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A tragédia de Guanabara por Jean Crespin, traduzido por Domingos Ribeiro
Continuação, a partir do martyrio de Jean du Bourdel


Em seguida foi esta Confissão enviada ao almirante, que ponderou todos os seus termos a seu modo, guiado sempre por um intento perverso. Declarou hereticos e pestíferos varios artigos, notadamente os relativos aos sacramentos e aos votos, que lhe causaram grande horror. Não tinha pejo em referir que se não devia permittir vivessem por mais tempo os seus signatarios, afim de não serem os outros da companhia attingidos pelo seu veneno. Tendo, pois, resolvido em definitivo tirar-lhes a vida, procurou ingenuamente dissimular o seu sinistro proposito, pois receava que alguem os prevenisse da traição contra elles preparada. Não comunicou mesmo coisa alguma a quem quer que fosse e manteve o sigillo, até a sexta-feira trágica – 9 de fevereiro de 1558.

Informado de que na vespera deste dia, pela manhã, o seu barco iria ao continente para transportar mantimentos, ordenou aos tripulantes que lhe trouxessem Jean du Bourdel e os seus companheiros, todos domiciliados na aldeia dos Francezes.

Ao receberem a intimação, e presentindo que iam ser julgados pela sua Confissão de Fé, ficaram em extremo atemorizados e trementes. Os Francezes, chorando, dissuadiam-n’os, com grande instancia, de se encaminharem ao matadouro. Mas Jean du Bourdel, homem virtuoso e possuidor de uma confiança maravilhosa, rogou aos Francezes que descontinuassem de intimidar os seus companheiros, a quem exhortou e animou não só a comparecerem perante o tyranno, mas a se resignarem a, morrer, si tal fosse a vontade divina. Eis as suas palavras: "Meus irmãos, vejo que Satanaz se esforça por todos os meios para nos impedir de, resolutamente, defendermos hoje a causa de Christo Jesus Senhor nosso, e que alguns de nos revelam uma timidez fóra do rasoavel, equivalente mesmo a uma duvida acerca do soccorro e favor do nosso bom Deus, em cujas mãos, sabemos, estão nossas vidas, que ninguem nos poderá tirar sem as determinações dos seus sabios conselhos. Ora, eu vos peço que commigo considereis o modo e o motivo por que viemos a este paiz: Quem nos moveu á travessia do oceano numa extensão de duas mil leguas? Quem nos preservou de tantos perigos? Acaso não foi aquelle que tudo governa, que dirige todas as coisas pela sua bondade infinita, que ampara os seus por meios admiraveis? E’ certo que contra nós militam tres inimigos poderosos: – o Mundo, o Diabo e a Carne, e que por nós mesmos não podemos resistir-lhes. Mas, si acorrermos ao Senhor Jesus, que os venceu por nós, elle nos assistirá consoante a sua promessa, que sempre cumpre, por isso que é fiel e Todo-Poderoso. Apeguemo-nos a elle, e nelle inteiramente repouzemos. Coragem, pois, meus irmãos! Que os enganos, que as crueldades, que as riquezas deste mundo não nos embaracem de irmos a Christo!"

Esta breve allocução encheu de inenarravel consolo os seus companheiros, e todos, com muito zelo e grande vehemencia, oravam ao Senhor, pedindo-lhe os assistisse com o seu Santo Espírito, para que este os inspirasse a externarem perante os homens o conhecimento precioso que lhes havia dado do seu Evangelho. Depois, como o barco os estivesse esperando, transportaram-se nelle para a ilha de Coligny os Calvinistas Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil e André la-Fon, tendo ficado enfermo, no continente, Pierre Bourdon, por cuja causa não poude então embarcar. Chegados á ilha, Villegaignon fel-os comparecer á sua presença.

Apontando para a Confissão de Fé que segurava em uma das mãos, perguntou-lhes si fôra escripta e assignada por elles e si estavam promptos a sustental-a. Todos lhe responderam na affirmativa e cada um reconheceu a sua propria assignatura, pois reputavam christã a Confissão, visto haver sido extrahida das Santas Escripturas e porque era concordante com os ensinos dos apostolos e martyres da Egreja Primitiva. E por isso mesmo estavam firmemente resolvidos a mantel-a, com a graça de Deus, em todos os seus pontos, ainda mesmo que o Senhor permittisse que o seu testemunho 1hes custasse a vida. Não se recusavam, entretanto, a submeter-se aos que tivessem mais luzes do que elles da Palavra de Deus.

Diante desta declaração, demonstrou o almirante, pela subita mudança da sua physionomia, a grandeza do seu odio irreprimível, e ameaçou-os de morte immediata, caso se obstinassem em sustentar a sua opinião infeliz e damnosa, como a qualificava. A seguir ordenou ao carrasco que lhes prendesse as pernas com grilhões e que em cada cadeia dos mesmos collocasse um peso de 50 a 60 libras. (Villegaignon dispunha de muitos instrumentos de tortura com os quaes castigava os se1vagens, em vez de procurar attrahir estes ás doces influencias da Religião Christã). E não satisfeito com os haver agrilhoado, mandou ainda encerral-os numa prisão estreita e escura, com sentinellas á vista convenientemente armadas. Entretanto, os condemnados consolavam-se e regosijavam-se em suas cadeias, orando e cantando, com extraordinario fervor, psalmos e louvores a Deus.

Os da ilha ficaram muito consternados com este acto e todos se possuíram de grande temor. Sem embargo, alguns delles, aproveitando os momentos em que o almirante repouzava ou se occupava em outros assumptos, visitavam os prisioneiros, fornecendo-lhes alimento, consolando-os e dando-lhes esperança. Não havia, porém, no forte uma pessoa de certa preponderancia e autoridade que pudesse demonstrar a Villegaignon a enormidade da sua injustiça e tyrannia. Assim, os condenados não podiam contar, na fortaleza, com o auxilio de quem quer que fosse. Além disto, Villegaignon prohibira, sob pena de morte, a sahida, naquelle dia, de qualquer embarcação, para que os do continente ignorassem o que ali se passava. Visivelmente excitado, o almirante dequando em vez passeava em torno da fortaleza, indo repetidas vezes verificar si as portas das prisões estavam bem fechadas e si as fechaduras não haviam sido forçadas. Apoderou-se das armas que os soldados e os artezãos tinham em seus quartos para a defesa do fortim. Era o receio de que o povo se sublevasse contra elle.

Tudo assim disposto, começou Villegaignon a reflectir sobre o genero de morte a applicar aos sentenciados: decidio, por fim, estrangulal-os e, afogal-os no mar, pois o seu carrasco não possuía o conveniente preparo para os eliminar por outro meio. Firme nesta resolução, não descançou durante a noite, mas, de hora em hora, mandava examinar, as prisões. Entrementes, Jean du Bourdel continuava a exhortar os seus companheiros, concitando-os a louvarem a Deus pelo privilegio que lhes concedia de serem achados dignos de soffrer pelo seu Santo Nome num paiz barbaro e estrangeiro; e dava-lhes, outrosim, a esperança de que Villegaignon não seria tão louco e deshumano que os executasse, mas sómente, decerto, se limitaria a escravizal-os por toda a vida.

Os companheiros, porém, não acariciavam tal esperança, porque conheciam sobejamente o natural de Villegaignon, tanto mais que ha muito procurava elle o ensejo que então se lhe deparára. Na manhã do dia seguinte (sexta-feira), bem armado e acompanhado de um pagem, desceu Villegaignon a uma pequena sala, onde fez comparecer, em cadeias, a Jean du Bourdel, a quem exigio explicasse – e provasse com as palavras de Santo Agostinho – o artigo sobre os sacramentos, na parte em que asseverava que o pão e o vinho eram signaes do corpo e sangue de Jesus Christo.

Ia Jean du Bourdel citar a passagem para confirmar a asserção, sinão quando o almirante, num accesso de colera, o desmente, vibrando-lhe ao mesmo tempo, em pleno rosto, tremenda bofetada, em consequencia da qual o sangue jorrou, abundante, do nariz e da boca do paciente. E, em lhe batendo, pronunciou estas palavras: "Mentes, impudico! Santo Agostinho jámais o entendeu assim, e hoje, antes que eu prove qualquer alimento, dar-te-ei o fructo da tua obstinação!" Du Bourdel, deste modo ultrajado, preferio remeter-se ao silencio. E como, pelas faces, lhe rorejassem, com o sangue, tambem algumas lagrimas, tal a violencia da aggressão, o almirante, zombando, chamou-o de homem effeminado e tão sensível que chorava por um simples piparote. De novo Villegaignon lhe perguntou si continuava a manter o que escrevera e assignára. Du Bourdel respondeu-lhe affirmativamente e que de parecer não mudaria ate que o convencessem, pela autoridade das Escripturas, que laborava em erro.

Diante da sua irreductivel firmeza, ordenou Villegaignon ao carrasco que algemasse os braços e as mãos do paciente e que o conduzisse á rocha que elle, almirante, havia já designado e acima da qual, nas preamares, as aguas se elevam tres pés. De armas na mão, Villegaignon e seu pagem acompanharam-n’o até o rochedo. Mas Jean du-Bourdel, ao passar junto da prisão em que estavam os seus companheiros, gritou-lhes em alta voz que tivessem coragem, pois iam ser logo libertados desta vida miseravel. E, caminhando para a morte, entoava psalmos e louvores a Deus, o que causava grande espanto a Villegaignon e ao carrasco.

Quando já sobre o recife, foi-lhe apenas permittido que, antes de partir deste mundo, se dirigisse a Deus em oração, pois o almirante apressava o carrasco; e, assim, de joelhos, fez Jean du Bourdel confissão de seus peccados a Deus, a quem impetrou graça e perdão em nome de Jesus Christo, em cujas mãos entregava o seu espírito. Depois, posto em camisa, entregou-se á mercê do carrasco, pedindo-lhe, entretanto, não o deixasse desfallecer.

O almirante, vendo que a execução se prolongava muito, ameaçou ao carrasco de mandar açoital-o, caso não a concluísse logo. Então, num movimento brusco, o algoz atirou ao mar o paciente que invocava o auxilio de Jesus Christo, até que, asfixiado, e de modo tão violento e cruel, rendeu o espírito ao Creador.


Martyrio de Matthieu VerneuilEditar

Executado Jean du Bourdel, o carrasco conduzio ao rochedo Matthieu Verneuil, que estava assombrado com a morte do seu companheiro. Comtudo, permaneceu firme e confiante. Já no logar da execução, o almirante, que não tinha contra Verneuil o mesmo profundo odio que votava a Jean du Bourdel, interrogou-o sobre si queria arruinar-se e perder-se. Elle, porém, repellio o nobremente. Entretanto, isto não impedio que, ao despir-se sobre o recife, se arre-ceiasse da morte e pedisse as razões por que o executavam: "Senhor Villegaignon", disse elle, "acaso havemos nós praticado algum roubo ou ultrajado o menor de vossos servos? acaso havemos nós conspirado contra a vossa vida ou procurado a vossa deshonra? Si assim é, trazei aqui os nossos acusadores." "Não, desbriado!" respondeu Villegaignon, "tu e os teus companheiros não experimentaes a morte por nenhuma destas coisas, mas, sim, porque, sendo umas pestes perigosissimas, e estando separados da Egreja, importa sejaes cortados como ramos podres, afìm de não corromperdes o resto da minha companhia." Mas Verneuil retorquio-lhe: "Ora, visto que vos acobertaes com o manto da Religião, dizei-me: Não é verdade que ha oito mezes passados fizestes ampla e publica confissão desses mesmos pontos doutrinarios pelos quaes nos daes a morte?"

Em seguida orou: "O’ Deus eterno, visto que pela causa de teu filho Jesus Christo hoje morremos; visto que pela defensa da tua santa Palavra e doutrina nos conduzem á morte: lembra-te dos teus servos e assiste -os, toma em tuas mãos esta causa, afim de que nem Satanaz nem os poderes do mundo alcancem victoria sobre nós." E, voltando-se para Villegaignon, pedio-lhe não o fizesse morrer mas o tornasse por seu escravo.

Villegaignon, confundido, não sabia o que responder ás petições lancinantes do pobre paciente, sinão que o considerava menos do que ás immundicias do caminho e que, por isso mesmo, nenhum serviço tinha em que pudesse aproveital-o. Sem embargo, si Verneuil quizesse retractar-se da sua Confissão de Fé e declarar que estava, em erro, promettia-lhe pensar no assumpto.

Verneuil, então, vendo que a esperança que se lhe dava, além de problematica, lhe era prejudicial á salvação da alma, declarou, de modo resoluto e altissonante, que preferia antes morrer para viver eternamente com o Senhor, do que conservar a vida do corpo por mais algum tempo e morrer espiritualmente para sempre com Satanaz. Após orar de novo sobre o rochedo e de recomendar a sua alma a Deus, entregou-se ao carrasco e, gritando: "Senhor Jesus, tem piedade de mim", rendeu o espírito.


André la FonEditar

Este não permaneceu firme e só a título histórico nos occupamos delle na presente narrativa,

O terceiro huguenote, André la-Fon, alfaiate, foi conduzido pelo carrasco ao mesmo logar de supplicio. Pelo caminho pedia que, si a alguem tivesse offendido, lhe perdoassem, visto ser do agrado de Deus que elle morresse por causa da confissão do seu Santo Nome.

Ora Villegaignon quizera poupar a este em virtude dos serviços profissionaes que lhe podia prestar, visto que entre a sua gente não havia nenhum alfaiate; comtudo, não podia deixar ele castigal-o, para que se não dissesse que era de uma parcialidade iníqua. Murmurava-se que elle ordenára a um de seus pagens revelasse a la-Fon o seu intento.

Esse pagem e um outro advertiram ao paciente que, si quizesse salvar a vida, deveria dizer a Villegaignon que elle, alfaiate, não era muito versado nas Escripturas para responder a todas as questões que lhe fossem propostas.

La Fon, porém, não deu ouvidos a estes conselhos, entendendo que o perdão dos homens não era o que lhe importava e, sim, o de Deus. Os pagens fizeram retardar a chegada do carrasco e, neste comenos, foram procurar Villegaignon, que se achava perto, supplicando-lhe poupasse o alfaiate; porquanto, após alguma reflexão, não se revelava obstinado nas suas idéas e poderia com o tempo abandonal-as por completo, mesmo porque não tinha estudos. Demais, allegavam que o alfaiate ser-lhe-ia muito util e substituiria outro que lhe acarretasse grandes despesas. A princípio o almirante indeferio rudemente este pedido, asseverando que la-Fon estava muito dominado pela opinião dos seus companheiros, o que sobremodo o desgostava. Entretanto, como o reconhecia homem pacifico, perdoal-o-ia caso confessasse o seu erro; do contrario, seria morto. Neste sentido, ordenou fosse o paciente inquirido antes de ser estrangulado pelo carrasco. Entenderam-se, pois, estes dois pagens com o alfaiate, a quem rogaram e concitaram a retractar-se ou a prometter reconhecer o seu erro, ou, pelo menos, a protestar que não desejava ser ferrenho na sua opinião; porque, de outro modo, accrescentaram elles, não haveria possibilidade de salvar-se.

Finalmente, la-Fon deixou-se persuadir por estes conselhos e, para escapar á morte, condescendeu em declarar que não desejava ser pertinaz e obstinado em suas idéas calvinistas e, emphaticamente, se compromettia a retractar-se, quando lhe provassem os seus erros pela Palavra de Deus.

Villegaignon; entendendo que o paciente se revelava disposto a abjurar o que antes abraçára com tanta confiança, ordenou ao carrasco que lhe tirasse as algemas e o deixasse ir em paz, ficando-lhe, porém, por prisão a fortaleza, onde permaneceu captivo e como alfaiate do almirante e de toda a sua gente.

Tudo isto se passou antes: das nove horas da manhã desse dia, para que a maioria das pessoas existentes na ilha não fosse avisada de taes execuções. Mas, quando se espalhou a noticia de tamanha crueldade e barrbaria, todos mui justamente se recri-mínavam a sí mesmos, por motivo de não ter havido alguem entre elles que oppuzesse embargos á effusão do sangue innocente. Entretanto, como ali não houvesse pessoa alguma capaz desta attitude, deixaram-se todos ficar nas suas casernas, sem ousarem externar uma palavra do que pensavam. E, assim, poude Villegaignon praticar, sem a mínima difficuldade e conforme melhor lhe aprouve, tão hedionda crueza.


Martyrio de Pierre BourdonEditar

Não estava, porém, concluído todo o sacrifício sanguinolento sobre o rochoso cadafalso de Coligny: restava ainda executar o quarto huguenote, Pierre Bourdon, torneiro; a quem o almirante votava um odio profundo. Aquelle ficára no continente muito enfermo e não pudera par isso embarcar com os seus companheiros.

Para completar a execução, o almirante dirigia-se a terra num bote em que o acompanhavam alguns marinheiros, pois receava que o torneiro, na sua ausencia, houvesse conquistado sympathias entre os seus servos, que bem poderiam oppor-lhe resistência.

Penetrou elle em casa de Bourdon seguido do subalterno que commandava os outros marujos, os quaes não sahiram do barco. Ali exigio que lhe trouxessem o doente, que estava semi-morto. A primeira saudação que lhe dirigio foi ordenar-lhe que se levantasse para embarcar no bote immediatamente. E, como Bourdon lhe fizesse ver por palavras e pelo seu estado que se considerava inutil, no momento, para qualquer trabalho, respondeu-lhe o almirante que era para o tratar que o conduzia. Constatando, porém, que elle não podia ter-se de pé, e menos ainda caminhar, fel-o transportar até a chalupa.

Quando o carregavam, perguntou o doente si lhe destinavam alguma occupação. Mas ninguem lhe respondeu uma só palavra. Durante a viagem interrogou-o Villegaignon sobre si queria manter a Confissão de Fé que assignára; e o torneiro retorquio-lhe que pensaria nisso. Não obstante, sem o menor aviso, tão logo chegaram á fortaleza, o carrasco, segundo a ordem prévia que recebera do almirante, algemou o torneiro, levando-o ao mesmo logar de suplicio e recommendando-lhe que pensasse na alma. Então, o condemnado, olhos fitos no céo e braços cruzados, não se entristeceu, presentindo que naquelle mesmo logar os seus companheiros haviam alcançado victoria sobre a morte. Depois, em alta voz, recomendou o seu espírito ao Creador, dizendo: "Senhor Deus, sou tambem como aquelles meus companheiros que com honra e gloria pelejaram o bom combate pelo teu Santo Nome, e, por isso, peço-te me concedas a graça de não succumbir aos assaltos de Satanaz, do Mundo e da Carne. E perdoa, Senhor, todos os peccados por mim commettidos contra a tua majestade, e isto eu t’o impetro em nome do teu filho muito amado Jesus Christo".

Após esta prece, voltou-se para Villegaignon e inquirio-o sobre o motivo da sua morte. Foi-lhe respondido que a razão era a assignatura que lançára numa Confissão heretica e escandalosa. Queria o paciente saber o ponto doutrinario pelo qual fôra elle considerado hereje, visto que não havia sido examinado a respeito do mesmo. Suas observações, porém, não tiveram effeito algum, porque não era mais tempo de discussão e, sim, de pensar em si proprio, como dizia ao torneiro o almirante, ordenando em seguida: ao carrasco que se désse pressa em fazer a execução.

Pierre Bourdon, vendo que as leis divinas e humanas, que todas as prescripções civis e christãs estavam como sepultadas, submetteu-se resolutamente ao algoz, que, depois de o haver suffocado e estrangulado, lançou ao mar o seu corpo, tal como fizera aos outros dois fieis. E, assim, este martyr expirou no Senhor.

Estava, finalmente, consummada a tragedia sangrenta e tenebrosa[1]. ViIlegaignon experimentou, nesse momento, um grande allivio em seu espírito, quer por ter executado o que ha longo tempo premeditára, quer por haver dado aos que o cercavam uma prova do seu poder e da sua tyrannia.

As dez horas desse dia – sexta-feira, 9 de fevereiro de 1558 – o almirante reunia toda a sua gente, a quem dirigia a palavra, exhortando a todos a evitarem a seita dos Lutheranos, de que deveriam fugir e á qual elle proprio adherira em tempo, mas de cujo acto se penitenciava, pois não havia perlustrado os escriptos dos Padres da Egreja Primitiva. E a quantos se obstinassem nas idéas dos Reformados ameaçou de morte ainda mais horrenda que a inflingida aos tres martyres, assegurando-lhes, de modo emphatico, que seria para com elles mais rigoroso do que o fôra para com estes. Recomendou-lhes, pois, tomassem todo o cuidado a este respeito e se mantivessem em tudo adstrictos ao que os Padres da Egreja haviam tão escrupulosamente instituído e praticado.

Em signal ele regosijo pela execução dos tres fieis, nesse mesmo dia mandou Villegaignon fazer aos seus servos uma larga distribuição de viveres[2]. Mas, a partir do momento de tão monstruosa crueldade, o almirante foi de mal a peor, correndo-lhe sempre ás avéssas os seus negocios.

E eis porque escreveu a alguns cortezãos, dizendo-lhes que, si não o processassem por haver, no Brasil, durante algum tempo, propagado o Calvinismo, comprometia-se, por seu turno, a eliminar pela morte (ou, na sua expressão, a fazer emmudecer) os ministros que haviam estado na sua companhia.

Mallogrados os seus chimericos planos sobre a America, regressou Villegaignon á França e, para alcançar favores, publicou em latim, na cidade de Paris, diversas diatribes contra a sã doutrina[3], Refutaram-n’o, porém, sob o nome de P. Richier[4], e de maneira tão energica e víctoriosa. que Villegaignon, ao em vez ele conquistar gloria, se tornou odioso a todos e foi havido por homem realmente louco. Sob o reinado de Francisco II, Villegaignon atacou, a princípio de viva voz e depois por escripto, a Simão Brossier, ministro de Loudun e então prisioneiro do arcebispo de Tours; mas Brossier repellio-o vigorosamente, de sorte que todos viam no almirante um perturbador, uma pessoa destituida de qualquer sentimento religioso.

Finalmente, depois de, no ultimo quartel da sua existencia, haver vivido como parasita de alguns fidalgos, que o sustentavam e delle zombavam, pedindo-lhe referisse as historias das novas terras, Villegaignon começou a ser flagellado por um padecimento secreto, uma enfermidade horrível que o consumia pouco a pouco: e, assim, com morte correspondente ás crueldades que praticára, acabou elle os seus desgraçados dias neste mundo, sem se arrepender da sua apostasia nem dos males que da mesma resultaram[5].

NotasEditar

  1. A narrativa nada nos diz sobre o quinto huguenote – Jacques la Balleur. Mas Rocha Pombo (Historia do Brasil, vol, III, pag. 514), firmado no estudo historico do dr. Alvaro Reis, pastor presbiteriano, tem como certo que o Bollés enforcado no Rio de Janeiro em 1567, em cuja execução José de Anchieta fez de mestre ele carrasco, não é outro sinão Jacques le Balleur. (Vide Alvaro Reis, O Martyr le Balleur).
  2. Termina aqui o livro Histoire des choses mémorables survenues en la terre du Brésil que Crespin se limitou a reproduzir. Aqui, outrosim, finaliza a narrativa de Crespin. Os paragraphos seguintes não se acham na ultima edição por elle publicada (1570), nem mesmo na seguinte (1582), mas figuram nas de 1597, 1608 e 1619.
  3. Sobre os títulos destes escriptos, vide La France Protestante, 2a ed., t. V, col. 983 ,art. Durand de Villegaignon.
  4. Allusão a pamphletos contra Villegaignon publicados em 1561, de autor anonymo, sendo, porém, attribuidos a Richier, e os quaes se acham na Bibliotheca do Arsenal, appensos ao exemplar do livro - Histoire des choses memorables survenues en la terre du Brésil.
  5. Sobre a figura sinistra de Villegaignon, de execrável memoria, convem registremos aqui as palavras de Rocha Pombo: "Para se fazer uma idéa do extremo a que este homem tinha descido naquella phase de hysteria criminosa, basta citar a conducta de scelerado que elle teve com alguns daquelles protestantes de du Pont que preferiram retroceder para o forte, a arriscar a vida fazendo a travessia do Atlantico em um navio tão velho e estragado como o Jacques, e que começara a fazer agua antes de se haver afastado da costa. Os cinco Genebrinos que tinham deixado o navio, á custa de longos trabalhos, perigos e soffrimentos sem conta, alcançaram afinal a Guanabara; e procuraram o vice-almirante, appellando para a sua misericordia. O barbaro, nos primeiros momentos, tranquillizou os desvairados; mas dali a dias, metteu-se-lhe na alma damnada que aquelles pobres homens eram espiões de du Font e Richier e mandou, com um requinte de inclemencia e de dureza que faz gelar o coração, afogar tres dos desgraçados na bahia. Este sinistro tyranno renovava aqui das scenas monstruosas de Denys o antigo. Esta horrível tragedia completou aquella obra de demencia e de crime. A população, tanto da ilha como do continente, ficou estarrecida não se sabe si mais de indignação ou de pavor. Alguns dias depois da execução dos tres martyres – diz Gaffarel – metade dos colonos tinha desertado, uns met-tendo-se em desvario pelas florestas; outros procurando as costas na esperança de que os recolhesse algum navio francez. O que nos enche de pasmo é que Villegaignon, «detestado pelos Calvinistas, temido e desprezado pelos Catholicos, aborrecido pela gente da terra», tenha podido fazer-se algoz de tantas nobres victimas, zombado de todas as leis divinas e humanas; e afinal que tenha sahido ainda incolume, deixando-nos, num canto da nossa historia, a mancha mais negra que a conspurca", (Ob. citada, vol. III, pags. 505 – 508).