Angélica e Firmino/IV

Vêem-se no gabinete de Firmino os baús e malas de viagem, livros no chão, uma grande lata cilíndrica, o estojo de ferros e um saco de tapete. A mesa limpa de papéis, tudo anunciando viagem.

Cena IEditar

DONA CLARA e CÂNDIDA

CÂNDIDA (Com uma bandeja de roupa engomada) – Aonde botarei, minha mãe?

DONA CLARA – Aqui encima desta mesa. Está esta casa como num dia de mudança. Não se vêem senão baús pelo meio da casa. Aquela terrível ação do Gustavo tem apressado Firmino de tal maneira que não dormiu, e assim mesmo, com o braço doente, trabalhou toda a noite. Eu creio que ele não tinha tenção de o ferir.

CÂNDIDA – Também eu. Foi uma coisa tão repentina! Firmino não diz nada, Gustavo fugiu na besta do pajem de meu tio Adolfo, que estava na porta, meu pai ainda não veio, de maneira que nada sabemos.

DONA CLARA – Não importa. É uma ação negra a de Gustavo, e não lhe vejo motivo nenhum.

CÂNDIDA – Como vai ficar esta casa triste! Nós vamos para a roça com Angélica, Firmino teima e mais que teima em embarcar. Olhe, minha mãe, se não fosse ter vivido aqui com este meu primo, e estar isto já sabido em casa, não me casava com ele.

DONA CLARA – Que estás dizendo, menina?!

CÂNDIDA – Homem com vontade de ferro, que não muda ainda mesmo doente! Ao menos o mano Gustavo não é assim. Nos mo­mentos de bom humor cede a tudo, principalmente se a gente lhe diz que ele é bonito. Faz tudo quanto se lhe pede. Minha mãe, vamos ao menos a este último baile dos estrangeiros, somente por despedida.

DONA CLARA – Não tens pejo de pensar assim? Não vês como estamos todos, como está esta casa?!

CÂNDIDA – É porque tenho medo [de] que este meu vestido do seda da Índia fique mofado, ou que mude a moda durante o tempo [em] que estivermos na roça. Meu Deus, que vida triste vou eu passar, e lá então! De noite só se ouvem os grilos e sapos, tudo está calado, e bom é ainda que meu tio me dispensa de rezar o terço.

DONA CLARA – Sinto-me velha, sinto definhar-se-me a existência, como se uma lanceta me rasgasse as veias. E no meio de tantas tribulações, no meio de tantas dores, sou obrigada a ouvir os teus disparates, essa tua falta de sensibilidade. O que Deus deu demais a tua irmã, podia dar-te a ti.

CÂNDIDA – Deus me livre de ter o gênio dela, andar triste por qualquer coisa e nunca ajuntar um vintém!...

DONA CLARA – Vamos arranjar o que é nosso, porque o que não for, havemos de passar sem ele.

Cena IIEditar

FIRMINO, DONA CLARA e CÂNDIDA

DONA CLARA – Então, como estás, Firmino? Vais melhor do teu braço? Meu filho... desculpa aquele louco. São rapaziadas, são os maus conselhos de uma certa roda com quem anda metido. Mas como começou esta coisa, que eu nada entendo?

FIRMINO – Não é nada, minha tia. A ferida não foi profunda. Ficarei uns quinze dias privado de certos usos do braço, mas na viagem cobrarei o perdido. O ar é puro e sadio. Já falei ao doutor Anselmo para vir substituir-me em minha ausência. É um grande prático, um homem que faria honra à medicina em qualquer parte do mundo.

CÂNDIDA – Aquele jarreta, que parece um velho quando vai aos bailes?

FIRMINO – O hábito não faz o monge. Não segue a moda dos alfaiates, mas segue a dos filósofos; não anda corrente com os ca­beleireiros, mas anda em dia com a ciência. É dos que lêem tudo quanto se escreve hoje e dos que não desprezam os livros de letra vermelha.

CÂNDIDA – Ele mesmo parece um alfarrábio.

FIRMINO – Não há alfarrábio mais velho que a natureza, e no entanto todos os dias ela nos descobre coisas novas. Assim são os velhos mestres, e com uma única diferença: que dizem muito em poucas palavras.

DONA CLARA – Aquele homem tem um ar sério, uma fisionomia de quem anda sempre ocupado. Já tenho ouvido falar muito bem dele, e dizem que escrevera na França.

FIRMINO – Uma obra que o imortalizou.

DONA CLARA – E aqui tem ele escrito alguma coisa?

FIRMINO – Muitíssimo, e é num grande livro onde lança todas as suas receitas e despesas. Por mais talentos que tenha um homem, não pode escrever sobre aturados estudos quando tem vinte e duas bocas em casa e é obrigado a estar na rua todas as horas do dia.

DONA CLARA – Não estejas tão sério, Firmino, porque isso me entristece, e não venhas aumentar mais as minhas aflições. Perdoa, perdoa, por quem és, pelo amor e amizade que te temos, aquela doidice de Gustavo. Teu tio está inconsolável. Saiu e ainda não voltou.

FIRMINO – Nem disso me quero lembrar, é uma coisa passageira. Tenho outras idéias que me perseguem. Há dias aziagos, há dias em que a fivela do cilício dos maus pressentimentos aperta o coração e parece que uma mão do inferno se levanta para esmagar o homem. Estou triste, não sei por quê... Tenho necessidade de ar, de sair, de afastar-me do mundo por algum tempo... Preciso de repouso.

CÂNDIDA – Tudo isso são saudades encapadas.

DONA CLARA – E por que, meu filho? Tu sabes que eu sou tua amiga.

FIRMINO – Aí vem meu tio, quero fugir da sua presença.

DONA CLARA – Não, senhor; mando que fique.

Cena IIIEditar

FIRMINO, ANTÔNIO, DONA CLARA e CÂNDIDA

ANTÔNIO – Estou suando em bicas. Gustavo foi para a chácara, e assim que soube que eu lá ia fugiu e meteu-se pelo mato dentro. Mandei-o chamar e não o acharam. Creio que o rapaz ficou intimidado e veio-me com esta mentira.

DONA CLARA – E o feitor, o que disse?

ANTÔNIO – Oh, doutor, como está? Não faça caso daquele doido, que eu o vingarei. O feitor disse-me que chegara muito agitado, que escrevera esta carta e mais outra que não tinha acabado, a qual estava toda rasgada.

DONA CLARA – E depois?

ANTÔNIO – Depois cheguei eu.

DONA CLARA – Aonde está a carta, e para quem é?

ANTÔNIO – Aqui a tem, doutor. Eu não abro cartas alheias. Veja­mos o que diz esse doido.

DONA CLARA – Há de lhe pedir perdão.

FIRMINO – Guardai-a, senhor; eu não aceito.

ANTÔNIO – Se ela me não pertence...

FIRMINO – Já sei o que ela diz: ou uma declamação estulta, algumas vociferações, ou pede desculpa do atentado e revela um segredo que só ele e eu sabemos.

ANTÔNIO – Mais um motivo para eu não abri-la.

DONA CLARA – Pois eu abro-a, dê cá.

ANTÔNIO – Não, senhora. Uma carta é sagrada. Só podem abri-la ou o dono, ou o seu procurador autorizado por ele.

FIRMINO – Pois sejais vós, meu tio, o meu procurador.

DONA CLARA – E agora?

ANTÔNIO – Estou ainda muito agitado. Tenho de ir ao escritório, tenho de pensar em coisas que demandam muito sossego e não quero mais agitar-me. Guardo-a para depois.

DONA CLARA – Como se pode guardar na algibeira uma carta destas?

ANTÔNIO – Não vamos a perder tempo. A condução está pronta, as senhoras arranjam o que é seu, porque Firmino deve voltar e a barca do sul sai nestes três dias.

DONA CLARA – Vamos, vamos, Cândida. E o senhor, só logo de­pois dos seus negócios é que há de abrir essa carta?

ANTÔNIO – Sim, senhora, e do conteúdo a farei ciente. Anda, vai trabalhar.

Cena IVEditar

FIRMINO e DONA CLARA

DONA CLARA – Que segredo é o que contém aquela carta? Ou é uma desculpa que inventaste para com teu tio?

FIRMINO – Se ele o não escreveu, não devo dizê-lo. Talvez nela venha o uso de todos os vaidosos, que nunca reconhecem os seus erros e situam a causa principal fora da questão.

DONA CLARA – Tanto um como o outro são fechaduras de patente.

Cena VEditar

FIRMINO

[FIRMINO] – Ainda três dias de martírio, ainda três dias de espera. Sinto-me acabrunhado, a atmosfera me comprime, não posso respirar. Sinto a toga de Satanás pesar-me sobre os membros e todos os suplícios de Dante, quando penso na minha horrível situação. Em vão me debato contra as ataduras que me cingem... Como um vil escravo, sinto a existência arrastar-se! Uma poeira sulfúrica me resseca os lábios... Quão perto do riso está a lágrima, quão perto da vida existe a morte! Fatalidade maldita! Como, como poderei nutrir um fogo sagrado com lágrimas de sangue? O amor se despertou em minha alma como uma febre perniciosa. Esse astro que brilha nos céus e se reflete no inferno, esse néctar que embriaga o olfato e envenena o paladar... esse raio que me alumina e me despedaça... semelhante ao trovão da madrugada, com estampido horrendo sobressalteou minha alma, roubou-lhe o sono angélico da paz e, do trono do heroísmo, me precipitou no pavimento da infâmia, aonde me debato como um cão envenenado! Mísera Angélica... mísero de mim! Ambos entoamos o hino da desgraça na hora do nascimento, e hoje entoamos a nossa nênia de morte. Ambos inocentes e ambos condenados a um castigo eterno. Decerto que este mundo é para os maus... para os insensíveis. Mísero daquele a quem a natureza estampou na fronte o nobre selo do engenho e da grandeza d’alma! Mísero daquele a quem o anjo da virtude insuflou no peito o ósculo sagrado, e que o não limpou com a primeira lágrima da vida, e que o não repeliu como um demônio empestado... Doce Angélica, brilhante sílfide, cujos pés mimosos espalham o perfume da virtude. Anjo de bondade, que se libra entre os aromas mais puros que há nos céus. Harpa do santuário, que infunde amor e veneração com sua sagrada melodia... Não, Deus não há de permitir esta infernal anomalia. O astro da virtude tem seu centro no meio dos céus e sua órbita de amor se há de completar, ainda que seja na escuridão da eternidade.

Cena VIEditar

FIRMINO e ARNAUD

ARNAUD – Doutor, meu amigo velho, que tem que está tão triste? FIRMINO – Não tenho nada. Vós por aqui é novidade!

ARNAUD – Nenhuma. Vinha visitar-vos e entregar-vos esta carta de ordens que meu amo vos manda.

FIRMINO – E aonde está ele agora?

ARNAUD – No escritório. Já que vos acho tão sério, e que não podemos brincar como de ordinário, nem nos lembrarmos da França.

FIRMINO – Bastante me tenho lembrado hoje dela.

ARNAUD – E eu, meu amigo, não vivo agora. Tenho umas saudades que me fazem doido, estou como uma fera a quem roubaram os filhos. Eu morro se não volto já; não sabia que as saudades da pátria podiam tanto sobre o homem.

FIRMINO – É o que nós chamamos nostalgia. Tem conseqüências funestas.

ARNAUD – Neste caso, meu amigo do coração, ajude-me a fazer um dos maiores sacrifícios que posso fazer. Salve a minha vida, porque eu morro se fico mais um mês no Brasil. Estes calores me matam, o trabalho da casa de seu tio é muito grande e, apesar de toda a minha amizade e gratidão, de todos os respeitos que devo à vossa ilustre família, não quero morrer aqui. Quero que meus ossos descansem em terra de França.

FIRMINO – Louvo muito vossos patrióticos sentimentos, mas re­provo uma ação, apesar de não ter ampla explicação, que é o esquecimento total de minha prima Angélica, a quem vós mesmo pedistes a mão de esposa.

ARNAUD – Ah, meu Deus, como sou desgraçado! Até o maior dos meus amigos, o meu segundo pai, me condena e não quer compreender meu coração inocente.

FIRMINO – Se sois inocente e homem de honra, nunca podereis deslustrar o nobre sangue de vossos maiores, nem praticar ações que desmintam o filho de um marechal, de um cavalheiro francês.

ARNAUD – Mas é isso mesmo. É uma ação heróica a que vos quero propor, e pedir-vos que me ajudeis, se não, eu morro. Dizei-­me sinceramente se sois meu amigo, se desejais a minha felicidade.

FIRMINO – Creio que até hoje em nada me tenho desmentido.

ARNAUD – Pois, se sois meu amigo, por que não me ajudais? Eu contava com o vosso amparo, olhava para vós como o único lenitivo à minha dor, e queria que partisse de vossa mão o bálsamo sagrado para as chagas de um coração que não pode mais viver nesta terra.

FIRMINO – E Angélica?

ARNAUD – Não falemos de Angélica, que é bela, rica, prendada e a quem não faltarão adoradores, e seus compatriotas. Tratemos de um desgraçado... Doutor... por quem sois, valei-me, eu não posso mais viver assim.

FIRMINO – Arnaud!

ARNAUD – Meu amigo!

FIRMINO – Deixemo-nos de subterfúgios, deixemo-nos de hipocrisias.

ARNAUD – Subterfúgios convosco, meu amigo! Arnaud hipócrita, eu! Eu, que tenho sido até agora o símbolo da franqueza e trago nos lábios o retrato do coração!

FIRMINO – A revolução da França vos abre uma nova carreira. A queda de vossos inimigos vos facilita a reconquista de uma glória perdida. Todos os laços antigos, todas as prisões do coração estão quebradas pela ambição. Eis o que leio nas vossas palavras, eis o que denuncia o vosso coração.

ARNAUD – Que justiça, meu amigo! Que sugestões funestas a uma alma tranqüila. Todo esse aparato não cabe no meu peito. Dizei antes que me não quereis valer, que me abandonais a mais cruel desventura e respondei, como um verdadeiro amigo: “Não te quero ajudar, Arnaud, não quero promover a tua felicidade, não te quero salvar desse abismo horrível.”

FIRMINO – Pois dizei o que quereis, mas sem refolhos.

ARNAUD – Eu não tenho refolhos, meu amigo. Queria que pedísseis com muita instância a vosso tio que me desligasse de uma promessa irrefletida, que me despedisse de sua casa, que me maltratasse mesmo. É um grande obséquio, é a minha salvação. Dou-vos licença para falardes mal de mim, dizei o que vos parecer. A tudo me submeto, tudo aceito como favor, porque quero-me ir embora.

FIRMINO – Arnaud, o homem que me propõe semelhante manejo não deve ter medo de ir a meu tio e dizer-lhe: “Senhor Antônio, meu amo, eu rompo o contrato, não posso mais casar com sua filha, tenho outras ambições, quero voltar à minha pátria...” Isto é menos infame, é muito mais heróico do que a vossa proposição. Arnaud, riscai-me do livro de vossos amigos eternamente e deixai-me em paz. Se tendes ambições, desde já vos profetizo uma derrota completa. Não é num país nobre por tantos títulos, por tantos séculos de glória, que se faz carreira com uma alma como a vossa. Esse povo heróico, esse gigante que se levantou em massa e derribou do trono o cetro do fanatismo vos repudia como um filho espúrio, como um empestado sem esperança de vida.

ARNAUD (À parte) – Quem te dera mil punhais! (Para Firmino) Que injustiça, meu amigo! Enfim... não tenho amparo sobre a terra. Doutor, o meu cavalheirismo, a minha incomparável gratidão me faz[em] calar. Tudo sofrerei, porque a gratidão pode mais que tudo.

FIRMINO – Vá a meu tio.

ARNAUD – Já tive uma pequena explicação com ele, que nada temesse, que... enfim, eu me casaria, e mais outras coisas. Mas eu não me abri com ele. Desejava que tudo partisse da vossa mão, como mais seguro e mais pronto.

FIRMINO – Não vejo claro. Este vosso manejo me oculta alguma ação infame. Arnaud, eu leio em vossos olhos uma traição qual­quer. Na ordem natural sois uma anomalia.

Cena VIIEditar

FIRMINO, ARNAUD e ANTÔNIO

ARNAUD – O respeito e a gratidão unicamente me fazem calar. Bastantes provas tenho dado do meu cavalheirismo! (Quer ir-se)

ANTÔNIO – Esperai, Arnaud.

ARNAUD – Tenho de mandar apresentar aquelas letras, e eu mesmo queria ir descontar aqueles bilhetes do Tesouro.

ANTÔNIO – Já providenciei tudo. Não há crime mais horrível do que a ingratidão!... Dizei-me uma coisa, Firmino, que castigo merece um homem que atropela todos os seus mais sagrados deveres, que com a mais refinada hipocrisia engana os anjos e lança no seio de uma família a desconfiança, a desunião e quase que a desonra?

ARNAUD – Senhor Firmino, que boa ocasião! Lance tudo para cima de mim...

FIRMINO – O desprezo, e entregá-lo aos seus remorsos.

ANTÔNIO – E quando seu coração se acha já tão empedernido, tão insensível que não sente a voz da natureza e despreza todos os dogmas da moral eterna?...

FIRMINO – É preciso puni-lo.

ANTÔNIO – Mas que punição pode dar um pai de família, um homem honrado, conhecido de todo o mundo e que sabe perfeita­mente que a menor publicidade das cenas do sacrário doméstico redunda em seu desabono, em sua própria desonra?! Dizei-me que castigo merece o falso e traiçoeiro ladrão, que vem roubar a paz, a honra e a vida de uma família honesta, que sabe perfeitamente, por já tê-lo calculado, que os pais são obrigados a gemer em silêncio, que ao esposo é necessário lançar tais crimes num sumidouro, viver com alegria emprestada no semblante, chorar dentro de sua casa sobre as ruínas de sua honra, de sua felicidade, e tragar dia e noite num cálix de amargura eterna?!

FIRMINO – Quem com ferro fere com ferro é ferido. Aquele que nos quer roubar a paz, que nos atraiçoa covardemente... é um homem inútil no mundo. Uma traição paga-se com outra. A felicidade é a vida.

ANTÔNIO – Eu não sou nenhum assassino. (Espanto de Firmino. Pausa)

FIRMINO – Que escuto! Mas o que é isso, meu tio? Que desgraça é essa? Quem ousa à luz do dia desonrar-vos? Dizei-me se há mais alguém... O vosso sangue é o meu, a vossa família é a minha e o meu braço sabe vingar afrontas... talvez... entre nós esteja...

ANTÔNIO – O novo Judas... um outro Judas capaz de vender o divino mestre. (Levanta-se, lança uns olhos coléricos sobre Firmino, vai para Arnaud e aperta-lhe a mão com efusão de amigo)

ARNAUD (Com muita humildade e baixo para Antônio) – Senhor, vós me prometestes segredo. Vossa palavra de honra não pode di­vulgar um segredo que ele, Gustavo e eu só sabemos neste mundo.

ANTÔNIO – E como desmascarar a impostura? Como rasgar o manto da hipocrisia? Ah!... um segredo... um segredo... agora me lembra... (Tira a carta da algibeira)

ARNAUD – Por piedade, senhor, por piedade... Eu faço o maior de todos os sacrifícios do mundo, deponho a minha amizade, a minha gratidão. Enterro eu mesmo o punhal no meu coração. Fujo... fujo, senhor, e deixo a vossa casa em paz... deixai-me fugir... e nunca mais, nunca mais... perturbar com a minha presença... Sejam todos felizes... seja eu só o infeliz...

Cena VIIIEditar

FIRMINO, ANTÔNIO, ARNAUD e DONA CLARA

ANTÔNIO – Aqui está o desfecho do nó górdio, a espada de Alexan­dre e a luz do inferno que vai tudo esclarecer. (Lê a carta para si, olha furioso para Firmino e fica como uma estátua olhando para o chão)

DONA CLARA – Esta casa parece que está mal-assombrada. Vejo todas as fisionomias como num funeral. O que é isto, senhor Antônio? O que é isto, Firmino? Acaso Gustavo... Meu Deus, eu perco a cabeça... O que é que há? Digam, pelo amor de Deus. O coração me bate e parece que quer saltar fora do peito.

ANTÔNIO – É o inferno que se abriu para tragar-me na velhice... Fui eu mesmo que nutri a serpente que me havia de envenenar... Fui eu mesmo que levantei o muro que me havia de esmagar... e o que preparou esse vaso de infâmia que me havia de tingir as cãs e que há de derramar o resto na minha sepultura. (Para Firmino) Lede esta carta.

ARNAUD – Senhor, eu devo parecer muito culpado aos vossos olhos, aos olhos de todo o mundo. O ferro que me lanha o coração abre feridas profundíssimas. Não as posso mostrar todas à face do dia, deixai-me fugir, regressar para a minha pátria... A duas mil léguas de distância, não posso perturbar a felicidade de ninguém... (Baixo a Antônio) A vossa palavra de honra é sagrada. Eu conto com ela, e não me comprometa...

ANTÔNIO – Gemer em silêncio é gemer no inferno.

DONA CLARA – Acabe-se com isto!!

FIRMINO (Depois de ter lido a carta com sangue frio) – Minha tia, chame Angélica e Cândida. Esta carta supre Gustavo. Nas grandes crises do coração só há um tribunal, e é o conselho de família. Reunidos todos, a verdade há de aparecer.

DONA CLARA – Já (Chega à porta) Angélica, Cândida... olá... chamem minhas filhas. (Grande silêncio)

Cena IXEditar

FIRMINO, ANTÔNIO, ARNAUD, DONA CLARA, ANGÉLICA e CÂNDIDA

DONA CLARA – Aqui estamos todos. Senhor Antônio, pertence-­lhe, como chefe da família, esta inquirição.

FIRMINO – Aqui tem a carta de Gustavo.

ANTÔNIO – Arnaud, meu amigo, lede esta carta... e tende pena de mim.

ARNAUD (Depois de ler) – Está rompido o segredo, senhor Antônio, esta carta de seu nobre filho e meu amigo veio aclarar tudo. Eu seria um homem sem... não quero ofender a quem tanto devo... Sou cavalheiro. O meu contrato de casamento com a senhora dona Angélica está roto, e um homem de bem não tem outro partido que tomar senão o de ausentar-se eternamente. Meus benfeitores e amigos parto para a França no primeiro paquete. (Quer ir-se)

ANGÉLICA (Sai-lhe ao encontro e tira-lhe a carta da mão) – Esperai, senhor, que um contrato não se rompe sem o consentimento de ambas as partes.

ANTÔNIO (Para Arnaud) – Homem de honra, a vossa memória será eterna no meu coração. Antônio José da Silva não é capaz de deixar um amigo lutar com a miséria... o meu braço, o braço de um amigo lá encontrareis na pátria. É quase uma restituição que vos faço. Vós me ajudastes a ganhá-lo; pois bem, participai dele. O pão do amigo, do verdadeiro e honrado amigo, é também dos seus fiéis amigos.

ANGÉLICA – Senhor Arnaud, que motivo vos impele a desprezar a minha mão?

ARNAUD – Eu nunca disse uma palavra contra Vossa Senhoria, antes sempre a respeitei muitíssimo e nunca pude crer...

ANGÉLICA – Acreditar o quê!? Que motivo tendes para romper este contrato?

ARNAUD – Esta carta... eu não quero dizer nem supor mal, porém... Se meus olhos me não enganam, Vossa Senhoria não sente simpatia por mim, e demais... coisas que tenho observado... tenho chorado muito, muito me tenho apaixonado... mas esta carta?

ANGÉLICA – Esta carta nada diz.

ARNAUD – Mas diz muito a vossa frialdade para comigo, e mais... e mais... o que está claro nessas palavras do senhor Gustavo...

ANTÔNIO – Gustavo, Gustavo, meu nobre filho! A honra palpita em teu peito com todo o vigor da mocidade, com todo o heroísmo de teu pai... Tu não desmentes o nobre sangue dos Silvas e podes aparecer radioso à face do mundo.

FIRMINO – Senhor, há muito que observo vossa alma pelos vos­sos gestos. Se me atirais uma seta envenenada por algum traidor por algum hipócrita, lembrai-vos que a natureza não desmente em um só dia a obra de tantos anos.

ANTÔNIO – Poupai-me a vossa presença. Há muito que deveríes estar confundido no meio desta cena lutuosa, de que sois a causa. Ingrato! (Muito alto) Ingrato, mil vezes ingrato... (Grande espanto e grande silêncio)

DONA CLARA – Que ouço, meu Deus!

CÂNDIDA – O que é que há? O que é isto?!

ANGÉLICA (Ajoelhando-se aos pés do pai) – Meu pai, meu pai...

ANTÔNIO – Levanta-te, desgraçada.

DONA CLARA – O que é isto? O que quer dizer tudo isto?

ANGÉLICA (Levantando-se) – Desgraçada! Desgraçada?! Sim eu sou uma desgraçada na terra, uma vítima sem igual... (Caminha para Arnaud) Eis o verdugo de minha vida, o hipócrita maior que há no mundo, o homem mais infame que o inferno vomitou sobre a terra, satanás encarnado. O demônio da imoralidade, o vampiro funesto que urde fatalidades e talha a mortalha de suas vítimas dentro das cavernas do seu coração, que é uma pedra. Desgraçado mundo em que vivemos! O dia em que se descobre um hipócrita é uma dia de festividade nos céus, um dia de triunfo na terra. Mas aqui só eu te conheço, miserável, que assim pagas a minha generosidade e compaixão.

ARNAUD – Minha senhora, eu nunca disse nada.

ANGÉLICA – E podereis vós dizê-lo?! Amaldiçoado homem! E a terra não se abre para engolir um monstro?!

ARNAUD – Vós amais o senhor Firmino, e muito que o amais! Rompa-se tudo. Um cavalheiro como eu, um homem de honra, um homem de sentimentos nobres, não podia tolerar tais cenas e ser arrastado a uma união... apesar de toda a minha generosidade e gratidão.

FIRMINO (Atira-lhe com uma luva na face. Arnaud treme, quer segurar na luva e ela cai) – Escolhei as armas, lugar e hora. Não tenho testemunhas.

ANTÔNIO – Sim, Arnaud o meu fiel amigo, foi quem me descobriu tudo, foi quem desmascarou o hipócrita e que me mostrou o fio da trama mais infernal que há no mundo: a fugida de Angélica.

FIRMINO – De vida e de morte! (Para Arnaud) Mandaremos abrir uma sepultura e um de nós ali ficará eternamente.

ARNAUD – Aceito, mas não quero abusar da vossa fraqueza. Esperarei que o vosso braço tome vigor, esperarei todo o tempo que for necessário. Sabeis que sou um gentil-homem e que ainda não se extinguiram no meu peito as idéias que recebi e que fazem o meu orgulho. Sei quanto sois destro nas armas, conheço vossa coragem e por isso não quero combater com um braço enfermo e exprobrar-me eternamente uma vitória sem louros e sem honra.

FIRMINO – Filho de um nobre país, dessa terra clássica de heroísmo e de glória, ainda ousais profanar o nome sagrado de vos­sa augusta pátria e conspurcá-lo com os andrajos de vossa infâmia? Se a mínima das virtudes de um país clássico de fastos gigantescos, de honra e de cavalheirismo existisse em vossa alma... nunca, nunca procederíeis de tal maneira...

ANTÔNIO – Um duelo! Um duelo em minha casa?!

ARNAUD – Basta de insultos, senhor Firmino, as nossas armas darão razão. Eu esperarei.

FIRMINO – Não, não, vós não sois filho de um homem tão grande, de um general a quem a história e o mundo venerará a memória. Vós sois um filho espúrio, o fruto de um adultério, de um cri­me... Em vossas veias gira o fogo do inferno em vez de sangue, e o vosso berço não foi embalado pelas virtudes de uma terra clássica... Uma harpia vos amamentou e o gênio de Mafistófeles dirigiu o vosso coração.

ANTÔNIO – Silêncio em minha casa.

DONA CLARA – Será isto sonho?! Isto não pode ser.

ANTÔNIO – É necessário uma vítima à vossa cólera. É necessário que no holocausto de vossa vingança corra o sangue da inocência...

ANGÉLICA – Meu pai, meu pai...

ANTÔNIO – Poupai-me a vossa presença. Senhora, mande chamar Gustavo, que venha receber nos braços de seu pai o prêmio de seu nobre caráter. E vós, senhor doutor Firmino, tendes vinte e quatro horas para dispor vossa mobília e livros. Este quarto deve, de ora em diante, ser habitado por Gustavo e não quero ninguém de estranho em minha casa.

DONA CLARA – Senhor, o que fazeis?! Respeitai a boca do mundo... Firmino... não alegais uma palavra em vossa defesa! Como uma estátua de mármore contemplais toda esta cena de desgraças e ao menos... ao menos... Eu não ouso acusar-vos, parece-me tudo isto impossível, não olhais para vosso tio... tratai de abrandá-lo e de desfazer toda esta urdidura infernal. Meu Deus, que tormentos!

ANGÉLICA – Firmino, meu pai, minha irmã, e vós, senhor Arnaud... que conheceis minha inocência, escutai-me todos. Esta carta de meu irmão, escrita por um alucinado, escrita pela mão que levantou um punhal para o homem mais honrado que há na terra, nada contém contra mim ou contra a minha honra. Eu a leio: “Senhor Firmino; se levantei um punhal para vos ferir foi levado pela justíssima cólera que me abrasava o coração. Vós feristes a minha honra, a de toda a minha família, no ponto mais delicado que pode haver para um ódio eterno. Publicando (vós bem o sabeis...) esse ato de vossa covardia, qual seria o fim de tão negra ação senão a vossa perda? Hipócrita concertado, por um frio cálculo, prossegui vossa carreira, perturbai nossa harmonia, mas envergonhai-vos daquele que vos há de substituir no seio dessa casa, que um dia será chefe para se vingar... e, se sois homem de bem, emendai vosso erro, corrigi a vossa obra, não por mim, mas por meu pai que vos educou, por minha mãe que tanto vos estima e, sobretudo, por minha desgraça­da irmã. Gustavo.” Nesta carta não há nada de claro, nada de positivo.

ANTÔNIO – Cala-te, audaciosa, e não venhas mascarar a tua imprudência, o crime de tuas intenções, com uma afetada franqueza.

CÂNDIDA (À parte) – Não era debalde que eu tinha minhas sus­peitas. Por Firmino meto a mão no fogo, mas ela?...

FIRMINO – Meu tio e minha tia, meus benfeitores e amigos, eu quero justificar-me. Um coração generoso...

ANTÔNIO – Generoso?!

FIRMINO – Generoso como a amizade, grande como o universo e sensível como a gratidão... (Vai para Antônio e ajoelha-se) É a inocência que se curva a vossos pés. Ouvi-me, por piedade, ouvi o desentrecho de uma trama infernal, contemplai o desmoronamento da obra mais infame que concertara Satanás... (Quer pegar na mão de Antônio; ele recua e aponta para a porta. Angélica corre a abraçar-se com seu pai; ele a empurra)

ANTÔNIO – Vinte e quatro horas. Isto é que é ser generoso. (Para Arnaud) Vamos, fiel amigo. Vinte e quatro horas. (Grande silêncio. Angélica corre a abraçar Cândida, esta a repele, e ela lança-se nos braços de dona Clara, que a recebe com ternura, e choram ambas)

Cena XEditar

FIRMINO, DONA CLARA e ANGÉLICA

FIRMINO – Meu pobre tio, como está enganado! Como o monstro lhe soube maniatar as mãos e alucinar-lhe a razão!

DONA CLARA – Firmino, ao menos desculpai-vos para comigo... Eu te amo tanto!... Acho um não-sei-quê de incompleto neste dra­ma, vejo uma lacuna, um vácuo na marcha do processo de teu tio, uma precipitação que não posso definir! Que mão oculta preparou este enredo terrível e colocou teu tio numa posição tão estranha?!

ANGÉLICA – A mão da hipocrisia, minha mãe, que por entre as trevas da noite sabe roubar o veneno das cobras para lançá-lo no coração da inocência. Mas tudo isto se desvanecerá e a verdade há de aparecer luminosa como o sol, pura como a virtude e... e talvez sem remédio para tanto mal. Quando o cadáver de Angélica lentamente fizer o último trânsito entre brandões e os cânticos dos sacerdotes, e o sino da torre com sua voz medonha escrever seu nome na lista dos mortos...

DONA CLARA – Minha filha... Angélica, não me mates, que idéias são essas? Eu creio na tua virtude e cuido que tudo isto passará...

ANGÉLICA – Passará, decerto, mas tarde. Do que serve a verdade sentada sobre um túmulo?! Uma lição tão pequena, no centro de uma família, não aproveita à humanidade. Os fatos estrondosos da história não corrigem os homens, quanto mais cenas na escuridão do recanto de uma casa.

FIRMINO – Sim, minha querida tia, minha cara mãe. Tudo passará. O vento infernal que sublevou toda esta nuvem há de parar, e a verdade, a inocência, resplandecerão com todo o brilho de sua glória. Um grande filósofo disse que o tempo é médico tardio, mas cura radicalmente todas as moléstias. Arnaud é o gênio da devastação, é Satanás no seio dos homens. Deus não deixará impune semelhante atentado. Banharei o meu braço no seu sangue, e com o sangue desse miserável hei de lavar a mancha que intentou lançar-me sua perfídia.

Cena XIEditar

FIRMINO, ADOLFO, DONA CLARA e CÂNDIDA

ADOLFO – Parabéns, parabéns, tudo vai a contento. Os eleitores são quase todos do nosso lado e o senhor doutor Firmino é o mais votado na freguesia!! Mas que é isto?! Que lágrimas são estas? Ah agora me lembra... É porque Arnaud saiu de casa e já lá se vai...

FIRMINO – Como? Já saiu desta casa?...

ADOLFO – E lá vai em passo de galope. Há muito que ele andava doido, e eu já sabia que era plano velho. Não tinha aqui nem mesmo roupa para muda. Tudo estava fora, e creio que sairá amanhã no paquete.

FIRMINO – Não pode ser. Não tem passaporte, não foi anuncia­do, não pode fugir.

ADOLFO – Com nome suposto, com passaporte falso. Há tantos meios... Por que, por que é essa fúria?!

FIRMINO – Covarde! Hei de embarcar-me com ele, melhor, e logo que ponha pé em terra me vingarei. A um homem como eu um covarde, ainda que se vá esconder no inferno, nunca escapará. Para que lado foi ele?

ADOLFO – Que intentas? Foi para baixo, pela rua do Cano.

FIRMINO – Justiça do céu, valei-me... (Pega no chapéu e sai. Angélica dá um gemido horrível e Adolfo fica estupefato) Fim do quarto ato