        Que algum dia tal fizesse
                   Raivoso leão.

Agora choro eu do fundo d'alma!...
As faces deste ser que chamam homem
Palpitam sob as luzes de dous sóis:
Se merecem da fria morte a palma
Os pais que com punhais filhos consomem...
Dizei-me agora aqueles que aos heróis
        — Que têm vida moral -
        Lançam estigma do mal
        Nas setas da maldição?...
        Digo eu por minha conta:
        Quem neste número se conta
        E alma torpe, relé,
        Deve levar pontapé
                   Como vil cão.
Se herói se chama quem a pátria sua
Liberta, escravizando a pátria alheia,
Porque herói não é quem obedece
— Como obedece à Terra sempre a Lua —
às santas impulsões que vão na veia
E à cuja vista o bem não palidece?...
        Inda não se fez platina
        Que rebentasse a bolina
        Da barca à vela do amor.
        Não há flecha de tupi,
        Botocudo, ou guarani,
        Que ave do amor matasse;
        Nem remédio que curasse
                   Do amor a dor.


II


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Os tempos correm mal quanto a dinheiro,
Por isso o nosso João achou-se em boas.
Pela vaga veloz singram canoas
Com bom vento, bom tempo e bom lemeiro.

Porém, feroz jaguar, tão altaneiro,
Não conseguem prender no laço as boas;
Vagando pelo mar tábuas à toa,
Afogado não morre o marinheiro:

Ao homem forte, ao rijo coração
As cousas tendem incessantemente,
Obedecendo a um centro de atração:

Assim, o pardo João vive contente:
Ele e Iza, um ser só, um coração;
Mas — sustentando a velha — finalmente.

Até outra.