Anais da Ilha Terceira/IV/III

Anais da Ilha Terceira por Francisco Ferreira Drummond
Capítulo IV-II

Capítulo IIIEditar

Vão pretexto e imputação de horrendos crimes contra os constitucionais da ilha Terceira que, por essa causa, são levados e estreitas prisões. Rebela-se a tropa contra o seu chefe. É preso e suspenso o corregedor José Joaquim Cordeiro, que em vão se opõe às violências dos revoltosos. Levante popular por ocasião de se embarcarem os trigos. Fanatismo religioso espalhado por certos eclesiásticos. Maneira extraordinária com que é festejada a vinda do barão da Vila da Praia, novamente enviado como capitão-general destas ilhas. Chegam também à Terceira o corregedor sindicante e os juízes de fora da cidade de Angra e Vila da Praia. Deportações que faz o general, por cautela. Desenvolvimento das pretensões do infante D. Miguel em Portugal, e sucessos desta empresa na Terceira. Suspensão do general Stockler, que inutilmente promove a sua recondução. Vinda do capitão-general Touvar, e restabelecimento da ordem pública. Desaprova el-rei D. João VI os procedimentos populares que tiveram lugar nos primeiros dias de Agosto de 1824.

Sem embargo das proclamações e indultos de que tenho falado, promovia-se em Portugal mui ocultamente a perseguição dos liberais, por insinuações da rainha D. Carlota, e do marquês de Chaves, abonando as pretensões do infante D. Miguel à sucessão do reino; e para o mesmo fim, e com igual aplauso, se promovia na Terceira o andamento de coisas, pelos agentes do despotismo; porém convindo dar-se algum motivo plausível, que co-honestasse um semelhante proceder, o qual só tendia a exterminar os homens livres, começaram as aleivosias e calúnias na jurisdição da Vila da Praia, imputando-se aos poucos constitucionais que nela havia planos tenebrosos e subversivos e correspondências criminosas com certos indivíduos da cidade de Angra, já se sabe, com o fim de destruir o trono e o altar que nesse tempo era o estribilho popular. E tudo isto se fazia por mediação do cadete Manuel Pamplona; aumentando também que os constitucionais pretendiam assassinar muitas pessoas naquela Vila, e largar fogo ao polvarim. Perdeu-se para sempre, e não importa que assim acontecesse, na obscuridade dos tempos o autor de tamanho aleive e perversidade!

E com efeito, no 1.º de Agosto de 1823, alguns paisanos de ínfima plebe da mesma Vila da Praia, acompanhados de vários soldados de milícias, e comandados pelo sargento Cunha, armados de baionetas, espadas e outros instrumentos bélicos, entraram em casa dos poucos constitucionais, espancando e tratando mal todos aqueles, que prontamente se lhes não entregavam; e tudo isto no meio dos gemidos e aflições de suas famílias.

E foi por este meio estranho que respeitáveis empregados civis e eclesiásticos de uma vida pacífica e exemplar, homens probos e cidadãos beneméritos, foram privados de seus empregos, em que se ocupavam com títulos legais e lançados em estreitas prisões.

Às 3 horas da tarde, havendo já cessado estas, chegou à Vila o coronel de milícias Cândido de Meneses, acompanhado pelo major António Moniz Barreto, e pelo capitão de estado-maior José Borges Escoto, fingindo-se todos eles muito agoniados por aquele inesperado acontecimento; e, para constar, fizeram escrever em Câmara um auto em que declararam os motivos destas prisões; e que para livrar os presos da fúria do povo, que os podia atacar, determinaram fossem conduzidos à cidade com toda a segurança. Assinou-se com efeito no dia 2 de Agosto o auto, e mandou-se ler aos presos que se achavam na cadeia da mesma Vila da Praia (Documento J).

Já nesse tempo um sem número de pessoas do todos os estados e condições coroavam os muros e a praça pública, repetindo cordiais vivas a el-rei absoluto, à rainha e ao infante D. Miguel seu filho, ao marquês de Chaves, e, por fim, ao dito coronel Cândido de Meneses, ao major Moniz, ao capitão Escoto e a outros. Ouviam-se de premeio alguns gritos horrendos, com a boa frase — morram os jacobinos!.

Não se pode sem justa indignação recordar a imprudência e audácia com que as mulheres de alguns destes perseguidores sentenciavam já, em alto e bom som, os presos à morte; e mesmo dispunham de suas famílias, dizendo que os seus bens se haviam de repartir com o povo; e — que se devia alimpar a terra daqueles sevandijas!; e que para isto bem podia já o escrivão dos órfãos, Álvaro Camelo, tratar de lhes fazer os inventários!.

No 3.º dia de Agosto, que era domingo, mandou-se perguntar aos presos se queriam ouvir missa; e se bem que esta proposta foi sincera, logo deles se apoderou um terror pânico, desconfiando não fosse algum enredo para os tratarem mal, ou assassinarem, pois que a gentalha da Vila e termo não cessava de vociferar com espanto e terror, esperando-os na praça e nas ruas imediatas. Mas certificados os presos de que nada havia contra a sua segurança individual, deixaram-se extrair da cadeia, suplicando assim mesmo os acompanhasse um destacamento de soldados dos mais valentes e de maior confiança. Finda a missa, voltaram à cadeia sem receberem o menor insulto.

Contou-se por um rasgo de valor e patriotismo quanto praticou o juiz do fora António José Machado, entrando na cadeia a consolar e confortar os presos, certificando-se de que se não afligissem com aqueles boatos e gritarias do extermínio e de morte, pois não seria tudo quanto o povo quisesse deliberar e executar soberanamente; e que para os acompanhar se havia destinado uma escolta de inteira confiança, que os havia de conduzir à cidade livres de qualquer insulto; que nesse mesmo dia de tarde sairiam pela estrada de cima: como de facto acontecem, reunindo-se outra força militar no meio da mesma estrada, por onde andavam à espia de outras pessoas comprometidas, para as prender também e levar à cadeia; o que todavia não se conseguiu por estarem já todos prevenidos por aquele acontecimento.

Era o número dos presos nesta ocasião de vinte, a saber: quatro clérigos, cinco frades e onze seculares, cujos nomes vão no mapa (Documento K).

No meio de tamanho perigo notou-se a coragem e sangue frio com que se houve o beneficiado da matriz da Praia António José da Rocha, divertindo as escoltas com ditos e graças mui salientes; de tal forma que, para satisfazer a certos sarcasmos que contra todos se dirigiam, respondia com a maior prontidão e mesmo com muita graça que lhe era própria: mas olhem vocês que eu não sou pedreiro livre, esses é que o são!E o senhor padre também é desses tais! — lhe disse um dos perseguidores que já fora seu criado. Oh rapaz — respondeu o padre — olha bem, eu não sou malfeitor nem pedreiro livre; só venho aqui tendo sentido nestes para que não fujam!.

Em diferentes lugares onde se achava junto povo em maior número, algumas pedras foram lançadas contra os presos mas não houve contusão nem ferimento considerável, porque a tropa os defendia com toda a força e disciplina.

O maior perigo foi na passagem por Vale de Linhares abaixo, e ao entrar os Portões de São Bento, no princípio da cidade, onde se achava a populaça da Ribeirinha, que de tempos mui antigos se costumam distinguir em semelhantes empresas1, zelosos da realeza e demasiadamente ciosos do seu bem-estar.

Na defesa dos presos distinguiram-se com muita coragem e presença de espírito o capitão das Lajes, Francisco Gil de Vasconcelos, e o valente soldado Maximiano de Lemos, de tal forma que, a não serem estes dois beneméritos militares, a carnagem seria inevitável. No entretanto foram notados de cobardia os capitães Francisco de Meneses e Elesiário Coelho Ribeiro, os quais sendo escolhidos, assim como aqueles outros, para esta diligência, subtraíram-se ao dever de perfeitos militares, e bons cidadãos.

Chegaram em fim estas escoltas à cidade, já perto da noite e a muito custo, não só pelo abatimento em que iam alguns dos prisioneiros a pé, senão pela imensidade do povo que se achava junto dos caminhos e ruas, de forma que era necessário muitas vezes abrir vereda com as armas por entre ele.

Foram então os presos recolhidos furtivamente, pelo portão dos carros, no convento de S. Francisco, para desta forma se evitar maior perigo se fossem entrar pela porta, em cujo adro se achava um infinito número de gente, armados com ferros cortantes de toda a espécie. Mas além de muitas pedradas que também a populaça arremessou contra os presos, esteve no último perigo de vida o pregador frei Francisco de Santa Úrsula, a quem um dos amotinados, ao mesmo tempo que em altas vozes lhe chamava Saco de Carvão, atirou uma facada de raspão a qual, por se encontrar com a manga em que ia o lenço, a levou fora de seu lugar em embebendo-se nela sem o ferir.

Foi igualmente certo haverem frades da mesma ordem que em vez de se afligirem e compadecerem de seus irmãos, saíram fora de suas celas a insultá-los; e contou-se neste número frei João da Purificação, frei Mateus da Ave-Maria, e frei António do Rosário, todos três mestres na sua ordem: e os pregadores frei António de Pádua, vigário do coro jubilado, frei Teodósio, e outros mais, que pelo tempo em diante se foram desenvolvendo cada vez mais furiosos.

Neste convento ficaram os presos recolhidos e hospedados com muita caridade do guardião e empregados subalternos. Logo que os amotinados souberam que eles entravam pelo portão dos carros, avançaram para ele cheios da maior impaciência e raiva, gritando se lhes abrisse o portão, que se queriam vingar por suas mãos; e certamente o abririam a golpes de machado a não estarem ainda ali as escoltas que impediram este procedimento. Fechou-se imediatamente a portaria; e vendo os revoltosos que lhes falhavam todos os meios de se vingar, voltaram-se contra os presos com palavras insultantes, mencionando também quantos os protegiam.

Tornaram-se dignos de eterno reconhecimento, pela caridade que neste dia e sempre ali praticaram com os presos, o respeitável mestre da ordem, frei Sebastião de Santa Catarina, e seu irmão, o pregador frei Francisco, naturais da Graciosa: pois que o seu primeiro cuidado foi logo ir visitá-los, assistir-lhes, e confortá-los, exortando-os à paciência e resignação; continuando-lhes nos dias seguintes, e em todo o tempo que ali se conservaram, a fazer grandes obséquios de tudo o que era seu (possuíam então fundos seus e grande crédito na província) e muito mais advogando a causa dos mesmos presos onde quer que se achavam, reprovando altamente os excessos populares.

Alguns outros religiosos se distinguiram também, prestando valiosos serviços; mas debaixo de certo acanhamento que mostrava cobardia e fazia acreditar futuras empresas em geral contra todos os constitucionais.

Os seculares que nesta ocasião foram apreendidos entraram na cadeia pública da cidade, ficando reservadas suas prisões a outros eclesiásticos que nelas deram entrada nos dias subsequentes.

Reclusos com efeito os presos no convento de S. Francisco, da forma que deixo escrito, não se ouviam pela cidade senão vivas, foguetes e alegrias, achando-se a tudo isto indiferentes as autoridades, excepto o corregedor José Joaquim Cordeiro, que não cessava, mesmo de cima das janelas de sua casa2, de reprimir aqueles excessos, ordenando ao povo que se pacificasse e se recolhesse a tratar de seus negócios e famílias; que pelo contrário ele procederia contra os autores de tais motins, e também seria pronto em administrar justiça contra aqueles homens, se eles fossem achados em culpa.

Ele mesmo oficiou à Câmara, por várias vezes, para que se reunisse, mas ela não o quis fazer.

A tropa, insubordinado com acção para tudo, rebelou-se contra o governador das armas, que receando-se do triste exemplo de Francisco António de Araújo, acolheu-se aos matos para não aparecer na cidade, onde por toda a parte o procuravam.

Em princípio da noite do mesmo dia 3 de Agosto, espalharam-se os soldados pela cidade, reunindo-se-lhes alguns paisanos já de antemão a este fim ajustados, cercando as casas e forçando as portas dos constitucionais, os prenderam, levando-os, com mau tratamento e nos trajes em que os acharam, ao Castelo de S. João Baptista, onde os meteram dentro do calejão à entrada da Porta Falsa. O número e os nomes destes prisioneiros constam da relação (Documento L).

À uma hora da noite foram prender o corregedor, o qual depois de roubado de tudo o que possuía de valor, encerraram na mesma horrorosa prisão; e às 19 horas do dia o 4 de Agosto o foi buscar o capitão João Ernesto Cabral para assistir a um conselho militar, findo o qual lhe declarou o mesmo capitão, que ele corregedor ia preso sob homenagem para tratar dos negócios da fazenda real; mas sabendo ele que em tais circunstâncias não podia exercer jurisdição válida, rejeitou com a maior constância a condição proposta.

No mesmo dia 3 de Agosto instalou-se na Câmara o governo interino, composto do coronel Cândido de Meneses, que ficou com o governo das armas, de João Pereira de Lacerda, Luiz Meireles do Canto e Castro, e Roberto Luiz de Mesquita.

E sendo eleito governador do Castelo Manuel José Coelho Borges, na ocasião da posse moderou desde logo as prisões de alguns, que na verdade eram cruéis; e querendo também que a tropa entrasse no seu dever, logo esta se desgostou a ponto de reclamar que queria outro governador; então o honrado Manuel José Coelho Borges houve por bem antes demitir-se do que cegamente subscrever o que se fizera e poderia ainda fazer, uma vez que a força armada perdera a necessária disciplina.

E como o corregedor estava suspenso, tinha-se cometido o cargo ao juiz de fora da Vila da Praia, António José Machado, que tombem mui cordialmente o rejeitou, motivo porque o governo interino o suspendeu de juiz no dia 12 de Agosto, procedimento este que muito sensibilizou os homens de probidade: e ele deu-se por tanto ofendido, que imediatamente saiu para Lisboa, e não quis mais coisa alguma da ilha com semelhante governo.

Desde logo se travou uma espécie de luta com o governo interino, que sustentava haver suspendido o corregedor de facto e de direito; e vindo este no dia 5 de Agosto cuidar do pagamento da tropa, foi conduzido à cadeia pública, onde se achava um grande número de presos por diferentes crimes, sem que lhe aproveitasse o muito que sobre isto requereu e energicamente alegou em favor da jurisdição real, que lhe fora usurpada, no que levou todo o tempo de sua prisão, que foi; como dos mais, o espaço de cinco meses.

Concluídas as prisões, logo se procedeu a devassas pelos crimes de que se fazia carga aos réus. Estas devassas tiveram lugar, por ordem do governo, em todos os julgados da ilha. Não faltaram então acusadores que por motivos particulares deixassem de ir vingá-los com estes ou aqueles fundamentos, denunciando crimes de muita gravidade, se provados fossem, e verdadeiros os factos que, pela maior parte, versavam na política.

Todavia a maneira de formalizar os processos, a sua marcha e inquérito das testemunhas, envolveram muitas nulidades e foram causa de se julgarem afinal de nenhum efeito.

Servia em Angra de juiz ordinário Alexandre Martins Pamplona, que mui cavalheiramente se houve neste cargo; na Vila de S. Sebastião, o sargento-mor José Machado Homem3; e na Vila da Praia, António Borges Pacheco Leal Ramires, homem timorato e volúvel que, a não ser assim, poderia prestar melhores serviços à causa da justiça, do que prestou pela sua ambiguidade em tais conjunturas.

A populaça de Angra, que andava afeita e propensa a todas as revoltas com o auxílio da soldadesca, murmurava altamente contra a licença obtida por alguns negociantes para o embarque de trigos, porque, suposto fosse a colheita daquele ano, como se ostentava em vinho e frutas, uma das mais notáveis de que havia memória, não era assim a respeito dos trigos, e provavelmente dos milhos seria escassa. Nestas circunstâncias, era já excessiva a licença para os embarques dos cereais. E como o governo não dava providências em contrário, tomou a resolução de fazer justiça a si própria.

E assim, com muita gritaria e alvoroço, avançando em massa contra os carros e homens que iam conduzindo as sacas de trigo para o cais, as rompiam com facas e outros ferros, espalhando o que levavam dentro, e ficando exposto aos animas que o queriam comer, e às pessoas que o levaram para suas casas. O mesmo aconteceu na Vila da Praia naqueles dias, por iguais fundamentos; e tudo isto sucedeu sem que, nem pelos sumários que se tiraram, nem por outra alguma forma, pudesse o governo providenciar em desagravo da justiça, como convinha contra os autores de tais delitos.

Por este mesmo tempo juravam nas câmaras os empregados públicos, com toda a solenidade, por ordem do governo supremo, não pertencer de forma alguma a “sociedades secretas”, seguindo-se deste juramento, que a muitos foi extorquido, um novo motivo de perseguição e de acusações que por certa forma vinham autorizadas na Carta de Lei de 20 de Junho.

Por efeito desta lei deviam ser chamados aos cargos municipais os vereadores transactos: motivo porque a Câmara da cidade proclamou aos povos do seu concelho, noticiando-lhes como eram obrigados a deixar os cargos e agradecendo-lhes os serviços e pronta obediência no tempo do seu governa.

Não deixavam também os eclesiásticos menos prudentes, nos púlpitos e confessionários, de aumentar as ideias anticonstitucionais, aplaudindo de todas as veras o restabelecimento d’el-rei no trono e nos seus inauferíveis direitos, contando por milagrosa esta restituição quanto podiam apropriar e alcançar de alguns textos das escrituras sagradas, que citavam e controvertiam à sua vontade.

Contaram-se por tanto milagres que lhes pareciam os mais evidentes quando, por exemplo, os devotos invocavam a senhora do vendeiro da Rua de Santo Espírito, que suava bagadas de água, e por isso foi visitada por muitas pessoas sinceras e verdadeiramente religiosas de toda a ilha.

Não menos se contava dos prodígios que se dizia obrava Deus pelos defuntos padre António Cardoso de Castro, vigário da Vila de S. Sebastião; e na parte da Praia, queria estivessem a toda a prova os que fazia a alma do “santo mártir” dr. juiz de fora Serafim Girão Rodrigues de Almeida. Assim por este bom gosto se entretinham os povos, entregues a uma demasiada credulidade, mas à discrição de quem ocultamente os dirigia para seus fins!

Em 11 de Agosto apareceram na Câmara de Angra os presbíteros Manuel Joaquim Fernandes, capelão da igreja do extinto colégio da companhia de Jesus, o beneficiado João de Andrade, e o padre João Pedro, representando ao senado o seguinte prodígio: Que estando eles no sábado da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo arranjando as imagens da igreja do Colégio, para se fazer a procissão costumada, foram certos indivíduos pedir a chave de uma sala contígua da capela, para ali ensaiarem uma comédia que tinham de representar, sem atenderem à perturbação dos actos de piedade, e devoção que junto se estavam praticando; que então eles representantes, aflitos e angustiados com estes procedimentos, se voltaram para a imagem da senhora da Boa Morte, pedindo-lhe que a santa religião não fosse em abatimento, e que el-rei fosse exaltado ao trono de seus maiores: e se assim acontecesse, que eles lhe prometiam fazer a festa e procissão solene, que haviam mais de 30 anos se não fazia, pelo que, verificando-se, como se verificava, o milagre pelo recente restabelecimento d’el-rei a seus direitos, iam eles requerer à Câmara, e convidá-la para no dia 18 de Agosto assistir àquela festividade.

Foi ouvido com especial agrado o requerimento, discrepando unicamente o voto do vereador Jerónimo Martins Pamplona, por sustentar que a Câmara não podia entrar incorporada na capela, que era jurisdição real. Eram estas as importantes questões do tempo dentro na capital dos Açores, onde a sua Câmara Municipal se ocupava de religiosos deveres.

A 16 de Agosto, em execução da referida Carta de Lei, deram os vereadores desta a Câmara posse aos que serviram no ano de 1820, ficando por isso servindo Alexandre Martins Pamplona, Francisco de Meneses Lemos e Carvalho, Bento de Bettencourt, Luiz Meireles do Canto e Castro, e procurador Vicente Reinaldo Machado: igual mudança houve nas outras câmaras da ilha Terceira.

Entregues os povos à sedução e ao fanatismo, não cessavam de odiar os constitucionais que, apesar dos precedentes de que tenho falado a respeito do general Stockler, nem duvidavam da sua reintegração, nem a temiam, visto não terem culpas algumas; e por entenderem que ele seria capaz de tranquilizar agora os mesmos povos, e repreender os excessos dos chefes do partido realista, o desejavam quanto antes. Não havia dúvida que ambos os partidos o esperavam, por ter sido unanimidade de votos nas três câmaras e pessoas a este fim convocadas.

Houve finalmente notícia da sua vinda, e por isso em 17 de Agosto fez a Câmara da cidade cantar na Sé catedral um solene Te-Deum em acção de graças por tão grande benefício; e contudo não se assustavam os prisioneiros de Estado, atrás mencionados, contando com a inocência da sua causa; parecia-lhes, é verdade, que mesmo general vinha triunfar de tantos actos parciais, mas não havia remédio porque era o governo quem o mandara.

Todavia, o corregedor e outros presos de maior consideração desconfiavam de não obter soltura, motivo porque pediram certidão de suas culpas e comportamento, que tudo se lhes deu, depois de infinitas réplicas e tréplicas, com que inquietaram o governo interino.

Preciso é confessar que tão inexorável parecia o governo, como benéfico era o juiz ordinário Alexandre Martins Pamplona, inquirindo as testemunhas da devassa. A verdade e só ela é que este recto magistrado exigia, opondo-se a excessos de palavras, à difusão, e explicando-lhes o que era — ouvida pública — em que algumas testemunhas se baseavam. Conheceu-se por um rasgo da fortuna, por um rasgo da Providência divina, o ficar este respeitável fidalgo4 reconduzido no cargo, para nesta ocasião tão inesperada ser um valente Sansão da sua pátria, um perfeito amigo dos terceirenses.

Chegou o dia 17 de Novembro (já nesse tempo haviam subido a el-rei várias representações relativas aos movimentos populares, em que se empenhava o mesmo juiz ordinário para com o conde de Subserra, então ministro de Estado) neste dia com ansiosa saudade esperavam os realistas a vinda do seu general, premiado com o honroso titulo de Barão da Vila da Praia, e que vinha reintegrado no mesmo cargo: e às 11 horas da manhã chegou defronte do porto da cidade uma charrua que o trazia a bordo, levantando então o pavilhão real a tiro de peça. Imediatamente se pôs em armas a guarnição da ilha, de forma que em um instante tudo se aparelhou para o receber, começando pela cidade geralmente vivas e parabéns recíprocos, como se fosse chegada uma pessoa real, com as maiores fortunas.

Ignora se a razão porque se diferiu o desembarque para o dia imediato; porém, isto mesmo foi causa de se encher a cidade de povo de todas as freguesias da ilha, que vinham ver, diziam, o general santo.

Seguiram-se as salvas dos castelos, repiques de sinos em todas as igrejas da cidade, e à noite luminárias, fogos de artifício, e hinos de música pelas ruas.

Desembarcou enfim o barão da Vila da Praia, o tão desejado general, perto do meio-dia, ao som de vivas aclamações. Vieram esperá-lo as autoridades eclesiásticas, civis e militares, os batalhões de linha e os auxiliares de ambas as capitanias, os cidadãos mais distintos das vilas e povoações da ilha; e para me não demorar por mais tempo sobre este objecto, direi que ainda até hoje não consta fazer-se o recebimento de pessoa real com tanto aparato5.

E tal foi o excesso dos aplausos que lhe tributaram os realistas, que publicamente os poetas lhe renderam apoteoses em nome de todos, chegando a tanto que debaixo do seu retrato, nos pomposos arcos triunfais que se achavam armados, lhe puseram legendas sagradas, que profanaram com traduções forçadas, como foi aquela extraída do Eclesiastes (48,21): Beati oculi qui te viderunt, et in amititia tua decorati sunt:

Honra e ventura tem os insulanos,
Que hoje em paz gozam os teus dons soberanos.

Parece que nestes versos terei dito bastante para mostrar qual a maneira triunfante com que foi recebido este general. Satisfez-se à piedade religiosa entrando o préstito na igreja da Misericórdia, onde o general fez oração; notando-se que foi tal a alegria e satisfação do povo de todos os sexos que, esquecido do lugar onde se achava, se lançou a abraçá-lo, beijando-lhe as mãos, os pés e a farda, e fazendo iguais obséquios à sua família.

Houve nesta igreja um solene Te-Deum de música primorosamente cantado pelos professores e curiosos da cidade, e houveram salvas nos dois castelos, o que teve lugar por espaço de três dias: no último dos quais houve na catedral outro solene Te-Deum, com assistência das três classes, colegiadas, e comunidades religiosas da cidade.

Veio com o general o Batalhão 5.º de Caçadores, o corregedor José Diogo da Fonseca Pereira, António Manuel da Fonseca Abreu Castelo-Branco, despachado juiz de fora para a cidade de Angra, e António Justiniano Brotero Pegado, juiz de fora para a Vila da Praia.

No dia 19 foi o barão à Câmara tomar posse, e assim também o corregedor, e o juiz de fora. Nesta ocasião tomou o general a palavra, e começou por agradecer o pomposo acolhimento da sua pessoa no desembarque, prometendo ser eternamente agradecido a tamanha distinção, e afiançou o desejo que o animava de fazer recta e pronta justiça nos cargos que passava a exercer. O mesmo certificaram os dois magistrados, e, assinado o auto, deu-se tudo por findo.

No 1.º de Janeiro de 1824 passou o general e barão à sua Vila da Praia, com o fim de assistir a uma missa de música, e Te Deum, que os praienses julgaram deviam fazer em acção de graças pela sua restituição ao posto de general. Figurou de principal agente nesta festividade o alfaiate Cândido Joaquim, bem conhecido naquela Vila pelos seus “feitos realistas” desde que se acabara a Constituição. Foi aquele na verdade um dos dias mais festivos que se conheceram na Praia: e teve lugar a solenidade religiosa na igreja da Misericórdia, onde todos os anos, de tempos mui antigos6, se soleniza a festividade do Senhor Santo Cristo, que é de grandes milagres e devoção dos povos.

Também na igreja da Misericórdia de Angra7 fez celebrar o fidalgo João Pacheco de Lacerda outra missa cantada com muita ostentação, e um soleníssimo Te-Deum, pela exaltação d’el-rei ao trono e restituição do general Stockler. Houve, além disto, sermão, assim como na Praia, em que o orador muito exaltou as virtudes d’el-rei, da rainha D. Carlota e do infante D. Miguel; e por fim as do general reintegrado e honrado com o título de barão da Vila da Praia.

Da sua parte não faltou este em agradecer às câmaras da cidade e Praia o muito que concorreram para estas solenidades, e da mesma forma o praticou com todas as pessoas mais empenhadas em um tal objecto.

Logo que o corregedor Fonseca Pereira tomou posse do cargo, avocou a devassa que dissemos tirava o juiz ordinário Alexandre Martins Pamplona, e, pouco a pouco, vendo a improcedência das culpas, foi relaxando as prisões de alguns indivíduos, dando por esta forma um claro indício de não estar resolvido a perseguir alguém inocente, nem a subscrever a tumultos populares, que tanto deram que falar na corte8, e sobre os quais el-rei o mandava escrupulosamente sindicar.

Então o general lhe oficiou para que organizasse um novo plano de ronda; mas o corregedor só veio a cumprir a ordem depois de 4 meses, com a gente detalhada pelo mesmo general de 50 a 60 homens, e isto se figurou por uma imaginária necessidade. Bem conhecido foi qual o fim desta extraordinária da deliberação e de certo não iria bem aos constitucionais, a não terem em seu favor tão imparcial magistrado; pois que todos os dias se espalhavam boatos de que pretendiam assassinar o general, e novamente aclamar a Constituição; boatos certamente mui perigosos, e de que muitos indivíduos se acautelaram dormindo longe de suas casas: e os presos foram por vezes ameaçados de que os iriam matar à cadeia e lugares onde se achavam.

A tanto chegou isto, que o corregedor foi chamado ao palácio do general para diante dele se fazerem certas declarações; no que o mesmo general mostrou uma conhecida parcialidade, querendo que tais rumores, contra toda a verosimilhança, fossem obra maliciosa das pessoas já soltas, as quais ele procurava outra vez enredar.

Para isto passou ordem no 10 de Janeiro, dirigida ao juiz de fora da cidade, António Manuel da Fonseca Castelo Branco, que procedesse a sumário para examinar sobre os boatos que andavam de quererem homens mal intencionados revoltar-se e depor o general, assassinando-o também, e assim aos indivíduos que estiveram presos e ao corregedor José Diogo. Todavia, durando a inquirição até 17 de Fevereiro, julgou-se improcedente.

Por esta ocasião fez sair da ilha a José Soares Silveira Estrela; António Moreira, o velho; frei Francisco d’Ave-Maria, franciscano; Alexandre de Oliveira; e André Avelino Homem. Isto, dizia o general, “por cautela”. E seriam deportados muitos outros cidadãos se não fossem avisados para se retirarem quando os procuravam escoltas.

Muito deveram todos eles à inteireza e rectidão do ministro sindicante, que por bastantes vezes teve de responder pelo seu irrepreensível procedimento ao general, o qual, como afirmou o mesmo corregedor — “parecendo ligar-se inteiramente a um daqueles partidos, se fazia ao mesmo tempo escravo dele e opressor do outro; e perdia a ambos: um pela insuportável desesperação em que o constituía; e o outro por uma vaidade excessiva que, dando lugar a animosidades intoleráveis e pretensões inconfessáveis, não era talvez menos perigoso.”9 —

O que concluo de todos estes escritos e sucessos a que aludem é que ele não se opusera sincera e eficazmente ao estabelecimento da Constituição; assim como também que não a facilitara, ou promovera, apesar do que leio a fl. 10 do apenso H (Documento H), mas sim que sempre indiferente, sempre indeciso, sempre mal pronunciado a todos os respeitos, imprimiu no espírito dos povos açorianos, e principalmente nos desta ilha, onde foi imediata, e por isso mais forte a sua influência, uma incerteza e vacilação, a mais funesta e espantosa, que foi a única verdadeira origem de todas as desordens e desgraças públicas que aqui aconteceram, assim no tempo da Constituição, como depois desta. “Falou muito, escreveu não pouco, e obrou nada; mas deu por isso ocasião a que se obrasse muito mal”.

Desde que entrara o ano de 1824 agitava-se na Câmara da cidade10 grande questão sobre ser admitido ao cargo de secretário Manuel José Borges, proprietário deste ofício, que agora se achava servido por Luiz José Coelho. E na Vila da Praia, onde tomara posse, em 26 de Novembro de 1823, o juiz de fora António Justiniano Brotero Pegado, homem exaltado pelo partido realista, havia um ardentíssimo cuidado de mandar, com aprovação da câmara11, riscar todos os acórdãos relativos à proscrita Constituição, fazendo extinguir ao mesmo tempo todos os escritos, ofícios e documentos, que por erro existissem em nome das Cortes12.

Eram estes e semelhantes os entretenimentos em que passavam o tempo estas câmaras, lançando em esquecimento as coisas mais importantes do município.

Não aprovou el-rei D. João VI que seu filho, o infante D. Miguel, seduzindo a força armada, marchasse, como marchou para Vila Franca, a interromper o progresso da regeneração em que se achavam empenhados os melhores génios; mas antes pelo contrário estava resolvido a punir no mesmo infante aquela sublevação, como publicou na sua proclamação de 30 de Maio de 1823.

Todavia não conheceu el-rei qual a mão oculta que trabalhava por assentar no trono ao mesmo seu filho D. Miguel; nem alcançou também que a sua retirada fosse para verificar algum atentado contra sua real autoridade. Saindo de Lisboa a 2 de Junho de 1823, chegara a Vila Franca de Xira, onde o persuadiram de que aquela reacção só tinha por fim restituir-lhe o governo absoluto, suprimindo a representação nacional em Cortes. Convencido enfim, el-rei não duvidou, antes aprovou a resolução, entendendo, com todas as veras, que a devia galardoar como um distinto serviço à pátria: e por consequência, não houve meio-termo, e naquele mesmo dia 2 de Junho, fecharam-se as Cortes, sem poderem os representantes fazer outra coisa mais do que protestar contra ocorrências tão inesperadas.

Então o infante D. Miguel, instado pela mão oculta que dirigia os seus passos, na qualidade de chefe e senhor da força armada, no dia 30 de Abril de 1824, já pela segunda vez, arrojou-se a destronar seu pai, ou como foi público em Lisboa, onde não houve quem desconhecesse este facto, talvez pretendeu cometer o horrível parricídio, de que el-rei, tendo desconfiança, pôde salvar-se13, recolhendo-se a uma nau inglesa que se achava surta no Tejo, à qual chamou o infante seu filho, que dali foi remetido à fragata Pérola, na qual, sem perda do tempo, saiu barra fora, mandado viajar e, por fim, fazer sua residência em Viena de Áustria.

Julgo supérfluo, por não vir ao intento, juntar aqui mais reflexões e documentos14, para mostrar de uma parte os actos praticados pelo infante contra seu pai e soberano; e da outra parte a demência deste para com um filho desobediente, maculado com nódoa de ingrato, e por único desagravo, só teve de retirar-se para fora do reino.

A calamitosa história destes acontecimentos acha-se presente a todos os portugueses; seguirei portanto o que se passou na Terceira por este mesmo tempo.

A notícia dos funestos acontecimentos do dia 30 de Abril e seguintes chegou aqui a 20 de Maio, por um navio mandado de propósito com ela. Achava-se o general no parlatório das religiosas da Conceição com a sua família, e com um luzido acompanhamento. Ali recebeu ele as participações oficiais, e precipitadamente saiu para o seu palácio, sem dar mais atenção a coisa alguma, nem dizer o que de novo sabia.

Em continente, passou ordem para se dar uma salva de artilharia no castelo principal, determinando outrossim que se iluminasse a cidade, com todas as mais demonstrações do costume, e isto mesmo enviou a dizer às vilas da ilha.

No dia 21 de Maio congregou-se a Câmara da cidade, acordando que na Sé catedral se rendessem graças a Deus pelo feliz sucesso de ter o sereníssimo infante obstado aos atentados e maquinações que portugueses degenerados intentavam contra a vida d’el-rei (assim se falava cá na ilha), solenizando com o maior aparato os seus triunfos e os de sua real família. Já no dia 13 de Maio se tinham nela festejado com a maior grandeza os mesmos denominados triunfos de el-rei.

Em ambos estes dias se fizeram vivíssimas demonstrações de alegria, sendo Stockler o mais empenhado nelas, como todo o mundo presenciou.

Na Vila da Praia foi mui estrondosa a demonstração de júbilo, porque o juiz de fora, António Justiniano, correndo à casa da Câmara com varias pessoas do povo, e mesmo alguns de maior distinção da Vila, arvorou o estandarte dela, e acompanhado por muita gente, saiu pelas ruas a cavalo, com grande estrondo e vozearias, aclamando e dando vivas a el-rei, à rainha, ao infante, ao general Silveira e ao general Stockler; e fez com que se iluminasse a Vila ao maior custo, assistindo no 3.º dia com o senado a um Te-Deum, que na igreja matriz se cantou em acção de graças, havendo neste dia parada com as numerosas milícias daquela capitania.

A tamanhas demonstrações de prazer sucedeu no dia 26 de Maio uma profundíssima tristeza, da qual foi primeira e principal vítima o general, recebendo a nova dos sucessos memoráveis que tiveram lugar na Corte, desde o dia 8 de Maio por diante. Testemunhou então ele a sua paixão com um morno silêncio, não achando por consequência conveniente oficiar às câmaras, como gostosamente o fizera das outras vezes, para que agora aplaudissem e festejassem o verdadeiro triunfo d’el-rei contra seus declarados inimigos, dando a seu filho o infante D. Miguel a justa recompensa do seu arrojado e criminoso proceder15.

Chegou finalmente à Terceira nos primeiros de Junho a notícia oficial de que el-rei, tomando em consideração as desordens e parcialidades que nela andavam dominando16, motivadas pelo partido do general Stockler, e certo de que existindo ele na ilha já mais se poderiam conciliar os ânimos de seus habitantes, que ardiam no fogo da discórdia; e mesmo certificado de que este homem era um dos seus maiores inimigos, lhe dera o tempo por acabado, e o removia da ilha para fora.

E ainda que esta notícia foi alterada, com se dizer que o mesmo general fora quem requerera a sua demissão; contudo sempre veio a saber-se a verdade, por várias correspondências; e por isso, a 5 do mês, assentou-se unanimemente nas câmaras todas da ilha, o representar-se a el-rei o conservasse no posto, promovendo-se estas representações em agradecimento de tão — bons serviços e da sua fidelidade.

Na verdade que mui decidido foi o empenho com que as três classes, clero, nobreza e povo ponderaram a el-rei o devia conservar; porém não era menos imprudência dos que o pediam, do que a do próprio general que solicitava a sua recondução; teve ainda este homem de saber, como se lhe não pode negar, esta loucura, esta fraqueza!

Foram portanto rejeitadas todas as súplicas, sendo certo igualmente, que, já nesse tempo, algumas personagens do seu partido o haviam abandonado e não quiseram subscrever tais requerimentos. Soube-se também quem era o general nomeado para o substituir: e é de notar, que na Câmara da cidade promoveu Stockler (como foi público) lhe negassem dar a posse. Nisto trabalhou de todo o coração até 12 de Julho, o secretário da mesma Câmara Luiz José Coelho, com uma parte dos vereadores, sendo de voto contrário o juiz de fora, Castelo-Branco, sustentando que isto se não podia fazer sem manifesto atentado17.

No dia 16 oficiou o general à Câmara, anunciando a próxima chegada de seu sucessor; e por esta ocasião lhe agradeceu, e a todas as classes, para lhes ser constante, os seus bons serviços, oferecendo-se-lhes para tudo quanto lhes pudesse ser útil, obséquio este de que se fez especial menção na acta.

No dia 14 de Julho chegou à Terceira o novo capitão-general, Manuel Vieira Touvar de Albuquerque. Foi recebido com as etiquetas do costume, e tornou posse na Câmara pelas 5 horas da tarde. Por sua mão recebeu a Câmara da cidade um aviso da Secretaria de Estado, reintegrando o antigo secretário e proprietário Manuel José Borges da Costa, por se achar compreendido no real indulto de 9 de Outubro próximo pretérito.

Foi esta reintegração um funesto sinal, que fez perder aos realistas todas as esperanças de gozar protecção do novo governo-geral; e ficaram desenganados que o tempo das revoltas e das parcialidades parecia ter expirado com a suspensão de Stockler. Foi este com efeito o primeiro golpe de estado. O segundo foi o mandar o novo general, em 27 de Julho, intimar a Câmara da Praia, para que chamasse o vereador mais velho, e lhe entregasse a vara do juiz de fora António Justiniano Pegado, a quem el-rei suspendera do cargo18 por, dizia o aviso, não convir ao Real Serviço, no bem com que desejava promover a recta administração da justiça, que ele a servisse por mais tempo.

Sucedeu-lhe então Pedro Jácome de Calheiros, bacharel formado e cavaleiro do hábito de Cristo, o qual me parece veio com o general seu parente19.

Ainda os mais imprudentes realistas pretenderam revoltar-se no dia em que se embarcou o ex-general Stockler, mas não acharam apoio na tropa.

Acabarei finalmente este Capítulo com dizer que a deposição deste homem, tantas vezes exigida pelos sensatos de ambos os partidos, só agora, e muito devagar, acontecera; que unicamente fora capaz de restabelecer o sossego público, em uma ilha em que ele espalhara com mãos largas tão perversas doutrinas, com aquelas que mui documentadamente se provam, especialmente pela sindicância do corregedor José Diogo da Fonseca Pereira, de quem já tenho feito menção, e que depois chegaram ao conhecimento d’el-rei, que também houve por malfeitas as prisões de muitas pessoas nos primeiros de Agosto de 1824, considerando tais arbítrios perfeitos agravos de outras tantas famílias, e concedeu o indulto ou Carta Régia de 17 de Setembro, pelo qual ordenou ficassem de nenhum efeito aquelas prisões; e que apagasse, e aspasse em quaisquer livros os assentos que neles se tivessem lançado, por umas semelhantes arbitrariedades, como tudo melhor se evidencia pelo documento apenso (Documento M).

Assim foi que sucederam dias de paz e tranquilidade a tantas amarguras e sobressaltos, e puderam os terceirenses alçar a voz com o nosso poeta:

Depois de procelosa tempestade
Nocturna sombra, e sibilante vento;
Traz a manhã a serena claridade,
Esperança de porto e salvamento.

A 16 de Maio do ano em que vamos de 1824 faleceu o dr. João Cabral de Melo, de quem por muitas vezes temos falado, com idade de 84 anos: foi sepultado na igreja do mosteiro de São Gonçalo, onde jazia sua primeira mulher D. Luzia, com quem casara em 1797, e da qual lhes ficaram, entre outros filhos, que todos educou nos estudos e seguiram postos militares, João Ernesto e Sebastião Cabral, e uma filha que casou com o cavalheiro Mateus de Meneses e Carvalho.

Não procedeu o seu apelido dos ilustres Cabrais, como dissemos inadvertidamente no 1.º volume destes Anais, mas não era menos nobre por seu avô Manuel Cabral de Melo que passou da ilha de S. Miguel a residir nesta; o qual era descendente de uma irmã do comendador Gonçalo Velho Cabral; todavia isto pouco vale: a nobreza de suas acções e virtudes querem significar muito mais.

Fez em Coimbra os mais rápidos progressos nas letras, de que ficou sendo um dos melhores ornamentos, qualidade que unia a um decidido patriotismo, independência, e probidade; do que deu sobejas provas não só no emprego de escrivão da Junta da Real Fazenda, em que se ocupou vários anos, e foi aposentado; mas no de advogado a que passou no último período da sua vida. Não menos se deu a conhecer por seus escritos científicos, e várias poesias na língua materna, em latim, e francês. A tradução do Paraíso Restaurado, de Milton, que ele fez e ricamente anotou, seria por si bastante para o exaltar muito acima dos literatos da sua pátria, e publicaria qual a sua grande capacidade, a não existirem outros muitos monumentos impressos no mármore da sua quinta das Bicas, oratório de suas casas, e ainda nas colunas do Correio Braziliense; pena que seus herdeiros se entregassem tanto ao desleixo a respeito da publicação de tão valiosos escritos, que andam em alheados.

Também era assaz versado nas línguas Italiana, alemã e na grega. Ninguém como o dr. João Cabral soube empregar o génio satírico, usar do sentencioso e do laconismo. Foi inimigo do luxo e do aparato; contudo frequentava os grandes e procurava obsequiá-los com as suas produções poéticas; falava pouco; era de estatura ordinária, e aspecto algum tanto desagradável.

NotasEditar

1. Conta-se por mui engraçado e judicioso o modo com que um rústico pastor, por apelido — o Lanchão — logo que viu os presos, tirou a carapuça e disse em voz estrondosa: Mas sempre diremos viva a Majestade!. E este viva, assim dado, foi então aplaudido com o maior entusiasmo.

2. A Câmara da cidade, pelos anos de 1550, para se livrar de aposentadorias dos corregedores, com que muito vexavam o povo, comprou umas boas casas junto da Praça, mobilando-as e as pôs à disposição daqueles. Nestas casas então habitava o corregedor de quem falámos. Há poucos anos que a mesma Câmara vendeu este bom edifício ao cidadão brasileiro Manuel Gonçalves Fagundes.

3. Versavam os sumários sobre o comportamento político dos acusados, inquirindo-se também da estima que eles faziam das pessoas reais, ditos, acções, apelidos, etc. Na inquirição destes miseráveis quesitos foi assaz escrupuloso este juiz, que, naturalmente rústico e absolutista, cometeu gravíssimos excessos contra os constitucionais. Não mandou ali fazer prisões por se não acharem na ilha os que ele queria envolver; mas assim mesmo, naqueles dias fatais fizeram-se por sua ordem luminárias e houveram vivas e outros sinais de regozijo.

4. Este cavalheiro foi filho do nobre fidalgo André Diogo Martins Pamplona Corte-Real, que foi pai do conde de Subserra, primogénito e senhor do morgado de seu antepassado Gomes Pamplona de Miranda.

5. O Pequeno Bosquejo destas festas, obra de um anónimo que se imprimiu em Lisboa no ano de 1824, explica-se desta forma: Não cabia em qualquer curta esfera descrever, nem ainda rastejando, um sucesso tão admirável, nem uma lealdade tão abalizada; fazê-lo dignamente só seria concedido aos génios mais transcendentes, e às penas mais atiladas; e por isso ficamos muito aquém de assunto tão remontado.

6. De tempos mui antigos disse eu, mas não me consta de ser anterior à época de 1599, quando a Vila tomou por padroeiro o mártir S. Sebastião, coma se lê no 1.º tomo destes Anais. A devoção com a veneranda imagem da Senhor Santo Cristo da Praia parece mais moderna, porque ainda no ano de 1614 se não fala, em escrito algum, em ser o Padroeiro da Vila. Por isso a sua maior celebridade deve datar de mais próximo. Vamos agora com a tradição. Conta-se que esta veneranda imagem fora arrojada na baía da Praia pelo mar tempestuoso, dentro de um caixão, e acrescenta-se que trazia um dístico determinado onde a Santa imagem devia ser colocada, e que de facto o fora na capela-mor que até ali era do Senhor Espírito Santo. — Sit fides facto — o certo é que a verdade de tudo isto não se alcança.

7. A devoção com a veneranda imagem do Senhor Santo Cristo da Misericórdia da cidade é mais antiga. Eis aqui o que diz o padre Maldonado: Que um lavrador da freguesia de Santa Bárbara das Nove Ribeiras, ou como outros querem, de S. Bartolomeu, por muito habilidoso, fazia toda a sua abegoaria; e vendo que na sua igreja não havia uma imagem do Senhor Santo Cristo, se lembrou fazê-la de um tosco madeiro, e a forma com que a fez se julgou, pela perfeição, ser milagrosa. Persuadido então com muitas instâncias a trouxe para a Misericórdia da cidade. Supõe-se este facto anterior à era de 1577, em que João da Silva do Canto fez testamento, no qual já se recorda da miraculosa imagem do Santo Cristo, mandando pôr aos seus pés os bilhetes dos órfãos, que à sorte hão-de receber os legados. Esta devotíssima imagem foi transportada do consistório onde se achava, para a sua igreja, com a maior solenidade, que durou 3 dias, e foi pregador frei Manuel da Conceição, filho de Pedro Borges da Silva e de D. Francisca da Fonseca, segundo parece no ano de 1707, porque por mui singular foi impresso em Lisboa em 1708, como referiu Barbosa na sua Biblioteca Lusitana; acrescentando que o pregador era natural de Angra.

8. Ainda mesmo na insignificante e remota ilha das Flores, constando deste reboliço que houve na ilha, escreveu o engenhoso padre José António Camões, entre outros, o seguinte soneto:

Era a noite funesta e desgraçada
De três para quatro do passado Agosto,
Quando em Angra se levanta um bando oposto
De canalha turbulenta, e malcriada!
Não houve homem de bem, família honrada,
A quem não perturbasse um tal desgosto!
E aquela vil facção muito a seu gosto
Intentando (com prisões) pôr tudo em nada!
Mais d’um cento em prisões foram metidos;
Outros, por escaparem ao rigor delas
Precisaram meter-se foragidos!
Não bastam diligências, nem cautelas;
Pois aquelas velhacos atrevidos,
Té compradas tinham já as sentinelas.

9. Conta deste corregedor sindicante a el-rei em 4 de Novembro de 1824.

10. Acórdão de 19 de Maio de 1824.

11. Questão era esta que interessava todo o partido realista, em que se encabeçavam as seguintes personagens: — os capitulares da Sé, principiando pelo deão, dr. Frutuoso José Ribeiro; a maior parte dos colegiais de Nossa Senhora da Conceição; o altareiro da Sé, António Vaz Toste; a maior parte dos frades de S. Francisco, que não eram poucos; os coronéis Cândido de Meneses, e José Teodósio de Bettencourt, Luiz Meireles do Canto, António Moniz Barreto, Bento de Bettencourt, João Pereira Forjaz de Lacerda, João Pacheco e seus filhos António Pacheco e Jacinto Pacheco, e o primogénito Luiz Pacheco, e outros muitos, que apenas houve notícia de ser acabada a Constituição, elevaram a el-rei uma representação dos cordiais sentimentos com que se achavam animados a favor da sua causa.

12. A ordem para a extinção de tais monumentos veio logo, e executou-se prontamente, como já mostrei em outra parte, mas agora o juiz Pegado queria distinguir-se e fazer a vontade a seu amo Stockler, se ainda restasse que desfazer e trancar nos livros da Câmara. E quão inúteis não foram semelhantes esforços para o futuro!

13. Presenciei estes factos em Lisboa e observei a indignação do povo contra os sedutores do infante.

14. Acham-se no folheto — Notícia Verdadeira dos Acontecimentos que tiveram Lugar no Cerco do Parto — impresso em Pernambuco, a proclamação de 9 de Maio e na mesma data a Carta de Lei chamando ao dito infante. Resposta à carta que ele lhe dirigiu a 12, e o indulto real pelos feitos do calamitoso dia 30 de Abril, datado em 24 de Junho do mesmo ano de 1825.

15. Vide a referida conta do corregedor sindicante em 4 de Novembro de 1824.

16. Foi notório que o Secretário de Estado José da Silva Carvalho e agora o conde de Subserra promoveram todos os benefícios de que gozou a ilha, e que a exclusão de Stockler se deveu a este último ministro, que julgou devia nesta ocasião prestar à sua pátria o mais relevante serviço que estava da sua parte.

17. Não achei a posse deste novo juiz; o mais consta do respectivo acórdão.

18. A suspensão deste juiz procedeu das imprudências devidas aos seus poucos anos. Teve pois algumas desinteligências com o ouvidor do eclesiástico, António Coelho Souto-Maior, homem poderoso naquela Vila, por objectos do serviço público; e com os vereadores teve por vezes muitos debates, ignorando os modos e maneiras porque se levam os homens rústicos e caprichosos. Porém, sabendo que o vereador mais velho, António Borges Pacheco, era cunhado do dito ouvidor, entendeu se desta vingar nele; insultou-o de palavras, imputando-lhe falsamente, que em certa vereação, o quisera envenenar com uma pitada de tabaco. O que foi reconhecido por todos os mais vereadores como uma negra calúnia, e reconhecido pretexto para sinistros fins. Começou então um debate que esteve a ir a efeitos graves porque o vereador quis apreender às mãos o juiz, que era mui insignificante campeão para ele, do que o juiz fez exarar um auto, e procedendo ele mesmo a sumário de testemunhas, pronunciou e perseguiu todos os vereadores, passando mandato de prisão contra eles. Subiram a el-rei contas de parte a parte, e não esquecendo nelas mencionar a paixão desmesurada que nele aparecera a favor do infante D. Miguel pelos factos de 30 de Abril, veio logo a sua suspensão e ficou inutilizado o processo-crime.

19. Não pude verificar a posse deste magistrado. Era solteiro, assim como os seus outros dois antecessores.