Anais da Ilha Terceira/II/I

Anais da Ilha TerceiraTomo II — Quinta Época — por Francisco Ferreira Drummond
Capítulo I — Envia el-rei D. João IV à ilha Terceira o cavalheiro Francisco de Ornelas da Câmara para nela verificar a aclamação. Dificuldades desta empresa.


Aclamado rei de Portugal o duque de Bragança com o título de D. João IV no dia 6 de Dezembro de 1640 , imediatamente enviou à ilha Terceira, em uma caravela, o capitão-mor da vila da Praia, Francisco de Ornelas da Câmara, fidalgo de sua casa, e que se achara na mesma aclamação , para que nestas ilhas a promovesse e proclamasse; reduzindo à sua obediência o castelo S. Filipe do Monte Brasil, dando-lhe faculdade para em seu nome oferecer ao mestre de campo, e proprietário do mesmo castelo, D. Álvaro de Viveiros o título de conde com dez mil cruzados de renda por lho entregar ; e instrução secreta dirigida a este fim, em data de 18 de Dezembro.

Partiu então de Lisboa Francisco de Ornelas a 21 de Dezembro de 1640, e chegou à Terceira ao romper do dia 7 de Janeiro imediato, que foi domingo, dando fundo a caravela em que veio no porto da referida vila, sem que respirasse coisa alguma do estado das coisas em Portugal. Apenas chegou a sua casa, foi visitar Frei Diogo das Chagas, um dos padres mais dignos e definidor da ordem seráfica, de quem tenho falado, oferecendo-se-lhe para o coadjuvar em tudo o que lhe fosse possível. E com efeito, sem hesitação alguma, o escolheu Francisco de Ornelas para seu confidente, em lugar do corregedor Diogo Botelho, falecido haviam três meses, descobrindo-lhe tudo o que se passara, e a importante comissão de que vinha encarregado. Contou-lhe como trazia cartas para o corregedor, para o capitão-mor de Angra, João de Bettencourt, e para o provedor da fazenda, Agostinho Borges de Sousa. Porém, estranhando-lhe o religioso que ele não trouxesse alguma correspondência às Câmaras, fidalgos e pessoas principais da ilha, respondeu-lhe Francisco de Ornelas, que, lidas as cartas entre os três, se tomaria a resolução que melhor parecesse, para suprir aquela suposta falta; porquanto trazia outras cartas em nome de el-rei Filipe em que avisava andarem fora armadas de França e Holanda no intento de assaltarem estas ilhas, e que para isso era necessário fortificarem-se; e que em fim, para se abrirem estas cartas, chamariam o governador, e seu tenente João Hernandez, e com eles concordariam na entrega do castelo, ou fariam que recolhendo nele mais alguma gente a título de reforço, recusando eles anuir à proposta deles, e sem trabalho nem maior perigo, assenhorearem-se da gente do presídio, antes que esta se acautelasse, e provesse do necessário para um cerco.

Mui árdua e arriscada parecia numa tal empresa, muito mais por ser falecido o corregedor , que por sua autoridade, tinha grande poder com os nobres e não pouca influência com o povo, motivo porque foi rejeitado o projecto, tendo-se por mais acertado ajuntar as Câmaras e os capitães da ordenança na vila de S. Sebastião, como era costume nos casos graves, com o pretexto de se abrir a carta que vinha para o corregedor, e chamando ali o governador e o tenente do castelo, oferecer-lhes as mercês que el-rei lhes prometia; e recusando eles aceitá-las, e render-se com o presídio, assegurar-se então deles: e no entretanto ocultar as cartas de el-rei Filipe a respeito da suposta invasão dos franceses e holandeses .

Sem embargo de assim terem consultado os dois, em a noite imediata, por conselho do capitão-mor Francisco da Câmara Paim a seu filho Francisco de Ornelas, saiu este para a cidade de Angra, três léguas distante da vila da Praia, julgando por mais acertado conferenciar com os sujeitos para quem trazia cartas, é tomar depois a resolução conveniente. Chegando ali na madrugada do dia 8 de Janeiro de 1641, foi procurar em sua casa o capitão João Espínola, parente de sua mulher, por cuja ordem se deu aviso ao capitão-mor João de Bettencourt de Vasconcelos, e ao provedor da fazenda Agostinho Borges de Sousa, a fim de comparecerem declarando-se como Francisco de Ornelas trazia cartas para lhes entregar de mão a mão. E com efeito não se demorou o capitão-mor, a quem ele entregou uma carta de el-rei D. João IV, a qual recebeu com a maior satisfação, prometendo de boa vontade seguir a sua voz na intentada aclamação, e fazê-la observar aos seus subalternos; mas o provedor da fazenda não só recusou comparecer, mas ainda se retirou à sua quinta extra-muros de Angra. O que vendo Francisco de Ornelas, e temendo que ele avisasse o castelão do que se passava, mudou a linguagem, mandando chamar o alferes mor do castelo, D. Pedro Ortiz, dando-lhe conta do que se havia passado em Lisboa, e das mercês que el-rei prometia ao governador, ao tenente, e a ele mesmo alferes, se em boa paz lhe entregassem o castelo: e que ao cumprimento destas mercês, segundo os poderes outorgados, empenharia a palavra real.

Com este recado foi logo o alferes mor ao governador do castelo, que apenas o ouviu, ficou sobremaneira indignado, protestando contra semelhante atentado, e que jamais, conviria em tal entrega; com esta resposta enviou outra vez o comissário Ortiz. Então Ornelas, sabendo o que se passava, temendo o ressentimento do governador, e vendo que em Angra perigava muito a sua pessoa, e nela toda a empresa, alta noite, homiziou-se, e regressou à vila da Praia, onde chegou na manhã do dia 10 de Janeiro.

Pouco tempo depois soube das diligências do castelão D. Álvaro para o prender, chegando a ir procurá-lo a casa do capitão João de Espínola, a título de visita, mas escoltado com alguns soldados; e que tendo notícia certa da sua partida, lhe mandara no alcance até ao portão de S. Bento, extramuros da cidade; e que finalmente, certificados os soldados de o não poderem alcançar, se haviam recolhido ao castelo, onde, com a maior impaciência, os esperava o governador, que bem mal pôde disfarçar a mágoa de lhe escapar tão oportuna ocasião de se asseguram dele. E continuando o mesmo governador com muita dissimulação, passou a escrever a Francisco de Ornelas, instando-o para que fosse ter com ele ao castelo; significando-lhe, com palavras bem ornadas, e cheias de artifício, o quanto sentia não o haver achado em casa do capitão Espínola, para o cumprimentar, e receber novas de el-rei, de quem havia muito tempo não recebera cartas.

Participou Francisco de Ornelas a seu pai, e ao religioso Chagas, o mau sucesso de sua viagem à cidade, mostrando-lhes a carta que recebera da mestre de campo D. Álvaro, com quem estava deliberado a corresponder-se artificiosamente: sobre o que conferiram todos; e considerando que, com a dilação cresciam gravíssimos inconvenientes, porque já o governador sabia todo o segredo, e que na vila da Praia também parecia divulgado, assentaram chamar os capitães da mesma vila, e particularmente o capitão Melchior Machado de Lemos, que era um decidido e valorosos português , para o convidarem a ter parte naquele negócio; e contando com ele e com os mais capitães, fazerem frente ao castelão, quando ele se atrevesse a mandar prender Francisco de Ornelas, e obstar a aclamação do novo rei, para a qual se achavam dispostos os ânimos das pessoas principais e povo daquela capitania. No entretanto pareceu bem que o referido religioso passasse a residir na cidade, a fim de pesquisar qual o ânimo e disposições do governador, para se conservar com o presídio que então constava de quinhentos soldados.

Ainda que Francisco de Ornelas havia retido em si as cartas de el-rei Filipe em que avisava o mestre de campo D. Álvaro do intento dos franceses e holandeses, a respeito destas ilhas, e este boato se tinha logo espalhado, apenas ele chegara à vila da Praia, para o único fim de o persuadir e enganar; deste mesmo estratagema se valia ele agora, espalhando voz e fama que os inimigos vinham apreender a fortaleza de S. Filipe; e com este ardil tratou muito a seu salvo de a municiar, e abastecer o melhor que lhe fosse possível : e para isto veio logo à Câmara da cidade requerer-lhe mantimentos suficientes para sustentar qualquer cerco, não cessando de importunar com suas requisições o feitor Pedro Lagar e o provedor Agostinho Borges de Sousa, para que lhes mandassem todos os mais provimentos; ao que eles prontamente satisfizeram, principalmente o provedor, ou por obrigação de seu cargo, ou por afeição aos Castelhanos, como sempre o culpou a voz pública: de tal forma que naquele tempo, e depois do castelo sitiado, por todos os meios e modos o buscaram para lhe tirarem a vida, e o conseguiriam, se ele não soubesse evitar o primeiro ímpeto e furor dos seus adversários, ocultando-se de apareceu em público; e todavia algum tempo depois, o mesmo Agostinho Borges se justificou como verdadeiro e fiel português . No mesmo dia em que o castelão veio à Câmara requisitar provimento para a fortaleza propôs-lhe igualmente que mandasse arrasar o castelo de S. Sebastião, debaixo do especioso pretexto de prejudicar as baterias do outro castelo, que encruzavam o porto; mas a isto se opôs a Câmara , mui principalmente o seu presidente o capitão João de Ávila. Contentou-se por último o governador com levar toda a pólvora da dita fortaleza de S. Sebastião: e quando alguns, chegando-se a ele, o aplaudiam por aquela acertada medida, respondia-lhes astuciosamente: “que ele não tinha cartas de Sua Majestade, mas pelas notícias de guerra, que pela ilha andavam, lhe era necessário prover-se de tudo”.

De todos estes movimentos e inquietações avisou o padre Chagas a Francisco de Ornelas, considerando na verdade o negócio em todo perdido, e recomendando-lhe o maior cuidado com a sua pessoa; no enquanto ele reservava o dizer-lhe outras particularidades que nem a brevidade nem o papel consentiam. E todavia, no dia 17 de Janeiro, passou este religioso à Praia, a persuadir Francisco de Ornelas para que em Câmara abrisse a carta que trouxera ao corregedor finado Diogo Botelho, porque só assim o povo sossegaria da impaciência em que andava; e que se levantasse a voz e aclamação do novo rei D. João; porquanto melhor parecia batalhar contra o castelo antes de provido, do que depois de o estar: e não restava dúvida que todo aquele preparativo de guerra se fazia simuladamente contra os portugueses. Deste mesmo parecer foi o capitão-mor Francisco da Câmara Paim, que não poupou estes e outros argumentos a fim de persuadirem o referido seu filho; porém tudo foi inútil, porque receando este o dar motivo de derramamento de sangue antes de intentar todos os meios de pacificação, e desagradar a el-rei por isso, que alterava as suas ordens, tomou por última resolução voltar para Lisboa, assim por assegurar sua pessoa, como para avisar a Corte do que se passava na ilha. O que tudo ficou de nenhuma efeito por falta de embarcação. No enquanto, foi respondendo com a maior dissimulação ao governador, escusando-se, com vários pretextos, de entrar no castelo à conferência que dele se exigia, e de outras pessoas da cidade, especialmente do capitão João de Ávila, que já abertamente se lhe declarava em oposição.

Aparecerem então na Praia alguns pasquins e sonetos , exigindo de Francisco de Ornelas a publicação das ordens que trouxera de Lisboa: ao mesmo tempo que já o governador se ressentia de que os empregados públicos se lhe não, e oferecessem para o ajudar na grande lida em que ele se considerava o mais empenhado, intentando assim por estes meios assegurar-se e reter no castelo todos aqueles de quem suspeitava. E não duvidando Francisco de Ornelas que o governador passaria a efeitos graves, mandando-o prender e cometendo quaisquer outros excessos, consultou em particular com os capitães do seu comando mandar pôr de noite, guardas na entrada das ruas e estradas que iam para a vila da Praia: o que não foi debalde, porquanto logo nos primeiros dias vieram de noite alguns soldados castelhanos com ordem de o prender; e encontrando-se com a ronda, cuidaram de se desculpar, dizendo que iam de mandado do governador falar com o seu cabo; e porque estavam armados os fez a ronda recolher outra vez à cidade; o que bastante inquietação causou ao governador, por ver a inutilidade de suas tentativas; e suposto fizesse mui fortes arguições e protestos contra este procedimento, nem por isso deixou de se continuar com as mesmas vigias, até se fazerem públicas por assento em Câmara . Achando-se por tanto o governador D. Álvaro de Viveiros senhor do castelo S. Filipe, e forte em armas e bastimentos, capazes de sustentar por muito tempo um cerco, assim mesmo determinou participar a el-rei seu amo o estado em que se achava, e pedir-lhe socorro, para o que provavelmente devia acontecer. A este fim preparou dois navios, um para a Corunha e outro para Sevilha, e exigiu dos oficiais da Câmara da cidade escrevessem também a el-rei de Castela, oferecendo-lhe de novo vidas e fazendas e obediência às suas ordens. O que eles fizeram, ou por condescendência ou por medo, como é provável . O mesmo exigiu das câmaras da vila de S. Sebastião e da Praia, assinando-lhes o prazo de dois dias para este fim, o que se manifesta da cópia da carta (Documento A). Não se sabe a resposta que lhe deu a Câmara da Praia, mas sabe-se que não escreveu a el-rei como se lhe ordenava. A Câmara de S. Sebastião respondeu ao governador nos termos da carta (Documento B) a qual recebendo ele, e lendo-a, rompeu nestas palavras: “Os de la Praia disen que nó sabien nada, e a voz sahiu de lá melhor. Estes señores de la villa de S. Sebastian que nó escrievien a Sua Majestade, e a mim respondien com palabras prienhes; e disen que sou villanos; por muy cordos los tiengo yo, mas tudo se pagará a su tiempo, assin a ellos, como a quien los aconseja que yo sei muy bien”.

Imediatamente despachou os dois navios com as suas cartas, e dos que com ele se ajuntaram; e continuando, sempre com o mais provimento do castelo, punha os últimos esforços para quanto antes se fortificar em tudo. E porque na Praia se achava quantidade do trigo do dízimo que nesse tempo se cobrava por conta de el-rei, mandou ali a caravela de Gaspar Martins , de que era piloto João de Melo, e dentro nela o feitor Pedro Lagar para conduzir à cidade aquele trigo. Então Francisco de Ornelas, que há muito desejava ter ocasião de dar parte a el-rei D. João do que se passava na ilha, embargou a caravela, e por mais diligências que fizesse o governador para que lha entregasse, o não quis fazer, com fundamento do ser obrigado a participar a el-rei Filipe, assim como ele o fazia o estado de defesa em que se achava na sua capitania; e logo a 16 de Fevereiro a enviou para Lisboa, mas com a infelicidade de cair em poder dos mouros, que andavam na barra, ficando por esta parte baldado o fim proposto.

Partindo a caravela, assentou Francisco de Ornelas com os oficiais da Câmara da Praia (conservando sempre o segredo da aclamação) se fizesse corpo de guarda na praça da vila, para maior segurança da ilha, porque vinha entrando a primavera, e poderia o inimigo intentar algum assalto: e desde então para cá entrava no serviço de vinte e quatro em vinte e quatro horas uma companhia. Sabendo isto o governador, levou muito a mal esta providência, tomando-a directamente contra o castelo, e em descrédito de seu rei; em consequência do que deprecou à Câmara, por uma carta exortatória, para que intimasse ao capitão-mor e aos mais capitães de ordenanças, da parte de el-rei Filipe, levantassem imediatamente aquela guarda, ao que eles responderam com o teor das cartas (Documento C e Documento D).

Com esta resposta ficou ele sobremaneira agoniado, por entender que toda a gente da ordenança da capitania estava deliberada a resistir-lhe, se lhe mandasse prender o seu capitão-mor, ao qual já o mesmo governador, segundo a fama, tinha dentro do castelo declarado traidor a el-rei Filipe: e sem embargo de tão manifesto ódio, ou porque ele se não atrevesse, ou porque alguém o persuadisse a desistir da intentada prisão, o certo de que o governador não se moveu do castelo. Ainda que pela cidade andava pública a notícia da aclamação do novo rei, disto não tinha a Câmara participação alguma, razão porque somente ia contemporizando, e satisfazendo às requisições do governador, já concedendo-lhe umas coisas, já negando-lhe outras; e preparando-se ultimamente para lhe resistir quando se desse ocasião.

No intento de fazer corpo da guarda na praça da cidade comprou a mesma Câmara umas casas , e as preparou com as necessárias comodidades para o quartel. O que vendo o governador cada vez mais se inquietava, não cessando de importunar a Câmara para que lhe enviasse ao castelo todo o género de víveres, lenha e fachinas. A isto se opôs com toda a energia o presidente, capitão João de Ávila, que no dia 17 de Fevereiro convocou à vereação o capitão-mor da cidade João de Bettencourt, e outras pessoas da governança, fazendo-lhe ver quanto convinha organizar uma companhia de ordenanças, que vigiasse e defendesse a cidade, para evitar a prisão de todos os cidadãos, que provavelmente não tardariam a ser procurados .

Não foram vãs estas suspeitas porque o governador intentou assegurar-se de todos quantos lhe obstavam às suas impertinentes requisições, convidando-os para lhe irem falar ao castelo, onde tinha de lhes propor coisas do serviço de Sua Majestade e mesmo dando-lhe a entender queria ultimar certo negócio que de novo sobreviera, e pertencia a todos; mas não faltaram escusas com que uns e outros co-honestaram as suas respostas, e por esta forma desviaram a má vontade do governador. Antes sim foi este empenho a causa principal de se formar, quanto antes, a dita companhia, da qual foi nomeado capitão Jerónimo da Fonseca, e com ela entrou em efectivo serviço no quartel da praça.