Anexo:Imprimir/Eneida Brazileira

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Eneida Brazileira ou Tradução Poética da Epopéia de Públio Virgílio Maro
por Odorico Mendes
Publicado pela primeira vez em 1854 em Paris, pela Tipografia de Rignoux; trata-se de uma tradução do poema Eneida do poeta romano Virgílio.



Eneida Brazileira
por Odorico Mendes


ENEIDA BRAZILEIRA

OU

TRADUCÇÃO POETICA

DA EPOPÉA

DE PUBLIO VIRGILIO MARO.

Eneida Brazileira
por Odorico Mendes





ENEIDA BRAZILEIRA

OU

TRADUCÇÃO POETICA

DA EPOPÉA

DE PUBLIO VIRGILIO MARO

Por Manuel Odorico MENDES,

da cidade de S. Luiz do Maranhão.







PARÍS.

NA TYPOGRAPHIA DE RIGNOUX,

rua Monsieur - le - Prince, 31.


1854

Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Ao público


AO PUBLICO.

Sumite materiam vestris, qui scribitis, aequam
Viribus. . .

(HORAT.)     


     Não possuindo o ingenho indispensavel para emprehender uma obra original ao menos de segunda ordem, persuadido porêm de que o estudo da lingua e a frequente lição da poesía me habilitavam para verter em portuguez a epopéa mais do meu gôsto; annos ha, com a Eneida me tenho occupado. Por contente me dou se obtenho um lugar ao pé de Annibal Caro, Pope, Monti, Francisco Manuel, e de outros bons traductores poetas; e, a ser-me isto vedado, consólo-me com o prazer bebido nas ficções de Virgilio; cujos versos, á medida que os ia passando, me transportavam ao tempo em que, aprendendo o latim sob o meu saudoso amigo Fr. Ignacio Caetano de Vilhena Ribeiro, vivi na patria com os condiscipulos, sem cuidados nem dissabores. Este prazer, em verdade, foi o que me sustentou em tam ardua e longa tarefa, ainda mais que o desejo de louvores; os quaes todavia agradam ao nosso amor proprio, e folgarei de os merecer.

M. O. M.           
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Advertência


ADVERTENCIA.

     Em as notas, que ajunto no fim de cada livro, ha dous numeros: um indica o verso do original; o segundo, o da traducção. Quando cito um só número, entenda-se que he do original. Sigo o texto de Carlos de La Rue. Coméço a contar desde Ille ego qui quondam, etc., em razão do que declaro na primeira nota do livro primeiro.      Adoptei algumas palavras do latim e compuz não poucas por me parecerem necessarias na occasião. De algumas faço menção nas notas; de outras não tratei, por ser obvio o sentido em que as tómo.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Livro I


LIVRO I.

Eu, que entoava na delgada avena
Rudes canções, e egresso das florestas,
Fiz que as vizinhas lavras contentassem
A avidez do colono, empresa grata
       5Aos aldeãos; de Marte ora as horriveis
Armas canto, e o varão que, lá de Troia
Prófugo, á Italia e de Lavino ás praias
Trouxe-o primeiro o fado. Em mar e em terra
Muito o agitou violenta mão suprema,
       10E o lembrado rancor da seva Juno;
Muito em guerras soffreu, na Ausonia quando
Funda a cidade e lhe introduz os deuses:
Donde a nação latina e albanos padres,
E os muros vem da sublimada Roma.        15

Musa, as causas me aponta, o offenso nume,
Ou por que mágoa a soberana déa
Compelliu na piedade o heroe famoso
A lances taes passar, volver taes casos.
Pois tantas iras em celestes peitos!       20

Colonia tyria no ultramar, Carthago,
Do ítalo Tibre contraposta ás fozes,
Houve, possante emporio, antigo, asperrimo
N’arte da guerra; ao qual, se conta, Juno
Até pospoz a predilecta Samos:
       25Lá coche, armas lá teve; e annúa o fado,

No orbe enthronal-a então já traça e tenta.
Porêm de Teucro ouvira que a progenie,
Dos Penos subvertendo as fortalezas,
Viria a ser, desmoronada a Libya,
       30A’ larga rei bellipotente povo:
Que assim no fuso as Parcas o fiavam.
Saturnia o teme, e a pró dos seus Achivos
Recorda as lides que excitara em Troia;
Nem d’alma aggravos risca, dôres cruas:
       35No íntimo impressa a decisão de Páris,
A injúria da belleza em menoscabo,
E a raça detestada e as honras duram
Do rapto Ganymedes. Nestes odios
Sôbre-accesa, os da Grecia e immite Achilles
       40Salvos Troas, do Lacio ia alongando,
Por todo o plaino undísono atirados;
E, em derredor vagando annos e annos,
De mar em mar a sorte os repulsava.
Tam grave era plantar de Roma a gente!

       45De Sicilia, amarando, mal velejam
Ledos e o cobre rompe a salsa espuma,
Juno, dentro guardada eterna chaga:
«Eu, diz comsigo, desistir vencida!
Nem vedar posso a Italia ao rei dos Teucros!
       50Ah! tolhe-me o destino. A esquadra argiva
Não queimou Pallas mesma, submergindo-os
Só de um Ajax Oileu por culpa e furias?
Do Tonante o corisco ella das nuvens
Darda, os baixéis desgarra, o ponto assanha;
       55Ao triste, que varado expira chammas,
N’um torvelinho em rocha aguda o crava:
E eu, que raínha marcho ante as deidades,
Mulher e irmã de Jove, tantos annos
Guerreio um povo! E a Juno ha quem adore,
       60Ou súpplice inda a incense, a invoque e honre?»


No âmago isto fermenta, e a deusa á patria
De austros furentes, de chuveiros prenhe,
A’ Eolia parte. Aqui n’um antro immenso
O rei preme, encarcera, algema, enfreia
       65Luctantes ventos, roncas tempestades.
Em tôrno aos claustros de indignados fremem
Com gran’rumor do monte. Em celsa roca
Sentado Eolo, arvora o sceptro, e as iras
Tempera e os amacia. Que o não faça,
       70Varridos mar e terra e o céo profundo
Lá se vam pelos ares. Cauto, em negras
Furnas o omnipotente os aferrolha,
E, um cargo de montanhas sobrepondo,
Lhes deu rei, que mandado a ponto as bridas
       75Suster saiba ou laxar. Dest’arte Juno
O exora humilde: «Eolo, o pae dos divos
E rei dos homens te concede as ondas
Sublevar e amainal-as; gente imiga
Me sulca as do Tyrrheno, Ilio e os domados
       80Penates para Italia transportando:
Ventos açula, as pôpas mette a pique,
Ou dispersas no ponto as espedaça.
Quatorze esbeltas nymphas me cortejam,
Das quaes a mais formosa, Deiopeia,
       85Prometto unir comtigo em jugo estavel;
Que em paga para sempre a ti se vote,
Meiga te procreando egregia prole.»

A quem Eolo: «Que o desejes basta;
Meu, raínha, he servir-te. Quanto valho
       90Tu m’o grangêas, e este sceptro e Jove;
Tu dás-me á diva mesa o recostar-me,
Ser em tufões potente e em tempestades.»

Dice; e um revez do conto a cava serra
A um lado impelle: em turbilhão, cerrados
       95N’um grupo os ventos, dada a porta, ruem,

As terras varejando. Ao mar carregam,
E horrísonos revolvem-lhe as entranhas
Nôto mais Euro, e de borrascas fertil
Africo; ás praias vastas ondas rolam.
       100Homens gritam, zunindo a enxarcia ringe.
Some-se ao nauta o céo, tolda-se o dia;
Pousa no pelago atra noite; os polos
Toam, o ether fuzila em crebros raios:
Tudo ameaça aos varões presente a morte.
       105Frígido, arripiado, Enéas geme,
E alça as palmas e exclama: «Afortunados
Oh! tres e quatro vezes, d’Ilio ás abas,
Os que aos olhos paternos feneceram!
O’ dos Danaos fortissimo Tydides,
       110A alma em Troia vertendo-me essa dextra,
Não ficar eu nos campos, onde o bravo
Heitor d’Eacide ás lançadas, onde
Sarpédon jaz magnanimo, onde o Simois
Corpos e elmos de heroes e escudos tantos
       115Arrebatados na corrente volve!»
   Bradava; e a sibilar ponteiro Bóreas
Rasga o panno, e a mareta aos astros joga.
Remos estalam; cruza a proa, e o bórdo
Rende; escarpado fluido monte empina-se.
       120As naus já no escarcéo pendem, já descem
N’um sorvedouro á terra entre marouços:
Remoínha o esto na revôlta arêa.
Tres rouba Nôto e avexa n’uns abrolhos,
Abrolhos sob o mar, que Italos aras
       125Nomêam, dorso horrendo ao lume d’agua;
Tres no parcel (que lastima!) Euro esbarra,
Encalha em vaos, de marachões rodêa.
Uma, em que Oronte fido e os Lycios vinham,
Ante Enéas, d’avante humido rôlo,
       130Do maior pino desabando, em pôpa

Fere-a; do baque o prono mestre vôlto
Cahe de cabeça. O vagalhão tres vezes
Torce-a, revira, um vortice a devora.
Raros no vasto pégo a nadar surdem;
       135Taboas e armas viris e alfaias troicas,
Prêa das ondas. A tormenta escala
A nau robusta de Ilioneu, de Abante,
As de Alethes grandevo e Achates forte:
Todas, frouxadas as junturas, sorvem
       140A inimiga torrente, e em fendas gretam.
Mugir seu reino e o temporal desfeito,
Caixões do imo a brotar, sentiu Neptuno,
Torvo, abalado, e acode acima e exalta
A placida cabeça. A frota esparsa
       145Vê sossobrando, oppressos os Troianos
Da marejada e do ruído ethereo.
De Juno irosa o dolo o irmão percebe;
Euro e Zephyro chama: «Herdastes, ventos,
Tal presumpção, que sem meu nume, ousados,
       150Terra e céo confundis e equoreas brenhas?
Eu vos... Mas insta abonançar as vagas:
Caro m’o pagareis, guardo o castigo.
Ao rei vosso intimai, já já, que em sorte
Não lhe coube este imperio, que o tridente
       155Fero he só meu. Tem elle enormes fragas,
Euro, vossas mansões: nessa aula ufano
Sôbre enclaustrados ventos reine Eolo.»

Nem cessa, e o mar se lança, o tempo alimpa
E abre o Sol. Finca a espadoa, e com Cymóthoe
       160As naus Tritão do escolho desengasga;
Mesmo o padre as alliva com seu sceptro,
Amplas syrtes afunda, aplaca os mares,
Por cima em rodas se deslisa leves.
Como, enraivado em popular tumulto,
       165Despara ignobil vulgo, e o facho e o canto

Já voa, as armas o furor ministra;
Mas, se um pio ancião preclaro assoma,
Calam, para escutar o ouvido afiam;
Elle os convence e os animos abranda:
       170Assim baixa o fragor e o pégo amansa,
Quando olha o deus, que os brutos no ar sereno
Dobra, e dá loros ao ligeiro carro.

Da costa proxima em demanda, á Libya
Os cansados Eneadas aproam.
       175N’um golpho alli secreto, com seus braços
Faz barra ilha fronteira, onde a mareta
Quebra e se escoa em sinuosas rugas:
Penedia em redondo, e ao céo minazes
Ha dous picos irmãos, a cujo abrigo
       180Dorme diffuso o mar; de coruscantes
Selvas prolonga-se eminente scena,
Descahe de atra espessura horrida sombra;
No tôpo ha gruta em pêndulos cachopos,
Com doce fonte, e em viva rocha bancos
       185Das nymphas séde: aqui não prende amarra
Nem mordaz ferro adunco as lassas quilhas.
Com sete naus ao todo arriba Enéas;
E amorosos da terra, alvoroçados
Saltando os seus, do sal tabidos membros
       190Na arêa espraiam. Lume eis fere Achates,
Toma em folhas, e em roda as accendalhas,
Nutre a faisca, e em lenha a chamma atêa.
Mareados pães e cereaes aprestos
Já desembarca a trabalhada chusma,
       195E os grãos põe-se a torrar e em pedra os pisa.

Trepa emtanto um penhasco, e ao largo Enéas
Regyra, a vêr se undívagos alcança
Antheu ou Capys, as biremes phrygias,
Ou armas de Caíco em altas pôpas.
       200Baixel nenhum; avista só tres cervos

Na praia errantes; segue atrás o armento,
E enfileirado pelos valles pasta.
Retem-se, e o arco aferra e as settas ageis
Que armam Achates fido, e os guias logo,
       205De arboreas pontas entonados, prostra;
Embrenha a demais turba e acossa a tiros,
Té que derriba sete ingentes corpos,
E iguala as naus. De vólta, elle os divide.
E os barris que, á partida, o heroe trinacrio
       210Bom de vinho atestara, aos seus larguêa;
Dulcíloquo os mitiga: «Os males, socios,
Nada estranhamos; oh! mais agros foram:
Deus porá termo a estes. Vós de Scylla
De perto a raiva e escolhos resonantes,
       215Vós cyclopeos rochedos affrontastes:
Animo! esse temor bani tristonho;
Talvez isto com gôsto inda nos lembre.
Por varios casos, transes mil, nos vamos
Ao Lacio onde o repouso os fados mostram:
       220Resurgir deve alli de Troia o reino.
Tende-vos duros, da bonança á espera.»

Tal discursa, e affectando um ar seguro,
N’alma inferma suffoca a dôr profunda.
Lestos á presa atiram-se: este esfola,
       225Aquelle desentranha, outro esposteja;
Qual trementes no espeto enrosca os lombos,
Qual fogo atiça aos caldeirões na praia.
Fartos, na relva espalham-se, refeitos
De velho baccho e veação opíma.

       230Repleta a fome, e as mesas removidas,
Dubios indagam, sôbre os seus praticam
Entre medo e esperança: estam com vida?
Ou na extrema agonia ao brado surdos?
Mormente o pio rei de Amyco chora
       235Ou de Lyco o desastre, o ardido Oronte,

E o forte Gyas e Cloantho forte.

Das alturas, no fim, Jove esguardando
O mar velívolo e as jacentes plagas
E amplas nações, no vertice do Olympo
       240Quedo, os olhos fitou nos lybios reinos.
Quando o absorviam taes cuidados, Venus
Triste, os gentis luzeiros orvalhando:
«O’ tu, queixou-se, que os mortaes e os deuses
Reges eterno e horrísono fulminas,
       245O que te fez meu filho, o que os Troianos,
Que após tragos lethaes, não só d’Italia,
Do universo os cancellos se lhes fecham?
Roma delles tirar, delles os cabos
Que, eras volvendo, restaurado o sangue
       250De Teucro, o mar e a terra sofreiassem,
Nos prometteste: quem mudou-te, ó padre?
Do occaso ao menos e desgraças d’Ilio
Isto, uns fados com outros compensando,
Me consolava. Igual fortuna arrasta
       255Ora os varões a riscos e a trabalhos:
Quando os findas, gran’rei? De Acheus escapo,
Entrar salvo Antenor d’Illyria o seio
E internar-se em Liburnia, e a fonte obteve
De Timavo transpôr, donde por bôcas
       260Nove, a montanha a rimbombar, despenha-se
Ruidoso mar que empola e o campo alaga.
Sentou Patavio aqui, deu casa a Teucros,
Nome á gente, e os brasões fixou de Troia;
Descansa em doce paz. Nós tua estirpe,
       265Nós da celeste côrte, as naus submersas,
Ah! de uma por furor, victimas somos,
Longe expulsos d’Italia? Deste modo
Se honra a piedade, os sceptros nos reservas?»

Sorrindo-se o autor de homens e numes,
       270C’um gesto que a tormenta e o céo serena,

Da filha osculos liba, e assim pondera:
«Poupa esse medo, Cypria; immotos jazem
Dos teus os fados: nas lavinias tôrres
Has de revêr-te, e alar sôbre as estrellas
       275Teu grande Enéas. Jupiter não muda.
O heroe na Italia (esta ancia te remorde,
Vou rasgar-te os arcanos do futuro)
Guerras tem de mover e amansar povos,
E instituir cidades e costumes,
       280Ao passo que reinando o vir no Lacio
Terceiro estio, e os Rutulos domados,
Forem-se tres invernos. Posto ao leme
Ascanio, que hoje Iulo cognominam
(Ilo, em quanto florente Ilion se teve),
       285Cerrando os mezes trinta largos gyros,
Ha-de, a séde lavinia trasladada,
Alba longa munir e abastecel-a.
Os Hectoreos aqui trezentos annos
Já reinarão, quando a vestal princeza
       290Ilia parir a Marte gemea prole.
Da nutriz loba em fulva pelle ovante,
Romulo ha de erigir mavorcios muros,
E á recebida gente impôr seu nome.
Métas nem tempos aos de Roma assino;
       295O imperio dei sem fim. Té Juno acerba,
Que o mar ciosa e a terra e o céo fatiga,
Transmudada em melhor, tem de amparar-me
Do orbe os senhores e a nação togada.
Praz-me assim. Manem lustros, que inda a casa
       300De Assaraco ha de ser de Phthia e de Argos
Senhora, e agrilhoar Mycenas clara.
D’Iulo garfo egregio, em nome e glória
Succedendo, as conquistas no oceano
Cesar teminará, nos céos a fama.
       305Nos astros sim, de espolios do oriente

Onusto, o acolherás; e humanas preces
Tem de invocal-o. Então, deposta a guerra,
Se amolgue a ferrea idade; a encanecida
Fé com Vesta, os irmãos Quirino e Rhemo
       310Dictem leis; Jano trave as diras portas
Com trancas e aldrabões; sôbre armas cruas
Dentro o impio Furor sentado, e roxos
Atrás os pulsos em cem nós de bronze,
Hediondo ruja com sanguinea bôca.»
            315Não mais; e expede o génito de Maia,
Porque a recem Carthago hospicio aos Teucros
Franquêe, nem, do fado inscia, a raínha
Os extermine. O deus pelo ar patente
De azas remando, em Libya o vôo abate;
       320Fiel ás ordens, a fereza aos Penos
Despe; e Dido primeira em pró dos Phrygios
Brandos affectos placidos concebe.
     Toda a noite pensoso o heroe velando,
A alma luz mal branqueja, onde arribara
       325Dispõe sondar; e vendo incultas margens,
Inquirir quem as tem, se homens, se feras,
E aos seus noticial-o. As naus mettidas
N’abra de uns bosques sob cavada penha,
Entre verde espessura e negras sombras,
       330Elle só, mais Achates, sahe brandindo
Duas hastes que empunha de ancho ferro.
Da selva em meio a mãe se lhe apresenta,
Virgem no trajo e aspecto, em armas virgem
Lacena; ou qual Harpálice a threícia
       335Cansa os corseis e o Euro vence alífugo:
Pois do hombro o arco destro, á caçadora,
Pendura, e ás auras a madeixa entrega,
Dos joelhos nua e a falda em nó colhida.
Eil-a: «O’ jovens, errante aqui topastes
       340Irmã minha, a gritar quiçá no encalço

De javali sanhudo? A cinta aljava
Tem sobre a pelle de um manchado lynce.»
     Isto Venus; e o filho assim responde:
«Nenhuma ouvi nem vi das irmãs tuas,
       345O’... quem direi? Não tens mortal semblante
Nem voz de humano som; es deusa, ó virgem:
Irmã de Phebo ou nympha? As nossas penas
Tu, por quem es, minora: e nos ensina,
Pois vagueâmos sem saber por onde,
       350O paiz, clima ou povo, a que arrojou-nos
Vento e escarcéo medonho. Hostias sem conto
Havemos de immolar nas aras tuas.»
     «Não mereço honras taes, replíca Venus;
Usam de aljava, e ao bucho as virgens tyrias
       355Atar das pernas borzeguim purpúreo.
Punicos reinos e agenorios muros
Vês, nos confins da indomita e guerreira
Libyca raça. O imperio atêm-se a Dido,
Que, por fugir do irmão, fugiu de Tyro.
       360He longa a injúria, tem rodeios longos;
Mas traçarei seu curso em breve summa.
     Sicheu, Phenicio em lavras opulento,
Foi da misera espôso, e müito amado:
Com bom preságio o pae lha dera intacta.
       365Pygmalion, façanhoso entre os malvados,
Barbaro irmão, do estado se empossara.
Interveio o furor: de fome de ouro
Cego, e á paixão fraterna sem respeito,
Perfido, impio, a Sicheu nas aras mata;
       370O facto encobre, e a credula esperança
Da amante afflicta largo espaço illude
Com mil simulações. Mas do inhumado
Consorte, com esgares espantosos,
Pallida em sonhos lhe apparece a imagem:
       375Da casa o crime e trama desenleia;

A ara homecida, os retalhados peitos
Desnuda, e á patria intíma-lhe que fuja:
Prata immensa e ouro velho, soterrados,
Para o exilio descobre. Ella, inquieta,
       380Apressa a fuga, e attrahe os descontentes
Que ou rancor ao tyranno ou medo instiga;
Acaso prestes naus, manda assaltal-as;
Dos thesouros do avaro carregadas
Empégam-se: a mulher conduz a empresa!
       385Chegam d’alta Carthago onde o castello
Verás medrando agora e ingentes muros:
Mercam solo (do feito o alcunham Byrsa)
Quanto um coiro taurino abranja em tiras.
Mas vós-outros quem sois? donde he que vindes?
       390Que regiões buscais?» Elle ás perguntas
Esta resposta suspirando arranca:
«Ó déa, se recorro á prima origem,
E annaes de angústias não te pejam, Vesper
No Olympo encerra o dia antesque eu finde.
       395Da antiga Troia (se has notícia della),
Vagos no equoreo campo, arremessou-nos
Casual tempestade ás libyas costas.
Enéas sou, com fama alêm dos astros,
Que livrei de hostil garra os meus penates,
       400E piedoso os transporto á patria Ausonia;
Do summo Jove a geração procuro.
Por guia a deusa mãe, submisso aos fados,
Em vinte naus commetto o phrygio ponto;
Rôtas do Euro e das ondas, restam sete.
       405Pobre, ignoto, percorro africos ermos,
D’Asia e d’Europa excluso...» Nem mais Venus
Lamentos comportou, na dôr o atalha:

«Quem sejas, creio, não do céo malquisto,
Gozas d’aura vital, que a Tyro aportas.
       410Eia, ao regio palacio te encaminha.

Sem risco os socios, ancorada a frota,
Com o rondar dos áquilos, te auguro,
Se em arte vã meus paes não me instruiram.
Attenta cysnes doze em bando alegres:
       415No espaço, o ether fendendo, os perseguia
A ave de Jove; n’um cordão agora
Ou tem no pouso a mira, ou vam pousando;
Juntos batendo as estridentes azas,
Brincam cingindo o pólo, a salvo cantam:
       420Bem como os teus as pôpas atracaram,
Ou de véla enfunada a foz embocam.
Sus, alli te dirige, a estrada he esta.»

Dá costas, e a cerviz rosada fulge,
De ambrosia odor celeste a coma expira;
       425A veste escoa aos pés; no andar se ostenta
Vera deusa. Elle atrás da mãe fuginte,
Reconhecendo-a, brada: «Porque o filho
Com taes ficções, cruel, enganas tanto?
Ligar dextra com dextra, ouvir-te ás claras,
       430Conversar-te em pessoa me he defeso?»
Tal a argúe, e ás muralhas se endereça.

Ella porêm de ar fusco os viandantes
Tapa e os embuça em nevoa, que enxergal-os
Ou tocar ninguem possa, nem detel-os
       435Ou da vinda informar-se. A deusa a Paphos
Remonta, a espairecer no sítio ameno
Onde o sabeu perfume arde em cem aras,
E recentes festões seu templo aromam.

Eis da azinhaga pela trilha cortam,
       440E um teso galgam já, que olha imminente
A fronteira torrígera cidade.
Palhaes d’antes, a mole admira Enéas,
Admira o estrondo e as portas e as calçadas.
Tyro aferventa-se, a lançar os muros,
       445A avultar o castello, e a rolar pedras.

Parte com sulcos marca os edificios;
Santo augusto senado, e o foro e a curia,
Se cria e elege: aqui se escavam portos;
Fundam-se alli magnificos theatros,
       450De marmor collossaes talham columnas,
Pompa e decoro das futuras scenas.
Quaes abelhas ao sol por floreos prados
Lidam na primavera, quando ensaiam
O adulto enxame; ou doce fluido espessam,
       455Do nectar flavo retesando as cellas;
Ou quando a carga das que vem recebem;
Ou em batalha expulsam da colmêa
Os zangãos, gente ignava. A obra ferve,
E a tomilho recende o mel fragrante.
       460 «Ditoso quem seus tectos já levanta!»
Exclama o heroe, e os coruchéos contempla.
Na cidade não visto, oh maravilha!
Se mistura ennublado. Em meio havia
Luco umbroso e fresquissimo, onde os Penos,
       465De ondas jogados e tufões, cavaram
O tésto de um corsel, de Juno régia
Mostra e penhor que o povo, asado á glória,
Pugnaz e duro, insultaria os evos:
Lá punha Dido a Juno insigne templo,
       470Que dons e a rica effigie realçavam:
No bronzeo limiar da[1] bronzea escada,
Craveja o bronze as traves, e a couceira
Range em portões de bronze. Um novo objecto
N’este bosque a lenir entra os receios;
       475Aqui primeiro ousou fiar-se Enéas
E prometter-se allívio em seus pezares:
Pois quando, á espera da raínha, o templo
Nota peça por peça, quando o enlevam
De Carthago a fortuna, o gôsto fino,
       480O artificio, o primor, acha em pintura

A fio as guerras d’Ilion, pelo orbe
Já soadas; o Atrida, o rei troiano,
E terror de ambos sobresahe[2] Achilles.
Pára, e em lagrimas diz: «Que sítio ou clima
       485Cheio, Achates, não he dos nossos males?
Eis Priamo! o louvor tem cá seus premios,
Doe mágoa alheia, e remanece o pranto.
Coragem! que em teu bem conspira a fama.»

Dice, e em vãos quadros se apascenta, e as faces
       490Gemebundo humedece em largo arroio.
Vê de Pérgamo em roda a hoste graia
Do phrygio ardor fugir, fugir a teucra
Do instante carro do emplumado Achilles.
Ai! perto a Rheso por traição Tydides,
       495No primo somno, arrasa as niveas tendas,
De carnagem cruento; e os acres brutos
Volve ao seu campo, sem gostado haverem
De Troia os pastos, nem bebido o Xantho.
Triste! as armas perdendo, alêm, Troílo,
       500Que arrostou-se menino ao proprio Achilles,
He dos corséis tirado, e resupino,
Mas tendo os loros, do vazio carro
Pende; e a cerviz no pó, de rojo a coma,
Virada a lança hostil na arêa escreve.
       505Em cabello, as Iliades afflictas
Ao templo iam tambem da iniqua Pallas,
O peplo humildes offertando, e os peitos
Com punhadas ferindo: aversa a déa
Olhos no chão pregava. A Heitor Pelides
       510Tres vezes arrastara em tôrno aos muros,
De ouro a pêso vendia-lhe o cadaver.
Do imo um gemido grande Enéas sólta,
No olhar o espólio, o coche, o amigo exanime,
E a Priamo estendendo as mãos inermes.
       515A si se reconhece entre os mais chefes.

Do negro rei do eôo a turma e as armas
A'testa de milhares de Amazonas
Com lunados broquéis, Penthesiléa
Se abraza em furia, bellicosa atando
       520Sob a despida mama um cinto de ouro,
E virgem com varões brigar se atreve.

Quando extatico o heroe se embebe e enleia,
Ao templo a formosissima raínha
Marcha, de jovens com loução cortejo.
       525Qual nas ribas do Eurotas ou do Cyntho
Pelos serros Diana exerce os coros,
E, de infindas Oreadas seguida,
Carcaz ao hombro, em garbo as sobreleva;
Rega-se em gôzo tacito Latona:
       530Tal era Dido, airosa e prazenteira,
Do seu reino a grandeza apressurando.
No adyto sacro, em meio do zimborio,
De armas cercada, em solio majestoso
Senta-se. Os pleitos julga e leis prescreve,
       535Regra ou sortêa os publicos trabalhos.

Subito Enéas no tropel devisa
A Cloantho brioso, Antheu, Sergesto,
E os mais que atra borrasca a longes costas
Remessara dispersos. Elle e Achates
       540Varados ficam de alegria e susto,
Avidos ardem por travar as dextras;
Fôrça ignota os perturba. Dissimulam;
Qual a sorte dos seus do encêrro espreitam
Nebuloso, e onde surta a frota seja,
       545E com que fim das naus os mais conspicuos
Clamando, a pedir venia, ao templo acodem.

Introduzidos, quando a vez tiveram,
Rompe o idoso Ilioneu, facundo e grave:
«Raínha, ó tu que por favor supremo
       550Ergues nova cidade, e justa enfreias

Suberbas gentes, os Troianos ouve,
Que, dos ventos ludíbrio, os mares cruzam:
Livra do infando incendio a pia armada,
Poupa innocentes, nossa causa attende.
       555Nem vimos nós talar com ferro e fogo,
Nem saquear os lybicos penates:
A vencidos não cabe audacia tanta.
Paiz antigo existe, em grego Hesperia,
Armipotente e uberrimo, colonia
       560Já de enotrios varões; agora he fama
Que, de um seu capitão, se diz Italia:
Esta era a nossa róta; eis que em vaos cegos
Deu comnosco de salto Orion chuvoso,
E, em sanha o pelago e os protervos austros,
       565Nos derramou por ondas e ínvias fragas:
Poucos ganhámos pé nas vossas praias.
Patria e raça feroz! barbara usança!
Pisar em terra mãos hostis nos vedam;
Da arêa o asylo a náufragos prohibem.
       570Se as armas desprezais e as leis humanas,
O céo mede as acções, premeia e pune.
Rei nosso Enéas he, que a ninguem cede,
Pio e inteiro, valente e bellicoso:
Se aura ethérea o sustenta e o guarda o fado,
       575Se os manes o não tem, sem medo somos,
De o penhorar primeira não te pezes.
Cidades em Sicilia e campos temos,
E do sangue troiano o claro Acestes.
Amarrar nos permitte a lassa frota,
       580Mastros, remos cortar, falcar antenas;
Com que ledos, se Italia nos espera,
Os socios e o rei salvo, ao Lacio vamos:
Mas, se te ha consumido o lybio pégo,
Optimo pae dos Teucros, nem d’Iulo
       585Nos resta a segurança, ao pôrto embora,

Donde arribámos, a lograr voltemos
A apercebida sicula hospedagem,
E o regio amparo.» O Dárdano termina:
Lavra entre os seus approvador sussurro.
       590 O rosto abaixa Dido, e foi succinta:
«Sus, Teucros, esforçai. Recente o estado
Ao rigor me constrange, e a defender-nos
Guarnecendo as fronteiras. Quem de Enéas
Desconhece a prosapia, e as guerras d’Ilio,
       595Seu valor, seus heroes, seu vasto incendio?
Nem somos nós tam broncos, nem de Tyro
Tam desviado o Sol junge os cavallos.
Quer da saturnia Hesperia, quer as margens
D’Erix opteis, em que domina Acestes,
       600Contai com meu auxílio e salvaguarda.
Folgais de aqui ficar? Esta cidade
Que erijo, he vossa; as naus que se approximem:
Não farei destincção de Phrygio a Peno.
Fôsse o rei vosso á Libya compellido
       605Do mesmo Nôto! O litoral já mando
E os sertões perlustrar; se he que o naufragio
Em povoado ou brenha o traz perdido.»
   Ambos álerta, o padre e o companheiro
Ha müito almejam por quebrar a nuvem.
       610A Enéas se antecipa o forte Achates:
«Nado de Venus, que tenção meditas?
Tens a frota em seguro, os teus bemquistos;
Um só que falta, sossobrar o vimos:
Ao que a mãe te esboçou quadra o mais tudo.»
       615 Mal acabava, a nuvem circumfusa
Se rompe e funde nos delgados ares.
Um deus na espalda e vulto, á claridade
Resplende Enéas; que n’um sôpro a deusa
Ao filho a cabelleira em fulgor banha,
       620Em luz purpúrea o juvenil semblante,

Em vivo terno agrado os olhos bellos:
Qual, pela indústria, com entalhos de ouro
Pário marmore, ou prata, ou marfim brilha.

De improviso á raínha e a todos clama:
       625«Eis quem buscais, dos libyos vaos escapo,
Enéas sou. Ó tu que só tens mágoa
De tanto horror, que a nós de Troia restos,
Da Grecia escarneo, em terra e mar batidos,
Falhos de tudo, exhaustos, em teu reino,
       630Em casa, nos recolhes e associas!
Nem pagar-te as finezas dignamente
Podêmos, Dido, nem os Phrygios todos
Quantos pelo universo peregrinam.
Se para os bons ha numes, he justiça,
       635Pague-te o céo e a propria consciencia.
Que seculo feliz, que paes ditosos
Te houveram filha? Em quanto os vagos rios
Forem-se ao mar, em quanto em gyro a sombra
Vier do monte ao valle, em quanto o pólo
       640Pascer os astros, onde quer que eu viva
Vivirá com louvor teu nome e fama.»

Dice; a dextra offerece ao velho amigo,
A sinistra a Seresto, e uns após outros,
A Gyas, a Cloantho, e aos mais guerreiros.

       645Da presença do heroe pasma a Phenissa,
Tal successo a commove, e assim se exprime:
«Que fado te urge, ó filho da alma Venus,
A arduos perigos e a bravias plagas?
Es o Enéas que a deusa ao nobre Anchises
       650Gerou de Simoente ás phrygias margens?
Bem me lembra que Teucro, expatriado,
Veio a Sidonia, para um novo assento,
Pedir a Belo ajuda: a opima Chypre
Já vencedor meu pae vastara e tinha.
       655De Troia os casos desde então conheço,

Teu nome, e os rêis pelasgos. Sempre ufano
Da anciã linhagem teucra, elle offendido
Com enthusiasmo elogiava os Teucros.
Eia, á minha morada, ó moços, vinde.
       660Por transes mil trazida, iguaes destinos
Cá me fixaram. Não do mal ignara
A soccorrer os miseros aprendo.»

Isto a Enéas memora, e o guia aos paços,
E em solemne festejo occupa as aras.
       665Nem de enviar aos nautas se descuida
Touros vinte, co’as mães cem gordos anhos,
Cem corpulentos sedeúdos porcos,
E o doce mimo do jocoso Bromio.

Luxo esplende real no interno alcaçar,
       670E opiparos banquetes se adereçam:
Primoroso o tapiz, de ostro suberbo;
Nas mesas prataria; em ouro a historia
Patria esculpida, successão longuissima
De uns a outros varões desde alta origem.

       675Saudoso, impaciente, o pae de Ascanio
Todo em seu filho está; para informal-o
E o conduzir de bórdo, expede Achates.
De troico exicio as preservadas prendas
Venham tambem: de escamas de ouro um manto
       680Brocado, um véo com orlas e recamos
De croceo acantho, ornatos peregrinos.
Dons maternos de Leda á bella Argiva,
Que a Pérgamo os trouxera de Mycenas
Á incasta boda; e o sceptro que Ilione,
       685Filha a maior de Priamo, hastiava,
E engranzado collar de perlas finas,
E aurea coroa de engastadas gemmas.
Executivo ás naus caminha Achates.

Nova traça urde a Cypria, alvitres novos;
       690Que Amor, no meigo Iulo transformado,

Com os dons nos ossos á raínha infiltre
Insano fogo. A estancia ambigua, os Tyrios
Bilingues teme; Juno atroz a inflamma;
Tresnoitada a pensar, por fim conjura
       695O alígero Cupido: «Ó filho, esteio
Unico e meu poder, filho, que em pouco
Tens as typhéas soberanas armas,
Es meu refúgio, teu soccorro imploro.
Sabes que a teu irmão de praia em praia
       700Fluctívago arremessa a iniqua Juno,
E doe-te a nossa dôr. Com mil caricias
Tem-no a Sidonia Dido; e o paradeiro
Dos junonios hospicios mal enxergo:
O ensejo he de tental-a. Eu receosa
       705Previno os dolos, accender projecto
A raínha; que um nume a não trastorne,
Mas firme, quanto eu mesma, a Enéas ame.
Ouve o como ha de ser. O infante regio,
Desvelo meu, do genitor chamado,
       710Levar a Byrsa as dadivas propõe-se,
Das vagas restos e das teucras chammas.
Sopito em somno o esconderei no idalio
Jardim sacro, ou nos bosques de Cythera,
Porque os ardis não turbe inopinado.
       715Tu nelle te disfarça uma só noite,
Do menino as feições veste menino;
E, entre o lieu licor e as reaes mesas,
Quando em seu gremio Dido, em cabo leda,
Amplexos te imprimir e doces beijos,
       720Fogo lhe inspires e subtil veneno.»

Á voz da cara mãe depondo as azas,
Finge gozoso Amor de Iulo o porte.
Ella em somno abebera o neto amado;
No collo amima e o sobe ao luco idalio,
       725Onde molle e suave mangerona,

Entre flores o abraça e fresca sombra.
E obediente os regios dons Cupido
Leva aos Tyrios, folgando após Achates.

Já d’aurea tela em sumptuoso leito
       730Acha a Dido, bizarra entre os magnatas.
Com sequito luzido o heroe concorre;
Tomam seu posto em purpura excellente.
Dá-se agua ás mãos, em canistréis vem Ceres,
Toalhas servem de tosada felpa.
       735Cincoenta moças frutas e viandas
Arrumam dentro, aos divos thurificam;
Cem outras e iguaes moços põem nas mesas
A baixella, a bebida e as iguarias.
Em mó nas salas festivaes, os Tyrios
       740De ordem recostam-se em coxins lavrados.
O padre, o falso Ascanio, o vulto admiram
Flagrante e a voz do deus; o manto, as joias,
De croceo acantho o véo. Não farta a mente
A misera Phenissa, á mortal peste
       745Votada, e mais e mais se abraza olhando
O menino e seus dons. Do pae fingido
Elle nos braços, do pescoço appenso,
Mal sacia-lhe o amor, vai-se á raínha.
Com olhos e alma se lhe apega Dido,
       750No collo o assenta, sem saber, coitada!
Que deus afaga. O alumno de Acidalia
Sicheu aos poucos remover começa,
E intenso ardor insinuar procura
N’um coração já frio e ha müito esquivo.

       755A primeira coberta alçada, os vinhos
Bolham, coroados, em bojudas copas.
Retumba o tecto, o estrepito por amplos
Atrios reboa; de aureas architraves
Pendentes lustres e os brandões accesos
       760A noite vencem. Grave de ouro e gemmas

Pede-a logo a raínha, e do mais puro

Enche a taça, que desde Belo usaram
Seus avós. Nos salões tudo em silencio:
«Jupiter, se he que aos hóspedes legislas,
       765Tam fausto alegre dia aos meus e aos Phrygios
Faze aos vindouros memoravel: Baccho
Porta-jubilo assista, e a boa Juno;
Vós o convite celebrai-me, ó Tyrios.»
  Em honra então na mesa o vinho entorna,
       770Com seus labios o toca, e o dá libado
A Bycias provocando: elle aguçoso
Empina a espumea taça, em transbordante
Ouro se ensopa: toda a côrte o imita.
Logo entoa as lições do sabio Atlante
       775Em aurea cithara o crinito Iopas:
Canta a solar fadiga, a Lua instavel;
Donde homens e animaes, bulcões e raios;
Donde o nimboso Arcturo, e os Triões gemeos
E as Hyadas provêm; como apressados
       780Se tingem no aceano os soes hybernos,
Ou que demora estorva as tardas noites.
Penos e Troas á porfia o applaudem.
  O serão entretida ia estirando
A infeliz Dido, e longo o amor bebia,
       785Müito de Priamo, inquirindo müito
De Heitor; que armas da Aurora o filho tinha,
Diomedes que frisões; que jando Achilles.
  «Do princípio antes, hóspede, as insidias
Graias, dice, nos conta, e o patrio excidio,
       790E errores teus; que já seteno estio

De praia em praia todo o mar voltêas.»[3]




NotasEditar

  1. Consta no original.
  2. No original sebresahe, erro tipográfico corrigido na segunda edição.
  3. No original de Odorico, faltam estas aspas, óbvio erro tipográfico.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Notas ao Livro I


NOTAS AO LIVRO I.

     

1. — 1. — Alguns excluem o que precede á proposição. Se nas Georgicas menciona Virgilio as Bucolicas, não he müito que falle aqui não só destas como das Georgicas, composição que sabia ser das suas a melhor acabada. Camões nos Lusiadas allude ás poesias várias; e Menezes na Malaca ás amatorias que escrevera.

18. — 21. — O Tibre tem duas fozes: os que verteram ostia por um singular, ou os que, como Delille, o omittem, foram inexactos.

24. — 31. — Explico o sic volvere parcas como Ferreira na egloga Archigamia. Este sabio, imitando a Virgilio, exprimiu todo o sentido do latim. Em portuguez verteu bem só Barreto Fêo, postoque em sobejas palavras.

42. — 43. — Mr. Villenave descobre contradicção em queixar-se a deusa de não poder afastar os Troianos do Lacio, tendo dito o poeta que do Lacio andavam arredios pelo odio de Juno. Virgilio, que toma a peito a causa do heroe, refere o facto de errarem os Troianos longamente; mas Juno, que os via seguir o seu caminho apezar dos embaraços que lhes suscitava, julga não ter feito assás: cada um falla segundo o seu interêsse. Contradicção fôra se Juno he que tivesse dito uma e outra cousa.

62. — 69. — O Ni faciat contêm um como desafio: reflicta-se na fôrça que tem o presente do subjunctivo. O aliás insigne literato João Franco traduziu: Se assim não fôra; no que se aparta do original. Nem Delille, nem Bondi, nem Dryden, nem mesmo o exacto Annibal Caro, ou algum dos que consultei, foram mais felizes que João Franco.

96. — 105. — Nos Études sur Virgile, increpa-se o receio de Enéas. A esta crítica, já antiga, La Rue (chamam-no em nossas escolas Carlos Rueu) brevemente responde: «Aqui alguns accusam Enéas de pusillanime, mas temerariamente; elle não recêa a morte, sim a morte ingloria e inutil.» Mr. Tissot excusa o mesmo receio em Achilles e Ulysses: «D’ailleurs leur faiblesse, si c’en est une, repose encore sur la crainte de mourir d’une mort obscure, sans
tombeau et sans apothéose.» De tempos a esta parte, os criticos amam achar máo em Virgilio o que louvam em Homero; meio modernissimo de alcançar fama de espirito profundo. Isto me faz lembrar dos beatos que, para camparem de religiosos, gostam só das tragedias de Racine e Corneille, e não soffrem a Merope e o Orphão da China, nem se commovem em Zaíra[1] e em Mahomet, por serem de Voltaire.      106-123. — 116-136. — Mr. Nisard do Instituto de França, na sua estimavel obra sôbre os poetas latinos da decadencia, compara esta tempestade com a do livro XII da Odysséa, e tem que em Virgilio: «les Troyens sont presque moins intéressants que les effets de coups et d’hémistiches du poëte. Virgile, diz elle[2], sait déjà qu’une tempête est un morceau à effet, sur lequel on compte; il y met du soin, de la coquetterie; il ne croit pas qu’Eole pût faire assez bien les choses; il vient à son aide, il emploie tous les artifices du style: præruptus aquæ mons; Hi summo in fluctu pendent; Volvitur in caput. Le tout afin qu’un professeur de grammaire dise quelquefois: «Ne vous semble-t-il pas voir la montagne d’eau s’écrouler sur le vaisseau d’Oronte?... et ses navires ne sont-ils pas suspendus sur la crête des flots?... Le tableau, pour vouloir être plus complet, est plus vague; l’expression même est molle quelquefois. J’ai souligné le mot insequitur, qui vient deux fois, quoique ce soit le mot qui dise le moins de choses: il s’applique au temps, mais point aux objets... L’image du pilote tombant la tête la primière ne touche point, d’abord parce que c’est un incident imité d’Homère, ensuite parce que la circonstance qui amène cette mort est vague; on ne se figure pas bien un vaisseau soulevé par la poupe et qui verse dans la mer son pilote par la proue, au lieu qu’on se figure très-bien un mât fracassé qui écrase en tombant la tête du pilote et le précipite dans les flots. Ipsius ante oculos ne fait ressortir que davantage le peu de précision du détail de Virgile; ear on se demande naturellement: qu’est-ce donc que voit Oronte? est-ce la vague qui vient prendre son vaisseau en poupe? Mais il est si naturel qu’il la voie, qu’il l’est par trop de le dire. Virgile a mis une variante à la catastrophe d’Homère, qui ne me paraît pas heureuse: il fait disparaître dans un tourbillon le vaisseau d’Oronte. Homère s’inquiète peu du vaisseau d’Ulysse, une fois que tout ce qui s’y trouvait d’êtres vivants a péri, et qu’il en a un débris, sur lequel Ulysse se sauvera du naufrage. Virgile ne baisse pas la toile sur ces Troyens qui nagent sur la lame immense; il trouve encore un désastre plus grand, et ce désastre, c’est la perte des armes, des planchers, des richesses troyennes, qui flottent sur les ondes.» - Peço venia para uma quasi dissertação: tenho de refutar a Mr. Nisard, escritor douto e espirituoso, e no seu arrezoado müitos sam os reparos contra esta
passagem, admirada ha mais de 18 seculos. Concordo com elle no louvor ao pae da poesia epica: nada ha mais simples e preciso do que essa descripção na Odysséa. O crítico porêm não considerou a differença do assumpto: Ulysses, ainda que a Ithaca chegasse nu, como arribara á ilha dos Pheaces, tinha comsigo tudo que havia mister para attingir o seu fim, isto he para castigar os pretendentes e tomar conta de seu reino; mas Enéas, que ia fundar um imperio, se nu abordasse a Italia, sem gente, sem o que a tanto custo salvara das ruínas de Troia, nada poderia obter, e estava gorada a Eneida. Esta reflexão basta para justificar o poeta de julgar lamentavel a perda des richesses troyennes qui flottent sur les ondes: as riquezas, entre as quaes iam alfaias, armaduras e mil objectos, pertencentes a amigos e a guerreiros troianos, alêm de serem necessarias aos fugitivos, eram outras tantas lembranças da patria, cuja perda se devia lastimar. Assim, a lamentação de Virgilio, que se põe no lugar do heroe, não recahe sôbre cousas inanimadas de preferencia à ces Troyens qui nagent sur la lame immense, mas sôbre as pessoas queridas que esses objectos representavam, mas sôbre toda a sociedade troiana. Virgilio morreu sem limar a sua obra, e só a communicava a poucos: em sua vida pois não houve professor de grammatica que dicesse a seus discipulos: Ne vous semble-t-il pas voir la montagne d’eau s’écrouler sur le vaisseau d’Oronte? Não houve então ninguem que dicesse o mais que Mr. Nisard, com uma especie de fino gracejo, põe na bôca dos mestres de latim: o crítico deixou o seculo de Augusto, e collocou-se no nosso entre os pedantes das escolas; sem reflectir que esses hemistichios foram sempre saboreados pelos homens de melhor tacto em todos os seculos, e que a admiração que taes bellezas inspiram, passou dos sabios aos espiritos ordinarios. — Não vejo tambem porque l’image du pilote tombant la tête la première ne touche point, d’abord parce que c’est un incident imité d’Homère. He por ventura da natureza da imitação o nunca poder commover? Não pensaram assim Ovidio, Dante, Camões, Tasso, Milton, Voltaire, Chateaubriand; e o voto de ingenhos taes he para mim da maior excepção. Mr. Nisard não entendeu o ingens a vertice pontus: creu que a mareta veio da pôpa. Virgilio, que em não poucas viagens tinha observado os phenomenos do mar, sabia como o escarcéo que vem d’avante he mais perigoso, e quanto he raro sossobrar a embarcação que as vagas batem em pôpa. — Para justificar o poeta marinheiro, como o denomina M. Jal, autor da Archéologie navale, deixemos fallar este erudito, na sua breve mas profunda obra o Virgilius nauticus: {{lang|fr|«Il s’agit cette fois d’une lame immense qui, venant de la proue du navire d’Oronte, et tombant de haut (a vertice me paraît avoir ce double sens; il fortifie ingens, em même temps qu’il est en opposition avec puppim, comme extrémité du vaisseau), déferle sur la poupe,
ébranle le capitaine, qui, au mouvement de tangage, est dèjá penché en avant (pronus), et le fait tomber roulant sur lui-même, la tête la première... Quant à vertice, quelques-uns y ont vu la proue, d’autres ne se sont pas préoccupés de ce détail, et j’aime mieux leur oubli qu’un contre-sens comme celui qui a échappé à Servius. Cet illustre commentateur veut que a vertice soit synonyme de a puppi; il ne réfléchit pas que, si la vague se dressant derrière la poupe était entrée dans le navire par l’arrière, ce n’est pas assurément sur la tête que serait tombé Oronte. Virgile a rendu avec sa rare habileté de poëte marin l’effet du tangage et l’embarquement par l’avant de cet effroyable paquet de mer qui couvre le vaisseau, et l’engloutit dans un tourbillon où il sombre, la proue en avant, en tournant trois fois sur lui-même.}} — Nem o texto, nem M. Jal com toda a competencia na materia, falla em Oronte cahir no mar; elle morreu com a tripulação n’um vortice do navio; cahiu no convez, por effeito da arfagem, e não fóra da embarcação: o poeta pinta phenomenos interessantes aos que tem feito maiores viagens que as dos batéis do Sena, e que talvez não sam aos que nunca viram uma tempestade no oceano ou junto de uma costa brava. — O ipsius ante oculos foi mal interpretado por M. Nisard: refere o ipsius a Oronte, devendo referil-o a Enéas. E porque diz o texto que era ante os olhos de Enéas? Eis-aqui: uma tempestade não dá com a mesma fôrça em todos os navios da mesma conserva, carrega mais em uns que nos outros; e, collocando-se a nau do chefe proxima da que sossobrou, mostra-se o perigo eminente do heroe; o que concorre para o interêsse da situação. Pode ainda tirar-se uma illação; isto he que, se não pereceu tambem a capitânea, Enéas o deveu á experiencia e cautelas do piloto mais perito da frota, o velho Palinuro, que estava a seu bórdo. — Das censuras só resta uma, o verbo insequitur duas vezes na mesma descripção: defeito levissimo, que não pode afeiar uma tam formosa passagem. Ainda assim, nesta justa censura ha duas inexactidões: o insequitur não he tam fraco como Mr. Nisard imagina, significa tambem instar, perseguir, e o crítico parece discorrer antes sôbre o simples sequitur do que sôbre o composto, a que a preposição in imprime uma fôrça maior; nem o verbo somente s’aplique au temps, mais point aux objets; o contrário se vê em Cicero, Philip. 2: [3]Si tum occisus est, quum tu illum in foro spectante populo romano gladio stricto insecutus es. — O praeruptus aquae mons acaba em um monosyllabo, como para mostrar o cimo da montanha d’agua. O nosso vocabulo monte he dissyllabo; e, se nelle terminasse o verso portuguez, não tinha a mesma graça: terminei-o no pronome se monosyllabico, referindo-se a monte, e obtive assim a vantagem do latino. Os que sentem as bellezas da versificação, creio, devem gostar do esdruxulo; que, tendo mais uma syllaba, parece augmentar a altura da vaga.
     139-149. — 151-160. — Vaga de per si quer dizer onda agitada; omitti pois motos. Em semelhantes casos assim o faço; o que torna esta traducção a mais concisa de quantas tenho examindado. — Lançar-se o mar por abonançar he dos bons antigos. Desengasgar, postoque portuguez e vulgar, falta nos nossos melhores diccionarios.

     163. — 175. — Chateaubriand, no Itinerario, he da opinião do doutor Shaw, de que esta bahia não existiu só na cabeça de Virgilio, mas ao pé de Carthago. Assemelha-se todavia ao pôrto de Phorcyna em Homero.

     183. — 195. — Naquella epoca não se usava de fermento para levedar o pão, nem havia moínhos; torravam-se os grãos e quebravam-se em pedra. Quando imprimi este livro em separado, usei mal do vocabulo . João Franco usa do vocabulo pedra; mas accrescentando o adjectivo orbicular, parece ter tido o mesmo engano que eu. O Snr. Lima Leitão pondo , o Snr. João Gualberto e Barreto Fêo pondo moer, tambem se enganaram.

     186. — 199. — Caíco tinha mais de um navio sob as suas ordens immediatas, o que indica o plural puppibus. Sigo a La Rue e Mr. Jal na opinião de que arma não sam bandeiras, nem armas pintadas, mas broquéis, lanças, que se suspendiam no alto das pôpas. Annibal Caro e João Franco traduzem arma por bandeiras.

     210. — 223. — Este verso, exprimindo a prudencia do chefe que suffoca seus temores, tem merecido a approvação geral; mas Mr. Tissot o acha máo, porque Enéas desespera da sua fortuna e desconfia dos deuses, e um tal varão não he feito pour gouverner les passions et les volontés de ses semblables. Enéas, bem que pio, he natural que ás vezes desconfiasse dos oraculos, e ainda mais da sua fortuna; e se nunca tivesse tal desconfiança, crendo que o fado o ajudava em todas as empresas, a certeza de obter tudo com o favor supremo diminuiria o preço da sua coragem pessoal: as mais das vezes porêm he a confiança nos deuses que o acorçoava. O poeta conhecia melhor a nossa natureza do que os seus criticos, e não exagerava os sentimentos; folgava de deixar vêr o homem no heroe.

     215-228. — 224-228. — Observe-se a brevidade e concisão do portuguez: o nosso esfolar verte fielmente o tergora diripiunt costis; o nosso espostejar, o in frustra secant; o nosso desentranhar, o viscera nudant. Para o verubusque trementia[4] figunt servi-me de quasi um verso do harmonioso e correctissimo Garção. Conservo o epitheto velivolum, postoque Mr. Villenave
o tenha, com razão, por menos bem applicado a mare do que aos barcos, preferindo o emprêgo que delle fez Ovidio, nas Pont., liv IV, epist.5.

     251-252. — 262- 263. — Antenor fundou Padua, a qual primeiro denominou Troia, e alli estabeleceu a pequena colonia dos Antenoridas; Enéas foi quem ao Lacio conduziu o grosso da nação: he por isso que, fallando de Antenor, digo deu casa a Teucros, e fallando de Enéas, direi deu casa aos Teucros. Distincção não feita pelos traductores, talvez minuciosa, mas tendente á exactidão e á clareza.

     290-291. — 302-304. — Mr. Tissot, a proposito desta passagem, sentencêa que o poeta, en donnant toutes les perfections à ses principaux personages, Auguste et Énée, a méconnu la nature et s’est privé des ressources que lui aurait fournies une imitation plus fidèle de la vérité. Parece incrivel que seja isto de quem ha pouco vimos tachando o heroe troiano de não ser para governar as paixões e vontades de seus semelhantes; o peior defeito de um chefe. Para confutar a Mr. Tissot, recorro a Mr. Tissot. — Se fôssem verdadeiras as baldas que á Eneida assacam, não digo os Zoilos, mas os seus mesmos apaixonados, seria ella o mais reles dos poemas. Assim, o pintor que expunha um gabado quadro para colher as críticas e aperfeiçoal-o, viu que o público o admirava; porêm que tantos eram os defeitos que lhe achavam os admiradores, que melhor seria ou ficar o quadro como estava, ou borral-o e compôr outro. Assim, a môça formosa, a quem todo o rancho dos gamenhos applaude, quando as invejosas lhe analysam a belleza, bem que em geral não lhe neguem o merecimento, sam taes os senões que nella cada uma encontra, que a pobre se deveria ir esconder, como a coruja mais feia e hedionda.

     317. — 335. — Em vez de Hebrum leio Eurum, com Heyne e outros; porque, exagerando-se a carreira de Harpalyce, nada admiraria que ella a cavallo vencesse o curso de um rio; tanto mais, que o Hebro da Thracia não he impetuoso. Assim, cahe por si mesma a censura de Heliez, na sua Geographia de Virgilio, de que as Amazonas sam collocadas na Thracia européa, sendo habitadoras da asiatica. Compuz alifugo para exprimir o volucrem fuga.

     347. — 362. — Alguns substituem ditissimus agri por ditissimus auri, contra a lição antiga, com o fundamento de que os Phenicios, ricos em commercio, o eram pouco em lavras; o que não basta a justificar a emenda: o terem sido os Phenicios mediocres na agricultura nada obsta a que Sicheu entre eles fôsse o mais opulento em bens territoriaes.
     368. — 384. — Dux femina facti verteu João Franco: «Do feito a Dido sam as honras dadas.» He obvio que femina he essencial: a ousadia da empresa mais sobresahe por ser mulher quem a effeituou.

     382-383. — 398-400. — Na antiguidade, os homens illustres se gabavam sem offenderem o decoro e o costume geral: como Ulysses na Odysséa; como ao depois Horacio e Ovidio; como, entre os modernos, Camões, Ercilla, Cervantes, Corneille, Antonio Diniz; como, em nossos dias, Bocage, Chateaubriand, Mr. de Lamartine, e outros: nota-se porêm que os mais chegados a nós o fazem com mais cautela e menos claramente. He a justificação de Virgilio e de Enéas.

     434-440. — 452-459. — «A comparação, diz Delille, teria mais justeza e graça, a reconhecerem as abelhas de Virgilio, em vez de um rei, uma raínha.» O texto não falla de rei nem raínha: Delille he que em sua traducção introduz um rei das abelhas. Este engano veio de que o poeta romano nas Georgicas dá um rei com effeito ás abelhas; êrro do seu tempo, que foi reconhecido por experiencias modernas.

     466. — 487. — «On ne peut que sentir ce vers, diz Mr. Villenave, en désespérant de le traduire. Si le poëte eût dit: sunt res lacrimabiles, c’eût été la même pensée; mais le sentiment se fût affaibli, une touchante image eût disparu. Il est donc des pensées communes qui deviennent grandes par la place d’un mot.» Concordo com a observação geral, não com o sentido em que he tomado sunt lacrimae rerum. Não significa só que ha cousas lagrimaveis, sim que das cousas restam lagrimas, ou por outra, que alli choravam-se as desgraças passadas e dellas fallavam os monumentos publicos; prova de que os Troianos estavam em terra policiada, e não em brenhas, como receara Enéas. Os selvagens, os barbaros, prantêam as desgraças presentes e lamentam seus males; mas sós os que já tem um certo grau de civilisação he que a seus monumentos encommendam o passado, e a perfeição dos monumentos segue a perfeição da intelligencia dos povos. Se pois o poeta, em vez de sunt lacrimae rerum, tivesse dito sunt res lacrimabiles, não desapparecia unicamente a imagem, desapparecia tambem o pensamento. Esta passagem, das mais sensiveis e maviosas que se encontram nos poetas sublimes, encerra ainda um acabado elogio das bellas artes, escolhido um só traço, mas o principal. — Camões, ingenho quasi igual a Virgilio, dice no mesmo sentido: «De que a memoria em lagrimas existe.» Ferreira, alma propria para sentir as bellezas dos antigos, dice: «Que ficam, senão prantos e saudades tristes, Daquellas cousas grandes que acabaram?» Ha um resaibo
do mesmo pensamento no verso de Petrarca: «Ahi! null’altro che pianto al mondo dura.» Sam os melhores commentadores de Virgilio, em primeiro lugar Virgilio mesmo, sendo bem estudado, e em segundo lugar os verdadeiros poetas que o sentiram e imitaram.

     588. — 613. — M. Villenave censura a Delille, Binet, de Guerle, por terem referido unus abest a socios, e não ao navio. A construção da phrase, como elle confessa, a tal opinião os levou, e muito bem, porque o masculino unus não pode concordar com classem, nem com navem que se subentenda. Verdade he que não foi só Oronte que pereceu, foi conjuntamente a nau; o que não obsta a que unus se refira ao commandante. Sendo vista aquella desgraça por Achates e Enéas, basta que se falle do commandante para, por associação de idéas, vir á memoria a nau. Quanto á fidelidade, vale tanto uma como a outra cousa; poisque a subversão da nau lembra a de Oronte, e vice versa.

     634. — 661-662. — Pondera Chateaubriand, no Genio do christianismo, que Virgilio amava exprimir-se negativamente, o que concorre para a melancolia dos seus versos; cuida que esta maneira lhe nasceu dos desgostos que o poeta provavelmente experimentou em seus amores. Fóra a conjectura, fica-nos a observação verdadeira de que elle emprega frequentes negativas, o que augmenta a melancolia que inspiram suas obras. Não direi que o traductor infallivelmente verta essas negativas; sim que em geral o deve de fazer, a fim de conservar mais uma propriedade do seu estilo divino, como lhe chama o mesmo Chateaubriand. Neste non ignara[5] mali a negativa por certo vem muito a proposito. Nem Delille, nem o Snr. Lima Leitão que o imitou, João Franco, nem o Snr. João Gualberto, nem algum dos outros que consultei, fizeram caso desta particularidade; exceptos Iriarte e Mr. Villenave. Mais ainda me agrada a traducção do último; porque o Hespanhol põe no plural disgracias, e o Francez emprega o singular malheur: postoque o verso do poeta contenha uma maxima geral, Dido não a proferiu como tal; no mali especialmente allude ao exilio da patria, no que o seu fado assemelha o de Enéas.

     693-698. — 721-726. — Para doçura e harmonia, aqui se empregam líquidas e vogaes: a nossa lingua poude em versos iguaes traduzir essas bellezas, o que talvez não consiga outra alguma das vivas da Europa; ao menos ainda não o fizeram as duas mais suaves, a hespanhola e a italiana.

     703-710. — 729-738. — Julga Delille que o banquete poderia ser descripto com mais imaginação e poesia, e não nos diz o como; accusa o poeta de nimia sobriedade, e affirma que o festim cessou
com o hymno solemne de Iopas, quando só terminou com a narrativa de Enéas, que toma os livros II e III. Não reflectiu que he a descripção completa, e que Virgilio fundiu muito em pouco: a prataria das mesas e bofetes, as peças de ouro esculpidas com a historia de Tyro e a serie dos avós da raínha, o luxo dos tapetes, dos leitos, dos coxins, tudo mostra a magnificencia do banquete e o esplendor do serão. Que tal devera ser, quando era servido por cem mòços e cem mòças, e destas havia dentro cincoenta para incensar os penates e arrumar frutas e viandas! Delille, censor de Lucano em theorica, he um dos que mais poseram em voga as descripções estiradas: varios modernos, que o reprehendem pela mania de fugir da palavra propria e por suas periphrases, delle sam discipulos na longura insaciavel das taes descripções. — Na crítica deste festim sobejamente se desmandou Mr. Tissot: «Froid, silencieux, Énée assite au festin, et ne prend part à rien, parce que rien ne le touche; il ne paraît pas s’apercevoir de l’attention passionnée dont il est l’objet.... Virgile ne nous donne qu’une exquisse, à la place d’un tableau. Ce n’est pas avec cette négligence et cette froideur que Fénelon a représenté la passion naissante de Calypso, et son ardeur à connaître et à écouter les aventures du jeune héros en qui elle retrouve l’image d’Ulysse. Milton exprime avec bien plus de grâce, de chaleur et de retenue, le désir qu’Adam et Ève éprouvent d’entendre, de la bouche de Raphaël, le récit des merveilles de la création.» - Havia poucas horas que se tinha Dido encontrado com Enéas no templo; acolhe-o com agrado, e lhe dá um festim, que durou muito alêm da meia noite: o principe troiano não podia s’apercevoir de l’attention passionnée dont il est l’objet; ainda não se cria, nem se devia crer o objecto de uma paixão amorosa, sim de uma delicada attenção da parte da raínha para com um guerreiro da sua ordem, da casa de Priamo e de sangue divino. Se cuidasse Enéas que Dido, assimque o viu, perdeu-se de amores por elle, fôra vaidade mal assente em um varão grave, só propria de um dos nossos leões ou adamados casquilhos: dias depois he que deu por esse amor, em que tanto influiu a narração posterior dos seus trabalhos. Se para desculpar a paixão de Dido o poeta imagina o engano de Cupido, transformado em Ascanio, e sem embargo affectados, que fingem desconhecer neste ponto a humana fraqueza, acham-na por extremo repentina; que se não diria do heroe se, não tendo a excusa de ser incitado pela propria Venus, começasse logo a dizer finezas á raínha de Carthago? Tam contagiosa he a doença dos adocicados romances (não trato aqui dos de Fielding, Scott, Lesage, e de outros ingenhos desta têmpera), que até homens da melhor doutrina literaria se deixam levar do exemplo. — Quanto ao silencio de Enéas, he a arguição mais destituida de fundamento que dar-se pode: o poeta, que tinha de fechar o serão com a narrativa, de preferencia pinta a nascente paixão da raínha; pois em dous livros
inteiros iria Enéas apparecer em todo o brilho. Postoque não venha expresso, bem se conhece que o heroe conversou muito com Dido, que frequentemente o interrogava sôbre Heitor, Priamo, Memnon, Diomedes e Achilles: se não se referem as respotas, he porque, tendo Enéas de obedecer á raínha que lhe pede a narração completa, basta que ahi venham todas ellas. — Na confrontação de Virgilio com Fenelon, esqueceu-se Mr. Tissot de que não era com Enéas, mas com Dido, que devera comparar Calypso, na sua paixão nascente e no ardor de conhecer e escutar as aventuras do joven Telemaco; pois na Eneida he Dido quem escuta, e he Enéas quem narra. Se Fenelon resuscitasse, havia de pasmar de se vêr preferido ao mestre cujas pisadas seguia, a este mestre sublime e profundo no desinvolver e pintar o amor, sem igual na antiguidade, nunca excedido pelos modernos, os quaes nesta parte vencem aos antigos. Mme de Staël, a quem lhe impugnava esta opinião com os exemplos da Eneida, responde: «Eu pudera recusar uma objecção tirada de Virgilio, poisque o citei como o poeta mais sensivel.» E quem o diz he a autora de Corinna. - Não foi mais feliz M. Tissot com a allegação de Milton: não he Enéas, he Dido que elle devera confrontar com Adam e Eva; Enéas he quem ia narrar, como Raphael. Sem dúvida Milton, quando pinta os amores dos nossos primeiros paes, não he inferior a Virgilio; os dous genios tiraram toda a vantagem do assumpto, bem que diffiram muito: um, sob a influencia paganismo, não podia pintar o amor com os toques do outro, inspirado pelas idéas do velho e do novo testamento: cada um escreve conforme aos tempos e ás crenças. Nem o primeiro amor de uma virgem, ignorante e simples, devera ser tratado como o de uma viuva de trinta annos.

     743. — 773. — Conservei a audacia do original, que diz : pleno proluit auro. O modo por que me exprimo, não he mais atrevido que o lugar de Ferreira, na formosissima elegia a Maio; onde, com o seu vigor e costumada energia, assim falla de Venus, que se despe e sólta os cabellos para se banhar: «Ella a neve descobre e sólta o ouro; Banham-na as Graças na mais clara fonte: Apparece de amor rico thesouro.»



NotasEditar

  1. Possívelmente, um erro tipográfico. O título original é Zaïre.
  2. Esta incisiva, que não faz sentido algum, foi suprimida na segunda edição.
  3. Na primeira edição, aparecem, aqui, aspas que não são fechadas ao final da citação, e que foram suprimidas na segunda edição.
  4. termentia no texto original, erro tipográfico.
  5. No original, ignora.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Livro II


Promptos, á escuta, emmudeceram todos,

Ao passo que exordia o padre Enéas
Do excelso tóro: — Mandas-me, ó raínha,
Renove a dôr infanda; o como os Danaos
       5D’Ilio a pujança e o reino lamentavel
Derrocaram; miserias que eu vi mesmo
E em que fui grande parte. Ao relatal-as,
Dolope ou Myrmidon, de Ulysses duro
Ha soldado que as lagrimas estanque?
       10E humida a noite já do céo descamba,
E as estrellas cahindo ao somno induzem:
Mas, se he teu gôsto ouvir os nossos casos,
E em breve o extremo afã saber de Troia,
Bem que á lembrança lucto e horror me esquivam,
       15Narral-os vou. Repulsos, quebrantados,
Pós tantos annos de fataes revezes,
Os Danaos um cavallo em ar de monte,
Divina arte de Pallas, edificam,
Lavram de abeto as intecidas costas:
       20Ser da tornada um voto á surda espalham.
No cego lado, os bravos sorteando,
A escolha incluem, de hoste armada enchendo
O antro profundo e lobregas entranhas.
  Jaz Tenedos á vista, ilha famosa,
       25Próspera á sombra do priameo sceptro;
Hoje ermo pôrto, ás quilhas mal seguro:
N’uma abra alli se escondem. Nós os cremos
Velejando na róta de Mycenas.
Teucria do largo nojo emfim respira:

       30Abrem-se as portas, vai-se ao dorio campo;
Grato he vêl-o deserto e a praia nua:

«Os Dolopes aqui, Pelides fero
Se abarracava; aqui das naus a estancia;
Combatia-se aqui.» Mirando a turba
       35A offerta exicial da innupta deusa,
A mole a espanta: e lembra-nos Thymetes,
Ou fôsse dolo ou sina já de Troia,
Dos muros pôl-o dentro e no castello;
Mas Capys aconselha, e os de mais tino,
       40Que ao pégo o dom suspeito e grega insídia
Se atire ou queime em sotopostas chammas,
Ou se broque e tentêe o bôjo escuro.
  Emquanto incerto e vário alterca o vulgo,
Ardendo Laocoon da cidadella
       45Corre com basto sequito, e de longe:
«Miseros cidadãos, que tanta insania!
De vólta os Gregos ou de engano exemptos
Seus dons julgais? desconheceis Ulysses?
Ou este lenho he couto de inimigos,
       50Ou máchina que, armada contra os muros,
Vem cimeira espiar e acommetter-nos.
Teucros, seja o que fôr, ha damno occulto:
No bruto não fieis. Mesmo em seus brindes
Temo os Danaos.» De esguelha, assim fallando,
       55A’ curva liação do ventre equino
Com braço válido hasta ingente arroja:
Pregada está tremendo, e ao rijo encontro
Longo geme e retumba a atra caverna.
E, a não ser o destino e a mente avessa,
       60Nos movera os argolicos recantos
Com ferro a devassar: e inda em pé Troia,
Inda, alcaçar de Priamo, estarias.
Eis atrás maniatado alguns pastores
Ao rei com vozeria um moço trazem;

       65Que arteiro, ignoto, adrede os encontrara,

De animo firme em dar aos Gregos Troia,
Ou na empresa acabar. Curiosa acode,
E ávida se atropela e o cérca e apupa
A rapazia. Agora ouve a tramoia,
       70Por um crime avalia os Danaos todos.
Perante a multidão, turbado, inerme,
Pára, e olhando circumda as phrygias turmas:
«Que mar, grita, ou que terra ha de acolher-me?
Ai! que me resta? A patria proscreveu-me,
       75E os Dardanos meu sangue infensos pedem!»
Tal pranto nos demove e o furor quebra:
Sua estirpe o exhortamos a contar-nos;
Que intento o conduziu, que fé mereça.
Perde o susto o captivo, e assim responde:
       80«Toda a verdade, ó rei, sincero expendo.
D’antemão que sou Grego não t’o nego:
Tornar pode a Sinon fortuna escassa
Misero sim, mas embusteiro nunca.
Talvez já te soasse o nome e a glória
       85Do afamado Belídes Palamedes;
Que, sendo opposto á guerra, atroz calúmnia
O accusou de traição, e hoje os Pelasgos
Com tardio pezar extincto o choram:
Pobre meu pae, com elle seu parente,
       90Mandou-me inda novel seguir as armas.
Quando o reino o attendia e assim medrava,
De algum nome e esplendor tambem gozámos:
Depois que a inveja do manhoso Ulysses,
Deste mundo o tirou, como he notorio,
       95Mesto arrastando a vida em treva e lucto,
O supplício traguei do insonte amigo;
Té que, insano a bramir, vingal-o juro,
Se vencedor voltasse ao gremio de Argos,
E asperos odios imprudente afio.
       100Daqui mana meu mal; daqui terrivel

Sempre a assacar-me Ulysses novos crimes,
A espargir pelo vulgo ambiguas vozes;
Sempre em remorsos e a tecer meu damno.
Não descansou, sem que o ministro Calchas...
       105Mas que importuna historia em vão recórdo?
Porque detêr-me? Se os Achivos todos
Tendes na mesma conta, assás ouvistes,
Em mim puni-os: o Ithaco o deseja,
Pagal-o-ão por bom preço os dous Atridas.»
       110Do ardil pelasgo e infamia tanta ignaros,
Com ardor á porfia o interrogámos.
Pavido o gesto, o perfido prosegue:
«Lassos da guerra, o assedio erguer tentaram...
Oxalá que os Argivos o acabassem!
       115Mas, no abalar, os retiveram sempre
Crespas tormentas, carrancudos austros.
Prompta essa mole de tecidos lenhos,
Mais borrascoso trovejou. Perplexos,
Ao delio templo Eurypilo enviámos;
       120Que este oraculo triste annunciou-nos:
«Com sangue, ó Danaos, de immolada virgem,
Ao vir a Troia, os ventos aplacastes;
Sangue requer a vólta, e de hostia grega.
Divulgada a sentença, o espanto cala,
       125Gêlo os ossos traspassa, e tremem todos
Sôbre a quem busque a Parca e o deus condemne.
Então com grande estrondo ao campo Ulysses
Traz Calchas, e insta que o mysterio aclare:
Muitos, já do perverso lendo n’alma,
       130Em silencio o porvir me adivinhavam.
Dez dias encerrado, o vate abstêm-se
De delatar alguem e á morte expôl-o.
Do Laercio ao clamor, como por fôrça,
A voz desata emfim, me fada ás aras.
       135O assenso foi geral: cada um tolera

Que a sorte que temia em mim recaia.
Negreja o dia infausto: o rito encetam,
Cingem-me a venda, o salso farro aprestam.
Rompo as cordas, confesso, a morte evito;
       140Nos juncos de um paul me abriga a noite,
Emquanto ás vélas davam, se he que as deram.
Nem mais espero vêr meu ninho antigo,
Nem meu querido pae, meus doces filhos,
Que víctimas quiçá por mim padeçam,
       145Esta fuga expiando. Pelos deuses
Que attesto, exoro, se entre humanos inda
Ha limpa fé, tem mágoa de ancias tantas,
Perseguida innocencia te commova.»
De puro dó a vida lhe outorgámos;
       150E o mesmo rei, mandando allivial-o
De algemas e prisões, lhe dice affavel:
«Qual sejas, serás nosso, os teus deslembra.
Quem, falla-me a verdade, o immano vulto
Fabricou desse monstro? a que o destinam?
       155He religião? he máchina de guerra?»
Imbuído o falsario em dolo argivo,
Sôltas palmas levanta, e aos astros clama:
«Eternos fogos, inviolavel nume,
Aras, cutellos, que evadi, nefandos,
       160Mortal banda que a fronte me adornavas,
Testemunhas me sêde: os meus renego;
Trahido eu possa ao claro descobril-os:
Juramento nem lei me liga á patria.
Se alto arcano revelo, em ti fiado,
       165Tu, salvada por mim, salva-me ó Troia.
Sempre a Grecia no auxílio de Tritonia
Estribou seu triumpho, até que ousaram
Impio Tydides, sceleroso Ulysses,
Matando os guardas, o fatal palladio
       170Roubar do santuario, e á deusa as fitas

Virgineas profanar com mão cruenta.
Os Danaos, da esperança decahidos,
Afrouxam de energia. Bem mostraram
Varios prodigios a aversão de Pallas:
       175Posta a effigie entre nós, dos hirtos lumes
Fuzis desprega, em salso humor escorre,
Do chão tres vezes, oh milagre! pula,
E a rodela desfere e a lança trémula.
Que o mar se tente asinha o canta o vate:
       180Que em vão dardejam Troia, se indo em Argos
O auspicio renovar, não reconduzem
O em curvos bojos transportado nume.
E, se á patria Mycenas já navegam,
Vam refazer-se e grangear os deuses;
       185Mas, repassando o pelago, improvisos
Serão comvosco: a profecia he esta.
Da diva em desaggravo[1], amoesta-o Calchas,
De ligneas traves, em lugar da estatua,
Esta mole estupenda construíram;
       190Que pelas portas, altaneira ás nuvens,
Nem possa entrar na praça, nem do povo,
Segundo a crença antiga, ser custodia:
Pois, se braço troiano o dom violasse...
(Antes ao vate o agouro os céos convertam)
       195Raso iria este imperio; e, se vós mesmos
Dentro o mettesseis, desceria armada
Asia em pêso ás muralhas pelopéas,
Fado que abarcaria os nossos netos.
Do perjuro Sinon foi crido o engano;
       200E aos que Tydides, nem o Larysseu,
Dez annos, quilhas mil, nunca domaram,
Vencem dolos e lagrimas traidoras.
Nisto, o monstro maior, mais formidavel,
Impróvidos nos turba. Á sorte eleito,
       205O antiste Laocoon com sacra pompa

A Neptuno immolava um touro ingente.
De Tenedos (refiro horrorisado)
Juntas, direito á praia, eis duas serpes
Des espiras cento ao pelago se deitam:
       210Acima os peitos e as sanguineas cristas
Entonam; sulca o resto o mar tranquillo,
E se encurva engrossando o immenso tergo.
Soa espumoso o páramo salgado:
Já tomam terra; e, em sangue e fogo tintos
       215Fulmineos olhos, com vibradas linguas
Vinham lambendo as sibilantes bôcas.
Tudo exsangue se espalha. O par medonho
Marchando a Laocoon, primeiro os corpos
Dos dous filhinhos seus abrange e enreda,
       220Morde-os e come as descosidas carnes:
E ao pae, que armado occorre, eil-as saltando
Atam-no em largas vóltas; e enroscadas
Duas vezes á cintura, ao collo duas,
O enlaçam todo os escamosos dorsos,
       225E por cima os pescoços lhes sobejam.
De baba e atro veneno untada a faxa,
Elle em trincar os nós co’as mãos forceja,
E de horrendo bramido aturde os ares:
Qual muge a rez ferida ao fugir d’ara,
       230Da cerviz sacudindo o golpe incerto.
Vam-se os dragões serpeando ao santuario,
E aos pés da seva deusa, ennovelados,
Sob a egide rotunda ambos se asylam.
Cresce o pavor, os corações retremem:
       235Pregoam justa a pena ao temerario
Que a ponta de impia lança no costado
Fincou do sacro roble; e o simulacro
Bradam que se recolha e se ore a Pallas.
Ferve a gente; a muralha e as portas rasga,
       240Leves rodas por baixo e ao collo ageita

Cabos tendidos. Prenhe de armas, sobe
A máchina fatal: em tôrno a coros
Cantam meninos e devotas virgens,
De tocarem na corda mui contentes.
       245Atravez da cidade ella suberba
Vai minaz resvalando. Ó patria! ó Ilio!
Invictos muros, divinal estancia!
Berço de heroes! Á entrada quatro vezes
Pára, e quatro restruge um rumor de armas.
       250Surdos, cegos instando, o monstro infausto
Ah! no augusto recinto o collocamos.
Fadada a não ser crida, então Cassandra
Abre o futuro; e os templos nós dementes
Naquelle de Dardania último dia,
       255De virentes festões velando fomos.
Vira o céo, no oceano a noite cahe,
E em basta sombra involve a terra e o pólo
E a myrmidonia astucia: ante as muralhas
Derramada em silencio, a troica gente
       260Em modorra ensopava os lassos membros.
Já, da tacita Lua ao mudo amparo,
De Tenedos partia ás notas praias
A instructa armada, e a capitânea régia
Sinal flammeo iça á ré. De iniquos deuses
       265Sinon valído, a furto os pineos claustros
Laxa; e o cavallo, devassado, ás auras
Rende as phalanges que no ventre aloja.
Por um calabre escorregando, alegres
Baixam do cavo seio os cabos Thoas,
       270Tissandro e Sthenelo, o maldito Ulysses,
Athamante e Pelídes Neoptolemo,
E Macaon primeiro e Menelao,
E autor da máchina o engenheiro Epeu.
Troia invadem sepulta em somno e vinho:
       275Matam a guarda, os seus na brecha esperam,

E os batalhões de accôrdo se encorporam.
Era quando aos mortaes começa e côa,
Divino dom, gratissimo descanso:
Tetrico Heitor em sonhos se me antolha,
       280Debulhando-se em pranto; como outrora,
Negro do pó cruento a biga o arrasta,
Os loros arrochando os pés tumentes.
Ai quam mudado! Aquelle Heitor não era
Que no espólio volveu do proprio Achilles,
       285E lançou teucra flamma ás pôpas graias.
Pegada a grenha em sangue, a barba esquálida,
Crivam-no golpes cem, que junto aos muros
Paternos recebeu. Chorando eu mesmo
Parecia arguíl-o em mesto accento:
       290«Ó luz dardania, segurança e apoio!
Donde vens? que detença! Em tal estado
Só te avistámos, caro Heitor, agora
Que a cidade agoniza e os teus perecem?
Que acto indigno afeiou teu rosto ameno?
       295Que feridas sam essas?» Elle nada,
De vãs queixas não cura, e grave arranca
Fundo suspiro: «Hui! foge, o incendio medra,
Foge, filho da deusa: em prêa aos Danaos
Rue do fastigio Troia. Assás fizemos
       300Pelo rei, pela patria. Esta só dextra,
A haver defensa, defendera Pérgamo.
Seu culto Ilio te fia e seus penates:
Toma-os comtigo; o pelago discorram,
Té que lhes fundes majestoso alcaçar.»
       305Dice, e tirou dos penetraes as fitas
E a poderosa Vesta e o fogo eterno.
A cidade se afunde em grita e pranto;
E, indaque n’um retiro entre arvoredos
Meu pae habite, mais clarêa o estrondo,
       310Recresce mais e mais o horror das armas.

Sacudo o somno, ao pincaro da tôrre
Trepo, ouvidos apuro. Tal, se a queima
Soprando o bravo sul cahe na seara;
Tal, se grossa torrente despenhada
       315Arrasa o campo e as ledas sementeiras,
Prostra o lavor dos bois, aluídas selvas
Arrebatando; lá do saxeo cume
Pasma nescio o pastor que o ruído escuta.
Eil-a a fé grega manifesta, e nua
       320A traição: de Vulcano ao vivo impulso
A ampla casa a Deiphóbo já desaba;
Já proximo arde Ucalegon; ao largo
Nos fretos do Sigeu reluz a flamma:
Clangor de tubas e alaridos soam.
       325Das armas ferro, desatino, e em armas
Doudo onde vá não sei; mas na ancia fervo
De soccorrer com gente a fortaleza:
A ira me precipita; e quanto he bello
O morrer pelejando á mente occorre.
       330Eis Pantho escapo d’entre achivas lanças,
Pantho, filho de Otreu, de Phebo antiste,
Com sacro espólio, com vencidos numes,
Do alcaçar pela mão traz um netinho,
Fóra de si vem vindo á estancia minha.
       335«Ah! Pantho, que he da patria? onde o conflicto?
A que posto acudir?» E elle em soluços:
«O termo veio, o ineluctavel dia;
Já fomos, Troia foi-se e a gloria sua:
A Argos transferiu tudo o fero Jove;
       340Na cidade combusta a Grecia impera.
Assuberbando a praça, o monstro equino
Batalhões verte; e ufano atêa incendios
O insultante Sinon: da gran’ Mycenas
Quantos jamais vieram, se apinhoam
       345Nas bipatentes portas, e aos milhares

As gargantas e ruas pejam de armas:
O gume do aço agudo a ferir prestes
Nu lampeja: o combate apenas tentam
Das portas as primeiras sentinellas,
       350E em cego marte resistir se atrevem[2]
O Otriades me instiga e ethereo influxo:
Vôo, entre o ferro e o fogo, onde a sinistra
Erynnis por mim chama, onde o bramido,
Onde o clamor nos astros retroando.
       355Com Ripheu se me aggrega o extrenuo Iphito,
E em refôrço ao luar Dymas e Hypanis
Reconheço, e o Mygdonides Corebo;
Joven que, por Cassandra insano ardendo,
A Ilion pouco havia era chegado
       360Em auxílio do sogro e do seu povo:
Ai! que a presaga voz descreu da espôsa.
Ao vêr tam nobre audacia: «Ó peitos, brado,
Fortissimos em vão, se a todo o extremo
Vosso anhêlo he seguir-me, o torvo aspecto
       365Olhai das cousas. Deste imperio esteios,
Os deuses, desertando aras e templos,
Foram-se todos: á cidade accesa
Tarde accorreis: morramos, pelas armas
Rompamos. Salvação para os vencidos
       370Uma, esperarem salvação nenhuma.»
Isto os provoca e atiça. Quaes rapaces
Lobos que, cegos de faminta raiva,
Sahem por nevoa escura, ávidas crias
De guelas sêccas nos covis deixando;
       375De morrer certos, por dardos, por hostes,
Troia, abrindo caminho, atravessamos:
Circumvoa atra noite em ouca sombra.
Quem poderá contar o estrago horrendo,
Quem dessa noite as funebres tragedias,
       380Ou lagrimas terá que a pena igualem?

A soberana antiga das cidades
Baquêa; e de cadaveres sem conto
Ruas, casas, vestibulos sagrados
Se alastram. Nem só mana o teucro sangue;
       385Brio innato os vigora: a terra mordem
Os vencidos de involta e os vencedores:
Tudo he lucto e pavor, crueza he tudo;
Multiplica-se a morte em vária fórma.
Cópia a guiar de Acheus, primeiro Andrógeos,
       390Do seu bando nos crendo: «Avante, amigos,
Avante ó bravos; que molleza e inercia!
Outros saquêam Pergamo abrazada;
Vós de alterosas naus desceis agora?»
Dice, e a resposta ambigua o desengana;
       395Em laço hostil sentiu-se: estupefacto
Reprime o passo e a lingua. O viandante,
Que entre aspero sarçal em cobra occulta
Senta o pesado pé, trépido salta,
Foge ao reptil, que desenrola as iras
       400E incha o ceruleo collo: assim tremendo
Recúa Andrógeos. Pela ferrea mata
Arremettemos, e aos montões prostramos
Gente ignara do sítio e espavorida.
Deste ensaio e bafejo da fortuna
       405Animado Corebo, exulta e grita:
«Por onde, ó socios, fado amigo aponta,
Eia, sigamos. Os broquéis mudemos,
E insignias graias adaptemos. Vença
Manha ou valor, quem do inimigo o exige?
       410Elles armas nos dem.» Logo o de Andrógeos
Luzido escudo enfia, e o elmo enlaça
Comante, e ajusta ao lado argiva espada.
Ripheu, Dymas, o imita; os moços folgam;
Do recente despôjo armam-se todos.
       415Entre a caterva hostil, sem fausto nume,

Por cega noite prelios mil travamos;
Remettemos ao Orco infindos Gregos.
Uns ás praias fiéis e ás naus se acolhem;
Parte com torpe medo o bruto escalam,
       420E entram de novo o conhecido bôjo.
Ah! sem querer divino o que he seguro?
Do adyto de Minerva eis desgrenhada
Cassandra arrastam priameia virgem,
De balde ao céo levando ardentes olhos;
       425Olhos, que as tenras mãos lhe atavam cordas.
Não o soffreu Corebo, e em fogo e sanha
Perecedouro aos esquadrões se atira;
E após vamos forçando um bosque de armas.
Do summo templo os nossos, enganados
       430Pela armadura e argolicos pennachos,
Nos despedem chuveiros de arremessos,
E miserrima clade se origina.
N’um corpo os Danaos, retomada a virgem,
De ira a gemer, daqui dalli carregam;
       435Acerrimo insta Ajax e os dous Atridas,
E a hoste dolopeia. Assim contendem
Sôltos n’um turbilhão Zephyro e Nôto,
E o Euro ovante nos frisões da Aurora:
Zune a selva; Nereu braveja e espuma,
       440De tridente remexe o equoreo seio.
Quantos pela cidade afugentámos
Entre a nocturna treva, outravez surdem;
Por nosso estranho accento o embuste e as armas
Descobrem. Turba immensa nos esmaga:
       445Primeiro, ás mãos de Peneleu, Corebo
De bruços ante a deusa armipotente
Tomba, e succumbe o espelho dos Troianos,
O unico justo, equissimo Ripheu:
Divino alto juizo! O mortal trago
       450Bebe a golpes dos seus Dymas e Hypanis:

Nem singular piedade, nem te vale
Na quéda, ó Pantho, a infula de Apollo.
Dos meus última flamma e patrias cinzas,
Testemunhai que nunca em vosso occaso
       455Dardo ou risco evadi; que, a ser meu fado
Morrer então, meu braço o merecia.
Eu dalli me desprendo, e Iphito e Pelias,
Pesado e annoso Iphito, e Pelias tardo
De Ulysses vulnerado. Á estancia régia
       460Nos tira o ruído: a guerra se encruece,
Qual se, o restante em paz, lá só reinasse
Toda a matança e horror: o infrene Marte
Compelle os Danaos, que o palacio atacam
E a testudem cerrando as portas cercam.
       465Arduas escadas fixam nas paredes,
E junto aos postes nos degraus se estribam;
A sinistra no escudo apara os tiros,
Cimalha e capitéis a dextra aferra.
Os Dardanos de cima, as cumieiras
       470E as tôrres demolindo, com taes armas,
Vendo-se já no extremo, se defendem;
E aureas traves, de avós decoro e pompa,
Devolvem; densa intrepida cohorte
Dentro a fios de espada o ingresso embarga.
       475De soccorrer o paço o ardor nos toma,
De esforçar os vencidos e ajudal-os.
Atrás communicava os edificios
Postigo innóto e corredor escuso,
Por onde, ai della! aos sogros vir sohia,
       480Durante o reino, Andrómacha sózinha,
Seu Astianaz ao caro avô trazendo.
Lá monto ao cimo, e estavam pobres Teucros
Sem fructo a dardejar. Tôrre em declive
Pendente, ás nuvens sôbre o tecto alçada,
       485Troia estendida, a frota e arraial grego

Descortinava: em cêrco das junturas,
Onde as vigas do solho a enfraqueciam,
A investimos a ferro, e do alto assento
Destroncada impellimol-a. De chofre
       490O baque estronda: a ruína ao longe abafa
Turmas de Argivos; mas succedem outras:
Nem dardo ou pedra cessa, he tudo tiros.
Pyrrho á entrada no portico ufanêa,
Com aço e brilho aheneo relumbrando:
       495Tal, cevada em má grama, á luz a cobra,
Que prenhe o brumal frio a soterrava,
Nova a pelle, se empina, e môça e nedia,
Lúbrico dorso enrola, ardua o Sol mira,
Fulge e vibra a trisulca ardente lingua.
       500Com Periphas membrudo e a flor dos Scyrios,
Assalta o paço Automedonte o pagem,
Que os de Achilles picava ardegos brutos;
Lançam fachos ao cume. Á frente Pyrrho
A machadadas racha os umbraes duros,
       505E ereos portões descrava da couceira;
Traves descose, firmes robles fende,
E cava ampla abertura. O interno centro
Apparece, e atrios longos patentêa;
Apparecem de Priamo os retretes,
       510Mansões de priscos rêis; e um corpo em armas
Cobre o limiar. Invôlta a casa em prantos
Longo ecchoa; as abobadas ululam
Com femineo gemer, triste alarido,
Que aureas estrellas fere. Apavoradas
       515Andam mães pelas vastas galerias,
E osculos pregam nos portaes que abraçam.
Pyrrho, emulando o pae, no ataque insiste;
Nem ha barreira ou guardas que o sustenham.
Do crebro ariete abolada a porta,
       520Rue dos gonzos rendida. Á fôrça rompem;

No ádito em postas aos primeiros talham,
E tudo enchem de tropas e de estragos.
Bem menos, quando inchado o espumeo rio
Marachões quebra e vallos sobrepuja,
       525Agros furioso inunda, e na torrente
Roja armento e curraes de campo em campo.
Eu vi Pyrrho na brecha encarniçado
E os dous Atridas; Hecuba e as cem noras,
E o rei no altar vi mesmo com seu sangue
       530Maculando os que alli sagrara fogos.
Os thalamos cincoenta, em que esperava
Tantos netos, magnificas portadas
De ouro e espólio barbarico, arruínam:
Possue o Danao quanto poupa a chamma.
       535Talvez de Priamo o destino inquiras.
Troia em destroço, o paço contemplando
Derruído e hostilmente profanado,
De ociosa armadura o velho os hombros
Tremulos veste, inutil ferro á cinta,
       540Entre basto inimigo a morrer parte.
N’um pateo, exposto ao eixo nu celeste,
Louro antigo os penates obumbrava,
Sôbre ara ingente os ramos espalmando.
Qual da borrasca fugitivas pombas,
       545N’um grupo alli pousando, Hecuba e as filhas
Comsigo em vão seus divos apertavam.
Sob armas juvenis ao rei que assoma:
«Que dira insania! diz; misero espôso!
Onde em bellico apresto assim caminhas?
       550Tal defensa não basta e humano auxílio;
Nem que o meu proprio Heitor surgisse agora.
Vem nesta ara abrigar-te, ou vem comnosco
Morrer.» Nisto, ao longevo a mão pegando,
Em sagrada cadeira a par o assenta.
       555Fugindo á morte um filho seu, Polites,

Eis ferido, entre lanças, entre imigos,
Por atrios longos, porticos desertos,
Gyra: de golpe feito, o acossa, o apanha
Já já Pyrrho feroz, de um bote o aterra:
       560Ao tempo que ante os paes ia chegando
Baquêa, e dessangrado a vida exhala.
A sua o rei sentiu no extremo fio,
Mas reprimir não poude a voz e a ira:
«Pelo attentado, exclama, e audacia tanta,
       565Se ha no céo providencia e piedade,
Pague-te o céo com merecido premio,
A ti que o matas ás paternas barbas,
E estas cãs me funestas e enxovalhas!
Não, tal não se houve Achilles, meu contrario,
       570De quem te finges prole: ao supplicar-lhe
Enrubeceu, direito e fé guardou-me;
Sepultar permittiu-me Heitor exsangue,
Revêr meus reinos.» Dice, e arroja o velho
Dardo imbelle sem gume, que repulso
       575Pelo rouco metal, á superficie
Do embigo do broquel frustrado pende.
«Pois vai contal-o ao genitor Pelides;
Nuncio narrar te lembre estas baixezas,
E o quanto o degenero. He tempo, morre.»
       580Fallando Neoptolemo o arrasta ás aras
Tremebundo, e do filho em quente sangue
A resvalar: na esquerda a coma enleia;
Com a dextra saca a lamina fulgente,
No vasio lh’a embebe até aos copos.
       585De Priamo este o fado, assim finou-se
Troia arder vendo e Pergamo assolar-se:
Quem d’Asia em povos cem reinou suberbo
He cadaver; na praia o tronco informe
Jaz sem nome, e a cabeça decepada.
       590Pasmei de horror, confesso: o pae querido,

No equevo rei que derramava o alento
Pela crua estocada, eu me figuro;
Figuro ao desamparo o tenro Ascanio,
Creusa em pranto, os lares saqueados.
       595Olho atrás, e procuro os companheiros,
Todos lassos e em dôr me abandonaram,
Despenhando-se em terra ou sôbre as chammas.
Já só de amigos, ao clarão do incendio
Érro, e em tôrno espreitando a cada passo,
       600No santuario escondida e taciturna
A Tyndarida enxergo aos pés de Vesta:
Dos nossos pela quéda exasperados,
Dos seus medrosa, do offendido espôso,
Essa Erynnis commum de Grecia e Troia,
       605Execrada, entre as aras se acoutava.
A alma abrazou-se-me; iracundo anceio
Vingar na infame a patria agonizante.
«Que! soberana ir esta á sua Espartha?
Incolume, em triumpho, entrar Mycenas?
       610Vêr a casa, o marido, e os paes e os filhos?...
E ornem-lhe a pompa iliacas escravas!
E a ferro acabe o rei, queime-se Troia,
E suem teucro sangue as teucras praias!...
Não: se he nulla a victoria, se he desdouro
       615Punir de morte a feminil fraqueza,
Louvor seja extinguir este impio aborto;
Farto ao menos a sanha e ardente sêde,
Saciarei de prazer dos meus as cinzas.»
De furias transportado isto profiro,
       620Quando a meus olhos, como nunca, pura
A alma Venus, a noite alumiando,
Em divindade manifesta brilha,
Tal qual sohe aos celícolas mostrar-se;
E segurando em mim, com rosea bôca
       625Me atalha a genitriz: «Que mágoa, ó filho,

Que indomita paixão te desatina?
Que he dos nossos penhores? onde o idoso
Cansado pae largaste? onde o filhinho?
Vive ainda Creusa? Atroz caterva
       630Lhes voltêa em redor; sem meus desvelos
Já tragado os houvera ou gladio ou fogo.
Páris não culpes e a Lacena odiosa;
Dos deuses sim, dos deuses a inclemencia
He que abate e subverte a excelsa Troia.
       635Repara: a nuvem que ora os mortaes visos
Te embota humida e baça, eu vou tirar-t’a:
Sem temor obedece á voz materna.
Lá onde esparsas moles e arrancadas
Rochas e rochas vês, e undante fumo
       640E ennovelado pó, Neptuno a golpes
Do gran’tridente os muros e alisserces
Alue, e do orbe desarreiga Troia.
Sevissima e em furor, de aceiro e malha,
Convoca Juno, alli nas portas Scéas,
       645Das naus os batalhões. Já sôbre as tôrres,
Nota, sentada em lampejante nuvem,
Tritonia agita a Gorgona terrivel.
Jove mesmo acorçoa e esforça os Gregos,
Suscita os immortaes contra Dardania.
       650Foge, anda, filho meu, põe termo ás lidas.
Em salvo ao pae te guio, eu não me aparto.»
Dice, e na sombra involve-se. Apparecem
De infensos numes cataduras torvas:
Ilio esboroar em cinzas se me antolha,
       655Fundir-se toda a neptunina Troia.
Assim nos altos montes orno antigo,
Se extirpal-o a machado em crebro assalto
Lenhadores porfiam, nuta, ameaça,
Trémula a coma, sacudido o cume,
       660Té que aos poucos cerceado, alfim gemendo,

Cahe dos cabeços com ruidoso estrago.
Côo entre o ferro e o fogo, a par de Venus;
Recúa o fogo e se desvia o ferro.
Chego á patria morada, ao velho corro,
       665No Ida amparal-o mais que tudo anhélo;
Nega-se elle ao destêrro, a vida enjeita
Sem Troia: «Ó vós, nos clama, a quem robora
Viçoso inteiro sangue, afervorai-vos,
Parti. Se os deuses me quizessem vivo,
       670Conservavam-me agora o avito assento.
Sobra uma vez remanecido termos
Da captiva cidade após o excidio.
Dizei-me o adeus supremo, ah! despedi-vos
De um cadaver. A morte eu mesmo a apresso,
       675Ou dê-m’a compassivo e me despoje
Qualquer Danao: que importa a sepultura?
Pêso inutil, ha muito o céo me odeia,
Dês que o divino padre, o rei dos homens,
Assombrou-me e tocou-me com seu raio.»
       680Com tal dicurso, pertinaz resiste
Ás lagrimas de Ascanio e de Creusa,
Ás da familia inteira, que lhe instamos
Pae não ajude a sorte a aniquilar-nos:
Quedo á tenção se amarra. Eu tórno ás armas,
       685Meu desejo he morrer. Que mais conselho,
Que alternativa ha mais? «Oh! crime... e cuidas
Que eu possa arredar pé, que te abandone?
Tu blasfemas, senhor? Se he lei superna
Que d’Ilio nada fique, e os teus pretendes
       690Juntar comtigo á moribunda Troia,
A estrada franca tens: não tarda Pyrrho,
Que, o sangue regio gottejando, á face
Do pae degole o filho e o pae nas aras.
Que? de lanças, de incendios me resguardas,
       695Porque, ó madre, em meus lares o inimigo

Ante mim proprio immole a espôsa minha,
E um no sangue do outro Iulo e Anchises?
Armas, armas, varões: para os vencidos
Acena o último dia: ah! consenti-me
       700Que volte aos Danaos, que a peleja instaure:
Nem todos hoje inultos morreremos.»
De novo empunho a espada, embraço o escudo,
E no acto de sahir se me atravessa
Á soleira Creusa, os pés me abraça,
       705E o meu tenrinho Ascanio me apresenta:
«Vais perecer? a transe igual nos leva;
Se inda em pericia e esfôrço te confias,
O que primeiro cumpre he defender-nos.
A quem teu pae, a quem teu filho entregas,
       710E esta que nomeavas tua espôsa?»
Quando esturgia o tecto em ais desfeita,
Oh prodigio estupendo! estando Iulo
De afflictos paes entre osculos e abraços,
Um resplendor subtil, igneo turbante,
       715Lhe coroa a cabeça, e em molle tacto
Ás fontes se apascenta e lambe as comas
A innocua flamma. Trepidos de medo,
O flagrante cabello sacudimos,
Jorros d’agua a deitar no sacro lume.
       720Mas ledo o genitor na etherea côrte
Fita os olhos, e orando as palmas tende:
«Jupiter summo, se te abrandam preces,
Attende ao menos; se á piedade es grato,
Auxilia-nos, padre, o agouro assella.»
       725Com subito fragor, mal finda o velho,
Toa á esquerda, e nas sombras deslisando
Pelo céo alva estrella accende a cauda;
Vemol-a escorregar pelos telhados,
Na selva idéa, a esteira assinalando,
       730Sumir-se: longo sulco abre em centelhas,

Á larga odor sulfureo exhala e estende.
Meu pae rendido se ergue, invoca os deuses,
E adora o astro santo: «Ó patrios numes,
Presto vos sigo o acêno; impulso he vosso:
       735Protegei, resalvai-me o neto e a casa:
Troia está sob a vossa potestade.
Nem mais recuso, filho, eu vou comtigo.»
Nos muros claro então crepita o fogo,
De perto volve am ala e o esto esparge.
       740«Sus, meu pae, eu te ajudo, ás nossas costas
Sobe-te, ó caro, não me aggrava o pêso:
Em successo qualquer, teremos ambos
A mesma salvação, commum perigo.
Ladêe-me o filhinho, e atrás Creusa
       745Não se afaste de mim. Sentido, ó servos:
Ao sahir, n’um outeiro está de Ceres
Velho templo deserto, ao pé de antigo
Cypreste, com respeito religioso
Dos avós longamente conservado:
       750Por diverso caminho alli seremos.
Tu, padre, o que ha sagrado e os patrios divos
Toma: tinto em matança, impio he tocal-os,
Sem que eu me expurgue em vívida corrente.»
Nisto, o vestido pelos hombros dóbro,
       755Envergo de um leão a fulva pelle,
Curvo-me e o pae carrégo: o tenro Iulo
Trava-me a dextra, amiuda os curtos passos
Por alcançar os meus; não longe, a espôsa
Nos vai na trilha por opacos sitios:
       760E eu, que ha pouco arrostava hostes e dardos,
De um sôpro agora tremo, um som me espanta,
Pela companha e carga temeroso.
Propinquo ás portas, já me conto livre;
De repente um tropel ouvir cuidamos;
       765Na treva Anchises lobrigando: «Filho!

Grita; apressa-te, filho; eil-os: deviso
Broquéis ardentes, fulgurantes malhas.»
Não sei que nume infausto hallucinou-me:
Por dévia estranha róta extraviado,
       770Ai! misero perdi minha Creusa:
Se o fado m’a roubou, se errou a estrada,
Ou lassa recostou-se, he duvidoso:
Nunca mais a avistei. Inadvertido
Pela ausencia não dou, senão no outeiro,
       775Proximo ao templo já da prisca Ceres:
Ahi feita a resenha, ella só falta,
Mallogrando o marido e o filho e os socios.
Que homem, que deus não accusei demente?
Que houve de mais cruel no excidio horrivel?
       780N’um fundo valle escondo, e aos companheiros
Os divos encommendo e Ascanio e Anchises.
Corro á cidade em refulgentes armas,
Firme em revirar Troia e em novas luctas
Pôr a cabeça na arriscada empresa.
       785Lesto ás muralhas, ao limiar escuro
Da porta vólto que me deu passagem;
Retrocedendo[3], pela noite apalpo,
Os olhos canso em busca das pégadas:
Tudo aterra, o silencio o pavor dobra.
       790Talvez, talvez regressaria á casa;
E lá me envio: os Danaos a invadiram,
Dominavam-na toda: o voraz fogo,
Dos ventos irritado, os altos ganha,
Rolando em labareda os ares cresta.
       795Prosigo; á régia e á cidadella passo:
E já nos vacuos porticos, no asylo
De Juno, eleitos a velar na presa,
Se postam Fenix e o nefando Ulysses:
Os thesouros de Troia em montões vejo,
       800De accesos tectos, saqueados templos,

Vasos de ouro massiço, alfaias, mesas,
Vestes sacerdotaes: á roda em fila
Estam pavidas mães, tenros meninos.
Ousei bradar na treva, e mesto as ruas
       805Enchi de vozes; por demais gemendo,
Chamei, chamei e rechamei Creusa.
Furente as casas lustro, e saio e tórno,
Quando a sombra da espôsa, imagem triste,
Maior que d’antes se me avulta aos olhos.
       810Pasmo, hirta a coma, a voz se apega ás fauces.
Eil-a affavel me alenta e assim me acalma:
«Que vale a dôr sobeja, ó doce expôso?
Sem nume isto não he: levar Creusa
Te veda o fado, o regedor sublime
       815Do Olympo o não consente. Em longo exilio
Tens de arar vasto pégo até á Hesperia,
Onde entre pingues populosos campos
O lydio manso Tibre inclina a vêa.
Com saudades não chores da consorte:
       820Um reino alli te espera e uma princeza.
Nem eu, Dardanida e de Venus nora,
Irei servir as Téssalas altivas,
Nem dolopeias damas: cá me impede
A grande mãe Cybele. Adeus, Enéas;
       825Todo na prenda nossa o amor emprega.»
Nisto, o fallar me corta, e ás minhas lagrimas
Se furta, e se esvaece em tenues auras.
Tres vezes fui lançar ao collo os braços;
Tres presa em balde se desfez a imagem,
       830Igual ao vento leve ou somno alado.
Os socios, gasta a noite, emfim revisto;
Dos que acho novos a affluencia admiro:
Velhos e moços, donas e donzellas,
Vulgo infeliz, concorrem para o exilio
       835Com quanto salvam, pressurosos querem

Peregrinar comigo o mar e a terra.
A Alva, dos cimos do Ida resurgindo,
Já traz o dia, e occupa o Grego as portas;
Nem ha mais de esperança um só vislumbre.
       840Cedo, e aos hombros meu pae, subo a montanha.



NotasEditar

  1. desaggavo no texto original; erro tipográfico corrigido na segunda edição.
  2. atravem no texto original; erro tipográfico corrigido na segunda edição.
  3. retrocendo no texto original; erro tipográfico corrigido na segunda edição.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Notas ao Livro II


     

Este livro por Macrobio foi tachado de furto a certo Pisandro, autor desconhecido, e que o não seria se houvesse composto uma narração, que nem em Homero se encontra igual. «Macrobio, reflecte Mr. Villenave, aqui se assemelha ao jesuita Hardouin, que, em suas estranhas opiniões ácêrca das obras de Horacio e de Virgilio, as quaes attribuíra a monges da meia idade, dizia, para justificar tam incriveis asserções: «Credes vós que eu me levanto todas as manhãs ás tres horas para nada dizer de novo?»

15. — 17. — «Contentemo-nos, diz o mesmo autor, de admirar a arte com que Virgilio, abandonando a verosimilhança historica, quiz estabelecer a verosimilhança poetica, bastante para a epopéa, por todos os meios a seu alcance. Faz intervir: 1º a religião: o cavallo de madeira era um voto; 2º os prodigios: Laocoon expira miseravelmente com seus dous filhos, entre as constricções das duas serpes vindas de Tenedos; 3º os artificiosos discursos do perfido Sinon; 4º o destino, que fascina o espirito e olhos dos Troianos.» Esta tradição, anterior a Homero, tem sido variamente interpretada: veja-se La Rue, ou antes M. Villenave, cuja crítica resume e ajuiza as opiniões excellentemente.

53. — 58. — Insonuere cavae gemitumque dedere cavernae he bello pela harmonia imitativa; ha comtudo um vicioso pleonasmo, que o ouvido não sente no latim, mas seria insupportavel no portuguez. Se cavae cavernae vertessemos cavas cavernas, a approximação do nome e do adjectivo faria perceber que caverna já he um lugar concavo, e sobresahiria o vício do pleonasmo.

57-58. — 63-64. — Com outros criticos, diz Mr. Villenave: «Depois de um cêrco de dez annos, havia ainda pastores no campo de Troia? Tam arruínado estava, que Ulysses e Palamedes eram obrigados a ir á Thracia buscar víveres para o exercito grego.» Por mais estragado que estivesse o campo troiano, não era a ponto de faltarem víveres aos cercados; o que suppõe a existencia de pastores e lavradores, ao menos por onde ainda não tivesse abrangido o assedio. Se já não houvesse nas vizinhanças da cidade seis ou oito camponios, número mais que sufficiente para prender Sinon, ella então se teria rendido pela fome: ao contrário, com tantos recursos estava, que, desesperando os Gregos da efficacia do cêrco, recorreram a um estratagema e a uma traição. Quanto a irem Ulysses e Palamedes buscar víveres á Thracia, o facto não suppõe necessariamente a carencia de pastores: he natural que os mantimentos que houvesse, fossem passados á cidade, pelos meios occultos que os filhos de um paiz conhecem: os Gregos, não os tendo em assás quantidade, iam procural-os mais longe.

195-196. — 199. — «La crédulité des Troyens, discorre Mr. Tissot, est une invraisemblance sans excuses. On la pardonne à peine dans Virgile, malgré les savants efforts que le poëte a faits pour la justifier, en la rendant vraisemblable par l'éloquence de Sinon et par le mouvement qu'elle excite.» Não alcanço a razão da censura, quando o censor confessa que l'accent du coeur est imité avec une vérité qui fait frémir, que il y a tout un traité d'éloquence dans le discours de Sinon, e que jamais on ne vit un tel triomphe de l'art de persuader en trompant. Mr. Tissot, que tem vivído em tempos difficeis, deve ter observado como se deixa a multidão levar de discursos os mais illogicos e futeis; porque pois estranha que este, no qual se contêm um tratado de eloquencia, fizesse tamanho effeito nos Troianos, sendo poderosamente ajudado pelo prodigio das duas serpentes? A morte de Laocoon, o irem-se as taes serpentes recolher sob a egide mesma de Pallas, como se foram executoras da vingança da deusa, junto á fôrça do discurso onde havia un tel triomphe de l'art de persuader en trompant, devera produzir na chusma a impressão que produziu. Capys queria examinar o cavallo e deital-o ao mar; porêm em taes casos mais vence a superstição que o bom conselho. Estou com Delille, o qual pensa: «Qu'il est plus aisé de tromper une nombreuse foule qu'un seul homme d'un sens droit: Sinon n'eût pas trompé un agent de police, mais la populace aurait été sa dupe.» E accrescente-se que naqueles tempos talvez se deixasse illudir a mesma polícia; poisque esta insigne arte não tinha chegado ao apuro a que, em França principalmente, se acha elevada.

198. — 201. — Mr. Jal, que demonstra[1] a precisão com que Virgilio usa dos termos maritimos, quer que onde o autor diz puppis o traductor diga pôpa e não nau, e que haja o mesmo cuidado com as palavras prora, carina, com os nomes dos differentes ventos; poisque o poeta emprega sempre as vozes proprias, e quando se serve do figurado, por synedoche, he porque a parte mencionada he a principal na acção. Depois do estudo que fiz da materia, conclui que um traductor da Eneida deve recorrer á obra deste sabio para não se enganar ao verter o que diz respeito á marinha. Ora, Mr. Jal opina que o termo carina nem mesmo se pode tomar pela quilha, mas infallivelmente pelo casco ou buco do navio. Que se não tome carina por nau, vou de accôrdo, e tambem que se não tome por quilha, para exprimir a qual tem os Latinos a phrase trabs ima; postoque neste segundo sentido pareça mais admissivel o emprêgo de carina, como se vê no verso de Lucano: Nubila tanguntur velis, et terra carina. Não dissimúlo que neste exemplo pode-se tomar carina por casco do navio; mas parece que Lucano a tomou aqui por quilha, porque esta pode tocar de leve no fundo sem se quebrar a embarcação; a qual se quebraria no caso do casco tocar na terra, vistoque então a quilha teria penetrado mais profundamente. Aqui traduzi mille carinae por quilhas mil, não tanto pelo que fica dito, quanto por uma razão peculiar da lingua portugueza, que passo a expôr. Para exprimir o carina em latim, em francez carène, temos casco ou buco; mas buco toma-se mais vezes pelo bôjo do navio do que[2] pelo casco por fóra, e casco tem o inconveniente de significar mui diversas cousas: casco he o capacete, casco he qualquer vaso de tanoa, casco he o craneo, casco he a concha de certos animaes, casco he a casa sem móveis; toma-se figuradamente por juizo ou siso, e ainda em outras accepções. Para se conhecer logo se he tomado por carene, he preciso que os antecedentes aclarem o sentido, ou, do contrário, cumpre dizer casco do navio, a fim de se tirar a ambiguidade. Todo homem de gôsto vê que seria pessima a traducção de mille carinae por mil cascos de navios; a longura da phrase esfriaria tudo; e mil cascos podia significar mil capacetes. Os nossos escritores, tanto em prosa como em verso, para evitarem ou a longura ou a ambiguidade, adoptam muitas vezes o termo quilha, não só no sentido proprio de trabs ima, porêm igualmente no mais extenso de casco; e, quando querem fallar da quilha sem as obras do costado, chamam-na quilha limpa.

224-225. — 229-230. — Segundo o autor dos[3] Études sur Virgile, vem esta comparação interrompre un moment le plaisir douloureux d'une terreur si profonde, et nous désabuser en nous montrant le poëte si bien caché jusqu'alors. Esta crítica parece bem fundada. Com Delille porêm deve-se admirar a ousadia da expressão excussit securim e a escolha do epitheto incertam. Por esta occasião tocarei na vantagem do estilo conciso: quem, não deixando escapar conjunção, o traduzisse em muitos versos, desfeiaria este lugar; tanto melhor o faria, quanto mais se resumisse. No poeta a comparação he tam rapida, que pouco empece o prazer daquella scena de terror.

255. — 261 — Por tacitae silentia Lunae entendo que o céo estava escuro, como se descreve quatro versos atrás. Futil he a objecção de Binet, que os Gregos haviam mister ser esclarecidos, não conhecendo a bússola, e sendo de temer os escolhos junto da praia: 1º porque só a falta de luar, não havendo cerração, nunca produz escuridade que impeça o navegar, mormente em paragem conhecida (litora nota petens); 2º porque he natural que o astuto Ulysses calculasse com uma noite escura para de Tenedos fazer partir a armada. Quando porêm digo escura, não se entenda de uma treva absoluta. Estavam bem aviados os navegantes se nos portos só podessem entrar ao clarão da Lua. A objecção de que Enéas não tardou a reconhecer os companheiros oblati per Lunam, he especiosa: os Gregos sim partiram de Tenedos pelo escuro, e assim abordaram; mas entre a sua chegada e a sahida de Enéas metteram-se algumas horas, poisque jà os da frota haviam feito junção com os do cavallo, tinham tomado todas as portas, occupado todas as ruas, incendiado varias casas; e Pantho, que de tudo fôra testemunha ocular, já tinha tido tempo de salvar os deuses e alfaias sagradas, e de vir á casa de Enéas em um retiro assás longe da cidade, onde apenas se ouvia o ruído dos combates. Nada implica pois que a Lua, não tendo apparecido no princípio, estivesse fóra ao tempo que Enéas reconheceu os companheiros. Do meu voto foram Annibal Caro e infinitos outros. O poeta rejeitou a dubia tradição de que Troia foi tomada em uma noite de plenilunio; adoptou aquillo que mais lhe convinha.

264. — 273. — Observa Delille que a enumeração dos guerreiros que sahem do cavallo se termina ingenhosamente pelo nome de quem o fabricou: et ipse doli fabricator Epeus. Neste caso convem empregar um verso agudo; o que demonstra o nimio rigor do preceito, que tirámos de alguns Italianos, de proscrever-se o uso do esdruxulo e do agudo. Os melhores poetas não tem á risca seguido essa regra; e taes versos, quando bem empregados, tem uma graça particular.

283. — 297. — Por não ser arguído de amar antigualhas, deixei de pôr fuge em vez de foge, á maneira de Camões. Neste passo faria mais effeito o som surdo da letra u. Virgilio mesmo nos fornece exemplos do uso dos termos antiquados em certas occasiões.

311-313. — 322-324. — Conservei a figura, tomando Ucalegon pela casa de Ucalegon. — Diz-se que então não havia trombetas, e que Virgilio segue a anticipação dos tragicos gregos; asserção ao menos duvidosa.

333-340. — 355. — Vou com Heyne, que lê maximus armis; pois, não obstante ser Iphito já velho, podia ser estremado nas armas; mas, se fôsse maximus annis, isto he de uma grandissima velhice, não podia vir em auxilio de Enéas. O jam gravior aevo do vers. 435-436, mostra menor idade do que maximus annis, dadoque o poeta se tivesse aqui servido desta expressão. 354. — 369-370. — Difficillimo tem parecido este lugar, por fugirem de o verter ao pé da letra: Mr. Villenave, que o fez, não deixa nada que desejar. Attente-se na vantagem que a nossa aqui leva á lingua franceza: Una salus victis, nullam sperare salutem, traduziu elle: Le seul salut pour les vaincus est de n'attendre aucun salut; eu pude dizer: Salvação para os vencidos uma, esperarem salvação nenhuma. A falta do verbo, que he de uma belleza no original, admite-se em portuguez, não em francez.

355-360. — 371-377. — Mr. Tissot reprova esta comparação, porque les loups furieux, affamés, perfides et cruels, sont les Grecs; mais je ne vois, diz elle, dans les Troyens que des héros qui veulent mourrir pour leur patrie en cendres. Aqui Virgilio, como em um lugar semelhante Homero, não compara os Troianos com os lobos em todas as suas más qualidades; compara sim a furia dos Troianos, quando entre armas e inimigos atravessam a cidade, com a raiva dos lobos que, já famintos, deixaram nos covis os cachorrinhos de guelas sêccas de fome: a comparação pois he com o furor e não com a perfidia e crueza destes animaes. — Os perluxos modernos só adoptaram o verso da sexta, ou da quarta e oitava longas; rejeitam o da terceira e oitava, ou da quarta e setima: o contrário praticaram Dante, Ariosto, Petrarca, Tasso, Alfieri, Camões, Sá de Miranda, Ferreira, Côrte-Real, Gabriel Pereira, Francisco Manuel e outros. Em geral, he mais doce o verso com o accento na sexta, ou na quarta e oitava, mas não devemos rejeitar o de qualquer outra medida, não só por variar, como principalmente para ás vezes pintar melhor a cousa. O verso da traducção De morrer certos, por dardos, por hostes, representa o per tela, per hostes, do original; e a rapidez com que marcha, pinta a rapidez e o afôgo dos que Enéas commandava. Antonio Deniz, em seus bellos dithyrambos, querendo pintar os saltos e a alegria, serve-se frequentemente deste metro. Estendo-me sobre a materia, por vêr que os poetas de hoje, á excepção de bem poucos, tem desconhecido a vantagem de variar a medida do nosso hendecasyllabo. — No 360 do original falla-se da atra sombra que circumvoa, apezar de que já tenha sahido a Lua: ora, como os soldados de Enéas cominhavam pelas diversas ruas da cidade, tortuosas e em differentes direcções, naturalmente a luz da Lua ia apparecendo e desapparecendo, segundo as vóltas das mesmas ruas; o que muito bem exprime o circumvolat, que aportuguezei.

381. — 399. — Na opinião de Delille, conforme com o bom gôsto, a palavra attolentem parece despregar a serpente em toda a sua longura: o desenrola as iras produz o mesmo effeito, e ha talvez mais arrôjo na expressão. Mr. Nisard, fallando do purissimo Phedro, contra quem em suas arriscadas conjecturas se mostra não pouco injusto, o exila e quasi o colloca nos tempos da decadencia das letras romanas! dizendo que a isso o condemna par un emploi affecté et continuel de l'abstrait pour te concret, ce qui donne à sa poésie un faux air de prose, et change sa gravité en froideur: e, entre os exemplos que aponta para fundamentar a sua asserção, cita o coli longitudinem do li. I, fab. 16. Estou com Mr. Nisard na convicção de que he vicioso o continuado emprêgo do abstrato pelo concreto; mas, longe de pensar que empresta á poesia um falso ar de prosa, penso que he na poesia que mais vezes pode isso ter lugar, pois nella de certo melhor assentam as figuras. O exemplo do coli longitudinem foi mal escolhido: até hoje tem os criticos louvado esta expressão, porque longitudinem em que termina o verso, compondo-se de cinco syllabas, representa o comprimento do pescoço; e assim tem a mesma graça do attolentem iras de Virgilio, do dilatadissimos caminhos de Basilio da Gama, prodigalidade de moedas de Ferreira. Os Francezes tem sempre na mente o seu La Fontaine quando fallam de Esopo e de Phedro, e no gabar a excellencia do poeta nacional, como que dam pouca importancia aos innumeraveis emprestimos do fabulista moderno; e elles, que na comparação de Virgilio com Homero avaliam em muito menos o estilo que a invenção, na comparação de La Fontaine com os dous como que fazem mais caso do estilo. Se La Fontaine dos mesmos assumptos ás vezes tirou mais partido, não o deveu somente ao seu innegavel ingenho, mas tambem ao saber e á experiencia que tantos seculos amontoaram. Tornando á questão, o coli longitudinem, alêm da graça referida, encerra maior emphase do que pescoço longo; assim como na vulgar e chula expressão franceza pied-de-nez ha mais energia, do que se se dicesse nez d'un pied. A crítica de Mr. Nisard melhor assenta em alguns escritores da sua nação, e em não poucos Brazileiros e Portuguezes que, os imitando, não dizem mais um homem notavel, um homem illustre, e sim uma notabilidade, uma illustração.

403-406. — 422-425. — Note-se com que bom gôsto, imitando este lugar, muda Camões o epitheto ardentia: Virgilio chama ardentes os olhos da prophetiza Cassandra, a quem traziam arrastada; Camões chama piedosos os olhos de Ignez, que em lagrimas buscava commover a D. Affonso.

428. — 449. — Alguns interpretam dis aliter visum como um princípio de impiedade, havendo o poeta quatro versos atrás affirmado que nada ha seguro sem a vontade divina: Heu! nihil invitis fas quemquam fidere divis. Muitos, entre outros Chateaubriand, diceram com mais acêrto que Virgilio adivinhara o estilo christão; do que nestas palavras enxergo uma prova. Quantas vezes os christãos, ao referirmos qualquer infortunio acontecido a um homem virtuoso, exclamamos: altos juizos de Deus! Com isto não queremos significar que Deus foi injusto, mas tam somente que ignoramos as secretas causas dos seus decretos. Virgilio acatava a religião patria, bem que as lições mormente de Platão lhe tivessem despertado mais amplas idéas da divindade: em vez de se ir tornando impio, era o seu intento empregar tres annos em corregir as imperfeições da Eneida, para dar o resto da vida á meditação da philosophia platonica; paixão dominante em seus ultimos dias. Tratei pois de o traduzir neste sentido, como o fez João Franco.

460. — 483. — Sôbre a posição desta tôrre consultem-se as curiosas reflexões de Delille. Nella, segundo Mr. Villenave, he que Homero (Iliad., liv. III) mostra a Priamo, sentado com os anciãos de Troia, a perguntar a Helena os nomes dos capitães que destinguia no acampamento grego.

471. — 495. — Em duas comparações deste livro entra uma cobra; o que não he defeito, vistoque offerece cada comparação uma differente imagem. Na segunda a justeza he perfeitissima, e, como diz Binet, não contêm palavra inutil e applica-se inteiramente a Pyrrho: o joven heroe he tomado por seu pae Achilles resuscitado, levantando-se do túmulo com todo o valor a par de todo o brilho da juventude.

492. — 519. — «A difficuldade de traduzir Virgilio nasce muitas vezes de que elle nada observa a gradação necessaria á narrativa. Mostrou já o poeta a Pyrrho, de machado na mão, arrancando as portas dos seus gonzos: potesque a cardine vellit aeratos; e ao depois he o ariete que insiste em batel-as e as torna a arrancar dos mesmos gonzos: labat ariete crebro janua et emoti procumbunt cardine postes. Pyrrho pois só tinha abalado as portas, e assim he que se deve entender ou ao menos verter o verbo vellit. Ora, Mr. Mollevault, depois de dizer que Pyrrho arranca as portas dos seus gonzos de bronze, accrescenta que os redobrados esforços abalam as portas. Que! já tendo sido arrancadas, nem abaladas estavam! Assim, eis as portas arrancadas duas vezes, primeiro pelo machado de Pyrrho, e ao depois a golpes de ariete.» — Em cada palavra destas reflexões de Mr. Villenave ha um êrro. O palacio de Priamo tinha um vestibulo fechado, que offerecia uma primeira entrada, onde Pyrrho se postou: Vestibulum ante ipsum primoque in limine Pyrrhus; esta primeira porta he que elle fendeu a machado, arrancando-a dos seus gonzos. Feita a brecha, appareceu o palacio interno e longos pateos se manifestaram: Apparet domus intus et atria longa patescunt. Ainda mais dentro (domus interior) ouviam-se prantos e gemidos. Pyrrho continúa (instat vi patria Pyrrhus); não ha barreiras que o sustenham; com o vaivem faz abalar a porta principal do palacio interno, e desmantela os portaes. Basta lêr com um pouco de cuidado para conhecer-se o descuido imperdoavel do crítico: o portão do vestibulo não he o mesmo que a porta principal (janua) da morada régia, onde se achava uma guarda. — A difficuldade de traduzir Virgilio não vem muitas vezes de que elle nada observa a gradação necessaria á narrativa: nasce da ousadia das suas imagens, da ignorancia de grande parte dos usos antigos, da perfeição do seu estilo; nasce da indole diversa de cada lingua, pois o que vai bem n'uma nem sempre cahe tam bem em outra; nasce emfim de nós mesmos, que não temos tanto talento para o verter quanto houve o poeta para compôr. Não ha escritor nenhum, em verso ou em prosa, entre os antigos e os modernos, que observe melhor a gradação necessaria á narrativa, e he rarissimo o lugar onde por uma tal falta o devamos reprehender: as mais das vezes[4] he de proposito que elle parece faltar a essa gradação; do que tirarei um exemplo deste mesmo livro II. Quando Enéas vê dispostos os amigos a atacar os Gregos apezar do número, faz uma[5] falla breve, nunca excedida por algum orador ou chefe militar, e assim a termina: «Succurritis urbi Incensae: moriamur, et in media arma ruamus; Una salus victis, nullam sperare salutem.» Ora, quem morre não pode romper os inimigos; parece que a ordem das idéas pedia: «In media arma ruamus, et moriamur.» O heroe porêm, a quem se apresenta a morte como infallivel, não recúa diante do seu aspecto, e diz: «Morramos embora, mas ataquemos o inimigo.» Esta como desordem na gradação mostra a rapida successão das idéas que elle comparava e combinava. Enfiai aqui as palavras como no padre nosso; a energia e a graça desapparecem. O jesuita Antonio Vieira, fallando do guerreiro não recompensado, diz: morra e vingue-se; nada ha mais forte. Se dicera: vingue-se e morra, perdia toda a fôrça; alêm de já ser outro o pensamento.

506-553. — 535-584. — Accusam Enéas de ter visto a morte do rei sem o soccorrer. Quando Enéas sahiu do seu retiro, já da cidade os Gregos se tinham apoderado e a andavam saqueando; muitas pelejas teve de sustentar antes de chegar ao palacio de Priamo, e o achou todo cercado, só havendo por detrás uma pequena porta esquecida pelo inimigo; e, entrando por alli, perdidos os socios Corebo, Ripheu, Hypanis, Dymas, Pantho, e ficando com o velho Iphito e com Pelias já ferido, não podendo só com estes oppôr-se á multidão commandada pelos mais bravos chefes gregos, subiu á tôrre principal para de lá observar o inimigo e tomar conselho das circumstancias. Da tôrre alguns lançavam dardos inutilmente; Enéas, que os anima, faz desabar parte della sôbre os esquadrões que se succediam, e conseguiu matar e ferir uma immensa quantidade. Sendo a tôrre o ponto mais alto, viu della a fugida de Priamo com a familia, para um grande claustro onde havia um altar, ao momento em que Pyrrho invadia todo o palacio. Este corre atrás de Polites, mata-o na presença do rei seu pae; o rei brada e reprehende o matador, que irado immola o triste velho. Tudo isto succede rapidamente; e Enéas não podia soccorrer a Priamo, porque, alêm de não ter por onde se communicar e chegar ao tal claustro, estava sózinho, vistoque os seus poucos soldados em desespêro se haviam precipitado nas chammas, dando comsigo em terra. Digam-me os criticos se era cordato ir Enéas sem um soldado disputar o corpo de Priamo (pois não chegava a tempo de o livrar da morte) a Pyrrho, Diomedes, Ulysses, Agamemnon, Menelao, Ajax e a tantos outros? Fôra um sacrifico louco, improprio do seu valor prudente e reflectido. Virgilio, que celebra o pio Enéas e não Orlando furioso, faz a morte do rei excitar no heroe o dever de ir salvar a familia. Este sentimento he inspirado pela natureza e pela razão; e deixar de valer a pessoas tam queridas, que estavam com vida, para correr após um cadaver, seria um bom lance de novella, mas não uma acção judiciosa: o dever exigia do marido soccorrer a mulher, do filho soccorrer o pae, e do pae soccorrer a seu filho; e a piedosa ternura de Enéas para com Anchises he um distinctivo do heroe. Mr. Tissot, partindo de uma hypothese falsa, sem custo espraiou-se contra Virgilio.

567-587. — 600-618. — Argúem Enéas de baixeza por ter querido matar uma mulher. Se Enéas succumbisse á tentação, indigno fôra; como tornou em si, não ha tal baixeza. Era natural que Enéas, vindo cheio de mágoa e furor por ter visto a morte de Priamo sem lhe poder valer, se exasperasse ao encontrar-se com a causa de tantos males; e, se o desejo de a immolar mostra que era sujeito á ira, o não ter a ella fraqueado mostra que sabia vencer-se. Elle mesmo antecipadamente se accusa, dizendo: namque etsi nullum memorabile nomen feminea in poena est, nec habet victoria laudem; mas a raiva lhe fazia accrescentar: extinxisse nefas tamen, et sumpsisse merentis laudabor poenas. Estas palavras manifestam os sentimentos que luctavam em sua alma, onde os mais generosos finalmente prevaleceram. Crem esses criticos por ventura que o heroe he um ser perfeito, incapaz de conceber um mao pensamento? A ingenuidade com que Enéas conta a sua fraqueza, a que não cedeu, alguma cousa tem de nobre em si mesma. — Vamos agora a outra censura, nascida da combinação deste lugar com outro do livro VI. Mr. Villenave repete o reparo antigo, de que Enéas não podia encontrar a Helena, porque, no liv. VI, conta a Enéas Deiphobo que Helena, de quem era o terceiro marido, havia de Menelao obtido o seu perdão, entregando-lhe Troia, o palacio e a cabeça do filho de Priamo. Ora Deiphobo diz alli: «Põe-me a guapa consorte as armas fóra, E até da cabeceira a fida espada; A Menelao acena e as portas abre; Julgando assim mimosear o amante, E o labéo extinguir da antiga offensa.» Nesta passagem nem em outra alguma dice o poeta que Helena obtivera immediato perdão, sim que abrira as portas e atraiçoara a Deiphobo com esse intuito. Segue Virgilio a opinião de que ella, apezar do seu novo crime, nada alcançou nequelle momento, e ficou sendo, segundo o verso 573 deste livro, Trojae et patriae communis Erinnys, occultando-se com medo igual dos Troianos e dos Gregos; pois acontece bem vezes ficarem os traidores em desprêzo e odio daquelles a quem servem. O padre La Rue, citando o parecer de Nascimbeno, mostra que frustrou-se a Helena a esperança de applacar a Menelao, e que a perfidia não a livrou de ser perseguida, a ponto de se refugiar no templo de Vesta, sahindo pela mesma portinha por onde Enéas subira á tôrre: em prova do que, allega a Euripides, o qual affirma que Helena foi levada por Menelao entre as captivas, para abandonal-a á vingança daquelles cujos filhos tinham acabado na guerra troiana. Adoptada a opinião de Euripides, autor a quem Virgilio segue não poucas vezes, conciliam-se os dous lugares: obriga a sã hermeneutica a tambem abraçarmos o que ao poeta salva de uma contradicção. Nem obste o posterior apparecimento de Helena no palacio de Menelao, como se lê na Odysséa, liv. VI, vers. 121 e seguintes: Menelao, que em Troia a quiz abandonar á vingança dos Gregos, ao depois tornou-se ás boas e lhe perdoou, induzido por Venus, protectora da formosa culpada.

593. — 624. — Neste passo he lindissimo o verso de João Franco: «Dividindo o coral da breve bôca.» Mas, bello em si mesmo, não passa ao portuguez todo o sentido: roseo ore não se applica somente á côr dos labios, mas tambem ao cheiro que exhalavam as bôcas das deusas; o que falta na versão.

711. — 745. — Longe servet vestigia, tem dado aso a mil desparates, por se não ter querido tomar longe na significação de muito, que trazem todos os diccionarios, não exceptuando o pequeno annexo ao livro de Viris illustribus urbis Romae, por onde os meninos aqui em França começam a aprender o latim. Dos traductores, uns supprimem o adverbio, outros, toda a passagem, como se fôsse uma tolice do autor. Desfontaines diz que Enéas queria ir de pressa, e fôra difficil a Creusa o acompanhal-o. O padre Catrou, a quem outros se encostam, louva o meio artificioso com que Virgilio se descarta de Creusa, a qual não estaria bem em companhia de Dido, e embaraçaria o casamento com Lavinia. E eis-aqui estes meus senhores emprestando ao autor da Eneida e das Georgicas o êrro mais palmar que he possivel! Fazem que Enéas diga de proposito á mulher que o siga de longe, a fim de que se perca no caminho; e o heroe piedoso, que em busca da consorte se expoz sózinho a todos os perigos, he representado como um traidor por tantos criticos e traductores! M. Villenave, depois de ter notado os despropositos alheios, toma tambem longe por distante, e disso está tam encasquetado, que no seu prologo cita o longo servet vestigia no sentido absurdo que adoptou. Longe aqui significa muito, e serve para reforçar o servet; quer dizer a espôsa guarde muito os meus vestigios, faça tudo para não se afastar de mim. Neste sentido optimamente o verteu Delille: «Et qu'observant mes pas, mon épouse me suive et ne me quitte pas.» O que fez Enéas foi o mais razoavel: poz ás costas o velho e paralytico pae; guia o filho pela mão, ajudando os seus curtos passos; e á mulher, que era môça e robusta, recommenda que o siga e não o perca de vista. Anchises ouve um rumor, exclama: Nate, fuge, nate; propinquant; e Enéas, apressando-se para salvar tam caros objectos, não deu pela falta de Creusa. Este desapparecimento, ordenado pela propria mãe dos deuses, como se colhe do verso 785-787, he na verdade um ingenhoso artificio do poeta: não sendo compativel a existencia de Creusa com os futuros interêsses dos Troianos, elle imagina uma apotheose, e colloca a filha de Priamo sob a immediata protecção de Cybele. Mas reflicta-se que Enéas em nada tem parte, e fôra um êrro imperdoavel fazel-o intervir no desapparecimento da mulher, ainda sendo para endeusal-a. — Na lingua portugueza, não só adoptámos longe na significação de muito, como tambem o ajuntamos aos verbos para os reforçar; o que se lê no Affonso Africano de Vasco Mausinho, exemplo citado por Moraes e repetido por Constancio: «Mas meu conselho a todos longe excede.» Ora, tendo o adverbio longe um sentido que o absolve e outro que condemna o poeta, he da mais ordinaria hermeneutica abraçar o que o justifica. Note-se igualmente, mais adiante, o Pone subit conjux, que La Rue interpreta: «Uxor juxta sequitur.» Os criticos, no furor de censurar, não repararam nestas palavras, que tiram toda e qualquer dúvida.

740. — 773. — Alguns, facillimos em achar contradicções, dizem que nec post oculis est reddita nostris deve ser vertido, como o fez Delille, o céo não m'a restituiu jamais, e não eu nunca mais a avistei, ou nunca mais appareceu a meus olhos; e isto com o fundamento de que o poeta mais abaixo a faz apparecer aos olhos de Enéas. Não reflectiram esses criticos, e Mr. Villenave com elles, que a propria pessoa he cousa diversa do simulacro ou da sombra: Creusa em pessoa nunca mais se apresentou ao marido; mas apresentou-se lhe Infelix simulacrum atque umbra et nota major imago. Esta distincção he conforme á crença dos antigos: veja-se a nota de La Rue ao verso 385 do liv. IV, e ao verso 748 do liv. VI.

772-794. — 808-830. — Mr. Villenave, subscrevendo a pedagogica declaração de M. Tissot, opina com este que A son froid silence, on ne reconnaît pas l'époux désespéré qui vient d'affronter de nouveaux dangers pour retrouver Creuse. Les mouvements d'une passion ardente ne tombent pas ainsi tout à coup, le coeur ne fait pas si promptemente de cruels sacrifices.... L'exemple d'Homère, mais surtout la nature, devait préserver Virgile d'une faute qui malheureusement reviendra plus d'une fois dans le poëme. Examinemos. Procura Enéas a Creusa por toda parte; não a encontra, mas apparece-lhe a sombra della de uma grandeza pasmosa: Mr. Tissot, que não acredita em almas do outro mundo, não se arripiou ao lêr; mas Enéas, acreditando naquella visão, ficou mudo e com o cabello erriçado. Immediatamente a sombra conta-lhe a protecção que recebe da mãe dos deuses e o seu estado de bemaventurança, com o mais que se contêm no seu discurso. E o que faz Enéas? Ainda sob a impressão do extraordinario e milagroso apparecimento, quer fallar e não pode, mas verte lagrimas; vai abraçar tres vezes o simulacro, tres vezes este se lhe escapa, e a final se esvaece em auras subtis. A esta admiravel passagem he que Mr. Tissot argúe de fria! Não sabe que em uma dôr grande a voz falta muitas vezes e he supprida pelas lagrimas? Que devia fazer Enéas? soltar a lingua e desenrolar uma lamuria de legua, á maneira dos amantes das novellas? Se o fizesse, não seria aqui Virgilio o grande conhecedor do coração humano. Mr. Tissot não deu pêso ao extraordinario da visão, ao lacrimantem do original, nem viu que as palavras de Creusa e a honra da sua apotheose haviam de produzir uma certa consolação no espirito religioso de Enéas. Quanto ás faltas que desgraçadamente apparecem no poema, sem dúvida o nosso homem as commette, apezar da sua superioridade; mas a maxima parte das que lhe imputam, está unicamente na cabeça de criticos ou desattentos ou caprichosos.




NotasEditar

  1. No original está demonsta, erro tipográfico.
  2. doque no original, erro tipográfico
  3. des no original, erro tipográfico.
  4. No original está "vozes", erro tipográfico.
  5. No original está um.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Livro III


Depois que em mal os deuses derribaram

Asia e a nação priamea, altivos muros
E Ilio a neptunia em fumo resolvendo,
A buscar nos suadiu celeste aviso
       5Varios desterros e desertos climas;
E no Ida phrygio, ao pé da mesma Antandro
Fabricámos as naus, do fado incertos,
Do rumo e pousadia. Alisto os socios;
E, entrada a primavera, ordena Anchises
       10Vélas dar á ventura: então da patria
Deixo os portos chorando, a borda e campos
Onde foi Troia; com Iulo e os Teucros
Exul me engolpho, e os divos e os penates.
  Campinas que regera o audaz Lycurgo,
       15Vasta mavorcia terra, os Thraces lavram:
Nella doce agasalho e amigos lares,
Emquanto quiz fortuna, achava Troia.
Ruim fado ahi me aporta, e em curvo seio
Planto Eneia e do meu seu nome formo:
       20Aos de começos taes auspices numes
E á mãe Dionea sacrifico, e um touro
Nedio immolo na praia ao deus superno.
  Um combro alli, coroava-o de hastes crespa
Densa touça de murta e pilriteiro.
       25Cheguei-me, e no arrancar o verde mato,
Para os altares enfolhar com ramos,
Assombroso portento arripiou-me:
O arbusto que primeiro desarreigo
De negro-rubras gottas o terreno

       30Tabido mancha. Os membros me convulsa

Frigido horror, coalhado gela o sangue.
Puxo outro lento vime, o arcano sondo;
Atro cruor de novo a casca estilla.
Mil cuidos penso; ás Hamadryas oro,
       35Ao do getico chão fautor Gradivo,
Que a visão ominosa em bem convertam.
Firmo os joelhos na arêa, o esfôrço envido,
Terceira haste acommetto; eis de um sepulcro
(Fallar devo ou calar?) imo suspiro,
       40Gemente som, no ouvido me estremece:
«Ai! porque me laceras? poupa, Enéas,
Um finado; as mãos pias não profanes.
Gerou-me Troia, nem te sou estranho,
Nem este humor do tronco mana. Ah! foge,
       45Foge o paiz cruel, a avara praia.
Sou Polidoro: aqui varou-me e cobre
De hastas ferrea seara, que em vergonteas
Agudas verdeceu.» De susto oppressa
Tituba a mente, estaco horripilado,
       50Presa a voz á garganta. Ao rei threício
Com grande pêso de ouro ás escondidas
Mandara o infeliz Príamo este filho
A se educar, já quando, estreito o assedio,
Do successo das armas receava.
       55Troia abatida, o perfido servindo
A victoria e fortuna agamemnonia,
Degola o moço e empolga-lhe o thesouro.
Os corações mortaes a que os não fórças,
De ouro fome execranda! Assim que os ossos
       60Deixa o pavor, consulto os mais conspicuos,
E primeiro a meu pae conto o prodigio.
Convem todos que, á frota os austros dando,
Do malvado lugar, polluto hospicio,
Nos afastemos. Logo a Polidoro
       65O funeral se instaura, e amontoamos

Sôbre o túmulo terra. Altar aos manes,
De azues listões e exequial cypreste
Enluctado, elevamos; destrançadas,
Como he rito, as Iliades o cercam.
       70Tepido espumeo leite e de hostias sangue
De navetas e taças lhe infundimos;
A alma a vozes no túmulo encerramos,
Tres vezes proferindo o extremo vale.
Mal abonança o mar, segura o tempo,
       75E Austro brando sussurra e ao largo invita,
Em nado a praia enchendo, as naus velejam;
Vai recuando a praia e os novos muros.
Sacra á mãe das Nereidas e a Neptuno
Egeu, ilha gratissima cultivam;
       80Que a errar boiava, e o pio arcitenente
Com Mycon celsa atou-a e com Gyaro,
E a fez immota, que dos ventos zombe.
Lá fui ter; placidissima cansados
Nos recebe e agasalha. Ao desembarque
       85A cidade acatamos apollinea.
Anio rei, que une o sceptro e o sacerdocio,
Do phebeu louro e fitas adornado
Sahe, reconhece o amigo velho Anchises,
Nos toma a dextra, nos recolhe e hospéda.
       90Venero o templo erecto em penha antiga:
«Lassos dá-nos, Thymbreu, dá-nos progenie
E estaveis muros; salva estoutra Pérgamo,
Restos dos Gregos e do immite Achilles.
Quem nos guia? onde ir cumpre? onde assentarmos?
       95Padre, em nós te insinua, o agouro aclara.»
Então, sinto agitar-se e tremer tudo,
Portas, louro do deus, e o monte em roda;
Muge a cortina, aberto o santuario.
No chão prostrados esta voz nos soa:
       100«O uberrimo terrão, Dardanos duros,

Vossa origem primeira, ha de acolher-vos:
Ao gremio vos tornai da prisca madre.
A casa alli de Enéas no orbe inteiro
Tem de imperar, e os filhos de seus filhos,
       105E os que delles nascerem.» Tal annúncio
Ledo alvorôto inspira; indagam todos
A que paragem Phebo os mande errantes
E a reverter convide. Anciãs memorias
Recordando meu pae: «Ó chefes, dice,
       110Ouvi-me, roborai vossa esperança.
Creta, berço de Troia e do alto nume,
Equorea jaz, com o Ida e estados pingues
E amplas cidades cem; donde abordando
Junto ao Rheteu, se a tradição me lembra,
       115Teucro, avô nosso, ao reino escolheu sitio.
Ilio nem seu castello inda existia,
Inda em profundos valles se habitava.
Daqui Rhéa cultora, e os corybantios
Sistros, e o monte Ideu; fiel silencio
       120Daqui veio aos mysterios, e jungidos
Leões tirarem da senhora o carro.
Eia, o céo quer, os ventos aplacando,
Vamos já demandar as gnosias ribas:
Não distam muito, com favor de Jove
       125Lá podemos surgir á luz terceira.»
Termina; e um touro mata, honras devidas
A Neptuno; a ti outro, ó bello Apollo;
Rez negra aos temporaes, branca aos favonios.
Expulso Idomeneu do patrio solio,
       130Corre que, evacuada de inimigos,
Livre Creta ficou. Largando a Ortygia,
No pelago a voar, passamos Naxos
E os montes seus que em bacchanaes resoam,
Donysa verde, Oleáro e a nivea Paros,
       135Na azul campanha as Cycladas esparsas,

Fretos de bastas ilhas semeados.
Na faina se ergue a nautica celeuma.
Vozes cruzam: Á Creta, ao ninho avito.
De ré nos venta a briza, e dos Curetes
       140A veterrima plaga emfim tocamos.
Avido a nova Pérgamo coméço;
E, ufana com tal nome, incito a gente
A exalçar o castello e amar seus fogos.
Já varadas em sêcco as pôpas eram;
       145Cuida-se em bodas, cuida-se em lavouras;
Casas regúlo e marco: eis plantas e homens
Saltêa corrupção que infecta os ares,
Triste anno, peçonhento ás sementeiras.
Ia-se a doce vida, ou se arrastavam
       150Corpos a definhar: queimando Sirio
Estereis agros, resequidas hervas,
Enfezada a seara o pão negava.
Que eu, resulcando o mar, de novo em Delos
Consulte humilde a Phebo exhorta Anchises:
       155Onde o refúgio, o termo a tanta angústia,
Convem tentar; que róta nos prescreva.
Noite era, e o somno os animaes prendia:
As divinas effigies e os penates,
Que do iliaco incendio resalvámos,
       160Resplendecendo em sonhos me apparecem,
Donde pelas janellas mal cerradas
Cheia a Lua enfiava o argenteo raio;
Eil-os que do cuidado assim me tiram:
«Não mais o ortygio oraculo demandes;
       165Por nós de grado Apollo aqui t’o envia:
Nós, Troia em chammas, sob as armas tuas,
Remedimos comtigo o inchado pelago;
Aos teus glória perenne, eterno imperio
Daremos nós: tu longo afã não temas,
       170Procura a tal grandeza igual cidade.

Muda-te, parte, o Delio o determina;
Nem elle aconselhou-te a vir a Creta.
Um paiz ha vestuto, em grego Hesperia,
Fecundo e bellacissimo, colonia
       175De Enotrios a princípio; Italia he fama
Que, de um rei seu, modernos a nomêam:
Lá, por Dardano e Jasio, a estirpe nossa
Origem teve; o assento lá teremos.
Vai-te ledo ao bom velho, e o desengana;
       180Sus, de Coryto e Ausonia a róta segue.
Jupiter nega-te as dictéas lavras.»
Desta falla e visão estupefacto
(Nem foi lethargo, não; veladas comas,
Vultos, feições, eu devisar cuidava,
       185E em suor frio o corpo me escorria),
Da cama salto; ao céo tendendo as palmas,
Oro, e holocausto intemerato libo.
Completo o sacrificio, expendo alegre
Tudo a meu pae; que os troncos dous e a prole
       190Ambigua reconhece, e o novo engano
Em que antigos lugares o induziram.
«Filho, a quem de Ilion persegue o fado,
Rememorando ajunta, só Cassandra
Tal me predice, e uns reinos prometteu-nos,
       195Que ou Hesperia ou Italia appellidava.
Mas quem tam longe crêra a estancia nossa?
E a quem jamais persuadiu Cassandra?
Phebo o melhor nos mostra, eia, cedamos.»
Tudo ovante obedece. Alguns se ficam;
       200Os mais soltamos novamente as vélas,
Cursando em cavo lenho o immenso plaino.
Ao largo os barcos, desparece terra,
Céo daqui, mar dalli. Bulcão ceruleo
Feia borrasca sobre nós carrega,
       205Treva e horror pelas aguas estendendo.

O vento em brenhas escarcéos levanta,
Nos joga e espalha pelo vasto pégo.
Tolda-se o dia, e pluviosa a noite
Nos rouba a luz polar; rasgadas nuvens
       210Trovejam, relampêam. Fluctuamos
Sem rumo á toa; Palinuro mesmo
Perde o tino, e confunde a noite e o dia.
Nem fulge estrella nas opácas horas,
E em cerração tres dubios soes vagamos:
       215Ao quarto, arrumação, que a olho augmenta,
Serros descobre, os topes já fumêam.
O panno arreia-se, a vogar surdimos:
Estribada a maruja a espuma estorce,
Varre o páramo azul. Das ondas livre,
       220Ilhas do grande Jonio, em grego Stróphades,
Nas praias me recebem: nestas ilhas
Mora a cruel Celeno e as mais Harpyas,
Dêsque, enxotadas, os festins medrosas
E a vivenda phineia abandonaram.
       225Monstro maior, nem divinal flagello,
Nem peste mais voraz brotou da Estyge:
Tem laxo immundo ventre e garra adunca,
Aves nojosas, com virginios rostos,
Magros, pallidos sempre e esfomeados.
       230No arribar, gordo armento se offerece,
Fato, sem pegureiro, pelo prado:
Investimos a ferro, e aquinhoamos
Na presa o mesmo Jove e os outros numes.
Camilhas na enseada construímos;
       235Regalado manjar nos banquetêa.
Subito em lapso horrifico as Harpyas
Descem dos montes, a adejar ruídosas;
Pilham tudo, enxovalham, contaminam,
Mesclando a tetro odor funestos gritos.
       240Sob saxea lapa ao longe retirados,

Cobertos de arvoredo e escura sombra,
N’ara o fogo outravez e as mesas pomos:
De outro escondrijo lobrego, estrondando,
Revoa a turba em roda, e as iguarias
       245Pollúe com bôca impura e tortas unhas.
Arma, arma, á dira gente eis guerra intímo.
Dito e feito; escondemos sob a relva
Prestes gladios e escudos. Mal deslisam
Por curvas praias a grasnar, Miseno,
       250Que do alto espreita, o cavo bronze entoa:
Tenta-se, estranho ataque! a ferro obscenas
Marinhas aves escalar; mas golpes
No dorso ou plumas nem lesão consentem,
E em fuga, alando-se ás estrellas, deixam
       255A presa mossegada e infecto rasto.
N’um alcantil Celeno só pousando,
Rompe aziaga em taes vozes: «Guerra, em cima
De novilhos e bois nos estragardes!
Guerra e esbulhar quereis do patrio reino
       260As insontes Harpyas! Pois ouvi-me,
Gravai n’alma o que a Phebo, ó Laomedoncios,
O summo rei predice, e a mim Apollo,
E eu raínha das furias vos declaro.
Italia demandais, á Italia os fados
       265Com viração galerna ir vos concedem;
Mas antes que mureis o assento vosso,
Desta matança em pena, ha de obrigar-vos
Crua fome a roer as proprias mesas.»
Cala, e de surto á selva se recolhe.
       270Gelido o sangue, esmorecemos todos.
Armas não mais; com votos paz rogamos,
Sejam déas, ou furias, torpes aves.
Da praia as mãos levanta, e os grandes numes
Com devida offerenda implora Anchises:
       275«Deuses, fóra o ameaço, arrédo o agouro;

Á vossa pia gente auxílio, ó deuses!»
Depressa faz colher a amarra, e soltos
Os calabres safar. Nôto incha as vélas;
Arando o espumeo golpho, navegamos
       280Á discrição do vento e do piloto.
Já surge á flor Zacynthos nemorosa,
Dulichio e Samos, Néritos alpestre:
Do Ithaco sevo a praguejar o berço,
Os laercios cachopos esquivamos.
       285Descobrem-se de Leucate os nimbosos
Topes, e Apollo aos nautas formidavel:
Subimos lassos o pequeno burgo.
Da proa áncora deita-se, amarramos
Á borda as pôpas. Do insperado solo
       290De posse emfim, celebro o lustro a Jove,
Com votos ara accendo, e em troicos ludos
A acciaca ribeira festejamos;
Taes, nus e ungidos, patria lucta exercem:
He grato, a salvo de inimigos, termos
       295Tanta cidade argólica passado.
Do anno maior a vólta o Sol completa,
Gêlo hiemal com nortada escrespa os mares.
O ereo cavo broquel do grande Abantes
Do portão prego em meio, e em baixo inscrevo:
       300«Ao Danao vencedor ganhou-o Enéas.»
Largar mando, e em seus bancos os remeiros
Varrem, qual mais, as percutidas vagas.
Dos Pheaces escondo aerios cimos,
Costeio o Epiro, aporto na Chaonia,
       305Monto á celsa Buthroto. Incrivel soa
Que reina aqui Priamides Heleno,
Que do Eacide o tóro e graio sceptro
Elle os desfructa, e Andrómacha de novo
A cahir veio a natural marido.
       310Confuso e em curiosa ância abrazado

De escutar ao varão tamanhos casos,
Traspasso o pôrto, praia e naus deixando.
N’aba de um Simois falso, á hectorea cinza
Festim solemne acaso e dons funereos,
       315N’um luco fóra, Andrómacha libava,
Os manes evocando ao que de hervosa
Céspide vacuo túmulo sagrara,
E altares dous, a prantear motivo.
Ao destinguir-me e ao vêr troianas armas,
       320Se espanta e embaça, attonita desmaia;
Só quando os ossos o calor cobraram:
«Vives? murmura; es tu, divina prole?
Ou se incorporeo nuncio a luz não gozas,
Que he de Heitor?» E inundando-se-lhe as faces,
       325De lamento enche o bosque e de suspiros.
Bem pouco respondendo a seus transportes,
Conturbado boquejo em troncas phrases:
«Sim vivo, e a todo o extremo arrasto a vida;
He real quanto vês. Ai! despenhada
       330Do inclito espôso a tanto aviltamento,
Como o decoro emfim recuperaste?
Andrómacha de Heitor, inda es de Pyrrho?»
De pejo o rosto abaixa, e em tom submisso:
«Ó só feliz a priameia virgem
       335Que immolada morreu sôbre hostil campa
Nos patrios muros! Não provou da sorte
Lance algum, nem captiva a heril alcova
Tocou do vencedor! Nós, Troia em fogo,
De mar em mar rojadas, supportámos,
       340Na servidão parindo, o fausto e orgulho
Do Achileo caprichoso; o qual á Espartha
Indo alliar-se a Hermione Ledéa,
Escrava me transmitte a Heleno escravo.
Mas, do roubo da espôsa ardendo em zelos,
       345Das furias agitado, o atroz Orestes

De improviso o degola ás patrias aras.
Recahiu, morto Pyrrho, em parte o reino
A Heleno, que chamou Chaonio o campo,
Chaonia a terra, de Chaon Troiano;
       350Pérgamo, Ilio, he no morro a cidadella.
Qual porêm te dirige ou vento ou fado?
Que deus te arroja ignaro ás nossas praias?
Onde o que te nasceu já Troia em sítio?
D’aura mantem-se Ascanio? inda saudoso
       355Da mãe se lembra que perdeu na infancia?
Hombridade lhe inspira e esfôrço antigo
Ser Enéas seu pae e Heitor seu tio?»
Tal n’um contínuo chôro em vão carpia;
Quando com toda a côrte o heroe priameo
       360Das murulhas[1] se adianta, e prazenteiro,
Os seus reconhecendo, os encaminha,
E entre fallando largo pranto verte.
No irmos, deparo as tenues Ilio e Troia,
E arido arroio que simula o Xantho;
       365Abraço-me aos umbraes da porta Scéa.
Desta socia acolhida os meus se logram:
Regios porticos amplos os recebem.
Copos do paço em meio a Baccho encetam,
Sôbre ouro comem, taças de ouro empunham.
       370Corre dia após dia: ao sôpro austrino,
Que nos convida, o cárbaso intumece.
Entro a Heleno e o conjuro: «Ó troico vate,
Que, dos divos intérprete, os influxos
Do Clario Phebo, as tripodes, os louros,
       375Que os astros, que dos passaros as linguas
Sentes, e avisos da ligeira penna
(Pois feliz curso oraculos me cantam,
E, a ir dos deuses todos persuadido
Da Italia em busca a regiões remotas,
       380Celeno só me augura um monstro infando,

E iras fataes e depravada fome),
Dize, eia, que perigo evitar urge?
Como superarei trabalhos tantos?»
Já do uso as rezes mata, e exora o antiste
       385Aos divos paz, da fronte sacra a touca
Desata, e a mim venerabundo e absorto
Pela mão, Phebo, ao templo teu me guia,
E a prophetica bôca desencerra:
«Com mór auspicio he fé que tu navegas,
       390Filho de Venus: tal baralha as sortes,
E as encadêa e liga o rei dos numes.
Porque sulques melhor ignotos mares,
E ancores a teu salvo em pôrto ausonio,
Vai do muito expender-te um pouco Heleno;
       395Que o mais, sabel-o as Parcas me prohibem,
Ou fallar veda-me a Saturnia Juno.
Primeiro, a Italia proxima, onde cuidas
Que aportas breve, t’a separa e afasta
Com longas terras ínvia longa via.
       400N’agua sicana o remo vergar deves,
E o salso golpho Ausonio, o lago Averno,
E a ilha percorrer de Circe Eéa,
Antes que assento firme estabeleças.
Dou-te os sinaes, conserva-os: quando achares,
       405Cuidoso á margem de secreto rio,
De enzinha litoral deitada á sombra,
Grande e recemparida, uma alva porca
A trinta alvos leitões amamentando,
Alli terás descanso, alli cidade.
       410Quanto a roer as mesas, não te assustes:
Rumo ha de achar o fado e ouvir-te Apollo.
Destas partes porêm, da extrema Italia
Que as das marés do Jonio enchentes lavam,
Safa-te; sam de Gregos infestadas.
       415Aqui fixaram-se os Narycios Locros,

E o Lyctio Idomeneu cercou de tropas
Os campos de Salento; aqui munida
A pequena Petilia Philoctetes
Melibeu tem. Mas quando, alêm dos mares
       420Surta a frota e na praia erguidas aras,
Os votos cumpras, de purpúreo amicto
Véla a cabeça; a fim que hostil aspecto
Não turbe o agouro. Aos teus nos sacrificios
Tal seja o rito, observa-o; permaneçam
       425Nesta religião sem falha os netos.
Como á Sicania te approxime o vento,
Já claro o estreito passo do Peloro,
Costêa á esquerda com circuito longo,
A dextra borda foge e dextras ondas.
       430Por convulsão violenta e vasta ruína,
Este lugar, se conta, ha largas eras
(Do tempo o que não muda a vetustade?)
Se espedaçou; formava um continente:
Neptunina irrupção rasgou da Hesperia
       435Sicilia; angusto braço as lavras parte,
Banha as cidades e limita as praias.
Scylla a direita occupa; e d’agua, á sestra,
Grandes golpes tres vezes no atro abysmo
Charybdes implacada a pique sorve,
       440Tres revéssa e esguichando açouta os astros.
Presa arreganha a bôca e as naus ás pedras
Scylla attrahe, em cego antro: cara de homem,
Do collo ao pubis môça linda, em ceto
Remata enorme, e em utero de lobos
       445Se lhe articulam de delphins as caudas.
O Pachyno dobrado, em roda a viagem
Antes ir prolongando, que a disforme
Scylla encarar sequer, e a furna horrenda
Com seus ceruleos cães saxi-sonante.
       450Sôbre tudo, se has fé no auspice Heleno,

Se prudencia lhe assiste e o enche Apollo,
Só te isto, ó prole diva, amoesto e prégo,
E repito e reitero: a Juno excelsa
De grado o nume adora, e a soberana
       455Preces, votos e súpplicas abrandem:
He como finalmente victorioso,
A Trinacria trasposta, irás á Italia.
A Cumas tu chegado, e aos lagos santos
Lucrino e Averno de sonoras matas,
       460Verás no imo rochedo a vate insana
Que os fados canta, e letras, nomes, carmes
Grava e encommenda ás folhas, e os numera.
Na gruta elles fechados, não se bolem,
Em ordem se mantem; mas, se uma aragem
       465Da porta os gonzos vira, encana, e as tenras
Folhas baralha, avoejar a virgem
Pela caverna os deixa, nem mais cura
De arranjar, de os colher: e os inconsultos
Vam-se, a cóva e a Sybilla esconjurando.
       470Postoque da tardança os teus murmurem,
Que plenas vélas amarar te possam
Boleadas á feição, dalli não partas,
Sem que a teus rogos ella a voz desprenda
E oraculos resolva. Ha-de a Cuméa
       475As guerras te explicar, d’Italia os povos,
Trabalhos como evites, como os soffras;
E obter-te venerada o salvamento.
Basta; nem de al me he lícito avisar-te.
Anda, engrandece a Troia, aos céos te exalça.»
       480Tal prophetava amigo, e ás naus dons manda
Graves de ouro e elephantico embutido,
De argenteos vasos e dodoneos cassos
Abarrota os porões; de malha ajunta
Loriga auri-trilice e um capacete
       485De comante cocar, cimeira insigne,

De Pyrrho arnez. Presentes faz a Anchises.
De praticos nos supre e de remeiros,
Cavallos doa, os socios provê de armas.
Meu pae de vêrga d’alto apresta a frota,
       490Que os ventos de servir não desperdice.
Cortez o augur o acata: «Acceito espôso
Da Cypria em celso tóro, ó caro aos deuses,
Das perdas ambas de Ilion salvado,
Eil-a, á fronteira Ausonia aproa e voga.
       495Todavia has mister passar avante:
Dista a paragem que te Apollo inculca.
Vai-te, ó pae venturoso de um tal filho!...
Que! tardo, estórvo os astros que já surgem?»
Não menos boa Andrómacha, á partida,
       500Phrygia chlamide a Ascanio traz saudosa,
E roupas de matiz de aureo brocado;
De finas têas o accumula, e falla:
«Do proprio meu lavor, toma estes mimos,
Que testefiquem sempre e te relembrem
       505Da viuva de Heitor, filho, a ternura:
Dos teus recebe as derradeiras prendas,
Só do meu Astianaz tu viva imagem:
Tinha teus olhos, tuas mãos, teu rosto,
E equevo hoje comtigo embubescera!»[2]
       510O adeus lhes digo, em lagrimas desfeito:
«Vivei felizes, vosso fado encheu-se;
De transe em transe o nosso nos repulsa.
Já descansais; de arar não tendes mares,
Nem de ir á Italia, que se furta e alonga:
       515D’Ilio e do Xantho contemplais a effigie,
Feitura vossa; com melhor auspício,
Oh! menos seja exposta ao dolo argivo!
Se os campos chego a vêr que banha o Tibre,
E á minha gente os promettidos muros,
       520Das propinquas cidades consanguineas

E dos povos irmãos, no Lacio e Epiro,
Faremos na harmonia uma só Troia:
Guarde-se este cuidado aos nossos netos.»
Os litoraes Ceraunios perpassamos,
       525Donde á Italia he brevissimo o trajecto.
Cahe o Sol, cobre a treva opacos montes:
Sortêam-se os remeiros, e encostados
No sêcco doce gremio, á borda, em ranchos
As fôrças reparamos; lassos corpos
       530Rega um somno ferrado. Em meio gyro
Nem inda a noite as horas conduziam:
Da cama esperta Palinuro; explora,
Cata os ventos, fareja e escuta os ares;
Fita as constellações que resvalavam
       535No mudo espaço; as Hyadas chuvosas,
Os geminos Triões, o Arcturo observa,
E Orion de alfange de ouro. O céo sereno
Acha; e ao claro sinal que fez da pôpa,
Tentando a via, os arraiaes movemos,
       540E ás naus as pandas azas desfraldamos.
Já rubra aurora afugentava os astros,
Quando obscuros outeiros enxergamos
E a baixa Italia. Italia eis brada Achates;
Todos Italia a jubilar saúdam.
       545Uma grande cratera o padre Anchises
Então coroa, do mais puro cheia,
E em pé na celsa pôpa: «Ó deuses, clama,
Que regeis mar e terra e tempestades,
Facil caminho e sopros dai favonios.»
       550Refresca o vento; e, a barra já patente,
N’um morro o templo de Minerva altêa.
Colhida a véla, ao pôrto proejamos:
Elle ao nascente arquêa; em face, espumea
Salsi-aspergida rocha o esconde, o abrangem
       555Com duplo muro torreadas penhas,

Vai-se da praia o templo retirando.
Primeiro agouro, aqui ginetes quatro,
Alvos de neve, o prado á larga tosam.
E meu pae: «Guerra inculcas; para a guerra
       560Se armam, solo hospedeiro, esses cavallos;
Guerra o armento ameaça. Ao carro afeitos
Todavia os quadrúpedes no jugo
Inda podem soffrer concordes freios:
Esperança ha de paz.» Á deusa oramos
       565Armísona, que á entrada agasalhou-nos
Ovantes; e, ante as aras phrygio amicto
Nos velando as cabeças, como Heleno
Prescrevera, incensada especialmente
Juno honramos Argiva. Á risca e em ordem
       570Cumprido o voto, as pontas reviramos
Das antenas velíferas, suspeitos
Sitios que habitam Gregos desertando.
De Tarento se avista o seio, herculea,
Se he vera a fama: em frente se levanta
       575Lacinia diva, e o Scylaceu navífrago,
E as tôrres de Caulon. Distante assoma
O siculo Etna: ouvimos longe o equoreo
Rouco gemido, o embate nos cachopos,
Quebrado o eccho na praia; os vaos resaltam,
       580As arêas remexe a marulhada.
E Anchises: «Não me engano, esta he Carybdes[3],
O de Heleno cantado immano escolho.
Certa a voga puxai, livrai-nos, socios.»
Dice e cumprem: no instante Palinuro
       585Contorce á esquerda a rugidora proa;
Marêa á esquerda a frota, á esquerda rema.
Curvado o pégo ao ether já nos sobe,
Já desfeito o escarcéo nos baixa aos manes.
O saxeo boqueirão tres vezes ronca;
       590Tres espadana a espuma e os céos orvalha.

Fatigados nos deixa o Sol e o vento:
Dos Cyclópes á costa arribo ás cegas.
Vasto e abrigado o pôrto, ao pé, cimeiro
Com horrificas ruinas o Etna toa:
       595Ora, atra picea fumegante nuvem
E candentes fagulhas borbotando,
Flammeos globos despede e os astros lambe;
Ora extirpadas visceras do monte
Vomita e expulsa, e a lava no ar glomera,
       600E a mugir no imo abysmo o volcão ferve.
De um raio chamuscado, he voz que pésa
Sôbre Encelado a mole do Etna ingente,
Que das rôtas fornalhas fogo expira;
E, se de lado por cansaço muda,
       605Do rebramar toda a Trinacria treme
E o céo do fumo tolda. A noite, occultos
Nas selvas, taes phenomenos cortimos,
Sem do horroroso estrondo a causa vermos;
Que astro nem ar sidereo esclarecia
       610O carregado pólo, e involta a Phebe
Tinha em manto nimboso a escuridade.
O albor já despontava, e a nova aurora
Removera a nocturna humente sombra:
Da mata rompe estranha fórma de homem,
       615Magro e myrrhado, inculto e miserando;
E ás praias supplicante as mãos estende.
Olhamos: sujo, ascoso, hirsuta a barba,
De espinhos cobre-o andrajo apontoado;
Grego no mais, dos que invadiram Troia.
       620A armadura avistando e o phrygio trajo,
Retem-se um pouco, aterrorado estaca;
Logo precipitando-se, a nós corre
Com pranto e rôgo: «Pelos céos obsecro,
Pelos deuses e est’aura que respiro,
       625Por onde fordes me levai, Troianos:

He quanto basta. Fui da armada grega,
Sim fiz guerra aos iliacos penates:
Se he tamanho o meu crime, ao ponto fundo
Atirai-me, afogai-me nestas vagas.
       630De homens se morro ás mãos, contente morro.»
Prostra-se, os pés me abraça, e tem-se ás vóltas,
A confessar quem seja o acorçoamos,
Qual sua origem, que fortuna o agite.
Sem mais demora dá-lhe a dextra Anchises;
       635Deste penhor se anima, e diz afouto:
«Ithaco sou, do infortunado Ulysses
Companheiro, Acheménides me chamo:
Pobre (oxalá durara nesse estado!)
Adamasto meu pae fez-me ir a Troia.
       640Na pressa de escapar da estancia crua,
Os meus cá me olvidaram, do Cyclópe
Na cóva. Opaca, enorme, em sanie escorre
Da carniça: elle (ó ceos, bani tal peste!)
Arduo empinando-se, as estrellas pulsa;
       645Taciturno, feroz, desconversavel,
Cruor o ceva e entranhas de infelizes.
Eu mesmo o vi, na furna resupino,
A mão disforme a dous lançar dos nossos,
N’um rochedo esbarral-os, e em sangueira
       650A espelunca nadar; vi mastigados,
Tabido humor os membros estillando.
Tepidos entre os dentes lhe tremerem,
Que impune folgue, Ulysses não supporta,
Nem de quem he se esquece em tanta affronta.
       655Mal, sepulto em vinhaça e farto himpando
Pousa o inflexo pescoço e jaz na gruta
Immenso, e carnes e o bebido e o sangue
Alija a resonar; por sorte a postos,
Orando, a um tempo e em roda o acommettemos;
       660E, em vingança dos manes dos amigos,

D’haste aguda o só lume lhe furamos,
Na torva testa occulto, e na grandura
Broquel argivo ou lampada phebéa.
Sus a amarra picai, fugi, mesquinhos;
       665Pois taes, qual Polyphemo em antro escuro
O lanigero gado amalha e munge,
Moram Cyclópes cem por essas praias,
Descompassados pelos montes vagam.
Tres luas tem de luz enchido os cornos,
       670Dêsque entre brenhas por covis me arrasto,
De um sêrro espreito os monstros, e estremeço
Do estrupido e da voz. Misero pasto,
Colho bagas, pilritos lapidosos,
De herva e raizes arrancadas vivo.
       675Sempre álerta, avistando a frota vossa,
De ir-me a ella assentei, qualquer que fôsse:
Não he pouco evadir-me á gente infanda.
Matai-me, se o quereis; prefiro a morte.»
Nem acabava, e n’um cabeço vêmos,
       680Entre os gados movendo a vasta mole,
O pastor Polyphemo, ás notas praias
A descer; monstro horrendo, informe, ingente,
A quem vazou-se o ôlho, e tenteando
N’um pinheiro esgalhado se abordoa.
       685Grei lanosa o acompanha, o só deleite,
O allívio seu: do collo a flauta pende.
Depois que as aguas toca e mais se engolpha,
Do ôlho escavado lava o humor cruento,
E a gemer range os dentes. Já no meio
       690Anda, e as altas espadoas não molhava.
Accelerando a fuga, o supplicante
Com razão recolhido, nós cortamos
Tacitos as amarras, e encurvados
Remando á competencia, o mar varremos.
       695Sentiu-nos, e ao sonido os passos torce.

Mas, deitar-nos a dextra não podendo,
Nem no alcance igualar do Jonio a altura,
Desmarcado urro dá, com que de espanto
Tremeu toda a Trinacria, e o ponto e as ondas;
       700Do Etna as cavernas oucas remugiram.
Da espessura e montanhas rue e acode
Dos Cyclópes a raça e inunda as praias.
Quedos e em balde a olhar com torvo lume,
Esses etneus irmãos, congresso horrivel!
       705Mostram-se desferindo aos céos as frontes:
Quaes aerios carvalhos, no mór auge,
Ou cyprestes coníferos topetam,
De Jove em mata ou luco de Diana.
Urge o medo a soltar cabos e vélas,
       710E ir á feição dos ventos. Mas Heleno
Entre Scylla e Carybdes[4] prohibiu-nos
Seguir a lethal via: á orça o linho,
Toca a virar. Eis Boreas venta amigo,
Do estreito do Peloro: a foz transponho
       715Do Pantagias aberta em roca viva,
E o sino de Megara e Tapso humilde.
Tendo a costa Achemenides corrido
Com o Ithaco infeliz, tudo apontava.
Contra o Plemmyrio undoso, ilhota ao golpho
       720Siculo oppõe-se: a Ortygia dos antigos.
O Alpheu d’Elide, he fama, aqui rompera
Submarino; hoje mescla-se, Arethusa,
Por tua bôca nas sicanas ondas:
Lembrado, os numes do lugar venero.
       725Passo do Heloro o pingue alagadiço;
Terra a terra, os penedos do Pachyno
E o saliente cabo. A não mover-se
Fadada, lá nos surge Camarina,
De Gela os campos e a cidade amplissima,
       730Que do rio que os banha se appellidam.

O arduo Agragante, gerador outrora
De briosos corséis, de longe ostenta
Gran’ muralha. De ti me aparta o vento,
Palmífera Selinis; e traspasso
       735Os parcéis lilibeus de escolhos cegos;
Drépano desalegre emfim me aloja.
Aqui, repulso á fôrça de borrascas,
Ah! perco o genitor, na angústia e penas
Meu só confôrto: a mim desconsolado
       740Ai! tu, de riscos mil vãmente illeso,
Aqui, óptimo pae, tu me abandonas.
Taes luctos, augurando Heleno horrores,
Não m’os predice, nem a infausta Harpya.
Eis o último trabalho, eis a baliza
       745De navegações longas. Deste pôrto
Um deus fez-me arribar ás vossas praias.»
Assim, tudo em silencio, o padre Enéas
Divinos fados enarrava, e expunha
Tanto peregrinar. Calou-se a ponto,
       750E, findo o seu dizer, foi repousar-se.



O livro terceiro, escrito com a logica mais rigorosa, contendo em 718 versos uma variedade estupenda de successos, tanta moral e tantos rasgos sensiveis; o livro terceiro, chamado por criticos mais imparciaes a Odysséa de Virgilio, tem largamente soffrido injustas censuras de muitos; porque os homens mediocres, por fragilidade da nossa natureza, folgâmos de descobrir faltas nos genios sublimes; e os proprios amigos do poeta inconsideradamente vam abraçando não poucos desses indiscretos juizos. Averiguarei os principaes erros e as críticas mais salientes.

1-9. — 1-10. — Neste esplendido exórdio, como o caracteriza Heyne, julgam alguns intérpretes que o adjectivo desertas he mal escolhido, porque jà Creusa, isto he a sombra de Creusa, tinha dito a Enéas que elle se estabeleceria em terras ferteis e povoadas: esses intérpretes não viram que, antes de se fixar definitivamente na Italia, o heroe, em sua viagem ao princípio incerta, houve de errar por terras desertas e brenhas, na Thracia, nas Strophades, nos sertões da Libya. De mais, como pondera M. Villenave, Enéas, para excitar a compaixão da raínha, oppõe a superbum Ilium o grande contraste de desertas terras. — O autor, que justifica o poeta neste ponto, se espanta de que o heroe troiano, emquanto construía a frota, não fôsse perturbado pelos vencedores. Considere-se que naquella epoca, em razão da raridade dos caminhos e communicações, qualquer distancia parecia grande, e que Enéas nas selvas do Ida, sob a protecção de Cybèle, não he inverosimil que se occultasse aos Gregos; os quaes, embebidos na victória, entregando-se ao descanso e aos prazeres anhelados depois de uma guerra prolixa, não cuidaram em perseguir os fugitivos. He todavia este reparo um dos mais plausiveis, e seria sem réplica, se o caso tivesse lugar nos nossos tempos. — Quanto á incerta viagem dos Troianos, o mesmo crítico tem por uma inadvertencia do poeta, não só porque o simulacro de Creusa tinha designado a embocadura do Tibre, mas tambem porque Ilioneu em seu discurso a Dido fallara duas vezes da Italia. Se Enéas esqueceu ou não acceitou logo o aviso de Creusa, foi porque tambem Cassandra, como se vê desde o verso 103-187 deste livro, vaticinara o mesmo a Anchises, e era mister não se dar pêso ao conselho da sombra que coincidia com o da prophetiza, cujo irrevogavel destino era não ser nunca acreditada. Pelo que toca ao discurso de Ilioneu, a inadvertencia não he de Virgilio, he sim de Mr. Villenave e dos outros criticos: cumpria-lhes observar que os acontecimentos do livro II e do III sam muito anteriores aos que o poeta canta no primeiro: Dido pede ao heroe a narração inteira das suas aventuras; elle, contando o que se tinha passado ha sete annos, refere tambem a incerteza de pousada com que partiu de Troia; incerteza que tinha cessado com as ordens de Apollo, communicadas em sonhos a Enéas pelas imagens dos deuses, segundo se lê neste livro desde o verso 153-171. Não admira pois que o Troiano, ao tempo que se passava o referido no II e III livros, ignorasse o que se menciona no primeiro. — De têr Virgilio, á maneira da Odysséa, começado o poema do meio dos acontecimentos, para por via da narração fazer vir o passado, tiram alguns isto como regra infallivel da epopéa; regra na verdade seguida por grande parte dos poetas epicos, mas que deve subordinar-se ás concepções e aos differentes planos do genio.

10-12. — 10-13. — «Todos os Troianos, diz Mr. Tissot, emmudecem, e até as mulheres parecem insensiveis: não saúdam pela última vez os lugares em que foram mães; não cahem de joelhos para invocar, em uma commemoração religiosa, os maridos que repousam no seio da terra natal.» Seria plausivel esta crítica, se minutos antes (convem não esquecer que a narrativa he durante o festim) não tivesse acabado Virgilio de pintar, com as mais tristes e vivas côres, as mães a ulular e a gemer, abraçando e beijando os portaes do palacio que iam largar; scena da qual a imaginação naturalmente se transporta ás casas dos particulares e a toda a cidade em lucto. Havendo assim enternecido os ouvintes e representado a mágoa das Troianas, Enéas, dizendo que chorava ao apartar-se, e que se engolphou com o filho e os socios e os deuses, abandonando os campos onde foi Troia, assás explica a sua dôr e a de todos, em cujo nome falla. Fiel ao systema de concisão e de deixar o ouvinte ou o leitor desinvolver por si o complexo de pensamentos que elle tem o segredo de grupar em sua brevidade, fiou-se no seu nunca igualado campos ubi Troja fuit, crendo com razão que estas quatro palavras tinham a magia de suscitar as demais idéas accessorias na presente situação. O certo he que nenhuma outra move a mais saudade; o que era impossivel se, ou expresso ou facilmente subentendido, não contivesse o essencial para despertar este sentimento.

13-16. — 15-17. — «He pena, diz Mr. Tissot, que o poeta só consagrasse tres versos á descripção deste paiz, illustrado por tantas lembranças poeticas. O Hebro, que rolou os restos inanimados do espôso de Eurycide, O Rhodope de nevoas coroado, onde as Amazonas e as Bacchantes celebravam choréas em honra de Baccho,

NotasEditar

  1. É possível que seja muralhas.
  2. Na nota 491. - 509. a este livro, Odorico diz que este verbo deveria ser empubescera.
  3. "Charybdis" na segunda edição.
  4. "Charybdis" na segunda edição.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Notas ao Livro III


NOTAS AO LIVRO III.

O livro terceiro, escrito com a logica mais rigorosa, contendo em 718 versos uma variedade estupenda de successos, tanta moral e tantos rasgos sensiveis; o livro terceiro, chamado por criticos mais imparciaes a Odysséa de Virgilio, tem largamente soffrido injustas censuras de muitos; porque os homens mediocres, por fragilidade da nossa natureza, folgâmos de descobrir faltas nos genios sublimes; e os proprios amigos do poeta inconsideradamente vam abraçando não poucos desses indiscretos juizos. Averiguarei os principaes erros e as críticas mais salientes. 1-9. — 1-10. — Neste esplendido exórdio, como o caracteriza Heyne, julgam alguns intérpretes que o adjectivo desertas he mal escolhido, porque jà Creusa, isto he a sombra de Creusa, tinha dito a Enéas que elle se estabeleceria em terras ferteis e povoadas: esses intérpretes não viram que, antes de se fixar definitivamente na Italia, o heroe, em sua viagem ao princípio incerta, houve de errar por terras desertas e brenhas, na Thracia, nas Strophades, nos sertões da Libya. De mais, como pondera M. Villenave, Enéas, para excitar a compaixão da raínha, oppõe a superbum Ilium o grande contraste de desertas terras. — O autor, que justifica o poeta neste ponto, se espanta de que o heroe troiano, emquanto construía a frota, não fôsse perturbado pelos vencedores. Considere-se que naquella epoca, em razão da raridade dos caminhos e communicações, qualquer distancia parecia grande, e que Enéas nas selvas do Ida, sob a protecção de Cybèle, não he inverosimil que se occultasse aos Gregos; os quaes, embebidos na victória, entregando-se ao descanso e aos prazeres anhelados depois de uma guerra prolixa, não cuidaram em perseguir os fugitivos. He todavia este reparo um dos mais plausiveis, e seria sem réplica, se o caso tivesse lugar nos nossos tempos. — Quanto á incerta viagem dos Troianos, o mesmo crítico tem por uma inadvertencia do poeta, não só porque o simulacro de Creusa tinha designado a embocadura do Tibre, mas tambem porque Ilioneu em seu discurso a Dido fallara duas vezes da Italia. Se Enéas esqueceu ou não acceitou logo o aviso de Creusa, foi porque tambem Cassandra, como se vê desde o verso 103-187 deste livro, vaticinara o mesmo a Anchises, e era mister não se dar pêso ao conselho da sombra que coincidia com o da prophetiza, cujo irrevogavel destino era não ser nunca
acreditada. Pelo que toca ao discurso de Ilioneu, a inadvertencia não he de Virgilio, he sim de Mr. Villenave e dos outros criticos: cumpria-lhes observar que os acontecimentos do livro II e do III sam muito anteriores aos que o poeta canta no primeiro: Dido pede ao heroe a narração inteira das suas aventuras; elle, contando o que se tinha passado ha sete annos, refere tambem a incerteza de pousada com que partiu de Troia; incerteza que tinha cessado com as ordens de Apollo, communicadas em sonhos a Enéas pelas imagens dos deuses, segundo se lê neste livro desde o verso 153-171. Não admira pois que o Troiano, ao tempo que se passava o referido no II e III livros, ignorasse o que se menciona no primeiro. — De têr Virgilio, á maneira da Odysséa, começado o poema do meio dos acontecimentos, para por via da narração fazer vir o passado, tiram alguns isto como regra infallivel da epopéa; regra na verdade seguida por grande parte dos poetas epicos, mas que deve subordinar-se ás concepções e aos differentes planos do genio.

10-12. — 10-13. — «Todos os Troianos, diz Mr. Tissot, emmudecem, e até as mulheres parecem insensiveis: não saúdam pela última vez os lugares em que foram mães; não cahem de joelhos para invocar, em uma commemoração religiosa, os maridos que repousam no seio da terra natal.» Seria plausivel esta crítica, se minutos antes (convem não esquecer que a narrativa he durante o festim) não tivesse acabado Virgilio de pintar, com as mais tristes e vivas côres, as mães a ulular e a gemer, abraçando e beijando os portaes do palacio que iam largar; scena da qual a imaginação naturalmente se transporta ás casas dos particulares e a toda a cidade em lucto. Havendo assim enternecido os ouvintes e representado a mágoa das Troianas, Enéas, dizendo que chorava ao apartar-se, e que se engolphou com o filho e os socios e os deuses, abandonando os campos onde foi Troia, assás explica a sua dôr e a de todos, em cujo nome falla. Fiel ao systema de concisão e de deixar o ouvinte ou o leitor desinvolver por si o complexo de pensamentos que elle tem o segredo de grupar em sua brevidade, fiou-se no seu nunca igualado campos ubi Troja fuit, crendo com razão que estas quatro palavras tinham a magia de suscitar as demais idéas accessorias na presente situação. O certo he que nenhuma outra move a mais saudade; o que era impossivel se, ou expresso ou facilmente subentendido, não contivesse o essencial para despertar este sentimento.

13-16. — 15-17. — «He pena, diz Mr. Tissot, que o poeta só consagrasse tres versos á descripção deste paiz, illustrado por tantas lembranças poeticas. O Hebro, que rolou os restos inanimados do espôso de Eurycide, O Rhodope de nevoas coroado, onde as Amazonas e as Bacchantes celebravam choréas em honra de Baccho,
nem sequer sam mencionados.» Esta crítica he uma cópia do livro IV das Georgicas no episodio de Orpheu. Não devendo o poeta introduzil-o na Eneida, omittiu aqui isso que não podia reproduzir com tanto successo. Alêm de que a repetição teria os ares de um lugar commum, se os criticos o reprehendem por haver na sua epopéa mettido um ou outro verso das Georgicas, o que não discorreriam se elle nesta passagem tivesse copiado um trecho inteiro, que tam formosamente quadra ao plano daquelle poema? He forte mania a de quererem alongar a Eneida! Seu autor he tam recommendavel pelo que exprime, como o he muitas vezes pelo que sabe calar: a precisão he o cunho das suas poesias.

18. — 19. — Traduzi Eneia, e não Enos, porque esta cidade era mais antiga do que a edificada por Enéas, na Thracia. Veja-se o diccionario de Calepino e a nota accurada de Mr. Villenave.

21. — 21.22. — «Espantam-se os intérpretes de que Virgilio fizesse immolar um touro a Jupiter, quando os antigos convem em que nunca se lhe sacrificava touro ou carneiro. Crê Macrobio que este êrro de Enéas agastou o senhor dos deuses, e produziu o horrivel prodigio aterrador do filho de Venus. Portanto, em vez de enxergar uma falta em Virgilio, descobre um rasgo de ingenho. He abusar um pouco do privilegio da interpretação.» Isto he do citado Mr. Villenave; e eu respondo que condemnar sem exame he abusar um pouco do privilegio de crítico. Se consultasse os commentarios do cruditissimo João de la Cerda, pag. 271 do tom. I, veria que, segundo Herodoto, liv. VI, Demarato sacrificou um touro ao pae dos deuses; que o mesmo fez publicamente Aristides; que Juliano Cesar, na epist. a Libanio, diz: mactavi Jovi regaliter taurum candentem; e Arnobio, liv. VII: Quid applicitum Jupiter ad tauri habeat sanguinem, ut ei debeat immolari, non debeat Mercurio, Libero? Os consules romanos (costume do seu Enéas derivado, como opina o mesmo sabio commentador) offereciam hecatombes a Jupiter.

22-68. — 23-73. — Este episodio, util ao andamento do poema, foi imitado por Ariosto e por Tasso, e recordado por Camões: teve porêm a mofina de desagradar a Mr. Tissot, que acha aqui Virgilio inferior a Euripides e a Ovidio, por se têr privado da presença, da dôr, do desespêro e da vingança de Hecuba. Euripides e Ovidio podiam e deviam servir-se da personagem de Hecuba; ao passo que Enéas, desembarcando na Thracia um anno, ao menos, depois da morte de Polidoro, já não podia encontrar-se com Hecuba: sem embargo do que, o autor fez o episodio interessantissimo, descrevendo o prodigio com pincel de mestre, e aproveitando o ensejo para nos recommendar o respeito que se deve aos tumulos e nos dar proficuas
lições moraes. O episodio, como eu dice, aduna-se ao todo, pois devia o poeta mostrar o porque largara Enéas a Thracia; e o motivo, rico parto da sua imaginação, he inteiramente da indole da epopéa. — Não responderei aos que, destituídos de gôsto, condemnam o poeta pela impossibilidade do facto, querendo medir os vôos do genio pelo compasso de Euclides; direi porêm que, muitos annos depois, a nação romana se regozijava com o formosissimo poema das Metamorphoses, essencialmente composto de cousas não menos maravilhosas, e que esse primor do ingenhosissimo Ovidio he hoje em dia lido com summo prazer por quem nada crê naquellas transformações. Sôbre este ponto consulte-se o allegado padre João de la Cerda.

70. — 75. — O barão de Walckenaer censura este lugar, porque o vento Austro era directamente contrário e com elle os Troianos não poderiam sahir de Enos (a mesma que traduzo Eneia); porêm Mr. Jal, que demonstra que os antigos já conheciam a navegação á bolina, responde que fôra justa a crítica, se os Latinos e os Gregos não soubessem navegar senão a uma larga ou em pôpa, ou com o vento entre as duas escotas; mas que elles sabiam orçar e bordejar. Quanto á objecção de que o Austro era ponteiro, e nem orçando muito era possivel sahir, responde que o que não poderia fazer-se á vela sómente, se faz com o soccorro dos remos, sôbre tudo se o vento he fraco (lenis crepitans); que nada pois impedia Enéas de pôr-se ao largo com o Austro pela proa. E com effeito vemos, na nossa bahia do Rio de Janeiro, o arrais negro menos perito navegar á bolina estreita com vento de menos de seis quartas, ajudando-se dos remos quando o vento he brando, e só trata de bordejar quando refresca. Não he absurdo que o mesmo quasi fizesse Enéas: era do seu interêsse dalli partir quanto antes, e partiu com o vento que soprava; porque, se ficasse á espera de melhor, poderia retardar a viagem.

76. — 81. — A ilha Mycon, hoje Mycoli, he chamada celsa por causa do monte Dimasto. Ha quem censure este epitheto, porque sam pouco elevadas as montanhas de Mycoli. Porêm em uma ilha pequena qualquer elevação parece consideravel, e o monte Dimasto he alto relativamente.

78. — 83. — «Porque, pergunta Senadon, depois da predicção de Creusa, diverte-se Enéas em edificar uma cidade na Thracia? Porque em Delos pede a Apollo que lhe marque o lugar em que se deva estabelecer?» Para responder ao padre, he preciso repetir que o Troiano ou esqueceu ou não abraçou logo o aviso de Creusa por coincidir com o de Cassandra, fadada a nunca ser crida. Buscou pois a Thracia por mais vizinha, sendo do interêsse commum achar
quanto antes um assento; alêm de que era esse paiz governado pelo genro de Priamo, Polymnestor, em quem se esperava encontrar acolhimento e soccorro; mas, advertido por Polydoro da perfidia e crueza de Polymnestor, depois de já têr começado a edificar, foi constrangido a largar a terra, onde com effeito se tinha querido fixar. Respondida á primeira, passemos á segunda. Ainda na incerteza (pois não tinha occorrido o aviso dos penates, que o decidiu) em sua viagem errante chega a Delos; e he natural que o religioso capitão ahi consultasse o oraculo por via do rei e sacerdote Anio, amigo velho de Anchises. Un oracle toujours se plaît à se cacher, diz Racine: aquelle foi ambiguo; e, tendo-se de buscar a Italia ou Creta, Anchises se declarou pela última donde era Teucro, mais antigo do que o genro Dardano, vindo da Italia. Accrescia que, sendo Creta mais proxima da Thracia, em caso de dúvida pedia a prudencia que fôssem primeiro a Creta, não havendo tanto que desandar, quanto haveria se, demandando primeiro a Italia, se vissem na precisão de voltar ao paiz de Teucro. Respondo com isto á segunda pergunta de Senadon, e ainda a uma terceira, pois tambem quer saber porque Enéas se demorou a edificar em Creta. 136-141. — 145-152. — Pretendendo os Troianos ficar em Creta pela interpretação de Anchises, imagina o poeta uma peste que dalli os expulse. Delille, com prudente reserva, insinua que a descripção devera ser mais longa; e Mr. Tissot, que toma e explana o pensamento do poeta francez, decide e corta a questão: «Virgilio, tam fecundo, rico, variado nas scenas diversas da ruína d'Ilion, he apenas um frio narrador no livro terceiro. Crer-se-ia, por exemplo, que um poeta se contente de esboçar em seis versos o quadro de um acontecimento qual o da peste que expulsa Enéas da patria de Idomeneu?» Mais accrescenta, e com Delille quer que a peste ataque a Iulo, que o pae trema pelos dias do filho; quer emfim uma daquellas descripções que, podendo ser bellas em certas conjunturas, aqui só prestariam para retardar a narração. Enéas, que rememora as suas aventuras á mesa durante o sarao, depois de têr commovido o auditorio com a ruína de Troia, trata de o intretêr com o mais essencial; a grandes traços descreve a sua viagem, e basta-lhe ás vezes um epitheto para caracterizar um facto ou uma terra: assim a fome de ouro he sacra, porque nem ao sagrado perdoa; a Thracia he mavorcia, por ser o berço do deus da guerra; Donysa he a verde, Paros he a nivea, pela côr dos seus marmores. Seu fim não era pintar uma peste, era motivar o abandono dos seus estabelecimentos[1] em Creta. Em uma longa pintura corria o poeta o risco de se repetir, pois que no terceiro das Georgicas trata já de uma peste, sôbre ser fresca a lembrança da da Attica descripta pela mão habil de Lucrecio: a longura pois me parece que não fôra a proposito, e podera excitar a idéa de um
lugar commum. Com ser breve, não deixa todavia de ser energica a descripção desta peste: em um pequeno quadro, vê-se a corrupção infectando os ares e as plantas e os homens, os campos estereis, a seara enfezada negando o pão, as hervas sêccas, os corpos a definhar. Observe-se que neste livro Enéas se apressa, ad eventum festinat; só se demora no mais interessante, ou quando os acontecimentos tem relação com o facto que mais o magoava, a quéda de Troia. Isso convinha a uma narrativa de sua natureza extensa, e o bom gôsto impunha-lhe a obrigação de resumir-se. — Nenhum dos outros livros encerra tanta variedade como este. Aos criticos tem aprazido alcunhal-o de frio, esquecidos de que ha nelle o encontro de Enéas com Andromacha, o túmulo de Polydoro, o painel do Etna e dos Cyclópes, superior ao de Homero, o episodio de Achemenides, a fábula das Harpyas, a pintura de Scylla e de Charybdis. Este livro corre fado contrário ao todo da Eneida: os amadores acham-na[2] excellente, mas, se fôssem verdadeiros os senões que lhe notam, pouquissimo lhe restava de bom; o livro he tachado de sêcco, sem grandeza nem imaginação, mas, contados os versos dos lugares que louvam, conclúe-se que em geral he obra de primor, sôbretudo ninguem lhe negando harmonia e riqueza de estilo. Reprova-se a miuda relação geographica ahi contida, sem se lembrarem que, na era de Virgilio estando a navegação bem atrasada, essa relação excitava um interêsse vivissimo. Em tempo comparativamente moderno, ha tres seculos, fez Camões a descripção circumstanciada da Europa no seu immortal poema, o que então foi optimo e acceito; hoje tacham-no tambem da mesma pecha que a Virgilio: nós os Brazileiros e Portuguezes perdoamos aos estrangeiros esse juizo de máo gôsto, porque elles pela maior parte não conhecem assás o portuguez para saborearem a erudição recondita, os toques sublimes e maviosos, a harmonia contínua dessa bella passagem, e fallam de Camões sem o terem meditado, e alguns, nem lido. 147-171. — 157-181. — «On est tenté de trouver quelque ridicule dans les oracles, qui ne s'expliquent qu'à moitié, et qui égarent, par une funeste ambiguité, de malheureux bannis; ainsi que dans l'apparition de ces dieux pénates, qui redressent les torts de l'oracle de Delphes.» Quem ouve a Delille esta, que tem sido a cantilena de outros criticos, pensará que Virgilio traz por todo o Mediterraneo a Enéas illudido pelos oraculos: a verdade he que, sahindo elle de Troia, vai a Thracia, donde o aparta o prodigio de Polydoro; chega a Delos, onde consulta a Anio, e uma só vez a má interpretação do oraculo o leva a Creta em vez de ser á Italia. Se he isto condemnavel, quanto não deve ser arguído Racine que, durante cinco actos, faz do equivoco do nome Iphigenia o nó da sua bella tragedia? Os oraculos não se explicavam jamais com bastante
clareza, e, se o poeta lhe tirasse toda a ambiguidade, faltaria á tradição e á historia, e então he que seria reprehensivel. Chegado Enéas a Creta, edifica, planta e se estabelece; mas uma horrivel peste o dispõe a tornar a Delos; aonde não foi, porque os tutelares penates, em nome de Apollo, dizem-lhe que busque definitivamente a Italia. Ora, depois de ter guiado os Troianos á Thracia e a Delos, depois de os levar a Creta, esta vez unica illudidos pelo oraculo, nunca mais duvída Enéas do rumo que tinha de seguir; se transviou-se da Italia, foi pelos obstaculos de Juno, borrascas e cerrações. A intervenção dos penates não he ridicula, he necessaria: para contrapesar o effeito do pronóstico de Cassandra era mister um successo extraordinario, era mister que interferisse um deus, como interferiu Apollo. — Sente-se que Delille ás vezes condescende com os criticos, para izentar-se da balda, que tem os traductores, de julgar impeccavel o autor original.

221. — 231. — Fato por grei de cabras he frequente em Bernardim Ribeiro, Bernardes, Rodrigues Lobo e outros. Mr. Millié, cant.III, est. 49, para traduzir o verso dos Lusiadas: Recolhe o fato e foge para a aldêa, dice: Rassemblent leurs vêtements épars et fuient vers le hameau voisin; e devia dizer: Rassemblent leur troupeau de chèvres, etc. No uso vulgar fato he tambem vêtements; mas, por occasião de um ataque, a comparação dos Mouros com o pastor que ajunta a sua roupa antes de fugir, seria pouco digna da epopéa, por trazer uma circumstancia bem insignificante. Sinto principiar censurando Mr. Millié, cuja traducção muito aprecio; a qual, pondo de parte a harmonia e belleza dos versos de Camóes, que a prosa e uma lingua menos poetica não podem igualar, he uma das que em francez reproduzem melhor o original, e sam bem trabalhadas as notas que se lhe ajuntaram, e bem escrita a vida de Camões por Mr. Charles Magnin, que vem á frente da obra. Só quizera que este judicioso biographo não tivesse adoptado a injusta opinião de Manuel de Faria, o qual, por fanatismo para com Luiz de Camões, attribuiu-lhe várias obras que diz usurpadas por Diogo Bernardes; pois um exame imparcial do estilo e maneira de tam ameno poeta, ajudado pelo estudo das mesmas obras, convence de que ellas sam realmente de Bernardes e não de Camões.

225-258. — 236-269. — Tratemos do episodio das Harpyas. Enéas arriba ás Strophades, não por se enganar com o oraculo, mas por uma tempestade e cerração, tal que o mesmo Palinuro, sem tino e confundindo a noite com o dia, navegava á toa, até que a frota abrigou-se ás taes ilhas. Celeno toca na viagem ao Lacio como fixa e ordenada pelos deuses; mas, em vingança dos bois que lhe mataram, pronostíca aos Troianos a fome que os havia de obrigar
a roer as proprias mesas. Mr. Tissot reprova que elles tremam diante de um prodigio, e affirma que os oraculos de Celeno contrabalançam as palavras de Jupiter; tendo por contrário aos costumes heroicos aquelle tremor, e por contradicção o que prophetiza a Harpya. Quanto aos costumes heroicos, sohem combinar-se com a superstição e com o horror do que se nos figura sobrenatural; e, para uma empresa merecer o nome de heroica, não he preciso que todos os que entram nella sejam desabusados, e não tremam á vista de um prodigio: os soldados e homens de chusma que, ao commando de chefes corajosos, tem concorrido para os feitos estrondosos, batiam-se valentes, e tinham pavor de visões e do que lhes parecia portentoso: Virgilio prometteu cantar uma acção grande, mas não prometteu apresentar em cada Troiano um espirito forte. Wieland, no seu imaginoso poema Oberon, representa em Scherasmin um soldado velho prompto a bater-se com dous ou tres homens, tendo comtudo um medo indizivel de trasgos e visões: isto he o que se vê commumente, e não exercitos de philosophos. A' cêrca da decantada contradicção, direi que Celeno em nada contrabalança nem discrepa das palavras de Jupiter: Jupiter affirma a Venus que Enéas tem de estabelecer-se no Lacio, e a raínha das Harpyas o confirma deste modo: «A Italia demandais, á Italia os fados Com viração galerna ir vos concede; Mas, antesque mureis o assento vosso, Desta matança em pena ha de obrigar-vos Crua fome a roer as proprias mesas.» Ora, só uma cega preoccupação pode achar que estas palavras contrabalançam e não confirmam as de Jupiter. O ridiculo que descobrem alguns nesta fábula, vem de que certos criticos, presumidos de philosophos, julgam os antigos pelas idéas modernas; sem se lembrarem que esta era uma tradição historica, e que o poeta, procurando na Eneida ajuntar as tradições relativas á fundação de Roma, não a devera omittir: do mesmo modo que um historiador que tratar da sagração dos reis de França em Reims, tem de fallar da santa ambula milagrosa, como bem adverte Voltaire, que não foi dos mais credeiros. 268-288. — 278-300. — Na derrota para Italia, passaram os Troianos por Zacynthos, Dulichio, Samos, Neritos e Ithaca, e descobriram os cumes de Leucate, onde foram refrescar, por não o terem podido fazer nas Strophades, nem querido aportar nas ilhas pertencentes a Ulysses; alêm de que, tendo Anchises feito um voto, em Leucate o podia elle pagar a Apollo, e celebrar ao mesmo tempo o lustro a Jupiter. O lustramur Jovi tómo no sentido em que o tomou o meu fallecido amigo Barreto Fêo, a cuja obra remetto o leitor; bem como para a explicação do magnum annum, que elle julga ser o quinto ou o último do lustro que decorrera, desde que Enéas deixou Troia até abordar a Leucate. Repare-se na arte com que Virgilio traz alli Enéas para celebrar jogos no promontorio
de Accio, alludindo aos quinquenaes instituídos por Augusto, depois da batalha em que desbaratou a Marco Antonio. — Neritos ardua saxis verto Neritos alpestre, como Annibal Caro Nerito alpestre, porque em italiano e em portuguez este adjectivo diz fragoso e elevado como os Alpes. O fragosa de João Franco não o pude adoptar, por ser consoante de nemorosa do verso antecedente, bem que neste lugar seja tam expressivo como alpestre. 291. — 303. — Daqui em diante refere-se como os Troianos, depois de largarem o pôrto de Leucate e de costearem o Epiro, sobem emfim a Buthroto. Já então Enéas não ia navegando ao acaso, mas para Italia; e, se desembarca na Chaonia, he porque, tendo ouvido que lá estava seu primo e cunhado Heleno, nada ha mais natural do que desejar vêr-se com Andromacha, viuva de Heitor; tanto mais, que essa demora em casa dos parentes pouco retardava a sua viagem. Aqui he que traz Virgilio o seu famoso encontro de Enéas com Andromacha, uma das creações mais sublimes e patheticas da poesia antiga e moderna, e onde não ha palavra que deixe de contêr um pensamento profundo. Ha porêm alguns criticos, e bem respeitaveis, que preferem o caracter que deu Racine a Andromacha na sua tragedia deste nome: eu creio que ambos os poetas fizeram o melhor, cada um em relação ao seu plano. Racine pinta em Andromacha, alterada a historia, a viuva de Heitor sempre fiel a seu fallecido espôso, e resolvida a casar com Pyrrho para defender a vida do seu Astianaz; de sorte que sacrifica o escrupulo de espôsa unicamente ao amor maternal: he isto sem dúvida bello, moral e sublime; e aqui Racine, como bem reflecte Chateaubriand, escreve já inspirado pelas idéas do christianismo. Virgilio, seguindo a historia quasi á risca, mostra em Andromacha um triste exemplo das mudanças da fortuna: filha e nora de reis, a mulher do rival de Achilles he constrangida a entrar no leito de[3] um senhor e a parir na escravidão. A Andromacha de Racine he mais veneravel por sua virtude; a de Virgilio excita a mais compaixão. Racine quiz fazer da principal personagem uma heroina perfeita, que atrahisse a admiração; e Virgilio quiz mostrar novas e desgraçadas consequencias da ruína de Troia nos infortunios da lamentavel princeza. A têr Virgilio antecipado o plano do poeta francez, desappareceriam as maiores bellezas: o abaixar dos olhos da infeliz e a exclamação a respeito de Polycena, quando Enéas lhe pergunta se ainda he de Pyrrho; o seu heri tetigit captiva cubile; o juvenem superbum servitio enixae tulimus; o dejectam conjuge tanto. Que, a ser pintada Andromacha uma heroina perfeita, não seria tam pathetica, he da natureza humana, da theoria dos mestres, da práctica de Euripides e Sophocles e dos tragicos de mais nomeada; e o mesmo Racine se encosta a esta opinião, segundo o escreveu no prefacio da Phedra. Accresce a vantagem que o
poeta soube colher do arrependimento de Andromacha, pois, recobrada do seu abatimento, a que forçava a desgraça, procura pôr em esquecimento essa fraqueza desculpavel, prestando culto ás cinzas do seu lamentado Heitor.

340. — 353. — Dos versos inacabados he este o que não offerece um sentido completo. Para que o tivesse, li-o como alguns o emendam: Quem tibi jam Troja obssessa est enixa Creusa; omittindo na traducção o nome Creusa, que facilmente se subentende. N'um tal caso não ha meio de acertar.

348. — 362. — A preposição entre com o gerundio sem razão está em desuso: he insupprivel ás vezes, salvo por um rodeio, que sempre enerva o pensamento.

358-462. — 372-479. — Enéas quer partir, e consulta o propheta Heleno sôbre os meios de evitar os males prenunciados por Celeno. A resposta he longa, mas necessaria, como o confessa Delille, que todavia a chama pouco interessante. Pouco interessante o que he necessario[4]! Contêm a resposta, segundo o mesmo Delille, toutes les leçons qui devaient diriger Enée dans sa navigation et dans sa conduite. Contêm, alêm disso, a descripção de ritos que Roma conservava, conducente ao fim do poema; a de Scylla e de Charybdis, riquissima de poesia; a razão por que Enéas rodeou a Sicilia e arribou a Carthago, parte essencial ao plano da Eneida: contêm emfim o annúncio de que o heroe deve consultar a Sibylla e a maneira de se portar na gruta, o que tudo he muito e muito necessario e interessante; nem havia melhor occasião de serem estas cousas tratadas. Quem lêr a Virgilio, deve em certo modo fazer-se Romano para o saborear. — Compuz saxi-sonante, por onomatopeia, e para evitar a fria longura que soa nas pedras.

491. — 509. — «Cada lingua tem suas bellezas: o pubesceret não pode passar a qualquer outra.» Mr. Villenave, que assim discorre, não contou com a portugueza, onde o verbo empubescer casa bellissimamente.

493. — 511. — Sôbre esta despedida, e em geral sôbre a hospedagem do heroe na Chaonia, as observações de Delille e Mr. Villenave me dispensam de fallar.

506-520. — 524-540. — «Um douto commentador quiz pôr o Provehimur pelago mais a baixo, depois do Tentamus viam et velorum pandimus alas; pensa com razão que, já se tendo lançado a frota de Enéas a vogar, o poeta não a podia mostrar ainda
ancorada.» Assim discorre Mr. Villenave, que, com o seu douto commentador, não viu que a frota largou duas vezes: depois que desaferra das praias da Chaonia e que voga (provehimur pelago), passa os montes Ceraunios, ao pé dos quaes toma de novo terra (in litore sicco corpora curamus); foi dahi que Palinuro tornou a mandar soltar as vélas, e portanto[5] foi bem collocado pelo poeta o Tentamus viam, e o Provehimur pelago. Nove decimos, ao menos, das censuras feitas a Virgilio sam como esta.

522-553. — 542-576. — O padre La Rue, Delille e Mr. Villenave esclarecem estas differentes passagens. Os Troianos avistaram a Italia, tocaram n'um pôrto, que se julga ser o de Salento; em vez de tomarem o estreito do Peloro ou Capo di Faro, tomaram á esquerda, segundo os conselhos de Heleno, com medo de Scylla e de Charybdis; rodearam o Pachino ou Capo Passaro, e descobriram o Etna.

369-611. — 592-634. — Aqui ha uma lição de humanidade: Achemenides, inimigo de Troia e companheiro de Ulysses, he acolhido por Enéas, que o livra dos Cyclópes. Não me estenderei em gabos da pintura do Etna e da cóva de Polyphemo, superior á da Odysséa na opinião de todos; esta nota he para combater o Mr. Villenave ácêrca dos dous versos: «Ingens, quod torva solum sub fronte latebat, Argolici clypei aut Phebeae lampadis instar. «A comparação, diz elle, pécca menos pela exageração que pela inexactidão: como poderia o olho do gigante estar occulto sob a fronte, se assemelhava ao disco brilhante do Sol? Delille traduziu latebat por brilhava: razoavel infidelidade..... A comparação excede toda a medida ao estender-se ao disco do Sol. Que proporção dar-se pode entre o broquel de um soldado e o primeiro astro do universo?» Esta argumentação he especiosa. Trata Achemenides[6] de Polyphemo, na occasião em que o gigante com a vinhaça resonava e dormia, e quem dorme fecha os olhos; eis porque se occultava o olho sob a fronte coberto com a palpebra: se o compara ao Sol, he porque pouco antes o tinha visto brilhar, quando Polyphemo estava acordado; e a grandura conhecia-se mesmo por cima, e pelo tamanho da abertura em que o olho se achava mettido. Quanto á falta de proporção entre o broquel de um soldado e o Sol, seria boa a critica se a comparação fôsse com o verdadeiro disco do astro; mas he só com o disco apparente, que não he maior que um broquel, sôbre tudo no zenith. No livro II dos Martyres, Chateaubriand adoptou esta comparação, como aqui dou a lêr traduzida no homerico estilo dos versos de Francisco Manuel: «Emquanto estas razões do peito sólta Lastenes, para o lucido oriente Olympio, desce o Sol de Pholoe aos cumes; Como immovel alli suspenso pára, Qual broquel de ouro fôsse, e cresce em vulto.» Ora, o bom gôsto do maior epico
francez, e um dos maiores do mundo, acolheu com amor o que rejeita Mr. Villenave; o que não he pequeno argumento a favor de Virgilio. — Agora passemos a outro grande poeta, cuja autoridade creio não recusará o crítico. La Fontaine, fab. 25 do liv. IV, acha que a Lua he do tamanho de um queijo; e, na 17 do terceiro, que o Sol tem uns tres pés de redondo: crítico nenhum tem censurado a La Fontaine; nem valha a desculpa de que isso he posto na bôca de irracionaes, poisque o fabulista presta aos outros animaes os costumes, as paixões e o discurso dos homens; no que sem dúvida consiste o encanto de taes composições. Delille pois verteu infiel e pessimamente.

690-691. — 717-718. — Chateaubriand, no livro IV dos Martyres, introduz um Grego enthusiasta que, á imitação de Achemenides, ia ensinando ao joven Eudoro os sitios da Grecia que navegando avistavam. O poeta moderno alli excede a Virgilio; porque, no enumerar e apontar as differentes paragens, a cada uma accrescenta a commemoração de um facto notavel, e a escolha não pode ser melhor. O nosso grande contemporaneo no imitar o antigo se tornou original. Porque a poesia desta epopéa não foi escrita em verso? He sim harmoniosa e elegante a sua prosa; mas ha delicadezas para as quaes a prosa não basta. Francisco Manuel, quanto á graça da linguagem, na sua traducção me parece preferivel ao mesmo autor; e a obra, apezar de não poucas incorrecções, considero-a como o modelo do seu genero: não conheço um traductor poeta que tanto me agrade, em lingua nenhuma.

714. — 745. — Penso que o hemistichio De navegações longas, qual o de Camões, no princípio da sua epopéa, As navegações grandes, representa a longura da consonancia longarum viarum, porque, alem[7] do vocabulo navegações ter muitas syllabas, cahindo a sua última na quinta do verso e devendo a voz demorar-se na sexta, he-se obrigado a ligar as duas palavras, como se fôssem uma ainda mais comprida. Em Camões, Francisco Manuel, Garção e em outros desta ordem, he que se podem beber os segredos da versificação portugueza: entre os contemporaneos, no meu sentir, he o Snr. Almeida Garret um dos que nesta parte mais se distinguem.

715. — 746. — Fecha Enéas a narração com a arribada a Carthago, aonde o arrojou a tempestade do liv. I. Lê-se alli que, circumdando elle a Sicilia pelo cabo de Passaro, e já nas aguas do mar Toscano, foi contra seu querer dar á costa d’Africa, tendo perdido uma nau e chegando com as outras destroçadas. Sanadon pergunta porque o heroe se estabelece em Carthago e se espósa com Dido; e eu respondo que o heroe não se estabeleceu em Carthago, nem com
Dido se esposou. Arribado sem víveres, necessitando de refazer e fabricar as embarcações, elle acceitou a hospitalidade da raínha, a quem nunca propoz um casamento; ella, incitada por Venus e Cupido, he que ardeu em uma paixão violenta, e procurou demoral-o enganando o seu amor com o véo do matrimonio; e Enéas, que se deixou vencer, ao depois tornando em si, admoestado por Mercurio, rompeu com mâgoa esses laços perigosos, e seguiu para Italia: Virgilio põe-no em lucta com uma das mais fortes paixões, para fazer o homem triumphar da sua fraqueza e apparecer o heroismo. — Permitta-se-me agora um resumo da viagem, a fim de se tornar mais evidente que não ha contradicções de oraculos nem incoherencia alguma. Enéas larga as vélas á ventura, porque, não crendo na sombra de Creusa cujo aviso coincidia com o de Cassandra, não quiz ir logo para Italia: tentou estabelecer-se na Thracia, por suppôr encontrar abrigo em um genro de Priamo, e por ser do seu interêsse dar quanto antes assento aos companheiros; e sahiu da Thracia, quando soube da traição de Polymnestor: foi a Delos consultar[8] Apollo: a ambiguidade essencial do oraculo o faz ir a Creta, em Creta edifica e planta; mas, urgido pela peste, quando meditava tornar a Delos a reconsultar Apollo, os penates em nome delle aclaram o oraculo; e desde então a frota caminha directamente ao Lacio. Uma cerração no mar Jonio, com a qual nem Palinuro se soube haver, leva Enéas ás Strophades; e já mostrei que ahi a Harpya Celeno confirmou os vaticinios: das Strophades, indo avistando várias ilhas onde não poude refrescar, foi refrescar a Leucate; e dalli partiu, não obstante as nortadas, havendo celebrado jogos e sacrificios: passa Corcyra, e aporta na Chaonia para se encontrar com Andromacha e seu parente Heleno, de quem recebe esclarecimentos importantes: amoestado por elle a não ir pelo estreito por causa de Scylla e de Charybdis, mas a rodear a Sicilia, sahe de Buthroto, perpassa os Ceraunios; salta perto para descansar algumas horas, e para com dia poder avistar as praias de Italia, o que succedeu ao romper da aurora: approxima-se, reconhece a bôca do estreito para o evitar: desembarca no promontorio Salentino para adorar a Minerva, como era natural que o pio Enéas o quizesse fazer no primeiro templo que avistava no paiz desejado: larga de novo o panno, vai vendo differentes lugares, até que um temporal o atira ás praias dos Cyplópes, onde recolhe a bordo o companheiro de Ulysses: com o Boreas navega, dá vista de várias paragens famosas, e só desembarca em Drépano; e dalli, tendo perdido seu pae, uma tempestade o lança ás costas de Carthago. Esta breve analyse demonstra que o livro III he escrito com rigoroso cuidado. Permitta-se-me recorrer finalmente a um argumento arithmetico, ajuntando e sommando as passagens approvadas pelos criticos e as que não tem sido censuradas. O exórdio, que todos gabam, compõe-se de 12 versos: o túmulo de Polydoro e o que se passa na
Thracia, compõe-se de 60: a descripção de Naxos, Donysa, Olearo, Paros e das Cycladas em geral, até chegar-se a Creta, compõe-se de 8: a estada em Creta, com a pintura da peste, que Mr. Tissot queria estirada, compõe-se de 11: a bella descripção da escuridade e alguns phenomenos nauticos, até chegar-se ás Strophades, compõe-se de 18: a fábula das Harpyas, de 54: a continuação da viagem, na qual avistam Zacynthos, Dulichio, Samos, Neritos, Ithaca e reinos Laercios, compõe-se de 6: a visitação do templo de Apollo em Leucate, a celebração do lustro e dos votos, e a sahida daquelle pôrto, comprehendem 17: Buthroto, encontro de Andromacha, encontro de Heleno, a maviosa pintura da pequena Troia, o festim, a consulta de Enéas quando resolvem partir, compõem-se de 78: a descripção de Scylla e de Carybdis, compõe-se de 23: a despedida saudosa, os presentes de Heleno, os de Andromacha a Iulo, a sua pathetica falla, resposta de Enéas (na qual o poeta allude habilmente ao facto de têr passado Buthroto a ser colonia romana e á fundação de Nicopolis por Augusto), tudo isto compõe-se de 43: a viagem até enxergarem a Italia, a exploração dos ventos e dos astros por Palinuro, oração de Anchises, desembarque, visitação do templo de Minerva, adoração a Juno segundo os preceitos de Heleno, comprehendem 42, incluída a descripção do pôrto Salentino: a sahida, o que se passa ao se approximarem de Charybdis[9], a vista do templo de Juno Lacinia, de Gaulon, do Scyllaceu e a do Etna ao longe, contêm-se em 20: a chegada á terra dos Cyclópes, pintura do Etna, encontro de Achemenides, caverna de Polyphemo, emfim todo esse magnifico e variado episodio contêm-se em 114: a explicação de Achemenides sôbre as differentes paragens, o que vai occorrendo até ao pôrto de Drépano, mais a conclusão da narrativa, contêm-se em 34: o remate do poeta e a transição para o livro seguinte contêm-se em tres versos. Ora, sommando todos estes em 547, e sendo o livro de 718, segue-se que os reprovados sam 171. Se aos 547 ajuntarmos os que eu provei que foram injustamente censurados, a consequencia he que o livro III da Eneida he bellissimo como todos os outros; e então o leitor apreciará devidamente a crítica de Mr. Villenave, assim concebida: «Mais le tombeau de Polydore (vem Polymnestor por êrro de imprensa), la fable des Harpyes, le touchant épisode de la veuve d'Hector, le tableau de l'Etna et celui des Cyclopes, où le poëte l'emporte sur Homère, surtout la richesse du style et l'harmonie des vers, empêchent de reconnaître ce qui manque trop souvent de grandeur aux peintures et d'éclat à l'imagination (!!!).» Peço ao leitor que repare que as passagens approvadas, e louvadas nesta futil censura, já comprehendem a maior parte do livro.




NotasEditar

  1. No original, estabelecimentes.
  2. Está parecendo que deveria ser no.
  3. No original, está do.
  4. "Necassario", no original, corrigido na segunda edição.
  5. No original, está portauto.
  6. No original, está Achemnides.
  7. Pode estar faltando o acento: alêm.
  8. O original apresenta este erro tipográfico: «con-consultar».
  9. No original, «Carybdis».
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Livro IV


LIVRO IV.


Já traspassada, em vêas cria a chaga,
E se fina a raínha em cego fogo.
O alto valor do heroe, sua alta origem
Revolve; estampou n’alma o gesto e as fallas;
       5Do cuidado não dorme, não socega.
A alva espanca do pólo a noite lenta,
Lustrando o mundo a lampada phebéa;
Louca á irmã confidente então se explica:
«Suspensa que visões, Anna, me aterram?
       10Que hóspede novo aporta ás nossas plagas?
Quam gentil parecer! que acções! que esfôrço!
Creio, nem creio em vão, provêm dos deuses.
Temor vileza argúe. Dos fados jôgo,
Ai! que exhaustas batalhas decantava!
       15Se em grilhões nupciaes não mais prender-me
Fixo não fôsse em mim, dêsque trahiu-me
Com morte o amor fallaz; ao tóro e fachas
Tedio se não tivesse, eu talvez, Anna,
A esta só culpa succumbir podera.
       20Depois que o meu Sicheu me foi roubado,
Mão fraterna os penates cruentando,
Este único abalou-me, eu t’o confesso,
E a vontade impelliu-me titubante:
Sinto os vestigios da primeira chamma.
       25Mas engula-me o abysmo, antes me arroje
Do Omnipotente um raio ás sombras fundas,
Pallidas sombras do ennoitado inferno,
Que eu te viole, ó Pudor, e as leis te infrinja:
Quem a si conjuntou-me e a flor colheu-me,
       30Comsigo minha fé sepulto guarde.»

Cala, e em seu seio as lagrimas borbulham.
     E Anna: «O’ mais do que a vida irmã dilecta,
Murcharás teu verdor, viuva e triste,
Sem de Venus gozar, sem doces filhos?
       35Crês disto a campa cure e a cinza e os manes?
Bem: magoada enjeitaste esposos tyrios,
E ha pouco Iarbas e outros que em triumphos
Africa nutre: pois tambem repugnas
Ao grato amor? Nem onde estás reflectes?
       40Cá te cérca a pugnaz Getulia invicta,
E a Syrte inhospita e Numidia infrene;
Lá por sequiosa a região deserta,
E á larga soltos os Barceus furentes.
Das guerras que direi que em Tyro engrossam?
       45Das ameaças do irmão? Divino auspicio,
Mercê de Juno, esta arribada julgo
Das quilhas de Ilion. Como a cidade
Verás crescer? com tal consórcio, quantos
Reinos pular? A que auge irá das armas
       50Teucras a glória punica ajudada?
Venia, irmã, pede aos céos, e abençoados
Os sacrifícios, o hóspede agasalha;
De o retêr causas tece, até que as ondas
A invernada embraveça e Orion chuvoso,
       55e, em destrôço os baixéis, embrusque o tempo.»
     Com taes razões lhe atiça o interno incendio,
E alenta de esperança o ânimo dubio,
E desata o pudor. Primeiro correm
Aos delubros, e a paz nas aras catam:
       60Bimas ovelhas rituaes degollam
A’ legifera Ceres, mais a Phebo
E ao pae Lieu, mormente a Juno, guarda
Dos vinculos jugaes. Taça na dextra,
Por entre os cornos de alvadia vaca
       65Verte-a Dido pulcherrima, ou dos deuses

Passêa em face pelas aras pingues;
Sagra o dia a oblações; consulta, as rezes
Pelos peitos abertas, respirantes
Entranhas, congoxosa. Ai! nescios vates!
       70Delubros, votos, á paixão que montam?
Roe as medullas molle flamma, e a chaga
No amago vive tacita. A raínha
Arde insana, e infeliz vaga a cidade;
Qual cerva, a quem de sibilante setta,
       75A atirar o pastor nos cressios bosques,
Varou de longe incauta, e inscio o volatil
Farpão lhe prega e deixa: ella na fuga
Discorre as selvas e dictéas matas;
A lethal canna ao lado se lhe aferra.
       80Ora o guia entre as obras, e as riquezas
Tyrias e prestes a cidade ostenta:
Vai fallar, e se atalha a voz troncando;
Ora, o Sol descahindo, á mesa os casos
D’Ilio outravez sem tino ouvir demanda,
       85E da narrante bôca outravez pende.
Já retirados, quando á Lua obscura
Encolher toca o lume e somno infundem
Cadentes astros, só na vacua sala
Mesta ao sofá se encosta em que elle esteve:
       90N’ausencia o escuta e o vê n’ausencia; ou tendo
No gremio Ascanio, enleva-se na imagem
Do pae, como illudindo o amor infando.
Nem medram tôrres, nem se exerce em armas
A mocidade; os portos não concertam,
       95Nem, defensas da guerra, os baluartes;
Impendentes merlões, fábricas param;
Já não labora a máchina altaneira.
Tantoque a persentiu da peste iscada,
Sem á paixão a fama obstar, Saturnia,
       100Cara espôsa de Jove, nestes termos

Commette a Venus: «Tu e o teu menino,
Certo, eximio louvor e espolios amplos
Ganhais e gran’renome, a ser vencida
Uma mulher por dolo de dous numes!
       105Não me escapou, receaste os nossos muros,
D’alta Carthago a estancia te he suspeita.
Onde isto irá? tantas contendas onde?
Porque antes não firmamos paz eterna
E ajustes conjugaes? Lograste o intento:
       110Ama Dido, o furor nos ossos prende.
Os povos em commum, partindo o auspicio,
Rejamos pois: servir marido phrygio,
Com seus Tyrios dotar-te, se lhe outorgue.»
Venus, sentindo-a cavillar, da Italia
       115Porque o reino transfira ás margens libyas,
Retorque assim: «Quem ha que a tal se furte,
Ou doudo queira guerrear comtigo?
Seja o que lembras, se a fortuna o approva.
Mas traz-me o fado incerta se he do gôsto
       120De Jupiter manter n’uma cidade
Com os de Troia os Tyrios, ou lhe apraza
Os povos confundir ou federal-os.
Es consorte: com preces a ti cabe
Tentar seu pensamento. Anda, eu te sigo.»
       125«Tómo isso a mim, replíca a real Juno:
De effeituar o que urge ao plano attende.
A miserrima Dido ir com Enéas
Caçar propõe-se, mal Titan no oriente,
O orbe arraiando, crástino desponte.
       130Eu com basto granizo atro chuveiro,
No açodar-se o tropel de alãos e tralhas
Cingindo a mata, soltarei das nuvens,
Crebros trovões estremecendo o pólo.
Derramada a companha, ha de abafal-a
       135Noite opáca: o Troiano ir-se-á com Dido

A’ mesma gruta. Eu lá, se teu consenso
Me asseguras, atada em jugo estavel
Lh’a offertarei, sendo Hymeneu presente.»
Não adversando, ao rógo Cytheréa
       140Annúe, e riu do solapado engano.
A aurora do oceano emtanto surge:
Dos mancebos a flor madruga ás portas,
Com laços, redes raras, com venabulos
De larga choupa; os equites massylos
       145Com farejantes cães de trote rompem.
No camarim detendo-se a raínha,
A’ entrada os Penos principaes a esperam;
Em ostro e ouro o palafrem cosido,
Tasca o freio espumante, ardego e fero.
       150Assoma alfim da côrte ladeada:
A chlamyde sidonia lhe circumda
Multicôr franja; á banda aljava de ouro,
Trança em ouro a madeixa, e lhe conchega
Fivela de ouro a purpurina veste.
       155Não falta a phrygia companhia, e alegre
Marcha Iulo. Galhardo mais que todos,
Socio Enéas se aggrega, e a sua escolta.
Phebo, quando abandona a Lycia hiberna
E o caudal Xantho; e, ao visitar a Delos
       160Materna, instaura os coros, pelas aras
Mistos Cressos e Dryopes fremindo
E Agathyrsos pintados; por cabeços
Do Cyntho airoso pisa, e o crino undante
Atilando, enredado em molle folha,
       165De ouro ennastra; o carcaz aos hombros tinne:
Não menos senhoril Enéas ia;
Tanto garbo transluz no egregio rosto!
Chega-se a alpestres montes e ínvias furnas:
Eis, de ingrime rochedo despenhando-se,
       170Bravias cabras pelos picos pulam;

D’alêm cervos, ligeiros a planicie
Transpondo, aos esquadrões pulverulentos
Ennovelam na fuga, e as brenhas deixam.
Mas no ardido ginete o moço Ascanio
       175Dos valles folga em meio; e aquelles passa,
Estes pretere, e anhela que um javardo
Surda espumante d’entre o bando inerte,
Ou que fulvo leão da serra desça.
Entra a embrulhar-se o céo múrmuro e rouco:
       180De involta cahe saraiva e grossa chuva;
E a tyria comitiva e os jovens teucros,
Do medo atropelados, e o dardanio
De Venus neto, agreste abrigo esparsos
Buscam: ribeiras das montanhas ruem.
       185Vam-se á mesma caverna Dido e Enéas;
Tellus sinal deu logo e Juno prónuba:
Corisca, e o ether sabedor das bodas
Fulge, e no cimo as nymphas ulularam.
Este o dia lethal, dos males causa:
       190Reputação, decoro, nada a move;
Nem mais Dido medita amor furtivo;
Chama-o consórcio, e o nome he véo da culpa.
Já corre a Fama as lybicas cidades;
Nem ha contagio mais veloz que a Fama.
       195Mobil vigora, e fôrça adquire andando:
Tímida e fraca, eis se remonta ás auras;
No chão caminha, e a fronte ennubla e esconde.
Da ira dos deuses Terra mãe picada,
Posthuma a Celo e Encelado, he constante,
       200De pés leve engendrou-a e de azas lestes:
Horrendo monstro ingente, que, oh prodigio!
No corpo quantas plumas tem, com tantos
Olhos por baixo véla, tantas linguas,
Tantas bôcas lhe soam, tende e alerta
       205Ouvidos tantos. Pelo céo de noite

Revoa, e ruge na terrena sombra,
Nem os lumes declina ao meigo somno:
De dia, em celsa tôrre ou summo alcaçar,
Sentada espia e as capitaes aterra;
       210Do falso e ruim tenaz, do vero nuncia.
Vária e palreira então com gaudio os povos
Aturde, e o feito e por fazer pregoa:
Que o varão teucro he vindo, ao qual dignava
Juntar-se a bella Dido: e, longo o inverno,
       215Em braços da volupia, em luxo torpe
Se acalentando, os reinos esqueciam.
Isto de bôca em bôca a feia deusa
Diffunde, e o curso para Iarbas torce;
Brada, inflamma-lhe o peito, iras cumula.
       220De Ammon filho e da rapta Garamante
Nympha, em amplo dominio ao pae cem bravos
Templos, cem aras poz; e um fogo eterno
Sagrou, dos deuses vivas sentinellas;
E o solo pingue do cruor das rezes,
       225E em mil festões florentes liminares.
Fóra de si, da nova amarga acceso,
He voz que aos céos humilde alçara as palmas:
«Soberano, a quem brinda a maura gente,
Banqueteada em marchetados leitos,
       230Reparas nisto, ó padre? ou com torcidos
Raios, cegos fuzis, trovões ruídosos,
Por demais nos assustas e apavoras?
Mulher que merca, errante em nossa extrema,
Para exigua cidade um chão foreiro
       235E ara uma praia, as bodas repulsou-nos,
No reino admitte por senhor a Enéas!
E esse Páris, guiando uns semiviros,
Guedelha mádida em meonia mitra
Sob o mento enlaçada, o rapto logra:
       240Templos encher-te, fomentar nos baste

Esteril nome»! - Assim queixoso, e ás aras
Pegado, ouvido foi do Omnipotente;
Que os olhos volve á côrte em que os amantes
A fama esquecem: «Vai, Mercurio, invoca
       245Os zephyros, nas pennas te deslisa,
Filho; e a Byrsa, onde aguarda em ocio Enéas,
Sem respeito ás muralhas concedidas,
Sôbre as azas do vento este recado
Leva-lhe. Tal a genitriz formosa
       250Não nol-o prometteu, nem duas vezes
Para isso o vendicou das armas gregas;
Antes seria quem regesse a Italia
De imperios grávida e a bramir por guerras,
Quem, propagando o altivo sangue teucro,
       255Avassallasse o orbe. Honra tamanha
Se o não incende, nem se afana e lida
No alcance do louvor; he pae de Ascanio
E lhe inveja as romanas fortalezas?
Que faz? que espera entre inimiga gente?
       260Nem lhe importa Lavino e a prole ausonia?...
Navegue: em summa, esta a messagem; parte.»
A’ voz do excelso pae se inclina e apresta:
Calça os aureos talares com que adeja
Sublime sôbre as terras, sôbre os mares,
       265Como rapido sôpro. A vara empunha,
Com que as pallidas almas do Orco evoca,
No Tartaro sombrio outras afunda,
Tira e dá somnos, e da morte o sêllo
Nas palpebras imprime. Afouto as brizas
       270Com ella parte, e os nevoeiros trana.
E já no surto avista o pino e encostas
Arduas de Atlante duro, que em seu tope
Aguenta o firmamento; o velho Atlante
Que de assiduos bulcões tolda a cabeça
       275Pinífera, açoutado de aguaceiros

E vendavaes: de infusa neve a espadoa
Fórra, do queixo precipita rios,
E em caramello enrija horrida barba.
Mercurio, equilibrando-se nas azas,
       280Paira; de chofre atira o corpo ás ondas:
Qual gaivota que, as praias e piscosos
Cachopos rodeando, humilde alêa
A’ flor das aguas; entre o céo e a terra
Cyllenio, ao longo da arenosa costa,
       285Do avô desce materno e os ares sulca.
Assim que a planta alada os palhaes toca,
A fundar casas, torreões, castellos,
Descobre Enéas, cuja espada o fulvo
Jaspe estrellava, e aos hombros a descuido
       290A capa em tyrio múrice lhe ardia,
Lavor das proprias mãos da rica Dido,
De aurea tela a mais fina entrelaçado:
«Que! lanças de Carthago os alisserces
E lindos muros maridoso traças?
       295Teu reino, ah! tudo esqueces! O alto nume,
Cujo acenar abala o Olympo e o mundo,
Veloz do claro pólo a ti me envia:
Que meditas? na Lybia com que intuito
Gastas esse vagar? Se não te excita
       300Glória tanta, nem lidas e te afanas
Trás o louvor, no teu herdeiro attenta,
No pullulante esperançoso Iulo,
De Italia ao sceptro e a Roma destinado.»
Nem acaba o Cyllenio, e os mortaes visos
       305Depondo, em fumo se esvaece tenue.
Deste aspecto hirta a coma, a lingua presa,
Do aviso e mando summo o heroe pasmado,
Ir-se e largar anceia as doces margens.
Ai! que ousará? frenetica a raínha,
       310Com que ambages dispôl-a, com que exordios?

Aqui e alli, por tudo a mente versa;
Muda, varía, alterna, emfim resolve.
Cloantho convocou, Mnesteu, Sergesto;
Que, á surda apparelhando e a marinhagem
       315A’ frota recolhendo, apromptem armas,
Da novidade a causa dissimulem:
Que elle, como romper-se amor tamanho
A bonissima Dido não recêe,
De conversal-a o ensejo tentaria,
       320A senda mais suave e o melhor geito.
Todos com alvorôço as ordens cumprem.
Mas a raínha os dolos (quem a amante
Pode enganar!) pressente, e o que se urdia
Primeiro aventa, e o mais seguro teme.
       325Impia a Fama a exaspera, e lhe delata
Que a vogar se arma a frota. Urra, chammeja,
Debaccha pelas praças, pelas ruas:
Qual Thyas quando, ao sacudir dos vultos
E thyrsos incitada, evoé bramindo,
       330Trietericas orgias a estimulam,
E o Cytheron nocturno a invoca a brados.
Topa a Enéas por fim: «Perfido, exclama,
Poder inda encobrir tam feio embuste
E te escoar do meu paiz contavas?
       335Nosso amor, a fé dada não te embarga,
Nem de Elisa a funesta morte crua?
E até na hyberna quadra as naus fabrícas,
E na fôrça dos áquilos te apressas
A emmarar-te, cruel? Que! se não fôsses
       340A estranho solo e clima, Troia antiga
Se em pé tivesses, pelas crespas vagas
Navegaras a Troia?... A mim me foges?
Por este pranto meu, por essa dextra
(Pois nada já me reservei mesquinha),
       345Por nosso matrimonio, pelas nupcias

Encetadas, se um’ hora te fui doce
Ou bem te mereci, doa-te a minha
Casa em ruína, e, se he que as preces valem,
Despe tal pensamento, eu t’o supplico.
       350Por ti me odeiam nómades tyrannos,
E a Libya inteira, infensos os meus Tyrios;
Por ti mesmo extinguiu-se o pejo, e aquella
Fama que d’antes me elevava aos astros.
Moribunda em que mãos me desamparas,
       355Hóspede?... Este só nome á espôsa resta.
Que mais me falta? que os fraternos muros
Pygmalion me tale? que á Getulia
Seu rei me leve escrava? Antes da fuga,
Se de ti concebera, se em meus paços
       360Pequenino outro Enéas, cópia tua,
Me brincasse, eu de todo escarnecida
Nem em tanto abandono me julgara.»
Dice. Elle, immota a vista e a mente em Jove,
Sopêa a dôr a custo, emfim responde:
       365«Eu nunca negarei favores tantos,
E outros que enumerar, senhora, podes;
Nem de Elisa a lembrança ha de enfadar-me,
Emquanto eu mesmo fôr de mim lembrado,
E est’ alma o corpo reja. A escusa he breve.
       370Nem a furto ausentar-me, tal não penses,
Cuidei; nem pretendi jamais as tedas,
Ou vim nunca em firmar esta alliança.
Se a meu gôsto compôr se me outorgasse
Da vida o curso, preferira em Troia
       375As dos meus cultivar doces reliquias;
Refizera de Priamo os palacios,
Reconstruira Pérgamo aos vencidos.
Mas Grineu Phebo a Italia, a Italia agora
As sortes lycias demandar me ordenam:
       380Este o amor, esta a patria. As libyas tôrres

De Carthago se a ti Phenissa prendem,
Na Ausonia estranhas que os Troianos fundem?
Novos reinos he lícito habitarmos.
A mim do padre Anchises, quantas vezes
       385De humida sombra a noite enlucta o globo,
Quantas surgem igníferos luzeiros,
Insta em sonhos, me aterra a torva imagem;
Turba-me o tenro Ascanio, o vituperio
De cabeça tam cara, a quem defraudo
       390Do hesperico dominio e fataes campos.
Inda ha pouco, da parte do Tonante
O intérprete divino (ambos attesto)
Frechando as auras trouxe-me recados:
A’s claras eu vi mesmo entrando os muros
       395O deus, bebi-lhe a voz nestes ouvidos.
De inflammar cessa a mágoa tua e minha:
Não espontaneo para Italia sigo.»
Emquanto elle discorre, aversa o encara;
Tacitos lumes volve, e o mede e estronda:
       400«Nem mãe deusa, nem Dárdano has por tronco;
Gerou-te o Caucaso em penhascos duros,
Traidor! mamaste nas hircanas tigres.
Que dissimulo[1]? a que desdem me guardo?
Deu-me ao pranto uma lagrima, um suspiro?
       405Da amante se doeu! dignou-se olhar-me?
Que affronta he mais pungente?... Ah! que até Juno
Nem Saturnio isto vê com rectos olhos.
Fé segura não ha. Naufrago e pobre
O recolhi, demente o puz no throno,
       410Do estrago as naus remi, da morte os socios.
Ai! que incendida as furias me arrebatam!
Ora agoureiro Apollo ou sortes lycias,
Ora expedido o intérprete de Jove
Traz pelas auras horridos mandados.
       415Dos supremos que emprêgo! uma tal ância

Quebra o seu repousar. Nem te detenho,
Nem te refuto. Para Italia segue,
Sim, busca imperios pelas bravas ondas.
Se os numes valem pios, certo espero
       420Que entre escolhos supplicios mil devores,
E invoques a miude o nome Dido.
Com negro facho ao longe hei de acercar-te;
E, quando a morte fria aos orgãos solva
O almo alento, ser-te-ei contínua sombra;
       425Terás o pago, hei-de, perverso, ouvil-o,
A nova ha de baixar-me ao centro escuro.»
Nisto, corta-lhe a práctica, á luz foge,
Some-se afflicta, e o deixa embaraçado,
Muito dizer querendo e receando.
       430Levam-na em braços á marmorea alcova,
E a deitam nos coxins desfallecida.
Bem que deseje mitigal-a Enéas
E remover-lhe as penas compassivo,
Sôlto em ais, do amor grande combalido,
       435Cumpre as ordens comtudo, as naus revista.
Afervoram-se os Teucros, desencalham
Celsos baixéis; crenado o casco nada;
Frondentes remos trazem, toscos robles,
No afôgo de abalar. De muda os viras,
       440Da cidade em torrentes borbotando.
Em tulha assim de farro dam formigas
E em casa o põem, do inverno precatadas;
Campêa o negro exército, entre as hervas
Por trilha estreita acarretando a presa:
       445Parte hombros mette e grossos grãos empurra;
Parte urge os pellotões, pune as ronceiras:
Da pressa e afã toda a vereda ferve.
Ao contemplal-o, que sentias, Dido?
Quaes teus gemidos, de cimeira tôrre
       450Das praias enxergando o borborinho

E antolhando com grita o mar fundir-se?
Os mortaes, fero amor, a quanto obrigas!
De novo ao rôgo, ás lagrimas recorre,
Do amor se humilha ao jugo; porque ao menos
       455Por tentar nada fique antes que expire.
«Anna, eis revôlto o litoral; de roda
Concorre a chusma; o brim convida as auras,
E as pôpas já coroa o alegre nauta.
Se eu esperasse, irmã, soffrera o golpe.
       460Anna, um serviço: o ingrato, que te estima,
Só comtigo se abria, só conheces
O modo e ensejo de amolgar esse homem;
Ao suberbo inimigo vai, supplíca,
Por mim lhe falla, irmã: que eu nunca aos Danaos
       465Em Aulide jurei de Troia o excidio,
Nem contra Pérgamo esquipei navios,
Nem os ossos cavei do padre Anchises;
Porque duro a escutar-me se recusa?
De tropel onde corre? A’ triste amante
       470Renda um favor: monção aguarde e fuja.
O trahido hymeneu já não requeiro;
Nem do reino desista e pulchro Lacio.
Curto espaço ao furor, vã tregoa peço,
Té que a sorte me vença e á dôr me aveze.
       475Da irmã tem pena, esta mercê me obtenhas;
Ser-lhe-á paga sobeja a morte minha.»
Taes lamentos, miserrima, taes preces
Anna leva e releva; elle inconcusso
Razões nem chôro admitte: os fados obstam,
       480Um deus lhe obstrue os placidos ouvidos.
Se, de annos rijo o válido carvalho,
Daqui dalli soprando alpinos bóreas,
Extirpal-o porfiam, berram, silvam,
E, do tronco as entranhas sacudidas,
       485Juncam o solo as folhas; aos rochedos

Elle se agarra, e quanto com seu pico
Penetra o ethereo céo, tanto profunda
No Tartaro a raiz: não de outro modo
Assiduas vozes mil o heroe combatem,
       490E a grande alma suspira; a mente immovel
Persiste, e rodam lagrimas baldias.
Dos fados treme Dido e a morte exora;
Da azul abobada aborrece o aspecto.
Na tenção mais se afinca e a luz detesta,
       495Quando o leite (que horror!) nos sacros vasos
Vê negrejar, e os derramados vinhos
Irem-se convertendo em sangue impuro.
Tal visão cala, nem da irmã confia.
Ao defunto Sicheu nos paços houve
       500Marmoreo templo, em que ella se esmerava,
De vellos niveos e festões ornado.
Alli, tantoque a noite obumbra as terras,
Crê perceber queixumes e o marido
Mesto chamal-a, e solitario bufo
       505Nas grimpas feral verso estar carpindo
E com tristura em flebil tom piando:
Cem velhas predicções a aterrorisam.
Enfurecida, o mesmo fero Enéas
Em sonhos a perturba, e se imagina
       510Sempre sózinha, ao desemparo sempre,
Ir por veigas extensas, por desertos,
Em busca dos seus Tyrios. Tal, demente,
Pentheu figura batalhões de Eumenides,
Gêmeo o Sol, duas Thebas: tal, nas scenas,
       515Da mãe foge aos brandões e ás negras serpes
Vexado o Agamemnonio, e as flagellantes
Erinnyes topa ao limiar sentadas.
Mal que á dôr cede e, as furias concebendo,
Morrer decreta, o como e o quando elege;
       520E a triste Anna accorrendo, com disfarce,

De serena esperança a fronte ameiga:
«Os parabens, irmã, que achei maneira
De attrahil-o ou soltar-me desse ingrato.
Nos confins do Oceano, para o occaso,
       525Um lugar derradeiro ha na Ethiopia,
Onde o maximo Atlante ao hombro o ardente
Eixo estrellado vira. Entre os Massylos
Dalli sacerdotiza me inculcaram
Do templo das Hesperides, que os sacros
       530Ramos guardando n’arvore, a comida
Ao dragão ministrava, untada em succo
De mel e dormideiras. Com seus carmes
Solver, gerar paixões; rios promette,
Astros atrás tornar, e infernos manes
       535Revocar: sob os pés mugindo a terra,
Verás descerem da montanha os ornos.
Pelo céo, cara irmã, por vida tua,
Juro que invita á mágica recorro.
Tu lá dentro ergue ao ar secreta pyra,
       540E a roupa e as armas sobrepõe desse homem,
Que impio as deixou na camara pregadas,
E o tóro em que eu perdi-me: do malvado,
A maga o ordena, apaguem-se as memorias.»
Cala, e tingiu-se de pallor. Comtudo
       545Que os funeraes no sacrifício encubra
Nem Anna o crê, nem tal furor suspeita,
Ou nada mais sinistro que na morte
De Sicheu teme: tudo emfim prepara.
Ao ar, com achas de azinheira e pinho,
       550N’um claustro escuso erecta ingente pyra,
Colgado de capellas, a raínha
De rama funebre o lugar coroa;
Não do futuro ignara, sôbre o leito
Colloca a teucra espada, a roupa, a effigie.
       555De altares cérca-se, e em cabello a saga

Toa a invocar trezentas divindades,
O Erebo, o Chaos, e a trina Hecate virgem,
Tergemina Diana. Alli despeja
Simulado licor da fonte Averna;
       560Segadas ao luar com fouce ahenea,
O leite espreme de pubentes hervas,
Veneno tétrico; extrahido ajunta
O amor da fronte de nascente poldro
E subtrahido á mãe. Frouxa a petrina,
       565Mola nas pias mãos, de um pé descalça,
Dido, entre as aras morredora, os deuses
Attesta e os astros, do seu fado conscios;
E, se ha nume que amantes patrocine,
Da ingratidão vingança lhe depreca.
            570Era noite, e em socêgo os lassos corpos
Descansam: dorme a selva, o mar sanhudo;
Em meio gyro os astros escorregam;
Todo o campo emmudece; as alimarias
E aves de côres mil, quanto povoa
       575Liquidos lagos, asperas charnecas,
No silencio nocturno os seus trabalhos
Adormentando, a pena alliviavam.
Só nos olhos ou peito a insomne Tyria
Não colhe a noite: as afflicções lhe brotam;
       580Surgindo e resurgindo o amor braveja,
N’um fervedouro de iras fluctuando,
E a mente em si voltêa: «Que! zombada,
Requestando os primeiros pretendentes,
Hei-de em Numidia mendigar consorcios
       585Tam rejeitados? ou partir na frota,
Conforme ás teucras derradeiras ordens?
Gratos ao beneficio, oh! quam lembrados
Dos meus favores sam! E ha, quando eu queira,
Quem m’o consinta, ou nos suberbos lenhos
       590Execrada me acceite? Nem tu sabes,

Nem inda sentes, misera, os perjurios
Da raça laomedoncia? E então! sózinha
Irei atrás de aventureiros nautas,
Ou com todo o poder dos meus Sidonios?
       595E os que arranquei de Tyro, hei de arriscal-os
De novo, e dar as vélas?... Antes morre,
Que o mereces; com ferro a dôr atalha.
Tu por meu pranto, irmã, tu me aggravaste
O furor e ao tyranno me exposeste.
       600Não podera eu viver de crime izenta,
Como fera, solteira e sem martyrios?
Fementida a Sicheu manchei as cinzas.»
Taes do seu peito as queixas rebentavam.
     Já, tudo a ponto, certo de ir Enéas
       605Adormecia a ré. Torna-lhe em sonhos
E o reprehende a visão: Mercurio he toda
Em vulto, em côr, em voz, na loura coma,
No talhe esbelto e juvenil meneio.
«[2]Como! filho da deusa, em tal perigo
       610No somno pégas? nem, demente! enxergas
O que ha de roda? os zephyros suaves
Não ouves respirar? Perecedoura,
Ella enganos rumina e atroz maldade,
E n’um fluxo e refluxo irosa ondêa.
       615Podes inda, e o fugir não precipitas?
Com madeiros verás turbar-se o pégo,
Tochas luzir, ferver em fogo as praias,
Se a aurora aqui te apanha. Eia, a tardança
Rompe: he sempre a mulher vária e mudavel.»
       620E assim na treva se involveu da noite.
Espavorido acorda: «Acima, alerta,
Brada o heroe; pannos fóra, gente aos remos:
Insta comigo o messageiro ethereo
A que abale no instante e pique amarras.
       625Nós, santo deus, quem sejas, te seguimos,

E ovantes outravez te obedecemos.

Oh! sê propicio e placido, e nos tragas
Faustas estrellas.» Dice, e da baínha
Saca o fulmineo gume e os cabos talha.
       630Tudo arde, á faina acode; as bordas largam:
De naus coalha-se o pelago; estribados,
Varrendo a azul campina, a espuma enrolam.
     Já, de Tithon deixando a crocea cama,
A Aurora de luz nova alaga o mundo:
       635Mal Dido alvorecer e arfar em cheio
Viu da atalaia a frota, e a praia e os portos
Nus da chusma sentiu, quatro e mais vezes
Lacera o bello peito e os aureos fios
Arrepella: «O’ deus summo! ha-de um estranho
       640Ir-se do nosso reino escarnecendo?
Meu povo armas não toma, e o corre e os vasos
Dos arsenaes despede?... Já, de prompto,
Brandi fachos, dai vélas, forçai remos.
Que profiro? onde estou? desvairo insana?
       645Ai! Dido, hoje em ti pesa a mão do fado!
Quando entregaste o sceptro, he que era tempo.
Que fé, que dextra aquella! E he quem se affirma
Que da patria os penates conduzira,
Que o pae caduco aos hombros carregara?
       650E empolgal-o não pude, esquartejal-o,
Pelo mar desparzil-o, os seus á espada
Passar, e o mesmo Ascanio, e por comida
Pôl-o á paterna mesa? Mas do prelio
Fôra a fortuna duvidosa... Fôsse:
       655Vou morrer; qual o medo? A’s naus, de assalto,
De fogo enchera o bôjo; com tal raça
Pae e filho extinguira, e a mim com elles.
     Sol, que lustras o globo e tudo aclaras;
Juno, intérprete e conscia destas penas;

       660Pelas cidades em nocturnos trivios

Tu Hecate ululada, ultrices Furias,
Ouvi-me, ó deuses da expirante Elisa,
Vosso nume volvei contra os perversos,
E attendei nossos rogos. Se he fadado
       665E quer Jove que o monstro, em fixo termo,
Poje em terra, audaz povo o ataque e avexe;
E errante, foragido, arrebatado
Dos abraços de Iulo, auxílio implore,
Veja dos seus os funeraes indignos;
       670Ou, curvo á iniqua paz, não goze o reino
E appetecida luz; mas ante tempo
Caia, e insepulto sôbre a arêa jaza:
Com meu sangue esta praga última verto.
Tyrios! vosso rancor lhe acosse a estirpe,
       675De offerta á cinza minha: a alliança os povos
Nunca irmane. Dos ossos tu me nasce,
Taes colonos persegue a fogo e ferro,
O’ vingador: já, logo, em todo o sempre
Que haja fôrças, com praias travem praias,
       680Ondas com ondas guerra, armas com armas;
Com seus netos, impreco, os meus pelejem.»
Por tudo o ânimo versa, e a têa odiosa
Traça em breve troncar. A Barce falla,
Do bom Sicheu nutriz, que em pó na antiga
       685Patria a sua ficou: «Nutriz querida,
Chama cá minha irmã; que asperja o corpo
Com agua fluvial; não tarde, e as rezes
Venham com ella e as purgações prescriptas:
E tu com pia fita as fontes venda.
       690Os que encetei solemnes sacrificios
A Jove Estygio concluir tenciono,
Findar meus males e entregar á pyra
A imagem do infiel.» Termina; a serva
Com senil zelo accelerava o passo.
       695Trépida e em fera empresa encarniçada,

Vibrando olhos sanguineos, e ás trementes
Faces de nodoas salpicada, o interno
Claustro penetra, pallida a raínha
Já da futura morte, e furibunda
       700Sobe á fogueira, o troico ferro despe,
Não para tal crueza reservado.
No iliaco despôjo e nota cama
Depois que attenta, em lagrimas, cuidosa,
Um pouco está suspensa, e reclinada
       705Finaes vozes[3] repete: «Ó doces prendas,
Quando o queria um deus e o fado, est’alma
Recebei, libertai-me de pezares.
Vivi, perfiz o destinado curso:
Grande irá minha sombra agora ao Orco.
       710Fundei clara cidade, eu vi meus muros;
No troculento irmão vinguei o espôso.
Feliz, ah! mui feliz, se as quilhas teucras
Aqui nunca abordassem!» Dice, e o rosto
No leito impresso: «Inulta morreremos?...
       715Pois morramos, sussurra; assim aos manes,
Assim desço contente. O cru Dardanio
Do mar embeba os olhos nestas chammas,
E estes mortaes agouros o acompanhem.»
Não acabava; e sôbre o estoque as damas
       720A vêm cahir, de sangue as mãos tingidas
E a lamina espumando. O clamor altos
Atrios atroa; ás tontas corre a Fama
De cabo a cabo; com soluços, gritos,
Com femineo ululado os tectos fremem;
       725Todo o ar retumba do alarido e pranto:
Qual, de hostil assaltada, se em ruínas
Carthago, ou Tyro antiga ardesse em alas
Furentes, ateadas nas dos homens,
Nas cumieiras dos deuses. Aturdida,
       730A irmã convulsa, exanime, açodada,

Carpe-se, afeia o rosto, os peitos fere,
Rompe o tropel, á moribunda exclama:
«Irmã, tu me illudias? Que! foi isto
Que aras, tochas, fogueiras me aprestavam?
       735Qual mais doe? o abandono, o desprezares
Por socia a irmã? Teus fados repartisses;
Uma hora, um ferro, uma ancia nos tragasse.
Armei-te a pyra eu mesma, e os deuses patrios
Invoquei, para assim, cruel, jazeres
       740Na minha ausencia? A mim e a ti mataste,
E o povo e os padres e a cidade tua.
Dai-me agua, eu lave o golpe; e nos seus labios,
Se alento algum vaguêa, os meus o colham.»
Não mais, e os degraus salva; ao collo aperta,
       745Beija a irmã semiviva; entre ais enxuga
Na touca o tetro sangue. Os olhos graves
Quiz ella alçar, desmaia: a chaga dentro
Range a golfar. Tres vezes, arrimada
Ao cotovello foi-se erguer, tres vezes
       750Rolou no tóro; e, baça a vista errante,
A luz no céo procura, e achando-a geme.
A omnipotente Juno da agonia
E angústia longa então commiserada,
Do Olympo Iris despacha, que a luctante
       755Alma desate dos liados membros:
Pois nem de merecida ou fatal morte,
Mas subito immatura ah! perecia
De ira accesa; tirado a flava coma
Não lhe tinha Prosérpina, e a cabeça
       760Á Estyge condemnado. Em croceas pennas,
Cambiando côres mil do Sol opposto,
Roscida a nuncia vem parar sôbre ella:
«O tributo a Plutão mandada levo;
Do corpo eu t’o desligo.» Dice, e o corta:
       765Foi-se o calor e evaporou-se a vida.




NotasEditar

  1. No original, "dissímulo".
  2. Aspas ausente no texto original; é provável que elas comecem nesse verso (609).
  3. "Fozes", erro tipográfico.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Notas ao Livro IV


NOTAS AO LIVRO IV.

Este livro he dos mais gabados, porque pinta o amor; paixão que fórma o principal assumpto dos romances e poesias modernas: o hábito advoga pelo poeta, sendo comtudo a causa de algumas injustiças. Nos demais livros consegui exprimir o autor em menos versos que no quarto; porque as paixões ternas sam mais expansivas, os vocabulos portuguezes em taes materias contêm mais syllabas; nem quiz expôr-me ao perigo do brevis esse laboro obscurus fio: em 765 he que pude verter os 705 versos do original, quando em poucos mais ou ainda em menos, effeito da energia e precisão do portuguez, obtive a traducção dos outros, sôbre tudo dos ultimos, que o escritor das Georgicas não teve tempo de emendar, e offerecem algumas redundancias que he mister cercear. Occasião tive de verificar o que asseverava Manuel Severim de Faria: «Esta brevidade, graça e decoro, se vêm praticadas nas comedias de Francisco de Sá e de Antonio Ferreira, e em algumas de Jorge Ferreira.... E quanto ás traducções claramente se mostra, assim nas de verso que fizeram Antonio Ferreira e Luiz de Camões, como nas de prosa do bispo D. Antonio Pinheiro e outros, que a lingua portugueza, se não he mais breve que a latina, ao menos não he mais larga.» 55. — 58. — A paixão de Dido parece mal a alguns, e diz Mr. Tissot: «Il m'est survenu un scrupule sur le fond des choses: Didon devait-elle être ainsi transformée à nos yeux? Je sais que sa passion a été allumée par le plus puissant des dieux, et qu'elle doit être portée aux dernières extrémités; mais ne fallait-il pas conserver à la vertu quelque respect d'elle-même? Une femme si courageuse, une si grande reine, ne devait-elle pas garder quelque soin de sa gloire!..... Dans Valerius Flaccus, une légère précaution suffit pour éviter un reproche au poëte. Il peint Médée semblable à la Bacchante qui résiste à son premier transport, et s'abandonne ensuite au dieu.» — Quiz Virgilio dar uma origem antiquissima ao odio entre Roma e Carthago, e imaginou o abandono de Dido por Enéas, derivando esse odio dos fundadores dos dous estados. Para honra sua, foi a raínha de exemplar virtude, e se resuscitasse com o poeta romano, deveria tentar um pleito e pedir-lhe a injúria; a nós toca averiguar se, dada a ficção, tirou-se della todo o proveito: os mais escrupulosos o affirmam, nem mesmo o duvída Mr. Tissot, apezar das suas restricções. Com o que não me accommodo he com o passe a Valerio Flacco: se este eximiu-se da culpa, com pintar Medéa ao modo da Bacchante que resiste ao primeiro transporte e ao depois se entrega
ao deus, então absolva o crítico ao pobre Virgilio; porquanto, antes de se entregar a Enéas, Dido andou insana pela cidade, consultou entranhas de rezes, fez sacrificios e oblações, sem que nada lhe apagasse o amor; e, se o communicou logo a Anna, só dahi a dias, quando já lhe tinha mostrado e quasi offerecido a nova cidade, he que se foi descobrindo ao amante: se a paixão andou rapida, não foi sem combates e remorsos. Contra Medéa não se empenhou Cupído, como contra Dido, a rogos da propria Venus; o que sobra a desculpal-a e a justificar esta parte da ficção. — Quanto á pergunta se não era mister conservar á virtude algum respeito para comsigo mesma, respondo que Virgilio não faz da raínha de Carthago uma devassa e vil mulher, sem respeito algum á virtude; fal-a uma triste víctima dos deuses, que no meio das mais pungentes mágoas succumbe á violencia do amor; e he por ser uma grande raínha, tam boa e generosa, que mais nos doe a sua dôr, que a sua fraqueza he tragica e tam pathetica. Tanto ella cuidava na sua glória, que preferiu a morte á vergonha. O ser corajosa e magnanima não obsta, infelizmente, a tornar-se a mulher apaixonada e louca; e, ainda mais infelizmente, as proprias suas boas qualidades não poucas vezes lhe tem sido fataes em materias de amor. A nobreza mesma do coração de Dido concorreu á sua perda: o estrondo e fama das desgraças de Troia, que ella já tinha pintadas nas paredes do templo, a vista inopinada do heroe na sua côrte, a semelhança de ambos em terem emigrado, a esperança que lhe suscitou Anna de augmentar a colonia com o casamento, o desejo natural ao seu sexo de enlaçar o seu nome ao nome de um varão famigerado, o esfôrço de Venus e de Cupído, uniu-se tudo emfim para sua affronta e cegueira. As raínhas e senhoras, cujas empresas e feitos tem passado aos vindouros, todas com raras excepções se mostraram filhas de Eva, e muitas o foram sem se matarem. — Mr. de Lamartine (Voyage en Orient, pag. 69; 1835) diz tambem: «Virgile, comme tous les poëtes qui veulent faire mieux que la vérité, l'histoire et la nature, a bien plutôt gâté qu'embelli l'image de Didon. La Didon historique, veuve de Sychée et fidèle aux mânes de son premier époux, fait dresser son bûcher sur le cap da Carthage, et y monte sublime et volontaire victime d'un amour pur et d'une fidélité, même à la mort! Cela est un peu plus beau, un peu plus saint, un peu plus pathétique, que les froides galanteries que le poëte romais lui prête, avec son ridicule et pieux Enée, et son désespoir amoureux, auquel le lecteur ne peut sympathiser. Mais l'Anna soror et le magnifique adieu, et l'immortelle imprécation qui suivent, feront toujours pardonner à Virgile.» — Quando acabei de lêr este julgamento e reflecti sôbre todas as suas partes, me perguntei se com effeito seria do autor das Meditações, e a final vim a crêl-o por tres razões: uma he que o poeta francez tem deixado correr por sua conta um juizo tam estrambotico; a segunda he que he rarissimo um escritor como Horacio, ao mesmo
tempo grande philosopho, grande poeta e grande crítico; a terceira he a epoca em que appareceu a Viagem ao Oriente, quando havia uma nescia prevenção contra os chamados classicos, e Mr. de Lamartine quiz sacrificar ao idolo do dia uma víctima pingue. — Que a Dido historica seja mais santa e respeitavel, ninguem o duvída; mas que seja mais bella poeticamente e mais pathetica, he o que negará quem tiver meditado na natureza humana, quem tiver estudado os poetas, principalmente os tragicos, em cuja alçada entra o pathetico mais a miude. «Quando eu nada mais devesse a Euripides, nos diz Racine, que a idéa do caracter de Phedra, poderia affirmar que lhe devo o que talvez de mais razoavel expuz no theatro. Não me assombra que este caracter fôsse do mais feliz exito naquelle tempo, e que ainda sahisse tam bem neste seculo, poisque tem quantas qualidades requer Aristoteles nos heroes da tragedia, e que sam proprias para excitar a compaixão e o terror. Na verdade, Phedra nem he de todo culpada, nem de todo innocente.» — E eis-aqui um dos mais sublimes genios da França, modêlo em seu genero, achando bello e pathetico o caracter de Phedra, incomparavelmente mais culpada que Dido; a qual, generosa e benéfica e heroica, só contra si peccou e contra seus escrupulos, mas não calumniou o enteado, concorrendo para a sua morte. O bello poetico nem sempre he o bello moral: se o fôsse, não seriam supportaveis os melhores trechos do Dante, muitos de Homero, de Sophocles, de Shakespeare, de Corneille, de Voltaire, de Goethe, e de outros ingenhos desta primeira plana. — He para notar que Mr. de Lamartine, fazendo esta crítica do ridicule Enée, considere bom unicamente l'Anna soror, le magnifique adieu et l'immortelle imprécation qui suivent. O Anna soror do crítico he difficil de saber ao que se reporta: no comêço do livro ha um discurso que principia por estas palavras, mas não he seguido de le magnifique adieu, nem de l'immortelle imprécation; e, no caso de referir-se ao que fica antes da imprécação, a qual abrange do verso 590 a 629, então lá não se trata de Anna soror, trata-se da partida de Enéas ao romper do dia. Isto me convence da pressa com que foi feita a crítica, talvez não tendo á mão M. de Lamartine um exemplar da Eneida para refrescar a sua lembrança. Não achar conforme á natureza o andamento dos amores de Dido em Virgilio, he opinião singular do nosso illustre contemporaneo: Mr. Tissot mesmo, com quantos tem censurado um ou outro lugar do episodio, não se atreve a involver na censura o episodio inteiro. Santo Agustinho, genio superior, sendo bem iniciado e experiente em materias amatorias, com especialidade se deleitava lendo este livro IV. Aqui dou, na traducção de Francisco Manuel, o que delle escreveu o autor dos Martyres, do monumento maior da literatura franceza nestos[1] ultimos tempos: «Pelas ribas, Que o vate descantou de immortal fama, Com a Eneida nas mãos ia Agustinho Ao lago Averno, á gruta da Cuméa, A Elysios
campos, á Acheronte, á Estyge; De Dido acerbos fados lêr mormente Folgava sôbre a lousa desse ingenho, Terno e sublime quando os transes narra Da lastimada misera raínha.» — Mme de Staël, senhora de finissimo tacto, no seu livro da Literatura, dice: «L'émotion produite par les tragédies de Voltaire est donc plus forte, quoiqu'on admire davantage celles de Racine. Les sentiments, les situations, les caractères que Voltaire nous présente, tiennent de plus près à nos souvenirs. Il importe ao perfectionnement de la morale elle-même que le théâtre nous offre toujours quelques modêles au-dessus de nous; mais l'attendrissement est d'autant plus profond, que l'auteur sait mieux retracer nos propres affections à notre pensée.» Estas reflexões concordam com as de Racine no prefacio da Phedra quanto ao pathetico, e igualmente mostram que o poeta pode, não digo ir de encontro, mas aperfeiçoar a natureza (permitta-se-me a expressão) e modificar a história, ora para crear modelos acima de nós por interêsse da moral, ora para commover com a pintura das nossas fraquezas e das nossas affeições. E que! Mr. de Lamartine, quando quer antes ser grande poeta do que máo crítico, não pratíca o mesmo que reprova em theoria? Acaso em suas bellas paginas segue elle sempre a história, sem nada pôr, sem nada tirar? Acaso escreve só a verdade nua e crua, ou lhe prefere ás vezes a verosimilhança, conformando-se ao plano de suas concepções? Se os poetas fôssem coartados nesta liberdade, adeus poesia! — Quanto ás frias galanterias, direi que em toda esta verdadeira tragedia não ha um coloquio amoroso: a primeira vez que ha um dialogo entre Enéas e Dido, he quando ella, pressentindo que a frota vai partir, vem accusal-o de traição, e misturando súpplicas e queixas (admiravel passagem!) acaba por lhe deitar em rosto os beneficios, e sem lhe admittir as desculpas, o ameaça e foge, cahindo nos braços das famulas. Serão estas as frias galanterias da raínha de Carthago? — A proposito desta questão, offerecerei o juizo de Ferreira, cuja musa era a razão esclarecida. Á vista de um retrato de Dido, em nome della, tomando o tom do philosopho que reclama o rigor da história, fez o seguinte epigramma: «Á mão do pintor devo nova vida. Maro me deve a honra diffamada: Nem Dido foi de Enéas conhecida, Nem viu Carthago sua frota errada. Eu mesma me matei, porque sostida Fôsse a fé casta a meu Sycheu só dada; Vinguei sua morte, ergui nova cidade. Valha mais que os poetas a verdade.» Esta optima composição parece provar que o Horacio Lusitano rejeitava esta ficção de Virgilio; porêm não: como philosopho, pugnava pela verdade historica; como poeta, conhecia o proveito que da mesma ficção podia tirar-se, e a seguiu á risca na sua egloga VIII. De ambas as maneiras, patenteou o seu tino e delicadeza em discernir quando cumpre ou invocar a verdade ou ceder aos vôos da imaginação. Mas Ferreira não se contentava só do seu talento, folgava de o temperar com o saber accumulado pela experiencia dos antigos, e escrevia depois de longo exame.

58. — 61. — O povo caçador, mesmo o pastor, guia-se antes por costumes que por leis; o povo agricultor precisa mais dellas: por isso he que Virgilio chama legífera a Ceres ou a agricultura. O adjectivo legislador se applica propriamente á pessoa ou corporação que faz as leis; legífero significa o que traz leis, isto he o que traz a precisão de as fazer: adoptei pois a palavra latina como necessaria. Já temos frugífero, alífero, sagittífero, e outros adjectivos deste cunho.

90-128. — 98-140. — Esta scena entre Juno e Venus, onde cada uma, sôbre tudo Juno, dissimula e tenta chamar a outra ao seu partido, cahiu debaixo da ferula de Mr. Tissot: «Empruntée peut-être d'une riante fiction de l'Iliade, cette scène, peu digne de la gravité épique, n'a ni ce naturel exquis, ni cette grâce naïve, ni ces traits d'imagination, qui donnent du charme à tout dans Homère. L'invention est pauvre et les détails mesquins; le rire malin de Vénus suffit seul pour faire la critique d'une invention convenable tout au plus dans une épopée comique. Junon, el faut l'avouer, se prépare à jouer un rôle assez étrange; Vénus elle-même en est étonnée.» — Antes de tratar do unico reparo positivo que ha nesta parlanda, cumpre lembrar que tanta não he a autoridade do crítico, nem a sua superioridade sôbre Virgilio tamanha, que o dispense de comprovar asserções desta natureza: sob a sua palavra não creio que a invenção seja pobre, nem mesquinhas as particularidades; era mister que isso nos fôsse demonstrado. A'cêrca da positiva censura do riso de Venus, direi que Virgilio, á imitação de Homero e com mais commedimento, presta aos deuses as paixões humanas; porque elles, segundo a sua fabulosa história, tinham fraquezas, commettiam crimes; e não he muito que o poeta a Venus attribua um riso maligno, quando percebeu as segundas tenções de Juno: querer julgar das falsas devindades segundo a idéa sublime da perfeição de Deus, he confundir os seculos e as crenças. O que mais cabe notar he a parcialidade em favor de Homero: poude o bom velho grego dar aos deuses uma risada inextinguivel, quando apanharam em flagrante a mesma Venus e Marte, sem que a scena fôsse peu digne de la gravité épique; poude fazer o sabio Ulysses esbordoar a Thersites, que se assenta choramingando e enxugando as lagrimas, com o inchado vergão nas costas, entre as gargalhadas e vaias dos Argivos; poude pintar a Juno agarrando os braços de Diana com a esquerda, arrancando-lhe o arco e a aljava, chamando-a cadella atrevida. Quem, a não estar preoccupado, negará que tudo isto pertence mais a uma epopéa comica do que o riso de Venus? Todavia não condemno a Homero, poisque empresta a seus deuses os costumes dos homens e retrata os homens desses tempos. De mais, não reputo indigno de um poema serio um ou outro gracejo, comtanto que se use desta liberdade com
discrição: como o fez Camões a respeito de Velloso; como o fizera Virgilio mesmo, no livro V, a respeito do piloto Menetes.

129-159. — 141-178. — Aqui descreve-se a caçada, episodio no episodio principal, com que soube variar o poeta o assumpto deste livro. A Delille remetto o leitor, ou antes a Mr. Villenave, que traz boas cousas sôbre todo este lugar. O verbo madrugar me parece exprimir fielmente o It jubare exorto. O verso 152 tem a onomatopeia conservada no 170 da versão, e em geral guardei a harmonia imitativa de toda esta porção da Eneida.

160-164. — 179-184. — Usei do hyberbaton para pintar a confusão dos caçadores, ao fugirem da chuva que obrigou Dido e Enéas a recolher-se á mesma caverna.

173-188. — 193-210. — Eis uma allegoria, cujas imagens parecem exageradas, mas que se basêa na verdade. Gabando alguns a descripção, pensam comtudo que o monstro enorme, o qual toca o chão com os pés e occulta a cabeça nas nuvens, não podia sentar-se nas cumieiras dos palacios; mas não advertem que a Fama de Virgilio, postoque gigantesca, segundo convinha á irmã de Celo e de Encelado, he levissima e como aeria, com a faculdade de augmentar e diminuir, conforme se colhe do verso: Parva metu primo, mox sese attollit in auras. Assim, podia ella estar sentada em cima dos palacios, não obstante a sua grandeza. — Reparem no contraste entre o verso: Revoa e ruge na terrena sombra, e o que segue: Nem os lumes declina ao meigo somno. Isto me foi suggerido pelos versos de Camões: Não em plectro bellígero de Marte, Mas em suave e doce melodia; onde ha igual harmonia imitativa.

242-244. — 265-269. — Entendo lumina morte resignat como Delille, não como La Rue; que interpreta: ex morte aperit oculos; porque esta virtude da vara de Mercurio está já exprimida no animas ille evocat Orco.

249. — 275. — Duvida-se que haja pinheiros na Africa: se os não ha em toda, os ha no Atlante. Não he pois necessario ler-se penniferum, como insinua Heyne.

266. — 294. — Verto uxorius como o eruditissimo Antonio Ribeiro nas Odes de Horacio, bem que maridoso não venha em diccionarios: significa o mulherengo.

293-294. — 319-320. — Mr. Villenave não contou com o portuguez, ao asseverar que a expressão do poeta aditus et
quae mollissima tempora não podia ser traspassada a nenhuma outra lingua: a traducção me parece ter conservado o arrôjo do original.

331-361. — 363-397. — Esta resposta he bem censurada; e com effeito fôra melhor que o poeta supprimisse os versos onde Enéas affirma que, a não ser o fado, preferiria voltar para a sua patria: sam inexcusaveis, mesmo naquelles tempos em que os heroes tam facilmente sacrificavam as mulheres. Entrando porêm no fundo da questão, deirei que Enéas obrou mal em se deixar vencer do amor e em se involver na precisão de abandonar a Dido, mas que em tal caso peior fôra ficar-se com ella do que seguir as ordens e querer dos fados: que máo conceito não merecera, a têr immolado á paixão o interêsse do filho e de seus compatriotas? O partido que se toma a favor da raínha, he a prova maior da excellencia desta insigne tragedia: o poeta quiz excitar o mais possivel a commiseração para com Dido; e, pelo que toca a Enéas, o seu fim era mostrar o esfôrço deste por vencer, alêm de tantos perigos, uma das paixões mais fortes, só para cumprir com o mais imperioso dever. Concedendo eu que Enéas obrou mal, estou longe de conceder que peccou nisso o poeta: pintando a quéda do chefe troiano e o triumpho que este obteve de si mesmo, apresentou-nos a um tempo a fraqueza humana e o heroismo que a supera. Se Enéas sacrificasse a infeliz Dido ao seu interêsse individual, como de ordinario fazem os homens desamparando as mulheres credulas, fôra um cruel sem piedade; mas elle não podia pôr de parte o bem dos Troianos e a glória da sua descendencia, que em suas mãos tinha depositado o destino.

362-392. — 398-431. — A réplica da raínha e a brusca maneira de cortar as desculpas de Enéas, sam lugares em que os rigoristas não tem podido aferrar o dente, sam de todo conformes á natureza. Taes lances e affectos, imitou-os Racine, Lefranc de Pompignan, e muitos outros.

402-407. — 441-447. — «Alguns commentadores, diz Mr. Villenave, tem achado esta bella comparação pouco digna da epopéa; sem attenderem a que na Iliada Homero tira uma comparação das moscas, e que Apollonio nos Argonautas as tira das moscas e das formigas.» Eu accrescento que não eram precisos taes exemplos para justificar a Virgilio: a comparação dos Troianos, carregando o necessario para a partida, com as formigas ao levarem o sustento para as cóvas, he da mais perfeita justeza; e o fino gôsto de Camões imitou o poeta romano com felicissimo exito.

408-436. — 448-476. — Fallando do Littora et vacuos sensit
sine remige portus, assevera Delille que Virgilio he inferior a Catullo, quando pinta a mágoa de Dido á partida de Enéas, por se contentar de a fazer contemplar da tôrre a frota que largava as praias; e que então o poeta se dirige á amante abandonada, perguntando-lhe o que sentia naquelle momento. Confundiu o traductor francez a passagem que vai adiante com a presente: he nesta que Virgilio pergunta á raínha o que experimentava, não quando partia a frota, porêm antes, quando a chusma acarretava o necessario para a viagem. A pergunta não foi na occasião da sahida; pois Dido ainda mandou a irmã fazer proposições a Enéas, e não tinha chegado ao último apuro a sua desesperação. Mas quando o heroe ficou inabalavel, Dido, em vez de subir a uma montanha para com os olhos seguir a nau que desaparecia, em vez de desmaiar e enfurecer, em si recolheu toda a sua dôr, concebeu o projecto de se matar, e dissimulando o poz em execução: isto he mais forte e mais terrivel do que o fez Ariadna. A preferencia dada a Catullo não he portanto justa, bemque por alguns tenha sido abraçada sem exame. O que ha em Catullo de melhor que em Virgilio, he a passagem: Omnia muta, Omnia consternata, ostentant omnia mortem, ainda mais bella que o verso: Littoraque et vacuos, etc., que representa a mesma idéa; e tambem a comparação de Ariadna com a effigie de pedra de uma Bacchante: em tudo o mais he Virgilio superior a Catullo, mais terrivel e mais pathetico. — Os diccionarios latinos trazem videre com a significação de ouvir, e todos citam a Virgilio, sem dúvida fundados neste lugar: Prospiceres arce ex summa totumque videres Misceri ante oculos tantis clamoribus aequor. Eu penso que o verbo videres não significa ouvir; mas que exprime uma fina observação do poeta. Quando ha um ruído que se não ouve bem, feito pela multidão, os movimentos e os gestos, percebidos pela vista, ajudam a ouvir e a destinguir os sons: he isto o que pinta Virgilio, e a minha versão he neste sentido. — Viri do verso 424 he omittido pelos traductores, sendo comtudo essencial; porque Dido com esta palavra exprobra a dureza ordinaria dos homens para com as mulheres. — Leio o verso 436: Quam mihi cum dederit, cumulatam morte remittam, referindo cumulatam a veniam, e traduzo o lugar á maneira de Delille e de Mr. Tissot. 440-449. — 479-491. — «Aqui Virgilio, para desculpar a Enéas, não se contenta com dizer que este obedece aos deuses, accrescenta que um deus lhe tapa os ouvidos ás preces de Dido. Não se podia melhor pintar aquella virtuosa inflexibilidade, do que pela comparação que se segue, tam insigne pela belleza das imagens como pela harmonia.» Tal he o parecer de Delille; o de Mr. Tissot, em cujas palavras jura Mr. Villenave, he o contrário: «Quem se poderia comparar a um carvalho já velho, he Anchises, não Enéas,
no vigor da idade; Enéas, reposto em todo o brilho da mocidade por sua mãe. Aliás, o heroe aqui tam pouco de grandeza ostenta, que não merece um parallelo tam ambicioso. Duas mulheres a chorar e a supplicar não se assemelham aos aquilões soltos sôbre os Alpes: apenas se poderia soffrer esta imagem, se se tratasse de duas amantes furiosas e desesperadas, como Camilla e Hermione... A exageração minuciosa aggrava mais a falta do poeta; que a leva ao cúmulo ajuntando que Enéas, exposto a continuos assaltos, sente uma dôr profunda; supposição desmentida no momento por estas palavras: Il reste inébranlable, et seulement quelques larmes inutiles coulent de ses yeux. — A maior parte desta crítica nasce de não ter seu autor meditado no texto. Uma arvore muito nova não tem robustez; he preciso têr chegado (peço venia) á sua virilidade para chamar-se válida: o válido carvalho de Virgilio não era velho, estava na fôrça dos annos, unico sentido da expressão annoso robore; e assim he bem comparado com Enéas, que não estava na primeira mocidade, mas na que se tem nomeado a idade heroica, isto he cêrca dos quarenta annos; porquanto, sendo homem feito e casado no comêco da guerra que durou dez annos, e tendo-se já passado sete depois do triumpho grego, he evidente que andava pelos seus trinta e seis a trinta e oito. Com Anchises he que fôra uma sandice comparar o válido carvalho no vigor da idade; com Anchises, decrepito e paralytico, fugindo carregado por seu filho: o carvalho comparavel a Anchises seria um já carcomido, que fôsse extirpado pelos aquilões, e não um tam rijo que resistiu aos ventos dos Alpes. Quanto á incongruencia de assemelhar Enéas a um carvalho, parallelo que o crítico appellida ambicioso, atrás já refutámos as razões em que se estriba a sentença; e repito que elle obrou mal em se enamorar de Dido com quem não podia casar, mas cumpriu um dever sacrificando a paixão ao interêsse do filho e dos seus nacionaes, e portou-se briosamente esforçando-se por vencel-a: do contrário, merecera que os Troianos o apedrejassem. — Se o poeta assemelha as preces e arguições de Dido, por intermedio e bôca de Anna, aos embates dos furacões dos Alpes, não he por serem de duas mulheres, he pela fôrça que havia nessas preces e arguições; as quaes punham patente aos olhos do amante a mágoa da infeliz Dido e o damno que elle fizera com o seu êrro e fraqueza. Ora, a fôrça dessas razões he que lhe commovia o coração, he que lhe fazia verter as lagrimas que nada remediavam a dôr e desgraça da raínha. Neste ponto Mr. Tissot não fez a differença que faz o poeta: o que era inabalavel foi a resolução de partir, que lhe aconselhava o interêsse dos Troianos; mas o coração do heroe estava grandemente commovido, segundo se vê do verso: «Multa gemens magnoque animum labefactus amore.» A phrase mens immota se refere á razão, á potencia intellectiva de Enéas, não á sensibilidade de sua alma. Mr. Tissot he que traduziu incorrectamente: Il reste inébranlable;
devera dizer: A sua razão, ou a sua mente, ficou immovel; isto he que, posto fôsse profunda a sua mágoa, os esforços da razão o tinham tornado firme e inconcusso, ajudado mesmo por um deus que lhe fechava os ouvidos ás palavras de Anna. Elle até quiz vêr se conciliava o amor com o dever de ir buscar a Italia, e por via de Anna propoz a Dido que se embarcasse e o seguisse, como o demonstra o verso 537 e os seguintes; mas a nobre e generosa raínha, recusando ou deixar os seus ou fazel-os de novo entregar-se aos mares e aos acasos, preferiu a morte. Esta proposta de Enéas, do embarque de Dido, não tem sido attentada pelos criticos e commentadores que conheço.

450-503. — 492-548. — La Rue, cujos commentarios tem voga nas escolas do Brazil e de Portugal, traz muitos esclarecimentos sôbre todos estes versos; e como nada tenho que refutar ou accrescentar, ás suas notas remetto o leitor, ou a La Cerda ou a Mr. Villenave, que as trazem curiosas e eruditas.

518. — 564. — O in veste recincta tómo no sentido em que Nascimbeno e os antigos o tomaram; não achando sufficiente, para enjeitar-se a interpretação commum, a razão de que era preciso colher o vestido a fim de se vêrem os pés nus; sendo mais forte para mim o que diz o mesmo Nascimbeno, isto he que nihil in sacrificiis non solutum esse oportebat. — Sôbre este sacrificio e magica, descriptos neste verso, nos de cima e nos subsequentes, de novo remetto o leitor aos intérpretes citados; e peço licença para o adjectivo pubentes: convinha conservar a idéa de Virgilio, que assim compara a lanugem das hervas com o buço dos adolescentes.

555. — 605. — «Jupiter e o destino, exclama Mr. Villenave, acaso lhe ordenavam esta ultrajante insensibilidade? Aqui nem se vê o homem nem o heroe..... Elle dorme tranquillo em seu navio, até que Mercurio o desperte.» De vagar, senhor crítico, de vagar: o carpebat somnos, colhia o somno, pegara no somno, sam expressões que não indicam um dormir pesado, e os sonhos, de que despertou sobresaltado, provam de sobejo que Enéas não dormia tranquillo. Tinha trabalhado muito nos preparativos da viagem, tinha-se affligido muito com os pezares e queixumes da raínha: fatigado pois de corpo e de espirito, o pegar no somno está bem longe de mostrar nelle insensibilidade, antes he um effeito e consequencia dessa fatiga; o somno em taes casos he caminho que a natureza busca para allivial-a. Medicos experientes, de saber e de gôsto, a cuja autoridade recorri sôbre este ponto, me fizeram vêr que, depois do cansaço e de tantas afflicções, o adormecimento não era indício de dureza; que uma boa parte dos condemnados á morte,
apezar do terror, não deixam de adormecer, e ás vezes profundamente, como aconteceu ao marechal Ney, a quem vieram despertar para o matarem. Virgilio, que a tam variados conhecimentos ajuntava os da medicina, soube o que escrevia e o fez com madureza; e, introduzindo na acção a Mercurio que por ordem suprema adverte a Enéas do perigo e intíma-lhe que parta, o poeta nos deixa entrevêr que nesse adormecimento, aliás natural, interveio o destino. Tudo portanto he conforme á razão e á natureza, e não merece a menor censura.

586-629. — 635-681. — He aqui a famosa imprecação de Dido, ao enxergar de cima de uma tôrre a frota que se ia apartando. Mr. Tissot, com a sua usual sem-ceremonia, suppõe em Enéas o dom da ubiquidade: «Que papel, nesse momento, representa um heroe que attrahiu sôbre si tam cruéis ameaças?» Respondo que nesse momento, estando elle a navegar, não podia ouvir as ameaças da raínha, e o papel que representava era o de um chefe que, se bem compungido e com sinistros presentimentos, conduz os seus compatriotas a um lugar promettido pelos fados, cumprindo assim um restricto dever. Pasma o crítico de que Enéas, o homem do destino, a quem Jupiter fez tam magníficas promessas, fuja carregado de maldições: e o que devia elle fazer? Enéas não ouvia essas maldições, e se as ouvisse, não havia de voltar para Carthago, frustrando assim a esperança e os interêsses dos que nelle se tinham confiado; e, por mais que se esforçasse, era-lhe impossivel apaziguar a amante exacerbada, salvo se ficasse com ella e trahisse os Troianos. Escolha Mr. Tissot.

664. — 719. — «O poeta, pondera Mr. Villenave, parece esquecer que Dido afastou todas as mulheres do palacio e todas as testemunhas do horrivel sacrificio que meditava.» Eu digo porêm, com os olhos no texto, que o poeta não afastou todas as mulheres; afastou sim a irmã e a Barce ama de Sicheu, não do palacio, mas do claustro em que accendera a fogueira, porque estas duas deviam estar perto e baldariam o sacrificio; e quanto ás outras mulheres, como lhes cumpria ficar no posto em que a raínha as collocara, não ouviam as palavras de Dido sôbre a fogueira, e só conheceram a funesta resolução no momento de ser executada, e então romperam em grande alarido. A infeliz, dissimulada e precavida, não quiz mandar embora as mulheres para não despertar a desconfiança das duas mais attentas. Considere-se o lugar da scena, e ver-se-á que as damas, em um espaçoso claustro, podiam estar á vista e comtudo em uma distancia que as impedisse de ouvir: ellas criam que a senhora desempenhava o rito magico, e não que se despunha a morrer. Todas estas cautelas provam a irrevogavel tenção da raínha, e augmentam o terror.

Permitta-se-me agora terminar as observações a este livro IV mostrando a injustiça de Delille para com Luiz de Camões.[2] Delille, cujas reflexões ácêrca desta parte da Eneida sam as mais justas e recommendaveis, conclue a sua analyse pelos poetas que tem imitado o romano, e diz assim: «Todos os epicos julgaram dever consagrar um dos seus cantos ao amor: Camões faz tambem desembarcar os Portuguezes em uma ilha, onde as Nereidas imflammadas por Venus e Cupído, de concêrto com o Padre-Eterno, se esforçam por demoral-os. Independente da mistura monstruosa das divindades do paganismo com a religião christã, este episodio se descreve com tam pouca circumspecção, que a ilha encantada dos Lusiadas muito mais se assemelha a um alcouce que a uma residencia de deuses. Comparar iguaes producções ás de Virgilio fôra ultrajal-o.» — Delille não leu a Camões, como acontece á maioria dos Francezes que de Camões fallam; os quaes, logoque se trata do Homero portuguez, clamam: «Como he bello o episodio de Ignez! E o do gigante Adamastor!! Assim não tivesse o poeta confundido o paganismo com o christianismo!» Tudo isto porêm não he delles, he apenas o apressado juizo de Voltaire com emphase repetido. Delille fez mais que lêr a Voltaire, leu a pessima e ridicula traducção de La Harpe, e leu-a mesmo sem attenção. — A ilha dos amores não he imitada de Virgilio, he totalmente original; nem pode ser confrontada com o episodio de Dido, por ser materia hetorogenea. O grande epico imagina que Venus, a protectora dos Portuguezes, fez nascer no meio dos mares uma ilha encantada em que os seus valídos repousem das fadigas da viagem, e com auxílio de Cupído inflamma[3] as Nereidas; as quaes, vencidas dos navegantes, em dansas e tangeres, os recebem e alegram, rendidas ás suas caricias. A descripção do pomar e jardim, a das nymphas que, estando a banhar-se, se escondem n'agua para não lhes apparecerem nuas; a pintura das aves e outros animaes, tudo, tudo he primoroso. Se Camões porêm neste episodio não imita o seu mestre, com elle se assemelha no estilo, sempre conciso e imaginoso; a harmonia imitativa he tanta e perfeitissima, estupenda a variedade,[4] a melodia inteiramente virgiliana. Quam poetica não he a lembrança de introduzir Thetys, a espôsa de Neptuno, acolhendo a Vasco da Gama com pompa honesta e régia, e tomando-o pela mão para lhe explicar a rica fábrica do mundo! O descobridor da nova róta das Indias merecia bem estas honras da parte da raínha do oceano. Quam sublime não he o canto da nympha (a quem, pela voz, Camões chama angelica Sirena, e alguns críticos tem crido ser uma serêa) quando vaticina as façanhas futuras dos Portuguezes! Aqui he que o poeta imita a Virgilio no livro VI da Eneida, mas com quanta originalidade! — Ora, comparar tudo isto aos amores de Dido he comparar uma tragedia com um idyllio, uma nenia com um hymno de alegria. Em vez de recorrer a Voltaire, genio extraordinario, mas
que se enganou lendo os Lusiadas por uma inexacta versão ingleza; em vez de recorrer ao pedantesco[5] juizo de La Harpe, e a estas miserias de Delille; em vez de recorrer ás inexactidões de Sismondi, o qual confessa não ter lido muitas das obras que se atreve a criticar, todo Francez que ignora o portuguez, se quizer conhecer a Camões razoavelmente, recorra a Mr. Ferdinand Denis, seu autor o mais instruído nas cousas do Brazil e de Portugal, ou tambem á traducção de Mr. Millié, bem como ás notas que lhe vem annexas: nellas falla-se da ficção da ilha encantada, mostra-se que he uma allegoria desconhecida pelos criticos, e defende-se o autor ácêrca da mistura do christianismo com o paganismo. Verdade he que uma ou outra vez algum máo uso faz elle da fábula, defeito que lhe era commum com os contemporaneos, e que se lhe lança em rosto exclusivamente; mas he tambem verdade, como notou o sagaz ingenho de Mme de Staël, que só emprega o maravilhoso do paganismo na pintura dos prazeres, e o do christianismo nas cousas graves e sérias da vida: o heroe Vasco da Gama, por exemplo, nunca se dirige a Mercurio ou a Jupiter; e para a ficção da ilha dos amores não houve concêrto do Padre-Eterno com Venus e Cupído, como inexactamente o affirma o paraphraseador da Eneida. O seu triste juizo a respeito de Camões foi para mim uma occasião de grande prazer, o de lêr mais uma vez o episodio da ilha dos amores. — Se Delille tivesse meditado, e não se contentasse de ostentar a este respeito uma falsa erudição, observaria que, a ser este canto indigno de emparelhar com a poesia de Virgilio, não teria sido o modêlo da ilha de Armida. A idéa principal tirou-a Tasso de Camões, a quem tanto amava, e do poeta latino imitou muitos rasgos sensiveis; tecendo porêm tudo com tanta arte, e do seu accrescentando bellezas taes, que esta parte da Jerusalem, não sendo a ilha do bom Luiz, como elle chama o seu unico rival nesses tempos, nem o livro IV de Virgilio, he um dos melhores trechos entre antigos e modernos. Na mesma passagem em que Delille tanto se desmanda, affirma que o palacio encantado, obra do Amor, tam caro a Armida, emquanto he habitado por Reinaldo, e entregue ás chammas depois da sua partida, he uma das idéas mais felizes concebida jamais por nenhum poeta epico. — Postoque seja uma digressão, consintam-me refutar esta affirmativa; refutação que redunda em honra da literatura da nossa lingua. Francisco de Moraes, no Palmeirim de Inglaterra (em prosa, mas bella composição poetica do genero epico) concebeu o palacio de Leonarda; palacio encantado onde essa princeza, fructo de um amor infeliz, foi encerrada, e que tambem desappareceu, depois que ella desencantada sahiu dalli para casar. A imaginação do poeta portuguez não he menos fertil que a do italiano, e a aventura da copa, que precede ao desencantamento, he igual ao melhor de Ariosto. A mais atreveu-se[6]
Francisco de Moraes, compoz dous desencantamentos, este que mencionámos, e o da mesma Leonarda pelo cavalleiro do selvagem e por Daliarte do Valle-Escuro; isto com tal invenção, que nos dous desencantamentos não ha lance em que um se pareça com o outro. Não he de balde que Cervantes queria uma caixa onde o Palmeirim fôsse guardado com as obras do poeta Homero; não he de balde que Walter-Scott falla delle com tanto louvor.

Quem attentamente examinar o episodio de Camões e o poema de Moraes, autores que escreveram antes do Tasso, verá que este se aproveitou assim de um como do outro, se bem de um modo magistral e com toques originaes. O palacio de Armida não he o mesmo que o de Leonarda, mas offerece muitos pontos de contacto; e no desencantamento da selva, operado pelo bravo Reinaldo, bem se conhece que não foi inutil a Tasso a leitura de Moraes, assim como a este não o tinha sido a do Orlando furioso. Os poetas aprendem uns dos outros; o que nada obsta ao talento e á fôrça creadora; antes, como diz Mme de Staël, fallando de Petrarca e de seus profundos estudos, conhecer muito serve para inventar, e o genio he tanto mais original, quanto, semelhante ás fôrças eternas, sabe estar presente a todos os seculos.

Ao concluir esta refutação, não quero dissimular que na ilha dos amores ha quatro ou seis versos condemnaveis, por contêrem idéas lascivas, se bem exprimidas com palavras decentes; e não he só nesta linda composição que deve ser Camões reprehendido por taes descuidos, de que Virgilio nunca lhe deu o exemplo. Esses versos comtudo não podem embaciar o esplendor de um episodio que abrange boa parte do canto nono e entra muito pelo decimo, no fim do qual ha pensamentos grandiosos, da mais bella poesia e da moral mais sublime.




NotasEditar

  1. É um possível erro tipográfico: nestes.
  2. No original está Comões.
  3. Mais acima, está imflammadas.
  4. No original, está variadade.
  5. No original, está pedandesco.
  6. No original está atraveu-se, erro tipográfico.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Livro V


Firme o heroe já dirige ao meio a frota,

Com o Aquilão talhando as negras vagas;
Olha atrás, e da pobre Elisa os muros
Em chammas vê luzindo. A causa os Teucros
       5De tanto incendio estranham; mas conhecem
O amor polluto como doe, o que ousa
Feminea raiva, e triste agouro tiram.
  Some-se a terra aos empégados lenhos,
Tudo he céo, tudo he mar; torvo negrume
       10Sôbre as cabeças borrascoso pésa,
E horrenda espessa treva ennoita as ondas.
Té lá da pôpa o cauto Palinuro:
«[1]Hui! que feia tormenta enlucta o pólo!
Tu que ameaças, Neptuno?» Dice, e a tolda
       15Manda desempachar, pôr peito aos remos;
Mette á orça, e voltou-se: «Inclito Enéas,
Nem que m’o affirme Jove, eu não prometto
C’um tempo destes abordar a Italia.
De travez salta o vento, engrossa e ruge
       20Do atro Vesper, e o ar se ennubla e densa.
Nem aguentar-nos nem surdir podemos:
Quer e acena a fortuna, ora de rumo
Toca a mudar. Não longe as d’Eryx julgo
Fraternas praias, a fiel Sicania,
       25Se os remedidos astros não me illudem.»
A quem Enéas: «Claro observo há muito
Que o pede o vento, e por demais resistes:
Ronda e curva o caminho. Onde mais doce
As lassas naus refocillar me fôra

       30Que no grato paiz do troico Acestes,

Dos ossos de meu pae jazigo amado?»
Zephyro, então servindo, o panno atesa:
Por vagalhões a frota ao pôrto voa,
E alegre emfim atraca á nota arêa.
       35De excelso cume enxerga os socios vasos,
Admira a vinda, e em pelle de ursa libya
E em dardos ouriçado, accorre Acestes.
Que em mãe teucra o gerou Crimiso rio
Não lhe esquece: os parentes que alli tornam
       40Gratulando consola, e com refrescos,
Lhana agreste abundancia, acolhe e trata.
O albor os astros mal do eôo expulsa,
De toda a praia os seus convoca Enéas,
E de elevado combro assim lhes falla:
       45«Dos deuses prole, ó Dárdanos sublimes,
A annual vólta os mezes completaram,
Dêsque as reliquias de meu pae divino,
Funebre altar sagrando, sepultámos.
Se não érro, eis o dia (oh! céo, quizeste-o)
       50Sempre agro para mim, sempre solemne.
Fôsse eu nas syrtes Gétulas banido,
No seio Argolico e em Mycenas preso,
Celebrara com pompa o anniversario,
De acceitos votos cumulando as aras.
       55Não, dos deuses não foi sem providencia
Esta nossa arribada a pôrto amigo:
Junto ás cinzas de Anchises nos achamos.
Eia, a memoria sua honremos todos:
Peçamos-lhe bom vento, e em novos muros
       60Templos dicar me outorgue, onde cad’anno
Estes meus sacrificios lhe offereça.
Duas rezes por nau vos dá benigno
O hóspede e sangue nosso: os patrios divos
Convidai para a festa, e os que elle adora.
       65E, se arraiando o mundo a nova aurora,

Limpo o dia trouxer, proporei jogos,
Pela esquadra ligeira começando:
Quem agil tenha o pé, quem destro e forte,
Ou tire o dardo e a setta, ou mais se atreva
       70A cru césto brigar, nenhum se exima;
Devido premio cada qual espere.
Orai, silencio! as frontes enramai-vos.»

Cessa, e velou-se do materno myrto;
Helymo, o ancião Trinacrio, o moço Ascanio
       75Fel-o, e a mais juventude. Infindo povo,
Mesto cortejo da assembléa o seguem
Para o sepulcro. Alli de mero baccho,
Libando em regra, jarras duas vasa,
Duas de leite fresco, cheias duas
       80De cruor sacro, e esparge rubras flores:
«Salve, dice, alma santa, ó sombra salve,
Cinzas do caro pae, que em vão recóbro!
Comtigo não me coube entrar na Italia,
Gozar desse fatal ausonio Tibre.»

       85Subito, em roscas sete e sete gyros,
Sahe de imo penetral vultosa cobra;
Mansa o túmulo abraça, pelas aras
Lúbrica resvalando: azul o dorso,
A maculada escama em aureas pintas
       90Fulgura accesa; o arco assim nas nuvens
Toma do opposto Sol mil várias côres.
Della Enéas pasmou. Desenrolando-se
Entre os copos serpêa e lisas taças,
E, iguarias e altares delibados,
       95Busca o túmulo e innócua se recolhe.

Incerto se he de Anchises a ministra,
Se o genio do lugar, mais fervoroso
Ao pae renova as honras: cinco ovelhas
Bimas conforme ao rito: cinco porcos,
       100Tergi-nigrantes corta almalhos cinco;

Vinhos das copas vérte, e a alma evoca
E do Acheronte os remettidos manes
Do grande genitor. Segundo as posses,
Ninguem se escusa: as aras espontaneos
       105De dons oneram, víctimas derribam;
As caldeiras em fila outros collocam,
Ou, na relva espalhados, em brazidos
Viram espetos e as entranhas assam.
Alvo o dia anhelado já conduzem
       110De Phaetonte os cavallos; e os vizinhos
O ruído alvoroça, e o claro nome
De Acestes: quaes por vêr o heroe e os socios,
Quaes promptos ao certame, a praia inundam.
Laureas no medio circo se alardêam,
       115Trípodes sacras, preciosas palmas
Aos vencedores; vestes purpurinas,
Talentos de ouro e prata, e ricas armas:
D’alto apregoa a tuba e os ludos canta.
O pário encetam com pausado remo
       120Quatro cascos irmãos, da frota eleitos.
Mnestheu, que de Italo o appellido teve,
Mnestheu, de Memmio tronco, a veloz Pristis
Com acre chusma; e a gran’Chimera Gyas
Manda, mobil cidade e mole immensa,
       125Que os Teucros jovens de concerto impellem,
Com tres acclamações ás tres pancadas
Da voga desferida: autor Sergesto
Dos nobres Sergios, na Centauro ingente;
E na azul Scylla embarca-se Cloantho,
       130Que he, Romano Cluencio, a origem tua.
Contra a espumosa praia, alêm demora
Penedo, que submerso, emquanto o hyberno
Cauro os astros esconde, o açoutam vagas
Tumidas: calmo o tempo, adormecido
       135Cala, e da immovel onda um campo surge,

De apriscos megulhões jucundo pouso.
Lá de frondente azinho o padre aos nautas
Poz verde meta, que o regresso marque,
Depois de em longo cêrco o tornearem.
       140Regra os postos a sorte; e á pôpa alçados,
Ostro e ouro trajando, os cabos fulgem.
De choupo engrinaldada, a mais companha
Nus reluzindo em oleo ostenta os hombros:
Abancam-se, estirando ao remo os braços
       145E ouvidos ao sinal; da ância de glória,
Do afôgo e susto, os corações latejam.
Ao clangor da trombeta, eil-os despedem;
Os ares fere a nautica alarida;
Revôlto o mar ao retrahir dos buchos,
       150De iguaes sulcos trilhado, alveja e ferve,
Dos remos todo e dos tridentes rostros
Convulso e hiante. Em bíjugo certame,
Carros do carcere precipitados
Na liça menos desinvolto rodam;
       155Nem tanto aurigas, aos fogosos tiros
Undantes loros sacudindo, pendem
Pronos a verberar. Do estrondo e applauso,
Do parcial favor consôna o bosque:
O eccho, nas praias concavas rolando,
       160Repulsado retumba nos outeiros.
Entre os vivas da turba, avante Gyas,
Primeiro escoa-se: ao depois Cloantho,
Melhor de remo, se o pinho o retarda
Ronceiro. Á cola, a Pristis e a Centauro
       165Competem no marchar: vence ora a Pristis,
Ora a Centauro; ou pares, frente a frente,
Aram com buco extenso os vaos salgados.
Aproximam-se á meta, e ao pé do escolho,
Já no perau, o dianteiro Gyas
       170Grita ao piloto: «A’ dextra assim me empuxas?

Anda a bombórdo; a pá que rasque as penhas;
Abeira a praia: quem quizer se amare.»
Ordens vãs; teme o velho occulto banco,
Desvia ao largo a proa. «Onde, Menetes,
       175Onde ao revez te vais? Á esquerda, ás pedras.»
Gyas brama e rebrama; e olha a Cloantho,
Que interno, á sestra, forcejando o aperta;
Que entre as sonantes lages e a Chimera
Deslisa, e a meta subito pospondo,
       180O pretere, e em mais fundo vai nadando.
Nos ossos arde ao moço a dôr violenta,
Não sem agua nas faces; e esquecido
De si, do commum risco, o frouxo mestre
D’alta pôpa despenha, e salta ao leme:
       185Piloto, os nautas exhortando, o clavo
A’s praias torce. A custo acima veio
Menetes já pesado; e, gottejando
O mádido vestido, á roca trepa,
E em sêcco alli se assenta. A rapazia
       190Riu do seu tombo, do mergulho e nado,
Riu das salsas golfadas que alijava.
Atrás, Mnestheu, Sergesto aqui se inflammam,
A Gyas contam superar moroso.
Junto ao cachopo, não com todo o casco,
       195Sergesto avança; em parte só, que em parte
O cerra com seu beque émula a Pristis.
Mnestheu de banco em banco a gente incita:
«Forçai-me a voga, Hectoreos verdadeiros,
Que de Troia escolhi no extremo arranco:
       200Mostrai-me agora o brio, o alento agora,
Qual nas Lybicas syrtes, qual no Jonio,
Qual do Malea em correntes impulsoras.
Mnestheu já pela palma não contende:
Oh! se eu... primem, Neptuno, os teus mimosos.
       205Ser derradeiro, amigos, he vergonha:

Poupai-nos o labéo.» Quem mais, se afanam
Deitados sôbre o remo; aos vastos golpes
Retreme a bronzea pôpa, o chão subtrahe-se;
Crebro o anhelito abala os membros todos,
       210E as bôcas sécca; em bica o suor mana.
O acaso trouxe o lanço a que aspiravam:
Acostado Sergesto, avante a proa
Cose á rocha, e abocando um passo estreito,
Ai! que em recife protendido péga.
       215Ao choque ronca a pedra, e n’uma ostreira
Pontuda os remos se estribando estralam;
Contusa a proa suspendeu-se. Em gritos
Consurge, pára a chusma, e os croques safa
E agudas varas; os partidos remos
       220Do pégo apanha. Então, com mais vehemencia,
Ledo Mnestheu os ventos convocando,
Certa e basta a remada, ao som das ondas,
Facil no aberto pelago decorre.
Qual a pomba, que aninha em ouca lapa
       225Seus doces ovos, salteada ao campo
Foge, e ao sahir com a aza dá medrosa
Rijo encontrão no tecto; e escorregando
Pela fluida via, o ar sereno
Rasa, nem move as expeditas pennas:
       230Tal Mnestheu, com tal impeto, enfiada
Pelas últimas aguas, voa a Pristis.
Já deixa ás luctas no rochedo e alfaques
A Sergesto, que auxílio em vão clamando,
A andar aprende com lascados remos.
       235Presto a Gyas se bota, e a nau possante
Cede, que está sem mestre. Só lhe falta
Quasi no fim Cloantho; em cujo alcance
Urge com summo afinco. Esperta a grita,
Aura geral o instiga a lhe dar caça,
       240E rimbomba o fragor no espaço ethereo.

Uns raivam de perder o ganho e as honras,
Trocam pela victória a propria vida;
Alenta os outros o sucesso: podem,
Porque julgam poder. E compartiram
       245Parelhos esporões talvez o premio,
Se em rogos sôlto, ao ponto as mãos tendidas,
A si Cloantho os numes não chamasse:
«O’ deuses, cujo imperio equoreo trilho,
Voto alegre immolar-vos nestas praias
       250Branco touro, e entornando castos vinhos
As entranhas verter no salso argento.»
Dice; e o côro de Phorco e das Nereidas
De baixo o attende, e Panopéa virgem;
Té do ancião Portuno o braço grande
       255O empurra: mais que Nôto ou leve xara,
A nau se lança á terra, e o pôrto ganha.
Ao povo o Anchiseo, com pregões do estilo,
Então proclama vencedor Cloantho,
Venda-lhe a fronte com virente louro;
       260De prata um mór talento ás naus, de mimo,
Tres novilhos á escolha e vinhos manda;
Com dons especiaes destingue os chefes.
Ao vencedor, orlando-a recamada
Purpura melibéa em dous meandros,
       265Aurea chlamyde annexa: inda na téla
Regio menino, sofrego, açodado,
No Ida selvoso os despedidos cervos
Corre e a dardo os fatiga; e lá nas garras
Altaneira ás estrellas o arrebata
       270A armígera de Jove; em balde as palmas
Velhos aios levantam, contra as auras
Dos galgos o ladrar se assanha em balde.
Ao segundo em valor, de fina malha,
Que o decore e defenda, auri-trilice
       275Loriga dá, que a Demoleu vencido

Ante o rapido Simois, de Ilio ás abas,
O heroe tirou: multiplice a textura,
Mal carregavam-na ajoujados pagens
Sagaris e Phegeu; com ella o dono
       280Punha em vil fuga os Troas. O terceiro
Dous caldeirões de cobre e umas navetas
De prata obteve com gentis relevos.
Já se ia cada qual suberbo e rico,
De puniceos listões bandada a fronte,
       285Quando apenas Sergesto, á fôrça de arte
Do sevo escolho despegado, a barca,
De remos falha, um bórdo raso e debil,
Traz inglorio entre vaias. Qual serpente,
Se no lombo da estrada a colhe obliqua
       290Enea roda, ou com seixo grave a esmaga,
Deixando-a semimorta, o viandante;
Fugindo em vão se torce em largos orbes;
Parte feroz sibila, incende os olhos,
Altiva empina o collo; manca em parte
       295Pelo golpe, retem-se, e ennovelada
Em seus membros se implica e se revolve:
Tal vogando a nau tarda se movia;
Mas, cheio o panno, á vela a foz remonta.
Salvos navio e gente, alegre Enéas
       300A Sergesto não falta: a Cressa Phóloe,
Perita escrava em obras de Minerva,
Doa-lhe, e os gemeos filhos que amamenta.
Findo o jôgo, a relvado ameno valle,
Que outeiros fecham curvos e frondosos,
       305Passa Enéas: milhares o acompanham
Ao circo theatral que entremeiava,
E, a turba acommodada, o heroe se assenta.
Com dons que expõe de preço, excita a quantos
Certar queiram na rapida carreira.
       310Mistos concorrem Teucros e Sicanos:

Primeiros Niso e Euryalo, este em verde
Juventude e belleza, aquelle insigne
Do moço em pio amor; depois, Diores,
Priameo garfo egregio; e logo Salio
       315Com Patron, um Tegeu de arcadio sangue,
De Acarnania o segundo; e os de Trinacria
Jovens monteiros, Hélymo e Panopes,
Que assiduos ao bom velho a selva batem;
E muitos que sepulta escura fama.
       320Delles o heroe cercado: «Ouvi-me attentos,
Folgai, mancebos; que nenhum sem premio
De mim se irá: de assacalado ferro
A cada um darei dous gnosios piques,
E de entalhos de prata uma bipenne.
       325Terão de flava oliva ornada a fronte
Os vencedores tres: guardo ao primeiro
Magnífico ginete ajaezado;
Ao outro, cheia de threícias frechas
Uma aljava amazonia, á qual circula
       330Boldrié largo de ouro, e ata fivela
De arredondada gemma; o derradeiro
Com este argólico elmo vá contente.»
Todos postados, ao sinal que escutam,
Sôlto chuveiro, á despedida rompem,
       335Do ponto pelo corro se desparzem,
Olhos fitos na meta. Os contendores
Traspõe Niso, e ligeiro deslumbrando
Excede os ventos e do raio as azas.
Segue-o, mas com larguissimo intervallo,
       340Salio. Não longe, Euryalo he terceiro.
Helymo he quarto. Proximo Diores
Arranca, e ao hombro a vezes se lhe encosta,
Roça-o de ilharga, artelho com artelho:
E houvesse espaço, avante escapolira,
       345Ou balançara ao menos a victória.

Quando ao termo affrontados se appropinquam,
Niso escorrega dos novilhos mortos
No cruor que a verdura e o chão molhara.
Já de vencida e ovante, o infeliz moço,
       350Titubando-lhe os pés, de bruços tomba
Sôbre o sagrado sangue e esterco immundo.
Mas não lhe esquece Euryalo querido:
A resvalar se erguendo, a Salio oppõe-se,
Que tropeça e revôlto jaz na arêa.
       355Salta Euryalo; e, graças á amizade,
Voa o primeiro com ruídoso applauso.
Vence Hélymo em segundo, e alfim Diores.
A amplidão da platéa atroa Salio,
Perante os padres reclamando a glória
       360Que se lhe rouba. A Euryalo defende
Geral favor, e as lagrimas decoras,
E a virtude mais bella em gentil corpo.
Gritando o apoia com fervor Diores,
Que, último vindo, a palma não consegue,
       365Se conferem a Salio as móres honras.
Decide Enéas: «Socegai, mancebos,
Que do triumpho a ordem não se altera:
Compadecer me caiba o insonte amigo.»
E a Salio dá, vellosa e de aureas unhas,
       370A de um leão numidio ingente pelle.
Niso aqui: «Dos vencidos que resvalam
Se has dó tamanho, a Niso o que reservas,
Que, a não têr ao de Salio igual desastre,
Merecera a coroa e a primazia?»
       375E ao fallar mostra a cara e os membros torpes
De atra sangueira. O padre riu benigno,
E um, que do umbral sagrado de Neptuno
Os Danaos despregaram, trazer manda
Broquel dydimaonio, obra excellente
       380Com que brinda e compensa o moço egregio.

Quando os cursos termina e os dons reparte:
«Agora quem valor no peito encerra,
Sus, os braços levante, as mãos ligadas.»
Então propõe dous premios da peleja:
       385De ouro coberto e fitas, um novilho
Ao vencedor; fino elmo e fina espada,
Ao vencido confôrto. Sem demora
Dares, entre murmurios e alvorôto,
Sahe a terreiro, válido e robusto:
       390He quem sohia combater com Páris;
E a Butes giganteu, que vir de Amico,
Rei de Bebrycia, invicto blasonava,
Junto á campa do excelso Heitor ferindo,
Moribundo o estendeu na fulva arêa.
       395Tal o campião se ostende: espadaúdo,
Alta a cabeça, alterno os braços tesos
Esgrime, e açouta os ares com punhadas.
Buscam-lhe um contendor: nenhum de tantos
Ousa contra o varão travar dos céstos.
       400Triumpho pois cantando, aos pés de Enéas
Ficou; sem mais detença, ao touro os cornos
Da esquerda ferra e diz: «Se a contrastar-me
Ninguem, filho da deusa, aqui se afouta,
Que me retem? que espero? O touro ordena
       405Me conduzam.» Nos seus lavra um sussurro,
Querem que se lhe entregue. Eis vôlto Acestes
A Entello ao pé sentado em leito hervoso,
Turvo o acoima e aguilhoa: «O’ dos antigos
Tu fortissimo heroe, soffres, Entello,
       410Que premios taes se levem sem combate?
Onde Eryx, nosso deus, frustrado mestre,
Onde o renome teu, que enche a Trinacria,
E os cem trophéos que nos salões penduras?»[2]
«O medo, retorquiu-lhe, o amor da glória
       415Não me embotou; mas tardo gela o sangue,

E o vigor se me esfria e se entorpece.
A me assistir a idade em que ora ufano
Confia esse arrogante, eu sim viera,
Não do preço movido ou guapo touro:
       420De intêresses não curo.» E nisto á praça
Dous céstos arrojou desmesurados,
Que o bravo Eryx nos prelios maneava,
No duro tergo os braços enlaçando.
Tudo enfiou: de bois sete amplos coiros
       425Reforçava cosido o ferro e o chumbo.
Dares he que mais pasma e até recusa:
O bizarro Anchisíades sopesa,
Volve a enleiada massa e vulto enorme.
«Quanto mais, torna o velho, se alguem visse
       430Os de Hercules tremendo, e a lucta infausta
Sôbre esta mesma praia! Eil-as, Enéas,
Do teu valente irmão contempla as armas,
De cerebro e de sangue inda com laivos.
Com ellas arrostou-se ao proprio Alcides;
       435Servi-me eu dellas, quando me aquecia
O verdor, nem velhice porfiosa
Pelas fontes esparsa branquejava.
Mas, se rejeita o Phrygio as armas nossas,
Com Enéas se approva o autor Acestes,
       440Não temas, renuncío os coiros d’Eryx;
Despe esses teus: iguale-se a contenda.»
Do hombro duplice capa então desprende,
Desnuda a ossada, as juntas e os lagartos;
Musculoso e nervudo está na arena.
       445Céstos iguaes presenta o Anchisio padre,
E ata-os ás palmas de ambos. Sôbre os dedos
Cada qual se endireita, e no ar os pulsos
Vibra intrepido e firme. Ardua a cabeça
Do vulnífico aceno atrás afastam;
       450Misturam mãos com mãos, e a pugna incitam.

Um por moço he ligeiro; outro he forçoso,
Grande e membrudo, mas dos joelhos frouxo,
Tardo e tremente, a vastidão lhe agita
Egro anhelar. Muita ferida baldam,
       455Muita no lado côncavo amiudam;
Os peitos aos varões harto rouquejam;
O punho erra por fontes, por ouvidos;
Ao crebro aspero embate os queixos ringem.
Afincado n’um posto, o grave Entello
       460Aos tiros vigilante o corpo furta.
Dares, como quem bate uma alta praça,
Ou roqueiro castello opugna e cérca,
Por esta aberta e aquella, o assalta e urge;
Frustra os tentames, os ardis mallogra.
       465Minaz Entello se alça, e a dextra brande;
O outro prevendo o sobranceiro bote,
N’um salto o esquiva: Entello pelas auras
Derrama as fôrças, por si mesmo em terra
Com o vasto pêso mais pesadamente
       470Rue, como em cimos do Ida ou no Erymantho
Desraigado baquêa ouco pinheiro.
Phrygios, Trinacrios, emulos consurgem;
Monta o clamor ao céo; primeiro acode
E ergue Acestes com pena o equevo amigo.
       475Sem perturbal-o a quéda, o heroe mais agro
Vólta impavido á lucta, e a ira o esforça;
Pejo, conscio valor o abraza, e ardendo
Rapido pelo campo acossa a Dares:
Ora a dextra, ora a esquerda os golpes dobra.
       480Nem respiro, nem pausa: qual nos tectos
Saltão granizo crepitando chove,
Tal com uma e outra mão basta pancada
Desfecha, e traz n’um vortice o contrário.
Que o furor se encrueça, e Entello em sanha
       485Mais se exaspere, o padre o não consente:

Á pugna se interpondo, ao moído joven
Salva, e o mitiga assim: «Que insania a tua!
Triste! um poder não sentes sobre-humano?
Cede ao nume.» E fallando a briga aparta.
       490Fiéis socios com Dares, que a nutante
Cabeça e os fracos joelhos mal sustendo,
Mistos coalhado sangue e dentes cospe,
Vam-se ás naus; advertidos, com a espada
O elmo tomando, a rez e a palma deixam
       495Ao vencedor, que altivo se ufanêa:
«Olhai, de Venus filho, e vós Troianos,
O que eu seria em moço, e a morte certa
De que o livrastes.» Pára, em se affrontando
Ao touro, premio seu, que em pé se tinha;
       500Libra-se a prumo, atrás retira a dextra,
Entre os cornos assenta os duros céstos,
Quebra-lhe o craneo, o cerebro esmigalha:
Prostra-se, arca e no chão se estira o boi.
Sôbre elle o heroe exclama: «Em vez do Phrygio
       505Melhor te sagro est’alma; os céstos, Eryx,
E a arte victorioso aqui reponho.»
Já, com dons, a quem jogue a setta alada
Convida Enéas; faz que a gente erija
Do baixel de Seresto um mastro, e appensa
       510Do tope n’um cordel volante pomba,
Alvo dos tiros. Os varões concorrem,
E em bronzeo capacete as sortes lançam:
Começou pelo Hyrtacio Hippocoonte
Com ruídoso favor; Mnestheu seguiu-se,
       515Mnestheu que inda cingia a verde oliva
Do certame naval; sahiu terceiro
Teu irmão Eurycion, Pandaro eximio,
Que, mandado a romper outrora os pactos,
Contra os Acheus a vira desparaste:
       520Do elmo ficou no fundo o velho Acestes,

Que lidas juvenis tentar ousava.
Com ância cada qual seu flexil arco
Forte encurva, e da aljava o tiro aprompta.
Primeiro o Hyrtacio, o nervo rechinando,
       525Zimbra agilissimo as voluveis auras,
E no fronteiro mastro a ponta ferra:
Treme a arvore, assustada esvoaça a pomba,
E em roda estronda o applauso. Ardego e lesto,
Arma o lanço Mnestheu, põe alto a mira,
       530Olhos estende e a setta: ah! que não poude
Na ave tocar; do pé só quebra os fios
De que innexa pendia: ella adejando
Por entre nôtos e negrumes foge.
Mas, prestes e embebida a frecha tendo,
       535Invocando Eurycion fraterno auxílio,
Fita a que o céo fendendo alêa e exulta,
E sob a nuvem bruna a encrava: a pomba
Cahe morrendo, e nos astros larga a vida,
E traz cahindo a farpa atravessada.
       540Resta Acestes sem palma; e o tiro aos ventos,
De arco sonoro e de arte gloriando,
Emfim remette. Aqui subito occorre
Monstro e agouro espantoso, que o futuro
Vindo acclarar, terríficos os vates
       545Tarde o cantaram; pois que ardeu, voando,
E igneo sulco traçou na etherea via
A haste arundinea, e em ar se esvaiu tenue:
Qual se descrava a estrella, o céo transcorre[3],
E no vôo inflammada arrasta o crino.
       550Phrygio ou Trinacrio, estaticos de assombro,
Levantam preces: nem repulsa o aviso,
Mas a Acestes abraça o heroe prestante,
Largo o premeia, e ajunta: «Acceita, ó padre,
Senão da sorte, por insigne auspicio
       555Do summo rei do Olympo, esta esculpida

Cratera, deixa do longevo Anchises;
Gage, com que o prendou Cisseu de Thracia,
De amizade e lembrança.» E ás fontes o orna
De verde louro, vencedor o acclama:
       560Sem ciume Eurycion, que só das nuvens
A ave precipitou, de grado accede.
Entra o que o nó desfez proximo em honras;
Ultimo, a frecha quem pregou no tronco.
Inda os certames não despede Enéas;
       565Chama a Epytides, aio e companheiro
Do impube Iulo, e diz-lhe á puridade:
«Anda; e Ascanio, se instructo o equestre ludo
E os meninos jà tem, que as turmas guie,
E em memoria do avô se mostre em armas.»
       570Dalli faz que esvazie o infuso povo,
E haja campo. Ante os paes, medindo o passo,
Por igual em cavallos enfreiados
Os meninos relumbram. Sorprendida
Freme a sicana e a teucra mocidade.
       575Do uso os coroa tonsa rama: trazem
Dous hastis de corniso em ferreas choupas,
E alguns ao hombro aljavas luzidias;
Retorcida lhes desce aurea cadêa
Do collo ao peito em círculo flexivel.
       580Tres as turmas, tres chefes as percorrem;
Sob cada chefe doze cavalleiros
Bizarrêam, fulgindo em sua esquadra.
Uma folga, ó Polites, de que a reja
O teu Priamo, herdeiro de um tal nome,
       585Que ha-de a Italia augmentar: cavalga em thracio
Ginete bicolor de brancas malhas,
Que a mão calça de branco, e fero ostenta
Branca silva na testa. O guia he de outra,
Caro ao menino Iulo, Atys menino,
       590Atys o tronco dos Latinos Attios.

Mais que todos formoso, o lindo Ascanio
Trota postremo n’um corsel phenicio,
Que em monumento e prova de ternura
Deu-lhe a candida Elisa. O resto monta
       595Em trinacrios frisões do velho Acestes.
Pavidos marcham; dos avós retratos,
Com júbilo os aviva o troico applauso.
Depois que alegres ante os seus campêam,
Promptos á senha, Epytides gritando
       600Longe o flagello estala. A par desfilam,
Formam-se em corpos tres, e á voz dos cabos
Infestas lanças, desandando, enrestam.
Carreiras a carreiras contrapondo,
Vóltas impedem com trocadas vóltas;
       605Baralham-se em renhida escaramuça,
De um conflicto arremêdo: ora dam costas,
Ora atacam de frente; ou, pazes feitas,
Levam-se emparelhados. N’alta Creta
O labyrintho, he fama que o teciam
       610Paredes cegas, mil dolosas ruas
De incomprehendido error, que inextricavel
Enganados vestigios transviava:
Não com diverso enrêdo embaraçada,
A prole teucra folgazã correndo,
       615Fugas urde e pelejas; como a nado,
No humido pélago os delphins brincando,
Ondas carpathia e libyca retalham.
Ao munir Alba-longa, estes Ascanio
Cursos, torneios, quaes jogou na infancia,
       620No prisco Lacio introduziu: de Albania
Transmittiram-se a Roma; e Roma augusta
Em honra avita os guarda: o jôgo Troia,
O pueril esquadrão se diz Troiano.
Ao divo padre a festa ia findar-se:
       625Instavel a fortuna então falsêa.

Durante os ludos funebres Saturnia
Envia á troica armada Iris celeste,
Com ventos a aligeira, e em cem projectos
A inveterada queixa não sacia.
       630Pelo arco multicôr, de golpe a virgem
Ganha um declive atalho; attenta invisa
Tropel tam basto, e vê, lustrando as praias,
Deserto o pôrto, abandonada a frota.
Lá sós, em borda escusa, o morto Anchises
       635As Troadas choravam, e o profundo
Ponto olhavam chorando: «Ai! tam cansadas
Que abysmo que nos resta!» á uma exclamam.
Pedem cidade; a róta longa entejam.
Nada innoxia, deposto e o trajo e o vulto,
       640Chega-se a deusa, em Béroe disfarçada,
Conjuge annosa do Ismaro Doryclo,
Célebre d’antes por fecunda e nobre;
Entre ellas se insinua, e diz: «Mesquinhas!
Que ás mãos gregas a morte não tragámos
       645Sob os muros da patria! Infeliz gente!
A que exicio a desgraça te reserva?
Volvem sete verões que, accesa Troia,
Fretos medindo, inhospitos rochedos,
Climas tantos e céos, por mar tamanho
       650Da fugitiva Italia em busca, vamos
Pelas ondas rolando. Hóspede Acestes.
D’Eryx quem lhe obsta no paiz fraterno
A nos fundar cidade? Ó patria! ó numes
Do inimigo sem fructo arrebatados!
       655Nunca um sítio verei que eu chame Troia?
Nunca os rios de Heitor, um Xantho, um Simois?
Presto, abrazai comigo infaustas pôpas.
Cassandra em sonhos, dando accesas tochas,
Me bradava esta noite: Ilio aqui tendes,
       660Aqui vossa morada. Obrai, que he tempo;

Nem taes prodigios dilação permittem:
Eis sacros a Neptuno altares quatro;
O mesmo deus ministra ânimo e fachos.»
Nisto, agarrando infenso, a dextra eleva,
       665Brande um tição com fôrça, e coruscante
O propelle. As Iliades suspensas
De espanto enfiam. Pyrgo, a mais idosa,
Que tantos filhos a seu rei criara:
«Esta, ó matronas, dice, a de Doryclo
       670Beroe[4] não he Rheteia: o ar divino,
O garbo lhe notai, da vista o fogo,
O halito, o som da voz, o andar e o gesto.
A Beroe eu venho de deixar doente,
Pezando-lhe só ella em taes exequias
       675Faltar com dons e merecido pranto.»
Cala; e as matronas os malignos olhos
Nos lenhos cravam, balançando ambiguas
Do ficar entre o misero desejo
E as fatídicas ordens; quando as azas
       680Libra e desfere a deusa, e á retirada
Assinala entre as nuvens arco ingente.
Em furia, do prodigio estupefactas,
Do imo foco bramindo a chamma tiram:
As aras despojando, ás naus remessam
       685Galhos, folhas, tições: Vulcano em bancos
E em remos enfurece, á redea sôlta
Raiva de abeto nas pintadas pôpas.
Ao sepulcro, á platéa, Eumelo a nova
Do incendio leva; e em rôlo atra fagulha
       690Se enxerga a revoar. Primeiro Ascanio,
Quam ledo conduzia a equestre pugna,
Agil galopa aos arraiaes turbados;
Aios retêl-o exanimes não podem.
«Que intentais, cidadãs? que insania! ai tristes!
       695Não pavilhões hostis, não graias quilhas,

Queimais vossa esperança. Aqui me tendes,
Eis vosso Ascanio.» E aos pés o elmo vão lança,
De que armado exercia a falsa guerra.
Enéas se accelera, e o phrygio bando.
       700A buscar brenha ou lapa em que se escondam,
Pelas praias com medo ellas se esgarram:
Á luz fogem de pejo, e arrependidas
Juno removem d’alma, aos seus tornadas.
Nem por isso domou-se a voraz peste:
       705Sob o molhado roble viva a estopa
Tardo fumo vomita, e o vapor lento
Roe os porões, no amago se atêa;
Não valem jorros d’agua e heroico esfôrço.
Dos hombros rasga a veste, e aos céos Enéas
       710Supplice as palmas tende: «Ó Jove excelso!
Se um por um, padre, os Phrygios não detestas,
Se inda humanos trabalhos te apiadam,
Da chamma agora a frota me preserves,
D’Ilio a tenue reliquia ao menos poupes;
       715Ou, que mais resta? esmague-me o teu raio,
Mata-me, se o mereço.» Acaba; e ronca
Desmedida, furiosa, atra procella,
Dos trovões estremece o monte e o valle;
Turvo, engrossado pelos densos austros,
       720Aguaceiro estupendo alaga as pôpas:
Semi-ardidos carvalhos se humedecem,
Té que extincto o vapor, tragadas quatro,
No corpo das demais cessa o contagio.
Do agro desastre Enéas combatido,
       725Cem razões versa n’alma, hesita incerto
Se na fertil Sicilia esqueça os fados,
Ou se á Italia prosiga. O velho Nautes,
Sabio adivinho de Minerva alumno,
Tramas de irosos deuses explicando
       730E o que ordena o destino, assim o anima:

«Da fortuna aos vaivens nos resignemos,
Ó dionéa prole; em todo apêrto
Soffrendo he que se vence a adversidade.
Tens cá divina estirpe, o troico Acestes:
       735Consulta o seu querer. Das naus combustas
Lhe confia o sobejo, e os que se anojam
Da empresa tua; as abhorrídas madres,
Decrepitos e inválidos segrega,
E os que affrontar comtigo os riscos temem:
       740Em terra hajam descanso; ergam cidade,
A que Acestes conceda o nome Acesta.»
Nos conselhos do amigo o heroe se accende;
Mas os projectos seus medita e pesa.
Na biga a parda Noite o pólo occupa:
       745Eis do céo deslisando a sombra anchísea
Taes vozes diffundir se lhe afigura:
«Filho, que em vida mais amei que a vida,
Filho, a quem de Ilion molesta o fado,
A ti me expede Jove, que do Olympo
       750Doeu-se e desviou da armada o incendio.
De Nautes o maduro aviso adopta:
Vais debellar gente aspera indomada;
Dos teus conduz ao Lacio a flor guerreira.
D’antemão baixa a Dite e ao centro escuro;
       755Pelo alto Averno, ó filho, vem fallar-me:
Não no impio Tartaro, entre os manes tristes;
Moro sim, entre os bons, no Elysio ameno.
Muita rez negra fere, e a mim te guie
Casta Sibylla; aprenderás teus netos,
       760E o dado imperio. Adeus; que humida a noite
Vira e descahe, e já do sevo oriente
Respirando os Ethontes me bafejam.»
Dice, e em ar se esvaece. «Onde, onde partes?
Tem-te, espera; a meus braços quem te arranca?»
       765Tal Enéas discorre, e esperta o lume

Sopito em cinza; humilde á branca Vesta
O sacrario venera e os teucros lares,
Com thuribulo pleno e farro pio.
Depois consulta o rei, declara aos socios
       770De Jove o mando, os paternaes preceitos,
E o seu pensar. De prompto annúe Acestes.
Para a cidade o vulgo e as mães se alistam,
Almas a quem não toca o amor da glória.
Gastos robles da chamma outros renovam,
       775Remos, bancos, enxarcias apparelham;
Poucos sim, mas de vívida coragem.
Risca os muros Enéas com o arado;
Sortêa as casas; manda alli ser Troia,
Pérgamo alli. Do augmento folga Acestes;
       780O senado institúe, regula o foro.
Templo, aos astros vizinho, á deusa Idalia
No Eryx se eleva; ao túmulo de Anchises
Um luco amplo se annexa e um sacerdote.
Festins e oblatas novenaes se fazem,
       785Emquanto aragem meiga aplane as vagas.
Fresco ao largo de novo o sul convida:
Nas curvas praias se ouve um mesto chôro;
Dia e noite abraçados se demoram.
E agora as mães, e aquelles que assustava
       790Do aspero mar a torva catadura,
As fadigas do mar padecer querem.
Terno os conforta, e lagrimoso Enéas
Ao regio consanguineo os recommenda.
A Eryx vitellos tres e ás tempestades
       795Cordeira immola, e vai desamarrando.
Tonsa oliva na testa, em pé na proa,
Taça na dextra, as visceras despeja,
De estremes vinhos o salgado asperge.
De pôpa o vento surge; e os navegantes
       800Varrem, qual mais, as percutidas ondas.

Entretanto, a Neptuno afflicta Venus
Taes queixas despregou: «Senhor, a activa
Atroz ira de Juno insaciavel
Me abate a supplicar. Nem dó, nem tempo,
       805Jove nem o destino, infandos odios
Quebra ou lhe adoça. Haver não basta aos Phrygios
Consumido e apagado a gran’cidade,
E as reliquias trazer de transe em transe;
De Troia inda persegue a cinza e os ossos:
       810Desta sanha o motivo ella que o saiba.
Longo não ha que em Libya (es testemunha)
Mal afouta em Eolo, o pégo em brenhas,
Misturou de repente os céos e os mares:
E isto ousar em teus reinos! Eil-a, oh crime!
       815Illiça as Teucras, incendeia as pôpas,
Naus estraga, e a largar meu filho obriga
Socios em terra estranha. O resto, ó padre,
Possa, eu t’o rógo, navegar seguro;
Aborde, se he que as Parcas lh’o concedem,
       820Ao Tibre laurentino, e assentos funde.»[5]
Do alto oceano o domador Saturnio:
«He justo, respondeu, que em mim confies
E em reinos, Cytheréa, origem tua.
Mereço-o; que não raro hei por teu filho
       825Marulhos comprimido e o céo raivoso.
Nem menos (testefique o Xantho e o Simois)
Delle em terra curei: quando ás muralhas
Pallidas turmas rebatendo Achilles,
Milhares dava á Estyge e o Xantho, os rios
       830Entulhados gemendo, não sabia
Como volver-se ao mar; eu mesmo em nuvem
Cava ao Pelides fero Enéas roubo,
Que, impar em fôrça e divos, o acommette;
Bem que anhelasse, destas mãos erectos,
       835D’Ilio extirpar os fementidos muros.

No mesmo ânimo estou; bane os temores.
Aportará no Averno quem desejas:
Deve um só perecer no aquoso fundo;
Uma cabeça pagará por todos.»
       840Tendo assim amimado a leda Venus,
Junge os brutos, e impondo espumeos freios,
Elle a brida relaxa, e á tona equorea
Voa de leve no ceruleo carro:
Cahe sob o eixo tonante o inchado argento,
       845Amansa a vaga, espalham-se os negrumes.
Surde a marinha escolta: Glauco e Phorco,
Seu velho coro, formidaveis cetos,
Tritões ligeiros, Melicerta Inôo;
Thetis á esquerda, Pânope e Niséa,
       850Melite e Spio, Cymódoce e Thalia.
Brandos gostos revesam-se de Enéas
Na mente absorta: erguer faz logo os mastros,
Desenvergar o panno e desfraldal-o.
Toda a frota n’um ponto escotas ala;
       855Solta a bombórdo os seios, a estribórdo;
Arduos os lais braceia, rebraceia;
Té que o sôpro á feição lhe enfuna as vélas.
Palinuro abre o rumo á densa armada;
De lhe irem na conserva os mais tem ordem.
       860Da celeste baliza ao meio a noite
Já rorida attingia; de cansaço
Por duros bancos a maruja os membros
Em seus remos pousava: he quando o Somno
Do ether sidereo placido escorrega,
       865Afugenta e dissolve a espessa treva;
Busca-te, Palinuro, a ti mesquinho
Funestos sonhos traz: na pôpa, em Phorbas
Transformado, se assenta, e arteiro falla:
«Iaside Palinuro, ao som das aguas
       870Deslisa a frota; a viração he certa;

Encosta a fronte, as palpebras descansa,
Furta uma hora ao trabalho: espaço breve
Tomo o teu cargo.» Palinuro os olhos
Descerra a custo: «Queres que eu, lhe torna,
       875Creia em tal monstro, em céo risonho estribe?
Que entregue Enéas a traidores austros?»
Em discursando, ao clavo mais se aferra,
Fito os astros contempla: as fontes ambas
Eis lhe borrifa, em Lethes embebido,
       880Por fôrça estygia um ramo soporado;
Nadam-lhe os frouxos renitentes lumes.
Indo-lhe adormecendo o corpo laxo,
Morpheu se achega; ao líquido elemento,
Com pedaço da pôpa e o leme, o empurra:
       885Despenha-se elle, em vão clamando aos socios;
O deus nos ares desappareceu.
Inda assim, em Neptuno assegurada,
Sulca impavida a frota o plaino amaro:
Já remonta os cachopos das Serêas,
       890Que, então riscosos, de ossos alvejavam;
Roucas do salso choque as rochas soam.
Sem piloto á matroca o barco Enéas
Sente, e em pessoa por nocturnas ondas
Magoado o rege, lamentando o amigo:
       895«Ai! nu, que em céo fiaste e em mar tranquillo,
Jazerás, Palinuro, em praia ignota.»[6]




NotasEditar

  1. No original, não há aspas nesse lugar.
  2. No original faltam as aspas aqui.
  3. No original trancorre.
  4. No verso 640, está Béroe.
  5. No original faltam as aspas nesse lugar.
  6. No original faltam as aspas nesse lugar.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Notas ao Livro V


NOTAS AO LIVRO V.

1-15. — 1-15. — Medium iter he a róta feita ao largo da praia africana. Para se estar ao largo não he forçoso têr perdido a terra de vista, como cuidava Desfontaines: parece que os maritimos se consideram ao largo desde que podem manobrar em todo o sentido, quer ainda se enxergue a terra, quer já tenha desapparecido. — Aquilone he tomado na accepção propria de vento norte, e não por qualquer vento, como julga La Rue: partiram com o máo que soprava, por executarem as ordens celestes; e, sendo escasso, foram orçando o mais possivel, ajudando-se dos remos, até que, surgindo um bravo oeste, Palinuro propoz a Enéas arribar ás praias de Eryx junto ao Lilybeu ou capo di Marsella; o que approvou o chefe, não só pela necessidade, como para suffragar as cinzas de Anchises. Com que arte sabe tecer o poeta os episodios na sua fábula! — Colligere arma não he enrizar as vélas como quer Servio, porque arma comprehende mastreamento, velame, apparelhos, todo o necessario á navegação; colligere arma he desempachar o navio de quanto possa dar péga ao vento, desafogal-o para melhor se manobrar. Tendo Palinuro de pedir licença a Enéas para arribar, da qual devera estar certo pela confiança que lhe inspirava, enrizar as vélas, operação longa e difficil, para ao depois desfazer os rizes quando obtivesse a licença, fôra perder tempo e trabalho. Veja-se o Virgilius nauticus, de pag. 49-53, e de pag. 105-106.

28-33. — 28-33. — Flecte viam velis he o que em phrase maritima se chama virar pelo redondo. Com demasiado vento, vira-se dando uma grande vólta e correndo muitos rumos, até chegar ao que se quer; operação mais segura, bem que faça perder caminho. — O Zephyro, ou oeste, que ha pouco era contrário, mudado o rumo, tornou-se favoravel; mas eram grossos os mares, e mais o pareciam a quem então navegava em pôpa. Todas estas miudezas provam com quanta razão nomêa Mr. Jal a Virgilio o poeta marinheiro. Os criticos e commentadores que, sem conhecerem da materia, se mettem a emendar o autor ácêrca da escolha dos ventos e de outras particularidades, bem se podem appellidar de agua doce, como se diz dos máos versificadores.

36-38. — 36-38. — A respeito de Acestes, dos ursos na Lybia, da exactidão deste lugar, vejam-se as notas de Mr. Villenave; que he mais feliz quando defende, que quando censura o poeta. Com Buffon prova-se que ha ursos na Africa, mas não dos negros.

51-54. — 51-54. — Faz Gaston aqui um reparo assás razoavel: «Se o heroe tivesse a faculdade de reflectir, nada prometteria acima das suas posses. Captivo em Mycenas, poderia celebrar em honra de Anchises pompas funebres e solemnes? Por certo que não; mas folga-se de vêr um terno e religioso filho crêr que nada he impossivel ao amor que tem a seu pae.»

64-71. — 65-72. — Delille faz começarem os jogos no outro dia, começando-os o poeta no nono. O ore favete omnes, equivalente ao Favete linguis de Horacio, era a fórmula com que os sacerdotes, no encetar o sacrificio, impunham o silencio. Segundo porêm Seneca (de Vita beata, cap. 27) o silencio podia não ser absoluto, mas vedava-se toda palavra profana. Diz tambem Horacio: «Male ominatis parcite verbis.»

77-83. — 77-84. — Virgilio, a quem seguiu Ovidio, attribue a Enéas as instituições religiosas dos Romanos, e as descreve quaes ainda se usavam; o que era interessantissimo[1] aos contemporaneos: isto mostra o caso que nos cumpre fazer de La Harpe, o qual julga demasiados os sacrificios que celebra o heroe piedoso. Este crítico, bom no ajuizar a literatura franceza, pouco versado era na antiga, e não muito na literatura estrangeira. — Jarra verte carchesium; que era, segundo Atheneu, poculum oblongum, in medio leviter compressum, auribus utrimque ad fundum usque pertinentibus: as jarras tem uma fórma semelhante. Para os que julgarem o termo portuguez insufficiente, adoptando eu o latino, assim mudo os meus versos 78-79: «Libando em regra, dous carchesios vasa, De leite fresco dous, dous outros... etc.»

84-95. — 85-98. — Sob a fórma de serpentes se representavam os genios dos heroes e dos lugares, como aqui Virgilio. Era a serpente o symbolo da patria, da vida, da saúde, da immortalidade, da astucia, do anno, entre os povos antigos. Gaston cita o reparo de alguns sôbre ser este animal venenoso consagrado como attributo do deus da saúde, e diz que, segundo Pausanias, este privilegio tinha só uma especie de côr tirante ao amarello, destituída de peçonha. Em verdade, assim no velho, como no novo mundo, muitas ha innocentes: podiam comtudo as mesmas que o não sam vir a ser o attributo daquelle deus, por allusão á medicina que emprega os venenos para cura de muita molestia; e a vida longa dellas, que suppõe constante saúde, explica a razão por que eram dedicadas a Mercurio, e symbolizavam a immortalidade. Os selvagens da nossa America ácêrca destes animaes tem opiniões bem semelhantes ás dos antigos.

96-97. — 99-100. — Bimas quer dizer de dous annos; corresponde
a bidentes, de que o autor usa bem vezes. Para variar, sirvo-me ora de bimas, ora de bianejas, adjectivo composto de bis e de anejo com a mesma significação; mas, para os fins da traducção, ponho só ovelhas do estilo, ou do rito, ou do costume, porque já se sabe de que ovelhas se trata. Tergi-nigrante, isto he de dorso tirante á côr negra, vem nos Martyres de Francisco Manuel. 114-115. — 119-120. — Gravibus remis, como o demonstra o autor da Archeologia naval, não significa fortes remos. Os navios eram iguaes nos cascos; no comêço do pário, a remada era pausada ou grave, esperando os contendores pelo sinal para vogarem com fôrça. He natural o que diz Mr. Jal; pois, sempre que se entra em aposta que requer esfôrço, este só se emprega no ponto fixo, por evitar-se uma fadiga intempestiva. Os traductores verteram mal este passo, nem attenderam ao termo carinae; o qual mostra que a igualdade dos navios consistia nos cascos; poisque a fórma dos cascos he que mais influe no andar e ligeireza. — Fraguier, nas Mémoires de l'Académie des belles-lettres, tom. II, pag, 160, diz que estes jogos sam os de Homero na Iliada; mas que lá vem mais a proposito, bemque Virgilio os varie com agradavel gôsto, e que seja da sua invenção o pário naval. Eu digo porêm que os jogos de Homero tem a melhoria de serem celebrados logo depois da morte de Patroclo, o que torna importante quanto faz Achilles em desafôgo da sua dôr; e os funeraes de Anchises, morto ha um anno, cujos feitos heroicos não eram recentes, não offerecem a mesma especie de interêsse: os jogos todavia sam a proposito como os de Homero, sendo uns e outros para honrar um finado querido; e se os que celebra Achilles sam devidos á amizade, o pio amor filial exige os que Enéas consagra á memoria de seu pae. Virgilio tem nestes jogos um merito especial, o de os fazer entrar no plano geral do poema, cujo fim era commemorar as cousas de Roma; porquanto nelles se descobre a origem dos que duravam no tempo de Augusto. Julga Pope que o poeta latino, imitando o grego só nos jogos do césto, do arco e da carreira pedestre, e accrescentando o das galeras, temeu não poder exceder a Homero no curso dos carros; alguns opinam que Virgilio assim obrou, não só porque Pindaro e Sophocles e outros haviam descripto muitas vezes o tal curso dos carros, como porque o das galeras era mais proprio de homens que ha sete annos erravam pelos mares. Eu cuido que elle o fez por tres razões conjuntamente: por não ser possivel exceder, sendo mui difficil igualar o grande poeta naquella descripção; por não querer trilhar uma vereda batida por tantos; por patentear o seu talento inventivo. Mas, se não era capaz de exceder o seu mestre no curso dos carros, soube crear outro em que nada lhe he inferior.
119-120. — 125-127. — Para os que não se contentarem com a nova interpretação que prefiro, aqui verto segundo a antiga: «Em tres filas por banda, em triplice ordem A voga desferindo...» Em justificação da que adoptei, vou reproduzir os convincentes argumentos de Mr. Jal. «Creio, diz no Virgilius nauticus, que o poeta não fez triremes da Chimera e dos tres navios que lhe desputavam o pário. Já mostrei que elle nunca foge do termo proprio: mostrarei agora que no liv. I chama alguns dos navios phrygias biremes, e que o nono traz: Geminas legit de classe biremes. Se expressamente nomêa as biremes, porque evita nomear as triremes? Porque não diz: Quatuor ex omni delectae classe triremes, em vez de delectae carinae? Isto fôra mais lucido e simples, e no technico sabe-se que Virgilio procura a simplicidade e a lucidez. Porque, sequer por alguma allusão, n'um longo poema em que tanto os navios figuram, não dá jamais a presumir que estes sam de tres ordens de remeiros? Emprega o termo navis 45 vezes, 22 o termo ratis, 23 carina, 2 biremis; nem uma só escreveu triremis. Por que singular capricho desdenharia um termo que fielmente representara a sua idéa? Passa elle acaso por caprichoso? Virgilio he um espirito razoavel e forte, que não condescende com a phantasia, repelle expressões vagas de que se teriam revestido mal os seus conceitos, sempre tam claros, e só admitte a periphrase quando esta não lança um véo obscuro no objecto que busca designar. Tem elle noventa occasiões, sem contarmos as em que, segundo os seus commentadores, toma puppis e prora por nau, de escrever triremis, e nunca o faz, parecendo mesmo evitar a palavra com cuidado; o que basta para julgar-se da questão. — Oppôr-me-ão os versos: Amissis remis, atque ordine debilis, uno, Irrisam sine honore ratem Sergestus agebat; dir-me-ão que ordine debilis uno prova que a Centauro tinha várias ordens de remos: sei que vem nos commentarios que era debilis uno ordine, aut quia non nisi unum ordinem remigum retinuerat, aut quia uno e tribus ordinibus spoliatus fuerat (Ascencio, f. 92). Respondo porêm que os versos isto significam: «Estando muito maltratada a serie de remos de uma banda, e da outra inteiramente sem elles, Sergesto reconduzia o navio entre as vaias dos que das praias o apupavam.» Ordo não he um andar, he uma fila; he todo o lado de estribórdo ou de bombórdo: no caso presente, he a fila da esquerda. O poeta nos mostra a Centauro tendo perdido muitos dos seus remos da direita, ao esforçar-se por desprender-se do rochedo, e falha de todos os de bombórdo, que se quebraram no recife, obrigada comtudo, para voltar ao pôrto, a servir-se dos pedaços (fractis remis) e a fazer delles uma serie que remediasse a falta. Isto me parece evidente. He mais lastimavel Sergesto nesta situação, que o reduziu a uns cotos de remos, do que seria se, perdidas as vogas de uma ordem, lhe restassem as de duas, ou mesmo
se, perdidas as das duas, lhe restassem as de uma só. — Accresce que amissis remis he totalmente contrário á supposição dos tres andares de remos. Que significaria ordine debilis uno, depois das palavras que annunciavam a perda dos remos das duas outras ordens? Se perdeu Sergesto os dos tres andares, claro he que está desprovido dos de uma fila; debilis uno ordine seria uma simpleza das de que Virgilio era incapaz. E não tendo mais que uma ordem de remos, se a Centauro de um bórdo se acha inteiramente falha (ordine debilis uno) e se do outro apenas restam algumas vogas, porque delle perdeu muitas, remará com alguns cotos, e reconduzirá sine honore o seu navio, de que zombavam, por estar como ratis, que n'agua deslisa á mercê da corrente e dos ventos, jangada apenas dirigivel. — Ratem he preferido pelo poeta a navem; porque sua imagem he mais completa e maior: não he um vão synonymo. Ratem perderia todo o seu valor se Sergesto ainda tivesse duas ordens de remos sobrepostas, embora incompletas e damnificadas. Para que o termo conserve a energia que lhe imprimiu o poeta, he mister, por exemplo, que dos seus cincoenta remos (25 de cada banda em uma fila) a Centauro perdesse tantos, que volte apenas com uma meia duzia, repartidos por ambos os bórdos. — Amissis remis não se refere a ordine debilis uno; ordine debilis uno pinta o estado da esquerda do navio, cujos remos todos se quebraram, quer de encontro roçando pelo escolho, quer labutando por se descoser do recife; amissis remis denota que o estribórdo perdera muitos, assim pelos esforços da chusma para arrancar a nau do recife, como porque os sacaram do fundo com fustes e croques (ferratas sudes et contos). Cuido que tudo isto he incontestavel, a não se querer entender o verso desta singular maneira: Amissis remis unius ordinis, atque ordine debilis eodem. Mas ousar-se-ia emprestar a Virgilio tal syntaxe e locução tam obscura? — Já me guardo para uma objecção. Se terno ordine me parece dizer tres vezes consecutivas, como he que vejo uma fileira de remos em uno ordine? Eis o que se me perguntará. He bem simples a resposta: Ordo em Virgilio não significa sempre o mesmo. Pone ordine vites, na egloga I, tem certamente outro sentido que ponere ordine remos: o alinhamento das cepas nada tem de commum com o assento e a destribuição dos remos nas bordas de um navio. No livro IV das Georgicas (Manibus liquidos dant ordine fontes Germanae, tonsisque ferunt mantilia villis... Totiusque ordine gentis Mores et studia et populos et praelia dicam) ordine quer dizer por seu turno, successivamente; he o sentido que attribúo a terno ordine. Quanto á intelligencia da palavra ordo significando fileira de remos, he questão em que não se está de accôrdo; e, segundo o padre La Rue, valde ambiguum est. O Hollandez Meibom (de Fabrica triremium; Amsterdam, 1671) disserta largamente sôbre o sentido verdadeiro dos termos versus e ordo; pretende
que versus he multitudo in directum posita, e que ordo he multitudo non solum in directum posita, sed etiam loci prioris et sequentis, considerationem conjunctam habens. Scheffer, adversario de Meibom, confunde versus e ordo, na pag. 87: Non tam ex numero remorum, sicut praecedentes, quam ex versibus quibusdam, vel potius ordinibus, sua nomina sortita esse. Não me quero ingerir nesta questão, cujo desfecho pouco importa ao leitor; assás he ter mostrado que dous criticos habeis não entendem versus do mesmo modo, e que em Virgilio ordo não tem um sentido invariavel. Não nego que versus possa tomar-se por fila de remos; estou porêm convencido que, no caso do triplici versu, exprime idéa bem differente. Não nego que ordo muitas vezes designe um certo alinhamento (desconhecido) das vogas; mas creio que o terno ordine do liv. V da Eneida se deve entender como ordine do liv. IV das Georgicas. — Virgilio não diz expressamente que a Centauro e a Chimera fôssem triremes; o que nos dá a conhecer dos remos da Centauro, prova que este navio não tinha mais que uma fila delles; nunca em seu poema nomêa as triremes, quando nomêa duas vezes as biremes: não he pois de triremes que se trata nesta passagem, que eu explico diversamente que todos os traductores. E o triplice versu, a meu ver, exprime um canto tres vezes repetido, um clamor, um hourra, uma especie de celeuma, de que ainda he viva a tradição em nossos navios, onde em todos os trabalhos de fôrça, v.g. quando se alam as bolinas, um marujo, o verdadeiro hortator das embarcações antigas, canta: Ouane, tou, tri, hourra! (one, two, tri, hourra! — em inglez). A tradição velha estava cheia de vigor na meia idade, em Veneza, onde a chusma do Bucentauro, sempre que o navio ducal passava ante a capella da Virgem, construída á entrada do Arsenal, gritava tres vezes: Ah! Ah! Ah! dando uma pancada com o remo depois de cada uma destas acclamações. Pretendeu Virgilio consagrar em dous versos a lembrança de um estilo observado no seu tempo, em certas occasiões; e eis-aqui tudo. Ascencio, que de certo cuidava serem triremes os navios do pário, hesitou sôbre a accepção do vocabulo versus; diz com effeito: «Triplici versu, id est, ordine aut impulsu quo aequora verrunt, aut cantu quo utuntur, ut simul verrant, aut omnibus his.» Esta interpretação timida he pouco mais ou menos a de Servio. Todavia Servio não se aventurou a traduzir versus por cantus. Ascencio enxergou a verdade, mas não ousou demorar-se nella. Em abraçando a sua hypothese, demonstrei ser a unica admissivel; mas demonstrei-o com razões que talvez o commentador não teria acceitado, porque derribam a sua opinião sôbre o terno ordine.» 139-150. — 147-160. — Este livro, collocado entre o pathetico do quarto e o sublime do sexto, não apraz tanto ao commum
dos leitores, postoque não seja menos bello. O autor nelle emprega maior número de onomatopeias que de ordinario; e he sem dúvida pela perfeição do estilo que a sua traducção he ainda mais difficil que a dos outros. Em todo este harmonioso trecho tratando eu de imitar a variedade e a metrificação do autor, escrevi o meu verso 153[2], que ao vulgo parecerá mal modulado; mas fil-o de proposito, ajuntando cinco breves consecutivas, para pintar a precipitação dos carros. Versos desta medida acham-se em Camões, Ferreira, Francisco Manuel, Basilio da Gama e Alvarenga.

177. — 185. — O leme de que se trata, era um remo de pá larga, semelhante aos que chamamos hoje no Brazil esparrellas. O Virgilius nauticus, pag 63-64 explica a fórma desta especie de leme. Verti clavus por clavo, porque a nossa palavra cavilha, empregada para significar outras cousas, não daria uma idéa clara do objecto: veja-se cavilha em Moraes e Constancio. O clavo não era a haste da esparella,[3] mas uma peça de pao que em cruz atravessava a haste. As nossas jangadas servem-se destes lemes, com a differença que, em vez de os collocarem de um lado, os collocam no meio.

198. — 208. — Sou do parecer de Servio e Mr. Jal, e não do de Annibal Caro e João Franco: aerea puppis quer dizer forte pôpa, tomando-se aerea figuradamente; porque as pôpas não sam ferradas ou cobertas de metal, como cuidavam os dous traductores poetas, e Velasco que os segue. Mas conservo a mesma figura, vertendo bronzea pôpa: em portuguez, peito de bronze diz peito forte, peito robusto.

248. — 260. — Diz La Rue que talentum, tanto aqui como no verso 112, não se toma pelo talento attico; poisque Homero, na carreira equestre, poz em primeiro premio uma mulher com um caldeirão; em segundo, uma mulher prenhe; em terceiro, outro caldeirão; em quarto, dous talentos de ouro. Ora, conclúe o commentador, se o quarto premio era o menor, os talentos de que se trata não podiam ser dos grandes. Tem razão quanto a Homero; mas no magnum talentum de Virgilio, que não he senão o talento attico, eu vejo outra cousa. Enéas mandou distribuir um grande talento pela equipagem das tres naus; e, postoque valesse mais que cada um dos premios dos chefes, sendo repartido por todos, cabia a cada marinheiro uma quantia incomparavelmente menor que o valor do que recebera o chefe que menos ganhou. E na palavra addit do verso 249 descubro um costume que tem vindo até os nossos tempos: os chefes tiveram a sua porção do talento que se destribuiu pela equipagem, alêm da recompensa especial; e essa destribuição he provavel que fôsse proporcional á categoria dos premiados, conforme ao que hoje acontece na divisão das presas.

272. — 285. — La Cerda julga que o têr Virgilio dado a Sergesto a peior no pário das naus, foi para designar Catilina, que pertence á familia Sergia: eu não o creio. Por fôrça um dos contendores tinha de chegar o derradeiro; e, elegendo o poeta a Sergesto, não deixou de honral-o, mostrando o seu ardor e coragem, que lhe iam dando a melhoria sôbre Mnestheu, segundo se vê do verso 202-203, a não ser o desastre de ficar pegada a sua nau em um escolho ou restinga.

294. — 311. — O livro V não só nos recommenda as ceremonias funebres; celebra tambem jogos e commemora os do tempo de Augusto, o que muito quadra com o assumpto principal; faz apparecerem na scena as figuras que nos livros subsequentes ham de representar um papel mais ou menos brilhante; para lisongear várias familias d'Italia, deriva a origem dellas dos differentes contendores nestes jogos. Tudo isto prova a excellencia com que o poeta liga os episodios e caminha sempre a seu fim, e o como este não he somenos aos demais livros do poema. No pário naval, afora outros chefes illustres, se ostenta o valente Mnestheu, que tanto se destingue no livro IX regendo os Troianos em ausencia de Enéas: na carreira pedestre, os primeiros que sahem a terreiro sam Euryalo e Niso, ternos amigos e magnanimos, cujo heroico sacrificio tem de nos mover e commiserar no mesmo liv. IX. Para mais admirarmos o V, convem confrontal-o com os seguintes; e então conhecer-se-á que não só pelo estilo, mas principalmente em relação ao todo do poema, he que o philosopho Montaigne o amava em particular; pois Montaigne não era homem que preferisse o bello do estilo ao grandioso dos pensamentos: se tanto se contentava deste liv. V, he pela summa arte e ligação com que foi escrito; he porque desempenha uma das difficuldades maiores da tragedia e da epopéa, a de preparar os movimentos e lances vindouros.

319-324. — 337-343. — No emicat vejo eu mais que um salto. Quando passa por nós qualquer objecto apressadamente, o ar vibrado pelo moto e a luz nos causam um certo tremor na vista: parece-me ser o pensamento que exprime o verbo emicat; e, se não he, nem por isso a minha traducção offende o texto, antes lhe accrescenta uma idéa conveniente. A minha convicção he que apenas deixei de ser infiel ao original. — O calcanhar de Diores não podia roçar o de Helymo que voava adiante: calcem calce entende-se pois dos artelhos; pois, quando um emparelhava com o outro, os artelhos de ambos bem se podiam tocar. Ao menos, assim entendida, a cousa vem a ser mais clara.

337-338. — 360-362. — Mr. Tissot diz de Euryalo: «Porque, por exemplo, na idade em que tanta rectidão e nobreza ha nos
primeiros movimentos, não teria elle o temor de parecer usurpar a victória, e a generosidade de se limitar ao segundo premio? Então he que todos commovidos repetiriamos: Gratior et pulchro veniens in corpore virtus.» Respondo que a juventude he nobre e generosa, mas que está bem longe da rectidão que lhe attribúe o crítico. Virgilio conhecia melhor o homem, sabia que no moço aduna-se a nobreza e a vaidade: no afôgo de vencer em que Euryalo se achava, o seu primeiro natural movimento era o de acceitar a vantagem que lhe tinha procurado o seu Niso; e mesmo este poderia levar a mal que o amigo reprovasse o ardil. Euryalo tinha virtude e generosidade, com os defeitos proprios dos seus annos. He inconcebivel o que pretende Mr. Tissot: ora censura o autor (como já atrás vimos) por fazer os seus heroes inteiramente perfeitos; ora julga esses mesmos heroes improprios para governar os homens que mandam; ora exige que o poeta ponha em um menino, não só toda a generosidade, mas tambem toda a justiça; qualidade que nasce do fundo do coração, mas que se reforça com a experiencia. Chateaubriand, segundo a poetica versão portugueza, assim diz a este respeito: «Moldou Jove á piedade os annos tenros: Se nós-outros anciãos, vergando curvos C'o pendor de Saturno, agasalhamos Na alma a justiça e a paz, privados somos Da compaixão, dos meigos pensamentos, Que ornam da vida os mais formosos dias.» Eu suspeito que os estudos de Virgilio e de Chateaubriand, na materia, eram mais profundos que os de Mr. Tissot. Não me demorarei em refutar os desparates de Mme Dacier ácêrca desta passagem da Eneida. 362-484. — 381-506. — Todos estes versos emprega o poeta no combate de Dares com Entello. Muitas paginas me seriam precisas para apontar as bellezas do estilo e da versificação: o leitor instruído facilmente as discernirá; e o que o não fôr, advertido como está nas anteriores notas, poderá por si mesmo descobril-as. Veja-se Delille sôbre a harmonia imitativa do liv. V. — Fallarei apenas da nota de Mr. Villenave ao verso 413; o qual, com justiça reprovando a censura de Heyne, accrescenta: «Elle criticaria os chiens dévorants que se desputavam des lambeaux affreux! Elle acharia algumas vezes Racine e Corneille fastidiosos!» Estas admirações provam que Mr. Villenave pensava que era mais facil encontrar em Virgilio cousas fastidiosas, do que em Racine e Corneille. Fóra vaidade nacional! Os dous grandes e sublimes tragicos tal não diriam: Racine certamente cria fastidiosas quasi todas as scenas da infanta de Castella no Cid; e Corneille não achava boa a tragedia Alexandre. — O mesmo crítico, ácêrca da traducção dos versos 451-452 por Delille, ajunta: «He o privilegio do poeta, a quem he permittida a imitação; mas o prosador se deve limitar a traduzir.» Eu digo: «O poeta não deve imitar, mas traduzir o poema; do contrário,
seria mais facil uma versão poetica do que em prosa.» Traducções livres sam commodas; porque, se o autor sabe traduzir a passagem, fal-o, e se não sabe, lança-se em uma vaga imitação: assim, nem tem o merito da invenção, nem o de vencer as difficuldades em se transformando no original.

485-544. — 507-563. — Aqui trata-se do jôgo do arco e setta, em que Virgilio excede ao mestre grego. Vejam-se os autores tantas vezes citados, sôbre todos Mr. Villenave, a respeito de todo este certame.

600-602. — 620-623. — O poeta, não perdendo de vista o assumpto principal, neste jôgo equestre pinta o que ainda em Roma se usava, e que se cria derivado dos Troianos; e faz algumas familias descenderem dos contendores. La Rue dá sôbre a materia excellentes explicações.

667-672. — 670-697. — O poeta começa a preparar Ascanio para desempenhar o papel que representará nos ultimos livros: até aqui era um menino que amava as distracções da sua idade; mas agora, sem se querer sujeitar a mestres, a si toma o cuidado de ir apaziguar as mulheres que incendiaram as naus, e o seu discurso tem já uma certa madureza.

722. — 745. — Mr. Villenave, com a mania de ajuizar dos antigos pelas idéas modernas, escreveu: «Os commentadores, que tudo querem explicar, dizem que trata-se aqui da imagem, da apparencia de Anchises, isto he da sombra da sombra; mas que he uma sombra senão uma imagem, uma apparencia?» A observação he razoavel segundo as idéas actuaes, mas não segundo as idéas daquelles tempos. Sam bem conhecidos estes versos attribuidos a Ovidio: Bis duo sunt homini: manes, caro, spiritus, umbra: Quatuor ista, loci bis duo suscipiunt. Terra tegit carnem, tumulum circumvolat umbra, Orcus habet manes, spiritus astra petit. Esta distincção nos parece mal, como parecerão mal aos vindouros não poucas das nossas.




NotasEditar

  1. No original, está interessentissimo.
  2. No original, consta 53, erro tipográfico.
  3. Mais acima, nesta mesma nota, está esparrella.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Livro VI


Assim prantêa, e ás naus demitte as redeas;

Vai-se a Cumas euboica e manso aborda.
Tenaz dente as fundêa; ao largo aproam,
E as curvas pôpas a ribeira cobrem.
       5Moços na praia hesperia ardidos saltam:
Quem sementes de chamma em siliciosas
Vêas cata; quem, denso alvergue ás feras,
Esmouta a selva, e os rios mostra achados.
O piedoso varão penetra o alcaçar
       10Em que Apolo preside, e as profundezas
Onde á horrenda Sibylla ânimo e alento
O delio vate inspira e abre os futuros.
Sobem da Trivia os lucos e aureos tectos.
  Dedalo, he fama, dos minoios reinos
       15Fugindo, ao céo fiou-se em lestes pennas,
Por via insólita ao gelado Arcturo
Audaz navega; e alfim na cidadella
Chalcidica assentando, os remos de azas
Te sagra, ó Phebo, e erige um bravo templo.
       20Nas portadas insculpe o morto Andrógeo,
E em castigo os Cecrópidas multados
Ah! na perda annual de sete filhos;
A urna está do sorteio. Ao mar suberba
Corresponde fronteira a gnosia terra:
       25Aqui do touro o amor cruel, e ao furto
Submettida Pasiphe, e a raça mista
Poz, monumentos da nefanda Venus,
Minotauro biforme; aqui da estancia
Afadigosa o enrêdo inextricavel;

       30Dolos que, da princeza apaixonada

Com pena, o mestre solve, e em taes desvaires
Cegos vestigios por um fio rege.
Não fôsse, Icaro, a dôr, nessa obra prima
Teu caso entrara: foi graval-o em ouro,
       35Duas vezes fallece a mão paterna.
Mais perlustraram tudo, se expedido
Não regressasse Achates com Deiphobe
De Glauco, a Phebe e Apollo consagrada;
Que se endereça ao rei: «Não mais, Enéas,
       40De espectaculos basta; ora te cumpre
De intacta grei matar novilhos sete,
Sete ovelhas do rito.» E ao santuario,
Aviado o sacrificio, os Teucros chama.
Rasgou-se antro espaçoso em roca eubéa,
       45Com cem bôcas, cem largas avenidas,
Donde oraculos cem troa a Sibylla.
Já no limen a virgem: «Toca os fados
A interrogar; o deus, eis o deus» clama.
Subito, ás portas, o semblante muda,
       50A voz não uma, não composta a coma;
Rabido incha-lhe o peito, arqueja e offega;
Maior parece, em tom mortal não soa,
Quando a bafeja de mais perto o nume:
«Tu cessas, Phrygio, de orações e votos?
       55Cessas? pois de outro modo a casa attonita
Não se escancara.» Dice, e emmudeceu.
Aos Teucros frio horror nos ossos coa,
E orou do íntimo o rei: «[1]Phebo, a quem sempre
D’Ilio o mal consternou, que a troica frecha
       60De Páris dirigiste contra Achilles,
Tu guia, o pelago arrostei que abrange
Terras taes, e os Massylos tam remotos,
E o dilatado chão que as Syrtes orlam:
Já que aportámos na arredia Italia,
       65De Pérgamo a desgraça aqui termine.

Vós ó deuses e deusas, que empecera
Dardania e a glória sua, he justo que ora
Todos poupeis a geração dos Phrygios.
E tu me dá, santissima vidente,
       70(O indevido não peço) em Lacio os numes
Nossos fixar e os vagabundos lares.
De marmore massiço a Phebo e á Trivia
Templos e festas crearei phebéas.
A ti no reino espera-te um sacrario,
       75Que te guarde as respostas e os arcanos
Dictados, alma vate, á gente minha;
Hei-de eleitos ministros dedicar-te.
Não confies, t’o rógo, ás folhas versos,
Nem dos ventos ludibrio aos ares voem:
       80Tu mesma os cantes.» Á oração poz termo.
Torva e indocil ao deus, por sacudil-o
Do anciado peito, a debacchar braveja:
Tanto elle mais fatiga a bôca irosa,
E o fero coração lhe opprime e doma.
       85Eis do antro os cem portões, de si patentes,
Vaticinios despedem pelas auras:
«Oh! quite emfim do pégo, em terra a transes
Mais graves te prepara. Ham de ir os Troas
A Lavino, socega; antes comtudo
       90Lá não têr ido: guerra, horrida guerra,
Do sangue o Tibre inchado espumar vejo.
Nem dorios arraiaes, nem Xantho ou Símois,
Te faltarão; tambem de deusa filho,
Ha no Lacio outro Achilles: nunca os Teucros
       95Tenaz deixará Juno. A quem, na angústia,
A que italas nações, a que cidades
Não tens de supplicar! E sempre a causa,
Uma hóspita mulher, um tóro externo.
Tu não fraquêes; mais que a sorte ousado,
       100Resiste aos males. De livrar-te o meio

Te abre graia cidade, o que nem pensas.»
Do adyto canta ambages taes medonhos,
Muge na gruta, o vero embrulha em trevas:
Á furibunda os freios bate Apollo,
       105N’alma excitada estimulos vertendo.
Muda a Sibylla, mais quieta a sanha,
Começa o teucro heroe: «Nenhum trabalho,
Por novo e inopinado, estranho ó virgem:
Um por um antevi, ponderei todos.
       110Pois que he do inferno a entrada e aqui, me affirmam,
Do revêsso Acheronte o lago obscuro,
Ir, só te imploro, ao caro pae me caiba:
Mostra-me e patentêa as sacras portas.
Eu, nestes hombros, d’entre a chamma e infindas
       115Chuças hostis o arrebatei, salvei-o;
Elle infermo comigo affrontou mares,
O pélago aturava e o céo minazes,
Com mais vigor do que á velhice he dado.
Requerendo ordenou-m’o, e humilde que hajas
       120Dó do filho e do pae deprecar venho:
Tudo se te faculta; Hecate em balde
Não te prepoz, ó casta, ao luco averno.
Se Orpheu poude avocar da espôsa os manes,
Em thracia accorde cithara fiado;
       125Se, com alterna morte o irmão remindo,
Pollux tanto essa via anda e desanda,
(Porque a Theseu citar e o grande Alcides?)
Eu provenho tambem do rei supremo.»
Dest’arte orava, ás aras apoiado;
       130E ella accrescenta: «Anchisea e diva estirpe,
Descer a Dite he facil; dia e noite
Seus cancellos o Tartaro franquêa:
Tornar atrás e á luz, eis todo o ponto,
Eis todo o afã. Do recto Jove amados,
       135Ou por virtude ardente ao céo subidos,

Poucos, filhos dos deuses, o alcançaram:
Medeia um bosque, e sinuoso em tôrno
Enfuscado o Cocyto a espriguiçar-se.
Mas vezes duas se tranar a Estyge
       140E a lobrega morada vêr cubiças,
Se tanto folgas do ímprobo trabalho,
Ouve e á risca o executa. Arvore opaca,
Dicado á inferna Juno, occulta um ramo
N’haste e nas folhas aureo: em valle umbroso
       145O encobre e fecha a denegrida selva.
Sem que destronque o aurícomo rebento,
No Orco ninguem se interna: he dom que exige
E instituiu Prosérpina formosa.
Um fóra, brota o novo, e do luzente
       150Metal frondesce a vara. Em alto a mira,
Indaga, e achando respeitoso o apanhes;
Que, a te ser destinado, elle espontaneo
Logo te cederá; senão, com fôrça
Nem duro ferro poderás sacal-o.
       155Porêm, desta consulta emquanto pendes,
Ai! mal sabes que as naus te incesta agora
De amigo exanime o feral cadaver:
No sepulcro o aposenta; em negras rezes
Encete a expiação. He como aos vivos
       160O ínvio reino sombrio e estygios lucos
Has de avistar.» Calou-se, e os labios cerra.
De olhos fixos, tristonho, eventos cegos
A cogitar, a gruta Enéas larga:
Trilhando-lhe a pégada, o fido Achates
       165Volve iguaes pensamentos. Sôbre o socio
Que, ao dizer da Sibylla, enterrar devem,
Travam conversação comprida e vária;
Té que a Miseno vêm de indigna morte
Jazer em sêcco; o Eólides Miseno,
       170Sem superior com bronze alticanoro

No incitar os varões e accender Marte.
Pagem de Heitor, pugnava á sua ilharga,
No lituo singular, na lança eximio.
Extincto o grande Heitor ás mãos de Achilles,
       175O fortissimo heroe juntou-se a Enéas,
Não somenos senhor. Mas quando, enchendo
Acaso o mar com resonante concha,
Louco a tanger os deuses desafia,
Á falsa fé, de inveja entre uns penedos
       180O afogou (se he de crêr) Tritão nas vagas.
Todos, mórmente o pio Enéas, fremem,
Cercam-no pranteando; e obedientes
Á douta guia, ao céo funerea pyra
D’arvores cumulada erguer porfiam.
       185Covil de feras, velha mata exploram:
Prostra-se o pinho alvar, grita o machado
No sôbro rijo, nas fraxíneas traves;
O fendivel carvalho as cunhas racham;
Vem dos montes tombando ingentes ornos.
       190Primeiro no trabalho, exhorta os socios,
Dos mesmos instrumentos se arma Enéas;
E a mata olhando immensa, mil cuidados
No ânimo revolvendo, em preces rompe:
«Oh! se nesta espessura esse aureo garfo
       195Deparassemos nós; como ai! tam certa
Foi contra ti, Miseno, a prophecia.»
Inda fallava, e ante elle duas pombas
Do céo voando na verdura pousam.
As aves maternaes o egregio cabo
       200Conhece e brada: «Se ha caminho, ó guias,
Inclinai vosso adejo aos bosques onde
Rico sombrêa o ramo ao pingue solo!
No lance, ó diva mãe! não me falleças.»
Então retem-se a observar das pombas
       205A tendencia e os sinaes. Pascendo aos vôos,

Só quanto a vista alcance dos que as seguem,
Ellas avançam: perto das gargantas
Do pestilente Averno, alando-se ambas,
Sulcam o ethereo fluido, e emfim descahem
       210Na duplice anhelada arvore, donde
Reluz discorde brilho entre a ramagem.
Qual visgo sohe, no alheio pé gerado,
Verdecer e enramar-se ao brumal frio,
Nos troncos enrolando os croceos gomos;
       215Na enzinha opaca tal vegeta esse ouro,
E a folheta crepita á branda aragem.
Delle, inda assim tardio, ávido Enéas
Péga, rapido o quebra, e á vate o leva.
Não menos a Miseno os seus lamentam,
       220Na praia honras prestando á ingrata cinza.
Formam de achas de roble e piceas têas,
De atras folhas tecida, a excelsa pyra;
Põem-lhe adiante exequiaes cyprestes,
No alto a decoram de fulgentes armas.
       225Aquecem caldeirões que em ondas fervem,
Lavam-lhe o frio corpo, e todo ungido,
A gemer e a chorar, no esquife o deitam;
Vestem-lhe o usado purpurino manto:
Outros o ingente féretro carregam,
       230Triste mister, sustendo, ao modo avíto
Averso o rosto, os sotopostos fachos;
Conjunto na fogueira o incenso fuma,
Viandas, copas de infundidos oleos.
Com vinho, assente a cinza e quêda a chamma,
       235O borralho poroso e o resto apuram;
Coryneu colhe a ossada em eneo cado:
De fausta oliva um galho ensopa n’agua,
Tres vezes borrifando asperge os socios,
Tres profere as novissimas palavras.
       240Da campa sôbre a mole impoz Enéas

O remo do varão, o arnez e a tuba,
No monte Aereo, que he Miseno agora
E ha-de este nome conservar perenne.
Isto feito, prosegue e as ordens cumpre.
       245De amplo hiato espelunca alta e lapídea,
Fusca selva a munia e lago immano,
Sôbre o qual transvoar impune as aves
Nunca poderam, tal das fauces turvas
Odor exhala pelo azul convexo;
       250Donde em grego o lugar chamou-se Aornon.
Quatro almalhos alli tergi-nigrantes
A vate expõe, nos téstos vinho entorna,
Entre os cornos tosquia, e em sacro fogo
Lança em primicia o pello; vocifera
       255Hecate no Erebo e nos céos potente.
Facas ao sangradouro, alguns em taças
Cruor tepido aparam. Mesmo á espada
Enéas das Eumenides á madre
E á Terra irmã cordeira preta immola,
       260E a ti, Prosérpina, uma toura;
Alça da Estyge ao rei nocturnas aras;
Em holocausto as vísceras bovinas,
Derrama azeite no debulho ardente.
Eis sob os pés, ao primo albor do dia,
       265A remugir o chão, mover-se os cumes
Do arvoredo; e na sombra, ao vir a deusa,
Surde um canino huivar. «Profanos, longe,
Oh! longe deste bosque, a vate exclama:
Tu, Phrygio (aqui denodo, aqui firmeza),
       270Desembaínha o ferro, a estrada invade.»
Nisto, furiosa estranha-se na gruta;
Com não tímido passo a iguala Enéas.
Deuses! que imperio sôbre as almas tendes,
Caladas sombras, Phlegetonte e Chaos,
       275Taciturnos vastissimos contornos,

Dai-me o que ouvi narrar, dai-me os arcanos
Do abysmo descoser caliginoso.
D’erma noite iam sós no escuro involtos,
Por vã plutonia estancia e vacuos reinos,
       280Qual se anda á luz fallaz da incerta Lua
Por matas, quando Jove embrusca o pólo
E ás cousas tira a côr tristonha treva.
No vestibulo mesmo, ás fauces do Orco
Se aninha o ultriz Remorso, e o Lucto e o Medo;
       285Pallidos Morbos e a Velhice triste,
Má conselheira a Fome e a vil Penuria,
Visões de horror; da mente os ruins prazeres,
E a Morte e a Lida, e o Somno irmão da Morte:
De fronte a lethal Guerra, e em ferreo catre
       290As Furias, e a Discordia insana que ata
Cruentos nastros na viperea grenha.
No centro, annosos braços largo e opaco
Olmo expande, e nos ramos se diz moram
A cada folha os sonhos vãos pegados.
       295Monstros mil aos portaes, biformes Scyllas,
Os Centauros, as Górgonas se alojam,
Mais o animal de Lerna horri-stridente,
E o phantasma tricorpore e as Harpyas.
Eis de pavor o gume saca Enéas,
       300Tem-se á espera; e, se a mestra não lhe adverte
Que eram sem corpo avoejantes vidas
E oucas fórmas subtis, elle investira
E de aço inutil açoutara sombras.
Daqui parte o caminho do Acheronte,
       305Que em funda bólha férvida voragem,
E ao Cocyto arrebeça arêa e lodo.
Fero esqualido arraes guarda estas aguas,
Charonte hediondo, cuja barba espessa
Branquêa inculta, os lumes lhe chammejam,
       310E aos hombros suja capa em nó lhe pende:

Puxando á vara, ou mareando as vélas,
Em cymba enfarruscada os vultos passa;
Velho, mas como um deus, robusto e verde.
Tropel confuso ás margens se arremessa:
       315Bravos guerreiros de alma luz privados,
Varões, meninos, mães, innuptas virgens,
Jovens ante seus paes á queima entregues:
Quantas no outono as despegadas folhas
Cahem aos primeiros frios; ou quam bastas
       320Glomeram-se aves do alto pégo á terra,
Quando alêm-mar a temperados climas
Gelido anno as envia e as afugenta.
No transporte rogando a preferencia,
Avidas mãos á opposta riba estendem:
       325Brusco admitte o barqueiro estes e aquelles;
Muitos porêm da praia arreda esquivo.
A Enéas o tumulto espanta e abala:
«Porque, ó virgem, das almas o concurso
Busca este rio? porque enxotam-se umas,
       330E o vao lívido a remo as outras varrem?»
Breve torna a longeva: «Ó nobre cabo,
Diva prole certissima, o estagnado
Cocyto vês profundo e a crua Estyge,
Por quem temem faltar jurando os numes.
       335Pobre turba inhumada he quanto avistas;
Charonte, o arraes; sepultos, os que embarcam.
Nem pode algum, se os ossos não descansam,
Montar a margem torva e rouca vêa:
Cem annos volteando anciosos vagam;
       340O estanque alfim revêr, transpôr conseguem.»
O Anchisiades pára, e a sorte iniqua
Detem-se a contemplar. Devisa afflicto
Mestos, sem funeraes, Leucaspe e Oronte,
Chefe da lycia esquadra; os quaes, de Troia
       345Partidos, por tormentas sossobraram,

Austro n’agua involvendo a nau e a gente.
Seu piloto apresenta-se, que ha pouco
Na róta libya, emquanto observa os astros,
Da pôpa resvalou, foi de mergulho.
       350Na escuridão lhe grita ao lubrigal-o:
«Que deus a nós roubou-te, ó Palinuro,
E te afundou no ponto? Nunca em falha,
Só nisto, Apollo achei, pois me cantava
Incolume n’Ausonia abordarias:
       355E eil-a a promessa!» O nauta replicou-lhe:
«[2]Nem de Phebo a cortina, ó forte Anchiseo,
Te[3] illudiu, nem ha deus que me afundasse.
Regendo o curso, ao leme eu me aferrava;
Arrancado com fôrça, elle comigo
       360Se precipita. Aos crespos mares juro,
Nada temi por mim, senão que a tua
Nau, sem leme, sem mestre, perecesse,
Crescendo os escarcéos. Violento Nôto
Me rojou pelo immenso equoreo golphão
       365Tres noites invernaes: ao quarto lume
De cima de uma vaga enxergo a Italia.
Vou nadando, e em seguro já me agarro,
Grave e molhado, ás quinas de um rochedo,
Quando, encontrar suppondo grosso espólio,
       370Homens crueis a ferro me acommettem.
Ora o vento, a maré, me joga á praia.
Pela jucunda luz, celestes auras,
Pelo augmento de Iulo e por Anchises,
Desta ancia me descarga: ou tu me enterra,
       375Que o podes indo a Velia; ou, se ha maneira,
Se a genitriz, invicto rei, t’a indica
(Nem creio navegar desassistido
Queiras taes rios e a palude horrivel),
Dá-me a dextra e me leva pelas ondas;
       380Do remanso da morte eu goze ao menos.»

«Donde, o atalha a Sibylla, ó Palinuro,
Donde esse impio desejo? não mandado
A severa corrente olhar das Furias,
Traspassando insepulto a estygia borda!
       385Não penses em dobrar com rôgo os fados.
Mas por confôrto e allívio attento escuta:
Dessa comarca, instados por assombros,
Ham-de os vizinhos suffragar teus ossos,
Com dons solemnes tumular-te, e o sítio
       390Terá de Palinuro o nome eterno.»
Deste nome se paga, e um tanto as penas
Do coração modera e desafoga.
Marchando avante, ás aguas se appropinquam.
Do lago o arraes, que os avistou no mudo
       395Bosque andando, á ribeira encaminhados,
Os saltêa e os exprobra: «Tu, quem sejas,
Nestas margens armado o que pretendes?
Nem mais um passo; aqui sómente as sombras
E a soporosa Noite e o Somno habitam:
       400Os vivos não transporta o casco estygio.
Nem me gabo de haver tomado Alcides,
Pirithôo e Theseu, bem que invenciveis
Prole fôssem divina: aquelle trouxe
Dos pés do throno o guardião do inferno
       405Tremente e agrilhoado; ao régio tóro
Subtrahir a senhora os dous tentaram.»
Curto responde a Amphysia: «Taes insídias
Não temas; estas armas não te offendem:
No antro ladrando eterno, exsangues sombras
       410Assuste o gran’porteiro; ao tio casta,
Recatada Prosérpina se encerre.
Tam guerreiro quam pio, ao Orco Enéas
Desce ante o pae. Se a filial virtude
Não te abranda e commove, eil-o (descobre
       415Na veste o ramo occulto), reconhece-o.»

De ira as entranhas tumidas se applacam;
Nem mais tugiu. Da haste fatal mirando
O veneravel dom, não visto ha muito,
Vólta a cerulea pôpa e á riba encosta.
       420Abancadas ao longo afasta as almas,
Faz praça, e a bórdo o capitão recebe.
Ao pêso a barca nas costuras geme,
Rimosa da lagoa aos sorvos bebe;
Alêm depõe a salvo a guia e o Phrygio,
       425Em morraçal verdoso e limo informe.
Com trifauce latir Cerbero ingente,
Deitado em cóva opposta, o reino atroa.
Seus serpentinos collos já se erriçam;
Lança-lhe a vate um somnorento bolo
       430De mel e confeições, que, as tres gargantas
Escachando glotão, raivoso engole;
E, os costados em terra, entorpecido,
Por toda a gruta o corpo enorme estira.
Sopito o monstro, a entrada occupa Enéas,
       435E lesto evade a irremeavel onda.
Logo se ouve ao limiar vagido e chôro,
Tenros ais dos que ao seio em que mamavam
Arrebatou, privou do doce alento,
Immergiu dia infausto em lucto acerbo.
       440Por crime falso á morte os condemnados
Estam perto. Os lugares não se assinam
Sem sortes, sem juiz: rodando a urna,
Chama ao silente povo e inquire Minos,
E das vidas conhece e dos peccados.
       445Cá vizinham suturnos os que, insontes
A luz odiando, as almas desataram,
Víctimas do suicidio. Oh! quanto agora
Prefeririam padecer no mundo
Cru trabalho e pobreza! Ha lei que o veda,
       450E, em vóltas nove circumfusa a Estyge,

Triste e inamavel, os refreia e prende.
Não mui distantes, os lugentes campos
(He seu nome) estendidos se dilatam;
Onde os que empeçonhou de amor a febre
       455Myrtedo cobre de secretas sendas,
Nem da paixão tyranna a morte os livra.
Lá Procris, Phedra, Eryphile passêa,
Mesta do filho atroz mostrando os golpes;
Tambem Pasiphe, Laodamia e Evadne;
       460Cenis, de femea transformada em homem,
Por fadario a seu sexo reduzida.
No bando, fresca a chaga, errava a Tyria
Nos desvios da selva: assimque Enéas
Ao pé chegou no escuro a destinguil-a,
       465Qual do mez no comêço alguem nas nuvens
Apontar vê Lucina ou cuida vêl-a,
Meigo e amoroso lagrimando falla:
«Infeliz Dido! o nuncio não mentiu-me,
Desesperada a ferro te finaste!
       470E autor eu fui! Raínha, aos céos t’o juro,
No imo centro se ha fé, larguei teu pôrto
A meu pezar: forçaram-me os supremos,
Que, no imperio da noite me afundando,
Por brejos, por tojaes, a andar me obrigam;
       475Nem cri tamanha dôr causar partindo.
Tu foges? tu me esquivas? tem-te; os fados
Este último colloquio nos concedem.»
Tal a Dido, que irosa e torva o encara,
Embrandecia o heroe com pranto e mágoas:
       480Ella aversa no chão pregava os olhos;
Nem mais seu rosto á practica se move
Que dura silice ou marpesia rocha.
Infensa escapa-se, e em retiro umbroso
Do marido Sicheu se abriga ao peito,
       485Que terno corresponde a seus cuidados.

Longo tracto, a chorar o injusto caso,
Compungido e saudoso o Teucro a segue.
Vam por diante; as veigas já pisavam
Só de claros guerreiros frequentadas.
       490Aqui Tydeu, Parthenopeu famoso,
Adrasto occorre de pallente imagem.
Aqui, mortos no prelio e tam carpidos,
Em fileira os Dardanidas encontra:
Suspiroso a Thersílocho e Medonte,
       495Glauco e os tres Antenoridas contempla,
E a Polybetes consagrado a Ceres,
E Ideu que inda menêa e o carro e as armas.
Á dextra e á sestra as almas se apinhoam:
Não basta olhal-o, não; retêl-o agrada,
       500Achegar-se e indagar da vinda as causas.
Logoque, pela treva o arnez fulgindo,
O avistam graios cabos e as phalanges
Agamemnonias, trepidos recuam:
Uns, como quando aos barcos se acolheram,
       505Costas viram; no erguer a voz sumida,
A alguns na bôca hiante o grito morre.
O Priameo Deiphobo entre estes anda,
Lacero enormemente o corpo e a cara,
De beiços, mãos e orelhas cerceado,
       510E de um gilvaz deforme o nariz troncho.
Com vergonha o supplício infame encobre;
E a custo o reconhece o nóto amigo:
«De Teucro ó sangue illustre, armipotente,
A quem, Deiphobo, tal crueza aprouve?
       515Quem tanto ousou? Na noite ouvi suprema
Que, de matar cansado, succumbiras
Confundido no vasto morticinio.
No Rheteu vezes tres chamei-te a vozes,
Vão túmulo erigindo; que o teu nome
       520E armas protegem: nem te achei, nem pude

No patrio chão depôr-te em me ausentando.»
«Nada omittiste, o Priamides clama;
Tudo a Deiphobo e aos manes seus pagaste.
Nestes males, amigo, me abysmaram
       525Da Lacena o flagicio e o meu destino:
Esta a memoria que de si deixou-me.
Soubeste (e ha quem se esqueça) em gostos falsos
Passada aquella noite. O fatal bruto
Quando, prenhe de armada infantaria,
       530Arduos muros saltou; fingindo coros,
Ella as Phrygias guiava em tôrno ás órgias;
E, entre as evantes manejando um facho,
Do alto castello os Danaos convidava.
No thalamo infeliz me deito, oppresso
       535De pesadume e lida; e caio em manso
Lethargo, semelhante ao somno eterno.
Põe-me a guapa consorte as armas fóra,
E até da cabeceira a fida espada;
A Menelao acena e as portas abre;
       540Julgando assim mimosear o amante,
E o labéo extinguir da antiga offensa.
Que mais? o quarto assaltam; a exhortal-os
O Eolides malvado os acompanha.
Deuses! igual supplício os Gregos lastem,
       545Se com justiça impreco esta vingança.
Mas vivo, eia tambem, que urgente caso
Te trouxe cá? dos mares foi capricho?
Mando celeste? por que azar á estancia
Vens turbida e funesta, ao Sol negada?»
       550Phebo em rosea quadriga o meio do eixo
Pelo ether já transpunha, e em taes colloquios
Ia-se o tempo dado; a companheira
Em resumo os adverte: «Avança, Enéas,
A noite, e em chôro as horas consumimos.
       555Parte-se a estrada aqui: de Dite aos paços

Corre á direita, e alêm nos fica o Elysio;
No impio Tartaro, á esquerda, os máos padecem.»
Deiphobo então: «Sibylla, não te agastes;
Ao número me aggrego, e ás sombras tórno.
       560Vai, glória nossa, vai; logra outros fados.»
Nisto, o passo torcendo, se retira.
Repara, e em sestra penha o heroe descobre
Tartarea tri-murada fortaleza,
Que rapido a rolar sonantes pedras,
       565Cingem do Phlegethonte igneas torrentes.
De inteiriças columnas diamantinas
O portão da fachada, a demolil-o
Nem vale humano esfôrço, nem divino:
Ferrea tôrre se eleva; e de atalaia,
       570Traçada opa sanguenta, sempre alerta,
Lá Tisiphone o portico defende.
Entram ais a estrugir, do açoute os golpes;
Arrastam-se grilhões; retinnem ferros.
Pára, e assombrado o estrondo haurindo Enéas:
       575«Quaes as culpas? quaes dellas os castigos?
Explica, ó virgem: que alarido aquelle?»
E a vate: «Inclito chefe, ao justo o limen
Sceleroso he vedado; mas dos deuses,
Quando Hecate prepoz-me ao bosque averno,
       580Mostrou-me os tratos, me levou por tudo.
O durissimo Gnosio Rhadamanto
He quem manda; e os indaga e pune os crimes,
E a confessar constrange os que expial-os
Para a tardia morte differiram,
       585De os têr furtado ao mundo em vão contentes.
Ultriz, logo insultando os azurraga
Tisiphone; e a chamar as outras Furias,
Destorce com a esquerda e assanha as cobras.»
Eil-as de par em par as sacras portas
       590No quicio horrísono a ranger. «Attentas

Qual, sentada ao vestibulo, o vigia
Medonha catadura? pois mais seva
Cincoenta atras guelas hydra enorme
Dentro arreganha; e o Tartaro em despenho
       595Se abysma, o dôbro do que a vista abrange
Desde baixo ao luzente Olympo ethereo.
Lá fulminados os Titães mancebos,
Filhos da Terra, nas profundas rolam.
Vi de gigante corpo os dous Aloidas,
       600Que, o céo mesmo escalando, acometteram
Derribar do seu throno o rei supremo.
Vi Salmoneu penando, que o sonido
E os fuzis do Tonante arremedara:
Tocha a brandir, em carro de dous tiros,
       605Por Elide ia ovante, e á fôrça os povos
O adoravam por deus; com o estrupido
Dos cornípedes nescio em erea ponte
Trovões fingia e o fogo inimitavel:
Jupiter, fachos não, não fúmeas tedas,
       610Sim contorce um corisco d’entre as nuvens,
E em turbilhão sulphureo o precipita.
Tambem da mãe commum o alumno Tycio
Por geiras nove, oh pasmo! estira os membros:
Roe-lhe abutre cruel de bico adunco
       615O figado immortal; e, esquadrinhando
Para o supplício as visceras fecundas,
A fome ceva, no âmago se encarna;
De renascer as fibras não descansam.
Dos Lapithas, Ixion, de Pirithôo
       620Que direi, sôbre os quaes já já desaba
Atra imminente rocha? Ante elles brilham
Em leitos geniaes pilares de ouro,
Banquetes regios de exquisito luxo:
Perto encostada, a principal das Furias
       625Attingir lhes prohibe as iguarias,

Surge o facho a vibrar, minaz troveja.
Quem teve odio aos irmãos, durante a vida,
Poz mãos nos paes, urdiu contra o cliente;
Os que amuados thesouros incubando,
       630Maxima turba, nada aos seus partiram;
Os mortos no adulterio; os de impias armas
Sequazes, desleaes contra os senhores,
No encêrro a pena aguardam. Não a inquiras,
Nem que sentença ou caso os tem submersos:
       635Qual pedra ingente galga, ou de uma roda
Estreito aos raios pende; está sentado
Preso o infeliz Theseu e estará sempre;
Phlegyas, miserrimo a bradar nas trevas,
Nunca cessa: «Aprendei no exemplo horrivel
       640Justos a ser, a não zombar dos numes.»
Este vendeu a patria a ruim tyranno;
Leis, as fez e defez peitado aquelle;
Outro invadiu nefando o leito á filha:
Réos que a tenção damnada executaram.
       645Nem com voz ferrea, bôcas cem, cem linguas,
Podera eu numerar da culpa as fórmas,
A variedade e os nomes dos castigos.»
Depois a idosa Amphrysia: «Anda, accrescenta,
Acaba a empresa, a rota apressuremos.
       650Dos Cyclópes forjados vejo os muros,
No arco da frente as portas, onde a offerta
Depôr se nos prescreve.» Dice, e opacas
Vias a par correndo, o espaço vencem,
Tocam já nos batentes. Elle a entrada
       655Occupa; e, de agua viva asperso o corpo,
No frontespicio o ramo á deusa crava.
Completo o rito e o voto, emfim chegaram
A jucundos vergeis e amenas veigas,
Da bem-aventurança alegres sitios.
       660Ether mais largo purpurêa os campos,

Que alumia outro Sol, outras estrellas.
Em graminea palestra alguns se exercem,
Brincam na fulva arêa em lucta e jogos;
Parte o compasso bate, e baila e canta;
       665E ao Thracio, que dedilha ou pulsa as cordas
Com plectro eburneo, em roçagante loba,
A septívoca lyra accorde falla.
Nota-se alli de Teucro a estirpe egregia,
Nados em melhor quadra heroes magnanimos,
       670Dardano autor de Troia, Assaraco, Ilo;
Sem dono ao longe arnezes, coches vagos,
Lanças no chão pregadas, e pascendo
Livres soltos corséis pela campanha.
De armas e carros o que em vivos tinham
       675Gôsto, amor de nutrir nedios cavallos,
Esse da terra ao seio os acompanha.
Eis em festins na relva, á dextra e á sestra,
Ledo péan em côro outros modulam
N’um laureo bosque odoro, donde acima
       680O Eridano caudal volve entre selvas.
Lá, da patria em defesa os vulnerados,
Os sacerdotes castos, os poetas
Que o puro estro phebeu não profanaram,
Os inventores das polidas artes,
       685Os que renome obrando mereceram,
A todos nivea banda as frontes orna.
Circumdada a Sibylla os interroga,
E a Museu mais, que os hombros sobreleva
Do attento bando em meio: «Almas ditosas,
       690E tu propheta eximio, onde, ensinai-me,
Onde Anchises reside? em busca delle
Do Erebo os grandes rios trasnadámos.»
Foi breve o heroe: «Nenhum tem certo o alvergue;
Sombrios lucos, vicejantes margens,
       695De arroios frescas varzeas habitâmos.

Mas, se o folgais de achar (o atalho he facil),
Esta encosta montemos.» E, a guial-os,
Do cume ostende as nítidas campinas,
E a virente convalle os vai descendo.
       700Meditabundo Anchises, nelle inclusas,
As almas resenhava a tornar prestes
Á luz superna; e dos queridos netos
O número talvez recenceava,
Seus costumes e acções, fortuna e fados.
       705Quando assomava Enéas pela grama,
O ancião jubiloso alonga as palmas,
E as faces rosciando a voz desprega:
«Venceste, emfim, piedoso a dura estrada,
Como esperava! Es tu, meu caro Enéas?
       710Ouvir-te os nótos sons, render-t’os posso!
Para agora isto os calculos me davam:
Certo não me enganou meu pensamento.
Por que terras jogado, por que mares,
Por que perigos, filho, eu te recebo!
       715Quanto receei que a Libya te estorvasse!»
E elle: «A tua, meu pae, a tua imagem
Cá me attrahe, occorrendo austera e assidua.
Hei no Tyrrheno a frota. Ao nosso amplexo
Ah! não te esquives, dextra a dextra unamos.»
       720E ao discursar, em lagrimas desfeito,
Foi tres vezes nos braços apertal-o,
Tres abarcada a sombra se lhe escapa,
Como aragem fugaz, ligeiro somno.
Eil-o em secreto valle descortina
       725Selva escusa de arbustos sussurrantes:
Em tôrno ao brando Lethes, que alli mana,
Voam povos sem conto; e, qual nos prados
Se em flores várias por sereno estio
Senta o enxame e se espalha entre açucenas,
       730Do estrépito murmúra o campo todo.

Inscio, atalhado, a causa indaga Enéas,
Que rio este he, que gente em cópia tanta
Lhe enche as ribas. «Aos corpos destinados,
Dice o padre, almas sam que eterno olvido
       735N’agua lethéa descuidosa bebem.
Muito ha que t’ás mostrar e expôr-te anhélo
Dos meus a descendencia; afim que ainda
Te regozijes mais da Italia achada.»
Pois[4] he crivel, meu pae, que almas sublimes
       740Aos tardos corpos, resurgindo, voltem?
Oh! desejo de vida insano e triste!
«Não fiques mais suspenso; eu vou por ordem
Cada cousa expender-te: escuta, ó filho.
Desde o princípio intrínseco almo espirito
       745Céos e terra aviventa e o plaino undoso,
O alvo globo lunar, titaneos astros,
E nas vêas infuso a mole agita,
E ao todo se mistura: homens e brutos,
Volateis gera e anima, e o que de monstros
       750O crystal fluido esconde. Ha nas sementes
Ignio vigor divino, emquanto a noxia
Materia o não retarda, nem o embotam
Orgãos terrenos, moribundos membros.
Daqui vem dôr, prazer, cubiça e medo;
       755E á clara alteza os miseros não olham,
Em cega negregura encarcerados.
Nem perdem, quando a luz vital se extingue,
De todo as fezes e mundanos vicios:
Muitos, concretos longamente, he fôrça
       760Que nellas durem por teor pasmoso.
Em tratos pois seus erros pagam todas:
Qual pende aos ventos; qual da culpa as nódoas
Lava em golpho espaçoso, ou dile ao fogo.
Cada um soffre em seus manes: poucos temos
       765Ao depois do amplo Elysio as doces veigas;

Té que, perfeito o gyro, a mão do tempo
Gasta o impresso labéo, depura a flamma,
O senso ethereo e simples aura afina.
Voltos mil annos, as convoca em turmas
       770Ao rio um deus; porque ellas, do passado
Esquecidas, revêr a esphera queiram,
E entrar de novo nas prisões corporeas.»
Cessa Anchises; a Enéas e a Sibylla
Traz ao mais basto da ruidosa turba;
       775Um combro toma; donde a extensa fila
Devise dos que vem, e a todos possa
Os traços discernir. Então prosegue:
«Eia, a glória que os Dárdanos espera,
Do italo tronco os descendentes nossos
       780Que a fama illustrarão dos seus maiores,
Hei de explicar-te, e aprenderás teus fados.
Notas? proximo á luz por sorte, um joven
Se arrima em hasta pura: ás auras, misto
Latino sangue, surgirá primeiro,
       785Silvio, posthumo teu, de nome albano;
Que tardio, a ti já na eterna vida,
Te ha-de Lavinia produzir nas selvas;
Rei, de rêis gerador, por onde os nossos
Tem de vir de Alba-longa a ser senhores.
       790Segue-se Procas, dos Troianos honra;
Capys e Numitor; mais Sylvio Enéas,
Que te avive e recorde, e, obtendo o reino
Cobrar, te imite bellicoso e pio.
Olha, os mancebos quanta fôrça ostentam!
       795Aos que civil carvalho ensombra as testas,
Esses Nomento e Gabios e Fidenas,
Esses Collacia te alçarão nos montes,
Eximia no pudor; Pomecia altiva,
Castro d’Inuo juntando, e Bola e Cora:
       800Ermos ignotos, no porvir famosos.

Será do avô refúgio o Marcio Romulo,
De Ilia, prole de Assaraco, nascido.
Vês que o elmo lhe adornam dous cocares,
E o padre o marca de esplendor sidereo?
       805A inclita Roma, por auspicios delle,
O orbe, Enéas, fecunda em grandes homens,
No imperio ha de abranger, na mente o Olympo,
Sete montanhas n’uma só cidade:
Qual torreada, ufana mãe dos deuses,
       810Corre em Phrygia no coche a Berecinthia,
Que cem netos celícolas abraça,
Todos em alto grau, ditosos todos.
Volve os olhos, contempla os teus Romanos.
Julio ahi tens e a geração de Ascanio,
       815Para exaltar-se ao pólo. A ti bem vezes
Eis, eis o promettido, Augusto Cesar,
Diva estirpe, varão que ao Lacio antigo
Ha-de os saturnios seculos dourados
Restituir, e sôbre os Garamantes
       820E Indos seu mando propagar; dos signos
Clima alêm situado, alêm das rótas
Do anno e de Sol, por onde aos hombros vira
O celífero Atlante o eixo ardente
De estrellas tauxiado. Os caspios reinos
       825Já do agouro da vinda se horrorisam;
E a meotica plaga e as septiduplas
Fozes do Nilo turbidas trepidam.
Nem o que a cerva erípede varara,
Que apaziguara as matas do Erymanto,
       830E a Lerna com seu arco estremecera,
Tanto peregrinou; nem victorioso
Libero, que do Nysa expede os tigres,
E dobra os cumes com pampineas redeas.
E inda estender a fama duvidâmos,
       835Ou n’Ausonia assentar nos tolhe o medo?

Quem distante apresenta insignias sacras
E ramos de oliveira? as cãs e a barba
Do rei conheço que primeiro em Roma
Legislará, da exigua e pobre Cures
       840Mandado a celso imperio. Ao depois Tullo
Irá da patria quebrantar os ocios,
Mover ás armas cidadãos remissos,
E as tropas aos triumphos desafeitas.
Anco succederá mais presumpçoso,
       845Que d’aura popular já nimio folga.
Vêr queres os Tarquinios, e o severo
Vingador Bruto e os recebidos feixes?
Consul, tomando as sevas machadinhas,
Ai delle! immolará rebeldes filhos
       850Á pulchra liberdade. Vário ajuizem
Disto os vindouros; ha-de o amor da patria,
E o de glória vencer desejo immenso.
Nota os Decios ao longe, os Drusos nota,
Manlio Torquato de cruel secure,
       855E o dos pendões reconductor Camillo.
De armas fulgindo iguaes, os dous que observas,
Concordes hoje quando a noite os preme,
Ah! quanta excitarão, se a luz tocarem,
Guerra entre si, que estragos, que batalhas!
       860Dos muros de Moneco e das Alpinas
Serras baixando o sogro, instructo o genro
Dos oppostos Eôos! A taes guerras
Não vos acostumeis, nem volteis, jovens,
Contra o seio da patria o esfôrço vosso.
       865Tu, que provens do Olympo, antes perdoa;
Fóra os dardos arroja, ó tu meu sangue.
De Acheus pela matança aquelle insigne,
Triumphada Corintho, ao Capitolio
Ha-de o carro subir. Mycenas e Argos
       870De Agamemnon, ess’outro ha de estruil-as,

A Eacide abater, do armipossante
Achilles garfo; os Teucros seus vingando,
E de Minerva o maculado templo.
Como olvidar-te, ó Cosso, ó Catão magno?
       875Como os Gracchos, e os dous, terror da Libya,
Scipiões, raios da guerra? e na pobreza
O potente Fabricio? e a ti, Serrano,
Semeando os sulcos? Onde absorto, ó Fabios,
Me arrebatais? só tu, Maximo, aos nossos
       880Detençoso a republica restauras.
Ham-de outros, sim, mais mollemente os bronzes
Respirantes fundir, sacar do marmore
Vultos vivos; orar melhor nas causas;
Descrever com seu radio o céo rotundo,
       885O orto e sidereo curso: tu, Romano,
Cuida o mundo em reger; terás por artes
A paz e a lei dictar, e os povos todos
Poupar submissos, debellar suberbos.»
Com pasmo ouvido: «Attenta, ajunta o velho,
       890Do espólio opimo ovante, eis vem Marcello,
E em talhe sobrepuja os varões todos.
Turbada em gran’tumulto, ha-de este a Roma
Cavalleiro assistir; prostrar o Gallo
Revôlto e os Penos, e as terceiras armas
       895Ganhadas suspender[5] ao pae Quirino.»
Nisto, Enéas descobre um lindo moço
De fulgente arnez, mas pouco alegre,
De rosto e olhar cahido: «Ao varão, padre,
Quem acompanha? he filho? he da prosapia
       900Delle talvez? Que sequito estrondoso!
Que ar de Marcello tem! Mas noite escura
Triste voa e a cabeça lhe circumda.»
Em lagrimas Anchises: «Não me inquiras
Dos teus o lucto ingente; apenas, filho,
       905Á terra o mostrará destino avaro.

A durar este dom, crêrieis, deuses,
Nimio possante a geração romana.
Que ais no campo vizinho aos marcios muros!
Ou de que funeraes, entre o sepulcro
       910Recente resvalando, ó Tiberino,
Testemunha serás! Nenhum mancebo
Da gente iliaca os avós latinos
Tanto ha de esperançar, nem de outro alumno
O romuleo paiz jactar-se tanto.
       915Oh piedade! oh fé prisca! oh dextra invicta!
Ninguem impune o arrostaria armado,
Quer a pé remettesse, quer d’esporas
Os do espumeo ginete ilhaes picasse.
Guai[6]! joven miserando, asperos fados
       920Se a romper chegas, tu serás Marcello.
Dai-me ás mancheias lirios, dai-me rosas:
De esparsas flores eu cumule o neto;
A alma do vão tributo ao menos logre.»
Assim, no espaço aereo vagueando
       925Por essas regiões, tudo examinam.
Depois que o padre o instrúe, e de renome
No ardor o abraza, as imminentes guerras
Ao filho explana, e os povos de Laurento
E de Latino a côrte lhe annuncia,
       930E como o risco evite e como o soffra.
Do Somno ha dous portões: sahida, contam,
O córneo facilita ás veras sombras;
Do que he de alvo marfim, terso e nitente,
Mandam falsas visões á luz os manes.
       935Pelo eburneo, entretendo a vate e o filho,
Os encaminha Anchises e os despede.
Para as naus corta, aos seus reverte Enéas.
Corre a costa e a Caieta vai direito.
Da proa botam ferro, a pôpa atracam.




NotasEditar

  1. No original, não há aspas nesse lugar.
  2. No original, não há aspas nesse lugar.
  3. No original, , erro tipográfico.
  4. Esta fala de Enéias não recebeu aspas na edição da Eneida Brazileira; no Virgilio Brazileiro é marcada por travessões.
  5. No original, está supender.
  6. No original "quai", erro tipográgico.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Notas ao Livro VI


NOTAS AO LIVRO VI.

Este[1] livro, onde o poeta patenteou o seu talento creador, annullando a opinião daquelles que lhe negam esta faculdade, merecia um extenso commentario: abstenho-me de o fazer tal, porque outros cabalmente desempenharam a tarefa. La Cerda, La Rue, sem fallarmos dos anteriores, com Warburton, Heyne, Desfontaines, Delille, mais ou menos, todos juntos nada deixam que desejar a respeito da explicação da philosophia de Virgilio. M. Villenave he felicissimo em suas notas a este livro: resumida mas claramente, expõe elle as opiniões do poeta sôbre o dogma platonico da alma universal, sôbre o systema da metempsychose por Pythagoras, sôbre as idéas mais puras que possuía da divindade, e sôbre os pontos principaes desta pasmosa composição, como seja o purgatorio, donde parece que o christianismo tomou a doutrina respectiva. Para não ser prolixo, e para não amontoar trabalhos alheios, contento-me de remetter o leitor ás obras allegadas, as quaes citam outras[2]; e quem se quizer satisfazer com menos, pode consultar em especial o padre La Rue, que tem tanta voga nas nossas escolas. Este explana muitos lugares da história e da fábula, muitas opiniões e tradições que toca o poeta, e por isso me despenso de o fazer; e só tratarei do pouco em que não concordo com os críticos, pois em geral com elles me conformo ácêrca do livro VI. 179-182. — 185-189. — Bondi censura a Annibal Caro o descarnado da passagem correspondente; e na verdade he antes um resumo que uma versão poetica. Caro porêm não cahe tanto em semelhante defeito como pareceu ao seu émulo. Este, para talvez justificar a sua usual prolixidade, opina que o estilo do outro he em demasia rapido e conciso, proprio do lyrico e não do epico. Que a epopéa peça um tom majestoso e certa gravidade em seu andamento, he incontestavel; mas a concisão, necessaria em todos os generos, casa inteiramente com essa majestade e compasso. Para se isto conseguir, não he forçoso prodigar palavras e periphrases: cumpre escolher os vocabulos, medir bem os periodos, as pausas do verso, estudar mesmo o effeito da combinação das syllabas e letras, dos accentos e consonancias. Pode um periodo ser curto e proprio do epico; e uma versalhada interminavel para nada presta. Bondi confundiu a concisão com a seccura. De mais, postoque Virgilio de ordinario seja compassado e magnífico, não raro toma o tom da elegia e da ode, como observa Mr. Patin, douto professor da Faculdade de letras de París; e eu digo que tambem o da pastoral,
e que esta variedade he mais um dos encantos do seu poema. Ora, todos esses diversos estilos deve imitar o traductor. — Sem embargo de ser Bondi fiel e de evitar alguns dos defeitos de Annibal Caro, a este dou eu a preferencia.

440-474. — 452-485. — Virgilio creou nos infernos um lugar para os amantes infelizes, e alli he que Enéas se encontra com Dido. Alguns fanaticos para com Homero, e entre elles Mme Dacier, preferem a este encontro o de Ulysses com Ajax no livro XI da Odysséa. «Só Ajax, diz Ulysses, se conserva desviado, com raiva da victória que levei, quando nos desputámos as armas de Achilles...» E depois de têr em vão pretendido dobrar e apaziguar o heroe, Ulysses accrescenta: «Apezar da sua colera, elle me teria fallado como lhe falei; mas eu estava impaciente por contemplar outras sombras.» Quem não vê que estas últimas palavras tiram todo o interêsse que poderia têr o silencio de Ajax? Ao contrário, em Virgilio, o silencio de Dido sóbe ao[3] cume do sublime pela sua irrevogabilidade; e uma circumstancia que ainda confirma a resolução da sombra indignada, e em que tem os criticos feito pouco reparo, he o acolhimento que recebe do marido Sicheu em um retiro umbroso. Esta reconciliação he ternissima e da mais bella moral: o amor illegítimo a tinha manchado e perdido; o amor conjugal perdoa a infeliz, e lhe desculpa uma falta que ella não commetteria jamais durante a vida do seu primeiro consorte.Oh! alma sensivel do cantor da Eneida!

620. — 639-640. — Na meia idade corria a fábula de que o demonio, adjurado por um santo a lhe declarar qual era o mais bello verso de Virgilio, immediatamente respondeu: «Discite justitiam moniti et non temnere divos.» Esta maxima comtudo a alguns tem parecido mal collocada no Tartaro, porque os condemnados eternamente, não podendo mais aproveitar-se della, não haviam mister a advertencia. Esses criticos porêm não viram que Phlegyas, ao proferil-a, não a dirigia aos precitos, mas no desejo transportava-se ao nosso mundo, querendo que a maxima fôsse util aos homens: Mr. Villenave, que refuta uma tal objecção, a proposito allega o omnes admonet que vem dous versos atrás.

667. — 688. — Virgilio aposenta nos Elysios o poeta Museu, anterior a Homero, e não Museu autor de Hero e Leandro, que foi posterior. A confusão dos dous Museus deu occasião á crítica de Scaligero e outros, que pretendem que o epico romano preferia os versos de Museu aos do maior poeta da antiguidade; porêm Menage, com alguns doutos, observou que Enéas só podia vêr nos infernos os poetas mortos antes do saque de Troia; que o antigo Museu, dito filho de Apollo, do tempo de Cecrops II, podia achar-se nos
Elysios, e não Homero que viveu quasi dous seculos depois de Enéas. Esta justissima observação não pareceu peremptoria a Mr. Villenave; o qual diz que naquella ficção podera Virgilio annunciar que um dia Museu veria a chegada do principe dos poetas gregos; e que, se o latino não pode ser tachado de ingratidão, ao menos he lícito pensar que deixou escapar o ensejo do reconhecimento. O crítico não advertiu que, na ficção da prophecia de Anchises, só se trata dos descendentes de Iulo e Enéas e dos heroes romanos, e não se podia metter Homero entre elles, pois nem era descendente de Enéas, nem Romano. Anchises encarregou-se de apresentar ao filho as almas dos seus netos, e não dos grandes poetas; e Museu alli serviu só de guiar Enéas e a Sibylla ao sítio em que passeava Anchises. O alto respeito que Virgilio tinha para com seu mestre, foi assás provado pelas imitações que delle fez ás claras, e pela confissão de que era mais facil arrancar a clava das mãos de Hercules do que roubar um só verso a Homero; dito que, atravessando os seculos, chegou até nós.

756. — 778. — Começa aqui um dos meios epicos mais fecundos, inventado pelo poeta e ao depois imitado pelos mais afamados: as cousas célebres concernentes a Roma, acontecidas desde o tempo de Enéas até o de Augusto, Virgilio põe na bôca de Anchises como em uma prophecia; e desta maneira, tratando de successos tam antigos, teve a opportunidade de fallar dos modernos e mesmo dos contemporaneos. Ha nesta prophecia um bellissimo resumo da história; guarda porêm o autor, com a sua costumada parcimonia, certos factos notaveis, para os dar gravados no broquel de Enéas em o livro VIII, imprimindo assim mais variedade no poema. Commentar esta falla de Anchises equivale a escrever uma quasi história; trabalho de que não sou capaz, e que aliás se acha espalhado pelos commentadores e criticos de maior nomeada. Esta minha nota he só para refutar uma de Delille, sempre infeliz quando cita a Camões.

«O quadro da futura grandeza de Roma, diz elle, e esta revista de toda a posteridade de Enéas, sam uma creação sublime do poeta latino. O Tasso, Camões, Milton e Voltaire, imitaram a Virgilio. Mas, na Jerusalem libertada, os destinos da casa d'Est, que sam preditos a Reinaldo, não tem historicamente assás importancia para autorizar o emprêgo do maravilhoso; e o mesmo se pode asseverar da glória de Portugal encerrada em pequenissimo quadro, e cujo esplendor foi de pouca duração..... De todos os imitadores do poeta latino, Voltaire foi sem dúvida o mais feliz; tendo a vantagem de pintar a epoca mais memoravel do espirito humano, e seu estilo tem muitas vezes todo o brilho da côrte de Luiz XIV.» Ferido por estes palavrões, um Francez, Mr. Villenave, assim o impugna: «O seculo de Luiz XIV foi sem dúvida uma epoca memoravel, mas não a
mais memoravel do espirito humano. E o que he um estilo que tem todo o brilho da côrte de um rei?» Toca-me agora confutar a idéa de que Tasso não se devia servir do maravilhoso a respeito da casa d'Est. Cada um busca celebrar as cousas do seu paiz, e ainda que ellas pareçam aos estrangeiros pequenas, sam grandes aos olhos dos nacionaes: ora Tasso Italiano, em vez de cantar um principe e uma casa real da sua terra, não devia, como patriota, omittil-a para cantar, por exemplo, a casa de França. Delille, não contente de afrancezar a antiguidade na sua paraphrase da Eneida, ainda folgava de que o Tasso tivesse estrangeirado a sua Jerusalem; ou que tivesse posto de parte um meio que lhe subministrou Virgilio, e com que elle ornou o seu poema, em comparação do qual a Henriada, cumpre confessar, não tem sobejo valor. — Se todavia a pequenez da casa d'Est excusa um tanto o máo juizo do crítico, a apreciação dos Lusiadas he miserabillissima. A epoca de que trata Camões principalmente (digo principalmente, porque elle canta e celebra toda a glória portugueza) he por certo a mais importante na história da navegação, vale mais do que o seculo de Luiz XIV: o descobrimento da nova róta das Indias por Vasco da Gama, unido ao da America por Colombo e á do Brazil por Cabral, mudou a face do mundo, ao commercio deu uma extensão prodigiosa, e augmentou os gozos da vida por toda parte; fez cahir nações, levantou outras; he o acontecimento que marca os tempos modernos. Quanto a ser a glória portugueza de pouca duração, distingo: se Delille chama glória só a conquista das Indias e de outros paizes, he exacto que pouco depois a nação portugueza cahiu pelo dominio hespanhol; mas se a palavra comprehende, como deve comprehender, a honra que resulta de todas as suas façanhas, essa glória portugueza, longe de ser de curta duração, já durava seis seculos não interrompidos quando a cantou o seu immortal poeta. A história de França não apresentava uma tam longa serie de successos gloriosos até áquella epoca. — Insisto nesta digressão, porque não he só Delille, he moda, sôbre tudo seguida pelos franchinotes viajantes, menosprezarem a nossa raça, tanto a da Europa como a da America. Uma nação, da qual nasceu a brazileira, hoje com sete milhões de habitantes, sendo a terceira em população na America e a segunda em importancia política, tem a sua glória indelevelmente escrita nos annaes do mundo; alêm de que ninguem pode abrir um mappa do nosso globo, sem nelle encontrar muitos nomes de paizes d'Africa e Asia attestando a parte que o pequeno reino do occidente da Europa tem tido no movimento geral da civilisação. He pena que Delille nos não marcasse as leguas quadradas, a população e os annos de celebridade que deve ter qualquer nação, para poder cantar um poeta os seus feitos heroicos. Camões da mesma pequenez do seu paiz tirou motivo para o louvar na sua magnífica oitava XIV
do canto VII e em outras. — De passagem direi que não imitaram a Virgilio neste lugar sómente os que menciona Delille: afora Camões, Tasso, Milton e Voltaire, fel-o Ercilla, fizeram-no tambem Côrte-Real, Sá de Menezes, Mausinho e Gabriel Pereira; mas estes ultimos quatro poetas, cujas epopéas equivalem ás da França, á excepção do Telemaco e dos Martyres, não sam conhecidas senão em Portugal e Hespanha, entre os seus descendentes da America meridional, e por bem poucos literatos das outras nações. Se nellas ha menos gôsto que na Henriada, ha mais poesia e imaginação.

759. — 781. — Aprender por conhecer he corrente nos classicos: Constancio o dá por antiquado; o que não admira, porque no seu conceito uma boa porção dos vocabulos deve ser esquecida. Modernamente o meu amigo Dr. Lopes de Moura usou deste verbo na sua traducção das obras de Walter Scott. O nosso illustre compatriota he riquissimo na linguagem; mas, segundo m'o tem dito muitas vezes, não poude corrigir os seus escritos, pela pressa com que trabalhava para acudir ás necessidades da vida. Hoje está elle mais folgado pela pensão que lhe dá do seu bolsinho o Snr. D. Pedro Segundo; mas infelizmente, quando a munificencia imperial o allivia, a velhice o alcança, e não lhe permitte mais um trabalho assíduo. Oxalá que este bello exemplo de generosidade fique aos vindouros, e que não herdemos dos nossos parentes Portuguezes, a par de louvaveis costumes e leis, o desprêzo para com os escritores desvalidos da fortuna.

883. — 920. — Tendo-me eu contentado de remetter o leitor aos que deste livro tratam, porque para o commentar seria mister compôr um de philosophia e outro de historia romana; nesta passagem não me soffro sem dizer alguma cousa, que a admiração me arranca. Havendo Anchises, na sua prophecia e na resenha que faz das almas que tem de reger os vindouros, commemorado os factos e os heroes de que mais se jactavam os Romanos, chega a final ao seculo de Augusto; e, como ha pouco tinha fallecido Marcello, filho de Octavia, até alli considerado successor ao imperio, o poeta põe na bôca do propheta os louvores de M. Claudio Marcello, ascendente do mancebo, e por uma transição facil involve nesses louvores os daquelle genro de Augusto, e toca na recente morte com uma delicadeza inexprimivel. Que arte! que sublimidade não encerra a passagem terminada por estas immortaes palavras: Tu Marcellus eris! Em toques taes he que Virgilio he incontestavelmente o primeiro dos poetas; e em taes modelos he que os moços devem aprender os reconditos segredos da poesia.

892-901. — 931-939. — A' imitação de Homero, dá-se aqui ao Somno uma casa com duas portas, uma córnea e a outra eburnea:
pela eburnea sahiam as visões falsas; pela córnea, as sombras verdadeiras. Como Virgilio faz sahir Enéas pela eburnea, dizem os commentadores que nisto indica o poeta e confessa mesmo que a descida aos infernos se deve numerar entre as fábulas. Talvez esta fôsse a mente do autor; mas tal opinião eu não a vejo provada. Quer Enéas sahisse pela porta de marfim, quer pela de corno, tinha sempre de servir-se de uma que não lhe pertencia; porque elle, tendo descido aos infernos em corpo e alma, nem era sombra verdadeira para servir-se da porta de corno, nem era falsa visão para servir-se da de marfim. Pode pois dizer-se que, devendo elle por fôrça dalli sahir por uma, o poeta escolheu aquella. — No último verso deste livro, que he o mesmo que o 277 do III, denota o poeta o uso antigo de ancorarem os navios com a pôpa virada para a terra, onde eram seguros por calabres. Mr. Jal assim discorre a pag. 14 do Virgilius nauticus: «O verso Anchora de prora jacitur, stant littore puppes, que se acha no fim desta parte do poema tam magnificamente epica, como uma nota alli sómente lançada pelo autor, para se recordar de que deve conduzir os Troianos a Gaeta e ancorar os navios no pôrto, teria sido substituido por um que não repetisse o do liv. III; pois não podia querer que uma dobrada negligencia marcasse a conclusão deste livro, admiravel pelo estilo e perfeito em suas partes. E digo uma dobrada negligencia; porque, alêm de ser uma repetição, o verso contêm no segundo hemistichio, sem que seja uma belleza, a palavra littore que se lê no verso precedente.» Razão tem Mr. Jal; e o que diz aqui desta repetição, tambem o diz elle das outras que ha em toda a Eneida, as quaes seriam corregidas, se a morte não atalhasse o poeta em uma idade pouco avançada. — Todos os versos repetidos na Eneida, eu os traduzo differentemente, conservando comtudo o sentido, e só variando nas palavras.




NotasEditar

  1. No original, está Esto.
  2. No original, está autras.
  3. No original, está au.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Livro VII


Tu não menos, Caieta ama de Enéas,

Nossas praias morrendo eternizaste;
Guarda o lugar teu nome, e se isto he glória,
Na magna Hesperia os ossos te assinala.
       5 O pio alumno, exequias celebradas,
Túmulo erguido, assim que os mares jazem,
A velejar prosegue e o pôrto larga.
Auras á noite aspiram, nem seu curso
Candida a Lua nega; o ponto esplende
       10Ao trémulo clarão. Circéas terras
Costêam-se, onde lucos inaccessos
Com aturado canto a rica filha
Do Sol atroa, e nos suberbos tectos
Odoro cedro em luz nocturna queima,
       15Corre com pente arguto as finas têas.
Dalli gemidos a se ouvir, e as iras
De horrentes leões cadêas recusando
E a deshoras rugindo, e nos presepes
Ursos raivar, sanhudos grunhir cerdos,
       20E enormes vultos ulular de lobos;
Que a seva deusa com potentes hervas
De homens os transvestira em brutas feras.
Porque arribada o encanto a boa gente
Não padeça, nem toque as diras plagas,
       25Favoravel Neptuno encheu-lhe as vélas,
E dos férvidos váos a impelliu fóra.
  Já na arraiada roxeava o pégo,
Fulgia em rosea biga a ruíva Aurora:
Acalma o vento, nem sequer bafeja,

       30E tonsas luctam pás no lento marmore.

Do largo extensa mata avista Enéas;
Della com fluxo ameno o Tiberino,
Verticoso e veloz, de arêas flavo,
Ao mar prorompe: ao alveo e borda afeitas,
       35Várias aves por cima em cêrco voam,
Com meigo trino as auras adoçando.
Que dobrem rumo ordena e á selva aproem,
E entra contente pelo umbroso rio.
Eia, Erato, exporei do Lacio antigo
       40Os rêis, o estado, a successão de cousas,
Quando aportou n’Ausonia a estranha armada;
Vou do conflicto recordar o exórdio.
Tu diva, tu me inspira: horridas guerras
Dirá teu vate, os prelios, os monarcas
       45Ferozes por seu damno; as tuscas hostes,
A coalição direi da Hesperia em armas.
Mór assumpto se me abre, he mór a empresa.
Velho, em socêgo e paz Latino as lavras
E cidades regía. He voz que a nympha
       50Marica de Laurento houve-o de Fauno;
A Fauno gerou Pico; e este, ó Saturno,
Pae te refere: da familia es tronco.
O masculino herdeiro, inda em agraço
A sorte lh’o tirou: gentil princeza,
       55Para um varão madura e já completa,
Era o esteio da casa e amplos dominios.
Da flor d’Ausonia e Lacio pretendida,
Pede-a, em avós e avoengos poderoso,
Turno ante os mais pulchérrimo; a quem genro
       60Almejando a raínha, apressa as bodas:
Obstam porêm terríficos portentos.
De grenha santa, em fundo claustro havia,
Com temor conservado, um lauro annoso;
Que alli constava, ao começar os muros,
       65Achara e a Phebo o dedicou Latino,

Nomeando Laurentes os colonos.
No tope, oh maravilha! os ares fluidos[1]
Nuvem de abelhas a zumbir sulcando,
Sentou-se, e em cacho pés com pés travados,
       70Da ramagem pendeu subito enxame.
Logo um vate: «Com tropas chefe externo
Chegar, donde as abelhas, devisamos,
E em senhor se erigir do summo alcaçar.»
E tambem, junto ao pae Lavinia virgem
       75Com tedas castas incensando as aras,
Fogo, oh pasmo! ás madeixas ateado,
O ornato viu-se em crepitante chamma;
E ao de rubis diadema e regio crino
Accesa, em fumo e pardo lume involta,
       80Espalhar pelo templo a labareda.
Terror e espanto foi: de illustre fama
E no porvir ditosa a decantavam;
Mas que atroz guerra promettia ao povo.
Busca o velho assombrado o padre Fauno,
       85E o consulta nos bosques d’alta Albunea;
Que, floresta a maior, com sacra fonte
Soa, e tetra mephyte exhala opaca.
Aqui gentes d’Italia, a Enotria em pêso,
O oraculo interrogam. Dons trazendo
       90O sacerdote aqui, se em muda noite
De víctimas em pelles estradadas
Se encosta e se adormece, avoejantes
Vê mil phantasmas, vozerias ouve,
Logra aos deuses fallar, e no imo Averno
       95A Acheronte conversa. Aqui, rogando,
Bimas do uso o rei mata ovelhas cento,
Nos coiros deita-se e alastrados vellos.
De repente uma voz sahe da espessura:
«Nos thalamos dispostos não confies,
       100Prole minha, e em nenhum latino genro;

De fóra outros virão que o nosso nome
Exaltem com seu sangue, e em netos brotem
A cujos pés se curve e rode quanto
De um ao outro oceano o Sol perlustra.»
       105Do pae Fauno em silencio o aviso dado,
Comsigo elle o não cala; e pela Ausonia
A revoar a Fama o assoalhava,
Quando a frota os mancebos laomedoncios
Da riba ao marachão gramineo ataram.
       110O heroe, seus capitães e o lindo Iulo,
Sob arvore copada se acolheram;
Na relva, ensina-o Jove, ás iguarias
Candiaes tortas sotopõem, e o farreo
Solo de agrestes frutas acogulam.
       115Como os fizesse a míngua dos manjares,
Trincada a exigua ceres, com audazes
Queixos e mãos violar a fatal crusta,
As orlas não poupando e chatas quadras:
«Hui! que as mesas tragámos» diz brincando,
       120Não mais, Iulo. O annúncio as lidas finda;
E o pae, que o recolheu da affavel bôca,
Do nume se reteve estupefacto;
Clama emfim: «Salve, terra a nós fadada;
Salve, troianos e fiéis penates!
       125Já temos patria e casa. Hoje recordo
As predicções de Anchises: «Quando, ó filho,
Gasto em praia estrangeira o mantimento,
Te obrigue a fome a consumir as mesas,
Descanso espera, o assento ahi te lembre
       130De trincheiras munir.» Esta era a fome,
O extremo que traria aos males pausa.
Ledos, ao romper d’alva, esta paragem,
O povoado e a gente, investiguemos,
Do pôrto a dentro esparsos discorramos.
       135Toca a brindar a Jove e ao divo Anchises;

O festim renovai, reponde os vinhos.»
Depois, de verde as fontes enramando,
Ora ao genio do sítio, e á prima deusa
Tellus, e a nymphas e ignorados rios;
       140Chama a Noite e os da Noite orientes signos,
A Ideu Jove em seguida e a Madre Phrygia,
Do Erebo e Olympo os seus progenitores.
Tres vezes claro toa, e a mão suprema
Vibra auri-ardente lampejante nuvem.
       145Que he tempo emfim de inaugurar seus muros
No exército o rumor subito lavra.
Do alto sinal folgando, o bodo instauram,
Rasas de vinho as copas engrinaldam.
Mal que alvorece e a tocha eôa raia,
       150Toda a comarca e litoral exploram:
Do Numico este o lago, o Tibre he este,
Que dos fortes Latinos banha as terras.
O Anchiseo então, nas filas escolhidos,
Embaixadores cem com dons á régia
       155A pedir paz envia, da palladia
Rama velados. Rapido obedecem.
Elle com fôsso humilde risca os muros,
E a modo de arraial na praia o assento
Prepara e o cinge de liçada e vallo.
       160Já, vencido o caminho, os messageiros
Tôrres e arduos palacios descobriam.
Chegam-se: ás portas a puericia e a flórea
Juventude a cavallo se exercitam;
Carros domam na arena, ou rijos arcos
       165Nervudo o braço tende e frechas tira;
Desafiam-se ao curso e ao pugilato.
Um pica o bruto, e entrados annuncia
Varões de porte em peregrino trajo:
Collocado o ancião no avito solio,
       170Os admitte e recebe. O tecto augusto,

Desde o laurente Pico, em cem columnas
Sobranceiro e sublime, o sombreavam
Selvas com pio horror sempre acatadas.
Alli tomar primeiro o sceptro e os fasces
       175Por feliz tinham: curia, templo, sala
Do sacrificio, ao longo alli das mesas,
Morto o carneiro, os padres se assentavam.
Por ordem no vestibulo as effigies,
De antigo cedro, estavam dos maiores:
       180Italo, o vinhateiro pae Sabino
Tendo em baixo o podão, Saturno idoso,
Bifronte Jano, e quanto rei primevo
No patrio marte prodigou seu sangue.
Em sacros postes muitas armas pendem,
       185Chuças, machadas, elmos e cocares,
Ingentes aldrabões, troncados rostros,
Captivos coches, e broquéis e alfanges.
Com lituo quirinal e em trabea estreita,
Pico, ancilia na esquerda, equite ardido,
       190Lá pousava; a quem Circe, mallograda
No amoroso appetite, com feitiços
D’aurea varinha ao toque tornou ave
E as azas lhe esmaltou. Neste recinto
Foi que Latino, os Teucros introductos,
       195Da séde régia placido lhes falla:
«Dardanidas (a patria, a origem vossa
Cá não se ignora, a fama vos precede),
Que demandais? qual trouxe á praia ausonia
Causa ou falta os baixéis por váos tam cegos?
       200Fôsse êrro de caminho ou tempestade,
Contratempos do triste navegante,
Entrastes este rio, e já no pôrto
O hospicio não fujais; sabei que a gente
Latina de Saturno, por si recta,
       205Não por temor da lei, tem-se aos dictames

Do velho deus. Lembrado estou que auruncos
Padres contavam-me (antigualha obscura)
Que destes agros Dárdano entranhou-se
No Ida phrygio e na que ora he Samothracia;
       210E, do tyrrheno Cócyto emigrando,
Hoje aras tem, numera-se entre os divos,
Com throno de ouro na estellante côrte.»
Presto Ilioneu: «De Fauno herdeiro egregio,
Fluctívagos, ó rei, não foi tormenta,
       215Astro ou róta fallaz, que ás vossas bordas
Nos lançou; de pensado e accordes vimos,
Expulsos do maior de quantos reinos
Dos balcões do levante o Sol mirava.
De Jove oriunda, a geração dardania
       220Do avô Jove se orgulha; e o troico Enéas,
Garfo real de Jove, a ti nos manda.
Sôbre os campos ideus que atroz borrasca
Desfechou de Mycenas, por que impulsos
D’Asia e Europa os dous orbes se encontraram,
       225Quemquer o ouviu que nos confins da terra
Seja alêm do oceano, ou se entre as quatro
Na zona extensa o tórre iniquo Phebo.
Por vastos mares do diluvio escapos,
Séde exigua imploramos para os deuses,
       230Commum agua, ar patente, innocua praia.
Não te seremos pejo, e mais te illustras;
Perenne gratidão fará que Ausonia
De agasalhar a Troia não se peze.
De Enéas pela dextra invicta o juro,
       235Se he que fida ou valente algum provou-a,
Bem povos (não desprezes os que temos
Estas fitas nas mãos, na bôca preces),
Bem nações para socios nos rogaram;
Mas fado urgente ao solo teu nos guia:
       240Dárdano, daqui nado, aqui reverte;

De Apollo he mando expresso a fonte sacra
Buscarmos do Numíco[2] e o tusco Tibre.
Da passada fortuna acceita uns restos,
Salvos de Ilio incendida: o padre Anchises
       245Libava por este ouro ante os altares;
Ao legislar aos congregados povos,
Eis de Priamo o sceptro, eis a teara,
Eis, das Phrygias trabalho, as vestiduras.»
A vozes taes, Latino o rosto abaixa,
       250Quedo olhos volve attento: nem priâmeo
Sceptro ou bordada purpura o commove,
Quanto o consorcio e thalamo da filha;
E de Fauno medita os vaticinios:
Que este o fadado genro he peregrino,
       255Trazido ao reino por iguaes auspicios,
Cuja illustre progenie valerosa
Pujante occupe o ambito do mundo.
«O céo nossos começos, clama alegre,
E agouros seus prospere! O desejado
       260Haverás, Teucro. Os dons não menosprézo;
Nem, reinando Latino, agro ubertoso
Ou troiana opulencia ha de faltar-vos.
Se Enéas tanto a mim ligar-se anhela,
Venha, hóspede me seja; nem do amigo
       265Tema o aspecto: em abono da alliança
Do monarca fiel me sobra a dextra.
Tenho uma filha (dai-lhe este recado)
Que unir-se a algum dos nossos mil prodigios,
Do adyto patrio as sortes, não consentem:
       270Varões de longe, no paiz estantes,
Exalçarão seu sangue e o nosso nome.
Se a mente bem atina, e he, como creio,
Elle o genro fatal, gostoso o adopto.»
Cessa; e escolhidos em corséis trezentos,
       275Os mais nedios que tinha ás mangedouras,

Um alípede offerta a cada Phrygio,
De ostro e matiz lustroso acobertados:
Aos peitos lhes cahindo aureas colleiras,
De ouro os arreios tem, fulvo ouro tascam.
       280Um coche a Enéas manda, e exhala o tiro,
Do ether semente, pelas ventas fogo;
Casta que ao pae furtou dedalia Circe,
De submettida mãe bastardas crias.
Com taes dons, a cavallo os enviados,
       285Portadores de paz, contentes voltam.
Eis que de Argos inachia parte a seva
De Jove espôsa; e avista lá dos ares,
Desde o Pachyno sículo, os Troianos
E ovante Enéas, já desembarcados,
       290Na terra a edificar, seguros della.
De ancia pára; e, a cabeça meneando,
Queixumes derramou do afflicto peito:
«Raça infanda! ao meu fado avesso fado!
Ah! nas campinas do Sigeu poderam
       295Succumbir? ser tomados, ser captivos?
Por ventura abrazada os queimou Troia?
Franca via entre o ferro e o fogo acharam.
Lasso, eu cuido, a final meu nume cede;
Saciada afrouxei, depuz meus odios...
       300Como! ousei contrastal-os no destêrro,
No undoso ponto os persegui fugidos:
Esgotei mar e céo para vingar-me.
Syrtes, Charybdes, Scylla, que prestaram?
Do pelago e de mim zombam no gremio
       305Do caro Tibre. Os Lapythas gigantes
Marte acabou; rendeu-se a Calydonia
De Phebe ás iras: para um tal castigo
Lapythas, Calydonia, em que peccaram?
Quil-o assim meu consorte; e a mim raínha,
       310Que meios não poupei, que emprehendi tudo,

Vence-me Enéas! Meu poder se he pouco,
Deprecar a quem fôr já não duvido:
Vou, se não dóbro o céo, mover o inferno.
Separal-o do Lacio me prohibem;
       315Sua Lavinia seja: a dita ao menos
Protrahir, perturbar, não me he defeso;
Os povos soverter dos reinos ambos:
Com taes pareas se allie o genro e o sogro,
Sangue rutulo e teucro o dote sendo,
       320Bellona, ó virgem, prónuba te espera.
Não só fogos jugaes, de um facho prenhe,
Pariu Cisseide; a Cypria houve outro Páris,
Tição funesto aos recidivos muros.»
Vociferando horrenda baixa ás terras.
       325Do Orco e antro furial avoca Alecto,
Que maldades luctífica respira,
Guerras, traições, rancor; monstro que odeiam
As tartareas irmãs e o rei das sombras:
Com tanto esgar se afeia e a testa enruga,
       330Tanto a ennegrecem pullulantes cobras!
Juno assim a aguçou: «Da Noite filha,
Para não soffrer quebra de honra ou fama,
Serviço especial me outorga, ó virgem:
Por consorcios os Teucros não consigam
       335A Latino embair, ter pé na Italia.
Irmãos tu podes e íntimos amigos
Armar de sanha, desavir familias,
Com funereos brandões e crus flagellos;
Artes mil de empecer, mil nomes sabes:
       340Fecunda a mente excita; a paz desfaze,
A zizania semêa; estoure a guerra,
Bramindo a mocidade ás armas corra.»
De gorgoneo veneno Alecto infecta,
Ao Lacio e a régia voa, entra furtiva
       345No retiro de Amata; cuja ardencia

Dos Phrygios contra a vinda e a pró de Turno
Feminis mágoas e odios recoziam.
Da azul grenha uma serpe a deusa arranca,
No corpo lh’a insinua, porque o paço
       350Todo empeste e alborote furibunda.
Coa a serpe entre a veste e o liso seio
Com molle tacto, com macio engano
Lhe infunde alma vipérea: em torsal de ouro
Faz-se ao pescoço; n’um listão se alonga,
       355Enleia a coma e lhe percorre os membros.
E emquanto alastra a humida peçonha,
E em ossos e sentidos prende a chamma,
Antes que se lhe incenda o ânimo inteiro,
Carpindo a filha e os hymeneus troianos,
       360Com maternal carinho ao rei se exprime:
«A vindiços, tu pae, Lavinia entregas?
Della e ti não tens dó, nem da mãe triste,
Que ao primeiro aquilão, raptada a virgem,
Verei soltar a véla esse pirata?
       365Não penetrou na Espartha o pastor phrygio?
A Ilio não transportou de Leda a filha?
Que he do amor para os teus, onde a fé pura
E a miude ao meu Turno a dextra dada?
Se has mister genro estranho, e o padre Fauno
       370T’o ordena e está sentado, estranha eu julgo
Qualquer terra ao teu sceptro não sujeita:
Do oraculo este o senso. E ao prisco tronco
Se remontâmos, de Inacho e de Acrisio
Turno provêm, Mycenas de permeio.»
       375Baldadas as razões, que resistia
Firme o rei, pelas vísceras calando
Do serpentino virus o contagio,
Já damnada a infeliz, que espectros vexam,
Na vasta capital erra sem tino.
       380Sob a torcida trena, em rodopio,

Attentos os meninos ao brinquedo,
Pelo vazio largo o pião tangem,
Que do açoute impellido em círculo anda;
Nescia embasbaca a chusma, e o bando impube
       385Aviva a golpes o voluvel buxo:
Não com menos presteza ella vaguêa,
Corre as cidades e embravece os povos.
Té sanhuda, a fingir de Iaccho o influxo,
Com mais nefando arrôjo se entranhando,
       390No monte occulta a filha, porque aos Troas
Roube o thalamo e as nupcias procrastine;
Brada e freme: «Evoé! só, Baccho, es digno
Da virgem que maneja os molles thyrsos,
Gyra em côro, a ti sacra a trança cria.»
       395Grassa o rumor: as mães da peste accesas,
Por séde nova ardendo aguilhoadas,
Cabello e collo ao vento, os lares deixam;
Ou pelles a trajar, pampinea a lança,
De trémulo ululado os ares coalham.
       400Ella entre as mais sustêm flagrante pinho,
Raiva, canta o hymeneu da filha e Turno;
Torva grita, virando olhos sanguineos:
«Io latinas mães! quem sois, ouvi-me;
Se Amata vos condoe, ou do materno
       405Jus vos remorde o zêlo, nestas órgias,
Desennastrada a coma, interessai-vos.»
Tal entre brenhas e ferinos ermos
Alecto em bacchanaes punge a raínha.
Dêsque a raiva lhe afia, e de Latino
       410A familia e conselho crê revoltos,
Leva-se a turva déa em fuscas azas
Do audaz Rutulo aos muros; que, trazida
Sôbre o Nôto precípite, aos Acrisios
Danae se diz fundara: a gran’ cidade
       415Chamou-se Ardea, e conserva o claro nome,

Não a fortuna. Alli no alcaçar Turno
Meio somno lograva em noite opaca.
O furial vulto e fórmas despe Alecto;
Em Chalybe, de Juno velha antiste,
       420Se transfigura: a testa e face obscena
De rugas ara, ás cãs veste uma touca,
Prega-lhe em cima um ramo de oliveira,
E ao joven se apresenta: «Soffres, Turno,
Tantas lidas frustradas, que a fugidos
       425Passe o teu sceptro? Ganhos com teu sangue
O matrimonio e dote, o rei t’os nega,
Herda um Teucro no reino. Ora, ultrajado,
Vai-te arriscar; mal pago, as filas tuscas
Rompe, descose; a paz mantem no Lacio.
       430Isto a grande Saturnia, em quanto em noite
Placida jazes, me intimou te expenda.
Arma, arma, sus, a mocidade em campo;
E, á margem pulchra assentes, os caudilhos
Phrygios arrasa, e queima as naus pintadas:
       435Poder alto o prescreve. E se o monarca,
Surdo ás promessas, a união te enjeita,
Prove e sinta o que valha em armas Turno.»
Da vate a escarnecer: «Nem tu presumas
Que estar no Tibre a frota he novidade,
       440Nem cá metter me venhas tantos medos:
Juno etherea de nós se não descuida.
Mas credula, sediça e carunchosa,
Ralas-te, avó, com panicos terrores,
Tonta ingerindo-te em reaes arcanos.
       445Vigia os templos, das imagens cura:
Toca aos varões tratar e a paz e a guerra.»
Arde com isto Alecto; e, orando o moço,
Treme todo, hirta a vista: com taes serpes
Erinnys silva, taes carrancas abre!
       450Tardonho ia fallar; com flammeos olhos

De travez ella o empurra, duas cobras
Da grenha irriça, o latego estalando,
E com rabida bôca assim troveja:
«Eis-me caduca, tonta e carunchosa,
       455Mettediça entre os rêis com vãos terrores.
Olha, da estancia das irmãs tremendas
Trago em mão guerra e morte.» Inda vozêa,
E a Turno um facho atira de atro lume,
Que fumegante no íntimo cravou-se.
       460Espantado elle acorda, em suor tendo,
Que dos poros rebenta, ossos e membros;
Louco por armas grita, armas no leito
Busca e em tôrno. Braveja o amor do ferro,
A impia insania da guerra, e cresce a raiva:
       465Qual da undante caldeira quando ao bôjo
Lignea flamma se applica estrepitosa,
A agua enfurece e ferve, em bôlhas salta;
Fumea espumando a enchente, sem conter-se
Trasborda, e vai-se em turbidos vapores.
       470Manda ao rei informar que a paz quebrou-se,
De petrechos provêr, guardar a Italia,
Expellir das fronteiras o inimigo;
Contra o Latino e o Teucro elle só basta.
Mal que as ordens promulga e invoca os deuses,
       475Á competencia os Rutulos se exhortam:
Uns move do mancebo a galhardia;
Uns seu preclaro sangue, ou forte braço.
Alecto, emquanto os seus Turno acorçoa,
Com novo ardil, ás azas dando estygias,
       480Cata o sítio e ribeira onde caçava,
De assalto ou de emboscada, o bello Ascanio.
Presto a cocycia virgem, com sabido
Cheiro iscando os focinhos, de um veado
Á pista assula os cães: este o motivo
       485Que os camponios atiça e a guerra atêa.

Cervo galhudo havia, airoso e lindo,
Que de mama furtado á mãe nutriam
Os filhos de Tyrrheu, dessas devesas
Couteiro e maioral do armento regio.
       490De galantes festões ao docil bruto
Meiga a irmã Silvia entretecia os cornos,
Penteado e lavado em fonte pura.
Da dona á mesa afeito e manso, errava
Pela selva, e de noite, ás vezes tarde,
       495Se recolhia á casa. Andando a monte,
Brabas de Iulo as perras o acossaram,
Quando, seguindo a vêa de um regato,
Se refrescava na virente riba.
Na ancia de eximios gabos, do arco as pontas
       500Junta e despara o caçador a frecha:
Não faltou nume á dextra; a rechinante
Canna ao cervo traspassa ilhaes e ventre.
A gemer o quadrupede, sangrado
Procura o nóto asylo, e de lamentos,
       505Quasi implorando, enchia alvergue e pateo.
Silvia acode, e ferindo-se a punhadas,
Aos duros aldeões clama socorro.
Elles (picava-os a embrenhada peste)
Sahem de improviso; de nodosa estaca,
       510De fustes e tições, do que á mão tinham,
A ira os arma. Tyrrheu, que um roble em quatro
Rachava á cunha, respirando ameaças,
Ferra o machado, a multidão concita.
Nociva a tempo, da atalaia a Dira
       515Monta á choça, e do cume a voz tartarea
Na encurvada corneta esforça e tange
Rebate pastoral: todo em redondo
Retremendo o arvoredo, a funda mata
Reboou. Longe o ouviu da Trivia o lago;
       520Branco de agua sulphurea o Nar e as fontes

O ouviram do Velino; e as mães de susto
Aos peitos os filhinhos apertaram.
Ao rouquejar da tetrica buzina,
Denso tropel bravio, armas sacando,
       525Concorre, e marcha a mocidade phrygia
Do aberto acampamento em pró de Ascanio.
Não já com paos tostados nem cacheiras
Em lide agreste brigam, mas em fórma,
Com ancípite ferro e espadas nuas,
       530Negra aspera seara; e o bronze ás nuvens,
Do Sol desafiado, a luz dardeja:
Tal, se alvejando a onda a encrespa o vento,
Incha o mar pouco a pouco e altêa vagas,
Té que do humido abysmo aos astros sobe.
       535Cahe logo na vanguarda[3] o primogenito
Almon Tyrrhides: pega-se ás guelas
Setta estridente, e em borbotões o sangue
Lhe inunda e embarga a voz e a tenue vida.
Entre um montão de mortos jaz Galeso,
       540Daz pazes medianeiro; ausonio velho,
O mais justo e riquissimo, greis cinco
Balantes amalhando e cinco armentos,
Em lavrar cem arados empregava.
Alecto, poisque o marte igual pendia,
       545Do exito ufana, assimque a feroz pugna
Tinge e cruenta, funeraes primicias,
Deserta a Hesperia, e sublimada ás auras
Canta a Juno victória em tom suberbo:
«Temos no auge a discordia; agora dize
       550Que se congracem, que allianças travem,
Quando os Teucros macúla ausonio sangue.
Mais farei, se m’o approvas: com rumores
Posso as comarcas abrazar no insano
Furor da guerra, que ajudal-a venham;
       555Armas espalharei pela campanha.»[4]

Juno atalha: «[5]O terror e a fraude abunda:
Plantada a rixa, mão por mão combatem;
Já funestou fortuna o primo encontro.
Os hymeneus dest’arte o guapo filho
       560D’Acidalia festeje e o bom Latino.
Que a sôltas vagues pelo summo Olympo
Não te permitte o padre soberano:
Despacha-te, que o mais fica a meu cargo.»
A taes palavras, do sidereo assento,
       565Angui-estalantes azas desferindo,
Para o Cocyto a Erinnys se encaminha.
Lugar nobre e famoso, o valle Amsancto,
Ha da Italia no centro, ao pé de uns montes:
Floresta escura o fecha, e entre penedos
       570Em vórtices fragosa uma torrente
Pelo meio murmura. Aqui, do torvo
Plutão respiradouro, antro medonho
Profunda, e as fauces pestilentes mostra
Do fendido Acheronte ampla voragem,
       575Onde sumiu-se a Furia, o céo e a terra
Do seu bafejo odioso alliviando.
Nem menos a Saturnia a lucta azéda.
Rue do conflicto a multidão campestre,
Morto Almon e deforme de Galeso
       580Carregando a cabeça, e implora os deuses
E a Latino conjura. No flagrante
Chega Turno, e do incendio e mortandade
Exagera o temor; que iam banil-o,
E misturar no throno a raça phrygia.
       585Aquelles cujas mães, de Baccho attonitas,
Por ínvias selvas em choréas pulam,
De Amata ao grave nome exacerbados,
Marte infando a incitar, a l’arma gritam,
Contra o fatal augurio e contra os numes,
       590E os altos paços á porfia cercam.

Tem-se o rei qual marítimo rochedo;
Rochedo que na mole se sustenta,
Se em ruidosa[6] procella as ondas ladram:
Batida alga fluctua e bólha a espuma,
       595E em vão pedras em roda e escolhos bramam.
Vencer pois tal cegueira não podendo,
Que ia tudo a sabor da fera Juno,
O ether puro attestando: «Ah! fado, exclama,
A tormenta nos fórça irresistivel.
       600Com sacrilego sangue, ó miserandos,
Vosso êrro pagareis: maldição, Turno,
Triste pena te espera; e aos deuses tarde
Supplicarás. Á entrada já do pôrto,
Repouso achei; de funeraes ditosos
       605Só me despojarão.» Nisto, encerrou-se,
E do governo as redeas abandona.
Costume era do Lacio, e que adoptado
Na Albania o guarda a portentosa Roma,
Lagrimaveis batalhas quando apresta
       610Ao Geta, Arabe, Hyrcano, ao Indo eôo,
E reconquista aos Parthos as bandeiras,
Duas portas haver, bellicas ditas,
Que santo horror defende e o cru Mavorte:
Barras, ferrolhos cem de bronze as trancam;
       615Sempre ao limiar de sentinela Jano.
Se o decreta o senado, insigne o consul
Com trabea quirinal, gabino cinto,
Os umbraes descerrando rangedores,
Proclama a guerra; guerra os moços bradam,
       620Roucas ereas trombetas resonando.
Cabia-lhe aos Troianos declaral-a,
Volver os tristes gonzos; mas Latino
Se abstem, recusa o infausto ministerio,
E se occulta na treva. Então, baixando,
       625A raínha Saturnia arromba mesma

As lentas portas, a couceira quebra
E os ferrados batentes desmantela.
Arde a quieta Ausonia, e armas já pede:
Qual a pé campear, qual furioso
       630Quer trotar em corsel pulverulento;
Qual dardos unta e limpa, adargas lustra,
Machadinhas amola e partazanas:
Praz desfraldar pendões e ouvir as tubas.
Malham cidades cinco e forjam lanças,
       635Atina e Ardea possantes, Crustumerio,
Tibur altiva, Antemnas torreada;
Cavos elmos estofam, tecem tarjas
De vergas de salgueiro, finas grevas
De argenteos fios, eneos corsoletes;
       640Retemperam na fragoa o patrio alfange:
Assim trocou-se o amor da fouce e relha!
Transmitte o dado a senha, os clarins fremem;
Quem o casco arrebata, ou rinchadores
Brutos junge, ou rodela e auri-trilíce
       645Loriga veste, ou cinge a fida espada.
O Helicon, musas, franqueai-me: ousados
Rêis vou cantar, as tropas que os seguiram
Cobrindo os campos; que armas flammejaram,
Que heroes já n’alta Italia floreceram.
       650Como lembradas sois, contai-m’o, ó divas:
Mal nos roçou leve aura do passado.
O atheu cruel Mezencio he quem primeiro
Á testa marcha das phalanges tuscas.
Lauso o acompanha, que excedia a todos,
       655Salvo o garboso Turno, em gentileza;
Lauso, gran’picador, monteiro eximio
Conduz em vão de Agylla mil guerreiros;
Digno de se gozar do patrio reino,
E de outro genitor que não Mezencio.
       660Após, carro e frisões da palma ornados,

De Hercules bello ostenta o bello filho
Aventino, e em cem cobras traz no escudo
A hydra a pullular, brasão paterno:
Rhéa ministra a furto na Aventina
       665Mata o pariu; mulher que ao deus juntou-se,
Depois que, extincto Gerião, tocando
Laurentes lavras o Tirynthio ovante,
Lavou no tusco rio iberas vacas.
Arma os seus de doloso estoque e pilo,
       670De roliço espontão, sabello pique;
Embraça, a pé, leonino ingente espólio,
De alvos dentes enrola a hirsuta juba
Ao morrião: tal entra horrendo os paços,
Pelos hombros traçado o herculeo manto.
       675Catillo e o bravo Coras, dos tiburcios
Muros, ditos assim do irmão Tiburto,
Gemeos de sangue argeu, por densos dardos
Vem correndo postar-se na vanguarda:
Qual nubígenas rapidos Centauros,
       680Se do pico a descer o Homelo deixam
E Othrys nivoso; ao transito se arreda,
Com fragor do arvoredo, a basta selva.
Ceculo o autor não falha de Preneste,
Que, em pegulhal montez e ao lar achado,
       685Rei prole de Vulcano ham crido as eras.
Rustica turba o escolta: os que as alturas
Cultivam prenestinas e a junonia
Gabios, o frígido Anio, hernicas penhas
De arroios orvalhadas; os que pasces,
       690Tu Amaseno pae, tu rica Anagnia.
Carro, cota ou broquel, não soa a todos:
Uns lividas espalham plumbeas pellas,
Quaes dous chuços empunham; fulvos gorros
De pelle usam lupina; nus da esquerda,
       695Calçam de crua alparca a dextra planta.

O neptunio Messapo cavalleiro,
A quem prostrar não pode ou ferro ou fogo,
Chama a conflicto os povos ociosos,
Instaura as armas. Fescenninas turmas
       700E Equos Faliscos, os que o monte e lago
Ciminio e as rochas do Soracte habitam,
Flavinios agros e capenos lucos,
Marchando em pelotões, seu rei cantavam:
Como, ao soltarem colli-longos cysnes,
       705Do pasto á volta, aos ares seus gorgeios,
O Caístro e a pulsada Asia palude
Resoa ao longe. Multidão confusa,
Ninguem julgara exército arnezado,
Mas, do alto pégo ás praias compellida,
       710Aerea nuvem ser de roucas aves.
Sangue antigo sabino, eis Clauso, donde
A tribu claudia propagou no Lacio,
Dêsque em parte aos Sabinos se deu Roma;
Valendo um batalhão, commanda immensos:
       715Quirites priscos, de Amiterno as hostes,
As de Ereto e olivífera Motusca;
Dos rosaes do Velino e os de Nomento,
Dos penhascosos Tetrica e Severo,
De Forulo e Casperia; os que do Himella,
       720Tibre e Fabaris, bebem; quantos manda
Horta, o latino termo e Nursia fria;
E os que o Allia entrelava, infausto nome!
Tantas no vítreo Libyo as vagas rolam,
Se Orion cruel se afunde em onda hyberna;
       725Tantas o estivo Sol praganas torra,
Do Hermo ou de Lycia em lourejantes campos.
Do tropel treme a terra, escudos tinnem.
O agamemnonio Haleso, a Troia infesto,
Ata ao carro os frisões, mil feros povos
       730Leva a Turno: os que o Mássico, mimoso

De Baccho, á enxada cavam; Sedicinos
De beiramar; serranos que expediram
Auruncos padres; íncolas de Cales,
Do vadoso Volturno os arraianos,
       735O Satículo acerbo, as oscas turmas.
Presa a lento flagello, aclide jogam
Cylindrica; na sestra, os cobre adarga;
Com terçado falcato ao perto ferem.
Nem te olvide o meu verso, Ebalo, que houve
       740Telon se affirma de Sebethys nympha,
Já velho em Caprea os Télebas regendo.
Da herança não contente, o filho tinha
Muito á larga os Sarrates submettido,
E as sarnias frescas varzeas, os de Rufras,
       745De Batulo e Celenna, e os que eminente
Olha Abella pomífera: cateias,
Á teutonica, vibram; capacetes
De cortiça de sôvero os defendem;
Luz bronzeado broquel, luz bronzea espada.
       750Tambem te aprompta a montuosa Nersas,
Famígero e pugnaz, próspero Ufente;
E, á caça endurecido, horrido Equícola
De aspera gleba te obedece: armado
O chão labora, de rapina vive,
       755E sempre folga das recentes prêas.
Té de Archippo seu rei por ordem, o elmo
Lhe ornando fausta oliva, o dos Marrubios
Sacerdote marchou, fortissimo Umbro;
Que hydras, viboras de halito empestado,
       760Afagando e a cantar adormecia,
Curava a mordidura, e as amansava:
Mas contra a choupa do rojão troiano
Soporíferos cantos nem potentes
Succos dos marsos montes lhe valeram.
       765A ti de Angicia o bosque, a ti choraram

Do Fucino o crystal e o fluido lago.
De Hippolyto eis a prole, o extrenuo Virbio
Que Aricia a mãe luzido o envia á pugna,
Do luco e fonte Egeria, onde o criaram
       770E a placavel Diana ara tem pingue.
Por dolos da madrasta, assimque Hippolyto,
Dos medrosos frisões rojado, expia
Com sangue o êrro paterno, he voz que ás auras
E ao conspecto celeste o revocaram
       775Peonias hervas e amorosa Delia.
De que um mortal das sombras resurgisse
Indignado o Tonante, o raio accende,
No Orco e Estyge o Phebígena despenha
Que descobriu tal arte e medicina.
       780A alma Trivia em secreto á nympha Egeria
Hippolyto encommenda, porque obscuro
E solitario em ítala floresta,
Mudada em Virbio o nome, os dias passe.
Do bosque ou templo a Phebe consagrado
       785Os cavallos cornípedes se expulsam,
Dêsque, espantados por marinhos monstros,
Na praia o dono e o coche espedaçaram.
Ardegos brutos, não obstante, o filho
Exerce e á guerra precipita o carro.
       790De ponto em branco, á frente, na estatura
Formoso Turno sobreleva a todos.
O elmo sustêm, cristado com tres jubas,
A Chimera a expirar etnéas chammas:
Ignívoma, efferada, ella mais brame
       795Quanto em mais sangue o ataque se encruece.
Io em ouro entalhada (illustre assumpto)
Já pelluda novilha, alçando os cornos,
O ereo pavez lhe timbra assacalado;
Argos vigia a môça, e entorna o rio
       800Da urna Inacho pae. Chuveiro espesso,

Ondêa a infantaria, e abroqueladas
Auruncas tropas, Rutulos, Sacranos,
Achaica estirpe, Sículos antigos,
Mais os Labicos de pintado escudo:
       805Que, ó Tibre, aram-te os bosques e a numicia
Riba sacra; o Circeu cabeço rasgam
E as rutulas collinas; veigas onde
Jove Anxuro preside, com Feronia
Amiga dos jardins; por onde a negra
       810Satura espraia, e vai gelado aos mares
Por imos valles desaguar o Ufente.
Eis Camilla bellaz, que o volsco impera
Bando equestre e o de pé de arnez lustroso.
Dura a virgem no prelio, em roca ou vimes
       815De Minerva não punha as mãos femíneas.
Pelo agro intacto, mais veloz que o vento,
A voar não lesara a tenra espiga;
Suspensa o pégo tumido correra,
Sem que molhasse a desinvolta planta.
       820Dos tectos, ao passar, do campo os jovens
E esparsas mães, de hiante bôca admiram
Como a grã vela e enfeita os hombros lisos,
Como as tranças lhe prende aurea fivela,
Como o lycio carcaz pendura, e brande
       825De enxerido ferrão myrteo cajado.




NotasEditar

  1. "fluídos" no original; prosódia que torna o verso hipermétrico.
  2. No verso 151, esta palavra aparece sem acento.
  3. "vanguoarda" no texto original, erro tipográfico.
  4. No original, não há aspas nesse lugar.
  5. Faltam as aspas nesse ponto do texto original.
  6. O “i” recebe acento na primeira edição, retirado na segunda.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Notas ao Livro VII


NOTAS AO LIVRO VII.

Começa o poeta pela morte e exequias da ama de Enéas, cujo nome ficou á cidade e promontorio de Caieta, hoje Gaeta; e assim nos recommenda o amor e o respeito que nos cumpre consagrar ás mulheres que nutrem a nossa infancia com o sangue de seus peitos, aindaque não sejam as que nos geraram. O sensivel coração de Virgilio se regozijava de as fazer lembradas, como se vê no livro IV com as de Sicheu e de Dido; como tambem no V com Pyrgo, ama que fôra de muitos filhos de Priamo. Nisto deviam reflectir aquelles senhores que, depois de darem a seus filhos por amas as suas proprias escravas, as deixam ainda no captiveiro; e alguns, ingratos e inhumanos, continuam a usar com ellas de todo o rigor! Um homem de bem e dos melhores jurisconsultos que temos, Dr. Caetano Alberto Soares, entre muitas medidas que propoz ás Camaras Legislativas para se ir acabando a escravidão, foi a da alforria das amas de baixo de certas regras; mas os seus bons desejos quebraram-se no escolho de inveteradas preoccupações. O' meu paiz! quando serão livres todos os que repirarem no teu seio!

La Harpe, só recommendavel[1] no ajuizar a literatura franceza, abraçou a opinião de estudante que os seis ultimos livros eram inferiores aos primeiros: hoje em dia he cousa plenamente refutada. Certo he que nos ultimos se encontram mais negligencias de estilo, porque o autor não teve tempo de as corregir; e, nada menos, os pedaços principaes mesmo em estilo não cedem ao que ha de melhor no II, no V, no VI. Quanto á invenção, deste livro em diante o poeta se eleva ás alturas de Homero com esforços de ingenho. O que sôbre tudo convem denotar, he a moral pura, o conhecimento do homem e os rasgos sensiveis, que multiplica ainda mais para os fins do seu poema.

Pelo que toca á utilidade, sam mais proficuas as lições do poeta na segunda metade da sua epopéa. Se nos quer mostrar a obrigação de nos sacrificarmos em defensa de nossos paes, elle nos pinta Lauso, filho do atheu e cruel Mezencio, e o nobilissimo joven executa prodigios de valor e morre víctima da sua ternura. Em Niso e Euryalo[2] vemos o exemplo da amizade mais desinteressada, e em Euryalo o poeta ainda representa a mesma piedade filial. Em Evandro, em Amata e na mãe de Euryalo, o maternal e paternal amor he descripto com as côres mais vivas e delicados matizes: Evandro, guerreiro antigo, chora a morte do seu Pallante, e a consolação lhe vem só de que Enéas o vingará em Turno; Amata estremece por Lavinia, mas o zêlo da autoridade maternal he que fórma o
fundo do seu caracter, e he o que a leva a morrer cega de desespêro; a mãe do infeliz mancebo, carinhosa e doce, rompe em queixumes, lamenta e se amesquinha, porêm conforma-se com a desgraça. O amor da patria he puro de toda mácula em Enéas; he em Turno misturado com o orgulho e com a ambição; he ternissimo e saudoso em Anthor, que expirando se recorda da sua querida Argos.

8-20. — 8-22. — Continúa a navegação: Enéas sahe de Gaeta, e vai costeando a ilha e terras de Circe. O estilo he o mais perfeito; e a idéa de estarem do mar a sentir o cheiro que recendia dos bosques da deusa, a ouvir os gemidos e urros dos miseraveis que ella transformara em brutos, não pode ser mais poetica. Fiz tudo por imitar as onomatopeias do original, e não obstante a belleza do portuguez, apenas do verso 16-20 tenho dessa harmonia um fraco arremêdo: as consonancias leonum, recusantum, rudentum, magnorum luporum, sam intraduziveis; e quando a nossa lingua cede, será difficil a outra luctar com a latina.

37-45. — 39-47. — Enéas alguns versos atrás acaba de avistar o Tibre e o termo de tam comprida viagem, e descreve-se o rio, com suas margens semi-selvaticas, de um modo superior. Conhece então o poeta que não se pode já sustentar com as recordações homericas, mas que lhe cumpre uma nova carreira: a sua empresa vai ser maior, e lhe he mister grande invenção; e, com effeito, nos ultimos seis livros o seu talento creador cresce cada vez mais. Daqui em diante se começa a perceber que a epopéa latina, enxertada em grego tronco, tem de produzir ramos e fructos exoticos, bellos e saborosos: nós o veremos, e teremos accasião de verifical-o.

84. — 87. — Uso de mephyte pelo mao cheiro, assim como se usa de Marte pela guerra, Ceres pela agricultura; poisque Mephyte era a deusa do fedor. Para tudo havia um deus entre os antigos.

116-117. — 119-120. — Esta passagem tem sido grandemente censurada; mas os defensores della sam homens da plana de Addisson e de Voltaire, que nos fazem vêr que Virgilio não se podia afastar da tradição, e isto, que nos parece pueril, estava consagrado nas antiguidades romanas. Quanto ao alludens, eu o tómo na accepção de brincar, de gracejar. Iulo, observando que se tinham comido as mesmas codeas ou fundos das empadas, a que chamavam mesas, dice brincando: «Hui! que as mesas tragámos.» E o pae, ouvindo aquellas vozes, exclamou e conheceu a maneira que buscara o fado para verificar-se a predicção. Não estou pela hypothese do nosso digno compatriota o Snr. João Gualberto, de que Iulo com o seu dito alludia á mesma predicção; porque acho mais natural que
um menino gracejasse á vista das mesas de massa que se tinham tragado, e que sem pensar no fado então se exprimisse. Enéas, sôbre quem recahiam os maiores cuidados, he que devia dar primeiro pelo cumprimento dos oraculos; tanto assim, que meditando no caso, rompeu na exclamação. Ora, não he provavel que o mesmo que Iulo tinha percebido immediatamente, só o fôsse depois de algum espaço por Enéas, que aliás pensava a miude nessa fome, que o obrigaria a roer as proprias mesas. Sigo portanto a interpretação antiga, que he a de Annibal Caro e do maior número; engeitando igualmente a de João Franco, que dá ao alludens a significação de alludir, mas traduz no sentido de que Iulo não alludia, quando o Snr. João Gualberto opina que alludia; o que he inteiramente opposto. A accepção de alludere por gracejar he corrente nos autores latinos.

128-129. — 130-131. — «Aqui ha, diz Mr. Tissot, uma singular inadvertencia. Como o principe, que ouvira á Sibylla: «Guerras, horridas guerras; vejo o Tibre a volver ondas de sangue humano!...» Como o guerreiro que tem um rival que debellar, povos que submetter, uma espôsa e um throno por conquistar, pode affirmar que toca o fim dos seus trabalhos?» — Alêm de que positura modum não he exactamente tocar o fim; o poeta só falla dos trabalhos de uma longa viagem de sete annos, a qual se acabou desde o momento em que, reconhecendo o lugar proprio para se fortificar, Enéas saudou a terra promettida; mas, quanto á guerra, era um novo trabalho que nem começado estava. De mais, o chefe, que via findar-se a navegação perigosa e prolixa, para animar os seus usa de termos que indiquem e persuadam que o restante não he de tanta monta como as lidas passadas. Não sei como faz taes reparos quem está habituado ao estilo conciso do poeta, e em geral dos escritores latinos. E não se poderá accrescentar que esse guerreiro, que tanto estremeceu com a idéa de morrer no mar sem glória nem sepultura, agora avaliava em bem pouco os perigos dos combates, que seu valor esperava superar? Esta supposição realça-lhe o heroismo, e como o texto em nada a desmente, não he muito attribuir um tal pensamento a tam sublime autor.

147. — 148. — Cratera era um vaso maior que a taça (patera), e nella vinha para a mesa o vinho, e dalli se iam enchendo os copos. Uso ás vezes do termo latino cratera; mas, quando não cabe no verso, nunca o substituo por taça, mas por copa. Ainda que vulgarmente se confundam estes dous vasos, a taça he mais pequena, e a copa vem do latim cupa, que significa uma talha, ou um vaso de tanôa.

312. — 313. — A falla de Juno, e em especial este verso tem
sido por todos admirado. A deusa, não podendo alhures encontrar auxiliares contra Enéas, convoca Alecto para accender a discordia e a guerra. A acção ganha aqui novo interêsse, e começâmos a enxergar os novos trabalhos que tem de sobrevir aos Troianos. Não posso alcançar o porque varios criticos acham este livro um tanto frio: só vejo que o poeta segue a sua fábula com discrição, e destribúe sabiamente as partes, sempre com o fito no desfecho da obra.

351-405. — 343-408. — Principia com Alecto. Esta introduz o seu veneno em Amata. Amata foge com Lavinia, depois que[3], buscando reduzir o marido a favor de Turno, não o poude conseguir. Sacrifica a Baccho, excita as matronas contra Enéas, promette que a filha só será de seu sobrinho Turno. Tudo isto he com uma rapidez, com um estilo, com movimentos inimitaveis; mas a crítica tem censurado a passagem em que a raínha, desesperada e a vaguear pela capital, he comparada a um pião, que rodopia tocado pela trena dos meninos. Delille, com prudente reserva, diz que não ousa affirmar que esta comparação quadre perfeitamente á poesia epica; mas que he mister convir que o vulgar do assumpto he compensado pela riqueza das imagens e das expressões; podendo ajuntar-se que o poeta latino procurava rebaixar o caracter de Amata, e convinham-lhe para sujeito da comparação as cousas mais communs.

406-474. — 409-477. — Depois que Alecto espalha a desavença no seio da familia de Latino, toma a figura de uma velha sacerdotiza de Juno, e vai excitar a Turno. He aqui principalmente que a pintura desta Furia sobe ao cume da perfeição. Os discursos della e de Turno, o acordar deste bradando por armas e procurando-as em tôrno do leito, as ordens violentas e immediatas, a comparação com a agua a ferver e a trasbordar da caldeira, as imagens que o poeta emprega, a prompta obediencia dos Rutulos, tudo he da mais bella composição; tudo presagia a procella que vai desfechar. Este livro setimo he o preparativo para os outros; faz o officio do primeiro acto de uma tragedia; e, como deixa em suspenso o leitor, alguns não o apreciam devidamente: cumpre consideral-o em relação aos subsequentes , para se avaliar todo o artificio do autor.

475-504. — 478-507. — Para servir a Juno, Alecto não descança: vai têr ao sítio em que Iulo caçava, e pondo o cheiro de um veado nos focinhos dos cães, os faz correr atrás delle; Iulo, indo após os cães, atira e mata o veado: este por acaso era um cervo manso da filha de Tyrrheu, maioral e couteiro do rei; e daqui se originou uma peleja entre os aldeãos latinos, excitados pelos queixumes da dona do cervo, e os Troianos que vem em defesa de Ascanio. Macrobio, com outros criticos, julga pequena a
causa da guerra; sem advertir que esta não foi a causa, mas a occasião: a causa era o odio aos estrangeiros, e o excitamento que recebia o povo por via dos partidarios de Turno. Quanto á occasião do combate, isto he a morte do cervo, digo não só que muitas vezes sam motivo de guerra cousas bem insignificantes, como a este proposito observou o doutissimo La Cerda, mas que Virgilio o escolheu optimamente, por duas razões: primeira, entre aldeãos simples, em uma sociedade ainda pouco polida, a morte de um animal estimado pela filha de quem os governava, era um estímulo poderoso; a segunda he que desta ficção nasceu um contraste que realça os horrores dos conflictos: folga a imaginação de passar dos queixumes de Silvia, de scenas campestres e caseiras, ao ruído das armas e aos feitos mais heroicos. Se em La Fontaine sobremaneira nos enternece a aguia a quem quebraram os ternos ovos, sua doce esperança, este quadro em Virgilio não enternece menos, e o enternecimento se nos prolonga mais: o veadinho de Silvia parece um menino que, sendo ferido, vem chorando buscar asylo ao collo de sua mãe. Sente-se com delicia reapparecer aqui o talento bucolico do cantor das maravilhas de Roma. Estou persuadido de que esta passagem serviu, não para o entrecho e a invenção, mas para o tom com que foi escrito um dos mais bellos dramas da nossa lingua, a pastoral intitulada Licoris do suavissimo Quita. Malditos criticos! tem estupendo saber, vastos conhecimentos; mas não sei que lhes falta sempre, ao menos á maxima parte: os poetas se entendem melhor uns aos outros.

511-518. — 514-522. — Este lugar, onde se descreve Alecto subindo a uma choça e tocando rebate, fecha-se com o verso «Et trepidae matres pressere ad pectora natos.» Adaptei-lhe um de Camões, e assim faço algumas vezes.

535-600. — 590-606. — Depois que Alecto, havendo plantado a rixa, desce ao Tartaro por ordem de Juno, os aldeãos trazem o corpo de Almon e a cabeça de Galeso, e instigado por Turno, quer o povo obrigar o rei a declarar a guerra: Latino resiste, mas abandona as redeas do governo, amaldiçoando o seu principal motor. Este abandono, aliás proprio da fraqueza do velho, era necessario para deixar a Turno livre e senhor da acção. Tudo isto he calculado com maravilhoso discernimento. Alguns censuram o caracter de Latino, como se a epopéa devesse apresentar sómente heroes e valentões, sem aproveitar-se dos contrastes e desprezando a occasião de pintar o homem segundo as differentes idades e as circumstancias. A velhice e a longa paz tinham a Latino tirado a energia e as fôrças.

601-640. — 607-645. — Descreve-se aqui o uso romano de
abrir o consul as portas do templo de Jano ao declarar-se a guerra; e, segundo o seu costume, Virgilio entronca esse uso na alta antiguidade, affirmando que a Latino pertencia desencerrar aquellas portas, mas que, recusando elle, a mesma Juno he que desmantelou os batentes e a couceira. Para não alongar estas notas, omitti muitas dessas allusões e estilos; mas, advertidos como estam os leitores, podem recorrer aos varios citados escritos, ao menos ao padre La Rue. Todos os preparativos, que se fazem nas differentes cidades, sam aqui designados; e assim pode o poeta lisongear a nação inteira, fallando dos lugares aos que eram naturaes de cada um delles. Deste artificio está cheia a Eneida; o que mostra quam nacional devera ser naquelle tempo. Neste ponto os Lusiadas não tem igual, excepto nas tres epopéas mais antigas, e ainda nos Martyres.

641-646. — 646-651. — Nos principios do livro ha uma invocação a Erato, a musa do amor, por isso que o motivo da guerra ia ser a rivalidade por causa de Lavinia; invocação que não tem agradado a muitos criticos, sendo do rancho Mr. Tissot. De corrida lembrarei que nos poetas latinos trocam-se as musas, como se observa no lyrico Horacio, que invoca Melpomene, Euterpe, Polymnia e outras; e he provavel que Virgilio, autor do epigrama sôbre o emprêgo das nove irmãs, conhecesse melhor esses usos do que os nossos criticos modernos. Nestes seis versos agora o poeta as invoca todas; porque entra a fallar dos guerreiros e dos exercitos, e sente que, indo emular a Homero na Iliada, necessitava do auxílio do côro inteiro.

647-654. — 652-659. — A descripção dos chefes que tem de combater os Troianos, principia de Mezencio e de Lauso, dous dos mais bellos caracteres da Eneida e da poesia epica. Em sete versos o autor nos diz quanto he mister, e só no adverbio nequicquam nos deixa entrevêr toda essa catastrophe: mais uma prova de que não podemos apreciar este livro sem reportarmo-nos aos restantes. La Harpe, com a leviandade que o destingue, depois de fallar muito mal da marcha do poema que elle não meditou, accrescenta que Virgilio espalha algum interêsse sôbre o joven Pallante, filho de Evandro: sôbre Lauso, filho de Mezencio; sôbre Camilla, raínha dos Volscos: o crítico passa em silencio os mesmos Evandro e Mezencio, que não podem ser mais interessantes; não reparou no caracter de Amata, e sôbre tudo na grandeza de Turno, que por vezes contrabalançaria a de Enéas, se a justiça e a moral não realçassem o heroe troiano. Mas qual he hoje o homem de gôsto que dá pêso ao que delirou La Harpe sôbre os escritores da antiguidade?

655-669. — 666-674. — Outro chefe he o formoso Aventino,
filho de Hercules e da ministra Rhéa. Alguns heraldicos, por esta passagem, pretendem que a armaria sóbe aos tempos heroicos: não vejo porêm prova bastante para concluir que esses brasões antigos se perpetuassem nas familias. — Chamavam-se dolones certos bastões de ponta de ferro, oucos e contendo em si uma especie de estoque.

691. — 696. — Virgilio traz algumas vezes este verso: «At Messapus equum domitor, neptunia proles.» Ora eu o traduzo ao pé da letra, ora digo só o picador Messapo, ora o Neptunio Messapo, ora o cavalleiro Messapo; pensei que, uma vez traduzido literalmente, não era preciso que sempre o fôsse. O poeta Ennio, dizem, contava Messapo entre os seus avós, e he por isso que Virgilio compara os soldados delle a um bando de cysnes que louvam e cantam seu rei.

706-722. — 711-727[4]. — Aqui louva-se Clauso, outro chefe contra Enéas, de quem se diz proceder a familia Claudia, poderosissima em Roma, aparentada com Livia mulher de Augusto, e da qual nasceram muitos homens célebres em mal e em bem. Observe-se a arte com que Virgilio mistura as familias mais consideraveis, mostrando que descendiam tanto dos Troianos como dos Latinos, e que o povo romano estava por tal modo confundido, que em separado não existia raça vencida, nem raça vencedora. Isto he já um preparativo para a transacção proposta por Juno e acceitada por Jupiter no livro XII, isto he que se casasse embora Enéas com Lavinia, mas que o Lacio e os Latinos não perdessem o seu nome; que Roma herdasse conjuntamente as honras do sangue teucro e do italiano. As origens das differentes casas, de que se trata não só no V, mas neste e em alguns outros livros, deviam agradar muito na côrte de Augusto; e os criticos modernos, que a ellas tem pouco respeito, não se collocam naquella epoca para poderem melhor apreciar esta parte da Eneida. O têr-se considerado a nação romana como homogenea, postoque fôsse composta variadamente, era da mais razoavel política; política bem diversa da de muitos nobres francezes, que se jactam de provir dos conquistadores do seu paiz, que se crêm de outra massa que a do povo; e até alguns tem tido o descoco de escrever que as classes menos ricas ou as mais pobres, sendo a raça dos escravos das Gallias, tem obrigação de trabalhar para elles! Ora, os nossos fidalgos do Brazil, que se vam augmentando prodigiosamente, virão algum dia a affectar semelhantes pretenções?

723-732. — 728-738. — O cabo Haleso conduzia uma grande multidão de povos differentes, armados pela maior parte de aclides e de terçados falcatos; a aclide era ou uma especie de lança ou de
clava com puas, atada a uma corrêa, pela qual tornava a ser colhida a clava depois do tiro; o terçado falcato era um alfange curvo como uma fouce, donde lhe vinha o nome.

741-743. — 746-749. — Cateia era uma lança pesada, de pouco alcance, mas de grande fôrça, usada pelos Gallos e os Teutonicos: adoptei o termo, porque não ha outro equivalente. Peltae eram broquéis em fórma de meia lua ou de folha de hera: fallando de Penthesiléa no livro I, eu traduzi lunados broquéis; aqui omitti o adjectivo por brevidade, e mesmo porque broquel he já um escudo mais pequeno, e não comprido como o escudo propriamente dito, ou como a adarga, e portanto mais semelhante ao que os Latinos chamavam pelta.

O poeta, que mórmente no livro V apresentou os Troianos mais conspicuos, neste setimo descreve os chefes e tropas italianas. La Harpe, que parece conceder ao autor só o talento do estilo e pouco mais, falla dos chefes da Eneida sem consideração, sem reconhecer a maior difficuldade vencida nos derradeiros livros, e como que leva a mal que Virgilio, deixando os vestigios gregos, celebrasse a Italia e os Italianos, quando este he o fim principal que se propoz. Para esclarecimento dos leitores menos intruídos vou dar uma idéa desses povos e dessas terras, servindo-me dos commentadores e varios outros escritores que trataram da materia. Este pequeno resumo porêm não dispensa os mais curiosos de os consultar especialmente.

A terra de Circe he o promontorio dito Monte-Circello; e a que d'antes se chamava a cidade de Circe, he hoje Civita-Vecchia. Mr. de Bonstetten, na sua Viagem ao Lacio, se exprime assim: «Tam viva he no povo a lembrança das velhas superstições, que nenhum dos habitantes do Monte-Circello se atreve a entrar na bella gruta sita no cume, que pensa o povo ter sido a mansão da maga Circe. Propondo a varios camponezes que me acompanhassem á gruta, recusaram-se todos; e apparecendo-nos um soldado de espessos bigodes, então dice eu: Eis-aqui um que não se me negará; mas o homem dos bigodes escoou-se á proposta de me seguir á casa de Circe: tanto se prolongam entre os povos lembranças taes!»

Quanto ao lugar de scena, diz Mr. de Bonstetten na obra citada: «Hoje a Isola sacra, que divide o Tibre uma legua acima da embocadura, entra pelo mar: no tempo de Enéas a praia estendia-se em linha recta, e o que sahe agora desta linha fazia parte do mar. Nas fozes desdobra-se pela arenosa campina um lago entre brejaes. Foi neste sítio que Enéas assentou o acampamento; tinha á direita, e um pouco adiante, o rio; o lago por detrás, e um terreno pantanoso estreitissimo entre o rio e o lago; na frente, a
quinhentos passos, o mar: posição admiravel, subministrando-lhe a mata meios de se fortificar. — A uma legua do mar se levanta uma cadêa de collinas volcanicas de uns cem pés de altura; entre ellas e a praia corre uma rasa e fertil campina: eil-o, o theatro dos seis ultimos livros da Eneida, que vou descrever qual sería naquelles tempos. Avisto a meus pés, ao poente, um campo semi-cultivado, e a velha floresta semeada de clareiras; um pequeno lago azul se mette em meio de mim e do mar. Vólto-me, e vejo a leste uma serrania rodeando a immensa planicie. Então os cabeços, hoje nus, eram sombreados pela antiga mata que, em uma terra meio-laborada, ostentam[5] o cunho majestoso da natureza em sua fôrça nativa, ainda não desfigurada pelo homem. — A' meia legua, á esquerda, entre o mar e a collina, vejo na campina uma cidade, he Laurento; ao pé, da banda do mar, avisto uma verde planicie, um Campo de Marte, onde se exercia a mocidade; não longe do lago azul que se dilata para o rio, atrás da cidade, sôbre cem altas columnas de madeira se eleva um palacio, o de Pico; assombrado pela velha floresta, que lá das collinas assuberba a paizagem, e se desdobra ao longe para a parte do monte Albano. Descobrem-se na campina, no meio de bosques semi-roçados, agros e pastios, e traços frequentes de cultura entre o vastissimo arvoredo. Pascem pelo prado cavallos; alêm, cabanas redondas, com tectos elevadissimos de canniços, cercam-se de numerosos rebanhos: um povo guerreiro, semi-pastor, semi-agricultor, habita essas afortunadas ribeiras: o rio só se descortina aqui e alli atravez das umbrosas e copadas selvas das suas verdejantes margens.» O Lacio continha o territorio dos Latinos, dos Volscos, dos Equos, dos Auruncos ou Ausonios, e dos Hernicos; o que se diz hoje a campanha de Roma. Nomeava-se paiz do Tibre o que hoje he a Toscana. Laurento he agora São Lourenço. «Sôbre o assento desta cidade, escreve Mr. Bonstetten, mudei tres vezes de parecer, e a final achei-o um pouco acima do Laurentum de Plinio, para junto das collinas de Decimo, á pequena distancia do pantano. Feito este meu trabalho com a leitura reiterada de Virgilio, fui consultar a carta, e lá no lugar do meu Laurento encontrei precisamente o nome de Selva Laurentina, e muito proximo, do lado da collina, o nome de Pico no de Trofusina di Picchi.» — Da fonte Albunea, de aguas sulfureas, nasce o Albula agora la Solforata, que pouco abaixo toma o nome de Tibre. O Numico junto de Lavinio, entre Laurento, o Tibre e a Lagoa, em baixo dos outeiros, desappareceu totalmente sob o solo volcanico: em um seu pequeno lago he que dizem se afogou Enéas. — Ardea, capital dos Rutulos, conserva ainda o seu nome em uma aldêa; Crustumerio, não longe de Roma, suspeita o padre La Rue que he o que chamam agora Marcigliano-Vecchio; Atina, no cimo do Apennino, tambem conserva o nome; Tibur, hoje Tivoli, he bem
conhecida; Antemnas, hoje destruída, era assim dita pela sua situação na confluencia do Anio com o Tibre, ou da parte do paiz dos Sabinos ou no Lacio mesmo. Estas cinco cidades he que mais se empenharam no fabrico das armas contra os estrangeiros Troianos. Mezencio, com o seu Lauso, commandava os de Agylla na Etruria, quasi nos confins do Lacio; tendo sido expulso da sua capital Coere, agora Cerveteri. — Aventino commandava uma porção de Sabinos, de lugares ao presente sob o dominio pontificio. — Ceculo commandava innumeraveis camponezes: os de Preneste, hoje Palestrina; os de Gabios, já destruída, entre Roma e Preneste; os das margens do Anio, ou o moderno Teverone; os de Agnania, capital dos Hernicos, povos que habitavam as cabeceiras do rio Amazeno, agora Toppia: Agnania existe ainda. — Messapo, de origem grega, dito filho de Neptuno, commandava os das duas cidades etruscas, Fescennia e Faleria. Em Fescennia he que se inventou o epithalamio; e, como então esses canticos eram licenciosos, chamavam-se versos fescinninos os versos obscenos. Faleria, agora Fatar, tem suas ruínas entre Viterbo e Montefiascone. Commandava tambem os do Soracte, ou monte di S. Silvestro; os dos campos Flavinios, só conhecidos pelos versos de Virgilio e de Silio Italico; os do lago e monte Ciminio, que alguns suspeitam ser o monte di Viterbo e o lago di Ronciglione; os de Capena, ou Canepina dos modernos. — Clauso commandava os Quirites priscos, isto he os da cidade de Cures, patria de Numa Pompilio; os de Amiterno, cidade do Apennino, junto do lugarejo di S. Vittorino; os de Ereto, na confluencia do Allia e do Tibre, agora Monte rotundo; os de Nomento, ao oriente de Ereto, agora Lamentano; os de Motusca, ou Trebula, alêm da Lagoa Reatina, agora[6] monte Leone; os do Velino, lago e rio, o lago hoje dito Lago di pie di Luco, o rio conservando o nome; os dos montes Severo e Tetrica, de posição incerta, que alguns crêm ser, aquelle o Monte-Negro, este o di S. Giovanni; os de Casperia, agora Aspera; os de Forulo, junto de Amiterno, aldêa destruida; os do rio Himella, agora Aia; os do Tibre e os de Fabaris, agora Farfa; os de Nursia, agora Norsia no Apennino; os de Horta, agora Orta na Toscana; os das margens do Allia, agora rio di Mosso, a que o poeta chama infausto, porque alli foram os Romanos desbaratados com grande matança pelos Gallos Senonenses, ou de Lyão. — Haleso commandava os do Massico, hoje Monte di Dragone; os Auruncos e os Sedicinos, que faziam parte da nação osca, povo habitante das margens do Liris vizinho dos Volscos; os de Cales, agora Calvi, junto a Capua; os do Vulturno, agora Natarone; os de Saticula, que alguns crêm ser Caserta. — Ebalo commandava os Telebas de Caprea, ilha á entrada do golpho de Napoles, de fronte de Sorrento; os das margens do Sarno, que atravessa a Campania, banha as ruínas de Pompeia, e se perde naquelle golpho, tendo ainda o nome antigo;
os de Rufras, hoje Ruvo, da banda da Basilicata; os de Batulo e Celenna, lugares desconhecidos; e os de Abella, perto de Nola, ao norte do Sarno, hoje Avella-Vecchia, fertil nas nozes que della tiraram o nome de avellans. — Ufente commandava os de Nersas (e não Nursia, cujos guerreiros eram guiados por Clauso), lugar desconhecido; e tambem os Equicolas, ou Equos, ao sul dos Sabinos e ao norte dos Hernicos, nas montanhas em que nasce o Teverone, bem como as aguas Marcia e Claudia que os Romanos trouxeram á cidade, por um aqueducto de vinte leguas ainda subsistente. — O sacerdote Umbro commandava os de Marrubia, hoje Morrea, capital dos Marsos, ao pé do lago Fucino; povos que passavam por feiticeiros e curadores de cobras, como hoje se dizem muitos pretos no Brazil. Perto ficava o bosque de Angicia, ao occidente do lago Fucino, e junto ao bosque he o moderno Luco. — Turno, general em chefe, commandava especialmente os de Ardea, que o poeta chama Argivos, por têr sido fundada pela Argiva Danae, filha de Acrisio; parte dos Auruncos, que habitavam com os Volscos e outros desde o Tibre ao rio Liris, hoje Garigliano; os seus Rutulos, entre o Numico e a cidade de Ancio, que pertencia aos Volscos; os Sicanos, não os da Sicilia, mas um dos povos do Lacio já extinctos, e por isso o poeta os chama veteres; os Sacranos, povos desconhecidos, sôbre os quaes ha conjecturas mais ou menos arriscadas; e os Labicos, da cidade hoje dita Zagarualo, o qual deu seu nome á via Labicana, e estava arruínada no tempo de Virgilio. Satura he porção da Lagoa Pontina, que se estende desde o lugar tres tabernas, hoje Cisterna, até Terracina; e recebe dous riachos, o Stura ou Astura, e o Ufente ou Ofanto. — Camilla commandava os seus Volscos. O poeta encerra este livro com a descripção da ligeireza desta raínha, e nos deixa gravada na lembrança tal particularidade, que servirá opportunamente. Nesta descripção chama-se o bastão que ella trazia pastoralem myrtum; que eu traduzi myrteo cajado, omittindo o adjectivo pastoral, porque em portuguez cajado só por si quer dizer o bastão do pastor.




NotasEditar

  1. No original, «recommandavel».
  2. No original, está Euryialo.
  3. No original, está depoisque.
  4. No original, esse número é 627.
  5. O verbo «ostentar», é aplicado a «cabeços» e não a «mata», ao contrário do que a construção da frase leva o leitor a pensar.
  6. No original, está em itálico: agora.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Livro VIII


LIVRO VIII.

Mal Turno, os cornuos rouco estrepitando,

Pendões arvora no laurente alcaçar,
E os brutos afoguêa e incita as armas,
Revôlto o Lacio em trepido tumulto
       5Se conjura, e esbraveja a mocidade.
Chefes Messapo e Ufente, o atheu Mezencio,
Organizando levas, despovoam
Toda a campanha. A requerer o auxílio
Do gran’Diomedes, Venulo deputam;
       10A informar que, abordado ha pouco Enéas,
Os vencidos penates recolhendo,
Rei se inculcava por querer dos fados;
Que attrahe cem povos, e n’Ausonia lavra
Seu prestigio. Ao que tenda, e o que resulte
       15Se a fortuna o insuffla, he manifesto
Mais a Diomedes que a Latino ou Turno.
  Derramada a notícia, o Laomedoncio
Em cuidados fluctua, e a mente vaga
Divide e agita, a meditar em tudo:
       20Como em bacia d’agua o tremulante
Raio da Lua ou Sol, repercutido,
A regyrar voluvel, monta aos ares
Do summo tecto os artesões ferindo.
  Noite era; e gados, aves e alimarias,
       25Quando lassos na terra adormeciam,
Dos perigos afflicto, á riba Enéas,
Tardo repouso aos membros concedendo,
Sob o eixo do céo frio recostou-se.
Deus do sítio, a surgir do leito ameno,

       30Entre alemos se antolha o Tiberino:

Ao velho tenue bysso um verdoengo
Sendal compõe, e o touca umbrosa canna.
Ao Teucro falla e o peito lhe mitiga:
«Divo renôvo, que dos Gregos salva
       35Pérgamo eterna á Hesperia nos transportas,
Nestas laurentes veigas esperado,
Casa tens certa, certos os penates;
Avante! não te assuste a feia guerra:
O tumente furor cessou dos deuses.
       40Porque isto um sonho futil não reputes,
Em litoreo azinhal grande alva porca
Deitada encontrarás parida, e em roda
Nella a mamar trinta alvos bacorinhos.
Descanso aqui tereis; trinta annos vôltos,
       45Aqui fundando-a Iulo, deste agouro
Alba derivará seu claro nome.
Não dubio o vaticino. O modo em summa
Te ensinarei de conseguir victória.
Lá d’Arcadia emigrados que de Evandro
       50Sob a real brandeira aqui vieram,
Do bisavô Pallante por memoria,
Em montes assentaram Palantéa:
Com elles anda o Lacio em guerra assídua;
O arraial em commum, liga-te a elles.
       55Eu, por meu rio e margens te ajudando,
Farei que a remos a corrente venças.
Sus! roga a Juno; assimque os astros caiam,
Devoto e supplice, ó de Venus filho,
O odio minaz lhe adoça: ao triumphares
       60Me honres depois. Sou eu que em ampla chêa
Premo estas bordas, sulco e adubo as vargens,
Aos céos gratissimo, o ceruleo Tibre.
Meu paço he cá, de altas cidades mano.»
Dice, e immergiu-se: a noite a Enéas deixa.
       65Desperto olhando ao lucido oriente,

Nas côvas palmas, como he uso, apanha
Do licor fluvial, dest’arte orando:
«Nymphas, laurentes nymphas, geradoras
Dos mananciaes, com santa vêa ó Tibre,
       70Recebei vós a Enéas, resguardai-me.
Qualquer que seja a fonte, ou lago ou solo,
Donde formoso nasças e onde as nossas
Penas, rio cornígero, apiadas,
Sempre terás meu culto, offrendas sempre,
       75Tu das aguas hespericas monarca.
Assim me valhas e os augurios firmes.»
Da frota escolhe então biremes duas,
E de armas e remeiros as fornece.
Subito, oh maravilha! entre arvoredos,
       80Deitada em verde ribanceira, avistam
Com sua alva ninhada uma alva porca;
E a ti, maxima Juno, o pio Enéas
Com todo o parto a immola e te offerece.
Durante a noite amaina o inchado Tibre,
       85E em tacito remanso refluindo,
Qual tanque fica-se ou lagoa estôfa,
Que não obste ao remar. Crenado o pinho,
Com propício rumor, no equoreo plaino
Ligeiro se deslisa; e a onda e o bosque
       90Arnezes a fulgir de longe estranha,
Estranha os bucos a nadar pintados.
Afadigando á voga a noite e o dia,
E os estirões e as vóltas alcançando,
Sob a folhuda abobada, cortavam
       95No aquoso espelho as verdejantes ramas.
Igneo o Sol meridiano, he quando enxergam
Uns muros, um castello e tectos raros,
De Evandro haver mesquinho; que a pujança
Romana elevou tanto e aos céos o iguala:
       100Viram proas e ao burgo se approximam.

Acaso o arcade rei, n’um luco em face,
O Amphitryonio festejava e os divos.
Solemne, o seu Pallante, a flor dos jovens,
Pobre senado, o incenso ministravam,
       105Em cruor tepido a fumar as aras.
Surdir vendo os baixéis pela espessura,
E o nauta aos mudos remos debruçar-se,
Das mesas todos erguem-se assustados.
Veda romper-se o rito o audaz Pallante;
       110Saca uma lança e voa, e de afastado
Outeiro: «O que tentar vos fórça, ó moços,
Ignotas vias? de que partes vindes?
Quem sois? onde ides? paz quereis ou guerra?»
Maneando Enéas da alterosa pôpa
       115Fausta oliva, responde: «Phrygios dardos
Te apresento e inimigos dos Latinos,
Que em barbara aggressão nos repulsaram.
Saiba teu rei que os principaes Troianos
Lhe vem pedir junção e apoio de armas.»
       120Logo a tal nome attonito Pallante:
«Salta, e a meu pae dirige-te em pessoa;
Quem sejas, te agasalha em nossos lares.»
E a mão lhe aperta, cordial o abraça.
Trasposto o rio, ao bosque se encaminham;
       125E amigavel o padre: «Optimo Evandro,
Timbre dos Graios, a fortuna enseja
Que, ennastrado este ramo, eu te supplique;
Certo não te hei receio por Arcadio,
Chefe acheu, dos Atrídas consanguíneo:
       130Meu gôsto e leal peito, oragos santos,
Parentesco de avós, tua alta fama,
Por fatídico impulso, a ti me enlaçam.
Dardano, de Ilio autor, de Electra nado,
Para os Troas passou-se, a Grecia o affirma;
       135Do estellífero Atlante Electra he prole:

Vós de Mercurio o sois, e em frio cume
Cyllenio o concebeu candida Maia;
Maia, he crença geral, o mesmo Atlante,
O que os orbes sustenta, procreou-a.
       140De um tronco somos pois. Eis porque afouto
Nuncios não ensaiei que te sondassem:
Eu proprio, eu vim expôr-me e supplicar-te.
A Daunia, que te aprema em feroz guerra,
Cuida, a nos rechaçar, que nada a estorva
       145De metter sob o jugo a Hesperia inteira,
E o superior e o baixo mar que a lavam.
Presta e acceita-me a fé. Briosa temos
Aguerrida e valente mocidade.»
Attento ao seu discurso, Evandro os olhos
       150Curioso lhe examina e a bôca e o talhe;
Foi breve assás: «Fortissimo dos Teucros,
Com que prazer te hospedo! eu reconheço
De teu pae a facundia, o tom e o gesto!
A Hesione irmã sua o Laomedoncio,
       155Lembra-me, visitando em Salamina,
Honrou-me os gelos da vizinha Arcadia.
De flóreo buço a face então pungida,
Bem me admirei de Priamo e seus cabos;
Mas na grandeza os superava Anchises.
       160Cúpido joven, por tratal-o ardia
E a mão do heroe cerrar: obtendo accesso,
Aos muros de Pheneu lhe fui companha.
Partindo, insigne coldre e lycias frechas,
Chlamyde auri-bordada e uns aureos freios
       165Deu-me, de que ora he dono o meu Pallante.
Confirmo aquelle pacto; e satisfeitos
Vou na alvorada, amigos, despedir-vos
Com soccorro de gente e o mais que eu possa.
Emtanto, embora celebrai comnosco
       170Festa annual que differir he crime,

E dos socios á mesa habituai-vos.»
Dice, e os copos repôr e os pratos manda,
Senta os varões na relva; em tóro e pelle
De leão velloso a Enéas accommoda,
       175Cede throno de bôrdo a heroe tamanho.
Moços, do antiste ás ordens, lestos servem
Taureas tôstas fressuras, dons de Baccho,
De obras de Ceres cumuladas cestas.
De rêz inteira o dorso e os intestinos
       180Lustraes ministram pasto ao chefe e Troas.
Refreiado o appetite e a fome exhausta,
Disserta el-rei: «De tanto nume est’ara,
Esta pompa e festim, hóspede, usamos,
Não por superstição que os priscos deuses
       185Desconheça; de atroz perigo exemptos,
Merito culto renovâmos gratos.
Nota em penha suspensa aquella pedra:
Dispersa a mole jaz, do monte a furna
Deserta, e ao longe as ruínas dos rochedos.
       190Esta, em recesso vasto ao Sol defeso,
Era a espelunca do semihomem Caco,
Monstro immano; e, em recente morticinio
Sempre o chão tepido, aos portaes suberbos
De homens saniosas lívidas cabeças
       195Fixas pendiam. De Vulcano filho,
Turbidos fogos vomitando, a enorme
Corpulencia movia. Ao suspirarmos
Por divo auxílio, o vingador Alcides
Chega a tempo, e do espólio e morte ufano
       200Do trigémeo Gerion, de gado enchia,
Vencedor pastorando, o rio e valle.
Caco, infrene e brutal, que não se abstinha
Do mór flagicio ou dolo, da malhada
Touros quatro furtou-lhe os mais robustos,
       205Quatro novilhas de excellente fórma;

E, para nenhum rasto haver directo,
Puxando a cauda e a recuar, no opaco
Petreo bôjo os fechou: pégada alguma
Não guiava á caverna. O Amphitryonio,
       210Já gordo o gado e farto dos pastios,
Retirar-se dispunha, e os bois saudosos
Monte e bosque estrugiam de queixumes.
Do amplo encêrro igualmente uma das vacas
Muge, e de Caco as esperanças frustra.
       215Da injúria ardendo e em negro fel, das armas
Hercules péga e do nodoso roble,
Corre ao cabeço aereo. Aos nossos Caco
Trémulo e demudado aqui mostrou-se:
Fugindo euros transcende, e aos pés o medo
       220Azas lhe empresta. Já na gruta, abate
Penhasco ingente, rôtas as cadêas
Com que acima o ligava arte paterna,
E de espeques reforça e escora a entrada;
Eil-o, o Tirynthio em sanha os dentes range
       225Accesso a perscrutar: férvido e iroso,
Todo o Aventino vezes tres rodêa;
Tres contra a saxea porta o esfôrço balda;
Tres descansou no valle. Aguda roca,
Asado ninho de funestas aves,
       230Entre fraguras e a perder de vista,
Do antro estava no dorso: á esquerda o cimo
Sôbre o rio inclinava; á dextra Alcides
Carrega, e do imo a desarreiga e impelle:
Ao baque repentino o ethereo espaço
       235Retumba; e, as ribanceiras retremendo,
Reflue medroso o rio. A immensa régia
De Caco descobriu-se, e appareceram
Umbrosos penetraes: qual se abalada
Rasgasse a terra hiante o dos infernos
       240Pallido reino, aos deuses detestavel;

De cá se vendo, no profundo abysmo,
Da luz diffusa a trepidar os manes.
Do subito clarão se assusta o bruto,
A urrar disforme, na caverna preso;
       245De cima o ataca o deus, atira o que acha,
Calhas e galgas e lascados ramos.
Elle, oh monstro! não tendo outro refúgio,
Rouba-se á vista, a jacular das fauces
Tetro vapor; em cega nevoa baça
       250Involve a gruta, e mescla a luz e as trevas,
A fumífera noite agglomerando.
Não o supporta Alcides, e de um pulo
Se arroja onde corisca e ondêa o fumo,
E em caligem mais basta a cóva estúa.
       255No incendio vão que expira agarra a Caco,
O estreita e afoga, e lhe esbugalha os olhos,
Sêcco na guela o sangue. Arranca as portas,
O antro escancara escuro; os bois e os furtos
Abjurados ao claro patentêa.
       260O corpo informe pelos pés arrastam:
Ninguem do semiféro a catadura
De olhar se cansa, e os peitos sedeúdos,
E na garganta os apagados fogos.
D’então ledos o dia celebrâmos;
       265Primeiro o fez Poticio, e a consagrada
Pinaria tribu ergueu no bosque est’ara,
Chamada sempre maxima, e que sempre
Maxima nos será. Mancebos, eia,
Brindai-me a nobre acção, de dextra em dextra
       270Os copos a gyrar, frondosa a coma,
Commum deus o invocai, bebei contentes.»
Presto as cãs lhe entretece e enfolha o choupo
De sombra herculea, bicolor pendendo;
Sagrado scypho empunha. Alegres todos
       275Em roda libam, deprecando os numes.

Já Vesper ao declive Olympo avança:
Tochas nas mãos, do estilo as pelles cintas,
Poticio á frente, os sacerdotes cobrem
De gratos postres a instaurada mesa;
       280Bandejas de mil dons o altar oneram.
Com populea capella, em tôrno os Salios
Da ara incensada ao cantico presentes,
Jovens em côro, em côro o entoam velhos
De Hercules em louvor: como estupendos
       285Os dragões da madrasta esmaga infante;
Como as grandes arrasa Echalia e Troia;
Como, a sabor de Juno, arduos trabalhos
Sob Eurystheu passou. «Tu mesmo, invicto,
A Pholo e Hyleu, nubígenas bimembres,
       290Tu cretenses prodigios, tu mataste
Na brenha o leão Nemeu desmesurado.
De ti a Estyge, na cruenta cóva
Tremeu do Orco o porteiro, sôbre ossadas
Meio-roídas a jazer. Phantasma
       295Nenhum lá, nem Typheu de cota enorme
Te foi terror; não te esmorece e atalha
Da hydra Lernéa a turba de cabeças.
Salve, ornamento aos divos accrescido,
Vera prole de Jove: ao teu festejo
       300Com pé desce propício, e nos assistas.»
Cantam proezas taes; por fim memoram
A furna e Caco resfolgando chammas.
Resoa a selva e o eccho nos outeiros.
Cheia a funcção, para a cidade voltam.
       305El-rei de annos cercado ia adiante,
Entre Enéas e o filho, em varios modos
Praticando o caminho aligeirava.
Por tudo ávido o heroe passsêa os olhos,
Mira, e cada vestigio dos maiores
       310Inquire e aprende. Evandro, que os primordios

Lançou da celsa Roma, então começa:
«Indígenas moravam nestas matas
Faunos e nymphas, e homens raça dura
Dos robles; que nem bois jungir sabiam,
       315Adquerir, nem poupar, sem lei, sem culto;
Montez caça os mantinha e agrestes frutas.
De Jupiter fugindo, aqui Saturno
Do Olympo veio, expulso do seu throno.
Selvagem povo indocil ajuntando,
       320Legislou, chamou Lacio a plaga antiga,
Onde um latente couto deparara.
No célebre reinou seculo de ouro,
De justiça e de paz; mas pouco a pouco
Em peior descorou-se a idade nossa,
       325Raiva bellaz surgindo e atroz cubiça.
De Ausonios e Sicanos invadida,
Variou de nomes a saturnia terra:
De um seu rei, Tibre aspérrimo gigante,
O Albula velho appellidou-se Tibre.
       330Cá nos confins do pégo, expatriado,
A omnipotente sorte ineluctavel,
De minha mãe Carmenta o serio aviso
E Apollo inspirador, me deposeram.»
Progredindo, elle mostra o altar e a porta
       335Que se intitula Carmental em Roma,
Por memoria da nympha que primeiro
Fatídica os Enéadas sublimes
E o brilho pallanteu vaticinara;
Mostra a mata em que asylo abriu Quirino
       340Sagaz, e o Lupercal, gélida gruta
De Pan lyceu, vocabulo parrhasio;
Mostra o Argileto bosque, e attesta e narra
De Argos hóspede a morte merecida.
Dalli guia ao Tarpeio, ao Capitolio,
       345Hoje aureo, outrora de urzes erriçado.

Os campestres então, da rocha e luco
Já com pavor tremiam religioso.
«No cimo, diz, frondente habita um nume;
Qual seja he dubio: Arcadios crem têr visto
       350Jove nubícogo a vibrar por vezes
A egide negrejante. Observa aquelles
Dous muros em ruínas: monumentos
Sam dos varões passados, sam reliquias
De Saturnia e Janículo, cidades
       355Que o pae Jano e Saturno edificaram.»
Do pobre Evandro á casa emtanto sobem;
No foro e lauto bairro das Carinas
Balava o armento. Ao limiar chegou-se:
«De Alcides vencedor foi este o alvergue,
       360Nesta régia o deus coube. Hóspede, imita-o,
A desprezar atreve-te as riquezas;
Desta míngoa de haveres não te enfades.»
Calou-se, e leva o heroe pela estreitura
Do exíguo tecto, e em leito o põe de folhas,
       365Do espólio de ursa libya tapetado.
Cahe ali-fusca noite e abrange o globo.
Não sem causa, aterrada a madre Venus
Do cru tumulto e ameaços dos Laurentes,
Carinhosa ao marido amor divino
       370No aureo thalamo inspira, assim fallando:
«Emquanto argivos rêis com fogo e ferro
A malfadada Pérgamo assolavam,
Nunca, espôso querido, ajuda ou armas
Roguei do teu lavor, nem quiz tua arte
       375Por miseraveis empenhar de balde;
Bem que eu devesse muito aos Priamídas,
E muito houvesse a Enéas deplorado.
No rutulo paiz ora o tem Jove:
Mãe, nume augusto, emfim supplico-te armas
       380Que o protejam. Dobrou-te em pranto a espôsa

Tithonia, a filha de Nereu dobrou-te:
Olha que povos, que cerradas praças
Em meu damno e dos meus o alfange amolam.»
Aqui recurva a Cypria os níveos braços,
       385Com molle amplexo afaga o deus remisso;
A nota chamma aquece-lhe os tutanos,
Penetra o ardor nos quebrantados ossos:
Como quando estrondoso ignito sulco
Percorre coruscante as rôtas nuvens.
       390A bella o aventa, e conscia o ardil applaude.
De eterno amor captivo, então Vulcano:
«Que remotas razões! de mim, ó déa,
Já duvîdas? Se igual empenho houveras,
Armaramos os Phrygios; não vedavam
       395O pae summo e o destino que dez annos
Priamo inda reinasse. E pois desejas
Combater, esmerar-me eu te prometto
No que de ferro e de fundido electro
Possa obrar sôpro ou forja. Os rogos cessem,
       400Confia em teus encantos.» E abraçando
A gozosa consorte, em seu regaço
N’um suave repouso adormeceu-se.
Do primo somno, ao descahir das horas,
Se despertava; e a dona que só vive
       405Da roca e tenues obras de Minerva,
Suscita as cinzas e sopítas brazas,
Addindo a noite ás lidas, e em tarefa
Longa ante o lume as famulas exerce,
Por manter ao marido o casto leito
       410E criar tenros filhos: não mais tibio,
Da fofa cama salta o ignipotente,
E vai de golpe á férvida officina.
Junto á Sicania e Liparis eolia
Se ergue saxea fumante ilha escarpada;
       415Lá toa etnéa gruta por cyclopias

Fornalhas carcomida, e em safras malhos
Se ouvem gemer, dos Cálybes as chispas
Rugir e as fragoas resfolgar em ala:
De Vulcano appellida-se Vulcania.
       420Dos céos o alto forgeiro aqui descende.
No antro espaçoso o ferro trabalhavam
Nus Pyracmon e Estéropes e Brontes.
Nas mãos polido em parte, inda imperfeito,
Corisco tinham, dos que do ether Jove
       425Crebros joga: tres raios de saraiva
Torta ajuntaram, tres de aquosa nuvem,
Tres de rútilo fogo e de austro alado;
Fulgor terrífico e estampido e medo
Mesclavam-lhe e iras de sequazes flammas.
       430Rodas leves e o carro outros concertam
Com que homens e cidades Marte excita;
A egide horrivel da agastada Pallas
De aureas escamas á porfia brunem,
Onde ao seio da deusa enrosca as serpes
       435E inda olhos vira a Gorgóna estroncada.
«Fóra tudo, lhes clama, etneus Cyclopes,
Deponde esses trabalhos e attendei-me.
Vam-se armas fabricar a heroe famoso:
Fôrça agora e primor, destreza e pressa.»
       440Nem acaba, e o serviço elles sortêam:
Flue ouro e cobre a jorros, e em fornalha
Ampla o aço vulnífico liquesce.
Broquel tremendo formam, só bastante
Contra todos os tiros dos Latinos;
       445Laminas sete em orbes o roboram:
Ventosos folles o ar sorvido expellem;
No tanque ao temperar-se o metal chia;
O antro a bramir, os golpes nas bigornas
Braços nervudos em cadencia alternam,
       450Com tenaz pegam, rubra a massa volvem.

Na Eolia emquanto o Lemnio os aferventa,
A alma luz da cabana a Evandro acorda,
No tecto matinaes cantando as aves.
Enfia a tunica, as sandalias tuscas
       455Ata ás plantas o velho; e, a tiracollo
Tegéa espada, lança do hombro esquerdo
E sobraça uma pelle de pantera.
Marcham dous cães fiéis, que a porta guardam,
Pós seu dono. Em descargo da promessa,
       460O ancião buscava o camarim de Enéas;
Que tambem madrugara e já sahia:
A um Pallante acompanha, ao outro Achates.
Juntas as dextras, no salão do meio
Sentam-se, e francamente emfim se explicam.
       465El-rei começa: «Ó mór dos phrygios cabos,
Livre estás, por vencida eu não dou Troia.
Para um tal nome he fraco o auxílio nosso:
Cá tusco rio, lá me aperta armado
Circumsonando o Rutulo á muralha.
       470Mas bons guerreiros e opulentos reinos
Alliar-te vou: dos fados conduzido,
Conjunção tens aqui para salvar-te.
Não distante, em vetustos alisserces
De Agyla, outrora a brava gente lydia
       475Fundou cidade nos etruscos serros.
Florente prosperava, até que veio
Mezencio, máo tyranno, a subjugal-a.
Porque assassinios taes e atrocidades
Refirirei? Sôbre elle e os seus recaiam!
       480Vivos ligava a mortos, contrapondo
Mãos a mãos (que tormento!) e bôca a bôca,
E em triste abraço e putrida sangueira
Nesta agonia longa os acabava.
Lassos porêm da infanda crueldade,
       485Munidos cidadãos cercam-no em casa,

Queimam-na; os vis asseclas lhe degolam.
Da morte escapo, em Ardea achou guarida,
Do hóspede Turno as armas o defendem.
A Etruria toda, em furia e justo marte,
       490Pede insurgida o rei para o supplício.
Vou pôr-te á frente de milhares destes.
Querendo içar bandeira as pôpas fremem
Densas na praia: aruspice longevo
As retem prophetando: «Ó flor meonia,
       495Que, avito brio herdando, o aggravo accende
Em merito furor contra Mezencio,
Não pode Italo algum domar tal gente;
Chefe externo escolhei.» D’então, confuso
Do annúncio, o tusco exército acampou-se.
       500Tárchon mesmo enviou-me insignias régias;
Aos arraiaes tyrrhenos me convida
E o sceptro me offerece. Mas velhice
Tarda e frígida inveja-me este imperio,
E as debeis gastas fôrças me acobardam.
       505Suadira o filho, se daqui não fôra,
Gerado em mãe sabella. Tu, que a idade,
Que a patria favonêa, e os céos designam,
Vai, cabo egregio de Italos e Teucros.
Confio-te a só prole, meu confôrto,
       510Minha esperança. A militar comtigo
Aprenda e a têr em pouco o marcio pêso;
Novel, te observe e admire-te as façanhas.
Dar-te-ei duzentos guapos cavalleiros
De escolha, e iguaes te offertará Pallante.»
       515O Anchiseo, a vozes taes, e o fido Achates
No mesto coração mil duros transes,
Fixos em terra os vultos, presagiam,
Se não acena do alto Cytheréa.
Eis o ar vibrado relampêa e ronca:
       520Tudo estralar parece e de trombeta

Mugir clangor tyrrheno. A vista elevam:
[1]Trovão brama e rebrama; em nuvem clara,
Serena a região, pulsadas armas
Vêm rutilar toando. Os mais se espantam;
       525Mas o heroe, conhecendo o som divino:
«Hóspede, brada, o annúncio do portento
Não me inquiras: o Olympo me reclama.
Prometteu minha mãe, se a guerra instasse,
Transmittir-me o sinal e pelas auras
       530Armadura vulcania. Ah! que de estragos
Ameaça os Laurentinos! Caro, ó Turno,
M’o pagarás! Que escudos, corpos e elmos,
Pae Tiberino, involverás nas ondas!
Que ora peçam batalha e o pacto quebrem.»
       535Do solio aqui se ergueu; sopítas aras
Com teda herculea esperta; e alegre o de hontem
Lar busca e humildes hospedeiros divos;
Rezes do estilo bianejas mata:
O mesmo faz Evandro e os jovens teucros.
       540Ás naus depois caminha; e d’entre os socios
Elege os mais guerreiros e prestantes;
Outros vam rio abaixo, ao tom das aguas,
O que obteve seu pae contar a Ascanio.
Corséis arreiam para o campo etrusco;
       545A Enéas um loução: leonino o amanta
Fulvo teliz de auriluzentes unhas.
Veloz no exíguo burgo a nova grassa
De ir a cavallaria ás tuscas tendas.
As mães duplicam votos, medra o susto,
       550Mór o perigo e a lide se afigura.
Na despedida Evandro ao filho a dextra,
Lagrimando insaciado, aperta e falla:
«Oxalá que eu tornasse ao vigor d’antes!
Quando, a vanguarda ufano destruindo,
       555Em Preneste incendiei montões de escudos;

E, remettendo ao Orco o regio Herilo,
Tres almas, que ao nascer a mãe Feronia
Lhe infundira, oh prodigio! este meu braço
Lh’as desfez, derribando-o com tres mortes,
       560E o despojei da tríplice armadura:
Então, meu doce filho, do teu lado
Nunca me apartaria; nem Mezencio,
Ás minhas barbas tanto horror cevando,
A viuva cidade funestara.
       565Mas, vós deuses, tu Jupiter supremo,
Do afflicto arcadio rei compadecei-vos,
Prece escutai paterna: se Pallante
O vosso nume e os fados m’o conservam,
Se hei de vel-o e adunal-o, a vida imploro;
       570Tragarei quaesquer penas: mas, Fortuna,
Se ameaças caso horrendo, agora, agora
Estale a cruel têa, emquanto ambíguo
Temo e espero o futuro, emquanto, ó caro,
Meu só e último gôsto, aqui te abraço:
       575Nuncio ingrato os ouvidos não me fira.»
Tal neste adeus se exprime e chora o velho;
Desfallecido, os servos o recolhem.
Pelas portas as turmas já despedem,
Á testa o heroe e Achates, e outros Phrygios
       580Dos mais grados: no centro luz Pallante,
De arnez pintado e chlâmyde vistoso;
Qual, do oceano orvalhada, a estrella d’alva,
A quem sôbre os mais astros Venus ama,
Altêa aos céos a fronte e solve as trevas.
       585Pávidas mães aos muros, de olhos seguem
Nuvem pulverea e o bando eri-fulgente.
Por encurtar jornada, espinhaes trilham;
Formam-se ao grito, a esboroal-o bate
Com som quadrupedante a ungula o campo.
       590Bosque ante o frio Cérite se estende,

Antigo e venerado; o qual circumdam
Negros abetos, curvos montes fecham.
Priscos Pelasgos, íncolas do Lacio,
Um dia e o luco he fama que a Silvano,
       595Deus das lavras e gados, consagraram.
Tárchon lá tinha os arraiaes seguros;
De uma collina o exército espalhado
Já se descortinava e ao largo as tendas.
Com seus guerreiros se adianta Enéas;
       600Lassos, dos corpos, dos cavallos curam.
A candida Cyprina os dons pelo ether
Nimboso traz, e ao filho em valle escuso
Retrahido enxergando á fresca margem,
Lhe dice rosto a rosto: «Eis os presentes
       605Que ingenhou meu consorte: não recêes
Laurentes suberbões nem fero Turno
Provocar.» Nisto, enreda-se nos braços
Do seu querido, e á sombra de um carvalho
Depoz fronteiro as fulgurantes armas.
       610Gostoso de honra tanta, em si não cabe;
Mira tudo e remira; embraça e apalpa,
Menêa e prova, de terrivel crista
O elmo flammívomo, a letal espada;
Bronzi-rija e sanguínea a gran’coiraça,
       615Qual se aos raios de Sol cerulea nuvem
Longe esplende e rubeja; as finas grevas
De electro e ouro acendrado, e a cota e a lança,
E a do broquel textura inexplicavel.
Nelle, o porvir sabendo e as profecias,
       620O artifice gravou de Italia as cousas
E os triumphos romanos, desde Iulo
A estirpe toda, e a serie das batalhas.
De Marte em verde gruta alli parida
Loba jaz, e a brincar das tetas pendem
       625Gemeos que a chupam sem pavor, e afagos,

Nedia a cerviz dobrando, a mãe reveza,
E os corpinhos lambendo os afeiçoa.
Gravou Roma, e as Sabinas do theatro
Raptas sem modo nos circenses ludos;
       630Entre os Romuleos e os severos Cures
Do velho Tacio a desparada guerra.
Depois, da ara de Jove os rêis armados,
Posto o certame, tendo em mãos as taças,
Em penhor da alliança a porca ferem.
       635Perto, oppostas quadrigas fustigadas,
Mecio esquartejam; visceras e membros
(Tu Albano perjuro, a fé guardasses)
Roja Tullo, e os sarçaes gottêam sangue.
Lá, para impôr Tarquinio expulso a Roma,
       640Porsena a cérca e opprime: a libertal-a
Contra o ferro os Enéadas remettem.
Como indignar-se o viras, torvo e irado,
Porque ouse Cocles só cortar a ponte,
E as prisões rompa Clelia e trane o rio.
       645No cimo, a rocha a vigiar Tarpeia,
Manlio o templo defende e o Capitolio;
Colmo romuleo o paço novo encrespa.
Argenteo ganso ao portico dourado
A esvoaçar dos Gallos dá rebate,
       650Que entre o mato, a favor da opaca noite,
Vinham-se approximando á fortaleza.
Aureo o crino, aurea a veste, e o saio em listras,
Luzem de aurea cadêa aos lacteos collos;
Cada qual dous rojões alpinos brande,
       655Com oblongos escudos se resguardam.
Abriu Salios dansando e nus Lupercos,
Topes lanosos, e do céo cahidas
Ancilias: castas mães em molles andas
Guiam pela cidade as sacras pompas.
       660Longe, o Tartaro abriu, plutonias fauces,

E os castigos da culpa; e a ti suspenso,
Ó Catilina, de um minaz rochedo,
Ante as Furias tremendo; e á parte os justos,
A quem rígidas leis Catão dictava.
       665Tambem de ouro, a espumar com branca vaga,
Representa o ceruleo inchado plaino;
Delphins de argenteo brilho, ás voltas, o esto
Rasgam, de cauda o pélago açoutando.
No meio, eneas armadas, accias guerras,
       670Todo a ferver Leucate em marte instructo,
Com o ouro viras fulgurar as ondas.
Cá, n’alta pôpa, Augusto arrasta aos prelios
Senado e povo, os deuses e os penates;
De ambas as fontes ledo exhala flammas;
       675Na cabeça lhe fulge a estrella patria.
Agrippa lá, propicios vento e numes,
Arduo commanda; e a frota victoriosa
Rostrada se orna da naval coroa.
Antonio alêm, ovante com o auxílio
       680Barbaro e vário, as fôrças traz do extremo
Bactro e eôos confins e roxas praias;
Com todo o Egypto, oh pejo! segue a espôsa.
Á uma ruem, se empégam; freme e alveja
O mar dos remos e esporões tridentes.
       685Crês despregadas Cycladas nadarem,
Montes baterem montes: com tal mole
Instam varões das torreadas pôpas!
Fachos estupeos voam, farpas zunem,
Rubra do fresco estrago a azul campina.
       690Sem vêr pós si dous áspides, com patrio
Sistro anima Cleópatra os soldados.
Contra Pallas, Neptuno e Venus, se arma
Com omnígenos deuses monstruosos
O ladrador Anubis: no conflicto
       695Marte, em ferro entalhado, se embravece;

Do ether as negras Diras, e ufanosa
Marcha a Discordia, espedaçado o manto;
Com sanguento flagello atrás Bellona.
O accio Apollo attentando o arco atesa
       700De cima: de terror o Arabe, o Egypcio,
O Indo, o Sabeu, voltaram todos costas.
Mesmo a raínha parecia os ventos
Invocar, soltar cabos, dar as vélas.
Já da futura morte em pallor tinta,
       705Da clade o rei do fogo fez que a tirem
O Iapyx e a corrente: mas defronte
Mesto abre o seio, e a veste arregaçando,
Ao verde gremio e latebrosas fontes
Chama os vencidos o gigante Nilo.
       710Com tríplice triumpho entrado em Roma,
De Italia aos deuses cumpre os votos Cesar,
Trezentos sagra amplissimos delubros.
Festa, applauso, alegria as ruas soam:
Em cada templo um côro ha de matronas,
       715Aras em todos ha, perante as aras
Touros immolam, de que a terra juncam.
Sentado ao niveo limiar de Phebo,
Reconhece elle as dadivas dos povos,
E dos portaes suberbos as pendura.
       720As vencidas nações longo desfilam,
Tam diversas em lingua, em trajo, em armas.
Nomades e Afros descingidos, Cares,
Lelagas, sagittíferos Celonos
Mulciber esculpira; e já mais brando
       725O Euphrates, e os Morinos derradeiros,
E os indomitos Dahas, e o bicorne
Rheno, e da ponte o Araxes indignado.
O heroe admira o dom, primor vulcanio;
Da imagem do porvir gozando ignaro,
       730Dos seus glória e destino ao hombro leva.




NotasEditar

  1. No original, há aspas injustificadas nesse lugar.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Notas ao Livro VIII


NOTAS AO LIVRO VIII.

1-6. — 1-5. — A tropa romana, quando cada soldado jurava não largar as armas antes do fim da guerra, chamava-se militia legítima ou sacramentum. Quando, em grande perigo e tumulto, o general subia ao Capitolio, e levantando dous estandartes convocava os que o quizessem acompanhar, essa tropa, que jurava em massa e por acclamação, chamava-se conjuratio: o estandarte vermelho era para a infantaria; o azul, para a cavallaria. Quando se mandavam fazer levas á fôrça, a tropa se dizia evocatio: alguns affirmam que a evocatio era quando o povo em armas se ajuntava tumultuariamente; mas a primeira opinião, que he a de Servio, parece a mais seguida. Virgilio aqui, segundo a sua maneira, allude ao costume romano e o deriva de uma alta antiguidade. O estandarte que em latim se nomeava vexillum, quadrado e suspenso de uma haste, em portuguez commummente se diz pendão. 31-65. — 29-53. — Enéas fatigado se deita á borda do Tibre, e em sonhos lhe apparece o deus; aconselha-o que vá a Pallantéa pedir soccorro a Evandro, que andava em guerra com os Latinos: desta bella creação aproveita-se o poeta para fallar ainda dos primordios de Roma. Camões imitou-o no canto IV dos Lusiadas; e a imitação he superior ao original: não só o estilo do Portuguez he alli de uma perfeição que nem a Virgilio cede, mas a causa da apresentação do Indo e do Ganges a D. Manuel he muito e muito maior: o Tiberino avisa a Enéas que ajunte o seu campo com o de Evandro e peça-lhe auxílio; o Ganges, o mais grave na pessoa, brada ao monarca portuguez que mande receber os tributos que os povos das suas ribeiras e das do Indo haviam de lhe pagar, postoque depois de uma guerra sanguinolenta: a causa, repitirei, da apparição dos dous rios da Asia he mais importante; e, assim como não poucas vezes Virgilio imitando excede a Homero, desta feita o seu imitador o sobreleva evidentemente. A visão que o rei teve das varias nações que lhe deviam obedecer; o andar majestoso dos dous velhos, baços e denegridos, como os que habitam as margens regadas por suas aguas; a cansada presença do Ganges, que vinha de mais longe; os ramos e hervas desconhecidas que ambos nas mãos traziam, tudo he da mais sublime poesia; tudo encerra finos e tantos pensamentos, que excedem as palavras. Em nenhuma outra parte das suas obras Camões foi mais digno de ser comparado ao poeta latino pela precisão e belleza das imagens. — Quanto ao celsis caput urbibus exit, escreve Mr. Bonstetten: «Plinio assevera que no seu tempo o Tibre era ornado de mais palacios do que havia no
resto do mundo. Perto de Ancio, no fundo, ao longo da praia, avistam-se palacios tam bem conservados nos alisserces, que parece terem-se desenhado nas aguas plantas de architectura, e em terra se deixam vêr outras immensas ruínas.»

68-77. — 65-75. — O costume dos antigos de se voltarem ao oriente, quando oravam, foi adoptado pelos christãos. A agua benta vem da agua lustral dos pagãos. Dá-se aos rios o epitheto cornígero, porque eram honrados sob a figura de um touro, ou por causa dos mugidos das suas ondas, ou por terem muitos braços: eram tambem representados sob a figura humana, mas de cornos na testa.

97-114. — 94-111. — Ao se approximarem as embarcações ao pobre e pequeno burgo de Pallantéa, assento futuro de Roma, Pallante se ergue da mesa, onde se achava com seu pae Evandro e com os principaes da terra, em um festim solemne em honra de Hercules; péga da lança, e de um outeiro exclama aos Troianos: «Juvenes, quae causa subegit Ignotas tentare vias? quo tenditis?..., etc.» Delille com razão admira as poucas palavras empregadas para informar-se de tanta cousa. Esta concisão lembra-me a estancia L do canto VI dos Lusiadas, onde o autor em dous versos diz que aos doze de Inglaterra as damas escreveram, cada uma ao seu; todas a D. João I, e o duque de Alencastro, a cada um dos cavalleiros e ao rei.

127.-133. — 123-128. — Mr. Tissot, a quem segue Mr. Villenave, pondera: «Aqui não ha esfôrço de virtude, nem occasião de blasonar da coragem de vir expôr a cabeça a um perigo imaginario. Apenas poderia assim fallar Enéas a um tyranno cruel e feroz como era Mezencio.» Ora, postoque Evandro fôsse bom de coração, o têr sido um dos chefes dos Gregos, ser parente dos Atridas, inimigo dos Troianos outrora, eram circumstancias que deviam ser attendiveis a um principe que, por qualquer imprudencia, podia comprometter a grande causa: todavia as outras considerações, que elle expende a baixo, venceram esse tal qual receio. E he por um artificio oratorio que Enéas faz valer a franqueza com que se expõe a pedir auxílio a um antagonista de Troia; pois deste modo se insinuava no espirito de Evandro, mostrando-lhe a seguridade que lhe inspiravam as pessoaes virtudes do grego monarca. De mais, Mr. Tissot interpretou mal o mea virtus do verso 131: aqui não significa esfôrço de virtude e coragem da parte de Enéas; significa sim, como reflecte o padre La Rue, a consciencia de nada ter feito para incorrer no odio de Evandro, a confiança na propria lealdade. Neste sentido verti este lugar; e o mesmo fizeram o Snr. João Gualberto e Barreto Fêo.

162-163. — 157. — «Mr. Tissot, diz Mr. Villenave, com razão se maravilha de que Evandro nada ache louvavel em seu amigo velho senão a estatura: Cunctis altior ibat.» Os dous criticos se mostraram bem pouco sabedores da[1] opinião dos antigos neste ponto: elles criam que a altura era propria dos heroes, e que só por excepção podia ser valente um homem de pequeno talhe. Chateaubriand, que gyrava em outra esphera de erudição, no livro II dos Martyres, na bôca de Demodoco põe o que dou aqui traduzido por Francisco Manuel: «Bem que aos paes nunca em talhe igualem filhos, E ao pae ceda em vigor e em talhe Eudoro, Pelo talhe de heroe o eu conhecera.» Evandro pois da superioridade da estatura de Anchises infiria que elle se avantajava em fôrças e denodo. O mais forte e corajoso dos Gregos, segundo Homero, era tambem o mais alto e esbelto.

190-267. — 185-261. — O poeta não tirou o episodio de Caco da sua imaginação; o facto era contado pelos historiadores: Dionysio de Halicarnasso e Tito Livio o referem. He sabido que este pedaço he uma obra prima, pela harmonia, pelas imagens, pela belleza das expressões e pelo todo da narração. Delille traz excellentes reflexões ácêrca deste episodio, e a Delille me reporto. Observe-se a arte com que se introduz esta fábula: como Enéas encontra a Evandro no acto de celebrar um sacrificio a Hercules, sacrificio a que se associou por convite do mesmo Evandro, era bem factivel que este lhe explicasse a causa; e assim o episodio nasce da acção com naturalidade. Tem-se opinado que a pompa do estilo e a rapidez parecem não conformar com a velhice do rei, cuja imaginação devera ser mais lenta; porêm a excitação em que elle se achava, a religiosidade propria do seu caracter e mesmo dos seus annos, justificam plenamente o tom solemne da narração de uma façanha de que fôra testemunha: os velhos tomam fogo ao se transportarem ás cousas do seu tempo. — A opinião dos antigos, fundada em inscripções, bem como a da maior parte dos modernos, he que a caverna de Caco era vulcanica, junto ao monte Aventino; mas Mr. Bonstetten differe: «Não ha ahi caverna de Caco; a de Virgilio existiu certamente nos arredores de Roma. Uma conheço eu não longe do Aventino, da outra banda do Tibre, no Monte-Verde, pouco mais ou menos como elle descreveu a de Caco. O governo a fechou para que não servisse de couto aos Cacos modernos, isto he aos ladrões. He voz que a fábula de Caco tinha por fundamento historico a lembrança de um volcão; não ha probabilidade alguma de que o houvesse no Aventino, cujo local a isso repugna absolutamente.»

271-272. — 265-266. — Heyne e outros pensam que ha aqui interpolação. Refere porêm Servio que o altar de Hercules, chamado
Ara Maxima, existia em seu tempo no forum Boarium, e era de prodigiosa grandeza. Ora sendo assim, conforme tambem se colhe de Propercio e de Ovidio, não vejo o porque Heyne acha o lugar indigno do poeta; o qual tinha em vista, como por vezes havemos notado, celebrar as antiguidades romanas, mórmente as do sítio em que he fundada a cidade eterna. Repare-se que, ao diante, elle não se descuida do seu proposito, fallando da porta Camental, do Lupercal no Palatino, do bosque Argileto, do Capitolio, do Tarpeio, e fazendo o contraste de começos tam humildes com a magnificencia da côrte de Augusto.

363-453. — 364-448. — Este episodio entre Vulcano e Venus, tudo que se passa na officina dos Cyclopes, he da mais alta poesia. Ao depois, no fim do livro, se faz a descripção das armas pelo deus encommendadas, e do broquel em que elle proprio trabalhou. Sendo uma imitação de Homero, concordam todos que he muito superior ao lugar da Iliada; pois o que vem gravado no broquel de Achilles, podia pertencer a qualquer outro guerreiro; e o que vem no de Enéas, lhe he proprio e particular, por ser um vaticinio do que tinha de acontecer aos seus descendentes.

558-593. — 549-584. — A falla de Evandro he uma das mais ternas do poema, e realça o caracter do rei. — He admiravel o perfeito quadro que representam os dous versos 592-593, vertidos nos meus 587-588. — Veja-se Delille, tanto ácêrca da falla, como dos versos.

594-596. — 585-587. — He bem conhecida esta passagem por causa do último verso, cuja onomatopeia imita o galope dos cavallos. Tratei de exprimil-a, e para isso preferi o termo antigo ungula ao moderno unha ou casco, que não tinham um som conveniente.

670. — 662. — Na descripção do escudo vem a figura de Catão de Utica a dictar o direito. Este só rasgo mostra o rigorismo dos que chamam o poeta adulador de Augusto. O pobre filho do camponez que, sendo despojado da sua herdade, a recuperou por graça do senhor do mundo, necessariamente lh'o havia de agradecer, e o meio era louval-o em seus versos; nem elle se tinha jamais apresentado como homem político, para ser esse louvor uma contradicção com a sua vida passada. Reflicta-se que Virgílio só gaba o bom que Augusto praticava para apagar o pessimo que fez quando Octavio; e, escrevendo a respeito das guerras civis, fulmina a todas, sem destinguir entre o seu protector e os contrarios. Louvou porêm ao mesmo tempo os inimigos de Augusto em quem achava merecimento e virtude, como nesta passagem a Catão, como a Gallo
na egloga X. Não se podia exigir nem esperar mais do pacífico burguez de Mantua. — Horacio, que tem sido accusado da mesma tacha, encontrou defensor habilissimo em Mr. Patin; o qual, com o lyrico latino em mão, demonstra que este sujeitou-se ao vencedor quatro annos depois, quando os maiores republicanos tinham cedido á necessidade, como aconteceu a Pollion, ao filho de Cicero, a Messala, tam brilhante na batalha de Philippos; e que o illustre filho do liberto, apezar dos afagos do seu poderoso amigo, nunca renegou o seu caro Bruto, e ousava jactar-se de têr merecido a confiança daquelle grande cidadão. Quantos autores ha, mesmo entre os vivos, que, depois de haverem troado contra as lisonjas de Horacio e Virgilio, vam accender podre incenso a rêis e magnatas, que sem possuirem as nobres qualidades de Augusto, só tem seus vicios e hypocrisia! — De mais, havia entre os dous grandes poetas e o imperador um ponto de contacto que os tornava amigos: apaixonados eram os tres da poesia e das bellas artes. Os poetas folgavam de louvar um principe esclarecido que as protegia, que tinha o mesmo gôsto que elles: nada ha mais natural. E note-se que Augusto com tanta igualdade os tratava, que os visitava em suas casas, e até compoz versos em honra de Virgilio. Luiz XIV, que fazia sentir que era monarca a Racine e aos outros seus protegidos, foi todavia lisongeado por todos; e não he tanto moda chamar a Racine adulador, como ao epico e ao lyrico romanos. Supponde que Augusto os houvesse olhado com desdem: em vez de estalar como o tragico francez, provavelmente Virgilio teria deixado a côrte sem nimio desprazer, indo para a sua Mantua ou para a sua aldêa de Andes; e o philosopho Horacio, em alguma satyra ou carta familiar, com finissimas allusões, teria rido da pequenez e do orgulho dos homens.

731. — 728. — O verso do remate, que Addison cria um dos mais bellos da Eneida, foi condemnado por Servio. Em materias de erudição he recommendavel o commentador, não em materias de gôsto. «Nesta descripção, diz Delille, o leitor havia perdido de vista a Enéas para só pensar em Augusto; mas Virgilio chama a attenção sôbre elle do modo mais destro e ingenhoso. N'um verso teve a arte de louvar os Romanos, lisongear a Augusto e celebrar o heroe. O presente, o passado, e o futuro, tudo alli se contêm, e o assumpto da Eneida se acha inteiro nesta imagem pictoresca.»




NotasEditar

  1. No original, está do.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Livro IX


LIVRO IX.

Entretanto que ao longe isto succede,

A Saturnia do Olympo Iris despacha
A Turno audaz; que em valle e sacro bosque
Do avô Pilumno acaso descansava.
       5«Turno, a Thaumancia diz com rosea bôca,
O andar do tempo o ensejo te offerece
Que um deus a prometter não se atrevera:
Deixada a frota e a praça, foi-se Enéas
A’ palatina côrte; e em Córyto inda,
       10Seus confins penetrando, agrestes Lydios
Recruta e apresta. Hesitas? sem demora
Tu carros e frisões demanda, assalta
O confuso arraial.» Nas azas presto
Librada, monta ás nuvens, onde o ingente
       15Arco descreve. Ao conhecel-a o joven,
As palmas exalçando, com taes vozes
A fuginte acompanha: «Iris, das auras
Quem, eterno ornamento, a mim te envia?
Donde esta repentina claridade?
       20Rasgado o céo, deviso errantes astros:
Quem sejas, por teu mando ao prelio corro.»
Nisto, á margem caminha; e, haurindo a lympha
A’ tona da corrente, aos deuses roga,
De muitos votos carregando os ares.
       25 De auri-bordada veste e corséis rico,
Já na planicie o exército marchava.
Messapo á frente, a retaguarda cobrem
Os Tyrrhidas; no centro, as armas Turno
Sustenta em chefe, e a todos sobreleva:

       30Tal surge o Ganges, que silente em rios

Sete engrossa; ou, dos agros refluindo,
No alveo recolhe o Nilo a enchente pingue.
Crescendo escuro na campina, os Teucros
Um turbilhão de pó subito avistam.
       35De adverso bastião Caíco brada:
«Qual em globo voltêa atra caligem?
Arma, arma, socios, o inimigo avança,
Os muros soccorrei.» Trancam-se as portas,
Aturde a grita, apinham-se ás trincheiras.
       40Ao partir, ordem foi do sabio Enéas
Que, em successo furtuito, não se atrevam
No raso, mas de dentro se defendam:
Bem que á pugna os instigue ira e vergonha,
Encerram-se, e o preceito executando,
       45No vallo e torreões o ataque attendem.
Turno, com vinte insignes cavalleiros,
Transpõe tardia tropa, aos muros voa;
Pluma o adorna vermelha em casco de ouro,
Fouveiro thracio alípede cavalga.
       50«Quem enceta e a meu lado investe, ó bravos?
Quem?...» E um dardo arremessa em desafio,
Á praça arduo se arroja. Os seus o applaudem,
Atrás delle com fremito bramando
Horrísono: da inercia phrygia pasmam,
       55De que homens taes combate em plaino evitem
Á sombra do arraial. Furioso trota,
Invios sitios perlustra e ingresso tenta.
Se alta noite, insidiando o curral cheio,
Uiva na sebe o lobo ao vento e á chuva,
       60Berram cordeiros ao materno bafo;
Com gana á prêa ausente, elle braveja;
Sêccas de sangue as fauces, longa o anceia
A raiva de comer cortida e junta:
Não com menos violencia, ante os reparos
       65Arde ao Rutulo a dôr nos ossos duros;

Por onde e como desaloje os Teucros,
E no campo os derrame, idéa e pensa.
A frota, que ás trincheiras abrigada
Ondas fluviaes e marachões tornêam,
       70Invade-a: péga de um flagrante pinho,
Provoca férvido os contentes moços;
Que, do exemplo incitados, arrebatam
Fachos, tições: enrolam-se nos ares
Cinza e fagulhas, fumo e piceo lume.
       75Que deus, Musas, livrou do incendio os vasos?
Quem extinguiu, dizei-me, o fogo horrivel?
He prisco o facto, mas perenne a fama.
No Ida as naus quando Enéas construía
Para entregar-se ao pélago, assim contam
       80Que a Jove orara a Berecynthia madre:
«O que, domado o céo, pedir-te venho,
Dá, filho, á tua genitriz querida.
Ha muito amo um pinhal, a mim dicado
Nesse gargaro cimo, umbroso e opaco
       85De alvares troncos, de alentados bôrdos:
Leda o cedi para a dardania frota;
Hoje um temor solícita me rala:
Solve-o; possam comtigo as preces minhas,
As naus viagem nem tufão destroce:
       90Valha o têrem nascido em nossos montes.»
O que as estrellas gyra: «[1]Ó mãe, responde,
Que fado exiges tu para estas quilhas?
Conseguir obra humana immortal vida!
Certo emprehender o Teucro incertos riscos!
       95Tal potencia a que deus foi permittida?
Antes, o pôrto ausonio as que aferrarem,
Salvo a Laurento Enéas transportando,
A mortal fórma desfarei; que sejam
Maritimas deidades algum dia,
       100E o ponto espumeo com seu peito rasguem,

Como a Nereia Doto ou Galatéa.»
Isto ao jurar, do irmão pela agua estygia
E torrentes de pez e atra voragem,
Annue; e ao senho treme o Olympo todo.
       105Raia o dia aprazado pelas Parcas;
De Turno a injúria dos baixéis as tedas
Faz que Cybele aparte. Aos olhos brilha
Nova luz, e da aurora em vasta nuvem
Os córos do Ida pelo céo transcorrem;
       110Aos Rutulos e Troas voz terrivel,
Talhando os ares, tomba: «Apressurados,
Phrygios, não vos armeis por esses lenhos;
Os mares quimará mais facil Turno
Que os meus sacros pinheiros. Ide sôltas,
       115Ide, Ops vos ordena, equoreas deusas.»
Subito as pôpas, cada qual das ribas
Cabos rompendo, os beques mergulhados,
Se afundam quaes delphins. Do pégo, oh pasmo!
Quantas retinha a praia bronzeas proas
       120Surdem, mudadas em virgineos rostos,
E vam-se ao largo. Os Rutulos se espantam,
Messapo enfia, turbam-se os cavallos;
Rouco o Tibre, assustado, o passo encolhe.
Só Turno, firme e afouto, anima, exprobra:
       125«Sam contra Enéas, grita, esses portentos;
Roubou-lhe Jove o sólito recurso:
Já nem tiros, nem fogo as naus aguardam.
Fechado o mar, vedou-se a fuga aos Teucros,
Falta-lhes o mais orbe; e a terra he nossa,
       130Mil ítalas nações por nós conspiram.
Nada os fataes oraculos me assombram,
Se de alguns o inimigo ora se jacta.
Basta a Venus que os seus na pingue Ausonia
Toquem: tenho outro fado, he retalhal-os...
       135Nefandos! que usurpar-me a espôsa querem.

Nem só pene aos Atridas uma affronta,
Nem se arme só Mycenas. Sufficiente
He cahir uma vez: têr já peccado
Sobrara a escarmentar os que inda o sexo
       140Não entejam femineo. Esses que estribam
Em vallo e fôsso, á morte curto empêço,
Em cinza resolvidas as muralhas
De Ilio não viram, por Neptuno obradas?
Quem, varões, a tranqueira a ferro escala,
       145E o trépido arraial comigo expugna?
Não vulcania armadura, não mil quilhas
Hei mister. Confederem toda a Etruria;
Não temam do palladio inertes furtos,
Nocturnos atalaias degolados,
       150Ou que no equino ventre nos mettamos:
Sitiando ás claras, queimarei seus muros.
Nem o ham com Danaos certo e Acheus bisonhos,
Que Heitor foi por dez annos entretendo.
Gasto o melhor do dia, o resto, amigos,
       155Refocillai-vos do comêço alegres,
E a combater a tento apercebei-vos.»
Mantêr emtanto a cargo tem Messapo
Vélas ás portas e ao redor fogueiras.
Cabos quatorze aos muros põe de guarda,
       160Com cem soldados cada qual, flammantes
De ouro e purpureos de lustrosas plumas.
Patrulham, rendem-se, e na relva bebem
De eneos pichéis vasando. Os fogos luzem,
E a folgar se despende a noite insomne.
       165Do vallo os Troas vigiando, em armas
Tem-se aos merlões; a medo as portas rondam,
Pontes communicando e baluartes.
A Seresto e Mnestheu, que ardidos instam,
Foi que Enéas fiou, se urgisse o caso,
       170Têr côbro em tudo e moderar os moços.

Cada esquadrão por sorte expõe-se aos muros,
E se reveza em postos arriscados.
Era de um sentinella o Hyrtacio Niso,
Valente, agil, perito em dardo e setta,
       175Que Ida fragueira a Enéas deu por socio.
Com elle estava Euryalo: um mais lindo
Não houve que vestisse arnez troiano;
Sombreava-lhe o buço intonsas faces.
Ternura os une; á lide a par correndo,
       180Então a mesma porta ambos velavam.
«Euryalo, diz Niso, um deus m’o inspira,
Ou quemquer chama deus o ardor que o punge?
A emprehender um combate, um feito insigne,
Me excita a mente; inquieta-me o repouso.
       185Nota a fiducia: os lumes quasi mortos,
Com somno e vinho os Rutulos prostrados,
Reina á larga o silencio. Ouve o que n’alma
Fermento e cuido: anhelam por Enéas
Senado e povo, e quem lhes traga novas
       190Cogitam; se o meu premio te asseguram
(Fique-me a fama), ao pé daquelle outeiro
Achar posso o caminho a Palantéa.»
Da glória estimulado, absorto o joven
Impugna o acre amigo: «E tu me enjeitas!
       195Abandonar-te eu, Niso, em dubio lance!
Nem tal meu pae, o marcial Opheltes,
Criou-me em terror graio e troicas lidas,
Nem tal me houve comtigo, dêsque abraço
Do eximio cabo a sorte. A luz desprézo,
       200E da que esperas honra em trôco a vendo.»
Niso então: «Assim Jove, ou deus propício,
A ti me torne ovante, que o teu brio
Não me he suspeito, nem podia sel-o.
Mas, se algum (riscos tantos considera),
       205Se algum nume ou revez me descaminha,

Deves sobreviver-me; es tam menino!
Haja, para enterrar-me, quem da pugna
Me subtraia ou resgate; e, se a desdita
M’o tolhe, quem suffrague o ausente corpo
       210E me adorne um sepulcro. Nem dôr tanta
Eu cause a tua mãe, que só das muitas
Seguir-te ousou, de Acesta não curando.»
E elle: «Futeis razões por demais teces;
Não mudo parecer: eia, partamos.»
       215Desperta os guardas, que no posto os rendem,
E com seu Niso ao principe caminha.
O Somno pelo globo derramava
O esquecimento e allívio dos trabalhos:
Sós em conselho os generaes dardanios,
       220Arrimados ao pique e á sestra o escudo,
Em pleno campo a discutir, pesquizam
Quem a Enéas ou como expediriam.
Niso e Euryalo á pressa, alvoroçados,
Audiencia pedem; que o negocio he grave,
       225Nem soffre dilação. Iulo acolhe-os,
E com licença o Hyrtácides começa:
«Attendei-nos, Enéadas benignos;
Por nossa idade não julgueis do intento.
Modorra e vinho os Rutulos sepulta;
       230Sítio asado observámos, onde a estrada
Junto á porta do mar se abre em dous ramos;
Raros os fogos, negro fumo deitam:
Se permittis que o lance aproveitemos,
Enéas cedo cá tereis de vólta,
       235Feita grande matança e rica presa.
Não ha temor de errar: de escuros valles
Em contínuas caçadas Pallantéa
Descobrimos, e o rio conhecemos.»
Aqui logo o maduro e annoso Alethes:
       240«Patrios deuses, de Troia arrimo eterno,

Não quereis extirpar-nos, pois creastes
Em peitos juvenis valor tamanho.
Qual... (nisto, ambos abraça, as dextras cerra,
E lhes inunda em lagrimas os[2] rostos)
       245Qual, varões, vos será condigno premio
Á tanta audacia? O mais gentil vos paguem
Vossa virtude e o céo; depois, Enéas;
E na idade completa nunca Iulo
Deslembre este serviço.» - «Antes eu, Niso,
       250Que em meu pae só me salvo, ajunta Iulo,
Obtesto o lar de Assáraco e os penates,
E o juro aos penetraes da branca Vesta,
Minha fé, minha dita, em vós deponho:
Meu pae restituí-me; ao seu conspecto
       255Nada infausto haverá. Dous bellos copos
De prata e com relevos, que de Arisba
Captiva elle tomou, dous grandes aureos
Talentos ganharás, mais duas trípodes,
E a que Elisa me deu cratera antiga.
       260E se, a Italia domada, o sceptro alcanço
E os despojos partir; viste o cavallo,
Viste o arnez em que Turno campeava?
O broquel nítido, o cocar vermelho?
Serão teus, Niso, do sorteio exemptos.
       265Doze meu pae te brindará formosas
Mães e crias, escravos doze armados,
E as mesmas lavras que possue Latino.
A ti porêm, que em annos me semelhas,
N’alma te abraço e adopto por consócio,
       270Venerando menino: em qualquer ponto
Sem ti não terei glória; em paz e em guerra
Ser-me-ás fiel agente e conselheiro.»
Euryalo acudiu: «Nunca estes ausos,
Rode a fortuna próspera ou contrária,
       275Desmentirei; mas dom maior te imploro:

Minha mãe, do priâmeo prisco sangue,
De Ilio comigo se partou mesquinha,
Por mim de Acestes enjeitou o asylo;
Não saudada, ignorando esta aventura,
       280Vou deixal-a; eu não posso com seu pranto,
Por tua dextra e pela noite o affirmo:
Rógo-te que a soccorras e a consoles
Na penuria e viuvez; se esta esperança
Tenho de ti, com mais denodo parto.»
       285Abalados os Teucros lagrimavam,
Mórmente Ascanio; a imagem da paterna
Piedade o commovia, e assim perora:
«Tudo prometto, que mereces tudo.
Mãe ser-me-á, de Creusa excepto o nome:
       290A quem tal parto produziu compete,
Seja o evento qual fôr, mercê não leve.
Por vida minha, pela qual jurava
Meu pae, a tua mãe e aos teus respondo
Por quanto aqui reservo e te asseguro
       295Para o feliz regresso.» Então, choroso,
Do hombro a lamina despe, obra mui prima
Do Gnosio Lycaon, de punhos de ouro,
Embainhada em marfim. Mnestheu, leonino
Hirto espólio velloso a Niso doa;
       300Troca o morrião com este o fido Alethes.
Marcham prestes; e ás portas, entre votos,
De jovens e anciãos o que ha de illustre
Os conduz: manda ao padre o nobre Ascanio,
Já com viril prudencia, avisos cautos;
       305Que o vento espalha e em auras se esvaecem.
Transpondo os fossos, pela treva em busca
Do inimigo arraial, vam ser primeiro
De exicio a muitos. Vêm na grama esparsos
Ebri-dormentes corpos; empinados
       310Na praia os carros; vinhos e homens e armas,

Entre as rodas e os loros, de mistura.
«Amigo, adverte Niso, ânimo! he tempo.
O caminho eis-aqui: tu longe attenta,
Não nos dem por trás, vigia em tôrno,
       315Que eu te abro devastando e alargo a trilha.»
Preme a voz, e de espada aggrede o altivo
Ramnetes, que em felpudas alcatifas,
Sôlto a roncar, evaporava o somno:
Rei e augur dilectissimo ao rei Turno,
       320Da mortal peste o agouro não o esquiva.
Tres dos seus, que entre as armas jazem nescios,
Fere, e o pagem de Rhemo e o seu cocheiro
Sob os corséis deitado: ao talho os collos
Pendem. Corta a cabeça ao proprio Rhemo,
       325E em sangue fica a soluçar o tronco,
Do cruor quente a cama e o chão molhado.
Mata a Lamo e Lamyro, e o floreo e bello
Serrano; que, passada a noite ao jogo,
Ao deus se rende os membros estirando:
       330Oh! feliz, a jogar se amanhecera!
Tal, da fome esganado, o leão de salto
No redil mansa grei, de susto muda,
Roja, a bôca ensanguenta e voraz brama.
Não menor clade Euryalo abrazado
       335No ignobil vulgo exerce, e inadvertidos
Saltêa Abaris, Fado, Hebeso e Rheto;
Rheto que alerta espia, e atrás se agacha
De ampla cratera pávido; no erguer-se
Toda a espada enterrou-se-lhe, e dos peitos
       340Se lhe extrahe mais a vida; em ancias a alma,
Sangue e vinho a golfar, purpúrea exhala.
Férvido o Teucro no furtivo estrago,
Já vai-se aos do Messapo, onde a fogueira
Via apagar-se, e em pêas os cavallos
       345Pascer em ordem; quando Niso em breve

(Sentiu nimia a do ferro crua sêde):
«Basta, lhe diz; radeia o infenso dia.
Foi sobejo o castigo; a estrada he feita.»
Armas de argenteo engaste e argenteas copas
       350E tapetes lindissimos perpassam.
Euryalo o jaez toma a Ramnetes
E o cinto auri-tauxiado; que opulento,
Por contrahir n’ausencia o jus de hospicio,
Mandou Cédico a Rémulo Tiburcio;
       355Este ao neto os legando, e o neto em guerra
Morto, o Rutulo os houve. Em balde o joven
Ao forte hombro os ageita, e de Messapo
O casco enlaça de gentil cimeira.
Ao irem do arraial se pondo em salvo,
       360Trezentos cavalleiros adargados
Sob Volscente, no campo atrás deixando
Um corpo instructo, com respostas vinham
De Laurento ao rei Turno. E já propinquos
Ao muro, aos dous lubrigam pelo atalho
       365Dobrando á esquerda; sob a noite escassa,
O dilúculo no elmo reflectindo
Trahe o impróvido Euryalo. Volscente:
«Alto! varões, clamou; bem vemos, alto!
Donde, aonde, a que fim marchais em armas?»
       370Sem boquejar, nas trevas mal fiados,
Para a espessura fogem; mas, cercando-os
Aqui e alli por cognitas veredas,
Trancam-lhes todo o passo os cavalleiros.
Basto escuro azinhal houve enredado
       375Com silveiras e espinhos; lá guiavam
Trilhos occultos e azinhaga estreita:
Empece a Euryalo intrincada a sombra,
Grave a prêsa, e o temor de extraviar-se.
Niso escapole, e vai sem tento ao sítio
       380Que ao depois, de Alba, foi chamado Albano;

Lá seus gados Latino encurralava.
Pára, e em redor o amigo em vão procura:
«Euryalo infeliz! onde encontrar-te?
Onde te abandonei?» Remexe e cata
       385Fallaz perplexa mata, retrocede,
Vaguêa em mudas brenhas. Dos cavallos
Ouve o rincho e o tropel, ouve as trombetas,
Nem tarda a ouvir clamor e a vêr o socio;
Que em turbido tumulto ás mãos colhido,
       390Pelo transvio e pela noite oppresso,
Contra o esquadrão inteiro o esfôrço balda.
Como, com que arma ousar, com que denodo
Libertal-o? hostis golpes arrostando
Irá ganhar, perdendo-a, eterna vida?
       395Eil-o, o braço contrahe, sopesa uma hastea,
E olhando a celsa Lua assim lhe implora:
«Dos astros honra, tutelar dos bosques,
Neste apêrto, Latonia, tu me ajuda.
Por mim se Hyrtaco padre encheu-te as aras,
       400Se eu do fecho e artesões do sacro tecto
Da caça os dons te pendurei, concede
Turbar aquella mó, rege esta lança.»
Dice; o corpo esforçando, a farpa atira:
Zimbra alígero hastil nocturnas sombras,
       405No dorso de Sulmon se espeta e quebra,
No pericardio as lascas se lhe encarnam;
Elle frígido rola, arca em soluços,
Do fundo a borbotar cálido rio.
Olham de espanto em roda; Niso activo
       410Libra de sôbre a orelha outro arremêsso,
Que a Tago as fontes a silvar traspassa,
E adhere quente ao cerebro encravado.
Em braza e atroz, sem vêr o autor dos tiros,
Nem por onde acommetta, urra Volscente:
       415«Por ambos vai pagar teu morno sangue.»

Despida a espada, a Euryalo se envia;
Niso attonito grita, nem se encobre
Na treva mais, que a dôr o não consente:
«A mim o ferro, a mim que tenho a culpa,
       420Rutulos, convertei: nada ousou este,
Nem poude, aos céos o juro e aos conscios astros;
Sim quiz muito a um amigo desgraçado.»
A taes razões, o estoque iroso as costas
Vara e ao coitado o branco seio rasga;
       425Tomba Euryalo, em sangue os pulchros membros,
No hombro a cerviz debruça moribundo:
Ao talho assim do arado, fallecendo
Murcha a rosa; ou, das chuvas aggravada,
O collo inclina a languida papoila.
       430Niso arremette, ao só Volscente busca,
Só quer-se com Volscente; em massa o atacam:
Desinvolto rodêa, e pela bôca
No Rutulo bramante esconde o gume
Fulmíneo; a vida arranca-lhe morrendo.
       435Aberto em chagas, sôbre o amigo exanime
Se deita, e expira em placido socêgo.
Par ditoso! terás, se em verso eu valho,
Perpétua fama, emquanto o pae de Roma
O orbe domine, e a geração de Enéas
       440Do Capitolio habite a rocha immovel.
A prêsa, o espólio, o morto os vencedores
Levam chorando. He mór no campo o lucto,
N’um morticinio achados com Ramnetes
Numa exsangue, Serrano e tantos cabos:
       445Os semivivos corpos e os finados
Contempla a turba, e o chão que da carnagem
Fuma, e em regatos o espumante sangue.
Nos despojos conhecem de Messapo
O elmo, os jaezes com suor cobrados.
       450Já largando a tithonia crócea cama,

Radiava no mundo a prima Aurora:
Turno, diffusa em tudo a luz phebéa,
Arma-se e arma os varões, e as bronzeadas
Esquadras cada chefe estimulando,
       455Com rumor vário lhes aguça as iras;
E sôbre hastas erectas, insultando-os
Com algazarra, aspecto lastimoso!
Pregam de Niso e Euryalo as cabeças.
Á esquerda os Teucros firmes se postaram,
       460Que a dextra os cinge o rio; estam mantendo
Fossos e torreões, com mágoa as frontes,
Bem conhecidas, contemplando fixas
A estillar negra sanie. A Fama adeja
Pelos pavidos muros empennada,
       465E de Euryalo á mãe toa aos ouvidos:
Enfia e gela a triste; a lançadeira
Das mãos lhe cahe, e o fio que tramava:
Demente voa, carpe-se ululando;
Entre armas e esquadrões, sobe ás amêas,
       470Sem lhe importar perigo, e os ares parte
Com femíneo queixume: «Es tu, meu filho?
Baculo dos meus annos, tu pudeste,
Cruel, negar-me o arrimo? nem, a tantos
Riscos mandado, á genitriz mesquinha
       475Déste um adeus sequer? Ai! filho, jazes
Prêa de aves e cães em terra estranha!
Eu mãe, nem te cerrei funerea os olhos,
Nem as chagas lavei, te expondo involto
Na têa que lavrava dia e noite,
       480Consolando os pezares da velhice!
Onde os laceros orgãos, rotos membros,
Onde achar? Isto só de ti me resta,
Perigrinei para isto e affrontei mares?
Se ha piedade em vós, morra eu primeira,
       485Com vossos dardos, Rutulos, varai-me;

Ou, pae supremo, um raio teu me abysme,
Por compaixão, no Tartaro maldito,
Já que a dôr não me atalha a infausta vida.»
Tudo geme, e o lamento conturbados
       490Os corações consterna e os entorpece:
Poisque o lucto accendia, ao mando e aviso
De Ilioneu e de Ascanio lagrimoso,
Ideu e Actor em braços a recolhem.
Medonho ereo clangor reboa ao longe,
       495A grita se une á tuba, e o céo remuge.
Conchada a manta, os Volscos se aforçuram
A entulhar fossos, a arrombar tranqueiras;
Taes insistem na brecha ou na escalada,
Por onde a guarnição ralêa e em pinha
       500Menos densa entreluz. Com duros fustes,
Com omnígeno tiro os defensores,
A longo assédio afeitos, os repellem;
Pesadas galgam pedras, porque rompam
A espessa manta, a cujo abrigo o choque
       505Os de fóra sustêm: mas já não podem;
Que, onde o grosso adensava-se, o inimigo
Volve impetuosa mole, que os esmaga
E a testudem separa: em cego marte
Não pugnam mais; intrepidos a dardos
       510Lançar porfiam da estacada os Phrygios.
D’alêm, torvo e feroz, Mezencio o etrusco
Pinho e brandões fumíferos sacode;
De frisões domador, neptunia prole,
Vallos destroe Messapo e escadas pede.
       515Agora tu, Caliope, me ensina;
Lembrai, narrai-me, ó deusas da memoria,
Que ruína e pranto fez de Turno o ferro,
Por quem foi cada qual mettido no Orco;
Desdobrai-me as da guerra ingentes orlas.
       520Tôrre altaneira havia e de arduas pontes

Em lugar proprio: os Italos as fôrças
Por derrocal-a envidam; propugnando-a,
Soltam calhaos os Troas, das setteiras
Despedem frechas mil. Turno o primeiro
       525Joga ardente lanterna, e affixa ao lado
Flamma, que atêa ao vento e em solhos prende,
Roe e agarra aos portaes. Confuso e trépido
O tropel dentro em vão se refugia:
Recuam e amontoam-se onde a peste
       530Não grassa; a tôrre, desabando ao pêso,
Rebenta, e do fragor todo o céo troa.
De seu ferro passados, semimortos,
O amplo destrôço os cobre, ou vem de peitos
Sôbre o rijo madeiro. Escapa Lyco,
       535E o florente Helenor, a quem Licymnia
Serva ao meonio rei gerou bastardo,
E o mandou, contra o jus, armado a Troia;
Leve, em branco a rodela, inglório esgrime.
De Turno acha-se o moço entre as fileiras,
       540Aqui e alli de batalhões cercado;
Perecedouro envia-se aos Latinos,
Onde as lanças mais chovem: qual, de bastos
Monteiros acuada, em sanha a fera,
Não ignara affrontando a morte certa,
       545De um só pulo aos venabulos se arroja.
E Lyco, mais ligeiro, entre hostes e armas
Deita a fugir; a amêa quer pendente
Apprehender, segurar-se ás mãos dos socios:
Turno á carreira dardejando o acossa,
       550Victorioso o invectiva: «O alcance nosso,
Louco! evadir contavas?» Pelas pernas
O aferra, e traz com gran’porção do muro:
No surto assim a armígera de Jove
Prêa nas unhas lebre ou alvo cysne;
       555Assim rouba do aprisco o marcio lobo

Anho á mãe, que o reclama em seu balido.
A vozeria ecchoa: invadem, fossos
Entupem de fachina; aos altos parte
Achas vibra. Do monte c’um fragmento,
       560Pedra enorme, Ilioneu prostra a Lucecio,
Que á porta achega fogo; a Emathio Ligro,
A Choryneu Asylas, bom na setta
Fallaz de longe aquelle, este no dardo.
Ceneu derriba a Ortygio, a Ceneu Turno;
       565Turno a Clonio, Itys, Sagaris, Dioxippo,
Prómulo, Idas, na estancia dos cubellos.
Capys mata a Priverno, a quem Temillas
D’hasta roçara: ao descobrir-se incauto
Apalpando a ferida, ao lado esquerdo
       570Rapida a letal setta a mão lhe prega,
Dentro os d’alma espiraculos rompendo.
Formoso, em pulchro arnez, de Arcente o filho
Broslada a farda em cêrco e de ferrenha
Tinta ibera, o expediu seu pae, que em bosque
       575Marcio o criara, onde ás symettias margens
Ara pingue e placavel tem Palíco:
Deposta a lança, vezes tres Mezencio
Voltêa a funda, zunidora a impelle;
E, com líquido chumbo a do contrário
       580Testa rachando, n’ampla arena o estende.
Consta que Iulo, usado á montaria,
A guerra então provou, com agil frecha
Rendendo o acre Numano, appellidado
Remulo, que á menor irmã de Turno
       585De fresco se enlaçara; e ante as phalanges,
Vociferando infamias com doestos,
Dessa alliança túmido e orgulhoso,
Anda, e arrogante em gritos bizarrêa:
«Não vos peja outro assédio e á morte, ó Phrygios
       590Bi-captivos, trincheira e vallo oppôrdes?

Eis os campeões que as bodas nos disputam!
Que deus, que insania vos lançou na Italia?
Atridas cá, nem fraudulento Ulysses;
Rija estirpe encontrais. No rio e ao forte
       595Gelo os recemnascidos roboramos:
Caçam ledos, a mata infantes batem,
Do arco assettêam corneo, amansam poldros:
Moços, trabalho aturam, comem pouco,
Domam de ancinho a terra, expugnam praças.
       600Gasta a idade em batalhas, de hasta inversa
Picamos nossos bois; nem torpe as fôrças
A velhice nos míngua e o vigor d’alma;
O elmo nos preme as cãs; recentes prêsas
Nos praz sempre acarrear, viver de roubos.
       605Trajais múrice ardente, em cróceas galas
Amolleceis; agradam-vos choréas,
Laços nas coifas, tunicas de mangas.
Phrygias, não Phrygios, pelo Dindymo ide;
Á tibia afeitas bísona, esses gladios
       610A homens largai: da Berecynthia o buxo
Ideu vos chama, e adufes e tymbales.»
Pragas, jactancias, não lh’as soffre Ascanio:
De frente ajusta a setta ao nervo equino;
Encurva as pontas, e detido a Jove
       615Implora humilde: «Omnipotente padre,
Annue á nova audacia; eu dons solemnes
Te offertarei no templo, e ante os altares
Branco novilho de dourada fronte,
Que á mãe se iguala e entona-se, remette
       620Já de corno e de pés a arêa esparge.»
Do céo sereno, á esquerda, o rei troveja:
O arco estala mortífero, e despede
Horrísono farpão, que as fontes cavas
De Remulo atravessa. «Vai, moteja
       625Do dardanio valor. Dos bi-captivos

Esta a resposta ás rutulas bazofias.»
Não mais Ascanio; o teucro applauso estronda,
Fremem de gôsto, exaltam-no ás estrellas.
De cima o deus crinito, em lata nuvem
       630Sentado, olhava o exército e a cidade,
E ao vencedor menino: «Em brios, dice,
Medra, Iulo; assim, garfo e tronco divo,
Se monta aos astros: no porvir, das guerras
O jus terá de Assáraco a prosapia;
       635Tu não cabes em Troia.» A taes palavras
Do ether se atira, e as virações talhando,
A Ascanio busca; transformou-se em Butes,
De Anchises pagem, seu leal e antigo
Porteiro mór, accrescentado em aio
       640Do filho por Enéas. Ia Apollo
Semelhando-o na voz, tez, cãs, e em armas
Sevi-sonoras; e ao fogoso alumno:
«Baste, Eneada; impune ao gran’ Numano
Frechaste; bello ensaio! a Phebo o deves,
       645Que não te inveja em feitos o emparelhes:
Mas poupa-te, menino.» Aqui, despindo
Mortal aspecto e no ar se esvaecendo,
Na fuga o deus aos proceres mostrou-se,
Que sentem chocalhar na aljava as settas.
       650Por mando pois de Phebo o ávido moço
Cohibem do conflicto, e a elle tornam,
Mettendo a vida em manifestos riscos.
Muros, baluartes o alarido afunde.
O arco atesam robusto, amentos libram,
       655Juncam dardos o solo; escudos e elmos
Rugem do attrito; endura-se a peleja:
Tal de occíduo aguaceiro o chão verberam
Os cabritos nimbosos; tal graniza
No mar, quando o Tonante horrendo esguelha
       660Austral procella e despedaça as nuvens.

Pandaro e Bicias, de Alcanor progenie,
Que, a abetos do seu monte iguaes, criou-os
No ideu bosque de Jove a agreste Hiera,
A porta abrem que Enéas commetteu-lhes,
       665E afoutos o inimigo desafiam.
Dentro, em face das tôrres, de aço e malha,
De altas plumas, á dextra e á sestra luzem:
Qual, nas margens do Pado ou nas que ameno
O Athesis rega, géminos carvalhos,
       670Intonsos desferindo aerios topes,
Verde a coma balançam. Livre a entrada,
Os Rutulos investem. Já Quercente,
Tmaro assomado, Equícolo galhardo
E o marcio Hemon as tropas retrahiam,
       675Ou junto ao limiar as vidas punham.
Ceva-se e cresce a raiva, e em globo os Teucros
De fóra ousam travar renhida pugna.
Turno, que alhures bravo estroe e arrasa,
Soube que, franco o accesso, os Teucros fervem
       680Do fresco estrago; e, indomito bramindo,
O ataque larga, e á porta rue Dardania
Contra os feros irmãos: topando abate
A Antiphates audaz, que uma Thebana
Ao gran’ Sarpédon engendrou furtiva:
       685O ítalo corneo dardo os ares frecha,
Rasga-lhe o estomago e o profundo peito;
Vérte a negra ferida espumeas ondas,
E no pulmão varado o ferro aquece.
A Méropo e Erymantho e Aphydno prostra;
       690Prostra a Bicias, fremente e de ígneos olhos,
Não com dardo, que o dardo inutil fôra,
Mas fulgurea falárica rechina,
Bote a que dous não bastam coiros taureos,
Fiel dupla loriga de ouro e escamas;
       695O chão da quéda geme, e o corpo enorme

Sôbre o immenso pavez se estira e toa:
Qual, em Baias euboica despenhado
Saxeo pilar, com mole ingente erguido,
Cahe no golpho arruínando e em vaos se acrava;
       700Turbido o mar, remexe arêa e lodo,
Treme a alta Prochyta, Inarime ecchoa,
Covil duro a Typheu por Jove imposto.
Fuga e atro medo aos Teucros infundido,
Marte aos Latinos o acre ardor aviva;
       705Que, dado o ensejo, intrepidos concorrem,
E o deus armipotente embebem n’alma.
Ao vêr o irmão por terra, o angusto caso
E má fortuna, Pandaro a couceira
Torce, á porta arrimando os hombros largos;
       710Mas, fóra em transe amaro os seus deixados,
Recolhe uma torrente de inimigos:
Nescio! em Turno impetuoso não repara,
Que entre a chusma na praça está mettido,
Como entre gado imbelle immano tigre.
       715De olhos corisca, horrendo as armas soam;
No cimo a tremular sanguineas cristas,
Ascuas fuzila o escudo. A catadura
Conhecem logo do membrudo chefe
Turvados Teucros, e o gigante pula,
       720Férvido e iroso da fraterna morte:
«Esta a régia dotal não he de Amata,
Nem de Ardea o patrio muro a Turno encerra;
Vês hostís arraiaes, sahir não podes.»
Turno surri tranquillo: «Anda, se es homem,
       725Vem combater; e a Priamo refiras
Que outro Achilles achaste.» Aqui sacode
Com summa fôrça Pândaro escabrosa
Lança de asperos nós; que, no ar frustrada,
Por Saturnia, retorce e o portal ferra.
       730«Pois da arma que manejo não te eximes;

He differente o golpe e a mão que o vibra.»
Eil-o, se alça nos pés, roda o montante;
E, as temporas partindo e impubes queixos,
A cutilada a fronte escacha em duas.
       735Do abalo a terra estronda: alli, morrendo,
Os frouxos membros roja e dos miolos
O arnez cruento; por igual fendida,
De um hombro e do outro pende-lhe a cabeça.
De assustados o dorso os Teucros viram;
       740E, romper a estacada se occorresse
Ao vencedor e introduzir os socios,
Nesse dia findara a guerra e Troia;
Mas crua ardente sêde o arrasta e cega.
A Sagaris jarreta e a Gyges logo,
       745Hastas que saca aos fugitivos darda,
E Juno a perseguil-os o acorçoa.
A Halys e pela adarga a Phegeu crava;
Tronca a Noemon, Prytanis, Halio, Alcandro,
Que inscios no muro o assalto rechassavam.
       750Estribado á trincheira, destro o gladio
Brande a Lynceu, que investe e auxílio clama;
A cabeça de um talho cerceada
Longe com o elmo jaz. Terror das feras
De um revez tomba Amyco, sem segundo
       755No hervar a frecha e empeçonhar o ferro;
Mais o Eolides Clycio, e Creteu vate,
Caro ás musas; Creteu, cujo gôsto era
Tender accorde os nervos do alaúde,
Armas cantar, varões, corséis, batalhas.
       760Á nova do destrôço, ardido acode
Com Seresto Mnestheu, que dentro encontram
O inimigo, e os consocios derrotados:
«Onde, brada Mnestheu, fugis, Troianos?
Que outros muros tereis, que outra guarida?
       765Um só homem, fechado em vossa estancia,

Faz impune tamanhos morticinios?
Tantos guerreiros precipita no Orco?
Sem pejo do rei nosso e nossos deuses,
Não vos instiga e move a patria mesta?»
       770Isto os alenta e inflamma, em mó corregam;
E Turno, em retirada, a parte busca
Pelas aguas cingida: a grandes brados
Com mais vigor o acossa o tropel todo.
Se a leão truculento de azagaias
       775Vexa a turba, aterrado e acerbo olhando
Recúa; nem dar costas lhe consente
Ira ou valor, nem ousa, embora o anhele,
Acommetter zargunchos e monteiros:
Não de outra fórma Turno, dubio e lento,
       780Retrocede, estuoso e furibundo;
Invadiu mesmo as hostes vezes duas,
Duas as poz em fuga e debandada.
Mas já n’um corpo o exército se apressa:
Nem a propria Saturnia a mais se atreve;
       785Que o soberano irmão lhe mandou Iris
Com ordens pouco brandas, se insistindo
Seu valído as muralhas não despeja.
De um chuveiro de lanças molestado,
Nem braço nem broquel já basta ao joven:
       790O elmo em tôrno estrepíta e crebro tinne;
O ereo solido arnez abolam pedras;
Desmanchado o cocar, desfeita a malha,
Dobram-lhe os tiros, golpes lhe amiuda
O fulmíneo Mnestheu[3]. Revê dos poros
       795Largo suor e píceo arroio mana;
Egro respira, o folego açodado
Lhe agita os lassos membros. Todo em armas
No flavo Tibre se atirou de um salto;
Mansa a vêa o recebe, ufano o leva,
       800E da matança puro aos seus o entrega.




NotasEditar

  1. No original, não há aspas nesse lugar.
  2. No original, está as.
  3. "Mnesteu" no original, erro tipográfico.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Notas ao Livro IX


NOTAS AO LIVRO IX.

As melhores passagens sam a metamorphose das naus em nymphas, o episodio de Euryalo e Niso, e o último combate de Turno. A metamorphose contêm-se em 47 versos; o episodio, em 321; o combate, em 128: mais da metade do livro. Se a isto ajuntarmos o ensaio de Ascanio em matar a Numano, a comparação de Turno com o Nilo, os outros seus combates, as façanhas de Pândaro e Bicias, a resistencia de Mnestheu, e os dotes do estilo, he este nono igual aos mais gabados. — Mr. Amar, traductor dos quatro últimos, observa: «Os dous livros precedentes prepararam os successos vindouros. Todo o Lacio está em armas; vai reapparecer Enéas, com numerosos auxiliares; mas quanto se passa em ausencia realça o interêsse da sua vólta. Turno e seu conselho de guerra lançaram mão de uma circumstancia favoravel; e o poeta aproveita-se della para abrir campo ao valor do rei dos Rutulos, e nos mostrar o digno rival que tem de disputar ao heroe troiano Lavinia e o sceptro de Italia. Assim, bem que só neste livro Enéas deixe de apparecer em pessoa, elle o enche inteiro por esta mesma ausencia: he a de Achilles, na Iliada. Tudo se lhe refere necessariamente, como a um centro unico, donde parte o movimento geral.» — A estas reflexões accrescento que ha notavel differença na ausencia dos dous heroes: a que teve lugar pela colera de Achilles, he damnosa aos seus; esta, a que a prudencia de Enéas o obrigou, decidiu a victória. 176-502. — 173-493. — Passo a metamorphose das naus, guardando-me para as notas ao livro X. Mas fallarei das censuras parciaes ao sôbre-excellente episodio de Euryalo e Niso. A principal he que os dous exercem uma carnificina inutil; o que mal assentava sôbre tudo em Euryalo, a quem o poeta pinta meigo e terno. Mas no coração humano cabem sentimentos bem diversos: Euryalo, tam piedoso para com sua mãe, tam fiel e dedicado amigo, sendo alumno e filho de um guerreiro, tendo vivído sempre entre armas, estava habituado a considerar como lícito o mal feito ao inimigo; e o ardor da idade o levava a pensar que exterminar os chefes e soldados contrarios, era uma obra meritoria e heroica. Chateaubriand faz sobresahir estes sentimentos oppostos, quando nota que as mulheres indianas, que tinham chorado e lamentado a Chactas, mostravam-se ao depois duras na occasião em que o iam sacrificar, não considerando já nelle o homem, porêm só o inimigo. Euryalo fazia quasi o mesmo, porque o fanatismo de partido suffoca em nós a humanidade; e as idéas daquelle tempo sôbre o direito da guerra
não eram tam razoaveis como as do nosso; se bem que a melhoria dos modernos he as mais das vezes antes em theoria que na execução. — Ha outra censura mais forte: como puderam os dous fazer tanta mortandade? era possivel que estivesse dormindo todo o exército latino? Com effeito he difficil de conceber que elles tanto obrassem impunemente; mas não he mister suppôr que dormisse todo o exército: basta que dormisse a porção do lado que Euryalo e Niso guardavam; e por elles terem visto as fogueiras extinctas por aquella banda, he que suspeitaram que dalli os Rutulos dormiam. — Concedido o defeito apontado, esta he tenue mancha em uma composição onde Virgilio provaria o seu immenso talento para a tragedia, se já o não tivesse mostrado no livro IV. — Escuso espicificar bellezas que tem sido analysadas pelos autores que allego, e por muitos outros; mas em resumo direi algumas, para que o leitor as observe. A pintura dos chefes, encostados em suas lanças, de broquel no braço, deliberando no meio do campo; a chegada repentina dos mancebos; a exclamação do velho Aletes; o sublime discurso de Ascanio; a recommendação de Euryalo em favor de sua mãe, e a promessa do mesmo Ascanio; os presentes que os varões fazem aos dous jovens; as adequadas comparações; mais que tudo, a catastrophe com as differentes peripecias, e a dôr e desespêro da mãe de Euryalo, sam da mais elevada poesia. Bem se vê que Virgilio aproveitou a lição dos tragicos gregos, a quem tanto admirava. — Nos versos da traducção 204-206 ha uma construcção que fórra palavras, a exemplo de Ferreira, e do moderno Garção: o nosso Moraes a explica no epitome de grammatica, pag. 22 da edição de 1831.

665. — 654. — Amenta eram certas lanças com uma corrêa que as ligava: veja-se a nota de La Rue. Adoptei o termo, porque não temos equivalente: em analogo[1] sentido o adoptaram os Castelhanos, cuja lingua, como irmã filha da romana, tem com a nossa tanta relação. — De passagem direi que ha em París um professor de nomeada que, ignorando o portuguez, ensina que este he uma corrupção do hespanhol! A presumpção de saber o que não se estuda pode gerar ainda maiores paradoxos.

798-818. — 770-800. — A retirada de Turno, depois de se têr mostrado um Achilles, he descripta superiormente: o simile com o leão que, perseguido pelos monteiros, vai recuando lentamente, sem querer fugir, pinta o brio do rei dos Rutulos. A final, acossado pela multidão e por Mnestheu, lança-se ao rio e salva-se a nado, com todas as suas armas. Repare-se porêm que essas façanhas sam em ausencia de Enéas, á vista de quem empalledece Turno, como um astro ao resplendor do Sol.




NotasEditar

  1. No texto temos «analago", erro tipográfico emendado na segunda edição.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Livro X


LIVRO X.

De par em par o omnipotente Olympo,

Concílio o pae divino e rei dos homens
Chama á siderea côrte; excelso as terras
Fita e o campo troiano e os lacios povos.
       5Sentam-se; elle nas salas bipatentes
A mão tomou: «Celícolas egregios,
Porque, mudados, contendeis iniquos?
Vedei guerra entre os Italos e os Phrygios,
E revéis a soprais? Que medo uns e outros
       10Compelle ás armas e provoca o ferro?
Não vos anticipeis, que em Roma altiva
Um dia soltará Carthago fera
Exicio grande e os devassados Alpes:
Odios então permitto e o saque e os prelios;
       15Quero hoje paz, condescendei comigo.»
  Breve Jupiter foi; mas Venus linda
Não breve o contestou: «Poder eterno
De humanos e immortaes (pois que outro apoio
Implorar devo?), a rutula insolencia
       20Notas, padre, e o ruído com que Turno
Campêa tumido em propicio marte:
Vallo ou muralha os Phrygios não resguarda;
Dentro e nos bastiões pelejas travam;
Sangue os fossos inunda. Ausente Enéas
       25O ignora. O sítio nunca mais levantas?
Ilio nascente os inimigos forçam;
Outro exército avança, e de Arpo etolia
Ameaça os Teucros outravez Tydides.
Certo me aguardam, penso, outras feridas;

       30Mortaes armas receio, eu prole tua.

Se a teu pezar estam na Hesperia os Troas,
Não m’os ajudes, seu delicto expurguem;
Se lei cumprem superna e a voz dos manes,
Como inda ha quem transverta as ordens tuas
       35E reforme o destino? As naus combustas
De Eryx na praia, o rei das tempestades
Cabe allegar na Eolia concitado,
E Iris do céo baixando? Ora até move
(Restava este recurso) o mesmo inferno,
       40De chofre acima remettendo Alecto,
Que a debacchar a Italia contamina.
Já de imperios prescindo: isso esperámos
Em melhor quadra; vença quem te agrade.
Se, dura aos nossos, tua espôsa nega
       45Na terra um canto, pelo exicio de Ilio
Fumante obsecro, do conflicto o neto
Incólume apartar me outorga, ó padre.
Bote-se Enéas por ignotos mares
Á mercê da fortuna: eu valha ao menos
       50De impio combate a subtrahir Ascanio.
Tenho Idalio, Amathunta e a celsa Paphos,
Mais Cythera, onde obscuro imbelle viva:
Deixa que Tyro atroz a Ausonia opprima;
Elle nada obsta ao punico dominio.
       55Que monta que, evadido á peste argiva,
Das chammas se livrasse? que, em demanda
Da recidiva Pérgamo, os perigos
De immenso mundo e pélago exhaurisse?
Porque sob patrias cinzas não ficaram?
       60Miseros, peço, os rende ao Xantho e Símois;
Tornem, padre, a versar de Troia os casos.»
Juno régia, o rancor não mais contendo:
«Pois a romper e a divulgar me obrigas
A silente ima dôr? Que deus ou que homem
       65Fez que a Latino o surrateiro Enéas

Hostilizasse? Á Italia, fado seja,
Foi-se a impulsos das furias de Cassandra:
Nós o forçámos a largar a praça,
A vida entregue aos ventos? a um menino
       70Confiar o commando? a fé tyrrhena
E a paz turbar dos povos? A taes faltas
Qual nume o arrasta, qual dureza nossa?
Iris baixou do céo, entra aqui Juno?
He mao que Ilio nascente as flammas cinjam,
       75E ao paiz ame Turno, o de Venilia
Deusa nado e tresneto de Pilumno:
Que importa que atro facho Ilio sacuda,
Subjugue o Lacio, atheios campos tale?
Que sogros fraude, a noivos tire noivas?
       80Que armas nas pôpas fixe e o ramo arvore?
Roubar da achiva garra o filho podes,
Por vã nevoa trocal-o; a frota em nymphas
Tu podes converter: um pouco a Turno
Soccorrermos he crime. Enéas tudo
       85Ausente ignora: pois ignore ausente.
Que! tens Paphos, Cythera, Idalio; e tentas
Um chão de guerras prenhe e a peitos feros?
Nós de Ilio os debeis restos subvertemos,
Ou quem miseros Troas contra os Gregos
       90Assulou? Foi por nós que o rapto armado
Solvera de Asia e Europa as allianças?
Que o Phrygio adultero espugnara Espartha?
Eu lides fomentei com paixões torpes?
Teu medo então convinha: tarde surges
       95Com injusto queixume e futil bulha.»
Juno orava; os celícolas sussurram
Com vário assenso, qual primeiro os sopros
Na mata a murmurar voltêam cegos,
Annúncio da procella ao marinheiro.
       100Do arbitro poderoso ao grave accento,

Cala a diva morada, o ar summo cala,
Nos eixos treme a terra, amaina o pégo,
Zephyros socegando: «Ouvi-me, e n’alma
A sentença imprimi. Já que he defeso
       105Teucros e Ausonios congraçar, nem finda
Vossa discordia, esperançoso corra
Seus fados cada qual, desde hoje trato
Sem differença a Rutulo ou Dardanio;
Quer á Hesperia nocivo ature o assedio,
       110Quer por êrro de agouro em mal de Troia,
Jogado o lanço foi: rei justo ás partes,
Jupiter os destinos não desliga;
Estes rumo acharão.» Pela do estygio
Irmão picea torrente e negro abysmo
       115Jura, e ao nuto estremece o Olympo todo.
Fecha o concílio: ergueu-se do aureo throno;
E ao limiar os deuses o acompanham.
Insta o Rutulo emtanto á roda e ás portas,
Mata, incendeia, estraga. Atêm-se aos vallos
       120A encerrada legião, sem mais refúgio:
Rara os muros coroa, e as tôrres altas
Ah! mal guarnece. Á testa Asio Imbracides,
Os Assaracos dous, o Hicetaonio
Thymetes, e Castor e o velho Thymbris
       125Estam; mais Claro e Hemon da nobre Lycia,
De Sarpédon germanos. Gran’ penedo,
Viva lasca do monte, Acmon Lyrnessio
Deita ás costas, e iguala a seu pae Clycio
E a Mnestheu seu irmão no esfôrço e arrôjo.
       130Com zagaias, com pedras se defendem;
Remessam fogo, ao nervo adaptam settas.
Da Cypria ancia e cuidado, alli no meio
Brilha sem casco o bello adolescente;
Na cerviz lactea o crino desparzido,
       135Molle círculo de ouro o ata e apanha:

Dest’ arte, em fulvo engaste a gemma adorna
Fronte ou collo, e embutida eburnea peça
No orício terebintho ou buxo esplende.
Viram-te, Ismaro, as gentes valorosas
       140Despedir frechas de veneno armadas,
Garfo brioso da Meonia fertil;
Onde agros o Pactolo irriga de ouro.
Mnestheu não falha, a quem sublima a glória
De haver a Turno da bastida expulso;
       145E Capys, de quem teve o nome Capua.
Da guerra o cargo repartiu-se entre elles;
De vólta, rasga o heroe nocturnas vagas.
De Evandro assimque passa ao rei da Etruria,
Quem era expoz, a que ia, em que he prestante;
       150Quanto auxílio grangêa o cru Mezencio,
Quam violento o rei Turno, quam fallivel
A sorte humana; e preces intermeia:
Tárchon allia sem demora as fôrças,
E os pactos fere. Sôlto o fado, os Lydios
       155Com chefe externo, por querer divino,
Se embarcam. Vai diante a pôpa eneia,
Phrygios leões ao beque, e na bandeira
O Ida, enlêvos dos prófugos Troianos.
Sentado Enéas, volve em si tam varios
       160Eventos; e Pallante, á sestra, inquire
Já do sidereo curso e opaca noite,
Já dos trabalhos delle em mar e em terra.
Abri-me o Helicon, Musas; descantai-me
Que tusca multidão, munindo os lenhos,
       165Vogue na azul campina. Após Enéas,
Massico vem na Tigre eri-chapeada,
Com bravos moços mil de Clusio e Cosas,
De arco letal ao hombro e de polido
Sagittífero coldre. O brusco Abante
       170A par, a gente relumbrava, e á pôpa

Dourado Apollo: Populonia madre
Mancebos destros lhe fiou seiscentos;
Trezentos Ilva, de metal chalybio
Fecunda ilha inexhausta. O mago Asylas,
       175A quem o humano e o divinal descobrem
Astros, fibras de rezes, linguas de aves
E o presago fulgor, conduz terceiro
De hastatos mil espesso horrendo bando;
Que lh’os subordinou, de alphéa origem,
       180Pisa etrusca. Pulchérrimo, em cambiante
Arnez afouto e em seu corsel, trezentos
Astur ajunta (um mesmo ardor em todos)
Na patria Cérete, em minionias margens,
Pestífera Gravisca e Pyrgo-Vedra.
       185Não te omitto, ó Cyniras, bellacissimo
Rei da Liguria; e a ti, que poucos mandas
E has no tope, Cupavo, cysneas pennas:
Foi culpa aos vossos a amizade, a insignia
He da paterna fórma. Cycno, contam,
       190Saudoso de Phaeton, quando entre choupos,
Das irmãs deste á sombra, o amor em nenias
E o lucto consolava, em brandas plumas,
Qual velho encanecendo, ao céo cantando
Se elevou. Na companha iguaes pennachos,
       195Rema o filho alta nau, donde um centauro
Arduo com pedra enorme acena ás aguas,
Arando o buco longo o plaino equoreo.
Tambem da patria move as turmas Ocno,
Prole da vate Manto e um tusco rio,
       200Que o nome da mãe deu-te e muros, Mantua;
Mantua, rica de avós, não de uma estirpe,
De tribus tres, por tribu quatro curias,
Es cabeça, e te alenta o sangue etrusco.
Dalli contra Mezencio, em pinho infesto,
       205Do pae Benaco o Mincio, de arundineo

Verdoengo véo, despeja mais quinhentos;
Auletes serio os guia, e vira e açouta
De arvores cento o marmore espumoso:
Tral-o immano tritão, que os váos ceruleos
       210A buzio aterra, humano híspido o rosto,
De ceto o immerso ventre, ao semiféro
A vaga sob o peito alveja e estoura.
O thetio sal com bronze, em baixéis trinta,
A pró de Troia cabos taes retalham:
       215A alma Phebe, o Sol posto, meio Olympo
Já no carro noctívago attingia.
O cauto Enéas, sem dormir cuidoso,
Prosegue dirigindo o leme e as vélas:
Eis um côro de nymphas lhe apparece,
       220Naus suas que a benéfica Cybele
Deusas do ponto fez; a nado o sulcam
Tantas emparelhadas, quantas ereas
Proas retinha a praia, e apercebendo
A seu senhor, com dansas o circundam.
       225Atrás Cymódoce, a melhor fallante,
Na dextra a pôpa tendo, altêa a espadoa,
Sorrema com a esquerda as ondas mudas;
Ignaro o adverte: «Enéas, tu vigias?
Vigia, ó divo, ao panno escotas larga.
       230Do cume sacro ideu somos teus pinhos:
Do Rutulo a perfidia a ferro e fogo
Nos apertava, e amarras nós invitas
Quebrando á pressa, em tua busca andamos;
Que em fluctícolas deusas compassiva
       235Aviventou-nos Rhéa. Ascanio, saibas,
Dos rojões do latino feio marte
A custo se defende; já da Arcadia
Junta a cavallaria ao Tusco extrénuo
Postou-se onde marcaste, e firme a que elles
       240Se approximem da praça oppõe-se Turno:

Sus, na alvorada a l’arma soar manda;
O invicto escudo embraça de orlas de ouro,
Primor do Ignipotente. Em mim se crêres,
Será crástina a luz espectadora
       245De rutula estupenda mortualha.»
Então, não pêca no mister, a pôpa
Celsa empurrando, pelas ondas foge,
Ligeira como a frecha ou leve xara:
As mais tambem. Estupefacto o Anchíseo,
       250Comtudo anima os seus com tal presagio,
E ora curto, encarando o azul convexo:
«Divina genitriz, que as tôrres prezas,
Leões cangas e enfreias; pois me induzes
Á guerra, ó Dyndimene, o agouro aspira,
       255Com pé vem protector, assiste aos Phrygios.»
Al não dice; e, á carreira o Sol tornando,
Com lume já maduro espanca a treva.
Logo Enéas, bandeiras despregadas,
Arma, apresta, acorçoa. D’alta pôpa
       260Seus arraiaes contempla, e ao braço esquerdo
Exalça o ígneo broquel. Do muro os Teucros,
Voz em grita (a esperança esperta as iras)
Jaculam tiros: quaes sob um nublado
Grasnam strymonios grous, que a Nôto esquivos,
       265Dando ledos a senha, os ares tranam.
Turno e os seus o estranhavam, té que enxergam,
Pôpas vôltas á praia, o mar coalhando,
A frota prolongar-se. Arde a celada,
Lampeja a Enéas o cocar, do escudo
       270O diamante flammívomo centelha:
Lugubre assim rubeja em lenta noite
O sanguíneo cometa; ou, sêde e morbos
Dardejando aos mortaes, fervente Sirio
Com funesto luzir contrista o pólo.
       275Nada esmorece a Turno; apoderar-se

Da praia intenta e obstar ao desembarque.
Incita, exhorta: «O ensejo desejado
Eil-o, varões; obrai, que o marte mesmo
Se vos entrega: espôsa e lar vos lembrem,
       280Lembrem-vos patrios feitos gloriosos;
Accorramos á borda e os encontremos,
Trépido o passo emquanto lhes vacilla:
Audazes a fortuna favorece.»
Nisto, elege os que o sigam nesta empresa,
       285Outros incumbe de manter o assédio.
Já lá das pôpas lança o Teucro pranchas.
Taes á espera do languido refluxo,
Taes os remos fincando, aos baixos pulam.
Onde nem brotam váos, nem rechassada
       290Remuge a onda, mas se alisa mansa
Do fluxo no montar, observa Tárchon;
Rapido as proas vira, e aos nautas insta:
«Picai voga, eia, alçai-vos, gente forte,
Impelli-me os baixéis; que os rostros fendam
       295O solo hostil, e sulco se abra a quilha.
He nada o naufragar, se pojo em terra.»
Elle ordena, e estribando ao remo investem;
Os barcos a espumar direito abicam,
Até que os esporões em sêcco varam,
       300E illesos cascos assentaram, menos
A tua pôpa, Tárchon; pois de iniquo
Dorso encalhada pende, um tempo nuta,
Maretas cansam-na, e desfeita vasa
N’agua a turba varoil, que fracturados
       305Bancos e remos á matroca impedem,
E a ressaca a repulsa e os pés lhe embarga.
Nada ignavo, o acre Turno contra os Phrygios
A hoste arremessa toda, e a praia occupa.
Toca á degolla. Enéas fausto a enceta
       310Sôbre o agreste esquadrão; rompe os Latinos,

Morto o maior, Theron, que ousa arrostal-o:
Penetrando o eneo escudo e auri-escamosa
Tunica, a espada lhe embebeu na ilharga.
Seu ferro a Lichas prostra, que a ti sacro,
       315Phebo, da extincta mãe sacado infante,
Poude ao ferro escapar. Não longe o duro
Cisseu derriba e o corpulento Gyas,
Que a turmas esmagavam: não lhes presta
Clava, nem pulso herculeo, e o pae Melampo,
       320Socio nos transes do lidado Alcides.
A Pharon, que jactancias vociféra,
Na bôca um dardo retorcendo enfia.
E tu, pobre Cydon, que ias trás Clycio,
Teu novo gôsto, em cujas faces punge
       325Lanugem loura, á troica mão cahiras,
Quite do insano amor que aos jovens tinhas;
Se em mó, de Phorco nados, não sahissem
Irmãos sete que arrojam sete lanças:
Parte, as rebate o escudo e o capacete;
       330Parte a soslaio o alcança, e as torce Venus.
«Hastas, Enéas brada, hastas, amigo,
Das que em Troia preguei no corpo aos Gregos;
Aos Rutulos nenhuma irá frustanea.»
Péga uma ingente, que a voar a adarga
       335Bronzea a Meon traspassa e a malha e os peitos.
Corre Alcanor, sustenta o irmão que tomba:
O lagarto lhe encrava outro arremêsso,
Que progrede cruento; e pelos nervos
Da espadoa o braço moribundo pende.
       340Eis do irmão Numitor a farpa arranca,
E a revira ao heroe; mas não lhe coube
Tocal-o, e a coxa ao grande Achates roça.
Clauso de Cures, no verdor fiado,
Lá vibra a Dryope um zarguncho rijo
       345Sob o queixo, e lhe tronca a falla e a vida,

Rôta a guela; em terra a testa bate,
E a bôca lhe vomita em grumos sangue.
Destroça vário a Thraces tres, prosapia
De Boreas digna, e a tres de ismara patria,
       350Que Idas padre enviou. Com seus Auruncos
Acode Haleso; acode o equite insigne
Messapo de Neptuno: ora uns, ora outros,
No umbral da Ausonia a combater, se expellem.
No espaço a pleitear discordes ventos,
       355Em fôrça e ânimo iguaes, entre si luctam,
Nuvem nem mar cedendo; e renitentes,
Dubio a durar o prelio, a tudo affrontam:
Dest’ arte os Phrygios travam-se e os Latinos,
Pé com pé, rosto a rosto, arca por arca.
       360Pallante alhures, onde ampla torrente
Seixos rola e arvoredos extirpados,
Vendo os Arcades seus, que, se apeando
Pelo aspero terreno, desafeitos
Á pedestre contenda, ao sequaz Lacio
       365Voltam costas; segundo as occurrencias,
Roga, invectiva, os brios reaccende:
«Fugis, irmãos? por vós, por vossos feitos,
Pela do caro Evandro invicta glória
E a que nutro esperança de emulal-o,
       370Não confieis nos pés: que a ferro entremos
Por onde espesso engloba-se o inimigo,
Alto a Pallante e a vós prescreve a patria.
Não divos, sam mortaes que a mortaes urgem;
Mãos tambem e almas temos. Golpho immenso
       375Nos obsta; á fuga terra já nos falta:
Buscaremos o pégo ou teucros muros?»
Cessa, e por densos batalhões prorompe.
Lago, oh desgraça! o topa; e, emquanto lasca
Pesada rocha, de travez Pallante
       380Finca-lhe, onde o espinhaço as costas parte,

E extrahe a choupa aos ossos adherente.
Cuida Hisbon sorprendel-o; e quando, cego
Do cruel fim do amigo, em furia salta,
No inchado bofe o heroe some-lhe o estoque.
       385Vai-se depois a Sténelo, e á de Rheto
Vetusta raça, Anchêmolo, que o tóro
Da madrasta incestou desaforado.
Tymbro e Laryda, o pó mordestes gemeos,
Daucia prole simíllima e indistincta,
       390Aos paes êrro suave: o gume arcadio
Vos poz duro descrime; a ti cercêa,
Tymbro, a cabeça; e a dextra mutilada,
Larida, a procurar-te, o ferro aperta
Nos semiâmines dedos palpitantes.
       395A voz do chefe, o exemplo, dôr, vergonha
Os Arcades inflamma, que arremettem.
Mata o moço a Rheteu, que em biga, ó nobres
Irmãos Tyres e Teuthras, vos fugia:
A Ilo, a quem salva o espaço, longe atira
       400Válida hasta, que em meio a Rheteu colhe;
Do carro ao chão resvala, e semivivo
Calca e percute a rutula campanha.
No estio, ao sôpro de anhelantes ventos,
Quando em selva o pastor semêa incendios,
       405No âmago lavram e horridos propagam
Em largo plaino exercitos vulcanios;
Elle altivo contempla ovantes chammas:
Os teus para ajudar-te assim, Pallante,
Unem-se em feixe. O ardido Haleso contra
       410Rue, na armadura involto: immola a Pheres,
Demodoco e Ladon; seu talho a dextra
A Strymonio decepa, que ao pescoço
Leva-lhe a adaga; a seixo o craneo a Thoas
Racha e esmigalha o cerebro sanguento.
       415Presago o pae de Haleso o teve em brenhas:

A Parca o prêa e sagra á lança evandria,
Solvendo ao velho os desmaiados lumes;
Pallante o aggrede, orando: «Ó Tiberino,
O remessão que libro, alado o emprega
       420Do atroz varão no seio: um teu carvalho
Terá delle os despojos e estas armas.»
O deus o ouviu; que Haleso ao bote certo,
No cobrir a Imaon, descobre o lado.
Lauso, um pilar da guerra, os seus não deixa
       425De um tal golpe assustar-se: a Abante opposto,
Do combate eixo e nó, destroe; prosterna
Tuscos, Arcadios; nem vos poupa, ó Troas,
Poupados por Ageus. Travam-se, em cabos
E em fôrça iguaes: baralham-se as fileiras;
       430Os tiros e o manejo o apêrto empacha.
Cá Lauso se afervora, alêm Pallante,
Ambos equevos quasi, ambos formosos;
Mas a patria revêr lhes nega o fado:
Não quiz do Olympo o rei que ás mãos viessem;
       435Mór inimigo talhará seus dias.
Eis, da irmã por conselho, em veloz coche
Turno, a Lauso acodindo, as filas corta:
«Parai, socios; recebo eu só Pallante,
Pallante a mim se deve: oh! se aqui fôra
       440Testemunha seu pae!» Cedem-lhe o passo:
Admira o moço a obediencia prompta,
Mede ao suberbo[1] o talhe formidavel,
Rodêa ao longe a furibunda vista,
E ao tyranno responde: «Ou morte nobre,
       445Ou vai despôjo opímo honrar meu nome;
Sorte igual a meu pae: não feros, obras!»
Fallando ao plaino marcha: coalha o sangue
Nos corações arcadios. Pula Turno
Da biga, a pé remette; imagem propria
       450Do rompente leão que ao touro voa,

A quem de alto covil descobre em luctas
No prado a meditar. Ao crêl-o a tiro
De hasta, avança Pallante; a audacia invoca
No desigual partido, e ao céo recorre:
       455«Se hóspede, Hercules, fôste á patria mesa,
Na acção me assiste; eu rubras tire as armas
A Turno semimorto; olhe penando
Seu vencedor no bocejar supremo.»
Alcides o escutou; fundo ai comprime,
       460Vãs lagrimas vertendo. Ao filho Jove:
«Cada qual, diz benigno, tem seu dia;
A vida he breve e irreparavel tempo;
Mas rasgos de virtude a fama exalçam.
Quanta em Ilio cahiu divina prole!
       465Té Sarpédon meu sangue! Á meta chega
Turno tambem, e o chamam já seus fados.»
E foi do Lacio desviando os olhos.
Já teso a lança vibra, e da baínha
Pallante puxa a lamina fulgente:
       470De vôo a ponta encaixa onde a espaldeira
Péga o braçal; do escudo as orlas passa,
Do hombro ao Rutulo ingente a cutis fere.
Turno pujante aqui de choupa aguda
Sopesa um roble, e grita: «Vê se o nosso
       475Rojão melhor penetra.» E a coruscante
Farpa o broquel de ferreas e eneas pranchas,
De coiro taureo em dobras reforçado,
Rasga, os empeços da loriga fura
E o peito heroico. Em balde a quente choupa
       480Do rombo extrahe: em sangue a alma esvaindo,
Por cima ao revoltar-se da ferida,
Sôbre-soam-lhe as armas, e expirando
A bôca o solo hostil beija cruenta.
Salta-lhe ao corpo Turno: «Arcades, grita,
       485Não vos esqueça a Evandro o referil-o:

Qual mereceu, remetto-lhe Pallante;
De o tumular com pompa o allívio outorgo:
Caro a hospedagem pagará de Enéas.»
Então senta no morto a planta esquerda:
       490Rouba o talim de pêso, e nelle impressos
Do morticínio os thalamos sangrentos
Em jugal noite; culpa atroz, gravada
Pelo Eurytides Clono em chapas de ouro.
Turno com isto exulta: oh! mente humana,
       495Fera e descomedida na bonança,
Do porvir nescia! intacto inda a Pallante
Vir-lhe-á tempo que almeje a todo o preço,
E este espólio e façanha elle abomine.
Gemebundos e em pranto, os companheiros
       500O cadaver carregam sôbre o escudo.
Oh! vóltas a teu pae, dôr grande e glória!
Deu-te um só dia á guerra e ao passamento;
Mas que montões de Rutulos deixaste!
A Enéas, não a fama, um messageiro
       505De mal tamanho informa; e trasmalhados
Soccorra os seus, que estavam por um fio.
Quanto encontra, arrombada a larga turba,
A gladio ceifa ardendo; achar-te anceia,
Turno ufanoso da recente morte.
       510Ante si tudo tem, Pallante, Evandro,
A hospitaleira mesa, a dextra amiga.
Vivos quatro a Sulmon, a Ufente agarra
Quatro alumnos que immole á sombra, e reguem
Do seu captivo sangue a rogal chamma.
       515Sobrevoa esgrimida a tremente hasta
A Mago astuto, que se agacha ao bote,
E supplicante abraça-lhe os joelhos:
«Pelo medrado Iulo e anchíseos manes,
A meu pae me conserves e a meu filho.
       520Muita prata em moeda, bruto e em obra

Soterrei cópia de ouro, em meu palacio:
Não libra em mim dos Teucros a victoria;
Nada empece uma vida.» Enéas presto:
«Guarda essa prata, esse ouro bruto e em obra
       525Para teus filhos: com matar Pallante
Aboliu Turno as transacções da guerra.
Isto, Anchises o approva, Ascanio o sente.»
E a sestra no elmo, atrás lhe dobra o collo,
Onde a espada lhe enterra até aos punhos.
       530Perto o Hemonio, de Phebe e Apollo antiste,
Com sacra fita ás fontes presa a faxa,
Luzia na armadura e insignes vestes:
O heroe o acossa, abate, o immola, o cobre
Da ampla sombra; Seresto apanha as armas,
       535E em trophéo t’as carrega, ó rei Gradivo.
A pugna instauram, de vulcania estirpe
Ceculo, e Umbro das marsicas montanhas.
Enfurece o Dardanio; á esquerda logo
A Anxur talha e desfaz rodela ferrea:
       540Sonhava elle proezas, e esforçar-se
Com vozes crendo, e ao céo talvez se alando,
Brancas se promettia e longos annos.
De agreste fauno e dryope gerado,
Tarquito refulgindo enresta a lança:
       545O heroe torcendo-a empece-lhe a coiraça
E o pesado pavez; descabeçando-o,
Lhe frustra a prece e o que dizer queria;
Revolve o tronco tepido por terra,
Com ânimo inimigo assim prorompe:
       550«Jaze ahi, valentão; nem madre nympha
No patrio solo inhumará teus membros:
Serás de abutres pasto; ou, submergido,
Te ham-de a chaga lamber famintos peixes.»
Persegue, na vanguarda, ao forte Numa,
       555Lycas e Anteu, Camertes, louro filho

Do riquissimo em lavras nobre Ausonio,
Volscente, o rei de Amyclas taciturna.
De cem braços e mãos Egeon, narram,
Fogo expirava de cincoenta fauces,
       560Com cincoenta broquéis tinnindo, espadas
Cincoenta a menear contra o Tonante:
Não menos, dêsque o Phrygio aquece o gume,
Bravo campêa. De Nipheu remette,
Peito a peito, á quadriga; e, assimque os brutos
       565Bramindo o avistam fero, amedrontados,
Retrocedendo rapidos, ás praias
O coche rojam, seu senhor despejam.
Eis Lugo se apresenta em alva biga,
Mais o irmão Liger, que os frisões governa;
       570Lugo acerrimo esgrime o iroso ferro.
Tal furia ao Teucro azéda; rue terrivel
De hasta apontada. E Liger: «Não diomedios
Corséis, carros achilleos, phrygios campos,
Tens aqui; vês a morte e o fim da guerra.»
       575Das fanfurias, que em ar se desvanecem,
Em trôco Enéas lhes revira um dardo.
Prono Lugo, a pender nos loros, pica
Da arma os cavallos; por bater-se, adianta
O sestro pé: do aheneo escudo as orlas
       580Entra a ponta e a virilha esquerda fura:
Do carro a baixo moribundo róla.
E amaro o pio heroe: «Nem tarda a biga
Falsou-te, ou sombras vãs a afugentaram;
Tu sim, Lugo, de um salto a abandonaste.»
       585Nisto, a parelha empolga. O irmão, coitado!
Desmontando estendia inermes palmas:
«Por ti, varão por teus progenitores,
Deixa-me a vida, abrandem-te meus rogos.»
«Diverso, o atalha Enéas, blasonavas;
       590Morre; irmão não he bem que o desampares.»

E estoquêa-lhe o peito, encêrro da alma.
Qual tufão grosso ou turbida torrente,
Feraes damnos o Dárdano espalhava.
Rompe emfim da muralha o moço Ascanio,
       595Com seus guerreiros por demais cercados.
A Juno emtanto Jupiter: «He Venus,
Nem te enganas, consorte e irmã querida,
Que os Troianos sustenta: eil-os cobardes,
Sem denodo ou constancia nos perigos.»
       600Aqui Juno submissa: «Ó doce espôso,
Temo os remoques teus, porque me apuras?
Se inda, como convinha, o amor d’outrora
Eu te inspirasse, um dom não me negaras,
Omnipotente: incólume ao pae Dauno
       605Guarde eu Turno da acção... Mas que! pereça,
Devoto sangue aos Troas laste as penas.
Deduz comtudo o nome e origem nossa
Do tresavô Pilumno, e com frequencia
A plenas mãos cumula-te os altares.»
       610Breve replíca o rei do Olympo ethereo:
«Se a Turno queres que eu prolongue os dias
E achas que o posso; pela fuga o salves
De instantes fados: atéqui me cabe
Condescender. Se encobres nessas preces
       615Mór graça, e a guerra trastornar concebes;
Apascentas baldias esperanças.»
E ella em chôro: «O que a voz me cede a custo,
Se d’alma o désses, vida cheia a Turno!...
Mas transe o espera indigno, ou eu me illudo:
       620Oxalá sejam falsos meus temores,
E tu, que o podes, a melhor te inclines.»
Dice, e de lá despara; de nevoeiros
Cingida, uma borrasca a precedel-a,
Baixa entre o campo ilíaco e Laurento.
       625Logo em feição de Enéas, oh prodigio!

Fraca de vácua nuvem sombra tenue
Arma á troiana; o escudo, as cristas finge
Da cabeça divina; oucas palavras,
Som lhe empresta sem mente, o andar e o gesto:
       630Como, he voz, do finado erra a figura;
Ou qual sonham sopitos os sentidos.
Ante as fileiras jubilando a imagem,
Dardos em punho, desafia a Turno.
Este, irritando-se, a estridente lança
       635Arremessa: o phantasma as costas vólta.
Creu Turno em fuga a Enéas, e se rega
Alvoroçado em frivola esperança:
«Onde vais, Teucro? os thalamos desprezas?
Toma a terra, eu t’a dou, por mar buscada.»
       640E, após clamando, o gladio nu brandia,
Sem vêr que he seu prazer seguir o vento.
Á saxea ribanceira, expostas inda
Pranchas e escadas, o navio estava
Que a Osinio rei de Clusio transportara.
       645Alli pavido o esquivo simulacro
Deita a esconder-se; vence estorvos Turno,
Salta as pontes. A proa mal que attinge,
Rebenta os cabos Juno, arranca o lenho,
Pelas vagas revôltas o arrebata.
       650Por seu rival bramando, o vero Enéas
Na homecida carreira proseguia;
Já não se occulta, voa o aereo vulto,
E em negrume cerrado se confunde;
Pelas ondas a Turno um tufão leva.
       655Inscio, ingrato á mercê, contempla em roda,
Ao céo levanta as mãos: «Jupiter summo,
Digno me julgas de desar tamanho?
Que punição? Para onde me conduzem?
Donde vim? Quem sou eu com tal fugida?
       660Como a Laurento e aos muros tornar posso?

Que dirão meus soldados? Oh vergonha!
Deixal-os eu na lucta agonizantes!
Vejo-os daqui vagar, seus ais escuto.
Que farei? não me engole e some a terra?
       665Ventos, piedade! recebei meu culto
Voluntario: o baixel a váos e escolhos,
A syrtes arrojai-me, onde nem saibam
Os Rutulos de mim, nem reste a fama.»
Tal discursava, e aqui e alli fluctua;
       670Nem atina se enterre a crua espada
E em tanta affronta as costas se atravesse,
Ou se, entre os escarcéos, á curva praia
Nade e se restitua ás teucras armas.
Tres vezes foi tental-o, tres conteve-o
       675A soberana Juno condoída.
O alto sulcando com maré propícia,
Na côrte do pae Dauno antiga aporta.
Já Mezencio cruel, de Jove a impulsos,
Lhe succede, e acommette ovantes hostes.
       680Encontram-no aggravados os Tyrrhenos;
Alvo he dos golpes todos. Como rocha
Está, que, protendida ao mar e aos sopros,
Os embates resiste e os ameaços
Do céo violento e furibundo pégo.
       685A Hebro Dolichaonio o varão prostra,
Mais a Latago e Palmo fugitivo:
A Latago um fragmento da montanha
Esmecha e esmaga o rosto: a rôjo Palmo
Rola dejarretado: a Lauso doa
       690O arnez que hombrêe, as plumas com que se orne.
Escala o Phrygio Evante e o caro a Páris
Mimas, filho de Amyco, por Theano
Parido á noite que abortou Cisseide,
Prenhe de um facho: Páris jaz na patria;
       695Mimas, que o não cuidava, em lacia borda.

Como o javardo, em cannavial nutrido,
Que a dente correm cães, sobejo espaço
No pinífero Vésulo acoutado
E em laurencia lagôa, ao dar nas redes
       700Pára, em roncos escuma, ouriça as cerdas;
Ninguem lhe ousa achegar, distantes raivam,
Em seguro gritando e a garrochal-o;
Elle, impavido e attento, os queixos range,
Cospe do lombo a chuva de arremessos:
       705Taes, não com ferro em punho, mas de longe,
Desse odioso Mezencio os inimigos
Com rojões e alarida o desafiam.
Prófugo, a velha Córyto e imperfeitas
Nupcias largando o Graio Acron, purpúreo
       710Nas galas e cocar, da noiva mimos,
Descose as turmas: o tyrano o enxerga.
Se o leão, que em jejum com fome ronda
Alto curral, fugaz a corça avista
Ou cervo de arduos cornos; sevo e hiante
       715Folga, hirta a juba, ás visceras deitado
Ferra-se, e em negro sangue as fauces lava:
Dest’arte vem Mezencio e a chusma ataca.
Tomba expirando Acron, e ao debater-se
Calca o atro chão, cruenta as rôtas armas.
       720Ferir desdenha a Orodes que se evade,
Remetter-lhe desdenha um bote cego;
Não destro nos ardis quanto era forte,
Adverso o alcança, mão por mão o aterra;
N’hasta apoiado, o pé lhe imprime sôbre:
       725«Eil-o, varões, o heroe da guerra esteio.»
E os seus com elle entoam ledo péan.
Orodes a arquejar: «Serei vingado,
Nem longo exultarás; meu fim te espera,
Este pó vais morder.» Com riso amargo
       730O ímpio então: «Morre já; de mim disponha

Esse teu pae divino e rei dos homens.»
Dice, e lhe extrahe do corpo o tenaz pique:
Urge-o repouso duro e ferreo somno,
E em noite fecha eterna os baços lumes.
       735A Hydaspes Sacrator, a Alcatho Cédico,
Rapon tronca a Parthenio e o válido Orses;
Messapo a Clonio e o Arcade Ericetes:
Um do infrene corsel, derriba o outro
Pedestre a pé. Soccorre-os Agis Lycio,
       740Talha-o Valero com denodo avíto;
A Thronio Salio; a Salio o bom Nealces
Em dardo ou setta ao longe traiçoeira.
O lucto e os funeraes Marte equilibra:
Morrem, matam, vencidos, vencedores;
       745Não se rendem, não cedem, não fraquêam.
Tanta ância nos mortaes, e de uns e de outros
O vão furor a Jove e ao céo compunge:
Aqui Venus attenta, alli Saturnia.
Pallida a Erynnis[2] urra e assanha as turbas.
       750Torvo, a librar Mezencio enorme lança,
Entra em campo, e se mostra em vastas armas:
Como Orion, de espadoas fóra d’agua,
Rasga a pé de Nereu o immenso lago;
Ou, dos serros trazendo o annoso freixo,
       755Anda em terra, e nublada a fronte esconde.
Enéas, que o lubriga, avança prestes.
Firme em seu pêso, intrepido elle aguarda
O brioso adversario; de olhos mede
Assás distancia ao tiro: «Agora, exclama,
       760Deus he meu braço e o remessão que vibro.
Do salteador Enéas eu te voto,
Lauso, em trophéo, do espólio seu vestido.»
Hasta eis voa estridente; que, do escudo
Repulsa, aos hypocondrios vai pregar-se
       765Do egregio Antor, de Alcides companheiro;

Antor Argivo, que, adherindo á Evandro,
Na Italia se ficou. Precipitado
He de alheia ferida; e, ao céo fitando,
Ah! lembra-lhe ao morrer sua doce Argos.
       770Joga Enéas um dardo, que a rodela
Triple erea penetrou, por líneas fraldas,
Por taureos forros tres; e amortecido
Á virilha se apega. Ao ver-lhe o sangue,
Puxa o ferro da cinta alegre o Teucro,
       775Férvido ao Tusco titubante corre.
Nisto, em lagrimas Lauso debulhado,
Por amor de seu pae geme profundo.
Teu mesto fim, teu brio e feito heroico,
Se o futuro crêr pode empresa tanta,
       780Celebrarei, mancebo memorando.
Fraco e impedido, a se arredar Mezencio,
Prêso arrasta no escudo o hastil infesto.
De chofre o joven, interposto ás armas,
A mão de Enéas, que desfecha o talho,
       785Susta e o reteve: em grita os seus o acclamam,
E emtanto o genitor se evade á sombra
Da rodela do filho; empacha a Enéas
Bateria de frechas e arremessos:
Cobre-se elle a bramir. Quando em saraiva
       790Desata a chuva, o lavrador se esgarra,
Em guarida se alberga o viandante,
Em lapa de ribeira ou cava penha,
Até que, abrindo o Sol, o dia exerçam;
Oppresso o Teucro assim da marcia nuvem,
       795Á espera está que a trovoada amaine;
Commina e avisa a Lauso, a Lauso increpa:
«Temerario, onde vens? mediste as fôças?
Engana-te a piedade.» Elle não menos
Demente assalta: o estame curto as Parcas
       800A Lauso colhem; do dardanio chefe

Se irrita a colera, a possante espada
No moço enterra; a ponta a leve adarga
E a tunica passou, que a mãe fiara
De ouro subtil; em borbotões o sangue
       805Alaga o seio; e a vida pelas auras
Triste aos manes se afunda e o corpo larga.
Pallida a face, moribundo o gesto
Ao vêr-lhe o Anchíseo, compassivo e grave
Suspira, dá-lhe a dextra; á mente a imagem
       810Sobe do patrio amor: «Que digno premio
Dessa rara virtude o pio Enéas
Te prestará, mesquinho? As armas tenhas,
Teu gôsto em vida: eu rendo-te ao jazigo
E ás cinzas dos avós, se disto curas.
       815Console-te infeliz do grande Enéas
Ás mãos cahir.» E exprobra os tardos socios,
Do chão levanta o corpo, cujas tranças
Atiladas á moda o sangue afeia.
Mezencio, ao pé do Tibre, emtanto os golpes
       820Lava e estanca, e arrimado se conforta
A arboreo tronco: ao longe está n’um ramo
O eneo casco, e na relva o arnez pesado.
Egro, anhelante, o colo desafoga,
Aos peitos se diffunde a larga barba.
       825Cercam-no os seus: do filho indaga afflicto,
Manda que o chamem e amiuda as ordens.
Mas sôbre o escudo em pranto já traziam
Morto do grande bote o grande Lauso:
O pae nesse carpir seu mal pressente:
       830De pó deforma as cãs, e as palmas ambas
Dirige aos céos, e apega-se ao cadaver:
«Quiz tanto á vida, ó filho, que ao trespasso
Expuz a quem gerei? Por tua morte
Vive teu pae, salvou-me essa ferida?
       835A minha agora se me aggrava e sangra,

Ai! doe-me agora o misero destêrro!
Manchei teu nome, Lauso, eu por taes crimes
E odios expulso do paterno solio:
Eu só pagar devera aos meus e á patria,
       840Por mil mortes render est’ alma infame;
Respiro, e inda não deixo a luz e os homens?
Eu deixarei.» Na perna a custo se ergue,
Sem da chaga o abater a dôr violenta;
Pede o corsel, da glória companheiro,
       845Consôlo seu, que vencedor com elle
Das batalhas sahia, e ao pobre afala:
«Rhebo, ha muito durâmos, se he que muito
Dura cousa mortal: hoje a cabeça
Trarás de Enéas e o cruento espólio,
       850E as de Lauso agonias vingaremos;
Ou, se impossivel he, morramos juntos:
Não soffrerás altivo, eu creio e espero,
Mandos alheios nem senhor troiano.»
Monta, e acceita-lhe o bruto a usada carga;
       855Onera as duas mãos de agudas hastes;
O elmo reluz, de equina hirsuta coma.
Veloz galopa: o lucto, a insania, o pêjo
No coração referve; agitam furias
O amor paterno, a conscia valentia.
       860«Enéas! grita, Enéas!» Ledo Enéas
O reconhece e impreca: «O pae supremo
Queira com Phebo que o duello encetes!»
E, de hasta em reste, avança. Então Mezencio:
«Roubado o filho, aterras-me, assassino?
       865O só meio esse foi de me acabares.
Nem temo os deuses, nem me assustam Parcas:
Morrer venho, recebe a despedida.»
Lesto um dardo lhe prega, outro e mais outro,
Em vólta ingente; mas rechassa-os todos
       870A aurea copa do escudo. Pela esquerda,

Contra o parado heroe tirando sempre,
Trota em gyro tres vezes; tres no bronze
Roda comsigo o Teucro a basta selva.
De extrahir tanta farpa emfim se enoja,
       875E da tardança e desigual peleja;
Meditabundo rompe, a lança expede
Ás fontes cavas do bellaz ginete:
O quadrupede em gemeas, o ar a couces
Depois zimbra, sacode e implica o dono,
       880E cahe de bruços lhe opprimindo a espadoa.
Lacio e troico alarido os céos estruge.
Voa sôbre elle o heroe, despindo o gladio:
«Que he do feroz Mezencio? onde os seus brios?»
O Etrusco os olhos alça, haurindo as auras,
       885E, recolhendo o alento: «Ameaças morte?
Porque me insultas, figadal contrario?
Vim perecer, não péccas em matar-me,
Nem meu Lauso ajustou que me poupasses.
Vencido, se jus tenho, eu só te rógo
       890Ao corpo alguma terra: a circumdar-me
Freme o rancor dos meus; tu me defendas,
N’um sepulcro me encerres com meu filho.»
Sciente, elle o pescoço[3] ao gume inclina,
A alma derrama e em sangue inunda as armas




NotasEditar

  1. suberto no original, erro tipográfico.
  2. No original, está Erynnnis.
  3. pescoso no texto original; erro tipográfico.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Notas ao Livro X


NOTAS AO LIVRO X.

Mr. Amar admira este concílio, pela pompa e majestade do estilo, pela escolha dos epithetos, pela grandeza do assumpto. Comquanto seja eu apaixonado do poeta, não concordo com o crítico em achar muito a baixo desta scena a do livro primeiro das Metamorphoses, e menos concordo em que o autor era apenas um homem espirituoso e de talento, não um verdadeiro genio. Certo he que Virgilio he mais exacto e judicioso, mais conciso e de uma sensibilidade mais exquisita; comtudo, a abundancia, a variedade e a imaginação de Ovidio sam taes, que só um grande poeta as pode possuir. Ovidio tem sua maneira, como tambem Virgilio; e ambos encantam e prendem, postoque por meios diversos. Se aquelle tivesse moldado sempre os seus quadros pelos das Georgicas e da Eneida, teria talvez sido um escritor mais perfeito, mas não seria tam recommendavel pela sua pasmosa invenção.

6-117. — 6-117. — O talento oratorio, ainda mais saliente nos ultimos livros, apparece em toda a fôrça nestes bellissimos discursos: o de Jupiter he breve e energico, imperativo e grave; o de Venus he respeitoso, comedido e pathetico; o de Juno, ao contrário, vehemente e impetuoso, todo cheio de interrogações, mais para accusar e reclamar os seus direitos, do que para se defender. Nada ha mais sublime que o silencio do ar e do céo, do mar e da terra, quando Jupiter vai annunciar a sua vontade suprema, assim como o estremecimento do Olympo todo ao aceno do soberano, que jurava pela Estyge. — Em algumas escolas do Brazil, mestres imperitos ensinam que botar por lançar, de que me sirvo no verso 48, he um plebeísmo; sendo corrente nos classicos, tanto prosadores como poetas, e até com este verbo formaram-se palavras hoje muito em uso, por exemplo botafóra, botafogo. Veja-se Moraes e Constancio.

146-214. — 146-214. — No livro V trata-se dos Troianos que tem de brilhar durante a guerra; no setimo, dos mais illustres do partido de Turno; aqui, dos mais conspicuos Latínos que vieram em soccorro de Enéas. Observe-se que, entre os auxiliares, o de que se falla com mais interêsse he Pallante; o qual deve representar um grandissimo papel e influir tanto no desfecho.

219-250. — 219-250. — Mr. Amar, desculpando o poeta com não ter tido tempo de aperfeiçoar a sua obra, diz: «Enéas devidamente pasma (stupet) do que se passa em[1] tôrno delle. Uma nau que se transforma em devindade maritima, e na manhã seguinte se faz
habil orador, e se recorda a proposito do seu antigo mister, he das cousas que, mesmo naquelle tempo, não se viam todos os dias, e mostram aliás que em materia de pias maravilhas, tanto entre os antigos como entre os modernos, o mais difficil he o primeiro passo.» Esta crítica tem o vício de provar de mais: a ser admittida, a conclusão seria que, ao menos em as epopéas, nunca tem lugar uma metamorphose qualquer; poisque em todas ha mais que inverosimilhança, ha impossibilidade. Mas, nas obras de imaginação, tem-se deixado passar estas liberdades, quando a ficção he ingenhosa, para com a variedade causarem prazer ao leitor. E em uma nação educada com as idéas do paganismo, cujos sectarios criam em Jupiter convertido em touro e em outras que jandas transformações, essas impossibilidades não pareciam taes; da mesma fórma que os homens de fé acreditam hoje em milagres, de que zombam os espiritos fortes. Horacio, com o seu costumado criterio, queria que semelhantes metamorphoses não se fizessem em um drama, á vista dos espectadores, porque não podiam ser executadas a ponto de illudir os olhos; mas dá largas á narração. Ora, uma vez admittida a mudança das naus em nymphas, não he mais inverosimil que fallem como as outras deusas do mar; e Delille, que he desta opinião, accrescenta que, se Apollonio introduz a fallar um pao da nau Argos, por ser um carvalho da floresta de Dodona, muito menos inverosimil he que, já nympha do mar, discorra a nau de Enéas, a qual tambem era de carvalhos da floresta de Cybele. Estas razões porêm não valem tanto como as fundadas nas crenças e preconceitos populares, que permittiram ao poeta assim ennobrecer e celebrar as embarcações que ao Lacio haviam transportado o seu heroe; alêm de que elle não fez mais que adoptar as tradições: prisca fides facto, sed fama perennis. Já se tem dito, e repetirei que para lêrmos certos pedaços dos antigos, he proveitoso que de algum modo nos tornemos da sua religião e nos vistamos das suas preoccupações. Estou convencido de que Virgilio, aindaque tivesse vivído para emendar a Eneida, não teria riscado esta ficção.

273. — 271. — Rubejar, proposto pelo Dr. Simoni, me parece necessario, ou ao menos util: o nosso roxear differe, como o roxo do rubro. Esta occasião, em que me aproveito de uma lembrança sua, tómo-a para agradecer em público ao mesmo senhor a fineza de me offerecer um dos seus Carmes dos sepulcros; obra cheia de bons pensamentos e de lições moraes.

287[2]-307. — 286-306. — O desembarque de Enéas e dos auxiliares he descripto com termos technicos e com toda a propriedade, mórmente quando Tárchon arroja á praia a nau, que fica pendente da pôpa e vasa n'agua a tripolação: o crescenti aestu e o unda relabens pintam admiravelmente o rôlo e a ressaca da onda. Consulte-se
o Virgilius nauticus de pag. 33-36, onde Mr. Jal traz as mais adequadas observações. Desejos tive de as copiar; mas desisti, porque, para pôr tudo que me parece interessante nessa obra, mister seria transcrevel-a por inteiro. 344. — 342. — Começa Enéas o combate, e um dardo, que lhe revirou Numitor, fere a Achates na coxa; o que mostra o jus deste guerreiro ao título de grande e de fiel que lhe dá o poeta, poisque elle não podia pelejar sempre ao lado do amigo, sem correr iguaes aventuras. Chamam-no frio, porque não se lhe especifíca uma acção de valentia, a não ser a morte de Epulon, guerreiro sem renome. E na verdade, fazendo o poeta brilhar a Mnestheu no liv. IX e em outros lugares, a Ascanio em matar o cunhado de Turno, a Gyas em dar cabo de Ufente, amigo íntimo e da maior confiança do mesmo Turno, a Seresto em ajudar a Mnestheu e Ascanio a repellir a Turno e pôl-o em retirada; tendo sim exaltado a Tárchon, a Pândaro e Bicias, a Pallante, a Euryalo e Niso, e a outros do seu partido, parece que devera guardar uma proeza para o companheiro inseparavel do heroe; companheiro, em quem o autor quiz representar Patroclo; mas quanto fica abaixo de Homero! — Concordando com os criticos nesta censura, estou bem alheio da opinião dos que acham insignificantes os cabos a quem Enéas commandava em chefe. Na Iliada, onde a ausencia de Achilles durante mezes deixou aos Gregos o campo livre e a obrigação de o substituirem, poude Homero ministrar a Ajax, a Diomedes, a Ulysses, a Merion, a Patroclo e a muitos outros, opportunidade a estrondosas valentias; mas na Eneida isso não era possivel em grande escala, sendo a ausencia de Enéas de quatro dias, e tendo elle ordenado á sua pouquissima gente que se defendesse das trincheiras e não se arriscasse a combater fóra. O que devemos admirar he a arte com que, vendo que a inacção esfriaria o interêsse, sustenta-o ingenhosamente, não só pelo arrôjo de Niso e Euryalo[3], como pela temeridade dos gigantes; a qual deu lugar ao valor de Mnestheu, de Seresto, e mesmo de guerreiros já velhos que defendiam seus muros, e faz apparecer a assombrosa intrepidez de Turno, como a necessidade e o geral desejo da vólta de Enéas. Effectuada ao quarto dia, apparece elle de manhã á vista do seu campo, e ganha uma victória antes de anoitecer. Nesta pressa, vê-se bem que, se o poeta se demorasse a pintar combates singulares e as façanhas de cada socio, não havia tempo de descrever a batalha, nem realçar o valor e proezas do heroe e do seu rival; o que essencialmente requeria o assumpto. Os conflictos pois da Eneida não sam como os da Iliada, mas como convinha que fôssem, dado o plano do poema. A destruíção de Troia era o fim de Achilles; o de Enéas, a fundação de uma nova: isto basta a provar que a Eneida não nos devia entretêr com tantos combates á maneira da Iliada, e que Virgilio obrou com descernimento.

680. — 678. — Deste passo em diante entra Mezencio com seu filho. Turno, tendo matado a Pallante, havia desapparecido por industria de Juturna; a qual, para o subtrahir ao braço do Troiano, o fez correr após a figura delle até chegar a uma nau onde o phantasma se havia refugiado, e nessa nau o transportou a Ardea. Remoto o general dos Rutulos, o substitue Mezencio; e, depois de assinalar-se com prodigios de valor, veio ás mãos com Enéas. Este o ia immolar, quando o brioso Lauso apara o golpe, o ataca, e morre víctima da piedade filial, não querendo ouvir os avisos do mesmo Enéas, que o mata com pezar. O que sabido por Mezencio, veio de novo encontrar-se com o vencedor de Lauso, e acaba tambem. Este pedaço he um dos melhores que a poesia antiga e moderna tem creado; mas o Troiano he arguido de contradictorio, porque, sendo pio, não lhe cabia dizer cousas picantes a Mezencio. Note-se porêm que Enéas só se mostra inexoravel desde a morte de Pallante; Pallante, que lhe fôra confiado por Evandro, a quem o heroe devia a alliança de Tárchon e os meios de conseguir a empresa; por Evandro, que tinha sido o hóspede e amigo de Anchises. A colera, tam natural em taes casos, he desculpavel; e o poeta deu mais uma prova de sabedoria no escolher o momento, sem faltar á verosimilhança, de attribuir ao seu Enéas a impetuosidade e furor de Achilles. Para gozar do titulo de pio, no sentido de certos criticos, seria necessario que se deixasse immolar, ou apenas se defendesse daquelles que procuravam arrancar-lhe a vida! Qual he o homem, por mais pio e humano, que algumas vezes não tenha rompido em amargas invectivas? Sendo Mezencio um formidavel campeão, que mesmo ferido pelejava galhardamente, e queria ou morrer ou matar, he bem natural que Enéas o mandasse adiante; o que tanto menos lhe devia custar, quanto mais odioso era o tyranno aos Tyrrhenos, seus alliados.




NotasEditar

  1. No original, está en.
  2. No original, aparece a numeração de verso 207 em vez de 287.
  3. Eurialo no original.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Livro XI


LIVRO XI.

Já do oceano a aurora despontava.

Bemque urja o tempo de inhumar seus mortos
E o turbe o funeral, no primo eôo
Piedoso o vencedor cumpria os votos.
       5N’um combro tancha desramada enzinha,
Veste-lhe de Mezencio o arnez lustroso,
Trophéo que a ti, Bellipotente, sagra:
Os dardos rotos, as sanguentas crinas
Lhe ata; á esquerda o pavez e a tiracollo
       10Suspende a eburnea espada. E assim de ovantes
Capitães escoltado, exhorta os socios:
«Fóra o temor, varões, que pouco resta
Por fazer; eis o espólio, eis as primicias
De um rei suberbo, que estas mãos puniram.
       15Eia, a Laurento agora: arma, arma, alerta;
Animo e fé! dos numes quando o aceno
Mova o campo, as bandeiras arrancadas,
Nem outro accôrdo vos detenha incautos,
Nem retarde os mancebos frouxo mêdo.
       20Entretanto os finados sepultemos,
Conta exigida no ínfimo Acheronte.
De feraes dons ornai-me os que esta patria,
Comprada com seu sangue, nos legaram;
Vá primeiro de Evandro aos tristes muros
       25Pallante, a quem não pobre de virtude
Mergulhou trago acerbo em noite escura.»
  Dice, e á tenda chorando se retira,
Onde o alumno defunto Acetes guarda,
Velho escudeiro do Parrhasio Evandro,

       30Zeloso aio do filho, mas não dado

Com tam feliz auspicio. A turba em cêrco
E os famulos em dó, conforme o estilo
Desgrenhadas o seguem phrygias donas.
Pelos altos portões mal entra Enéas,
       35Levantam crebros ais, nos peitos ferem,
E remuge o real do lucto e pranto.
Como elle o níveo corpo, a face e a testa
Sustida olhou, da ausonia choupa o rombo
No seio liso, em lagrimas rebenta:
       40«Pois surriu-me a fortuna, e a mim te inveja,
Moço infeliz, que o reino meu não visses,
Nem tornasses em pompa ao lar paterno?
Não foi esta a promessa a Evandro feita;
Que abraçado, á partida, ao grande imperio
       45Me propunha, e entre sustos me advertia
De que era aspera a guerra e forte a gente.
E ora talvez, de balde esperançoso,
N’ ara devoto offrendas accumula,
Quando ao joven, já quite dos Supremos,
       50Exequias vãs prestamos. Desgraçado!
O funeral cruel verás do filho!
Que triste vólta! oh sonho de triumphos!
Eis a fé minha! Mas com vis feridas
Não te envergonhará, nem, salva a prole,
       55Tu pae desejarás o eterno somno.
Ai! quanto, Ausonia, quanto, Iulo, perdes!»
Neste lamento, escolhe mil guerreiros,
Que o misero cadaver acompanhem,
Obsequio extremo, e ás lagrimas assistam
       60Do afflicto pae; devida, mas pequena
Consolação do nojo e trago ingente.
Brando esquife engradado alguns de vêrgas
De medronho e carvalho não remissos
Tecem, de folha o extructo leito ensombram.
       65Fica na agreste cama o excelso moço,

Qual por virginio pollice apanhada
Molle violeta, ou languido jacintho;
A quem brilho nem cheiro inda fallece,
Mas não vigora e nutre a mãe terrena.
       70Duas purpúreas opas recamadas
Enéas tira, em que a Sidonia Dido
Com doce esmêro trabalhara mesma,
As telas de ouro fino entretecendo:
Mesto, em honra final, véste uma ao joven,
       75Com outra a coma para as chammas véla.
Manda lanças, frisões e tanto espólio
Da laurentina pugna, em longa serie
Dispôr; e atrás das costas maniatados
Os que ás sombras destina e regar devem
       80A pyra com seu sangue; e os chefes tragam
De hostis arnezes troncos revestidos,
Onde inimigos nomes se insculpiram.
Conduzem de annos gasto o pobre Acetes,
Que a punhadas o peito, o rosto a unhas
       85Desfigurando, pelo pó se estira.
Vem do rutulo sangue o tinto coche;
E atrás, posto o jaez, humidas gottas
Ethon, fero corsel, dos olhos verte.
Vem o elmo e a lança; o mais roubou-lhe Turno.
       90Lento a phalange marcha etrusca e teucra,
De armas em funeral o arcadio bando.
Dêsque em ordem se alonga o sahimento,
Retem-se Enéas, e suspira e geme:
«A outros prantos nos chama a fatal morte.
       95Salve, eximio Pallante, e para sempre
Adeus, amigo, adeus!» Nem mais profere,
E aos arraiaes tornando o passo alarga.
Já de oliva enramados oradores
Latinos pedem venia, a fim que esparsos
       100Corpos sepultem, victimas da guerra;

Que a não tenha com mortos e vencidos;
Poupe os hóspedes seus, outrora sogros.[1]
Bom Enéas attende ás justas preces:
«Que ruim fado, accrescenta, nesta lide
       105Vos implicou, Latinos, que de amigos
Nos renegais? E a paz quereis sómente
Para os da luz privados nas batalhas?
Eu quereria concedel-a aos vivos.
A não ser o destino, eu cá não vinha;
       110Nem a gente combato. Ao jus de hospicio
Preferiu vosso rei de Turno as armas.
Turno he melhor que á morte se exposera:
Se expulsar-nos pretende, o pleito acabe
N’um duello comigo; e um de nós reste
       115A quem seu nume ajude ou seu denodo.
Sus, á fogueira os cidadãos mesquinhos.»
Dice: absortos se olhando mudos ficam;
E o velho Drances, que odiento e infesto
Sempre a Turno crimina: «Ó tu, responde,
       120Varão maior que a fama, como te alças?
Não sei que mais te louve ou mais admire,
Se o valor, se a justiça? Iremos gratos
Na patria o publicar, e, dado o ensejo,
Ao rei te unir: allianças busque-as Turno.
       125Altear apraz-nos a fatal cidade,
Troianas pedras carregar aos hombros.»
Finda, e um consenso unanime sussurra.
Doze dias, em tregoas, juntos vagam
Por monte e selva os Teucros e os Latinos:
       130Da bipenne o alto freixo ao córte soa;
Tomba o aereo pinheiro; as cunhas racham
De contino orno, roble, odoro cedro;
Ao carrear chiando as rodas andam.
E a Fama já, que apregoava ha pouco
       135De Pallante as acções, do immenso lucto

Enche Evandro e de Evandro a casa e os muros.
O Arcadio ás portas rue, e ao modo avíto
Péga brandões, que ao longo a via aclaram;
A procissão funérea os agros fende,
       140Co’a turba phrygia encontra-se em lamentos.
As mães, vendo-os entrar, com pranto lugubre
Toda a cidade accendem. Nada a Evandro
Poude contêr; atira-se no meio;
Sôbre o deposto féretro curvado,
       145Se abraça com Pallante, e geme e chora,
Até que a dôr á falla abriu caminho:
«Filho, a palavra assim me desempenhas
De entregares-te cauto ao cru Mavorte!
No primeiro certame eu bem sabia
       150Quanto o louvor he doce e a nova glória.
Tristes primicias, rudimentos duros
Da finítima guerra! ai! preces minhas,
Votos por nenhum deus jamais ouvidos!
Oh! no morrer feliz, mui casta espôsa,
       155Não provas este mal! Sobrei-te em annos
Para carpir extincto o nosso filho!
De hostis lanças coberto, eu dera est’ alma
Sob os socios pendões! Fôsse esta pompa
Só para mim, não para ti, Pallante!
       160Vossa alliança e hospício eu não argúo;
Sorte era, ó Teucros, da velhice minha:
Mas, se immaturo cahe, mil Volscos mata,
Ao Lacio vos guiando, honrado acaba.
Mais digno entêrro não terás, meu filho,
       165Do que Enéas celebra, e seus magnatas,
E etruscos chefes, e esquadrões etruscos:
Dos que enviaste ao Orco os trophéos trazem.
Tambem gran’ tronco em armas cá serias,
Se idade igual á tua o roborasse,
       170Turno. Mas que! pranteio e a pugna tardo?

Phrygios, o que lhe digo ao rei contai-o:
Se a luz nesta orphandade eu soffro, Enéas,
A tua dextra he causa, ao filho e ao padre
Olha que deves Turno: este o serviço
       175Que do teu brio espero e da fortuna.
Gostos na vida enjeito, nem me assentam;
Sim, no inferno os receba o meu Pallante.»
Almo lume a verter, o albor canceiras
Renovava aos mortaes. Na curva praia
       180Em pyras cada qual, Enéas, Tárchon,
Dos seus, usança velha, os corpos queima;
Na caligem dos fogos sotopostos
Se ennoita o céo. Tres vezes decorrendo
A infantaria, em fulgurantes armas,
       185A rogal chamma fúnebre circula;
Tres a cavallaria; e ululam todos:
O chôro arnezes banha, a terra ensopa;
Grita, clangor, mugindo os ares fere.
Uns lançam na fogueira o ganho espólio,
       190Guarnecidas espadas, elmos, freios,
Rodas ferventes; uns, de offerta aos donos,
Os broquéis nótos e infelizes dardos.
Hecatombes á morte, para a queima
Cerdos e nos contornos apanhada
       195Immolam grei: na praia arder observam,
Em suas pyras semiardidas velam
Sem despegar-se, até que humida a noite
Inverte o céo de estrellas marchetado.
Nem menos tristes os Latinos erguem
       200Fogueiras mil; dos seus enterram parte,
Levam parte á cidade e ás vizinhanças:
Em confuso montão, sem conto e nome,
He consumido o vulgo. Ao longe e ao largo
Á competencia os fogos alumiam.
       205Manhã terceira assoma; e, de altas cinzas

Doídos removendo os mistos ossos,
Terra sôbre elles tépida amontoam.
Mas na opulenta laurentina côrte
O alarido he maior, mais geme o lucto.
       210Mães, irmãs, noras, orphãos miseraveis,
Ferrenha guerra afflictos execrando
E os hymeneus de Turno, exigem que elle
No Lacio a primazia á espada obtenha.
Drances aggrava o caso, e attesta e jura
       215Que Turno a desafio he só chamado.
Muito a favor de Turno opinam varios:
Da raínha o respeito e a sombra o amparam;
Seu renome e trophéos o heroe sustentam.
Neste flagrante, em meio do alvorôto,
       220Do gran’ Diomedes pezarosos voltam
Com resposta os legados: nada as preces,
Nada os custos valeram da embaixada,
Nem dons em ouro; ou busque outra alliança,
Ou paz rogue Latino ao rei troiano.
       225Esmorece o bom velho em tanta angústia:
Que o céo protege a Enéas lhe confirmam
Irados numes, frescos os sepulcros.
Chama a conselho os principaes senhores;
Que logo, ao seu mandado, enchendo as ruas
       230Ao paço affluem. Do seu throno o digno
Ancião monarca, não com leda fronte,
Aos legados acena, e inquire e indaga
Com toda a pausa a etólica resposta.
Reina o silencio, e Vénulo obedece:
       235«Nós vimos, cidadãos, o argivo assento,
E, da jornada os riscos superando,
A mão tocámos que assolou Dardania.
Elle no apulio Gárgano Argyripa,
Cognome patrio, vencedor fundava.
       240Quando a vez tive, os dons lhe offerecendo,

Quem eramos declaro, e a guerra e causa
De em Arpo nos acharmos. Com socêgo
Nos torna o Grego: «[2]Ó reinos de Saturno,
Priscos Ausonios, venturosos povos!
       245Que fado a concitar vos solicíta
Ignotas guerras? Quantos profanámos
Com ferro Troia (os transes nella exhaustos
Omitto, e os que em si volve aquelle Símois)
Pelo orbe temos pago infandas penas,
       250Taes que Priamo proprio as lastimara:
Minerva o testemunhe, o Arcturo infausto,
O ultrice Caphareu, de Eubéa as penhas.
Dalli, de praia em praia desterrados,
Menelao de Proteu foi têr ás metas,
       255Aos Cyclopes trinacrios o Laercio.
De Pyrrho e Idomeneu subversos lares,
Ou lembrarei na Libya assentes Locros?
De vingar n’Asia um rapto ufano o Atrída
Rei dos rêis, por traição da atroz consorte,
       260Cahe do adultero ao ferro em seu palacio.
E o céo não me invejou revêr a patria
E a bella Calydona e a cara espôsa?
Hoje inda monstros horridos me assombram:
Perdidos socios (ai cruéis supplícios!)
       265Nos ares voam-me, aves da ribeira.
Com flébeis guinchos nos cachopos vagam.
Isto eu prevêr devia, malque insano
Corpos violei divinos, golpeando
A dextra a Venus mesma. A taes pelejas
       270Não me instigueis, oh! não. Dêsque assolada
Pérgamo foi, com Teucros nem combato,
Nem me recordo ou fólgo desses males,
Os dons que me offertais rendam-se a Enéas.
Com elle dardo a dardo e braço a braço,
       275Provei, crêde, quam lesto o escudo move,

Com que vortice esgrime ou gladio ou lança.
No Ida se dous varões como elle houvesse,
Dardania acommettera inachias plagas,
Trocara a Grecia os louros em cyprestes.
       280Em Troia pertinaz susteve os Graios,
Durante o assédio, a mão de Heitor e Enéas,
Que a victória dez annos retardaram:
Ambos no ânimo iguaes, iguaes no esfôrço,
Mais pio esse he. Tratai de congraçal-o,
       285E fugi de travar armas com armas.»
Eis a real sentença, ó rei sublime,
Sôbre tamanha guerra.» Dice; e corre
No conselho um murmúrio, como quando,
Seixos detendo o arrebatado rio,
       290No alveo ronca impedido, e em tôrno fremem
Da ribanceira as crepitantes ondas.
Quedo o alvorôço e placido o sussurro,
Ora aos deuses o rei, do throno falla:
«Eu, cidadãos, queria, e melhor fôra
       295Antes deliberar; não quando os muros
Preme o inimigo. Inopportuna guerra
Temos com taes varões, com diva estirpe,
A quem prelios nem cansam, nem vencidos
Sabem depôr o ferro. Se estribaveis
       300No etolo auxílio, o desengano chega;
Fie em si cada qual: fraca esperança!
Como em ruína as cousas nos declinam,
Vossos olhos o vêm, as mãos o apalpam.
Ninguem accuso: obrou-se o mais possivel;
       305Em pêso o reino se bateu brioso.
O que hei na dubia mente, agora em pouco
Vol-o explano; attenção. Proximo ao Tibre,
Sôbre as sicanas raias, para o occaso,
Agro antigo possuo; o qual semêam
       310Os Rutulos e Auruncos, e as collinas

Arando, em pasto o mais esteril deixam.
Esta região e o celso píneo monte
Ceda-se ao Teucro; e, justas leis dictadas,
Em amizade e em paz nos federemos.
       315Se o quer, fique e entre nós se estabeleça;
Mas, se outra gente, outro paiz prefere,
E ir-se daqui, naus vinte ou mais teçamos
De italo sôbro, as que precisas fôrem:
Madeira jaz á borda; elles prescrevam
       320Pontal, número, fórma; nós prestemos
Dinheiro, arsenaes, braços. E oradores
Cem d’entre os nobres deputar me agrada;
Que, nas mãos a oliveira, em brinde offertem
Marfim, talentos de ouro, e a trábea e a sella
       325Curul, do reino insignias. Em consulta,
Provêde ao bem do combalido estado.»
Drances, a quem de Turno a glória punge
De vesga e amara inveja, em bens profuso,
Mais largo em lingua, timorato e imbelle,
       330Não máo no alvitre, em sedições potente,
De incerto pae, da illustre mãe suberbo;
Se ergue, e em Turno carrega e incita as iras:
«Cousa, ó bom rei, suades nada obscura,
E escusas consultar. O que insta e cumpre
       335Cada um murmúra, e expôl-o não se atreve.
Fallar conceda, e a tumidez remitta
Quem, por funesto auspício, ambicioso
(Digo, e armado elle a morte me commine)
Extinguiu tantos cabos, e a cidade
       340E o povo enlucta; emquanto, em pés fiado,
Tenta o phrygio arraial e aterra o mundo.
Aos dons que ao Teucro, optimo rei, prodígas,
Um accrescentes, um; ninguem violento
Véde ao pae dar a filha a genro egregio,
       345Em laço eterno e honroso a paz segures.

Se he tanto o susto, humildes o obtestemos,
Peçamos venia; á patria e ao rei se digne
O jus nosso outorgar. Autor de angústias,
Porque impelles o Lacio a taes perigos?
       350Infausta guerra! a paz queremos, Turno;
O inviolavel penhor a paz confirme.
E eu, que a ti crês infenso (o que ora passo),
Eu te supplico para os teus piedade;
Cessa, e repulso vai-te. Assás matanças,
       355Vimos assás os campos desolados.
Ou, se a fama te pica e insito esfôrço,
Em dote se esta régia obter anceias,
Ousa, ao rival te afoutes peito a peito;
Nem, para que a princeza espose Turno,
       360Nós, vil turba insepulta e illagrimada,
O agro junquemos! Tu, se o patrio brio
Te anima e alenta, provocado arrosta-o.»
De Turno arde a violencia a taes dicterios;
Do imo suspira, em colera trasborda:
       365«Sempre em phrases abundas, quando a guerra
Pede obras, Drances; nos debates primas.
Contêr mal pode a curia essas bravatas,
Que, entricheirado a salvo, te borbolham,
Emquanto em sangue os fossos não se inundam.
       370Toa a usual facundia: eu sou cobarde,
Sim; tu Phrygios em pilha amontoaste,
Mil trophéos as façanhas te assinalam.
Teu vívido valor provar te cumpre:
He não longe o inimigo, os nossos muros
       375Em roda assalta; vamos encontral-o.
Como! tardas? ou sempre tens Mavorte
Nessa balofa lingua e fugaz planta?
Eu repulso! ha, villão, quem tal me assaque?
Será quem viu de sangue o Tibre inchar-se,
       380Quem de Evandro abatida a estirpe e casa,

O Arcade profligado? Certo Bicias
Não me arguirá, nem Pândaro e milhares
Que, na trincheira hostil encurralado,
Mandei n’um dia á Estyge victorioso.
       385Infausta a guerra? ao capitão dardanio
E a ti, louco, esse agouro. Embrulha, espanta,
Nem cesses de exaltar os bi-captivos
E deprimir as armas de Latino.
Do Phrygio ora estremecem Myrmidones,
       390Tydides ora e o Larisseu Achilles;
O Aufido o curso adriaco[3] desanda!
Finge o manhoso que de mim se teme,
Com seu medo fallaz me azéda o crime.
Nunca, descansa, mancharei meu braço;
       395N’um peito more torpe essa alma indigna.
Vólto-me, ó padre, agora aos teus projectos.
Se não tens confiança em nossas armas,
Se não muda a fortuna, e uma derrota
Nos destroe e nos perde sem regresso,
       400Paz roguemos, tendendo inermes dextras:
Bem que oh! se nos restasse o brio antigo,
Feliz na morte fôra e o mais egregio
Quem, por não vêl-o, o pó mordeu cahindo.
Mas, por nós frescas tropas se inda temos,
       405Florentes povos de ítalas cidades;
Se com tormenta igual de sangue e estragos
Tambem veio aos Troianos a victória,
Porque á primeira ignavos desmaiamos?
Trememos antesque a trombeta sôe!
       410Do tempo o vário andar melhora as cousas:
A muitos, que illudiu, fortuna instavel
Repoz em firme estado. Se Arpo etolia
O nega, auxílio nos darão Messapo
E o próspero Tolumnio, e os tantos cabos
       415De possantes nações; nem glória escassa

Aguarda a flor do Lacio e de Laurento;
E Camilla pugnaz, de illustres Volscos,
Turmas luzidas move e equestres fôrças.
Desafiado, apraz que eu só combata
       420Em proveito commum? não se me esquiva
Tanto a victória, que intentada enjeite
Essa esperança. Um proprio Achilles seja,
Vista e maneje o heroe vulcanias armas,
Contra animoso irei. Somenos Turno
       425A nenhum dos avós, te voto, ó patria,
E sagro esta alma. Enéas só me chama?
Chame, eu peço. Nem antes pague-o Drances,
Caso que o céo funesto se nos torne;
Nem sua intrepidez nos tire a palma.»
       430Entre a dubia contenda, o campo Enéas
Levanta e marcha. Um nuncio alvoroçado
Corre ao paço, e a Laurento enche de susto:
Que o teucro e tusco exército em batalha
Desce do Tibre, invade-se a campanha.
       435Turba-se o vulgo, os peitos se conturbam,
Não leve estímulo os furores cresce:
Armam-se á pressa, o moço armado freme,
Lamenta e rosna o velho; os ares fere
O discorde multíplice alarido:
       440Al não succede, se volateis bandos
Pousam no bosque, ou soam do piscoso
Pado em loquazes tanques roucos cysnes.
Turno o instante aproveita: «He bem, consocios,
Reuni conselho[4], a paz louvai sentados;
       445Elles de assalto ruam.» Nem mais dice;
Larga impetuoso a régia: «Tu, Voluso,
Volscas esquadras prestes, guia os Rutulos;
Messapo, e vós irmãos Catillo e Coras,
Derramai na planície os cavalleiros;
       450Parte as entradas guarde e occupe as tôrres;

A mais hoste me siga.» Eis da cidade
Corre-se aos muros. O conselho o mesmo
Latino pae suspende, e seus projectos
Nesta consternação tristonho adia:
       455Muito se accusa de não têr a Enéas
Por genro acceito e associado ao reino.
Pedra e estrepes carretam, fossos cavam:
Roncam buzinas o cruento a l’arma.
O muro, em varios grupos, lance extremo!
       460Coroaram matronas e meninos.
Dadivas, de Minerva ao celso alcaçar,
Com suas damas a raínha leva;
E ao pé, submissos os decoros olhos,
Vai, do mal causa insonte, a virgem filha.
       465As mães da comitiva o templo incensam,
Espargem do limiar carpidas vozes:
«Deusa da guerra, armipotente Pallas,
Quebra ao phrygio ladrão tu mesma a lança,
Prostado o abate, ás portas o destroça.»
       470Turno fogoso aos prelios se apparelha:
Já rutula coiraça eri-escamosa
Veste horrente, e nas pernas grevas de ouro,
Inda nu da cabeça, a espada á cinta,
Do castello, fulgindo, alegre pula,
       475E na idéa o triumpho se afigura:
Como, o cabresto quando emfim rebenta,
Livre o cavallo o aberto campo goza;
Ou vai-se ao pasto e ás eguas; ou, do rio
Nóto o banho, se deita á funda vêa,
       480A cerviz a entonar, viçoso rincha,
Brincam-lhe as crinas pelo collo e espadoas.
Vem Camilla encontral-o, e descavalga
Ás portas a raínha, antesque o façam
As volscas turmas, que depois a imitam.
       485«Turno, diz, se tem jus uma alma nobre

De em si crêr, de arrostar eu só te fico
Ilias cohortes, cavalleiros tuscos.
Estrear me permitte a guerra e os transes;
Tu defende as muralhas a pé firme.»
       490Turno olhos fixa na tremenda virgem:
«Que assás graças te posso, honra de Italia,
Aqui render? mas, já que a tua audacia
Tudo excede, comigo os riscos parte.
Enéas, como espias m’o confirmam,
       495Cavallaria avança que ligeira
Bata a campanha, e de ermos e arduos montes
Contra a cidade se despenha astuto:
Traço estar de emboscada em curvo atalho,
Soldadesca cercando as fauces bívias.
       500Tu, juntos os pendões, cahe nos Tyrrhenos;
O acre Messapo e as tiburtinas hostes
E as do Lacio terás: commanda em chefe.»
Vôlto a Messapo, o exhorta e os cabos todos,
E em busca do conflicto o passo aperta.
       505Apto ao bellico dolo, um valle inflexo,
Negra espessura o encerra; onde uma trilha
Por estreita garganta a custo guia.
Jaz de cima n’um cume, a cavalleiro,
Planura ignota, abrigo retirado,
       510Quer tentes atacar á dextra e á sestra,
Quer volver do cabeço enormes galgas.
Lá chega o joven por sabidas sendas,
E de atalaia está na iniqua selva.
Entretanto Latonia á veloz Opis,
       515Do seu virgineo côro uma das nymphas,
Lá no Olympo sentida assim fallava:
«Camilla, a quem mais prézo, á cruel guerra
Parte, cingida em vão das armas nossas;
Nem, Opis, este amor veio improviso
       520Obrar com doce estímulo em Diana.

Metabo, de Priverno antiga expulso
Por odio e prepotencia, entre os conflictos
Salva a trouxe do exílio companheira,
Tenra menina; com mudança pouca,
       525Da mãe Casmilla a nomeou Camilla.
Com ella ao collo por desertos soutos,
Longinquos serros, circumfusos Volscos
A perseguil-o a dardos o opprimiam.
Da fuga em meio, as nuvens desabando,
       530Eis o Amaseno alluvioso espuma:
Quiz nadar, mas temendo se reteve
Pela querida carga. Em si revolve,
E decide-se emfim: na mão robusta
Guerreiro tinha, de tostado sôbro,
       535Rija e nodosa lança; embrulha a filha
N’um cortiço, accommoda e a liga n’hastea;
E, com fôrça a libral-a, assim depreca:
«Alma virgem Latonia, a ti, cultora
Dos bosques, eu seu pae t’a voto serva;
       540Súpplice na tua arma eil-a que foge
Do inimigo; recebe-a, deusa, he tua,
Eu, t’a encommendo pelas dubias auras.»
Dice, e o bucho contrahe, o hastil contorce:
Brame o rio; a infeliz por cima voa
       545No estridente arremêsso. Então Metabo,
Urgido mais e mais, se entrega ás aguas;
Da relva, em que a depoz, na lança a virgem
Arranca vencedor. Nem tecto ou muro
O acolheu, nem as mãos altivo dera:
       550Solitario pastor vivia em brenhas;
E alli, criando a filha em gruta brava,
De egua armental ás tetas, lhe mungia
Ferino leite nos mimosos labios.
Mal que a pino a menina as plantas firma,
       555Dardo agudo pejando-lhe as mãozinhas,

Pendura-se-lhe ao hombro aljava e arco;
Por aurea coifa, por comprido manto,
Á costas lhe descahe tigrina pelle:
Já frechas pueris brincando joga,
       560Da cabeça em redor voltêa a funda,
Grou derriba strymonio ou branco cysne.
Nora a desejam muitas mães tyrrhenas;
Mas, dedicada a Phebe, amor eterno
Rende ás settas pudíca e á virgindade.
       565Oh! se bellaz não provocasse os Teucros,
E ora me fôsse companheira cara!
Sus, nympha, já que a preme atroz destino,
Do polo baixa manso onde os Latinos
Pugnam com sestro agouro. Ouve, e do coldre
       570Ultriz frecha prepara: Italo ou Phrygio,
Quemquer que a vulnerar sagrada e bella,
Com seu sangue m’o pague. Em nuvem cava
Trarei não desarmada a miseranda,
Porque em patrio jazigo a deposite.»
       575Não mais; e ella, em nublado escuro involta,
Pelas auras sonora se deslisa.
Mas já Teucros e Etruscos se appropinquam,
Toda a cavallaria em turmas certas:
Freme o sonípede, a pular garboso,
       580E aqui virado e alli, relucta ao freio;
Horrida em ferrea messe, arde a campina.
Com os latinos céleres Messapo,
E Coras com o irmão, Camilla e os Volscos,
Apparecendo oppostos, longe vibram
       585Zargunchos e hastas, retrahindo os braços:
De homens ferve o tropel, relinchos fervem.
A tiro, as hostes ambas fazem alto:
Rompe a cuquiada, incitam-se os cavallos;
Granizam como neve espessos dardos,
       590Que o céo tornam sombrio. Em reste as lanças,

Tyrrheno e Acônteo acerrimo ruídosos
Se investem logo, e os brutos se abalroam
Peito com peito: sacudido Acônteo,
Qual por trabuco o pêso, ou como raio,
       595Se precipita, e no ar a vida esparge.
Turbam-se; e, adargas para trás virando,
Os Latinos de trote aos muros voltam.
No alcance, o bravo Asylas quasi ás portas
Leva os Troas; e, em grita os collos dóceis
       600Revirando o inimigo, á redea sôlta
Por turno retrocedem: não diverso
Da maré que, alternada, ou rola ás terras,
E os cachopos orvalha, espuma e ronca,
Té lavar sinuosa a extrema arêa;
       605Ou, resorvidos os revôltos seixos,
Na ressaca lambendo ás praias foge.
Ora o Toscano ao Rutulo rechassa,
Ora o broquel tambem lhe ampara as costas;
Mas, no terceiro choque, barba a barba
       610Travam geral batalha: em ais e em gritos
Varões, corséis morrendo, e corpos e armas
Em sangue rodam, n’aspera carnagem.
A hasta ao frisão (que a Remulo tem medo)
Brande Orsilocho, espeta-o sob a orelha:
       615Da ferida o quadrupede impaciente,
Empinado, aos corcovos, escoucêa;
Vasa em terra o senhor. Catillo a Iolas
Derriba, e ao forte e corpulento Herminio;
Que nu de hombros, sem elmo a flava coma,
       620Rojões despreza, aberto affronta os golpes.
Fixo na larga espadoa o dardo treme;
O varão se contorce e á dôr se encurva.
O cruor mana, estragos multiplicam;
Mata-se, ou busca-se acabar com honra.
       625De aljava, cérceo um peito, em ar Camilla

De Amazona, entre a clade ufana e salta;
Já com pulso indefesso amiuda settas,
Já prompta esgrime a válida bipenne:
Soa o aureo carcaz, da Trívia as armas.
       630Se o dorso alquando vira, em retirada
O arco frechas alígeras despede.
Tulla a escolta e Larina, e erea secure
A manejar Tarpeia; ítalas virgens
Que, á divina senhora a côrte ornando,
       635Sam ministras na guerra e paz ditosa:
Quaes, de pintado arnez guerreiras thracias,
O Thermodonte as Amazonas pulsam;
Ou de Hippolyte em cêrco, ou da mavorcia
Raínha após o coche, uivando exulta
       640Com lunados broquéis femínea turba.
Quem primeiro, quem último, acre virgem,
Provou teu braço irado? a quantos prostras?
De Clycio o filho Euneu, com longo abeto
O opposto seio traspassado, arroios
       645Vomita rubros, traga o chão cruento,
Na chaga moribundo a convulsar-se.
Págaso e Liris cahe, um que ao varado
Bruto a cambalear sustinha as redeas,
O outro ao socio tendendo a inerme dextra;
       650A par os precipita. Ajunta o Hippotio
Amastro; enresta a lança, e a Demophoonte,
Chromis, Tereu e Harpalyco, persegue:
A môça a cada bote um varão mata.
Caçador, mas bisonho, Ornyto assoma
       655Em ginete iapygio: os hombros largos
Lhe arreia o espólio de brigão novilho;
Tem por elmo lupina ampla guela
E a queixada em que alveja a dentadura;
Empunha agreste chuça, e bizarrêa
       660E sobrepoja a todos. Ella o aterra

Sem trabalho, as catervas derrotadas;
Sôbre o corpo chasquêa: «Que! Tyrrheno,
Crêste que monteavas? chega o dia
Em que hasta mulheril te abata as roncas;
       665Porêm, não leve glória, aos patrios manes
Conta que de Camilla ás mãos succumbes.»
Rompe a Orsílocho e Butes, dous gigantes:
Entre o casco e a loriga a ponta em Butes
Crava, onde ao cavalleiro brilha o collo
       670E á séstra o escudo pende; em grande gyro
Do outro fugir simula, e mais por dentro
Corta as vóltas, seguindo o que a seguia:
Eil-a, alçada, a secure em armas e ossos
Mette ao varão que implora, os golpes dobra;
       675Quente no rosto o cérebro se esparge.
Com ella topa, estupefacto embaça
Do apenniniculo Auno o pugnaz filho,
Ligure em tretas guapo, emquanto poude.
Vendo que sem remédio era o combate,
       680Poisque instava a raínha; ardis e astucias
Comsigo meditando, assim começa:
«Em ligeiro frisão, mulher, te fias?
Não fujas, de mais perto em livre campo
A pé vem pelejar: saberás presto
       685A quem seja damnosa a fofa glória.»
Dice: ella em furia, accesa em dôr austera,
Dando o ginete á sócia, a pé galharda,
Ferro nu, puro o escudo, igual o espera.
Elle, o dolo efficaz julgando, abala,
       690Torce a brida na pressa, e com ferrado
Calcanhar o quadrupede esporêa.
«Ligure fanfarrão, de balde ufano,
As patrias artes lúbrico tentaste;
Salvo a teu pae a fraude não te renda.»
       695Nisto, ígnea a virgem com velozes plantas

Passa o cavallo, adversa o freio prende,
E se despica no inimigo sangue:
O sacro açor tam facil de alta penha
Adeja, empolga a remontada pomba,
       700De unhas aduncas no ar a desentranha;
Chove o cruor de cima e avulsas pennas.
Não descuidado olhando, o pae supremo
Do Olympo isto contempla; e, ao sevo marte
O etrusco Tárchon suscitando, o irrita
       705E estimula e exaspera. Entre a matança
E as frouxas alas eil-o a trote corre,
Grita aos seus, um por um nomêa e instiga;
Alenta e o prelio instaura: «Ó vis Tyrrhenos,
Fracos sempre e insensiveis, tanta ignavia,
       710Tal medo vos quebranta? as vossas turmas
Uma mulher derrota e as afugenta.
Porque o ferro cingis e empunhais lanças?
Lerdos não sois de noite em cyprias lides,
Ou, se aos coros vos soa a curva tibia,
       715Para o banquete lauto e lieus copos;
Vosso amor, vosso estudo: aos bosques santos
Ide, hostia gorda e o augur vos convida.»
Então, perecedouro, o bruto pica,
Turbido aferra a Vénulo e o desmonta,
       720Abraçado com impeto o arrebata.
Clamor se ergue; ante os olhos dos Latinos,
Tárchon fulgureo voa, e pelo campo
Leva o armado varão: quebra-lhe a choupa
Da haste, e a parte esquadrinha onde lh’a enterre.
       725Fôrça elle oppondo á fôrça, renitente
Sustêm, repelle do pescoço a dextra.
Quando aguia fulva a surto prêa a serpe,
Pés nella e a garra implica; vulnerado
O dragão volve as sinuosas roscas,
       730Hirta a escama, se enrija e silva e empina-se;

A aguia de bico adunco urge-o luctante
Mais e mais, e aleando açouta os ares:
Tárchon não menos da tiburcia prêsa
Folga; os Meonios com o exemplo investem.
       735Aqui, fadado á morte, o dardo em punho,
Á pista Arunte da veloz Camilla,
Catando a occasião, por onde as turbas
Furente ella penetra, cauteloso
A rodêa, e por onde vencedora
       740Do inimigo reverte, a furto o joven
Retorce tacito a ligeira brida;
Esta aberta em circuito e aquella tenta,
Improbo o dardo a menear certeiro.
Chloreu sacro a Cybele, outrora antiste,
       745Brilhando em phrygio arnez, mettia o espumeo
Ginete em obra, com xairel de pelle
De enea malha e aureas plumas recamado:
Luz em ferrenha púrpura estrangeira,
Lycio o corno a vibrar cortynias frechas;
       750Dourados arco e morrião lhe tinnem;
Crócea a roupa, do linho os rugidores
Seios colhe em nó fulvo, e tem bordadas
A tunica e as barbaricas polainas.
A virgem, porque em templo insignias troicas
       755Fixe, ou caçando fulja em aureo espólio,
Cega após elle, sem que os mais lhe importem,
Incauta se abrazava, entre as fileiras,
No amor femíneo da vistosa prêsa.
Eis que a tempo á traição dardeja Arunte,
       760Depois que assim depreca: «Summo Apollo,
Do Soracte custodio venerado,
Em cujo culto píneo ardor cevamos,
E afoutos na piedade, em vivas brazas
Entre a fogueira os passos imprimimos,
       765Dá-me apagar, ó padre, a nossa injúria.

Trophéo não peço da prostrada virgem,
Nem seus despojos, honrem-me outros feitos:
Como ao golpe desta arma a dira peste
Derribe, á patria me retiro inglório.»
       770Parte lhe ouviu do rôgo o deus benigno,
Parte em auras dissipa: á morte annúe
Da sorpresa Camilla, mas lhe nega
Revêr a excelsa patria; e pelos nôtos
As procellas a voz lhe dispersaram.
       775Ao despregar da rechinante vira,
Convergem todos á raínha os Volscos
Turbidos olhos. Ella não pressente
O ar, o estridor, a farpa, até que á cércea
Mama ferra-se a ponta e funda o sangue
       780Virgineo bebe. Acodem logo as socias,
Trépidas a senhora sustentando.
Entre alegria e susto Arunte escapa-se;
Nem mais confia em dardo, nem da virgem
Arrostar ousa as lanças. Quando o lobo,
       785Antesque os tiros chovam, por desvios
Vai-se, morto o pastor ou nedio almalho,
Na montanha esconder; conscio da audacia,
Pavido o rabo encolhe e as selvas busca:
De evadir-se contente, assim medroso,
       790Arunte no tropel desapparece.
A haste ella a morrer saca; mas o ferro
Pregado ás costas fica-lhe entre os ossos.
Desmaia, baça a vista, exsangue e fria;
Desbotam-lhe no rosto as frescas rosas.
       795A donzella, a expirar, dos seus cuidados
Á confidente e mui querida falla:
«Mais, Acca irmã, não posso; ao golpe acerbo
Falleço, e tudo se me ennoita em roda.
Já, leva de Camilla o final termo:
       800Turno succeda-me, e repilla os Teucros.

Adeus, adeus.» E então largando as redeas,
Da sella cahe; gelada a morte aos poucos
Solve-lhe o corpo, languida a cabeça
E o collo pousa, demittindo as armas;
       805Geme e agastada a vida aos manes baixa;
Subito grita immensa atroa os astros,
Mais se encruece a pugna; em mó concorrem
Teucros, Tyrrhenos e de Evandro as alas.
Mas, por Diana, ha muito em celso monte
       810Espreita Opis impávida as pelejas;
E, avistando entre os jovens clamorosos
Ao passamento a víctima rendida,
Exclamou suspirosa: «Ai! triste virgem!
De encarares o Phrygio atroz castigo!
       815Honrar a Trivia por desertos matos,
Nem hombrear valeu-te aljavas nossas.
Porêm tua raínha em tal affronta
Não sem lustre ou renome te abandona,
Nem morrerás inulta. As justas penas,
       820Quemquerque seja o temerario, pague-as.»
De um teso ás faldas, sob azinha opáca,
Do lacio rei Dercenno havia antigo
De terreo acervo o mausuléo: parando
O impeto alli, do combro a nympha bella
       825Pesquisa Arunte; a relumbrar tumente
Como o avistou: «Vem cá; porque te afastas?
Recebe de Camilla os dignos premios.
Que! vam manchar-se em ti de Phebe as armas?»
Dice, e do aureo carcaz ligeira setta
       830Qual Thracia tira, e infensa o corno atesa,
Encurva e puxa, até que ajunta as pontas,
E toca a séstra mão no ferro agudo,
Na têta o nervo e a dextra: simultaneo
Ouve Arunte o zunido e o ar sonoro,
       835Sente o farpão no corpo. Em mortaes vascas

No ignito pó gemendo, os seus o esquecem;
E Opis libra-se, adeja á casa etheria.
Morta a raínha, a leve turma foge;
Fogem Rutulos, foge o mesmo Atinas;
       840Chefes e esquadras, por salvar-se, ao muro
Em confusão galopam destroçados.
Ninguem resiste aos sitibundos Phrygios
E aos letíferos dardos: mal sustentam
Os bambos arcos nos languentes hombros;
       845No trote o chão pulvéreo as patas batem.
Volve ás muralhas turbida caligem;
E dos balcões, os peitos lacerando,
Aos céos clamor femíneo as mães levantam.
Os que attingem primeiro as francas portas,
       850Baralhado o inimigo os acabrunha:
Ao patrio umbral, da morte não se evadem;
Em seus lares expiram traspassados.
Parte, os portões cerrando, abrir não ousa,
Nem recolher os socios que o supplicam:
       855Dos que prohibem, dos que entrar forcejam,
Nasce triste matança; atroz conflicto!
Os de fóra, ante os paes e as mães chorosas,
Uns, na ância, aos fossos em despenho rolam,
Uns, sôlta a brida, no alvorôto cegos,
       860De encontro a hombreiras e batentes marram.
Camilla ao vêrem (santo amor da patria!),
No último transe intrepidas matronas
Das amêas por ferro precipitam
Pértigas, fustes, achas; e as primeiras
       865Por morrer na defensa alli se inflammam.
Na emboscada porêm, cruel notícia!
Acca enche a Turno do tumulto ingente:
Que, perdida Camilla e os Volscos rotos,
O hostil próspero marte arrasa tudo;
       870Que avança o Phrygio, e o medo ganha os muros.

Furente (assim o quer severo Jove)
O aspero colle e fauces desoccupa.
Extra-alcance, mal que elle os campos toca,
Entra a livre espessura o padre Enéas,
       875Supera o cume, sahe da escura selva.
E entre si longos passos não distando,
Ambos em veloz marcha aos muros correm.
Tanto que a fumear enxerga Enéas
Poento o plaino e os batalhões laurentes;
       880Turno as armas conhece e o bravo chefe,
E o nitrído e o tropel dos brutos ouve.
Logo a batalha e as brigas travar-se-iam,
Se já no ibero ponto o roseo Phebo
Os cavallos cansados não tingira,
       885Cedendo á noite o dia. Ante a cidade
Assentam-se arraiaes e se entrincheiram.




NotasEditar

  1. No original, há aqui aspas injustificadas, suprimidas na segunda edição.
  2. No original, não há aspas nesse lugar.
  3. ádriaco no texto original; erro tipográfico corrigido na segunda edição.
  4. concelho no texto original; erro tipográfico corrigido na segunda edição.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Notas ao Livro XI


NOTAS AO LIVRO XI.

22-181. — 20-177. — As bellezas que ha nestes funeraes, na pintura do aio Acetes, e na do misero Evandro que ficava sem posteridade, não se podem enumerar; he mister sentil-as. Esta nota he para justificar Virgilio de duas arguições: 1º que o pio Enéas immola no túmulo de Pallante alguns dos prisioneiros; 2º que elle mata, no desfecho do poema, o seu rival Turno, apezar das preces do vencido. — Quanto á primeira arguição, opponho que pius significa religioso, temente aos deuses, amante de seu pae e familia; e, aindaque extensivamente signifique compassivo, a superstição e o habito arrastavam o chefe a crêr indespensavel tam barbaro sacrificio para aplacar os manes do morto. Enéas, bem que amigo da justiça, tinha as preoccupações do seu tempo, e a dureza de guerreiro o assaltava tambem: o seu natural o levava á compaixão; a colera, que lhe accendera a morte de Pallante, emprestou-lhe a crueldade que exerceu. Virgilio certamente não approvava esta acção; mas quiz nella pintar aquelle seculo feroz, em que os proprios homens bem formados não sabiam sopear sempre os impetos da vingança. E nós os christãos, criados com o leite puro da vera doutrina, esclarecidos á luz do evangelho, não temos por grandes e pios, mesmo por santos, a homens que obraram peior que Enéas? Se lhes perdoamos, devemos desculpar o furor de um pagão. Repetirei o que dice em outra nota, que Enéas só foi duro depois que lhe roubaram Pallante; e com taes rigores tambem tinha em vista aterrar e abreviar a guerra. De mais, a experiencia mostra que a ira he desmedida nos que raramente sam della assaltados. — Quanto á morte de Turno, a crítica nem mereceria resposta, se não fôsse tantas vezes renovada. Escolhi este lugar para a combater, por ser nele que vem a plena justificação do poeta. Enéas, acolhido pelo antigo hóspede de Anchises, tudo obtem da sua benevolencia, guerreiros, cavallos, víveres, a alliança de Tárchon e dos Tyrrhenos: e até um filho unico lhe confia Evandro, apezar dos seus tristes pressentimentos. Pallante, na flor dos annos, bravo, generoso, depois de ter obrado prodigios de valor, morre ás mãos de Turno, não em um encontro fortuito, mas por querer de proposito o rei dos Rutulos causar tamanha dôr ao pae, e mesmo na occasião dice que desejava alli a Evandro para testemunhar a scena. Soube-o Enéas, accusa-se de não ter precavido aquelle desastre; faz ao morto um pomposo funeral, e o envia a Pallantéa. Evandro sólta-se em pranto; mas a final, como se Enéas estivesse presente, rompe nestas vozes: «Se a luz nesta orphandade eu soffro,
Enéas, A tua dextra he causa, ao filho e ao padre Olha que deves Turno: este o serviço Que do teu brio espero e da fortuna.» E este recado he enviado ao heroe troiano. Encontram-se os dous rivaes, rende-se Turno, e aos seus rogos Enéas quasi ia cedendo, quando vê o talim de Pallante ao hombro do seu vencedor; então, lembrado das preces de Evandro e dos seus deveres para com elle, immola a Turno, dizendo-lhe que era Pallante quem naquelle golpe o matava. Se Enéas em taes circumstancias lhe perdoasse, por certo obraria como um anticipado discipulo de Christo, mas não obraria bem segundo as idéas e opiniões do seu seculo, e segundo as obrigações contrahidas para com Evandro. Eu sublinhei o adverbio quasi, porque Virgilio, que julgava ser uma necessidade para Enéas aquella morte, não diz que tivesse lugar só por causa do talim, mas que tal apparecimento lhe apagou a momentanea compaixão. Se acontecesse o contrario, então he que devia Enéas ser tido por um bom córte de frade capucho, como alguns lhe tem chamado. — Nos versos que abrange esta nota lê-se o que elle tornou em resposta aos embaixadores latinos, quando vieram pedir tregoas para enterrar os mortos: «E a paz, diz entre outras razões, quereis somente Para os da luz privados nas batalhas? Eu quereria concedel-a aos vivos.» Isto, a repugnancia com que matou a Lauso, o duello que offerece para evitar effusão de sangue, as generosas condições que propoz no caso de vencer, ao revez das de Turno e Latino, convencem da injustiça com que Mr. Amar, comparando Enéas a Achilles, diz assim de Virgilio: «Si du moins il prêtait de temps en temps à son héros ces retours de sensibilité que l'on retrouve avec tant de plaisir dans Achille lui-même!...» De sorte que, na opinião de Mr. Amar, em Achilles ha mais toques de sensibilidade que em Enéas! E este nem de tempos a tempos a tem!!

225-293. — 219-285. — Este pedaço, bem pouco apreciado, he um dos mais bellos, e em que mais se mostra a philosophia do autor. Latino e Turno deputam Venulo a Diomedes, pedindo-lhe auxílio contra Enéas: Diomedes recusa, e o poeta põe o elogio da paz na bôca desse guerreiro, que outrora só conhecia o jus da espada, e se atreveu a acommetter e ferir o proprio deus Marte[1]. Repare-se na habilidade do poeta em o fazer tecer os louvores de Enéas, lembrando o combate que ambos tiveram, como consta da Iliada liv. V. O que porêm assinaladamente se deve approvar, he o patriotismo com que Virgilio aproveita a occasião de recommendar o repouso de que necessitava o seu paiz, depois de tantas e tam cruas guerras intestinas.

300-485. — 292-469. — No conselho por Latino convocado, que principiou alguns versos atrás, sam admiraveis os discursos do rei, de Drances, e mórmente o de Turno: a prudencia e o fim pacífico
de um, as insinuações cavillosas e o zêlo emprestado ao outro pela inveja, a fôrça de razões e movimentos que ha no terceiro, collocam Virgilio entre os mais eloquentes oradores, que tem sabido graduar as paixões e casar a facundia com a logica. — Observe-se como Turno, ao annúncio de que vinha o rival sôbre a cidade, por si delibera, toma todas as medidas, marcha a encontrar o inimigo. — No meio da consternação, mulheres e meninos estam defendendo os muros; e com suas damas leva dons a Minerva a raínha Amata, ao pé da qual se acha Lavinia de olhos baixos e calada. Alguns criticos, suppondo que as donzellas na antiguidade eram como certas modernas, bem fallantes e rhetoricas, a cortar em política e a decidir questões de chimica e mesmo de anatomia, ralham contra a introducção desta personagem muda; mas Virgilio, que melhor conhecia estas cousas do que quanto La Harpe tem havido, viu bem que a princeza, creada ao bafo materno e submissa á vontade paternal, sem têr amor a nenhum, devia sujeitar-se ao que fôsse de proveito ao reino; e, se as instancias da mãe advogavam por Turno, os desejos do pae e os oraculos, a que por sua idade e educação dava assás pêso, a punham em balança; e eram proprias da sua situação a expectativa e a neutralidade. O caracter de Lavinia, longe de ser uma falta no poeta, he mais uma prova do seu juizo.

649. — 625. — Deste verso em diante Camilla, atrás já mencionada, apparece na scena e a enche quasi toda até o fim deste livro. Attente-se em que o poeta, havendo no VII descripto as outras personagens contrárias aos Troianos, menciona Camilla com menos extensão: esta reserva foi calculada; porque, se alli se tivesse contado o nascimento e a educação da virgem, o leitor poderia ter esquecido essas miudezas, e têr-se-ia perdido parte do interêsse da sua morte; interêsse que em grande parte mana das primeiras circumstancias da vida da heroina. Acha-se na mesma pagina tudo o que a torna insigne: seu nascimento, as scenas da infancia, as esperanças da mocidade, sua glória, sua morte emfim, ante a qual vai tudo murchar.

689. — 666. — Mr. Amar deste applauso que se dá Camilla, dizendo que he honroso cahir ás mãos de uma heroina como ella, a justifica pelo calor da acção e pela embriaguez do triumpho. Mas accrescenta que o heroe não tem a mesma excusa, porque, sendo pio, não devera (liv. X, v. 830, ou 815-816 da traducção) dizer a Lauso que era uma consolação morrer ás mãos do grande Enéas. — Mas entre os guerreiros, como se vê aqui e se lê em Ossian, era consolador acabar ás mãos dos bravos; e o dito de Enéas, que em outra occasião seria uma jactancia, mostra a compaixão do heroe, que assim quiz adoçar os derradeiros momentos de Lauso.




NotasEditar

  1. Na verdade, Diomedes feriu Vênus; lapso de Odorico.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Livro XII


LIVRO XII.

Turno, lendo nos olhos dos Latinos,

Lassos do adverso marte e esmorecidos,
Que exigem-lhe a promessa, ignito e fero,
Mais se exaspera e mais. Qual, de afras brenhas
       5Ferido o leão no peito, encrespa as garras,
Do collo folga a sacudir a juba,
Do caçador estala o fixo dardo,
Ruge-lhe impavido a cruenta bôca;
Tal cresce a furia do abrazado moço,
       10Que embravecido ao rei dest’arte falla:
«Turno he prestes; não ha por que o recuse,
Nem retracte a palavra o Troa ignavo.
Já marcho: immola, ó padre, o ajuste assella.
Ou d’Asia o desertor eu só na Estyge
       15Despenho (assista o exército em repouso)
E a querella commum vinga este braço;
Ou vencido me entrego, e mais Lavinia.»
  Tranquillo então Latino: «[1]O’ bravo joven,
Quanto em brio te excelsas, mais me cumpre
       20Temer por ti, pesar-te os casos todos.
Muito has valente a herança accrescentado;
Nem ouro falta e ânimo a Latino:
Possue Laurento e o Lacio outras donzellas
Não somenos. Verdades sem rebuço
       25Desabridas me escuta, e não te enojes.
A filha (homens e deuses m’o cantavam)
A nenhum proco antigo unir cabia:
Mas por nossa amizade e parentesco,
Pelo chôro da espôsa o nó desfeito,

       30Ao genro a fé quebrei com impias armas.

D’então vês quantos males hei soffrido;
Que transes tu mórmente. Já perdidas
Acções duas, de Italia nestes muros
Jaz a esperança; o campo alveja de ossos,
       35Mana do sangue nosso o Tibre quente.
Que indicisão! que insania me trastorna!
Se, Turno extincto, associal-os devo,
Porque, elle salvo, a guerra não termino?
Os consanguíneos Rutulos, a Italia
       40Que não dirá, se á morte (longe o agouro!),
Quando a filha me pedes, eu te exponho?
O lance he dubio; o velho pae condoas,
Que em Ardea lá te aguarda e lá te chora.»
Turno impaciente não se dobra: o achaque
       45Mais se aggrava ao remédio. Apenas poude:
«Por quem es, brada, ó pae, de mim não cures;
Deixa-me a escolha de acabar com honra.
Eu tambem sei jogar a espada e a lança,
E aos golpes deste pulso escorre o sangue.
       50Não tem cá deusa mãe que em névoa o encubra
Femínea, ou sombras vãs em que se esconda.»
Treme a raínha á condição da justa,
Retem desfallecida o ardente genro:
«Turno, por este pranto, se has de Amata
       55O pundonor a peito (pois columna
Me es na velhice, e de Latino o imperio
E inclinada esta casa em ti se esteia),
Desse duello desiste: eis quanto peço.
Delle, Turno, o teu fado e o meu depende;
       60A luz odiosa deporei comtigo,
Nem genro o salteador verei captiva.»
Á voz materna, em lagrimas Lavinia
Incende as faces, de rubor corando;
Fogo instantaneo o vulto lhe escandece:
       65Tal fica o indio marfim na grã sanguínea,

Ou purpurêa a rosa entre alvos lirios.
Pregando olhos de amor na casta virgem,
Turno em marte flammeja: «Ó mãe, em summa,
Com tal chôro e preságio não me afflijas,
       70Quando ao cru prelio desço: Turno alçada
Não tem na morte. Nuncio, Idmon, não grato
Leva ao tyranno phrygio esta mensagem:
Da Aurora crástina em puníceo coche
Ao roxear, os batalhões não mova;
       75Armas descanse o Rutulo e o Troiano;
Decida o sangue nosso; em liça aberta
Desputemos Lavinia; e cesse a guerra.»
Dice, e parte; os frisões demanda, e os mira
Dos relinchos alegre: de Orythia
       80Prenda honrosa a Pilumno, sobrepujam
No curso os ventos, no candor a neve;
De aurigas a mão côva os peitos logo
Fagueira trata, as crinas lhes pentêam.
De alvo orichalco e ouro a crespa cota
       85Elle aos hombros circumda, a espada ageita,
O elmo rubri-cornuto, a enorme adarga:
Fez-lhe a espada ao pae Dauno o rei do fogo,
E a temperou candente n’agua estygia.
Do Aurunco Actor espólio, hasta robusta
       90Péga, ao maior pilar do meio fixa,
E a brande a blasonar: «Ó tu, que nunca
Falhaste, lança, he tempo: Actor pojante
Manejou-te, ora Turno; dá que eu prostre
Válido, e arranque ao semiviro Phrygio
       95E lhe espedace a malha, em pó lhe suje
O frisado cabello ungido em myrrha.»
Furente e em sanha, o vulto lhe scintilla,
Em braza ardem-lhe os olhos: como o touro,
Que a lucta ensaia horrífico mugindo,
       100Tentando irar-se, aos troncos remettendo,

A cornadas os ventos desafia,
A arêa escarva, e á briga se aparelha.
Não menos fero nas maternas armas,
Enéas embravece e o marte afila,
       105Folga do ajuste que dirime a guerra.
Lembrando o fado, Iulo e os seus consola
Do susto; ao rei deputa, e lhe assegura
Que acceita a paz e as condições confirma.
Assimque doura o Sol os altos cumes,
       110Quando, ao surgir do pélago, os Ethontes
Luz de amplas ventas sopram; campo á justa
Medindo aprestam Rutulos e Teucros
Sob a grande muralha, e em meio focos
E aras gramíneas ás communs deidades;
       115Parte, agua e lume trazem, de verbena
E véos de linho as fontes coroando.
Pilos na dextra, a legião d’Ausonia
Rue de atulhadas portas; phrygia e tusca
D’alêm instructas variamente as hostes:
       120Como se Marte os chame a duro prelio.
Mnestheu ramo de Assáraco, fulgindo
Em ostro e ouro, entre milhares corre,
E o Neptunio Messapo e o forte Asylas.
Ao sinal, tomam pôsto, as hastas plantam,
       125Encostam seus broquéis. O inerme vulgo,
Avidas mães, enfraquecidos velhos,
Por cumieiras derramam-se e por tôrres,
De janelas e eirados se debruçam.
Do monte, agora Albano, já sem nome,
       130Lustre nem glória, attenta Juno a liça
E os exercitos ambos e Laurento.
Eis falla a deusa á diva irmã de Turno,
A qual, em paga do pudor virgíneo
Que o pae summo roubou-lhe, os resonantes
       135Rios preside e lagos: «Sabes, nympha,

Das ribeiras adôrno, entre as Latinas
Que entraram do meu Jove o leito ingrato,
Só me es cara, e no Olympo colloquei-te.
Teu mal, Juturna, aprende, e não m’o imputes:
       140O Lacio, emquanto aprouve á sorte e ás Parcas,
Hei protegido e a Turno; mas conheço
Que o moço lida com funesto auspício,
E que o termo fatal se lhe approxima.
A briga, o ajuste os olhos meus não soffrem.
       145Se algo ousas pelo irmão, convêm que o faças:
Talvez melhore o fado.» Aqui Juturna
Se lava em pranto, e vezes tres e quatro
A punhadas maltrata o seio lindo.
«Não he tempo de lágrimas, diz Juno;
       150Eia, o irmão de algum modo esquiva á morte,
Ou desmancha tal pacto e a guerra incita:
Esta empresa, eu t’a ordeno.» E a nympha deixa,
A quem tituba o coração dorido.
Com toda a pompa emtanto os rêis sahiram:
       155Em quadriga Latino, em cuja fronte
Brilha um dourado sol de raios doze,
Do avô debuxo; em alva biga Turno,
Que dous hastis sopesa de ancho ferro.
Dos Romuleos o pae do arraial marcha,
       160Fulgurando no escudo e arnez sidéreo,
E Ascanio ao pé, de Roma outra esperança;
Em veste pura, de uma cerda o feto
E intonsa o fecial aduz cordeira
Para as flagrantes aras. Ao nascente
       165Elles virados, salso farro espargem,
Com faca marcam na moleira as hostias,
Libam taças no altar. O pio Enéas
Despindo o alfange, orou: «Testemunhai-me,
Sol, terra por quem tanto hei padecido,
       170Omnipotente soberano padre,

E tu Saturnia déa, já mais branda;
Eu vos depreco; invoco a ti, Mavorte,
Arbitro das batalhas; fontes, rios;
E a vós do mar ceruleo e ethereos numes.
       175Se acaso triumphar o ausonio Turno,
Os vencidos, convenho, a Evandro passem,
Daqui se aparte Iulo; nem com armas
Contra este reino os meus, revéis conspirem:
Se a victória coroa o marte nosso
       180(Como antes cuido, e os deuses m’o concedam),
Eu não pretendo o imperio, e ao Teucro menos
O Italo sujeitar: em laço eterno
Lei justa invictos una os povos ambos.
No culto intervirei; na guerra o sogro:
       185Tenha o solemne mando. A nova Troia
Funde-se, e o nome seu lhe dê Lavinia.»
Enéas finda; e começou Latino,
Seu olhar para cima e a dextra alçando:
«Á terra, Enéas, juro, ao pégo, aos astros,
       190E aos gemeos de Latona e ao deus bifronte,
E ás potencias do abysmo e a Dite sevo;
Juro ao pae que a troar sancciona os pactos,
D’ara ás chammas que toco, aos numes todos,
Que, succeda o que fôr, jamais a Italia
       195A paz ha de romper, nem fôrça alguma
Della me desligar; bem que um diluvio
Nas ondas solva o mundo, o céo no inferno:
Como este sceptro (e o sceptro aqui sacode)
Nunca enverdecerá com sombra e folhas,
       200Pois extirpado, sem têr mãe que o nutra,
Depoz no bosque a ferro a coma e os galhos;
Arvore já, que industre mão de engastes
Ereos ornara aos regios paes latinos.»
Dest’arte as allianças confirmavam,
       205Em presença dos próceres; e as rezes

Degolam para o fogo, e sôbre altares
As entranhas em pratos lhes palpitam.
Muito ha que o duello desigual parece;
E de mais perto os Rutulos em susto
       210Observam como Turno a passo lento,
Livido e mudo o juvenil semblante,
Submissa a vista, as aras acatava.
Ao vêr a irmã Juturna que o murmúrio
Cresce, e desvaira o vacillante vulgo;
       215Fingindo-se Camerte (por avoengos
E paterno valor, por si preclaro),
Semeando rumores corre as filas,
Destra aos Rutulos clama: «Não vos peja
Que por tantos se arrisque uma só vida?
       220Em número e denodo iguaes não somos?
Eil-os presentes Arcades e Troas,
Da Etruria a fatal hoste infensa a Turno:
Cada qual seu contrário apenas temos.
Elle que aos divos se ale, aos quaes se immole,
       225Vivo na voz da fama; e em ócio quedos,
Nós cá, perdida a patria, ao jugo estranho
De suberbos senhores nos rendamos!»
Isto afoguêa os moços; e um sussurro
Pelas turmas serpêa. Já mudados
       230Laurentes e Latinos, que esperavam
Em seguro, a paz rôta e pugnar querem;
Do infortunio de Turno se amiseram.
Mais Juturna os instiga, e um sinal mostra
Que a proposito os animos conturba,
       235Do prodígio embaídos: aguia fulva
No rubro ether caçava um sonoroso
Leve marinho bando; e a vôo ás aguas
Presto resvala, e empolga um cysne bello
Na ávida garra. Os Italos se alentam;
       240E as aves todas, oh portento! a fuga

Ruídosas convertendo, em nuvem densa
Tapando os ares, o inimigo atacam;
Té que, cedendo á fôrça e á mesma carga,
Esmorece, e no rio a grave presa
       245Das unhas larga, e some-se nas auras.
Todos, prestes á lide, o auspício acclamam;
E brada o augur Tolumnio: «Isto, isto, ó numes,
Tanto roguei-vos; o favor acceito.
Comigo, arma, arma, ó gente amedrontada,
       250Quaes fracas aves, pelo atroz vindiço
Que estas praias devasta: elle não tarda
Vélas a dar corrido ao ponto fundo:
Cerrando as filas, defendei comigo
O rei vosso e da justa arrebatai-o.»
       255Dice, e logo um zarguncho infesto arroja;
Os ares frecha o estrídulo corniso:
Soa o alarido; horrífico tumulto
Os cuneos turba, os corações escalda.
A hasta, a voar por entre nove esbeltos
       260Irmãos, que de fiel tyrrhena espôsa
Houve o Arcadio Gylippo, alcança um delles,
De relumbrante arnez gentil mancebo,
Onde o cosido balteo o ventre pisa,
E a mordente fivela une as charneiras;
       265Traspassa as costas e na arena o estira.
Acres, cegos do nojo, os irmãos rompem,
Remêsso ou gladio em punho; os de Laurento
Contra avançam: de novo inundam Phrygios,
E arreiados Arcadios e Agyllinos.
       270Um só do ferro o amor domina em todos.
Saqueam-se aras; tolda os pólos torva
De rojões tempestade e chuva de aço;
Copas tiram, tições: Latino foge,
Da injúria aos deuses, da traição queixoso.
       275Qual emparelha o coche, qual de um salto

Cavalga lesto, qual desnuda a espada.
Messapo, que annular deseja as pazes,
Ao Tusco Auletes em reaes insignias
Remette o bruto: a recuar de espanto,
       280Atrás o triste rei de encontro ás aras,
Cahe de hombros e cabeça. Eis que Messapo
Do alto corsel malfere ao supplicante
Com trabal chuça, e férvido vozêa:
«Morre, esta he melhor víctima aos supremos.»
       285Acode a chusma, e os quentes membros despe.
Chorineu, de um tição do altar pegando,
A Ebuso, que despede e um golpe acena,
Chammêa o rosto: luz comprida a barba,
O chamusco a cheirar. De chofre ás grenhas
       290Deita-lhe a esquerda, mette-lhe o joelho,
Prosta-o sem tino, corre-lhe a estocada.
A Also pastor, que em frente arrosta e campa,
De alfange nu seguindo Poladírio,
O assuberba; Also, erguendo a machadinha,
       295Lhe escacha a testa e o queixo, as armas rega
Dos esparsos miollos: ferreo somno
O urge, e os lumes em noite fecha eterna.
Mas, patente a cabeça, a dextra inerme
Leva, e aos seus brada Enéas: «Suspendei-vos:
       300Que furor, que discordia vos despenha?
Ferido o ajuste, as condições compostas,
Devo eu só pelejar, deixai-me; os pactos,
Não receeis, confirmará meu braço:
Já destinam-me Turno os sacrificios.»
       305Nisto, setta a zunir no heroe se encrava:
Que mão, que impulso a desparou, se ignora;
Se aos Rutulos um deus, se o mero acaso
Tal glória permittiu: suppressa a fama,
Do golpe e arrôjo tal ninguem jactou-se.
       310Turno, ao partir Enéas, vendo os chefes

Consternados, fervente e esperançoso
Pede armas e corséis, no carro salta,
Menêa altivo as redeas. Vôa, immola
Muitos varões de prol, ou semimortos
       315Os roda, ou sob o coche esmaga immensos,
De hastas se apossa que aos fugidos vibra.
Se o truculento Marte no Hebro frio
Pulsa o broquel e incita os corredores,
Elles, bufando pelo plaino livre,
       320Zephyro e Nôto excedem; geme inteira
Ao seu tropel a Thracia; ao nume escoltam
A Ira, a Traição, do Susto o aspecto baço:
Tal em suor fumantes os cavallos
Braceja alegre Turno, e insulta os mortos;
       325Sanguíneo orvalho esparge e vérte a roda,
Na lenta arêa a unha o cruor calca.
Mata a Pholo e Thamyris á mão tente;
A Sthenelo de longe, e a Glauco e Lades
Irmãos, que em Lycia Imbraso pae criara,
       330E igualmente os armou, que a pé combatam,
Ou na equestre corrida as auras vençam.
Lá, do antigo Dolon guerreira prole,
Pompêa Eumedes, imitando em nome
O avô, no esfôrço o pae; que ousara, em paga
       335De ir espiar o acampamento graio,
De Achilles para si pedir o coche:
Mas de outro modo lh’o pagou Tydides;
Elle aos frisões do heroe nem mais aspira.
Turno, avistando na planicie o filho,
       340Joga-lhe um dardo pelos vacuos ares,
Pára, da biga pula, e ao semivivo
Que descahe sobrevem, no collo a planta
Lhe imprime, esbulha-o do punhal fulgente,
Na garganta lh’o tinge, e assim blasona:
       345«Mede jazendo, ó Teucro, o solo hesperio

Que vinhas conquistar: dos que me affrontam
Eis o premio; dest’arte os muros fundem.»
A botes lhe ajuntou Sybaris, Bustes,
Chloreu, Dares, Thersílocho, e Thymetes
       350Que aos trancos o animal da cerviz lança.
Qual, se do Egeu no pégo o Edonio Bóreas
Sopra sonoro e as ondas rola ás praias,
Do céo, por onde vara, espanca as nuvens;
Tal ao fogoso Turno as alas cedem,
       355E fogem batalhões: o impeto o leva,
Batem-lhe o carro as fluctuantes plumas.
Phegeu não lhe supporta o orgulho e sanha;
Ao coche avança, aos rapidos ginetes
Retorce os freios e espumantes queixos.
       360De rôjo e ás bridas preso, em descoberto
O apanha larga chuça, e a coira dobre
Rôta, a cutis lhe prova o golpe leve.
Elle se adarga, e já de estoque em reste,
Vôlto para o inimigo, auxílio pede:
       365Mas o eixo despedido e a roda o impelle,
Cahe por terra; e entre a cota e o casco Turno
Decepa-lhe a cabeça, e troncho o prostra.
Emquanto ufano tudo arrasa e estraga,
Mnestheu e Achates fido e Iulo ás tendas
       370A Enéas acompanham, que sanguento
No conto abordoava os tardos passos.
Raiva a luctar, e o meio quer mais prompto
Com que da haste quebrada a farpa arranque:
Abram de espada, e o golpe dilatando
       375Catem-lhe o ferro, porque á pugna torne.
Era presente o Iasidis Iapis,
Dilecto amigo do extremoso Apollo;
Que ledo as artes suas lhe doara,
O augurio, a musica, as ligeiras settas.
       380Elle, a fim que a seu pae retarde os fados,

Antes inglório conhecer as hervas
E exercer quiz a muda medicina.
N’hasta a bramir Enéas se estribava,
Cercado immovel de tristonhos jovens
       385E de Ascanio a chorar. Peonia a loba
O habil velho traçando, em vão tentêa
E usa as de Phebo virtuosas plantas,
Em vão sonda com geito e prende o ferro
Com tenaz pinça: nem fortuna o serve,
       390Nem seu mestre o soccorre; e mais no campo
Mais cruel medra o horror, mais perto avulta.
Já se ennovela o pó, já se ouvem rinchos,
No arraial chovem dardos; grita immensa
Dos combatentes soa e dos que morrem.
       395Venus, a quem do filho as dôres pungem,
No cressio Ida colheu de flor purpúrea
Dictamo, caule de pubentes folhas;
Não da corça ignorado, se expedita
Frecha ao dorso lhe adhere. Em névoa escura
       400Venus o traz involta: em vaso terso
De agua turva o infundindo, occulta o misto
Ella tempéra, e esparge-lhe os salubres
Succos de ambrosia e odora panacéa.
Inscio o longevo Iapis á ferida
       405O banho applica: logo a dôr se extingue,
O sangue estanca; a setta por si mesma
Já segue a mão; restauram-se-lhe as fôrças.
«Presto, armas ao varão; tardais? primeiro
Grita Iapis e os animos inflamma:
       410Não foi pericia minha ou arte humana
Que, Enéas, te curou; foi celso nume,
Que a façanhas grandiosas te reserva.»
Avido o Phrygio as canneleiras calça,
E as demoras detesta e brande a lança.
       415Depois que enfia o escudo e a cota enverga,

De ponto em branco armado abraça o filho,
Ergue a viseira e o beija: «O vero esfôrço
De mim, Ascanio, aprende e o soffrimento;
De outros, a dita. Agora a dextra minha
       420Vai segurar-te, o que reputo um premio:
Lá na idade madura não te esqueças
Do exemplo dos avós, nem de que houveste
Enéas por teu pae e Heitor por tio.»
Dice, e hasta ingente balançando parte;
       425Das portas após elle turba infinda,
Antheu sahe e Mnestheu; largando os vallos
Flue toda a gente: cego pó se enrola,
E ao pulsar do tropel treme a campanha.
De adverso marachão destingue-os Turno:
       430Gêlo aos d’Ausonia pelos ossos coa.
Primeira entre elles percebeu Juturna
O ruído, e vai-se trépida. Elle a vôo
Traz a atra nuvem pelo aberto plaino.
Quando, em siderea conjunção, borrasca
       435Do mar ronca, os agrícolas presagos
Ai! se arrepiam, que ella estrago e damno
Aos pomares prepara e ás sementeiras;
Sopra o vento, e um sonido ás praias chega:
Tal o chefe rheteu move as esquadras,
       440E em cuneo as cerra e densa. Ao grave Osiris
Fere e trunca Thymbreu, Mnestheu a Archecio,
Achates a Epulon, a Ufente Gyas;
Tomba o augur Tolumnio, o que o primeiro
Vibrou dardo infractor. Os céos atroa
       445Amplo alarido, e aos Rutulos agora
Fuga pulverulenta as costas vólta.
A nenhum dos que fogem, dos que atiram
Distante, ou perto o investem, não se digna
De derribar o heroe: só busca a Turno,
       450Por Turno clama, entre a caligem basta.

A virago Juturna, apavorada,
Por entre os loros a Metisco, auriga
De Turno, ao longe do timão sacode:
Monta, e maneja e dobra undantes bridas;
       455Finge a voz de Metisco e a fórma e as armas.
Qual de rico senhor por tectos e atrios
Fusca andorinha adeja, cata e indaga
Para os gárrulos ninhos o cibato,
E ora por vacuos pórticos, chilreira,
       460Ora por tanques humidos revoa;
Tal a trote Juturna, entre inimigos
Percorre tudo no ligeiro carro,
Do irmão fazendo alardo: á lucta o esquiva,
Por desvios o aparta. Enéas obvio
       465Lesto os rodeios corta, e á pista a vozes
De hostes esparsas pelo meio o chama:
Sempre que a Turno olhos desfere e emúla
O curso dos alípedes cavallos,
Juturna o evade retorcendo o coche.
       470Ah! que obrará? fluctua em varios estos,
E differentes cuidos o arrebatam.
Leve armado, Messapo dous virotes
Na sestra acaso tinha; um vibra e acerta:
Pára, escuda-se o Teucro, e a perna encurva;
       475Mas levou-lhe o farpão cimeira e plumas.
Surgem-lhe as iras; da traição coacto,
Mal sentiu que os frisões e o coche o evitam,
A Jove attesta e as aras violentadas,
Acerbo invade com propício marte,
       480E, sem descrime na fatal matança,
As redeas sólta á colera terrivel.
Qual deus, quem ha, que em verso me declare
Que estragos na campina e mortos cabos
Derramou Turno agora, agora Enéas?
       485E permittis, ó céos, que entre si luctem

Povos que tem de unir-se em laço eterno?
Ao Rutulo Sacron não tardo o Anchíseo
(Pugna que em seu furor deteve os Teucros)
De lado, onde he mais prompta a morte, o ferro
       490Mette, e a caixa do peito e as costas vara.
A Diores e Amyco irmãos desmonta
A pé Turno, um de espada aguda vindo,
Um de hasta longa; e de ambos as cabeças
Talha, e sangue estillando ao coche as prende.
       495O Dardanio a Talon, Cethego, Tánais,
Que investem juntos, mata, e o pobre Onythes,
Nome echionio, de Peridia nado:
Turno, uns irmãos da Lycia, a Phebo cara,
E a Menetes Arcadio, á guerra avesso;
       500Moço em Lerna piscosa afeito ás redes,
Sem dos grandes saber do pae na choça,
Que de renda um campinho semeava.
Como dá sôlto o incendio em sêcca mata
E crepitantes louros; como espumeos
       505Estrepitosos rios despenhados
Com vastadora quéda ao mar caminham:
Taes os dous campeões rutulo e teucro
Se precipitam; já fluctua interna
Raiva; já corações que o não cuidavam
       510Rasgam-se; os golpes desmedidos fervem.
Enéas a Murrano, que arrotava
Lacios avoengos de real prosapia,
Com seixo enorme em turbilhão derriba:
As rodas volvem-no entre o jugo e os loros,
       515E ingratos brutos com patada crebra
Conculcam seu senhor. De Hyllo, que immano
Fremente ameaça, ás temporas douradas
Contorce Turno um dardo, que pelo elmo
No cerebro se encaixa. Não o evitas,
       520Creteu, valente Graio. Nem de Enéas

A Cupenco seus deuses resguardaram:
De encontro o peito ao ferro, ah! nada embarga
O ereo broquel. Tambem laurentes agros
Viram-te, Eolo, vasto chão cobrindo:
       525Morres tu, que as phalanges não poderam
Grajugenas prostrar, nem do priâmeo
Reino o eversor Achilles: no Ida excelsas,
Excelsas casas em Lyrnesso tinhas;
Tens a méta em Laurento e a sepultura.
       530Tudo he baralha, os Teucros, os Latinos,
Briga tudo; Mnestheu, Seresto bravo,
E o picador Messapo e o duro Asylas,
Alas de Evandro e batalhões toscanos:
Com summo esfôrço cada qual porfia;
       535Larga, incessante, encrua-se a batalha.
Aqui Venus formosa inspira ao filho
Que assalte os muros, e a Laurento oppressa
Com mortandade subita consterne.
Elle, que, a Turno investigando, os lumes
       540Deita em redor, quieta e impune avista
A perfida muralha; e em marte acceso
Traça plano maior. Mnestheu, Sergesto,
Seresto forte chama; e n’um outeiro,
Onde reune os seus de escudo e lança,
       545Do alto brada: «Obedeçam-me de prompto;
Jupiter he por nós, executai-me
Não frouxos o repente. Hoje a cidade,
Causa do mal, e de Latino os reinos,
Se o freio me refusam não submissos,
       550Destruo, assolo os tectos fumegantes.
Esperarei que a Turno já vencido
A justa apraza? Da nefanda guerra
Eis, cidadãos, a summa, eis o remate:
Sus, reclame-se o pacto a ferro e fogo.»
       555Dice; e, formando em cuneo a densa mole,

Ataca os muros. A escalada, o incendio
Cresce: uns ás portas, retalhando os guardas,
A discorrer; o alfange a esgrimir outros;
O ar de tiros se obumbra. Entre os primeiros
       560No muro Enéas mesmo a dextra ferra;
Grita e accusa a Latino; os céos attesta
Que á batalha he forçado, que hostilmente
Os de Italia o aggrediram duas vezes,
Duas tambem ás convenções faltaram.
       565Dentro lavra a discordia: espavoridos
Uns abrir ao Troiano as portas querem,
E ao muro o mesmo rei comsigo arrastam;
Armam-se outros e insistem na defensa.
Tal, se na cresta o latebroso pomes
       570O rustico enche de vapor amargo,
Trépido errando o enxame em cereos vallos
Zumbe, a colera aguça: olor nos tectos
Forte recende, um murmurinho cego
No ouco soa, e no ar se engloba o fumo.
       575Mais quebranta os Latinos um desastre,
Que a cidade revolve e em lucto abala:
Vendo a raínha do inimigo a entrada,
Pelas casas o incendio, e que nem Turno
Comparece nem rutula phalange,
       580Morto o mancebo no conflicto julga,
E em turbida agonia a triste clama
Que de mal tanto e crime he fonte e causa;
Vocifera sem tento, e furibunda
Rasga o manto púrpureo, e atando um laço,
       585De alta viga pendeu com morte informe.
Corre a fatal notícia: as roseas faces
A filha dilacera e as flavas tranças;
Mestas em tôrno as damas esbravejam;
O pranto a régia estruge. Divulgada
       590A cruel fama, os corações prosterna:

A cidade em ruína, a espôsa extincta,
Latino attonito espedaça as vestes,
E as cãs em pó denigre enxovalhadas;
Muito se accusa de não têr a Enéas
       595De grado recebido e acceito genro.
Remoto o bellaz Turno, menos lesto,
Já dos frouxos cavallos descontente,
Persegue uns trasmalhados: eis que as auras
Trazem-lhe terror cego e vozeria,
       600E os ouvidos attentos lá percebem
Murmuro desalegre e som confuso:
«Ai! que rumor tamanho[2], lucto quanto
Rue dos oppostos perturbados muros?»
Dice, e as bridas retem, sem tino estaca.
       605Mas a irmã, que em Metisco disfarçada
Regía o coche, lhe tornou: «Sigamos
A via, Turno, que a victória indica;
Braços ha na cidade que a defendam.
Se ataca Enéas e atropela os nossos,
       610Com fero estrago os seus tambem rendamos:
Não te irás inferior na glória e feitos.»
Turno: «Irmã, respondeu, muito ha conheço;
Es tu que arteira, desmanchando o ajuste,
Na acção te ingeres: não me enganas, deusa.
       615Quem te enviou do Olympo a tantas lidas?
Vens do irmão assistir ao cru trespasso?
Que resta? que inda espero da fortuna?
Ante os meus olhos, só por mim chamando,
Murrano acaba, o meu melhor amigo,
       620De atroz ferida; o caro Ufente expira,
Por não testemunhar a affronta nossa:
Possue-lhe o corpo e as armas o inimigo.
Soffrerei, duro transe! os tectos rasos,
Sem que a Drances refute a dextra minha?
       625Vêr-me o Lacio dar costas! fugir Turno!

Pois morrer tanto custa? Vós ó manes,
Já que os céos me aborrecem, protegei-me:
Alma insonte e sem mancha, á Estyge baixo,
Dos meus grandes avós não terei pejo.»
       630Nisto, Saces no espúmeo alado bruto
Entre as filas hostis, frechada a cara
Mostrando, implora a Turno: «Es nosso amparo,
Turno; dos teus ha dó. Fulgúreo Enéas
De exicio ameaça as fortalezas nossas;
       635Já voam fachos. Em ti só fitamos
Os olhos, Turno, em ti: na escolha mesmo
De genro ou de alliança el-rei tituba;
E a raínha fiel, desesperada,
Suicidou-se a final. Messapo e Atinas
       640Sustentam sós ás portas o conflicto;
Ferrea hirta messe, densa turba os cérca:
Tu no deserto prado o coche rodas!»
Turno, ao se afigurar tam varios casos,
Tacito e quedo embaça; lucto, insania,
       645Vergonha, amor, estuam-lhe no peito,
Furias e o conscio brio. Assimque as trevas
Dissipa e a mente acalma, conturbado
A vista em braza revirando aos muros,
Do seu carro contempla a gran’cidade.
       650Eis que um vortice flammeo, ao céo montando,
Ondêa entre os soalhos de uma tôrre,
Que elle erguera de traves bem compactas
Com rodas e altas pontes. «Não me estorves;
O fado vence, irmã: já já corramos
       655Onde elle e um deus nos chama. Com Enéas
Braço a braço, a tragar a morte acerba
Disposto, irmã, não me verás sem honra:
Ah! deixa-me antes em furor cevar-me.»
Dice, e do carro apêa: entre armas e hostes,
       660Largando a irmã chorosa, pelo meio

Dos Teucros rompe com veloz carreira.
Qual, se por furacão do monte a penha
Róla avulsa, ou das chuvas aluída,
Ou por vetustos annos solapada,
       665De pricipicio em pricipicio aos tombos,
Selvas no impeto arrasta, armentos, homens;
Tal, com vasta ruína, aos muros Turno
Se despenha, onde o sangue alaga a terra
E de espessos farpões os ares zunem.
       670Acena e grita: «Ao ferro dai, Latinos,
Tregoas, e ao dardo ó Rutulos: a sorte
Qualquer que fôr, he justo que o tratado
Eu por vós desempenhe e só peleje.»
Todos se arredam, largo espaço abrindo.
       675Seu nome ouvido, accelerado Enéas
As fortalezas desampara; as obras
Interrompe de chofre, alegre exulta,
E horrendo em armas toa: o Athos, o Eryx,
Mesmo o Apennino padre, assim bramindo
       680Folga, e azinhos balança coruscantes,
E altêa ás auras o nivoso cume.
Phrygios, Latinos, quantos as muralhas
Frangiam com vaivens ou propugnavam,
Os olhos convergindo, o arnez dos hombros
       685Lassos depõem. Do encontro o rei pasmava
De heroes que, nados em distantes plagas,
Entre si valorosos combatiam.
Vazio o campo, á desfilada, lanças
De longe elles vibrando, o marte encetam,
       690E ereos broquéis resoam, geme a terra:
Crebros talhos de espadas já redobram;
Ardil, valor, fortuna, se confundem.
Se no celso Taburno ou Sila immensa
Dous touros fronte a fronte hostis concorrem,
       695Os maioraes se assustam; mudo o gado,

Surdo as novilhas tugem, sem que atinem
Qual, dono da manada, ao bosque sigam;
Luctam renhidos enganchando os cornos,
Mesclam-se os golpes; muito sangue inunda
       700Collos e espadoas; brama a selva e muge:
Dos heroes Teucro e Daunio assim retinnem
Broquéis e cotas, e o fragor rimbomba.
Ouro e fio a balança, os fados de ambos
Jove nas conchas libra, examinando
       705Quem na lide succumba e vergue ao pêso.
Turno então, ferir crendo impune, esgrime,
Com todo o corpo sôbre o gladio cresce;
De susto um e outro campo exclama attento:
Mas a perfida folha estala e falha;
       710E ao vêr, sem mais recurso o moço ardente,
Ignota empunhadura e a dextra inerme,
Como Euro foge. He voz que, ao primo assalto
Montando o coche, em vez do patrio ferro,
Do auriga arrebatou sem tino a espada:
       715Ella bastara a dispersar os Teucros;
Mas, á prova das armas de Vulcano,
Se desfez como gêlo o mortal gume,
E em pedaços brilhou na fulva arêa.
Turno deita veloz pela campina,
       720E mentecapto aqui e alli voltêa:
Lá fecham-no em coroa os Phrygios densos,
Arduos muros alêm, cá vasto lago.
Acre Enéas o acossa, e bem que ás vezes
Lhe impeça e aggrave os joelhos a frechada,
       725Urge ao medroso o pé com pé fervente:
Qual, se em rio o sabujo encontra o cervo
Incluso, ou do espantalho de punícea
Penna acuado, late e o corre e caça;
Da ribanceira e insídia espavorido,
       730Safa-se elle, anda e vira; o vívido umbro

Hiante o alcança, quasi quasi o aferra,
E, como se o pegara, os queixos range,
E a vã dentada o illude; a grita e os ladros
Retumbam na lagôa e em tôrno ás ribas,
       735Toa ao tumulto o céo. Na fuga Turno
Exprobra e os seus nomêa, exige e pede
A nota lamina. O rival commina
Morte, se alguem lhe acode, o estrago e exício
Da cidade, e ferido insta, amedronta.
       740Cinco vezes gyrando e regyrando,
Leves premios de jogos não pleitêam;
Da vida e sangue trata-se de Turno.
Sacro a Fauno, um zambujo havia acaso
De amara folha, aos nautas veneravel;
       745Onde o náufrago os dons pregar sohia
Aos deus, e as vestes suspender votivas:
Porque em plano combatam, sem descrime
A arvore santa os Phrygios extirparam.
A hasta Enéas impelle, que ás raizes
       750Se lhe apega tenaz: quiz arrancal-a
Com summo afinco e despedil-a a Turno,
A quem chegar a curso não podia.
Este louco de medo: «Ha mágoa, ó Fauno;
Retem a lança. eu te oro, amiga Tellus:
       755Sempre honrei vosso culto, e a guerra eneia
Profanado vos tem.» Não foi baldia
Sua oração; que sôbre o tronco o Phrygio
Curvo labuta, e não lhe vale o esfôrço
Do lenho a desfechar o morso rijo.
       760Emquanto mais se estriba e insiste, a diva
Daunia, em fórma do auriga, o irmão soccorre,
Dá-lhe a espada. A ousadia irríta a Venus,
Que baixa e da raiz despega a lança.
Refeitos de armas, de ânimo sublimes,
       765Este afouto no gladio, aquelle n’ hasta,

Do anhêlo Marte no lidar proseguem.
Emtanto o rei supremo a Juno falla,
Que de uma nuvem roxa observa a pugna:
«Que resta, espôsa, e traças? Tu confessas,
       770Deve indígite Enéas, manda o fado
Séde no Olympo têr, subir aos astros.
Que urdes? que esperas em geladas nuvens?
A um deus violar convem com mortal golpe?
Render a Turno a espada (o que ousaria
       775Sem ti Juturna?) e acorçoar vencidos!
Basta, cede ao meu rôgo: não te roa
Tacito enfado; a revelar-me o peito
A tua doce bôca se acostume.
Veio o termo: agitaste o mar e a terra,
       780A discordia incendeste, em lucto infando
Invôlta a régia, as nupcias perturbaste:
Não mais, agora o vedo.» Cessa o padre;
E submissa contesta a irmã Saturnia:
«Teu querer conhecendo, eu constrangida
       785Abandonei, senhor, a Turno e o mundo;
Senão, curtindo ultrages, não me viras
Neste ar sózinha, mas na acção, de flammas
Cingida, em prelios consumindo os Phrygios.
Sim, a ajudar o irmão suadi Juturna;
       790Louvei que por salval-o ousasse tudo,
Mas não que de arco e settas contendesse:
Da implacavel Estyge á fonte appello,
Jura tremenda aos superiores numes.
Desisto alfim; batalhas já me enojam.
       795Favor obsecro não sujeito aos fados,
Pede-o Italia e dos teus a majestade:
Casamentos embora a paz componham,
E leis o pacto assellem; não permittas
Que os Latinos indígenas, perdido
       800O antigo nome, Teucros se appellidem,

Nem mudem lingua e trajo. Eterno viva
O Lacio, os rêis Albanos; herde Roma
O italico valor, propague e brilhe:
Troia acabou, tambem seu nome acabe.»
       805Surrindo o arbitro summo: «Irmã, lhe torna,
Segunda prole de Saturno, de iras
Estos volves no peito? O rancor cego,
Eia, amaina: de grado e ás preces tuas
Tudo concedo. Falla e usanças patrias
       810A Ausonia guarde, o nome seu conserve:
Consorciados fiquem-se os Troianos;
Farei que, em rito iguaes e em sacrificios,
Formando um povo, a mesma lingua tenham.
Virão do misto sangue ausonio e teucro
       815Homens pios que aos deuses se avantagem;
Nem haverá nação que te honre tanto.»
Juno eis annúe alegre, a mente aplaca;
Do ether já se retira e a nuvem deixa.
Outra cousa então Jove em si versando,
       820Resolve separar do irmão Juturna.
Ha duas pestes, por cognome Diras,
De um parto vindas com Megera estygia
Da escura Noite, que as liou de serpes
E azas lhes deu ventosas. Ante o solio
       825De Jove sevo e ao limiar assistem,
E o medo afilam dos mortaes, se alquando
Morbos elle prepara e o trago horrendo,
Ou pune as gentes com terrivel guerra.
Jupiter uma lá de cima expede,
       830Que ominosa a Juturna se offereça.
Ella, n’um turbilhão, qual frecha voa,
Que despara o cydonio ou partho nervo;
Arma incuravel que no fel untada
E cru veneno, alígera estrugindo,
       835Improvisa atravessa as leves sombras.

Desce a filha da Noite: e, mal que enxerga
Os exercitos ambos, no pequeno
Passaro contrahiu-se que a deshoras,
Pousando em cemiterios e ermas grimpas,
       840Cruja importuno e lugubre nas trevas:
De Turno em cêrco a peste assim revoa,
Guincha aleando, e lhe verbera o escudo.
Turpor novo o arripia, hirto o cabello,
Tronca a voz na garganta. A irmã, que ao longe
       845Distingue a Dira e as estridentes pennas,
As madeixas lacera, de unhas rasga
E afeia o rosto, e o seio com punhadas:
«Como ha-de agora, Turno, a irmã valer-te?
Ai! que me resta que te alongue a vida?
       850Posso a tal monstro oppôr-me? Eu deixo o campo
Já já. Não me aterreis, obscenas aves;
O som letal e esse adejar conheço;
Não me enganam de Jove as duras ordens.
Paga-me generoso a virgindade!
       855Fez-me eterna? oh pezar! se eu mortal fôsse,
Os desgostos findava, e aos tristes manes
Iria acompanhar o irmão querido.
Nada jamais sem ti me será doce,
Nada, meu Turno. Um boqueirão me engula,
       860E em seu profundo centro abysme a deusa.»
Cobre a cabeça então com verde manto,
E gemebunda se sumiu no pégo.
O troço arbóreo coruscando Enéas,
Insta com feroz peito: «Que demoras,
       865Turno? arrependes? não correr, mas cumpre
Luctar com sevas armas. Várias fórmas
Toma, usa embora todo o esfôrço e manha;
Sobe de surto aos astros, ou te occultes
Nas terreaes entranhas.» Abanando
       870Elle a fronte: «Esses feros não me assustam;

Jupiter sim e os inimigos deuses.»
Nem mais, e encara antiga pedra enorme,
Agrario marco, estôrvo de litigios;
Pedra, carga bastante aos mais robustos
       875Doze homens dos que a nossa idade cria:
Com tremor agarrando-a, heroe se empina
E na corrida a impelle; mas ignora
Se anda ou corre, se péga o ingente marco,
Se o move e arroja: faltam-lhe os joelhos,
       880Coalha o sangue. No vácuo roda a pedra,
E, sem que o termo alcance, o impulso esfria.
Como em sonhos, se languida modorra
Nos preme os olhos, ávida carreira
Tentando em vão, no meio esmorecidos
       885Succumbimos; a lingua e a voz nos falha,
Falham no corpo as fôrças: tal, por onde
Seu valor Turno ensaia, o impede a Furia.
Cem cuidos versa: os Rutulos contempla,
Olha a cidade; enfia, e da imminente
       890Lança estremece, de evadir-se o meio
Nem contra seu rival já vê recurso,
Nem mais a auriga irmã, nem mais seu carro.
Em quanto hesita, o lanço Enéas mede,
A hasta vibra fatal, forceja e sólta:
       895Nunca assim fremem do mural trabuco
Jogadas rochas, nem trovão rebrama:
Qual furacão letífera voando,
Da cota as orlas e os extremos orbes
Do septêmplice escudo a estrugir fura,
       900E a coxa lhe traspassa. Ao bote o moço,
Inflexa a curva, tomba; os seus altêam
Mesto clamor; remuge inteiro o monte,
E na selva o lamento amplo reboa.
Turno olha humilde, súpplice ergue a dextra:
       905«Bem mereço, he teu jus, perdão não peço;

Mas, se de um pae (de Anchises te relembres)
Commove-te a velhice, a Dauno eu rógo
Me entregues, senão vivo, ao menos morto.
Venceste, e viu-me emfim a Italia toda
       910As palmas levantar: Lavinia he tua;
Os odios não requintes.» O acre Enéas
Pára, os olhos voltêa, a mão reprime:
Iam-no as preces quasi enternecendo,
Quando o infeliz talim se mostra ao hombro
       915E a cravação do cingidouro fulge,
Despojos de Pallante, a quem menino
Prostrara Turno com letal fereza,
E essa devisa infesta em si trazia.
Da cruel dôr no monumento os olhos
       920Mal embebe, enfuriado o heroe vozêa:
«Que! tu me escaparás dos meus com presa!...
Nesta ferida immola-te Pallante,
Pallante vinga-se em teu impio sangue.»[3]
No peito aqui lhe esconde o iroso ferro:
       925Gêlo os orgãos lhe solve, e n’um gemido
A alma indignada se afundou nas sombras




NotasEditar

  1. No original, não há aspas nesse lugar.
  2. Temanho no texto original; erro tipográfico corrigido na segunda edição.
  3. No original, esta fala de Enéias vem sem aspas tanto no início como no fim.
Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Notas ao Livro XII


NOTAS AO LIVRO XII.

Aqui he onde mais se usa do maravilhoso. Censura-se o quasi descanso dos deuses: Jupiter já não abala o Olympo; Juno já não suscita as borrascas, nem invoca as divindades infernaes. Mas, conforme Delille, he isto antes motivo de louvor que de vituperio: o que ha de mais potente se eclipsa ante a glória do chefe troiano; e a situação dos dous povos, o furor de Turno, a coragem do rival, offerecem majestade mais grave do que as máchinas epicas empregadas na occasião. Nada realça tanto o brilho de Enéas, como o represental-o apoderando-se das vontades celestes, e forçando a propria Juno a recorrer a um ardil, não para expulsar da Italia os Troianos, mas para salvar o seu protegido. «A surpresa e admiração, diz Segrais, sam frequentes. A fortuna, sempre voluvel, não cessa de entretêr a esperança e o temor. Fez-se a paz; he rôta por um agouro; peleja-se, vencem os Troianos; he ferido Enéas, sam repellidos os seus até aos arraiaes; Venus cura ao filho milagrosamente; o heroe levanta a coragem dos guerreiros; não podendo obrigar ao duello, vai assaltar a cidade; emfim Turno he constrangido a vir ás mãos. Cheia de incidentes a lucta, imprevisto sempre o desfecho, de contínuo cremos lá chegar, e novas circumstancias tendem a retardal-o." 383-440. — 368-423. — He ferido o heroe por mão desconhecida, e deixa vêr o poeta que foi pela deusa Juturna: nenhum mortal poude jactar-se de o haver feito. Cura-o Iapis, em quem Virgilio, por gratidão, representa Antonio Musa, seu médico e de Horacio e de Augusto; mas o médico tudo conseguiu com o soccorro de Venus. He nobilissima a impaciencia do heroe, que pede lhe arranquem o ferro, usem do meio mais prompto para tornar ao combate; e mal se opéra a cura, ainda coxeando da frechada, veste as armas, abraça e beija o filho, dizendo o que se lê na traducção, do verso 417-423. Aqui ha uma imitação de Homero, mas com a differença requerida pelas circumstancias. Mr. Nisard acha Homero muito superior: eu acho que ambos sam optimos, bem que diversos os quadros. Heitor beija a Astianaz, que se espanta da horrida crista do capacete; aos deuses o consagra, e lhes pede que um dia aquelle filho exceda a bravura paterna, e contando morto o seu inimigo, venha a ser o júbilo de sua mãe: he bella e sublime a despedida, e nunca foi o grande poeta assim pathetico, a não ser nas scenas passadas entre Achilles e Priamo depois da morte de Heitor.
Enéas, que fallava a um adolescente e não a uma criança, não podia servir-se de iguaes imagens; mas da coragem com que soffreu as dôres da operação, tira exemplo com que anime a Ascanio, a fim que se recorde sempre que o teve por pae e a Heitor por tio. Cada um dos dous genios igualmente soube aproveitar a situação. He por certo mais pathetico o lugar de Homero, porque o assumpto o ajudava; não foi porêm mais habil que o seu discipulo e êmulo.

681. — 665. — Enéas busca a Turno pelo campo, sem querer ferir os que lhe fogem, nem os que o arrostam; só quer o duello: vendo comtudo que Turno o evita, e que já um farpão de Messapo lhe tinha levado a cimeira e as plumas, se resolve a pelejar. O poeta retardou com arte o duello, para que os rivaes ainda assinalassem o seu indomado valor. Enéas, por inspiração de Venus, traça plano maior, ataca os muros de Laurento, depois de protestos solemnes. A raínha, ao vêr a entrada do inimigo, dando a Turno por morto no conflicto, suicida-se; o que mal sabe Turno, apezar das preces da irmã, corre a travar-se com Enéas. — O que se segue he admiravel; mas só direi dos versos 760 e 761, na traducção 737 e 738. Tem Mr. Amar que Segrais se acha embaraçado para justificar a Enéas de cobardia, por não têr consentido que substituissem a Turno a espada que se lhe quebrara. Aindaque não approvo que se collocasse o heroe na precisão de ser justificado, a pecha de cobardia não lhe cabe jamais; pois, não obstante haver Juturna trazido outra espada ao irmão, este não deixou de ser vencido e morto. Enéas tinha visto os pactos rotos já duas vezes, pelos capitães de mais nomeada que restavam a Turno, Tolumnio e Messapo; temeu que, a titulo de trazerem a nova espada, se introduzissem na liça dous ou mais campiões, que unidos a Turno, por si tam formidavel, o atacassem conjuntamente, a elle que não estava de todo são, nem com as suas fôrças e costumada ligeireza: sendo então o partido mui desigual, a perfidia podia fazel-o succumbir; e o chefe dos Troianos, cujo fim não era mostrar valentia, mas estabelecer os seus compatriotas, tinha a obrigação de prevenir os perigos.

O desfecho por um duello he como o da Iliada; mas Virgilio, vendo que a acção em Homero tinha enfraquecido com a continuação do poema por causa dos funeraes de Heitor, e vendo ao mesmo tempo que a pintura dos funeraes em si mesma era do mais bello effeito; imitando se houve com um tal gôsto que equivale ao menos á invenção: descreveu atrás os funeraes de Pallante com toques só proprios do seu pincel; e acaba a Eneida pelo duello, nada accrescentando ao dramatico deste remate.

«A Eneida, conclue Mr. Amar, he sem réplica uma admiravel obra de poesia, e uma das mais bellas de Homero, segundo se tem dito; mas, como epopéa, deixa infinitamente que desejar, quanto
ao plano, á disposição, e sôbre tudo ao caracter principal..... Um sabio moderno, L. A. Bartenstein, professor em Cobourg, vai mais longe: foram, no seu conceito, os louvores prodigalisados a Augusto e a seu govêrno que determinaram Virgilio moribundo a pedir que queimassem a Eneida; o que explicaria o afôgo do principe em a conservar.» Eu aqui não creio em Mr. Amar, nem em Bartenstein. Não sei como o primeiro acha infinitamente que desejar na Eneida: o que he infinitamente defeituoso não pode ser uma das melhores obras de Homero: he rebaixar em demasia o poeta grego, ou desconhecer a fôrça dos vocabulos. A hypothese de Bartenstein he mais uma das inumeraveis que não tem solida base: Virgilio queria queimar a sua obra só pela razão que os seculos tem acceitado, pela imperfeição do estilo mórmente dos ultimos seis livros. Bartenstein, como he mania de não poucos dos seus, gostava de ser o padre Hardouin, de aventurar conjecturas; e esta sua he derribada pelo poeta, que, no mesmo testamento onde mandava queimar a Eneida, levou a Augusto a quarta de seus bens. — Em vez de ser infinitamente defeituoso o caracter de Enéas, admira como poude Virgilio com tam feliz exito combinar tantas qualidades e virtudes, sem contradicção nem desparate nas acções, descontado o sacrificio de homens no túmulo de Pallante, que na superstição daquelles tempos barbaros tem a sua descarga. O heroe de Virgilio he um de Homero, afeiçoado e moldado na conformidade das idéas progressivas do genero humano.